Livro dos Provérbios

Livro dos Provérbios

 Capítulo 1

1. Provérbios de Salomão, filho de Davi, rei de Israel,
2. para conhecer a sabedoria e a instrução, para compreender as palavras sensatas,
3. para adquirir as lições do bom senso, da justiça, da eqüidade e da retidão;
4. para dar aos simples o discernimento, ao adolescente a ciência e a reflexão.
5. Que o sábio escute, e aumentará seu saber, e o homem inteligente adquirirá prudência
6. para compreender os provérbios, as alegorias, as máximas dos sábios e seus enigmas.
7. O temor do Senhor é o princípio da sabedoria. Os insensatos desprezam a sabedoria e a instrução.
8. Ouve, meu filho, a instrução de teu pai: não desprezes o ensinamento de tua mãe.
9. Isto será, pois, um diadema de graça para tua cabeça e um colar para teu pescoço.
10. Meu filho, se pecadores te quiserem seduzir, não consintas;
11. se te disserem: Vem conosco, faremos emboscadas, para (derramar) sangue, armaremos ciladas ao inocente, sem motivo,
12. como a região dos mortos devoremo-lo vivo, inteiro, como aquele que desce à cova.
13. Nós acharemos toda a sorte de coisas preciosas, nós encheremos nossas casas de despojos.
14. Tu desfrutarás tua parte conosco, uma só será a bolsa comum de todos nós!
15. Oh, não andes com eles, afasta teus passos de suas sendas,
16. porque seus passos se dirigem para o mal, e se apressam a derramar sangue.
17. Debalde se lança a rede diante daquele que tem asas.
18. Eles mesmos armam emboscadas contra seu próprio sangue e se enganam a si mesmos.
19. Tal é a sorte de todo homem ávido de riqueza: arrebata a vida àquele que a detém.
20. A Sabedoria clama nas ruas, eleva sua voz na praça,
21. clama nas esquinas da encruzilhada, à entrada das portas da cidade ela faz ouvir sua voz: e até quando os que zombam se comprazerão na zombaria?
22. Até quando, insensatos, amareis a tolice, e os tolos odiarão a ciência?
23. Convertei-vos às minhas admoestações, espalharei sobre vós o meu espírito, ensinar-vos-ei minhas palavras.
24. Uma vez que recusastes o meu chamado e ninguém prestou atenção quando estendi a mão,
25. uma vez que negligenciastes todos os meus conselhos e não destes ouvidos às minhas admoestações,
26. também eu me rirei do vosso infortúnio e zombarei, quando vos sobrevier um terror,
27. quando vier sobre vós um pânico, como furacão; quando se abater sobre vós a calamidade, como a tempestade; e quando caírem sobre vós tribulação e angústia.
28. Então me chamarão, mas não responderei; procurar-me-ão, mas não atenderei.
29. Porque detestam a ciência sem lhe antepor o temor do Senhor,
30. porque repelem meus conselhos com desprezo às minhas exortações;
31. comerão do fruto dos seus erros e se saciarão com seus planos,
32. porque a apostasia dos tolos os mata e o desleixo dos insensatos os perde.
33. Aquele que me escuta, porém, habitará com segurança, viverá tranqüilo, sem recear dano algum.

 
Capítulo 2

1. Meu filho, se acolheres minhas palavras e guardares com carinho meus preceitos,
2. ouvindo com atenção a sabedoria e inclinando teu coração para o entendimento;
3. se tu apelares à penetração, se invocares a inteligência,
4. buscando-a como se procura a prata; se a pesquisares como um tesouro,
5. então compreenderás o temor do Senhor, e descobrirás o conhecimento de Deus,
6. porque o Senhor é quem dá a sabedoria, e de sua boca é que procedem a ciência e a prudência.
7. Ele reserva para os retos a salvação e é um escudo para os que caminham com integridade;
8. protege as sendas da retidão e guarda o caminho de seus fiéis.
9. Então compreenderás a justiça e a eqüidade, a retidão e todos os caminhos que conduzem ao bem.
10. Quando a sabedoria penetrar em teu coração e o saber deleitar a tua alma,
11. a reflexão velará sobre ti, amparar-te-á a razão,
12. para preservar-te do mau caminho, do homem de conversas tortuosas
13. que abandona o caminho reto para percorrer caminhos tenebrosos;
14. que se compraz em praticar o mal e se alegra com a maldade;
15. do homem cujos caminhos são tortuosos e os trilhos sinuosos.
16. Ela te preservará da mulher alheia, da estranha que emprega palavras lisonjeiras,
17. que abandona o esposo de sua juventude e se esquece da aliança de seu Deus.
18. Sua casa declina para a morte, seu caminho leva aos lugares sombrios;
19. não retornam os que a buscam, nem encontram as veredas da vida.
20. Assim tu caminharás pela estrada dos bons e seguirás as pegadas dos justos,
21. porque os homens retos habitarão a terra, e os homens íntegros nela permanecerão,
22. enquanto os maus serão arrancados da terra e os pérfidos dela serão exterminados.

 
Capítulo 3

1. Meu filho, não te esqueças de meu ensinamento e guarda meus preceitos em teu coração
2. porque, com longos dias e anos de vida, assegurar-te-ão eles a felicidade.
3. Oxalá a bondade e a fidelidade não se afastem de ti! Ata-as ao teu pescoço, grava-as em teu coração!
4. Assim obterás graça e reputação aos olhos de Deus e dos homens.
5. Que teu coração deposite toda a sua confiança no Senhor! Não te firmes em tua própria sabedoria!
6. Sejam quais forem os teus caminhos, pensa nele, e ele aplainará tuas sendas.
7. Não sejas sábio aos teus próprios olhos, teme o Senhor e afasta-te do mal.
8. Isto será saúde para teu corpo e refrigério para teus ossos.
9. Honra o Senhor com teus haveres, e com as primícias de todas as tuas colheitas.
10. Então, teus celeiros se abarrotarão de trigo e teus lagares transbordarão de vinho.
11. Meu filho, não desprezes a correção do Senhor, nem te espantes de que ele te repreenda,
12. porque o Senhor castiga aquele a quem ama, e pune o filho a quem muito estima.
13. Feliz do homem que encontrou a sabedoria, daquele que adquiriu a inteligência,
14. porque mais vale este lucro que o da prata, e o fruto que se obtém é melhor que o fino ouro.
15. Ela é mais preciosa que as pérolas, jóia alguma a pode igualar.
16. Na mão direita ela sustenta uma longa vida; na esquerda, riqueza e glória.
17. Seus caminhos estão semeados de delícias. Suas veredas são pacíficas.
18. É uma árvore de vida para aqueles que lançarem mãos dela. Quem a ela se apega é um homem feliz.
19. Foi pela sabedoria que o Senhor criou a terra, foi com inteligência que ele formou os céus.
20. Foi pela ciência que se fenderam os abismos, por ela as nuvens destilam o orvalho.
21. Meu filho, guarda a sabedoria e a reflexão, não as percas de vista.
22. Elas serão a vida de tua alma e um adorno para teu pescoço.
23. Então caminharás com segurança, sem que o teu pé tropece.
24. Se te deitares, não terás medo. Uma vez deitado, teu sono será doce.
25. Não terás a recear nem terrores repentinos, nem a tempestade que cai sobre os ímpios,
26. porque o Senhor é tua segurança e preservará teu pé de toda cilada.
27. Não negues um benefício a quem o solicita, quando está em teu poder conceder-lho.
28. Não digas ao teu próximo: Vai, volta depois! Eu te darei amanhã, quando dispões de meios.
29. Não maquines o mal contra teu vizinho, quando ele habita com toda a confiança perto de ti.
30. Não litigues com alguém sem ter motivo, se esse alguém não te fez mal algum.
31. Não invejes o homem violento, nem adotes o seu procedimento,
32. porque o Senhor detesta o que procede mal, mas reserva sua intimidade para os homens retos.
33. Sobre a casa do ímpio pesa a maldição divina, a bênção do Senhor repousa sobre a habitação do justo.
34. Se ele escarnece dos zombadores, concede a graça aos humildes.
35. A glória será o prêmio do sábio, a ignomínia será a herança dos insensatos.

 
Capítulo 4

1. Ouvi, filhos meus, a instrução de um pai; sede atentos, para adquirir a inteligência,
2. porque é sã a doutrina que eu vos dou; não abandoneis o meu ensino.
3. Fui um (verdadeiro) filho para meu pai, terno e amado junto de minha mãe.
4. Deu-me ele este conselho: Que teu coração retenha minhas palavras; guarda meus preceitos e viverás.
5. Adquire sabedoria, adquire perspicácia, não te esqueças de nada, não te desvies de meus conselhos.
6. Não abandones a sabedoria, ela te guardará; ama-a, ela te protegerá.
7. Eis o princípio da sabedoria: adquire a sabedoria. Adquire a inteligência em troca de tudo o que possuis.
8. Tem-na em grande estima, ela te exaltará, glorificar-te-á quando a abraçares,
9. colocará sobre tua fronte uma graciosa coroa, outorgar-te-á um magnífico diadema.
10. Ouve, meu filho, recebe minhas palavras e se multiplicarão os anos de tua vida.
11. É o caminho da sabedoria que te mostro, é pela senda da retidão que eu te guiarei.
12. Se nela caminhares, teus passos não serão dificultosos; se correres, não tropeçarás.
13. Aferra-te à instrução, não a soltes, guarda-a, porque ela é tua vida.
14. Na estrada dos ímpios não te embrenhes, não sigas pelo caminho dos maus.
15. Evita-o, não passes por ele, desvia-te e toma outro,
16. Porque eles não dormiriam sem antes haverem praticado o mal, não conciliariam o sono se não tivessem feito cair alguém,
17. tanto mais que a maldade é o pão que comem e a violência, o vinho que bebem.
18. Mas a vereda dos justos é como a aurora, cujo brilho cresce até o dia pleno.
19. A estrada dos iníquos é tenebrosa, não percebem aquilo em que hão de tropeçar.
20. Meu filho, ouve as minhas palavras, inclina teu ouvido aos meus discursos.
21. Que eles não se afastem dos teus olhos, conserva-os no íntimo do teu coração,
22. pois são vida para aqueles que os encontram, saúde para todo corpo.
23. Guarda teu coração acima de todas as outras coisas, porque dele brotam todas as fontes da vida.
24. Preserva tua boca da malignidade, longe de teus lábios a falsidade!
25. Que teus olhos vejam de frente e que tua vista perceba o que há diante de ti!
26. Examina o caminho onde colocas os pés e que sejam sempre retos!
27. Não te desvies nem para a direita nem para a esquerda, e retira teu pé do mal.

 
Capítulo 5

1. Meu filho, atende à minha sabedoria, presta atenção à minha razão,
2. a fim de conservares o sentido das coisas e guardares a ciência em teus lábios.
3. Porque os lábios da mulher alheia destilam o mel; seu paladar é mais oleoso que o azeite.
4. No fim, porém, é amarga como o absinto, aguda como a espada de dois gumes.
5. Seus pés se encaminham para a morte, seus passos atingem a região dos mortos.
6. Longe de andarem pela vereda da vida, seus passos se extraviam, sem saber para onde.
7. Escutai-me, pois, meus filhos, não vos aparteis das palavras de minha boca.
8. Afasta dela teu caminho, não te aproximes da porta de sua casa,
9. para que não seja entregue a outros tua fortuna e tua vida a um homem cruel;
10. para que estranhos não se fartem de teus haveres e o fruto de teu trabalho não passe para a casa alheia;
11. para que não gemas no fim, quando forem consumidas tuas carnes e teu corpo
12. e tiveres que dizer: Por que odiei a disciplina, e meu coração desdenhou a correção?
13. Por que não ouvi a voz de meus mestres, nem dei ouvido aos meus educadores?
14. Por pouco eu chegaria ao cúmulo da desgraça no meio da assembléia do povo.
15. Bebe a água do teu poço e das correntes de tua cisterna.
16. Derramar-se-ão tuas fontes por fora e teus arroios nas ruas?
17. Sejam eles para ti só, sem que os estranhos neles tomem parte.
18. Seja bendita a tua fonte! Regozija-te com a mulher de tua juventude,
19. corça de amor, serva encantadora. Que sejas sempre embriagado com seus encantos e que seus amores te embriaguem sem cessar!
20. Por que hás de te enamorar de uma alheia e abraçar o seio de uma estranha?
21. Pois o Senhor olha os caminhos dos homens e observa todas as suas veredas.
22. O homem será preso por suas próprias faltas e ligado com as cadeias de seu pecado.
23. Perecerá por falta de correção e se desviará pelo excesso de sua loucura.

 
Capítulo 6

1. Meu filho, se ficaste por fiador do teu próximo, se estendeste a mão a um estranho,
2. se te ligaste com as palavras de teus lábios, se ficaste cativo com a tua própria linguagem,
3. faze, pois, meu filho, o que te digo: livra-te, pois caíste nas mãos do teu próximo; vai, apressa-te, solicita-o com instância,
4. não concedas sono aos teus olhos, nem repouso às tuas pálpebras.
5. Salva-te como a gazela [do caçador], e como o pássaro das mãos do que arma laços.
6. Vai, ó preguiçoso, ter com a formiga, observa seu proceder e torna-te sábio:
7. ela não tem chefe, nem inspetor, nem mestre;
8. prepara no verão sua provisão, apanha no tempo da ceifa sua comida.
9. Até quando, ó preguiçoso, dormirás? Quando te levantarás de teu sono?
10. Um pouco para dormir, outro pouco para dormitar, outro pouco para cruzar as mãos no seu leito,
11. e a indigência virá sobre ti como um ladrão; a pobreza, como um homem armado.
12. É um homem perverso, um iníquo aquele que caminha com falsidade na boca;
13. pisca os olhos, bate com o pé, faz sinais com os dedos;
14. só há perversidade em seu coração, não cessa de maquinar o mal, e de semear questões.
15. Por isso, repentinamente, virá sua ruína, de improviso ficará irremediavelmente quebrantado.
16. Seis coisas há que o Senhor odeia e uma sétima que lhe é uma abominação:
17. olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente,
18. um coração que maquina projetos perversos, pés pressurosos em correr ao mal,
19. um falso testemunho que profere mentiras e aquele que semeia discórdias entre irmãos.
20. Guarda, filho meu, os preceitos de teu pai, não desprezes o ensinamento de tua mãe.
21. Traze-os constantemente ligados ao teu coração e presos ao teu pescoço.
22. Servir-te-ão de guia ao caminhares, de guarda ao dormires e falarão contigo ao despertares,
23. porque o preceito é uma tocha, o ensinamento é uma luz, a correção e a disciplina são o caminho da vida,
24. para te preservar da mulher corrupta e da língua lisonjeira da estranha.
25. Não cobices sua formosura em teu coração, não te deixes prender por seus olhares;
26. por uma meretriz o homem se reduz a um pedaço de pão, e a mulher adúltera arrebata a vida preciosa do homem.
27. Porventura pode alguém esconder fogo em seu seio sem que suas vestes se inflamem?
28. Pode caminhar sobre brasas sem que seus pés se queimem?
29. Assim o que vai para junto da mulher do seu próximo não ficará impune depois de a tocar.
30. Não se despreza o ladrão que furta para satisfazer seu apetite, quando tem fome;
31. se for preso, restituirá sete vezes mais e entregará todos os bens de sua casa.
32. Quem comete adultério carece de senso, é por sua própria culpa que um homem assim procede.
33. Só encontrará infâmia e ignomínia e seu opróbrio não se apagará,
34. porque o marido, furioso e ciumento, não perdoará no dia da vingança,
35. não se aplacará por resgate algum, nem aceitará nada, se multiplicares os presentes.

 
Capítulo 7

1. Meu filho, guarda minhas palavras, conserva contigo meus preceitos. Observa meus mandamentos e viverás.
2. Guarda meus ensinamentos como a pupila de teus olhos.
3. Traze-os ligados aos teus dedos, grava-os em teu coração.
4. Dize à sabedoria: Tu és minha irmã, e chama a inteligência minha amiga,
5. para que elas te guardem da mulher alheia, da estranha que tem palavras lúbricas.
6. Estava eu atrás da janela de minha casa, olhava por entre as grades.
7. Vi entre os imprudentes, entre os jovens, um adolescente incauto:
8. passava ele na rua perto da morada de uma destas mulheres e entrava na casa dela.
9. Era ao anoitecer, na hora em que surge a obscuridade da noite.
10. Eis que uma mulher sai-lhe ao encontro, ornada como uma prostituta e o coração dissimulado.
11. Inquieta e impaciente, seus pés não podem parar em casa;
12. umas vezes na rua, outras na praça, em todos os cantos ela está de emboscada.
13. Abraça o jovem e o beija, e com um semblante descarado diz-lhe:
14. Tinha que oferecer sacrifícios pacíficos, hoje cumpri meu voto.
15. Por isso saí ao teu encontro para te procurar! E achei-te!
16. Ornei minha cama com tapetes, com estofos recamados de rendas do Egito.
17. Perfumei meu leito com mirra, com aloés e cinamomo.
18. Vem! Embriaguemo-nos de amor até o amanhecer, desfrutemos as delícias da voluptuosidade;
19. pois o marido não está em casa: partiu para uma longa viagem,
20. levou consigo uma bolsa cheia de dinheiro e só voltará lá pela lua cheia.
21. Seduziu-o à força de palavras e arrastou-o com as lisonjas de seus lábios.
22. Põe-se ele logo a segui-la, como um boi que é levado ao matadouro, como um cervo que se lança nas redes,
23. até que uma flecha lhe traspassa o fígado, como o pássaro que se precipita para o laço sem saber que se trata dum perigo para sua vida.
24. E agora, meus filhos, ouvi-me, prestai atenção às minhas palavras.
25. Que vosso coração não se deixe arrastar para seguir essa mulher, nem vos extravieis em suas veredas,
26. porque numerosos são os feridos por ela e considerável é a multidão de suas vítimas.
27. Sua casa é o caminho da região dos mortos, que conduz às entranhas da morte.

 
Capítulo 8

1. Por ventura não clama a Sabedoria e a inteligência não eleva a sua voz?
2. No cume das montanhas posta-se ela, e nas encruzilhadas dos caminhos.
3. Alça sua voz na entrada das torres, junto às portas, nas proximidades da cidade.
4. É a vós, ó homens, que eu apelo; minha voz se dirige aos filhos dos homens.
5. Ó simples, aprendei a prudência, adquiri a inteligência, ó insensatos.
6. Prestai atenção, pois! Coisas magníficas vos anuncio, de meus lábios só sairá retidão,
7. porque minha boca proclama a verdade e meus lábios detestam a iniqüidade.
8. Todas as palavras de minha boca são justas, nelas nada há de falso nem de tortuoso.
9. São claras para os que as entendem e retas para o que chegou à ciência.
10. Recebei a instrução e não o dinheiro. Preferi a ciência ao fino ouro,
11. pois a Sabedoria vale mais que as pérolas e jóia alguma a pode igualar.
12. Eu, a Sabedoria, sou amiga da prudência, possuo uma ciência profunda.
13. O temor do Senhor é o ódio ao mal. Orgulho, arrogância, caminho perverso, boca mentirosa: eis o que eu detesto.
14. Meu é o conselho e o bom êxito, minha a inteligência, minha a força.
15. Por mim reinam os reis e os legisladores decretam a justiça;
16. por mim governam os magistrados e os magnatas regem a terra.
17. Amo os que me amam. Quem me procura, encontra-me.
18. Comigo estão a riqueza e a glória, os bens duráveis e a justiça.
19. Mais precioso que o mais fino ouro é o meu fruto, meu produto tem mais valor que a mais fina prata.
20. Sigo o caminho da justiça, no meio da senda da eqüidade.
21. Deixo os meus haveres para os que me amam e acumulo seus tesouros.
22. O Senhor me criou, como primícia de suas obras, desde o princípio, antes do começo da terra.
23. Desde a eternidade fui formada, antes de suas obras dos tempos antigos.
24. Ainda não havia abismo quando fui concebida, e ainda as fontes das águas não tinham brotado.
25. Antes que assentados fossem os montes, antes dos outeiros, fui dada à luz;
26. antes que fossem feitos a terra e os campos e os primeiros elementos da poeira do mundo.
27. Quando ele preparava os céus, ali estava eu; quando traçou o horizonte na superfície do abismo,
28. quando firmou as nuvens no alto, quando dominou as fontes do abismo,
29. quando impôs regras ao mar, para que suas águas não transpusessem os limites, quando assentou os fundamentos da terra,
30. junto a ele estava eu como artífice, brincando todo o tempo diante dele,
31. brincando sobre o globo de sua terra, achando as minhas delícias junto aos filhos dos homens.
32. E agora, meus filhos, escutai-me: felizes aqueles que guardam os meus caminhos.
33. Ouvi minha instrução para serdes sábios, não a rejeiteis.
34. Feliz o homem que me ouve e que vela todos os dias à minha porta e guarda os umbrais de minha casa!
35. Pois quem me acha encontra a vida e alcança o favor do Senhor.
36. Mas quem me ofende, prejudica-se a si mesmo; quem me odeia, ama a morte.

 
Capítulo 9

1. A Sabedoria edificou sua casa, talhou sete colunas.
2. Matou seus animais, preparou seu vinho e dispôs a mesa.
3. Enviou servas, para que anunciassem nos pontos mais elevados da cidade:
4. Quem for simples apresente-se! Aos insensatos ela disse:
5. Vinde comer o meu pão e beber o vinho que preparei.
6. Deixai a insensatez e vivereis; andai direito no caminho da inteligência!
7. Quem censura um mofador, atrai sobre si a zombaria; o que repreende o ímpio, arrisca-se a uma afronta.
8. Não repreendas o mofador, pois ele te odiará. Repreende o sábio e ele te amará.
9. Dá ao sábio: tornar-se-á ele mais sábio ainda, ensina ao justo e seu saber aumentará.
10. O temor do Senhor é o princípio da Sabedoria, e o conhecimento do Santo é a inteligência,
11. porque por mim se multiplicarão teus dias e ser-te-ão acrescentados anos de vida.
12. Se tu és sábio, é para teu bem que o és, mas se tu és um mofador, só tu sofrerás as conseqüências.
13. A senhora Loucura é irrequieta, uma tola que não sabe nada.
14. Ela se assenta à porta de sua casa, numa cadeira, nos pontos mais altos da cidade,
15. para convidar os viandantes que seguem direito seu caminho.
16. Quem for simples venha para cá! Aos insensatos, ela diz:
17. As águas furtivas são mais doces e o pão tomado às escondidas é mais delicioso.
18. Ignora ele que ali há sombras e que os convidados [da senhora Loucura] jazem nas profundezas da região dos mortos.

 
Capítulo 10

1. O filho sábio é a alegria de seu pai; o insensato, porém, a aflição de sua mãe.
2. Tesouros mal adquiridos de nada servem, mas a justiça livra da morte.
3. O Senhor não deixa o justo passar fome, mas repele a cobiça do ímpio.
4. A mão preguiçosa causa a indigência; a mão diligente se enriquece.
5. Quem recolhe no verão é um filho prudente; quem dorme na ceifa merece a vergonha.
6. As bênçãos descansam sobre a cabeça do justo, mas a boca dos maus oculta a injustiça.
7. A memória do justo alcança as bênçãos; o nome dos ímpios apodrecerá.
8. O sábio de coração recebe os preceitos, mas o insensato caminha para a ruína.
9. Quem anda na integridade caminha com segurança, mas quem emprega astúcias será descoberto.
10. Quem pisca os olhos traz desgosto, mas o que repreende com franqueza procura a paz.
11. A boca do justo é uma fonte de vida; a do ímpio, porém, esconde injustiça.
12. O ódio desperta rixas; a caridade, porém, supre todas as faltas.
13. Nos lábios do sábio encontra-se a sabedoria; no dorso do insensato a correção.
14. Os sábios entesouram a sabedoria, mas a boca do tolo é uma desgraça sempre ameaçadora.
15. A fortuna do rico é a sua cidade forte; a pobreza dos indigentes ocasiona-lhes ruína.
16. O salário do justo é para a vida; o fruto do ímpio produz o pecado.
17. O que observa a disciplina está no caminho da vida; anda errado o que esquece a repressão.
18. Quem dissimula o ódio é um mistificador; um insensato o que profere calúnias.
19. Não pode faltar o pecado num caudal de palavras; quem modera os lábios é um homem prudente.
20. A língua do justo é prata finíssima; o coração dos maus, porém, para nada serve.
21. Os lábios dos justos nutrem a muitos; mas os néscios perecem por falta de inteligência.
22. É a bênção do Senhor que enriquece; o labor nada acrescenta a ela.
23. É um divertimento para o ímpio praticar o mal; e para o sensato, ser sábio.
24. O que receia o mal, este cai sobre ele. O desejo do justo lhe é concedido.
25. Quando passa a tormenta, desaparece o perverso, mas o justo descansa sobre fundamentos duráveis.
26. Como o vinagre nos dentes e a fumaça nos olhos, assim é o preguiçoso para os que o mandam.
27. O temor do Senhor prolonga os dias, mas os anos dos ímpios serão abreviados.
28. A expectativa dos justos causa alegria; a esperança dos ímpios, porém, perecerá.
29. Para o homem íntegro o Senhor é uma fortaleza, mas é a ruína dos que fazem o mal.
30. Jamais o justo será abalado, mas os ímpios não habitarão a terra.
31. A boca do justo produz sabedoria, mas a língua perversa será arrancada.
32. Os lábios do justo sabem dizer o que é agradável; a boca dos maus, o que é mal.

 
Capítulo 11

1. A balança fraudulenta é abominada pelo Senhor, mas o peso justo lhe é agradável.
2. Vindo o orgulho, virá também a ignomínia, mas a sabedoria mora com os humildes.
3. A integridade dos justos serve-lhes de guia; mas a perversidade dos pérfidos arrasta-os à ruína.
4. No dia da cólera a riqueza não terá proveito, mas a justiça salva da morte.
5. A justiça do homem íntegro aplana-lhe o caminho, mas o ímpio se abisma em sua própria impiedade.
6. A justiça dos retos os salva, mas em sua própria cobiça os pérfidos se prendem.
7. Morto o ímpio, desaparece sua esperança, a esperança dos iníquos perecerá.
8. O justo livra-se da angústia; em seu lugar cai o malvado.
9. Com os lábios, o hipócrita arruína o seu próximo, mas os justos serão salvos pela ciência.
10. Com a felicidade dos justos, exulta a cidade; com a perdição dos ímpios solta brados de alegria.
11. Uma cidade prospera pela bênção dos justos, mas é destruída pelas palavras dos maus.
12. Quem despreza seu próximo demonstra falta de senso; o homem sábio guarda silêncio.
13. O perverso trai os segredos, enquanto um coração leal os mantém ocultos.
14. Por falta de direção cai um povo; onde há muitos conselheiros, ali haverá salvação.
15. Quem fica por fiador de um estranho cairá na desventura; o que evita os laços viverá tranqüilo.
16. Uma mulher graciosa obtém honras, mas os laboriosos alcançam fortuna.
17. O homem liberal faz bem a si próprio, mas o cruel prejudica a sua própria carne.
18. O ímpio obtém um lucro falaz, mas o que semeia justiça receberá uma recompensa certa.
19. Quem pratica a justiça o faz para a vida, mas quem segue o mal corre para a morte.
20. Os homens de coração perverso são odiosos ao Senhor; os de conduta íntegra são objeto de seus favores.
21. Na verdade, o iníquo não ficará impune, mas a posteridade dos justos será salva.
22. Um anel de ouro no focinho de um porco: tal é a mulher formosa e insensata.
23. O desejo dos justos é unicamente o bem; o que espera os ímpios é a cólera.
24. Há quem dá com liberalidade e obtém mais. Outros poupam demais e vivem na indigência.
25. A alma generosa será cumulada de bens; e o que largamente dá, largamente receberá.
26. O povo amaldiçoa o que esconde o trigo, mas a bênção virá sobre a cabeça dos que o vendem.
27. Quem investiga o bem busca o favor; o que busca o mal será por ele oprimido.
28. Quem confia em sua riqueza cairá, enquanto os justos reverdecerão como a folhagem.
29. O que perturba sua casa herda o vento, e o néscio será escravo do sábio.
30. O fruto do justo é uma árvore de vida; o que conquista as almas é sábio.
31. Se o justo recebe na terra sua recompensa, quanto mais o perverso e o pecador!

 
Capítulo 12

1. Aquele que ama a correção ama a ciência, mas o que detesta a reprimenda é um insensato.
2. O homem de bem alcança a benevolência do Senhor; o Senhor condena o homem que premedita o mal.
3. Não se firma o homem pela impiedade, mas a raiz dos justos não será abalada.
4. Uma mulher virtuosa é a coroa de seu marido, mas a insolente é como a cárie nos seus ossos.
5. Os pensamentos dos justos são cheios de retidão; as tramas dos perversos são cheias de dolo.
6. As palavras dos ímpios são ciladas mortíferas, enquanto a boca dos justos os salva.
7. Transtornados, os ímpios não subsistirão, mas a casa dos justos permanecerá firme.
8. Avalia-se um homem segundo a sua inteligência, mas o perverso de coração incorrerá em desprezo.
9. Mais vale um homem humilde, que tem um servo, que o jactancioso, que não tem o que comer.
10. O justo cuida das necessidades do seu gado, mas cruéis são as entranhas do ímpio.
11. Quem cultiva sua terra será saciado de pão; quem procura as futilidades é um insensato.
12. O ímpio cobiça o laço do perverso, mas a raiz do justo produz fruto.
13. No pecado dos lábios há uma cilada funesta, mas o justo livra-se da angústia.
14. O homem se farta com o fruto de sua boca; cada qual recebe a recompensa da obra de suas mãos.
15. Ao insensato parece reto seu caminho, enquanto o sábio ouve os conselhos.
16. O louco mostra logo a sua irritação; o circunspecto dissimula o ultraje.
17. O homem sincero anuncia a justiça; a testemunha falsa profere mentira.
18. O falador fere com golpes de espada; a língua dos sábios, porém, cura.
19. Os lábios sinceros permanecem sempre constantes; a língua mentirosa dura como um abrir e fechar de olhos.
20. No coração dos que tramam males há engano; a alegria está naqueles que dão conselhos de paz.
21. Ao justo nenhum mal pode abater, mas os maus enchem-se de tristezas.
22. Os lábios mentirosos são abominação para o Senhor, mas os que procedem com fidelidade agradam-lhe.
23. O homem prudente oculta sua sabedoria; o coração dos insensatos proclama sua própria loucura.
24. A mão diligente dominará; a mão preguiçosa torna-se tributária.
25. A aflição no coração do homem o deprime; uma boa palavra restitui-lhe a alegria.
26. O justo guia seu companheiro, mas o caminho dos ímpios os perde.
27. O indolente não assa o que caçou; um homem diligente, porém, é um tesouro valioso.
28. A vida está na vereda da justiça; o caminho do ódio, porém, conduz à morte.

 
Capítulo 13

1. Um filho sábio ama a disciplina, mas o incorrigível não aceita repreensões.
2. O homem de bem goza do fruto de sua boca, mas o desejo dos pérfidos é a violência.
3. Quem vigia sua boca guarda sua vida; quem muito abre seus lábios se perde.
4. O preguiçoso cobiça, mas nada obtém. É o desejo dos homens diligentes que é satisfeito.
5. O justo detesta a mentira; o ímpio só faz coisas vergonhosas e ignominiosas.
6. A justiça protege o que caminha na integridade, mas a maldade arruína o pecador.
7. Há quem parece rico, não tendo nada, há quem se faz de pobre e possui copiosas riquezas.
8. A riqueza de um homem é o resgate de sua vida, mas o pobre está livre de ameaças.
9. A luz do justo ilumina, enquanto a lâmpada dos maus se extingue.
10. O orgulho só causa disputas; a sabedoria se acha com os que procuram aconselhar-se.
11. Os bens que muito depressa se ajuntam se desvanecem; os acumulados pouco a pouco aumentam.
12. Esperança retardada faz adoecer o coração; o desejo realizado, porém, é uma árvore de vida.
13. Quem menospreza a palavra perder-se-á; quem respeita o preceito será recompensado.
14. O ensinamento do sábio é uma fonte de vida para libertar-se dos laços da morte.
15. Bom entendimento procura favor; o caminho dos pérfidos, porém, é escabroso.
16. Todo homem prudente age com discernimento, mas o insensato põe em evidência sua loucura.
17. Um mau mensageiro provoca a desgraça; o enviado fiel, porém, traz a saúde.
18. Miséria e vergonha a quem recusa a disciplina; honra ao que aceita a reprimenda.
19. O desejo cumprido deleita a alma. Os insensatos detestam os que fogem do mal.
20. Quem visita os sábios torna-se sábio; quem se faz amigo dos insensatos perde-se.
21. A desgraça persegue os pecadores; a felicidade é a recompensa dos justos.
22. O homem de bem deixa sua herança para os filhos de seus filhos; ao justo foi reservada a fortuna do pecador.
23. É abundante em alimento um campo preparado pelo pobre, mas há quem pereça por falta de justiça.
24. Quem poupa a vara odeia seu filho; quem o ama, castiga-o na hora precisa.
25. O justo come até se saciar, mas o ventre dos pérfidos conhece a penúria.

 
Capítulo 14

1. A senhora Sabedoria edifica sua casa; a senhora Loucura destrói a sua com as próprias mãos.
2. Quem caminha direito teme o Senhor; o que anda desviado o despreza.
3. A boca do néscio encerra a vara para seu orgulho, mas os lábios do sábio são uma proteção para si mesmo.
4. Onde não há bois, a manjedoura está vazia; a abundância da colheita provém da força do gado.
5. A testemunha fiel não mente; a testemunha falsa profere falsidades.
6. O mofador busca a sabedoria, mas em vão; ao homem entendido a ciência é fácil.
7. Afasta-te da presença do tolo: em seus lábios não encontrarás palavras sábias.
8. A sabedoria do prudente está no cuidar do seu procedimento; a loucura dos insensatos consiste na fraude.
9. O insensato zomba do pecado; a benevolência (de Deus) é para os homens retos.
10. O coração conhece suas próprias amarguras; o estranho não pode partilhar de sua alegria.
11. A habitação dos pérfidos será destruída, mas a tenda dos justos florescerá.
12. Há caminho que parece reto ao homem; seu fim, porém, é o caminho da morte.
13. Mesmo no sorrir, o coração pode estar triste; a alegria pode findar na aflição.
14. O extraviado será saciado com seus próprios erros; o homem de bem, com seus atos.
15. O ingênuo acredita em tudo o que se diz; o prudente vigia seus passos.
16. O sábio teme o mal e dele se aparta, mas o insensato que se eleva dá-se por seguro.
17. O homem violento comete loucura; o dissimulado atrai a si o ódio.
18. Os ingênuos têm por herança a loucura; os prudentes, a ciência como coroa.
19. Diante dos bons humilham-se os maus e os ímpios ante as portas do justo.
20. Até mesmo ao seu companheiro o pobre é odioso; numerosos são os amigos do rico.
21. Quem despreza seu próximo comete um pecado; feliz aquele que tem compaixão dos desgraçados.
22. Porventura não erram os que maquinam o mal? Os que planejam o bem adquirem favor e verdade.
23. Para todo esforço há fruto, muito palavrório só produz penúria.
24. Para o sábio a riqueza é uma coroa. A loucura dos insensatos permanece loucura.
25. A testemunha fiel salva vidas; o que profere mentiras é falso.
26. No temor do Senhor [o justo] encontra apoio sólido; seus filhos nele encontrarão abrigo.
27. O temor do Senhor é uma fonte de vida para escapar aos laços da morte.
28. A multidão do povo é a glória de um rei; a falta de população é a ruína de um príncipe.
29. O paciente dá prova de bom senso; quem se arrebata rapidamente manifesta sua loucura.
30. Um coração tranqüilo é a vida do corpo, enquanto a inveja é a cárie dos ossos.
31. O opressor do pobre ultraja seu criador, mas honra-o o que se compadece do indigente.
32. É por causa de sua própria malícia que cai o ímpio; o justo, porém, até na morte conserva a confiança.
33. No coração do prudente repousa a sabedoria. Entre os tolos ela se fará conhecer?
34. A justiça enaltece uma nação; o pecado é a vergonha dos povos.
35. O servidor inteligente goza do favor do rei, mas a sua ira fere o desonrado.

 
Capítulo 15

1. Uma resposta branda aplaca o furor, uma palavra dura excita a cólera.
2. A língua dos sábios ornamenta a ciência, a boca dos imbecis transborda loucura.
3. Em todo o lugar estão os olhos do Senhor, observando os maus e os bons.
4. A língua sã é uma árvore de vida; a língua perversa corta o coração.
5. O néscio desdenha a instrução de seu pai, mas o que atende à repreensão torna-se sábio.
6. Na casa do justo há riqueza abundante, mas perturbação nos frutos dos maus.
7. Os lábios do sábio destilam saber, e não assim é o coração dos insensatos.
8. Os sacrifícios dos pérfidos são abominação para o Senhor, a oração dos homens retos lhe é agradável.
9. O Senhor abomina o caminho do mau, mas ama o que se prende à justiça.
10. Severa é a correção para o que se afasta do caminho, e o que aborrece a repreensão perecerá.
11. A habitação dos mortos e o abismo estão abertos diante do Senhor; quanto mais os corações dos filhos dos homens!
12. O zombador não gosta de quem o repreende, nem vai em busca dos sábios.
13. O coração contente alegra o semblante, o coração triste deprime o espírito.
14. O coração do inteligente procura a ciência; a boca dos tolos sacia-se de loucuras.
15. Para o aflito todos os dias são maus; para um coração contente, são um perpétuo festim.
16. Vale mais o pouco com o temor do Senhor que um grande tesouro com a inquietação.
17. Mais vale um prato de legume com amizade que um boi cevado com ódio.
18. O homem iracundo excita questões, mas o paciente apazigua as disputas.
19. O caminho do preguiçoso é como uma sebe de espinhos, o caminho dos corretos é sem tropeço.
20. O filho sábio alegra seu pai; o insensato despreza sua mãe.
21. A loucura diverte o insensato, mas o homem inteligente segue o caminho reto.
22. Os projetos malogram por falta de deliberação; conseguem bom êxito com muitos conselheiros.
23. Saber dar uma resposta é fonte de alegria; como é agradável uma palavra oportuna!
24. O sábio escala o caminho da vida, para evitar a descida à morada dos mortos.
25. O Senhor destrói a casa dos soberbos, mas firma os limites da viúva.
26. Os projetos dos pérfidos são abomináveis ao Senhor, mas as palavras benevolentes são puras.
27. O homem cobiçoso perturba a sua casa, aquele que odeia os subornos viverá.
28. O coração do justo estuda a sua resposta; a boca dos maus, porém, vomita o mal.
29. O Senhor está longe dos maus, mas atende à oração dos justos.
30. O brilho dos olhos alegra o coração; uma boa notícia fortifica os ossos.
31. Quem der atenção às repreensões salutares habitará entre os sábios.
32. O que rejeita a correção faz pouco caso de sua vida; quem ouve a repreensão adquire sabedoria.
33. O temor do Senhor é uma escola de sabedoria. A humildade precede a glória.

 
Capítulo 16

1. Cabe ao homem formular projetos em seu coração, mas do Senhor vem a resposta da língua.
2. Todos os caminhos parecem puros ao homem, mas o Senhor é quem pesa os corações.
3. Confia teus negócios ao Senhor e teus planos terão bom êxito.
4. Tudo fez o Senhor para seu fim, até o ímpio para o dia da desgraça.
5. Todo coração altivo é abominação ao Senhor: certamente não ficará impune.
6. É pela bondade e pela verdade que se expia a iniqüidade; pelo temor do Senhor evita-se o mal.
7. Quando agradam ao Senhor os caminhos de um homem, reconcilia com ele seus próprios inimigos.
8. Mais vale o pouco com justiça do que grandes lucros com iniqüidade.
9. O coração do homem dispõe o seu caminho, mas é o Senhor que dirige seus passos.
10. As palavras do rei são como oráculos: quando ele julga, sua boca não erra.
11. Balança e peso justos são do Senhor, e são obra sua todos os pesos da bolsa.
12. Fazer o mal, para um rei, é coisa abominável, porque pela justiça firma-se o trono.
13. Os lábios justos são agradáveis ao rei; ele ama o que fala com retidão.
14. A indignação do rei é prenúncio de morte, só o sábio sabe aplacá-la.
15. Na serenidade do semblante do rei está a vida: sua clemência é como uma chuva de primavera.
16. Adquirir a sabedoria vale mais que o ouro; antes adquirir a inteligência que a prata.
17. O caminho dos corretos consiste em evitar o mal; o que vigia seu procedimento conserva sua vida.
18. A soberba precede à ruína; e o orgulho, à queda.
19. Mais vale ser modesto com os humildes que repartir o despojo com os soberbos.
20. Quem ouve a palavra com atenção encontra a felicidade; ditoso quem confia no Senhor.
21. Inteligente é o que possui o coração sábio; a doçura da linguagem aumenta o saber.
22. A inteligência é fonte de vida para quem a possui; o castigo dos insensatos é a loucura.
23. O coração do sábio torna sua boca instruída, e acrescenta-lhes aos lábios o saber.
24. As palavras agradáveis são como um favo de mel; doçura para a alma e saúde para os ossos.
25. Há caminhos que parecem retos ao homem e, contudo, o seu termo é a morte.
26. A fome do trabalhador trabalha por ele, porque sua boca o constrange a isso.
27. O perverso cava o mal, há em seus lábios como que fogo devorador.
28. O perverso excita questões, o detrator separa os amigos.
29. O violento seduz seu próximo e o arrasta pelo mau caminho.
30. Quem fecha os olhos e planeja intriga, ao morder os lábios, já praticou o mal.
31. Os cabelos brancos são uma coroa de glória a quem se encontra no caminho da justiça.
32. Mais vale a paciência que o heroísmo, mais vale quem domina o coração do que aquele que conquista uma cidade.
33. As sortes lançam-se nas dobras do manto, mas do Senhor depende toda a decisão.

 
Capítulo 17

1. Mais vale um bocado de pão seco, com a paz, do que uma casa cheia de carnes, com a discórdia.
2. Um escravo prudente vale mais que um filho desonroso, e partilhará da herança entre os irmãos.
3. Um crisol para a prata, um forno para o ouro; é o Senhor, porém, quem prova os corações.
4. O mau dá ouvidos aos lábios iníquos; o mentiroso presta atenção à língua perniciosa.
5. Aquele que zomba do pobre insulta seu criador; quem se ri de um infeliz não ficará impune.
6. Os filhos dos filhos são a coroa dos velhos, e a glória dos filhos são os pais.
7. Uma linguagem elevada não convém ao néscio, quanto mais, a um nobre, palavras mentirosas.
8. Um presente parece uma gema preciosa a seu possuidor; para qualquer lado que ele se volte, logra êxito.
9. Aquele que dissimula faltas promove amizade; quem as divulga, divide amigos.
10. Uma repreensão causa mais efeito num homem prudente do que cem golpes num tolo.
11. O perverso só busca a rebeldia, mas será enviado contra ele um mensageiro cruel.
12. Antes encontrar uma ursa privada de seus filhotes do que um tolo em crise de loucura.
13. A desgraça não deixará a casa daquele que retribui o mal pelo bem.
14. Começar uma questão é como soltar as águas; desiste, antes que se exaspere a disputa.
15. Quem declara justo o ímpio e perverso o justo, ambos desagradam ao Senhor.
16. Para que serve o dinheiro na mão do insensato? Para comprar a sabedoria? Ele não tem critério.
17. O amigo ama em todo o tempo: na desgraça, ele se torna um irmão.
18. É destituído de senso o que aceita compromissos e que fica fiador para seu próximo.
19. O que ama as disputas ama o pecado; quem ergue sua porta busca a ruína.
20. O homem de coração falso não encontra a felicidade; o de língua tortuosa cai na desgraça.
21. Quem gera um tolo terá desventura; nem alegria terá o pai de um imbecil.
22. Coração alegre, bom remédio; um espírito abatido seca os ossos.
23. O ímpio aceita um presente ocultamente para desviar a língua da justiça.
24. Ante o homem prudente está a sabedoria; os olhos do insensato vagueiam até o fim do mundo.
25. Um filho néscio é o pesar de seu pai e a amargura de quem o deu à luz.
26. Não convém chamar a atenção do justo e ferir os homens honestos por causa de sua retidão.
27. O que mede suas palavras possui a ciência; quem é calmo de espírito é um homem inteligente.
28. Mesmo o insensato passa por sábio, quando se cala; por prudente, quando fecha sua boca.

 
Capítulo 18

1. Quem se isola procura sua própria vontade e se irrita contra tudo o que é razoável.
2. O insensato não tem propensão para a inteligência, mas para a expansão dos próprios sentimentos.
3. O desprezo ombreia com a iniqüidade; o opróbrio com a vergonha.
4. As palavras da boca de um homem são águas profundas; a fonte da sabedoria é uma torrente transbordante.
5. Não fica bem favorecer um perverso para prejudicar o direito do justo.
6. Os lábios do insensato promovem contendas: sua boca atrai açoites.
7. A boca do tolo é a sua ruína; seus lábios são uma armadilha para a sua própria vida.
8. As palavras do delator são como gulodices: penetram até as entranhas.
9. O frouxo no trabalho é um irmão do dissipador.
10. O nome do Senhor é uma torre: para lá corre o justo a fim de procurar segurança.
11. A fortuna do rico é sua cidade forte; em seu pensar, ela é como uma muralha elevada.
12. Antes da ruína, o coração do homem se eleva, mas a humildade precede a glória.
13. Quem responde antes de ouvir, passa por tolo e se cobre de confusão.
14. O espírito do homem suporta a doença, mas quem erguerá um espírito abatido?
15. O coração inteligente adquire o saber; o ouvido dos sábios procura a ciência.
16. O presente de um homem lhe abre tudo, e lhe dá acesso junto aos grandes.
17. Quem advoga sua causa, por primeiro, parece ter razão; sobrevém a parte adversa, que examina a fundo.
18. A sorte apazigua as contendas e decide entre os poderosos.
19. Um irmão ofendido é pior que uma cidade forte; as questões entre irmãos são como os ferrolhos de uma cidadela.
20. É do fruto de sua boca que um homem se nutre; com o produto de seus lábios ele se farta.
21. Morte e vida estão à mercê da língua: os que a amam comerão dos seus frutos.
22. Aquele que acha uma mulher, acha a felicidade: é um dom recebido do Senhor.
23. O pobre fala suplicando; a resposta do rico é ríspida.
24. O homem cercado de muitos amigos tem neles sua desgraça, mas existe um amigo mais unido que um irmão.

 
Capítulo 19

1. Mais vale um pobre que caminha na integridade que um insensato com lábios mentirosos.
2. Sem a ciência, nem mesmo o zelo é bom: quem precipita seus passos, desvia-se.
3. A loucura de um homem o leva a um mau caminho; é contra o Senhor que seu coração se irrita.
4. A riqueza aumenta o número de amigos, o pobre é abandonado pelo seu [único] companheiro.
5. O falso testemunho não fica sem castigo; o que profere mentira não escapará.
6. O homem generoso possui muitos lisonjeiros: todos se tornam amigos de quem dá.
7. Todos os irmãos do pobre o odeiam, quanto mais seus amigos não hão de se afastar dele? Está em busca de palavras, mas não terá nada.
8. Quem adquire bom senso ama sua alma; o que observa a prudência encontra a felicidade.
9. O falso testemunho não fica impune; o que profere mentira perecerá.
10. Não convém ao insensato viver entre delícias, muito menos ainda a um escravo dominar os chefes.
11. Um homem sábio sabe conter a sua cólera, e tem por honra passar por cima de uma ofensa.
12. Cólera de rei, rugido de leão; favor de rei, orvalho sobre a erva.
13. Um filho insensato é a desgraça de seu pai; a mulher intrigante é uma goteira inesgotável.
14. Casas e bens são a herança dos pais, mas uma mulher sensata é um dom do Senhor.
15. A preguiça cai no torpor: a alma indolente terá fome.
16. O que observa o preceito guarda sua vida; quem descuida de seu proceder morrerá.
17. Quem se apieda do pobre empresta ao Senhor, que lhe restituirá o benefício.
18. Corrige teu filho enquanto há esperança, mas não te enfureças até fazê-lo perecer.
19. O homem iracundo sofrerá um castigo; se o libertares, aumentarás a sua pena.
20. Ouve os conselhos, aceita a instrução: tu serás sábio para o futuro.
21. Há muitos planos no coração do homem, mas é a vontade do Senhor que se realiza.
22. O encanto de um homem é a sua caridade: mais vale o pobre que o mentiroso.
23. O temor do Senhor conduz à vida; (o que o possui) é saciado: passará a noite sem a visita da desgraça.
24. O preguiçoso põe sua mão no prato e nem sequer a leva à boca.
25. Castiga o zombador e o simples tornar-se-á sábio; repreende o homem sensato e ele compreenderá por quê.
26. Quem maltrata seu pai, quem expulsa sua mãe é um filho infame do qual todos se envergonham.
27. Cessa, meu filho, de ouvir as advertências e isto servirá para te afastares da sabedoria!
28. O testemunho falso zomba da justiça, a boca dos ímpios devora a iniqüidade.
29. As varas estão preparadas para os mofadores e os golpes para o dorso dos insensatos.

 
Capítulo 20

1. Zombeteiro é o vinho e amotinadora a cerveja: quem quer que se apegue a isto não será sábio.
2. O furor do rei é como um rugido de leão: aquele que o provoca, prejudica-se a si mesmo.
3. É uma glória para o homem abster-se de contendas; o tolo, porém, é o único que as procura.
4. Desde o outono o preguiçoso não trabalha: mendigará no tempo da colheita, mas não terá nada.
5. Água profunda é o conselho no íntimo do homem; o homem inteligente sabe haurir dela.
6. Muitos homens apregoam a sua bondade, mas quem achará um homem verdadeiramente fiel?
7. O justo caminha na integridade; ditosos os filhos que o seguirem!
8. O rei, que está sentado no trono da justiça, só com seu olhar dissipa todo o mal.
9. Quem pode dizer: Meu coração está puro, estou limpo de pecado?
10. Ter dois pesos e duas medidas é objeto de abominação para o Senhor.
11. O menino manifesta logo por seus atos se seu proceder será puro e reto.
12. O ouvido que ouve, o olho que vê, ambas estas coisas fez o Senhor.
13. Não sejas amigo do sono, para que não te tornes pobre: abre os olhos e terás pão à vontade.
14. Mau, mau! diz o comprador. Mas se gloria ao se retirar.
15. Há ouro, há pérola em abundância; jóia rara é a boca sábia.
16. Toma-lhe a roupa, porque ele respondeu por outrem; exige dele um penhor em proveito dos estranhos.
17. Saboroso é para o homem o pão defraudado, mas depois terá a boca cheia de cascalhos.
18. Os projetos triunfam pelo conselho; é com prudência que deve ser dirigida a guerra.
19. O mexiriqueiro trai os segredos: não te familiarizes com um falador.
20. Quem amaldiçoa seu pai ou sua mãe (verá) apagar-se sua luz no meio de densas trevas.
21. Herança muito depressa adquirida no princípio não será abençoada no fim.
22. Não digas: Eu me vingarei! Coloca tua esperança no Senhor, ele te salvará.
23. Ter dois pesos é abominação para o Senhor; uma balança falsa não é coisa boa.
24. O Senhor é quem dirige os passos do homem: como poderá o homem compreender seu caminho?
25. É um laço dizer inconsideradamente: Consagrado! e não refletir antes de ter emitido um voto.
26. O rei sábio joeira os ímpios, faz passar sobre eles a roda.
27. O espírito do homem é uma lâmpada do Senhor: ela penetra os mais íntimos recantos das entranhas.
28. Bondade e fidelidade montam guarda ao rei; pela justiça firma-se seu trono.
29. A força é o ornato dos jovens; o ornamento dos anciãos são os cabelos brancos.
30. A ferida sangrenta cura o mal; também os golpes, no mais íntimo do corpo.

 
Capítulo 21

1. O coração do rei é uma água fluente nas mãos do Senhor: ele o inclina para qualquer parte que quiser.
2. Os caminhos do homem parecem retos aos seus olhos, mas cabe ao Senhor pesar os corações.
3. A prática da justiça e da eqüidade vale aos olhos do Senhor mais que os sacrifícios.
4. Olhares altivos ensoberbecem o coração; o luzeiro dos ímpios é o pecado.
5. Os planos do homem ativo produzem abundância; a precipitação só traz penúria.
6. Tesouros adquiridos pela mentira: vaidade passageira para os que procuram a morte.
7. A violência dos ímpios os conduz à [ruína], porque se recusam a praticar a justiça.
8. O caminhos do perverso é tortuoso, mas o inocente age com retidão.
9. Melhor é habitar num canto do terraço do que conviver com uma mulher impertinente.
10. A alma do ímpio deseja o mal; nem mesmo seu amigo encontrará graça a seus olhos.
11. Quando se pune o zombador, o simples torna-se sábio; quando se adverte o sábio, ele adquire a ciência.
12. O justo observa a cada do ímpio e precipita os maus na desventura.
13. Quem se faz de surdo aos gritos do pobre não será ouvido, quando ele mesmo clamar.
14. Um presente dado sob o manto extingue a cólera; uma oferta concebida às ocultas acalma um furor violento.
15. Para o justo é uma alegria a prática da justiça, mas é um terror para aqueles que praticam a iniqüidade.
16. O homem que se desvia do caminho da prudência repousará na companhia das trevas.
17. O que ama os banquetes será um homem indigente; o que ama o vinho e o óleo não se enriquecerá.
18. O ímpio serve de resgate para o justo e o pérfido para os homens retos.
19. Melhor é habitar no deserto do que com uma mulher impertinente e intrigante.
20. Na casa do sábio há preciosas reservas e óleo; um homem imprudente, porém, os absorverá.
21. Quem segue a justiça e a misericórdia, achará vida, justiça e glória.
22. O sábio toma de assalto a cidade dos heróis: destrói a fortaleza em que depositava confiança.
23. Quem vigia sua boca e sua língua preserva sua vida da angústia.
24. Chamamos de zombador um soberbo arrogante, que age com orgulho desmedido.
25. Os desejos do preguiçoso o matam porque suas mãos recusam o trabalho;
26. passam todo o dia a desejar com ardor, mas quem é justo dá largamente.
27. O sacrifício dos ímpios é abominável, mormente quando o oferecem com má intenção.
28. A testemunha mentirosa perecerá, mas o homem que escuta sempre poderá falar.
29. O ímpio aparenta um ar firme; o homem correto consolida seu proceder.
30. Nem a sabedoria, nem prudência, nem conselho podem prevalescer contra o Senhor.
31. Prepara-se o cavalo para o dia da batalha, mas é do senhor que depende a vitória.

 
Capítulo 22

1. Bom renome vale mais que grandes riquezas; a boa reputação vale mais que a prata e o ouro.
2. Rico e pobre se encontram: foi o Senhor que criou a ambos.
3. O homem prudente percebe a aproximação do mal e se abriga, mas os imprudentes passam adiante e recebem o dano.
4. O prêmio da humildade é o temor do Senhor, a riqueza, a honra e a vida.
5. Espinhos e laços há no caminho do perverso; quem guarda sua vida retira-se para longe deles.
6. Ensina à criança o caminho que ela deve seguir; mesmo quando envelhecer, dele não se há de afastar.
7. O rico domina os pobres: o que toma emprestado torna-se escravo daquele que lhe emprestou.
8. Aquele que semeia o mal, recolhe o tormento: a vara de sua ira o ferirá.
9. O homem benevolente será abençoado porque tira do seu pão para o pobre.
10. Expulsa o mofador e cessará a discórdia: ultrajes e litígios cessarão.
11. Quem ama a pureza do coração, pela graça dos seus lábios, é amigo do rei.
12. Os olhos do Senhor protegem a sabedoria, mas arruínam as palavras do pérfido.
13. Há um leão do lado de fora!, diz o preguiçoso, eu poderei ser morto na rua!
14. A boca das meretrizes é uma cova profunda; nela cairá aquele contra o qual o Senhor se irar.
15. A loucura apega-se ao coração da criança; a vara da disciplina afastá-la-á dela.
16. Quem oprime o pobre, enriquece-o. Quem dá ao rico, empobrece-o.
17. Presta atenção às minhas palavras, aplica teu coração à minha doutrina,
18. porque é agradável que as guardes dentro de teu coração e que elas permaneçam, todas, presentes em teus lábios.
19. É para que o Senhor seja tua confiança, que quero instruir-te hoje.
20. Desde muito tempo eu te escrevi conselhos e instruções,
21. para te ensinar a verdade das coisas certas, para que respondas certo àquele que te indaga.
22. Não despojes o pobre, porque é pobre, não oprimas o fraco à porta da cidade,
23. porque o Senhor pleiteará sua causa e tirará a vida aos que os despojaram.
24. Não faças amizade com um homem colérico, não andes com o violento,
25. há o perigo de que aprendas os seus costumes e prepares um laço fatal.
26. Não sejas daqueles que se obrigam, apertando a mão, e se fazem fiadores de dívidas;
27. se não tens com que pagar, arrebatar-te-ão teu leito debaixo de ti.
28. Não passes além dos marcos antigos que puseram teus pais.
29. Viste um homem hábil em sua obra? Ele entrará ao serviço dos reis, e não ficará entre gente obscura.

 
Capítulo 23

1. Quando te assentares à mesa com um grande, considera com atenção quem está diante de ti:
2. põe uma faca na tua garganta, se tu sentes muito apetite;
3. não cobices seus manjares que são alimentos enganosos.
4. Não te afadigues para te enriqueceres, evita aplicar a isso teu espírito.
5. Mal fixas os olhos nos bens, e nada mais há, porque a riqueza tem asas como a águia que voa para o céu.
6. Não comas com homem invejoso, não cobices seus manjares,
7. porque ele se mostra tal qual se calculou em si mesmo. Ele te diz: Come e bebe, mas seu coração não está contigo.
8. Comido o bocado, tu o vomitarás e desperdiçarás tuas amabilidades.
9. Não fales aos ouvidos do insensato porque ele desprezaria a sabedoria de tuas palavras.
10. Não toques no marco antigo, não penetres na terra dos órfãos
11. porque seu vingador é poderoso e defenderá sua causa contra ti.
12. Aplica teu coração à instrução e teus ouvidos às palavras da ciência.
13. Não poupes ao menino a correção: se tu o castigares com a vara, ele não morrerá,
14. castigando-o com a vara, salvarás sua vida da morada dos mortos.
15. Meu filho, se o teu espírito for sábio, meu coração alegrar-se-á contigo!
16. Meus rins estremecerão de alegria, quando teus lábios proferirem palavras retas.
17. Que teu coração não inveje os pecadores, mas permaneça sempre no temor do Senhor
18. porque [então] haverá certamente um futuro e tua esperança não será frustrada.
19. Ouve, meu filho: sê sabio, dirige teu coração pelo caminho reto,
20. não te ajuntes com os bebedores de vinho, com aqueles que devoram carnes,
21. pois o ébrio e o glutão se empobrecem e a sonolência veste-se com andrajos.
22. Dá ouvidos a teu pai, àquele que te gerou e não desprezes tua mãe quando envelhecer.
23. Adquire a verdade e não a vendas, adquire sabedoria, instruções e inteligência.
24. O pai do justo exultará de alegria; aquele que gerou um sábio alegrar-se-á nele.
25. Que teu pai se alegre por tua causa, que viva na alegria aquela que te deu à luz!
26. Meu filho, dá-me teu coração. Que teus olhos observem meus caminhos,
27. pois a meretriz é uma fossa profunda e a entranha, um poço estreito:
28. como um salteador ele fica de emboscada e, entre os homens, multiplica os infiéis.
29. Para quem os ah? Para quem os ais? Para quem as contendas? Para quem as queixas? Para quem as feridas sem motivo? Para quem o vermelho dos olhos?
30. Para aqueles que permanecem junto ao vinho, para aqueles que vão saborear o vinho misturado.
31. Não consideres o vinho: como ele é vermelho, como brilha no copo, como corre suavemente!
32. Mas, no fim, morde como uma serpente e pica como um basilisco!
33. Os teus olhos verão coisas estranhas, teu coração pronunciará coisas incoerentes.
34. Serás como um homem adormecido no fundo do mar, ou deitado no cimo dum mastro:
35. Feriram-me, dirás tu; e não sinto dor! Bateram-me… e não sinto nada. Quando despertei eu? Quero mais ainda!

 
Capítulo 24

1. Não invejes os maus, nem desejes estar com eles,
2. porque seus corações maquinam a violência e seus lábios só proclamam a iniqüidade.
3. É com sabedoria que se constrói a casa, pela prudência ela se consolida.
4. Pela ciência enchem-se os celeiros de todo bem precioso e agradável.
5. O sábio é um homem forte, o douto é cheio de vigor.
6. É com a prudência que empreenderás a guerra e a vitória depende de grande número de conselheiros.
7. A sabedoria é por demais sublime para o tolo; à porta da cidade, ele não abre a boca.
8. Quem medita fazer o mal, é chamado mestre intrigante.
9. O desígnio da loucura é o pecado; e detrator é terror para os outros.
10. Se te deixas abater no dia da adversidade, minguada é a tua força.
11. Livra os que foram entregues à morte, salva os que cambaleiam indo para o massacre.
12. Se disseres: Mas, não o sabia! Aquele que pesa os corações não o verá? Aquele que vigia tua alma não o saberá? E não retribuirá a cada qual segundo seu procedimento?
13. Meu filho, come mel, pois é bom; um favo de mel é doce para teu paladar.
14. Sabe, pois, que assim será a sabedoria para tua alma. Se tu a encontrares, haverá para ti um bom futuro e tua esperança não será frustrada.
15. Não conspires, ó ímpio, contra a casa do justo, não destruas sua habitação!
16. Porque o justo cai sete vezes, mas ergue-se, enquanto os ímpios desfalecem na desgraça.
17. Não te alegres, se teu inimigo cair, se tropeçar, que não se rejubile teu coração,
18. para não suceder que o Senhor o veja, e isto lhe desagrade, e tire de cima dele sua ira.
19. Não te indignes à vista dos maus, não invejes os ímpios,
20. porque para o mal não há futuro e o luzeiro dos ímpios extinguir-se-á.
21. Meu filho, teme o Senhor e o rei, não te mistures com os sediciosos,
22. porque, de repente, surgirá sua desgraça. Quem conhece a destruição de uns e de outros?
23. O que segue é ainda dos sábios: Não é bom mostrar-se parcial no julgamento.
24. Ao que diz ao culpado: Tu és inocente, os povos o amaldiçoarão, as nações o abominarão.
25. Aqueles que sabem repreender são louvados, sobre eles cai uma chuva de bênçãos.
26. Dá um beijo nos lábios aquele que responde com sinceridade.
27. Cuida da tua tarefa de fora, aplica-te ao teu campo e depois edificarás tua habitação.
28. Não sejas testemunha inconsiderada contra teu próximo. Queres, acaso, que teus lábios te enganem?
29. Não digas: Far-lhe-ei o que me fez, pagarei a este homem segundo seus atos.
30. Perto da terra do preguiçoso eu passei, junto à vinha de um homem insensato:
31. eis que, por toda a parte, cresciam abrolhos, urtigas cobriam o solo, o muro de pedra estava por terra.
32. Vendo isso, refleti; daquilo que havia visto, tirei esta lição:
33. um pouco de sono, um pouco de torpor, um pouco cruzando as mãos para descansar
34. e virá a indigência como um vagabundo, a miséria como um homem armado!

 
Capítulo 25

1. Ainda alguns provérbios de Salomão, recolhidos pelos homens de Ezequias, rei de Judá.
2. A glória de Deus é ocultar uma coisa; a glória dos reis é esquadrinhá-la.
3. A altura dos céus, a profundeza da terra são impenetráveis, bem como o coração dos reis.
4. Tira as escórias da prata e terás um vaso para o ourives;
5. afasta o mau de presença do rei e seu trono se firmará na justiça.
6. Não te faças de pretensioso diante do rei, não te ponhas no lugar dos grandes.
7. É melhor que te digam: Sobe aqui!, do que seres humilhado diante de um personagem. O que teus olhos viram,
8. não o descubras com precipitação numa contenda, pois, no final das contas, que farás tu quando o outro te houver confundido?
9. Trata teu negócio com teu próximo de maneira a não revelar o segredo de outro,
10. para que não sejas repreendido por aquele que o ouviu nem incorras em descrédito irreparável.
11. Maçãs de ouro sobre prata gravada: tais são as palavras oportunas.
12. Anel de ouro, jóia de ouro fino: tal é o sábio que admoesta um ouvido atento.
13. Frescor de neve no tempo da colheita, tal é um mensageiro fiel para quem o envia: ele restaura a alma de seu senhor.
14. Nuvens e vento sem chuva: tal é o homem que se gaba falsamente de dar.
15. Pela paciência o juiz se deixa aplacar: a língua que fala com brandura pode quebrantar ossos.
16. Achaste mel? Come o que for suficiente: se comeres demais, tu o vomitarás.
17. Põe raramente o pé na casa do vizinho: enfastiado de ti, ele te viria a aborrecer.
18. Clava, espada, flecha penetrante: tal é o que usa de falso testemunho contra seu próximo.
19. Dente arruinado, pé que resvala: tal é a confiança de um pérfido no dia da desventura.
20. Tirar a capa num dia de frio, derramar vinagre numa ferida: isso faz aquele que canta canções a um coração atribulado.
21. Tem o teu inimigo fome? Dá-lhe de comer. Tem sede? Dá-lhe de beber:
22. assim amontoarás brasas ardentes sobre sua cabeça e o Senhor te recompensará.
23. O vento norte traz chuva e a língua detratora anuvia os semblantes.
24. É melhor habitar um canto do terraço do que viver com uma mulher impertinente.
25. Água fresca para uma garganta sedenta: tal é uma boa nova vinda de terra longínqua.
26. Fonte turva e manancial contaminado: tal é o justo que cede diante do ímpio.
27. Comer mel em demasia não é bom: usa de moderação nas palavras elogiosas.
28. Como uma cidade desmantelada, sem muralhas: tal é o homem que não é senhor de si.

 
Capítulo 26

1. Assim como a neve é imprópria no estio e a chuva na ceifa, do mesmo modo não convém ao insensato a consideração.
2. Como um pássaro que foge, uma andorinha que voa: uma maldição injustificada permanece sem efeito.
3. O açoite para o cavalo, o freio para o asno: a vara para as costas do tolo.
4. Não respondas ao néscio segundo sua insensatez, para não seres semelhante a ele.
5. Responde ao tolo segundo sua loucura para que ele não se julgue sábio aos seus olhos.
6. Corta os pés, bebe aflições quem confia uma mensagem a um tolo.
7. As pernas de um coxo não têm força: do mesmo modo uma sentença na boca de um tolo.
8. É colocar pedra na funda cumprimentar um tolo.
9. Um espinho que cai na mão de um embriagado: tal é uma sentença na boca dos insensatos.
10. Um arqueiro que fere a todos: tal é aquele que emprega um tolo ou um embriagado.
11. Um cão que volta ao seu vômito: tal é o louco que reitera suas loucuras.
12. Tu tens visto um homem que se julga sábio? Há mais a esperar de um tolo do que dele.
13. Há um leão no caminho, diz o preguiçoso, um leão na estrada!
14. A porta gira sobre seus gonzos: assim o preguiçoso no seu leito.
15. O preguiçoso põe sua mão no prato e custa-lhe muito levá-la à boca.
16. O preguiçoso julga-se mais sábio do que sete homens que respondem com prudência.
17. É pegar pelas orelhas um cão que passa envolver-se num debate que não interessa.
18. Um louco furioso que lança chamas, flechas e morte:
19. tal é o homem que engana seu próximo e diz em seguida: mas, era para brincar.
20. Sem lenha o fogo se apaga: desaparecido o relator, acaba-se a questão.
21. Carvão sobre a brasa, lenha sobre o fogo: tal é um intrigante para atiçar uma disputa.
22. As palavras do mexeriqueiro são como guloseimas: penetram até o fundo das entranhas.
23. Uma liga de prata sobre o pote de argila: tais são as palavras ardentes com um coração malévolo.
24. O que odeia, fala com dissimulação; no seu interior maquina a fraude;
25. quando ele falar com amabilidade, não te fies nele porque há sete abominações em seu coração;
26. pode dissimular seu ódio sob aparências, e sua malícia acabará por ser revelada ao público.
27. Quem cava uma fossa, ali cai; quem rola uma pedra, cairá debaixo dela.
28. A língua mendaz odeia aqueles que ela atinge, a boca enganosa conduz à ruína.

 
Capítulo 27

1. Não te gabes do dia de amanhã porque não sabes o que ele poderá engendrar.
2. Que seja outro que te louve, não a tua própria boca; um estranho, não teus próprios lábios.
3. Pesada é a pedra, pesada a areia, mais pesada ainda é a cólera de um tolo.
4. Crueldade do furor, ímpetos da cólera: mas quem pode suportar o ciúme?
5. Melhor é a correção manifesta do que uma amizade fingida.
6. As feridas do amigo são provas de lealdade, mas os beijos do que odeia são abundantes.
7. Saciado o apetite, calca aos pés o favo de mel; para o faminto tudo o que é amargo parece doce.
8. Um pássaro que anda longe do seu ninho: tal é o homem que vive longe da sua terra.
9. Azeite e incenso alegram o coração: a bondade de um amigo consola a alma.
10. Não abandones teu amigo, o amigo de teu pai; não vás à casa do teu irmão em dia de aflição. Vale mais um vizinho que está perto, que um irmão distante.
11. Sê sábio, meu filho, alegrarás meu coração e eu poderei responder ao que me ultrajar.
12. O homem prudente percebe o mal e se põe a salvo; os imprudentes passam adiante e agüentam o peso.
13. Toma a sua veste, porque ficou fiador de outrem, exige o penhor que deve aos estrangeiros.
14. Quem, desde o amanhecer, louva seu vizinho em alta voz é censurado de o ter amaldiçoado.
15. Goteira que cai de contínuo em dia de chuva e mulher litigiosa, tudo é a mesma coisa.
16. Querer retê-la, é reter o vento, ou pegar azeite com a mão.
17. O ferro com o ferro se aguça; o homem aguça o homem.
18. Quem trata de sua figueira, comerá seu fruto; quem cuida do seu senhor, será honrado.
19. Como o reflexo do rosto na água, assim é o coração do homem para o homem.
20. A morada dos mortos e o abismo nunca se enchem; assim os olhos do homem são insaciáveis.
21. Há um crisol para a prata, um forno para o ouro; assim o homem [é provado] pela sua reputação.
22. Ainda que pisasses o insensato num triturador, entre os grãos, com um pilão, sua loucura não se separaria dele.
23. Certifica-te bem do estado do teu gado miúdo; atende aos teus rebanhos,
24. porque a riqueza não é eterna e a coroa não permanece de geração em geração.
25. Quando se abre o prado, quando brotam as ervas, uma vez recolhido o feno das montanhas,
26. tens ainda cordeiros para te vestir e bodes para pagares um campo,
27. leite de cabra suficiente para teu sustento, para o sustento de tua casa e a manutenção das tuas servas.

 
Capítulo 28

1. O ímpio foge sem que ninguém o persiga, mas o justo sente-se seguro como um leão.
2. Por causa do pecado de um país, multiplicam-se os chefes, mas sob um homem sábio e sensato [a ordem] perdura.
3. Um pobre que oprime miseráveis é qual chuva torrencial, causa de fome.
4. Quem abandona a instrução, louva o ímpio; quem a observa, faz-lhe guerra.
5. Os homens maus não compreendem o que é justo; os que buscam o Senhor tudo entendem.
6. Mais vale um pobre que caminha na integridade do que um rico em caminhos tortuosos.
7. Um filho inteligente segue a instrução; quem convive com os devassos, torna-se a vergonha de seu pai.
8. Quem aumenta sua fortuna por usuras e logro, ajunta para o que tem piedade dos pequenos.
9. Aquele que afasta o ouvido para não ouvir a instrução, até em sua oração é um objeto de horror.
10. Quem seduz os homens corretos para um mau caminho, cairá no fosso que ele mesmo cavou e para os íntegros caberá a herança da felicidade.
11. O rico julga-se sábio, mas o pobre inteligente penetra-o a fundo.
12. Quando os justos triunfam, há muita alegria; quando os ímpios se erguem, cada qual se esconde.
13. Quem dissimula suas faltas, não há de prosperar; quem as confessa e as detesta, obtém misericórdia.
14. Feliz daquele que vive em temor contínuo; mas o que endurece seu coração, cairá na desgraça.
15. Leão rugidor, urso esfaimado: tal é o ímpio que domina sobre um povo pobre.
16. Um príncipe, destituído de senso, é rico em extorsões, mas o que odeia o lucro viverá longos dias.
17. O homem sobre o qual pesa o sangue de outro fugirá até o fosso: não o retenhas.
18. O que caminha na integridade, será salvo; quem seguir por caminhos tortuosos cairá no fosso.
19. O que cultiva seu solo, terá pão à vontade; o que corre atrás das vaidades fartar-se-á de miséria.
20. O homem leal será cumulado de bênçãos; o que, porém, tem pressa de se enriquecer, não ficará impune.
21. Não é bom mostrar-se parcial: há quem cometa este pecado por um pedaço de pão.
22. O homem invejoso precipita-se atrás da fortuna: não sabe que vai cair sobre ele a indigência.
23. Quem corrige alguém, encontra no fim mais gratidão do que lisonjas.
24. Quem furta de seu pai ou de sua mãe, dizendo: Isto não é pecado!, é colega do bandoleiro.
25. O homem cobiçoso provoca contendas, mas o que se fia no Senhor, será saciado.
26. O que se fia em seu próprio coração, é um tolo; quem caminha com sabedoria, escapará do perigo.
27. O que dá ao pobre, não padecerá penúria, mas quem fecha os olhos ficará cheio de maldições.
28. Quando se erguem os ímpios, cada qual se oculta; quando eles perecem, multiplicam-se os justos.

 
Capítulo 29

1. O homem que, apesar das admoestações, se obstina será logo irremediavelmente arruinado.
2. Quando dominam os justos, alegra-se o povo; quando governa o ímpio, o povo geme.
3. Quem ama a sabedoria alegra seu pai; o que freqüenta as prostitutas dissipa sua fortuna.
4. É pela justiça que um rei firma seu país, mas aquele que o sobrecarrega com muitos impostos, o arruína.
5. O homem que adula seu próximo estende redes aos seus pés.
6. No delito do ímpio há um ardil, mas o justo corre alegremente.
7. O justo conhece a causa dos pobres; o ímpio a ignora.
8. Os escarnecedores ateiam fogo na cidade, mas os sábios acalmam o furor.
9. Discute um sábio com um tolo? Que ele se zangue ou que ele se ria, não terá paz.
10. Os homens sanguinários odeiam o íntegro, mas os homens retos tomam cuidado com sua vida.
11. O insensato desafoga toda sua ira, mas o sábio a domina e a recalca.
12. Quando um soberano presta atenção às mentiras, todos os seus servidores tornam-se maus.
13. O pobre e o opressor se encontram: é o Senhor que ilumina os olhos de cada um.
14. Um rei que julga com eqüidade os humildes terá seu trono firmado para sempre.
15. Vara e correção dão a sabedoria; menino abandonado à sua vontade se torna a vergonha da mãe.
16. Quando se multiplicam os ímpios, multiplica-se o crime, mas os justos contemplarão sua queda.
17. Corrige teu filho e ele te dará repouso e será as delícias de tua vida.
18. Por falta de visão, o povo vive sem freios; ditoso o que observa a instrução!
19. Não é com palavras que se corrige um escravo, porque ele compreende, mas não se atém a elas.
20. Viste um homem precipitado no falar: há mais esperança num tolo do que nele.
21. Um escravo mimado desde sua juventude, acaba por se tornar desobediente.
22. Um homem irascível excita contendas; o colérico acumula as faltas.
23. O orgulho de um homem leva-o à humilhação, mas o humilde de espírito obtém a glória.
24. Quem partilha com o ladrão, odeia-se a si mesmo; ouve a maldição e nada denuncia.
25. O temor dos homens prepara um laço, mas quem confia no Senhor permanece seguro.
26. Muitos buscam o favor dum príncipe, mas é do Senhor que cada homem alcança justiça
27. O homem iníquo é abominado pelos justos; o ímpio abomina aquele que anda pelo caminho certo.

 
Capítulo 30

1. Palavras de Agur, filho de Jaque, de Massa. Palavras desse homem: Eu me fatiguei por Deus, estou esgotado por Deus, eis-me entregue.
2. Porque eu sou o mais insensato dos homens, não tenho a inteligência de um homem.
3. Não aprendi a sabedoria e não conheci a ciência do Santo.
4. Quem subiu ao céu e quem dele desceu? Quem reteve o vento em suas mãos? Quem envolveu as águas em seu manto? Quem determinou as extremidades da terra? Qual é o seu nome, qual é o nome de seu filho, se é que o sabes?
5. Toda a palavra de Deus é provada, é um escudo para quem se fia nele.
6. Não acrescentes nada às suas palavras, para que ele não te corrija e sejas achado mentiroso.
7. Eu te peço duas coisas, não mas negues antes de minha morte:
8. afasta de mim falsidade e mentira, não me dês nem pobreza nem riqueza, concede-me o pão que me é necessário,
9. para que, saciado, eu não te renegue, e não diga: Quem é o Senhor? Ou que, pobre, eu não roube, e não profane o nome do meu Deus.
10. Não calunies um escravo junto de seu senhor, para que ele não te amaldiçoe e sofras o castigo.
11. Há uma raça que amaldiçoa seu pai e que não abençoa sua mãe.
12. Há uma raça que se julga pura e que não está limpa de sua mancha.
13. Há uma raça , oh, cujos olhos são altivos, com pálpebras levantadas!
14. Há uma raça cujos dentes são espadas e os maxilares, facas, para devorar os desvalidos da terra e os indigentes dentre os homens.
15. A sanguessuga tem duas filhas: Dá! Dá! Há três coisas insaciáveis, quatro mesmo, que nunca dizem: Basta!
16. A habitação dos mortos, o seio estéril, o solo que a água jamais sacia e o fogo que nunca diz: Basta!
17. Os olhos de quem zomba do pai, de quem se recusa obedecer sua mãe: os corvos da torrente o arrebatarão, os filhos da águia o devorarão.
18. Há três coisas que me são mistério, quatro mesmo, que não compreendo:
19. O vôo da águia nos céus, o rastejar da cobra no rochedo, a navegação de um navio em pleno mar, o caminho de um homem junto a uma jovem.
20. Tal é o procedimento da mulher adúltera: come, depois limpa a boca, dizendo: Não fiz mal algum.
21. Três coisas fazem tremer a terra, há mesmo quatro que ela não pode suportar:
22. um escravo que se torna rei, um tolo que está farto de pão,
23. uma filha desprezada que se casa, uma serva que suplanta sua senhora.
24. Há quatro animais pequenos na terra que, entretanto, são sábios, muito sábios:
25. as formigas, povo sem força, que, durante o verão, preparam suas provisões,
26. os arganazes, povo sem poder, que fazem sua habitação nos rochedos,
27. os gafanhotos, que não têm rei e avançam todos em bandos,
28. a lagartixa, que se pode pegar na mão e penetra nos palácios reais.
29. Há três coisas que têm bela aparência, quatro mesmo, que andam garbosamente:
30. O leão, o mais bravo dos animais, que não recua diante de nada,
31. o animal cingido pelos rins, o bode e o rei acompanhado de seu exército.
32. Se tiveres a asneira de elevar-te a ti mesmo, refletindo nisso, depois, põe tua mão à boca,
33. porque quem comprime o leite, tira dele a manteiga, quem aperta o nariz, faz jorrar o sangue, quem provoca a cólera, promove a disputa.

 
Capítulo 31

1. Palavras de Lamuel, rei de Massa, que lhe foram ensinadas por sua mãe:
2. Meu filho, filho de minhas entranhas, que te direi eu? Não, ó filho de meus votos!
3. Não dês teu vigor às mulheres e teu caminho àquelas que perdem os reis.
4. Não é próprio dos reis, Lamuel, não convém aos reis beber vinho, nem aos príncipes dar-se aos licores,
5. para que, bebendo, eles não esqueçam a lei e não desconheçam o direito de todos os infelizes.
6. Dai a bebida forte àquele que desfalece e o vinho àquele que tem amargura no coração:
7. que ele beba e esquecerá sua miséria e já não se lembrará de suas mágoas.
8. Abre tua boca a favor do mundo, pela causa de todos os abandonados;
9. abre tua boca para pronunciar sentenças justas, faze justiça ao aflito e ao indigente.
10. Uma mulher virtuosa, quem pode encontrá-la? Superior ao das pérolas é o seu valor.
11. Confia nela o coração de seu marido, e jamais lhe faltará coisa alguma.
12. Ela lhe proporciona o bem, nunca o mal, em todos os dias de sua vida.
13. Ela procura lã e linho e trabalha com mão alegre.
14. Semelhante ao navio do mercador, manda vir seus víveres de longe.
15. Levanta-se, ainda de noite, distribui a comida à sua casa e a tarefa às suas servas.
16. Ela encontra uma terra, adquire-a. Planta uma vinha com o ganho de suas mãos.
17. Cinge os rins de fortaleza, revigora seus braços.
18. Alegra-se com o seu lucro, e sua lâmpada não se apaga durante a noite.
19. Põe a mão na roca, seus dedos manejam o fuso.
20. Estende os braços ao infeliz e abre a mão ao indigente.
21. Ela não teme a neve em sua casa, porque toda a sua família tem vestes duplas.
22. Faz para si cobertas: suas vestes são de linho fino e de púrpura.
23. Seu marido é considerado nas portas da cidade, quando se senta com os anciãos da terra.
24. Tece linha e o vende, fornece cintos ao mercador.
25. Fortaleza e graça lhe servem de ornamentos; ri-se do dia de amanhã.
26. Abre a boca com sabedoria, amáveis instruções surgem de sua língua.
27. Vigia o andamento de sua casa e não come o pão da ociosidade.
28. Seus filhos se levantam para proclamá-la bem-aventurada e seu marido para elogiá-la.
29. Muitas mulheres demonstram vigor, mas tu excedes a todas.
30. A graça é falaz e a beleza é vã; a mulher inteligente é a que se deve louvar.
31. Dai-lhe o fruto de suas mãos e que suas obras a louvem nas portas da cidade.

 

Livro do Eclesiastes

Livro do Eclesiastes

 Capítulo 1

1. Palavras do Eclesiastes, filho de Davi, rei de Jerusalém.
2. Vaidade das vaidades, diz o Eclesiastes, vaidade das vaidades! Tudo é vaidade.
3. Que proveito tira o homem de todo o trabalho com que se afadiga debaixo do sol?
4. Uma geração passa, outra vem; mas a terra sempre subsiste.
5. O sol se levanta, o sol se põe; apressa-se a voltar a seu lugar; em seguida, se levanta de novo.
6. O vento vai em direção ao sul, vai em direção ao norte, volteia e gira nos mesmos circuitos.
7. Todos os rios se dirigem para o mar, e o mar não transborda. Em direção ao mar, para onde correm os rios, eles continuam a correr.
8. Todas as coisas se afadigam, mais do que se pode dizer. A vista não se farta de ver, o ouvido nunca se sacia de ouvir.
9. O que foi é o que será: o que acontece é o que há de acontecer. Não há nada de novo debaixo do sol.
10. Se é encontrada alguma coisa da qual se diz: Veja: isto é novo, ela já existia nos tempos passados.
11. Não há memória do que é antigo, e nossos descendentes não deixarão memória junto daqueles que virão depois deles.
12. Eu, o Eclesiastes, fui rei de Israel em Jerusalém.
13. Apliquei meu espírito a um estudo atencioso e à sábia observação de tudo que se passa debaixo dos céus: Deus impôs aos homens esta ocupação ingrata.
14. Vi tudo o que se faz debaixo do sol, e eis: tudo vaidade, e vento que passa.
15. O que está curvado não se pode endireitar, e o que falta não se pode calcular.
16. Eu disse comigo mesmo: Eis que amontoei e acumulei mais sabedoria que todos os que me precederam em Jerusalém. Porque meu espírito estudou muito a sabedoria e a ciência,
17. e apliquei o meu espírito ao discernimento da sabedoria, da loucura e da tolice. Mas cheguei à conclusão de que isso é também vento que passa.
18. Porque no acúmulo de sabedoria, acumula-se tristeza, e que aumenta a ciência, aumenta a dor.

 
Capítulo 2

1. Eu disse comigo mesmo: Vamos, tentemos a alegria e gozemos o prazer. Mas isso é também vaidade.
2. Do riso eu disse: Loucura! e da alegria: Para que serve?
3. Resolvi entregar minha carne ao vinho, enquanto meu espírito se aplicaria ainda à sabedoria; procurar a loucura até que eu visse o que é bom para os filhos dos homens fazerem durante toda a sua vida debaixo dos céus.
4. Empreendi grandes trabalhos, construí para mim casas e plantei vinhas;
5. fiz jardins e pomares, onde plantei árvores frutíferas de toda espécie;
6. cavei reservatórios de água para regar o bosque. Comprei escravos e escravas; e possuí outros nascidos em casa.
7. Possuí muito gado, bois e ovelhas, mais que todos os que me precederam em Jerusalém.
8. Amontoei prata e ouro, riquezas de reis e de províncias. Procurei cantores e cantoras, e que faz as delícias dos filhos dos homens: mulheres e mulheres.
9. Fui maior que todos os que me precederam em Jerusalém; e, ainda assim, minha sabedoria permaneceu comigo.
10. Tudo que meus olhos desejaram, não lhes recusei; não privei meu coração de nenhuma alegria. Meu coração encontrava sua alegria no meu trabalho; este é o fruto que dele tirei.
11. Mas, quando me pus a considerar todas as obras de minhas mãos e o trabalho ao qual me tinha dado para fazê-las, eis: tudo é vaidade e vento que passa; não há nada de proveitoso debaixo do sol.
12. Passei então à meditação da sabedoria, da loucura e da tolice. (Qual é o homem, designado desde muito tempo, que virá depois do rei?)
13. Cheguei à conclusão de que a sabedoria leva vantagem sobre a loucura, como a luz leva vantagem sobre as trevas.
14. Os olhos do sábio estão na cabeça, mas o insensato anda nas trevas. Mas eu notei que um mesmo destino espera a ambos,
15. e disse comigo mesmo: A minha sorte será a mesma que a do insensato. Então para que me serve toda a minha sabedoria? Por isso disse eu comigo mesmo, que tudo isso é ainda vaidade.
16. Porque a memória do sábio não é mais eterna que a do insensato, pois que, passados alguns dias, ambos serão esquecidos. Mas então? Tanto morre o sábio como morre o louco!
17. E eu detestei a vida, porque, a meus olhos, tudo é mau no que se passa debaixo do sol, tudo é vaidade e vento que passa.
18. Também se tornou odioso para mim todo o trabalho que produzi debaixo do sol, porque devo deixá-lo àquele que virá depois de mim.
19. E quem sabe se ele será sábio ou insensato? Contudo, é ele que disporá de todo o fruto dos meus trabalhos que debaixo do sol em custaram trabalho e sabedoria. Também isso é vaidade.
20. E eu senti o coração cheio de desgosto por todo o labor que suportei debaixo do sol.
21. Que um homem trabalhe com sabedoria, ciência e bom êxito para deixar o fruto de seu labor a outro que em nada colaborou, note-se bem, é uma vaidade e uma grande desgraça.
22. Com efeito, que resta ao homem de todo o seu labor, de todas as suas azáfamas a que se entregou debaixo do sol?
23. Todos os seus dias são apenas dores, seu trabalhos apenas tristezas; mesmo durante a noite ele não goza de descanso. Isto é ainda vaidade.
24. Não há nada melhor para o homem que comer, beber e gozar o bem-estar no seu trabalho. Mas eu notei que também isso vem da mão de Deus;
25. pois, quem come e bebe, senão graças a ele? Àquele que lhe é agradável Deus dá sabedoria, ciência e alegria; mas ao pecador ele dá a tarefa de recolher e acumular bens, que depois passará a quem lhe agradar. Isto é ainda vaidade e vento que passa.

 
Capítulo 3

1. Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo dos céus:
2. tempo para nascer, e tempo para morrer; tempo para plantar, e tempo para arrancar o que foi plantado;
3. tempo para matar, e tempo para sarar; tempo para demolir, e tempo para construir;
4. tempo para chorar, e tempo para rir; tempo para gemer, e tempo para dançar;
5. tempo para atirar pedras, e tempo para ajuntá-las; tempo para dar abraços, e tempo para apartar-se.
6. Tempo para procurar, e tempo para perder; tempo para guardar, e tempo para jogar fora;
7. tempo para rasgar, e tempo para costurar; tempo para calar, e tempo para falar;
8. tempo para amar, e tempo para odiar; tempo para a guerra, e tempo para a paz.
9. Que proveito tira o trabalhador de sua obra?
10. Eu vi o trabalho que Deus impôs aos homens:
11. todas as coisas que Deus fez são boas, a seu tempo. Ele pôs, além disso, no seu coração a duração inteira, sem que ninguém possa compreender a obra divina de um extremo a outro.
12. Assim eu concluí que nada é melhor para o homem do que alegrar-se e procurar o bem-estar durante sua vida;
13. e que comer, beber e gozar do fruto de seu trabalho é um dom de Deus.
14. Reconheci que tudo o que Deus fez subsistirá sempre, sem que se possa ajuntar nada, nem nada suprimir. Deus procede desta maneira para ser temido.
15. Aquilo que é, já existia, e aquilo que há de ser, já existiu; Deus chama de novo o que passou.
16. Debaixo do sol, observei ainda o seguinte: a injustiça ocupa o lugar do direito, e a iniqüidade ocupa o lugar da justiça.
17. Então eu disse comigo mesmo: Deus julgará o justo e o ímpio, porque há tempo para todas as coisas e tempo para toda a obra.
18. Eu disse comigo mesmo a respeito dos homens: Deus quer prová-los e mostrar-lhes que, quanto a eles, são semelhantes aos brutos.
19. Porque o destino dos filhos dos homens e o destino dos brutos é o mesmo: um mesmo fim os espera. A morte de um é a morte do outro. A ambos foi dado o mesmo sopro, e a vantagem do homem sobre o bruto é nula, porque tudo é vaidade.
20. Todos caminham para um mesmo lugar, todos saem do pó e para o pó voltam.
21. Quem sabe se o sopro de vida dos filhos dos homens se eleva para o alto, e o sopro de vida dos brutos desce para a terra?
22. E verifiquei que nada há de melhor para o homem do que alegrar-se com o fruto de seus trabalhos. Esta é a parte que lhe toca. Pois, quem lhe dará a conhecer o que acontecerá com o volver dos anos.?

 
Capítulo 4

1. Pus-me então a considerar todas as opressões que se exercem debaixo do sol. Eis aqui as lágrimas dos oprimidos e não há ninguém para consolá-los. Seus opressores fazem-lhes violência e não há ninguém para os consolar.
2. E julguei os mortos, que estão mortos, mais felizes que os vivos que ainda estão em vida,
3. e mais feliz que uns e outros o aborto que não chegou à existência, aquele que não viu o mal que se comete debaixo do sol.
4. Vi que todo o trabalho, toda a habilidade numa obra, não passa de emulação de um homem diante do seu próximo. Isto é também vaidade e vento que passa.
5. O insensato cruza as mãos e devora sua própria carne.
6. Mais vale uma mão cheia de tranqüilidade, que as duas mãos cheias de trabalho e de vento que passa.
7. Vi ainda outra vaidade debaixo do sol:
8. eis um homem sozinho, sem alguém junto de si, nem filho, nem irmão; trabalha sem parar, e, não obstante, seus olhos não se fartam de riquezas. Para quem trabalho eu, privando-me de todo bem-estar? Eis uma vaidade e um trabalho ingrato.
9. Dois homens juntos são mais felizes que um isolado, porque obterão um bom salário de seu trabalho.
10. Se um vem a cair, o outro o levanta. Mas ai do homem solitário: se ele cair não há ninguém para o levantar.
11. Da mesma forma, se dormem dois juntos, aquecem-se; mas um homem só, como se há de aquecer?
12. Se é possível dominar o homem que está sozinho, dois podem resistir ao agressor, e um cordel triplicado não se rompe facilmente.
13. Mais vale um adolescente pobre, mas sábio, que um rei velho, mas insensato, que já não aceita conselhos;
14. porque ele sai da prisão para reinar, se bem que pobre de nascimento no seu reino.
15. Vi todos os viventes, que se acham debaixo do sol, apressarem-se junto do adolescente que o ia suceder;
16. era interminável o cortejo dessa multidão, à testa da qual ele caminhava. Contudo, a geração seguinte não se regozijará por sua causa. Tudo isso é ainda vaidade e vento que passa.
17. Vê onde pões teu pé quando entras no templo do Senhor. Mais vale a obediência que os sacrifícios dos insensatos, porque eles só sabem fazer o mal.

 
Capítulo 5

1. Não te apresses em abrir a boca; que teu coração não se apresse em proferir palavras diante de Deus, porque Deus está no céu, e tu na terra; que tuas palavras sejam, portanto, pouco numerosas.
2. Porque muitas ocupações geram sonhos, e a torrente de palavras faz nascer resoluções insensatas.
3. Quando fizeres um voto a Deus, realiza-o sem delonga, porque aos insensatos Deus não é favorável. Portanto, cumpre teu voto.
4. Mais vale não fazer voto, que prometer a não ser fiel à promessa.
5. Não permitas à tua boca fazer pecar a tua carne, e não digas ao sacerdote que isto foi apenas uma inadvertência, para não suceder que Deus se irrite com essas palavras e reduza a nada tua empresa.
6. Porque muitos cuidados geram sonhos, e a torrente de palavras, despropósitos. Assim, pois, teme a Deus.
7. Se vires na região a opressão do pobre, ou a violação do direito e da justiça, não te admires, porque o que é grande é observado por outro maior e ambos por maiores ainda.
8. Sob todos os pontos de vista, uma vantagem para uma nação é um rei para um país cultivado.
9. Aquele que ama o dinheiro nunca se fartará, e aquele que ama a riqueza não tira dela proveito. Também isso é vaidade.
10. Quando abundam os bens, numerosos são os que comem, e que vantagem há para os seus possuidores, senão ver como se comportam?
11. Doce é o sono dos trabalhador, tenha ele pouco ou muito para comer; mas a abundância do rico o impede de dormir.
12. Vi uma dolorosa miséria debaixo do sol: as riquezas que um possuidor guarda para sua desgraça.
13. Caso essas riquezas venham a se perder em conseqüência de algum desagradável acontecimento, se ele tiver um filho, nada lhe restará na sua mão.
14. Nu saiu ele do ventre de sua mãe, tão nu como veio sairá desta vida, e, pelo seu trabalho, nada receberá que possa levar em suas mãos.
15. Sim, é uma dolorosa miséria que ele se vá assim como veio; e que vantagem terá ele por ter trabalhado para o vento?
16. Todos os seus dias foram consumidos numa sombria dor, em extrema amargura, no sofrimento e na irritação.
17. Eis o que eu reconheci ser bom: que é conveniente ao homem comer, beber, gozar de bem-estar em todo o trabalho ao qual ele se dedica debaixo do sol, durante todos os dias de vida que Deus lhe der. Esta é a sua parte.
18. Se Deus dá ao homem bens e riquezas, e lhe concede delas comer e delas tomar sua parte, e se alegrar no seu trabalho, isso é um dom de Deus.
19. Ele não pensa no número dos dias de sua vida, quando Deus derrama em seu coração a alegria.

 
Capítulo 6

1. Vi um mal debaixo do sol, que calca pesadamente o homem.
2. Isto é, um homem a quem Deus deu sorte, riquezas e honras; nada que possa desejar lhe falta, mas Deus não lhe concede o gozo, reservando-o a um estrangeiro. Isso é vaidade e dor.
3. Um homem, embora crie cem filhos, viva numerosos anos e numerosos dias nesses anos, se não pôde fartar-se de felicidade e não tiver tido sepultura, eu digo que um aborto lhe é preferível.
4. Porque é em vão o fato de o aborto ter vindo e ido para as trevas. Seu nome permanecerá na obscuridade,
5. e não terá visto nem conhecido o sol. Melhor é a sua sorte que a deste homem.
6. E, mesmo que alguém vivesse duas vezes mil anos, sem provar a felicidade, não vão todos para o mesmo lugar?
7. Todo o trabalho do homem é para a sua boca, e, entretanto, seus desejos não são satisfeitos.
8. Que superioridade tem o sábio sobre o louco? Que vantagem há para o pobre saber se comportar na vida?
9. Melhor é o que vêem os olhos do que a agitação dos desejos. Isso é ainda vaidade e vento que passa.
10. A tudo que existe, desde há muito foi dado um nome: sabe-se o que é um homem, e ele não pode disputar com um mais forte do que ele.
11. Muitas palavras, muita vaidade. De tudo isso, qual é o proveito para o homem?
12. Pois, quem pode saber o que é bom para o homem na vida, durante os dias de sua vã existência, que ele atravessa como uma sombra? Que poderá dizer ao homem o que acontecerá depois dele debaixo do sol?

 
Capítulo 7

1. Boa fama vale mais que bom perfume; mais vale o dia da morte que o dia do nascimento.
2. Melhor é ir para a casa onde há luto que para a casa onde há banquete. Porque aí se vê aparecer o fim de todo homem e os vivos nele refletem.
3. Tristeza vale mais que riso, porque a tristeza do semblante é boa para o coração.
4. O coração dos sábios está na casa do luto, o coração dos insensatos na casa da alegria.
5. É melhor ouvir a reprimenda de um sábio que a canção de um tolo,
6. porque qual o crepitar dos espinhos na caldeira, tal é o riso do insensato. E isso é ainda vaidade.
7. A opressão torna um sábio insensato; os presentes corrompem o coração.
8. Mais vale o fim de uma coisa que seu começo. Um espírito paciente vale mais que um espírito orgulhoso.
9. Não cedas prontamente ao espírito de irritação; é no coração dos insensatos que reside a irritação.
10. Não digas jamais: Como pode ser que os dias de outrora eram melhores que estes de agora? Porque não é a sabedoria que te inspira esta pergunta.
11. A sabedoria é tão boa como uma herança, e é de proveito aos que vêem o sol.
12. Pois está-se à sombra da sabedoria como se está à sombra do dinheiro: a utilidade do saber consiste em que a sabedoria dá vida ao que a possui.
13. Considera a obra de Deus: quem poderá endireitar o que ele fez curvo?
14. No dia da felicidade, sê alegre; no dia da desgraça, pensa; porque Deus fez uma e outra, de tal modo que o homem não descubra o futuro.
15. No decurso de minha vã existência, vi tudo isso: há o justo que morre permanecendo justo e o ímpio que dura apesar de sua malícia.
16. Não sejas justo excessivamente, nem sábio além da medida. Por que te tornarias estúpido?
17. Não sejas excessivamente mau, e não sejas insensato. Por que haverias de morrer antes de tua hora?
18. É bom que guardes isto, e que não negligencies aquilo: porque aquele que teme a Deus, realizará uma e outra coisa.
19. A sabedoria dá ao sábio mais força que dez chefes de guerra reunidos numa cidade.
20. Não há homem justo sobre a terra que faça o bem sem jamais pecar.
21. Não prestes atenção em todas as palavras que se dizem, para que não ouças dizer que teu servo fala mal de ti;
22. porque teu coração bem sabe que tu mesmo, muitas vezes, falaste mal dos outros.
23. Tudo isso eu perscrutei com sabedoria. Eu disse comigo mesmo: Eu quero ser sábio. Mas a sabedoria ficou longe de mim.
24. Aquilo que acontece é longínquo, profundo, profundo: quem o poderá sondar?
25. Eu me apliquei de todo o coração a perscrutar, a sondar a sabedoria e a razão das coisas, a reconhecer que a maldade é uma loucura e a falta de razão uma demência.
26. Eu descobri que a mulher é coisa mais amarga que a morte, porque ela é um laço, e seu coração é uma rede, e suas mãos, cadeias. Aquele que é agradável a Deus lhe escapa, mas o pecador será preso por ela.
27. Eis o que encontrei, diz o Eclesiastes, procurando descobrir a razão de uma coisa depois de outra.
28. Eis o que eu procuro continuamente sem descobrir: encontrei um homem entre mil, mas nenhuma mulher entre todas
29. Somente encontrei isto: Deus criou o homem reto, mas é ele que procura os extravios.

 
Capítulo 8

1. Quem é comparável ao sábio, que conhece a razão das coisas? A sabedoria de um homem ilumina-lhe o semblante e a severidade de seus traços é modificada por ela.
2. Observa a ordem do rei e, por causa do juramento feito a Deus,
3. não te apresses a fugir de sua presença. Não te comprometas com um mau negócio, porque o rei faz tudo que lhe apraz.
4. Com efeito, sua palavra é soberana; e quem ousaria dizer-lhe: Que fazes tu?
5. Aquele que observa o preceito não provará mal algum, e o coração de um sábio conhece o tempo e o julgamento.
6. Porque para tudo há um tempo e um julgamento, e a desgraça pesa muito forte sobre o homem.
7. Ele não conhece o futuro; quem lhe poderia dizer como as coisas se passarão?
8. O homem não é senhor de seu sopro de vida, nem é capaz de o conservar. Ninguém tem poder sobre o dia de sua morte, nem faculdade de afastar esse combate; e o crime não pode salvar o criminoso.
9. Eis o que eu vi, aplicando meu espírito a tudo que se faz debaixo do sol, quando um homem domina sobre outro homem para a desgraça deste último:
10. vi ímpios receberem sepultura e gozarem de repouso, enquanto que aqueles que tinham feito o bem iam para longe do lugar santo e eram esquecidos na cidade. Isto é ainda vaidade.
11. Porque a sentença contra os maus atos não é executada imediatamente, o coração dos homens se enche de desejo de fazer o mal;
12. porque o pecador culpado de cem crimes vê sua vida prolongada. Eu sei, no entanto, que a felicidade é para os que temem a Deus, que sua presença enche de respeito,
13. e que não haverá nenhuma felicidade para o ímpio, o qual, como a sombra, não prolongará sua vida, porque não tem temor a Deus.
14. Há outra vaidade que aparece sobre a terra: há justos aos quais acontece o que conviria ao proceder de celerados; e há ímpios aos quais acontece o que conviria ao proceder de justos. Digo que isso é também vaidade.
15. Por isso louvei a alegria, porque não há nada de melhor para o homem, debaixo do sol, do que comer, beber e se divertir; possa isto acompanhá-lo no seu trabalho, ao longo dos dias que Deus lhe outorgar debaixo do sol.
16. Quando meu espírito se entregou ao estudo da sabedoria e à observação das coisas que se passam sobre a terra – porque nem de dia, nem de noite os olhos dos homens encontram repouso -,
17. verifiquei, em toda a obra de Deus, que o homem nada pode descobrir do que se faz debaixo do sol. Ele se fatiga a investigar, mas não encontra, e se mesmo um sábio pensasse ter alcançado, isso não aconteceria.

 
Capítulo 9

1. Apliquei então meu espírito ao esclarecimento de tudo isso: os justos, os sábios e seus atos estão na mão de Deus. O homem ignora se isso será amor ou ódio. Tudo é possível.
2. Um mesmo destino para todos: há uma sorte idêntica para o justo e para o ímpio, para aquele que é bom como para aquele que é impuro, para o que oferece sacrifícios como para o que deles se abstém. O homem bom é tratado como o pecador e o perjuro como o que respeita seu juramento.
3. Entre tudo que se faz debaixo do sol, é uma desgraça só existir para todos um mesmo destino: por isso o espírito dos homens transborda de malícia, a loucura ocupa o coração deles durante a vida, depois da qual vão para a casa dos mortos.
4. Porque, enquanto um homem permanece entre os vivos, há esperança; mais vale um cão vivo que um leão morto.
5. Com efeito, os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos não sabem mais nada; para eles não há mais recompensa, porque sua lembrança está esquecida.
6. Amor, ódio, ciúme, tudo já pereceu; não terão mais parte alguma, para o futuro, no que se faz debaixo do sol.
7. Ora, pois, come alegremente teu pão e bebe contente teu vinho, porque Deus já apreciou teus trabalhos.
8. Traja sempre vestes brancas e haja sempre azeite (perfumado) em tua cabeça.
9. Desfruta da vida com a mulher que amas, durante todos os dias da fugitiva e vã existência que Deus te concede debaixo do sol. Esta é tua parte na vida, o prêmio do labor a que te entregas debaixo do sol.
10. Tudo que tua mão encontra para fazer, faze-o com todas as tuas faculdades, pois que na região dos mortos, para onde vais, não há mais trabalho, nem ciência, nem inteligência, nem sabedoria.
11. Nas minhas investigações debaixo do sol, vi ainda que a corrida não é para os ágeis, nem a batalha para os bravos, nem o pão para os prudentes, nem a riqueza para os inteligentes, nem o favor para os sábios: todos estão à mercê das circunstâncias e da sorte.
12. O homem não conhece sua própria hora: semelhantes aos peixes apanhados pela rede fatal, os passarinhos presos no laço, os homens são enlaçados na hora da calamidade que se arremessa sobre eles de súbito.
13. Vi também, debaixo do sol, este exemplo de uma sabedoria que me pareceu grande:
14. havia uma pequena cidade, pouco populosa, contra a qual veio um poderoso rei que a sitiou e construiu contra ela fortes trincheiras.
15. Ora, aí se encontrava um pobre homem, prudente, cuja sabedoria salvou a cidade; e ninguém se lembrou desse pobre homem.
16. Por isso eu disse: A sabedoria vale mais que a força; mas a sabedoria do pobre é desprezada e às suas palavras não se dão ouvidos.
17. As palavras calmas dos sábios são mais bem ouvidas que os gritos de um chefe entre insensatos.
18. A sabedoria vale mais que as máquinas de guerra; mas um só pecador pode causar a perda de muitos bens.

 
Capítulo 10

1. Uma mosca morta infeta e corrompe o azeite perfumado; um pouco de loucura é suficiente para corromper a sabedoria.
2. O coração do sábio está à sua direita: o coração do insensato à sua esquerda.
3. No meio da estrada, quando caminha o tolo, falta-lhe o bom senso, e todos dizem: É um louco.
4. Se a ira do príncipe se inflama contra ti, não abandones teu lugar, porque a calma previne grandes erros.
5. Vi debaixo do sol um mal: uma falha da parte do soberano:
6. o insensato ocupa os mais altos cargos, enquanto que os homens de valor estão colocados em empregos inferiores.
7. Vi escravos montarem a cavalo, e príncipes andarem a pé como escravos.
8. Quem cava uma fossa, pode nela cair, e que derruba um muro pode ser picado por uma serpente.
9. Quem lavra a pedra pode machucar-se; quem fende achas de lenha arrisca a ferir-se.
10. Se o ferro está embotado, e não for afiado o gume, é preciso redobrar de esforços; mas afiá-lo é uma vantagem que a sabedoria proporciona.
11. Se a serpente morde por erro de encantamento, não vale a pena ser encantador.
12. As palavras de um sábio alcançam-lhe o favor, mas os lábios dos insensatos causam a sua perda.
13. O começo de suas palavras é uma estultícia, e o fim de seu discurso é uma perigosa insânia.
14. E o insensato multiplica as palavras. O homem não conhece o futuro. Quem lhe poderia dizer o que há de acontecer em seguida?
15. O trabalho do insensato o fatiga: ele que nem sequer sabe ir à cidade.
16. Ai de ti, país, cujo rei é um menino e cujos príncipes comem desde a manhã.
17. Feliz de ti, país, cujo rei é de família nobre, e cujos príncipes comem à hora conveniente, não por devassidão, mas para sua própria refeição.
18. Por causa do desleixo ir-se-á abaixando o madeiramento, e quando as mãos são inativas, choverá dentro da casa.
19. Faz-se festa para se divertir; o vinho alegra a vida, e o dinheiro serve para tudo.
20. Não digas mal do rei, nem mesmo em pensamento; mesmo dentro de teu quarto, não digas mal do poderoso. Porque um passarinho do céu poderia levar tua palavra e as aves repetirem tuas frases.

 
Capítulo 11

1. Atira teu pão sobre a superfície das águas; depois de muito tempo, achá-lo-ás de novo.
2. Faze (de tua riqueza) sete e mesmo oito partes, porque não sabes que calamidade pode sobrevir à terra.
3. Quando as nuvens estiverem carregadas, derramarão chuvas sobre a terra. Quando tomba uma árvore para o sul ou para o norte, lá onde cai, fica.
4. Quem observa o vento não semeia; e quem examina as nuvens não sega.
5. Do mesmo modo que não sabes qual é o caminho do sopro da vida, e como se formam os ossos no seio de uma mãe, assim também ignoras a obra de Deus que faz todas as coisas.
6. Semeia a tua semente desde a manhã, e não deixes tuas mãos ociosas até a noite. Porque não sabes o que terá bom êxito, se isto ou aquilo, ou se ambas as coisas são igualmente úteis.
7. Doce é a luz e é um deleite para os olhos ver o sol.
8. Por mais numerosos que sejam os anos de vida, regozija-se o homem em todos eles, mas deve pensar nos dias obscuros que serão numerosos. Tudo o que acontece é vaidade.
9. Jovem, rejubila-te na tua adolescência, e, enquanto ainda és jovem, entrega teu coração à alegria. Anda nos caminhos de teu coração e segundo os olhares de teus olhos, mas fica sabendo que de tudo isso Deus te fará prestar conta.
10. Exclui a tristeza de teu coração, poupa o sofrimento a teu corpo, porque a juventude e a adolescência são vaidade.

 
Capítulo 12

1. Mas, lembra-te de teu Criador nos dias de tua juventude, antes que venham os maus dias e que apareçam os anos dos quais dirás: Não sinto prazer neles;
2. antes que se escureçam o sol, a luz, a lua a as estrelas, e que à chuva sucedam as nuvens;
3. anos nos quais tremem os guardas da casa, nos quais se curvam os robustos e param de moer as moleiras pouco numerosas, nos quais se escurecem aqueles que olham pela janela,
4. nos quais se fecham para a rua os dois batentes da porta, nos quais se enfraquece o ruído de moinho, nos quais os homens se levantam ao canto do passarinho, nos quais se extingue o som da voz,
5. nos quais se temem as subidas; nos quais se terão sobressaltos no caminho, nos quais a amendoeira branqueia, nos quais o gafanhoto engorda, nos quais a alcaparra perde a sua eficácia, porque o homem se encaminha para a morada eterna e os carpidores percorrem as ruas;
6. antes que se rompa o cordão de prata, que se despedace a lâmpada de ouro, antes que se quebre a bilha na fonte, e que se fenda a roldana sobre a cisterna;
7. antes que a poeira retorne à terra para se tornar o que era; e antes que o sopro de vida retorne a Deus que o deu.
8. Vaidade das vaidades!, diz o Eclesiastes, tudo é vaidade.
9. Além de ser sábio, o Eclesiastes ensinou a ciência ao povo. Ele pesou e perscrutou; dispôs numerosas máximas.
10. O Eclesiastes aplicou-se à procura de sentenças agradáveis e a redigir com exatidão adágios verídicos.
11. As palavras dos sábios são semelhantes a aguilhões; as sentenças, reunidas em coleção, são parecidas a estacas plantadas, inspiradas por um só pastor.
12. De resto, meu filho, quanto a maior número de palavras que estas, fica sabendo que se podem multiplicar os livros a não mais acabar, e que muito estudo se torna uma fadiga para o corpo.
13. Em conclusão: tudo bem entendido, teme a Deus e observa seus preceitos, é este o dever de todo homem.
14. Deus fará prestar contas de tudo o que está oculto, todo ato, seja ele bom ou mau.

 

Cântico dos Cânticos

Cântico dos Cânticos

 Capítulo 1

1. O mais belo dos Cânticos de Salomão.
2. – Ah! Beija-me com os beijos de tua boca! Porque os teus amores são mais deliciosos que o vinho,
3. e suave é a fragrância de teus perfumes; o teu nome é como um perfume derramado: por isto amam-te as jovens.
4. Arrasta-me após ti; corramos! O rei introduziu-me nos seus aposentos. Exultaremos de alegria e de júbilo em ti. Tuas carícias nos inebriarão mais que o vinho. Quanta razão há de te amar!
5. Sou morena, mas sou bela, filhas de Jerusalém, como as tendas de Cedar, como os pavilhões de Salomão.
6. Não repareis em minha tez morena, pois fui queimada pelo sol. Os filhos de minha mãe irritaram-se contra mim; puseram-me a guardar as vinhas, mas não guardei a minha própria vinha.
7. Dize-me, ó tu, que meu coração ama, onde apascentas o teu rebanho, onde o levas a repousar ao meio-dia, para que eu não ande vagueando junto aos rebanhos dos teus companheiros.
8. – Se não o sabes, ó mais bela das mulheres, vai, segue as pisadas da ovelhas, e apascenta os cabritos junto às cabanas dos pastores.
9. – À égua dos carros do faraó eu te comparo, ó minha amiga;
10. tuas faces são graciosas entre os brincos, e o teu pescoço entre os colares de pérolas.
11. Faremos para ti brincos de ouro com glóbulos de prata.
12. – Enquanto o rei descansa em seu divã, meu nardo exala o seu perfume;
13. meu bem-amado é para mim um saquitel de mirra, que repousa entre os meus seios;
14. meu bem-amado é para mim um cacho de uvas nas vinhas de Engadi.
15. – Como és formosa, amiga minha! Como és bela! Teus olhos são como pombas.
16. – Como é belo, meu amor! Como és encantador! Nosso leito é um leito verdejante,
17. as vigas de nossa casa são de cedro, suas traves de cipreste;

 
Capítulo 2

1. sou o narciso de Saron, o lírio dos vales.
2. – Como o lírio entre os espinhos, assim é minha amiga entre as jovens.
3. – Como a macieira entre as árvores da floresta, assim é o meu amado entre os jovens; gosto de sentar-me à sua sombra, e seu fruto é doce à minha boca.
4. Ele introduziu-me num celeiro, e o estandarte, que levanta sobre mim, é o amor.
5. Restaurou-me com tortas de uvas, fortaleceu-me com maçãs, porque estou enferma de amor.
6. Sua mão esquerda está sob minha cabeça, e sua direita abraça-me.
7. – Conjuro-vos, ó filhas de Jerusalém, pelas gazelas e corças dos campos, que não desperteis nem perturbeis o amor, antes que ele o queira.
8. – Oh, esta é a voz do meu amado! Ei-lo que aí vem, saltando sobre os montes, pulando sobre as colinas.
9. Meu amado é como a gazela e como um cervozinho. Ei-lo atrás de nossa parede. Olho pela janela, espreito pelas grades.
10. Meu bem-amado disse-me: Levanta-te, minha amiga, vem, formosa minha.
11. Eis que o inverno passou, cessaram e desapareceram as chuvas.
12. Apareceram as flores na nossa terra, voltou o tempo das canções. Em nossas terras já se ouve a voz da rola.
13. A figueira já começa a dar os seus figos, e a vinha em flor exala o seu perfume; levanta-te, minha amada, formosa minha, e vem.
14. Minha pomba, oculta nas fendas do rochedo, e nos abrigos das rochas escarpadas, mostra-me o teu rosto, faze-me ouvir a tua voz. Tua voz é tão doce, e delicado teu rosto!
15. – Apanhai-nos as raposas, essas pequenas raposas que devastam nossas vinhas, pois nossas vinhas estão em flor.
16. – Meu bem-amado é para mim e eu para ele; ele apascenta entre os lírios.
17. Antes que sopre a brisa do dia, e se estendam as sombras, volta, ó meu amado, como a gazela, ou o cervozinho sobre os montes escarpados.

 
Capítulo 3

1. Durante as noites, no meu leito, busquei aquele que meu coração ama; procurei-o, sem o encontrar.
2. Vou levantar-me e percorrer a cidade, as ruas e as praças, em busca daquele que meu coração ama; procurei-o, sem o encontrar.
3. Os guardas encontraram-me quando faziam sua ronda na cidade. Vistes acaso aquele que meu coração ama?
4. Mal passara por eles, encontrei aquele que meu coração ama. Segurei-o, e não o largarei antes que o tenha introduzido na casa de minha mãe, no quarto daquela que me concebeu.
5. – Conjuro-vos, ó filhas de Jerusalém, pelas gazelas e corças dos campos, não desperteis nem perturbeis o amor, antes que ele o queira.
6. – Que é aquilo que sobe do deserto como colunas de fumaça, exalando o perfume de mirra e de incenso, e de todos os aromas dos mercadores?
7. É a liteira de Salomão, escoltada por sessenta guerreiros, sessenta valentes de Israel;
8. todos hábeis manejadores de espada, e exercitados no combate; cada um deles leva a espada ao lado por causa dos terrores noturnos.
9. O rei Salomão mandou fazer para si uma liteira de madeira do Líbano.
10. Suas colunas são feitas de prata, seu encosto de ouro, seu assento de púrpura. O interior é bordado pelo amor das filhas de Jerusalém.
11. Saí, ó filhas de Sião, contemplai o rei Salomão, ostentando o diadema recebido de sua mãe no dia de suas núpcias, no dia da alegria de seu coração.

 
Capítulo 4

1. – Tu és bela, minha querida, tu és formosa! Por detrás do teu véu os teus olhos são como pombas, teus cabelos são como um rebanho de cabras descendo impetuosas pela montanha de Galaad,
2. teus dentes são como um rebanho de ovelhas tosquiadas que sobem do banho; cada uma leva dois (cordeirinhos) gêmeos, e nenhuma há estéril entre elas.
3. Teus lábios são como um fio de púrpura, e graciosa é tua boca. Tua face é como um pedaço de romã debaixo do teu véu;
4. teu pescoço é semelhante à torre de Davi, construída para depósito de armas. .Aí estão pendentes mil escudos, todos os escudos dos valentes.
5. Os teus dois seios são como dois filhotes gêmeos de uma gazela pastando entre os lírios.
6. Antes que sopre a brisa do dia, e se estendam as sombras, irei ao monte da mirra, e à colina do incenso.
7. És toda bela, ó minha amiga, e não há mancha em ti.
8. Vem comigo do Líbano, ó esposa, vem comigo do Líbano! Olha dos cumes do Amaná, do cimo de Sanir e do Hermon, das cavernas dos leões, dos esconderijos das panteras.
9. Tu me fazes delirar, minha irmã, minha esposa, tu me fazes delirar com um só dos teus olhares, com um só colar do teu pescoço.
10. Como são deliciosas as tuas carícias, minha irmã, minha esposa! Mais deliciosos que o vinho são teus amores, e o odor dos teus perfumes excede o de todos os aromas!
11. Teus lábios, ó esposa, destilam o mel; há mel e leite sob a tua língua. O perfume de tuas vestes é como o perfume do Líbano.
12. És um jardim fechado, minha irmã, minha esposa, uma nascente fechada, uma fonte selada.
13. Teus rebentos são como um bosque de romãs com frutos deliciosos; com ligústica e nardo,
14. nardo e açafrão, canela e cinamomo, com todas as árvores de incenso, mirra e aloés, com os balsámos mais preciosos.
15. És a fonte de meu jardim, uma fonte de água viva, um riacho que corre do Líbano.
16. – Levanta-te, vento do norte, vem tu, vento do sul. Sopra no meu jardim para que se espalhem os meus perfumes. Entre meu amado no seu jardim, prove-lhe os frutos deliciosos.

 
Capítulo 5

1. – Entro no meu jardim, minha irmã, minha esposa, colho a minha mirra e o meu bálsamo, como o meu favo com meu mel, e bebo o meu vinho com meu leite. .Amigos, comei, bebei, inebriai-vos ó caríssimos.
2. – Eu dormia, mas meu coração velava. Eis a voz do meu amado. Ele bate. Abre-me, minha irmã, minha amiga, minha pomba, minha perfeita; minha cabeça está coberta de orvalho, e os cachos de meus cabelos cheios das gotas da noite.
3. Tirei minha túnica; como irei revesti-la? Lavei os meus pés; por que sujá-los de novo?
4. Meu bem-amado passou a mão pela abertura (da porta) e o meu coração estremeceu.
5. Levantei-me para abrir ao meu amigo; a mirra escorria de minhas mãos, de meus dedos a mirra líquida sobre os trincos do ferrolho.
6. Abri ao meu bem-amado, mas ele já se tinha ido, já tinha desaparecido; ouvindo-o falar, eu ficava fora de mim. Procurei-o e não o encontrei; chamei-o, mas ele não respondeu.
7. Os guardas encontraram-me, quando faziam sua ronda na cidade. Bateram-me, feriram-me, arrancaram-me o manto os guardas das muralhas.
8. Conjuro-vos, filhas de Jerusalém, se encontrardes o meu amigo, que lhe haveis de dizer? Dizei-lhe que estou enferma de amor.
9. – Que tem o teu bem-amado a mais que os outros, ó mais bela das mulheres? Que tem o teu bem-amado a mais que os outros, para que assim nos conjures?
10. – Meu amado é forte e corado, distingue-se entre dez mil.
11. Sua cabeça é de ouro puro, seus cachos flexíveis são negros como o corvo.
12. Seus olhos são como pombas à beira dos regatos, banhando-se no leite, pousadas nas praias.
13. Suas faces são um jardim perfumado onde crescem plantas odoríferas. Seus lábios são lírios que destilam mirra líquida.
14. Suas mãos são argolas de ouro incrustadas de pedrarias. Seu corpo é um bloco de marfim recoberto de safiras.
15. Suas pernas são colunas de alabastro erguidas sobre pedestais de ouro puro. Seu aspecto é como o do Líbano, imponente como os cedros.
16. Sua boca é cheia de doçura, tudo nele é encanto. Assim é o meu amado, tal é o meu amigo, filhas de Jerusalém!

 
Capítulo 6

1. – Para onde foi o teu amado, ó mais bela das mulheres? Para onde se retirou o teu amigo? Nós o buscaremos contigo.
2. – O meu bem-amado desceu ao seu jardim, aos canteiros perfumados; para apascentar em meu jardim, e colher lírios.
3. Eu sou do meu amado e meu amado é meu. Ele apascenta entre os lírios.
4. – És formosa, amiga minha, como Tirsa, graciosa como Jerusalém, temível como um exército em ordem de batalha.
5. Desvia de mim os teus olhos, porque eles me fascinam. Teus cabelos são como um rebanho de cabras descendo impetuosamente pelas encostas de Galaad.
6. Teus dentes são como um rebanho de ovelhas que sobem do banho, cada uma leva dois (cordeirinhos) gêmeos, e nenhuma delas é estéril.
7. Tua face é como um pedaço de romã debaixo do teu véu.
8. Há sessenta rainhas, oitenta concubinas, e inumeráveis jovens mulheres;
9. uma, porém, é a minha pomba, uma só a minha perfeita; ela é a única de sua mãe, a predileta daquela que a deu à luz. Ao vê-la, as donzelas proclamam-na bem-aventurada, rainhas e concubinas a louvam.
10. Quem é esta que surge como a aurora, bela como a lua, brilhante como o sol, temível como um exército em ordem de batalha?
11. Eu desci ao jardim das nogueiras para ver a nova vegetação dos vales, e para ver se a vinha crescia e se as romãzeiras estavam em flor.
12. Eu não o sabia; minha alma colocou-me nos carros de Aminadab.

 
Capítulo 7

1. – Volta, volta, ó Sulamita, volta, volta, para que nós te vejamos. – Por que olhais a Sulamita, quando ela entra na dança de Maanaim?
2. – Como são graciosos os teus pés nas tuas sandálias, filha de príncipe! A curva de teus quadris assemelha-se a um colar, obra de mãos de artista;
3. teu umbigo é uma taça redonda, cheia de vinho perfumado; teu corpo é um monte de trigo cercado de lírios;
4. teus dois seios são como dois filhotes gêmeos de uma gazela;
5. teu pescoço é uma torre de marfim; teus olhos são as fontes de Hesebon junto à porta de Bat-Rabim. Teu nariz é como a torre do Líbano, que olha para os lados de Damasco;
6. tua cabeça ergue-se sobre ti como o Carmelo; tua cabeleira é como a púrpura, e um rei se acha preso aos seus cachos.
7. – Como és bela e graciosa, ó meu amor, ó minhas delícias!
8. Teu porte assemelha-se ao da palmeira, de que teus dois seios são os cachos.
9. Vou subir à palmeira, disse eu comigo mesmo, e colherei os seus frutos.. Sejam-me os teus seios como cachos da vinha.
10. E o perfume de tua boca como o odor das maçãs; teus beijos são como um vinho delicioso que corre para o bem-amado, umedecendo-lhe os lábios na hora do sono.
11. Eu sou para o meu amado o objeto de seus desejos.
12. Vem, meu bem-amado, saiamos ao campo, passemos a noite nos pomares;
13. pela manhã iremos às vinhas, para ver se a vinha lançou rebentos, se as suas flores se abrem, se as romãzeiras estão em flor. Ali te darei as minhas carícias.
14. As mandrágoras exalam o seu perfume; temos à nossa porta frutos excelentes, novos e velhos que guardei para ti, meu bem-amado.

 
Capítulo 8

1. Ah, se fosses meu irmão, amamentado ao seio de minha mãe! Então, encontrando-te fora, poderia beijar-te sem que ninguém me censurasse.
2. Eu te levaria, far-te-ia entrar na casa de minha mãe; dar-te-ia a beber vinho perfumado, licor de minhas romãs.
3. Sua mão esquerda está sob a minha cabeça, e sua direita abraça-me.
4. – Conjuro-vos, filhas de Jerusalém, não desperteis nem perturbeis o amor, antes que ele o queira.
5. – Quem é esta que sobe do deserto apoiada em seu bem-amado? – Sob a macieira eu te despertei, onde em dores te deu à luz tua mãe, onde em dores te pôs no mundo tua mãe.
6. – Põe-me como um selo sobre o teu coração, como um selo sobre os teus braços; porque o amor é forte como a morte, a paixão é violenta como o cheol. Suas centelhas são centelhas de fogo, uma chama divina.
7. As torrentes não poderiam extinguir o amor, nem os rios o poderiam submergir. Se alguém desse toda a riqueza de sua casa em troca do amor, só obteria desprezo.
8. Temos uma irmã pequenina que não tem ainda os seus seios formados. Que faremos nós de nossa irmã no dia que for pedida (em casamento)?
9. Se ela é um muro, construiremos sobre ela ameias de prata. Se é uma porta, fechá-la-emos com batentes de cedro.
10. – Ora, eu sou um muro, e meus seios são como torres; por isso sou aos seus olhos uma fonte de alegria.
11. Salomão tinha uma videira em Baal-Hamon. Confiou-a aos guardas, cada um dos quais devia dar mil siclos de prata pelos frutos colhidos.
12. Eu disponho de minha videira: mil siclos para ti, Salomão! Duzentos para aqueles que velam pela colheita.
13. – Os amigos estão atentos. Ó tu, que habitas nos jardins, faze-me ouvir a tua voz.
14. – Foge, meu bem-amado, como a gazela ou como o cervozinho sobre os montes perfumados!

 

Livro da Sabedoria

Livro da Sabedoria

 Capítulo 1

1. Amai a justiça, vós que governais a terra, tende para com o Senhor sentimentos perfeitos, e procurai-o na simplicidade do coração,
2. porque ele é encontrado pelos que o não tentam, e se revela aos que não lhe recusam sua confiança;
3. com efeito, os pensamentos tortuosos afastam de Deus, e o seu poder, posto à prova, triunfa dos insensatos.
4. A Sabedoria não entrará na alma perversa, nem habitará no corpo sujeito ao pecado;
5. o Espírito Santo educador (das almas) fugirá da perfídia, afastar-se-á dos pensamentos insensatos, e a iniqüidade que sobrevém o repelirá.
6. Sim, a Sabedoria é um espírito que ama os homens, mas não deixará sem castigo o blasfemador pelo crime de seus lábios, porque Deus lhe sonda os rins, penetra até o fundo de seu coração, e ouve as suas palavras.
7. Com efeito, o Espírito do Senhor enche o universo, e ele, que tem unidas todas as coisas, ouve toda voz.
8. Aquele que profere uma linguagem iníqua, não pode fugir dele, e a Justiça vingadora não o deixará escapar;
9. pois os próprios desígnios do ímpio serão cuidadosamente examinados; o som de suas palavras chegará até o Senhor, que lhe imporá o castigo pelos seus pecados.
10. É, com efeito, um ouvido cioso, que tudo ouve: nem a menor murmuração lhe passa despercebida.
11. Acautelai-vos, pois, de queixar-vos inutilmente, evitai que vossa língua se entregue à crítica, porque até mesmo uma palavra secreta não ficará sem castigo, e a boca que acusa com injustiça arrasta a alma à morte.
12. Não procureis a morte por uma vida desregrada, não sejais o próprio artífice de vossa perda.
13. Deus não é o autor da morte, a perdição dos vivos não lhe dá alegria alguma.
14. Ele criou tudo para a existência, e as criaturas do mundo devem cooperar para a salvação. Nelas nenhum princípio é funesto, e a morte não é a rainha da terra,
15. porque a justiça é imortal.
16. Mas, (a morte), os ímpios a chamam com o gesto e a voz. Crendo-a amiga, consomem-se de desejos, e fazem aliança com ela; de fato, eles merecem ser sua presa.

 
Capítulo 2

1. Dizem, com efeito, nos seus falsos raciocínios: Curta é a nossa vida, e cheia de tristezas; para a morte não há remédio algum; não há notícia de ninguém que tenha voltado da região dos mortos.
2. Um belo dia nascemos e, depois disso, seremos como se jamais tivéssemos sido! É fumaça a respiração de nossos narizes, e nosso pensamento, uma centelha que salta do bater de nosso coração!
3. Extinta ela, nosso corpo se tornará pó, e o nosso espírito se dissipará como um vapor inconsistente!
4. Com o tempo nosso nome cairá no esquecimento, e ninguém se lembrará de nossas obras. Nossa vida passará como os traços de uma nuvem, desvanecer-se-á como uma névoa que os raios do sol expulsam, e que seu calor dissipa.
5. A passagem de uma sombra: eis a nossa vida, e nenhum reinício é possível uma vez chegado o fim, porque o selo lhe é aposto e ninguém volta.
6. Vinde, portanto! Aproveitemo-nos das boas coisas que existem! Vivamente gozemos das criaturas durante nossa juventude!
7. Inebriemo-nos de vinhos preciosos e de perfumes, e não deixemos passar a flor da primavera!
8. Coroemo-nos de botões de rosas antes que eles murchem!
9. Ninguém de nós falte à nossa orgia; em toda parte deixemos sinais de nossa alegria, porque esta é a nossa parte, esta a nossa sorte!
10. Tiranizemos o justo na sua pobreza, não poupemos a viúva, e não tenhamos consideração com os cabelos brancos do ancião!
11. Que a nossa força seja o critério do direito, porque o fraco, em verdade, não serve para nada.
12. Cerquemos o justo, porque ele nos incomoda; é contrário às nossas ações; ele nos censura por violar a lei e nos acusa de contrariar a nossa educação.
13. Ele se gaba de conhecer a Deus, e se chama a si mesmo filho do Senhor!
14. Sua existência é uma censura às nossas idéias; basta sua vista para nos importunar.
15. Sua vida, com efeito, não se parece com as outras, e os seus caminhos são muito diferentes.
16. Ele nos tem por uma moeda de mau quilate, e afasta-se de nosso caminhos como de manchas. Julga feliz a morte do justo, e gloria-se de ter Deus por pai.
17. Vejamos, pois, se suas palavras são verdadeiras, e experimentemos o que acontecerá quando da sua morte,
18. porque, se o justo é filho de Deus, Deus o defenderá, e o tirará das mãos dos seus adversários.
19. Provemo-lo por ultrajes e torturas, a fim de conhecer a sua doçura e estarmos cientes de sua paciência.
20. Condenemo-lo a uma morte infame. Porque, conforme ele, Deus deve intervir.
21. Eis o o que pensam, mas enganam-se, sua malícia os cega:
22. eles desconhecem os segredos de Deus, não esperam que a santidade seja recompensada, e não acreditam na glorificação das almas puras.
23. Ora, Deus criou o homem para a imortalidade, e o fez à imagem de sua própria natureza.
24. É por inveja do demônio que a morte entrou no mundo, e os que pertencem ao demônio prová-la-ão.

 
Capítulo 3

1. Mas as almas dos justos estão na mão de Deus, e nenhum tormento os tocará.
2. Aparentemente estão mortos aos olhos dos insensatos: seu desenlace é julgado como uma desgraça.
3. E sua morte como uma destruição, quando na verdade estão na paz!
4. Se aos olhos dos homens suportaram uma correção, a esperança deles era portadora de imortalidade,
5. e por terem sofrido um pouco, receberão grandes bens, porque Deus, que os provou, achou-os dignos de si.
6. Ele os provou como ouro na fornalha, e os acolheu como holocausto.
7. No dia de sua visita, eles se reanimarão, e correrão como centelhas na palha.
8. Eles julgarão as nações e dominarão os povos, e o Senhor reinará sobre eles para sempre.
9. Os que põem sua confiança nele compreenderão a verdade, e os que são fiéis habitarão com ele no amor: porque seus eleitos são dignos de favor e misericórdia.
10. Mas os ímpios terão o castigo que merecem seus pensamentos, uma vez que desprezaram o justo e se separaram do Senhor: e desgraçado é aquele que rejeita a sabedoria e a disciplina!
11. A esperança deles é vã, seus sofrimentos sem proveito, e as obras deles inúteis.
12. Suas mulheres são insensatas e seus filhos malvados; a raça deles é maldita.
13. Feliz a mulher estéril, mas pura de toda a mancha, a que não manchou seu tálamo: ela carregará seu fruto no dia da retribuição das almas.
14. Feliz o eunuco cuja mão não cometeu o mal, que não concebeu iniqüidade contra o Senhor, porque ele receberá pela sua fidelidade uma graça de escol, e no templo do Senhor uma parte muito honrosa,
15. porque é esplêndido o fruto de bons trabalhos, e a raiz da sabedoria é sempre fértil.
16. Quanto aos filhos dos adúlteros, a nada chegarão, e a raça que descende do pecado será aniqüilada.
17. Ainda que vivam muito tempo, serão tidos por nada e, finalmente, sua velhice será sem honra.
18. Caso morram cedo, não terão esperança alguma, e no dia do julgamento não encontrarão nenhuma piedade:
19. porque é lamentável o fim de uma raça injusta.

 
Capítulo 4

1. Mais vale uma vida sem filhos, mas rica de virtudes: sua memória será imortal, porque será conhecida de Deus e dos homens.
2. Quando está presente, imitam-na; quando passada, desejam-na; ela leva na glória uma coroa eterna, por ter triunfado sem mancha nos combates.
3. Mas para nada servirá, ainda que numerosa, a raça dos ímpios; procedendo de renovos bastardos, não estenderá raízes profundas, não se estabelecerá numa base sólida.
4. Ainda que por algum tempo estenda seus ramos, estando instavelmente assentada, será abalada pelo vento e, pela violência da tempestade, será desarraigada.
5. Os galhos serão quebrados antes do desenvolvimento, o fruto deles será inútil, verde demais para ser comido, e impróprio para qualquer uso,
6. porque os filhos nascidos de uniões ilícitas serão no dia do juízo testemunhas a deporem contra seus pais.
7. Quanto ao justo, mesmo que morra antes da idade, gozará de repouso.
8. A honra da velhice não provém de uma longa vida, e não se mede pelo número dos anos.
9. Mas é a sabedoria que faz as vezes dos cabelos brancos; é uma vida pura que se tem em conta de velhice.
10. Ele agradou a Deus e foi por ele amado, assim (Deus) o transferiu do meio dos pecadores onde vivia.
11. Foi arrebatado para que a malícia lhe não corrompesse o sentimento, nem a astúcia lhe pervertesse a alma:
12. porque a fascinação do vício atira um véu sobre a beleza moral, e o movimento das paixões mina uma alma ingênua.
13. Tendo chegado rapidamente ao termo, percorreu uma longa carreira.
14. Sua alma era agradável ao Senhor, e é por isso que ele o retirou depressa do meio da perversidade. Os povos que vêem esse modo de agir não o compreendem, e não refletem nisto:
15. que o favor de Deus e sua misericórdia são para seus eleitos, e sua assistência está no meio de seus fiéis.
16. O justo, ao morrer, condena os ímpios que sobrevivem, e a juventude, atingindo tão depressa a perfeição, confunde a longa velhice do pecador.
17. Eles verão o fim do sábio, e não compreenderão os desígnios do Senhor a seu respeito, nem por que ele o pôs em segurança.
18. Eles verão e mostrarão desprezo, mas o Senhor zombará deles.
19. Depois disso serão cadáveres sem honra, desterrados entre os mortos, numa eterna ignomínia, porque ele os ferirá, e os precipitará sem voz, abatê-los-á nas suas bases e os mergulhará na última desolação. Eles serão entregues à dor, e a memória deles perecerá.
20. Comparecerão aterrorizados com a lembrança de seus pecados, e suas iniqüidades se levantarão contra eles para os confundir.

 
Capítulo 5

1. Então, com grande confiança, o justo se levantará em face dos que o perseguiram e zombaram dos seus males aqui embaixo.
2. Diante de sua vista serão presos de grande temor e tomados de assombro ao vê-lo salvo contra sua expectativa;
3. tocados de arrependimento, dirão entre si, e, gemendo na angústia de sua alma, dirão:
4. Ei-lo, aquele de quem outrora escarnecemos, e a quem loucamente cobrimos de insultos! Considerávamos sua vida como uma loucura, e sua morte como uma vergonha.
5. Como, pois, é ele do número dos filhos de Deus, e como está seu lugar entre os santos?
6. Portanto, nós nos desgarramos para longe da verdade: a luz da justiça não brilhou para nós e o sol não se levantou sobre nós!
7. Nós nos manchamos nas sendas da iniqüidade e da perdição, erramos pelos desertos sem caminhos e não conhecemos o caminho do Senhor!
8. O que ganhamos com nosso orgulho, e que nos trouxe a riqueza unida à arrogância?
9. Tudo isso desapareceu como sombra, como notícia que passa;
10. como navio que fende a água agitada, sem que se possa reencontrar o rasto de seu itinerário, nem a esteira de sua quilha nas ondas.
11. Como a ave que, atravessando o ar em seu vôo, não deixa após si o traço de sua passagem, mas, ferindo o ar com suas penas, fende-o com a impetuosa força do bater de suas asas, atravessa-o e logo nem se nota indício de sua passagem;
12. como quando uma flecha, que é lançada ao alvo, o ar que ela cortou volta imediatamente à sua posição de modo que não se pode distinguir sua trajetória,
13. assim, também nós, apenas nascidos, cessamos de ser, e não podemos mostrar traço algum de virtude: é no mal que nossa vida se consumiu!
14. Assim a esperança do ímpio é como a poeira levada pelo vento, e como uma leve espuma espalhada pela tempestade; ela se dissipa como o fumo ao vento, e passa como a lembrança do hóspede de um dia.
15. Mas os justos viverão eternamente; sua recompensa está no Senhor, e o Altíssimo cuidará deles.
16. Por isso receberão a régia coroa de glória, e o diadema da beleza da mão do Senhor, porque os cobrirá com sua direita, e os protegerá com seu braço.
17. Por armadura tomará seu zelo cioso, e armará as criaturas para se vingar de seus inimigos.
18. Tomará por couraça a justiça, e por capacete a integridade no julgamento.
19. Ele se cobrirá com a santidade, como com um impenetrável escudo,
20. afiará o gume de sua ira para lhe servir de espada, e o mundo se reunirá a ele na luta contra os insensatos.
21. Os raios partirão como flechas bem dirigidas, e, como de um arco bem distendido, voarão das nuvens para o alvo;
22. uma balista fará cair uma pesada saraiva de ira; a água do mar se levantará em turbilhão contra eles e os rios os arrastarão impetuosamente.
23. O sopro do Todo-poderoso se insurgirá contra eles e os dispersará como um furacão; a iniqüidade fará de toda a terra um deserto, e a malícia derribará os tronos dos poderosos!

 
Capítulo 6

1. Ouvi, pois, ó reis, e entendei; aprendei vós que governais o universo!
2. Prestai ouvidos, vós que reinais sobre as nações e vos gloriais do número de vossos povos!
3. Porque é do Senhor que recebestes o poder, e é do Altíssimo que tendes o poderio; é ele que examinará vossas obras e sondará vossos pensamentos!
4. Se, ministros do reino, vós não julgastes eqüitativamente, nem observastes a lei, nem andastes segundo a vontade de Deus,
5. ele se apresentará a vós, terrível, inesperado, porque aqueles que dominam serão rigorosamente julgados.
6. Ao menor, com efeito, a compaixão atrai o perdão, mas os poderosos serão examinados sem piedade.
7. O Senhor de todos não fará exceção para ninguém, e não se deixará impor pela grandeza, porque, pequenos ou grandes, é ele que a todos criou, e de todos cuida igualmente;
8. mas para os poderosos o julgamento será severo.
9. É a vós, pois, ó príncipes, que me dirijo, para que aprendais a Sabedoria e não resvaleis,
10. porque aqueles que santamente observarem as santas leis serão santificados, e os que as tiverem estudado poderão justificar-se.
11. Anelai, pois, pelas minhas palavras, reclamai-as ardentemente e sereis instruídos.
12. Resplandescente é a Sabedoria, e sua beleza é inalterável: os que a amam, descobrem-na facilmente.
13. Os que a procuram encontram-na. Ela antecipa-se aos que a desejam.
14. Quem, para possuí-la, levanta-se de madrugada, não terá trabalho, porque a encontrará sentada à sua porta.
15. Fazê-la objeto de seus pensamentos é a prudência perfeita, e quem por ela vigia, em breve não terá mais cuidado.
16. Ela mesma vai à procura dos que são dignos dela; ela lhes aparece nos caminhos cheia de benevolência, e vai ao encontro deles em todos os seus pensamentos,
17. porque, verdadeiramente, desde o começo, seu desejo é instruir, e desejar instruir-se é amá-la.
18. Mas amá-la é obedecer às suas leis, e obedecer às suas leis é a garantia da imortalidade.
19. Ora, a imortalidade faz habitar junto de Deus;
20. assim o desejo da Sabedoria conduz ao Reino!
21. Se, pois, cetros e tronos vos agradam, ó vós que governais os povos, honrai a Sabedoria, e reinareis eternamente.
22. Mas eu vou dizer o que é a Sabedoria e como ela nasceu. Não vos esconderei os seus mistérios; mas investigá-la-ei até sua mais remota origem; porei à luz o que dela pode ser conhecido, e não me afastarei da verdade.
23. Não imitarei aquele a quem a inveja consome, porque esse tal não tem nada a ver com a Sabedoria:
24. é no grande número de sábios que se encontra a salvação do mundo, e um rei sensato faz a prosperidade de seu povo.
25. Deixai-vos, pois, instruir por minhas palavras, e nelas encontrareis grande proveito.

 
Capítulo 7

1. Eu mesmo não passo de um mortal como todos os outros, e descendo do primeiro homem formado da terra. Meu corpo foi formado no seio de minha mãe,
2. onde, durante dez meses, no sangue tomou consistência, da semente viril e do prazer ajuntado à união (conjugal).
3. Eu também, desde meu nascimento, respirei o ar comum; eu caí, da mesma maneira que todos, sobre a mesma terra, e, como todos, nos mesmos prantos soltei o primeiro grito.
4. Envolto em faixas fui criado no meio de assíduos cuidados;
5. porque nenhum rei teve outro início na existência;
6. para todos a entrada na vida é a mesma e a partida semelhante.
7. Assim implorei e a inteligência me foi dada, supliquei e o espírito da sabedoria veio a mim.
8. Eu a preferi aos cetros e tronos, e avaliei a riqueza como um nada ao lado da Sabedoria.
9. Não comparei a ela a pedra preciosa, porque todo o ouro ao lado dela é apenas um pouco de areia, e porque a prata diante dela será tida como lama.
10. Eu a amei mais do que a saúde e a beleza, e gozei dela mais do que da claridade do sol, porque a claridade que dela emana jamais se extingue.
11. Com ela me vieram todos os bens, e nas suas mãos inumeráveis riquezas.
12. De todos esses bens eu me alegrei, porque é a Sabedoria que os guia, mas ignorava que ela fosse sua mãe.
13. Eu estudei lealmente e reparto sem inveja e não escondo a riqueza que ela encerra,
14. porque ela é para os homens um tesouro inesgotável; e os que a adquirem preparam-se para se tornar amigos de Deus, recomendados (a ele) pela educação que ela lhes dá.
15. Que Deus me permita falar como eu quisera, e ter pensamentos dignos dos dons que recebi, porque é ele mesmo quem guia a sabedoria e emenda os sábios,
16. porque nós estamos nas suas mãos, nós e nossos discursos, toda a nossa inteligência e nossa habilidade;
17. foi ele quem me deu a verdadeira ciência de todas as coisas, quem me fez conhecer a constituição do mundo e as virtudes dos elementos,
18. o começo, o fim e o meio dos tempos, a sucessão dos solstícios e as mutações das estações,
19. os ciclos do ano e as posições dos astros,
20. a natureza dos animais e os instintos dos brutos, os poderes dos espíritos e os pensamentos dos homens, a variedade das plantas e as propriedades das raízes.
21. Tudo que está escondido e tudo que está aparente eu conheço: porque foi a sabedoria, criadora de todas as coisas, que mo ensinou.
22. Há nela, com efeito, um espírito inteligente, santo, único, múltiplo, sutil, móvel, penetrante, puro, claro, inofensivo, inclinado ao bem, agudo,
23. livre, benéfico, benévolo, estável, seguro, livre de inquietação, que pode tudo, que cuida de tudo, que penetra em todos os espíritos, os inteligentes, os puros, os mais sutis.
24. Mais ágil que todo o movimento é a Sabedoria, ela atravessa e penetra tudo, graças à sua pureza.
25. Ela é um sopro do poder de Deus, uma irradiação límpida da glória do Todo-poderoso; assim mancha nenhuma pode insinuar-se nela.
26. É ela uma efusão da luz eterna, um espelho sem mancha da atividade de Deus, e uma imagem de sua bondade.
27. Embora única, tudo pode; imutável em si mesma, renova todas as coisas. Ela se derrama de geração em geração nas almas santas e forma os amigos e os intérpretes de Deus,
28. porque Deus somente ama quem vive com a sabedoria!
29. É ela, com efeito, mais bela que o sol e ultrapassa o conjunto dos astros. Comparada à luz, ela se sobreleva,
30. porque à luz sucede a noite, enquanto que, contra a Sabedoria, o mal não prevalece.

 
Capítulo 8

1. Ela estende seu vigor de uma extremidade do mundo à outra e governa todas as coisas com felicidade.
2. Eu a amei e procurei desde minha juventude, esforçei-me por tê-la por esposa e me enamorei de seus encantos.
3. Ela mostra a nobreza de sua origem em conviver com Deus, ela é amada pelo Senhor de todas as coisas.
4. Ela é iniciada na ciência de Deus e, por sua escolha, decide de suas obras.
5. Se a riqueza é um bem desejável na vida, que há de mais rico que a Sabedoria que tudo criou?
6. Se a inteligência do homem consegue operar, o que, então, mais que a Sabedoria, é artífice dos seres?
7. E se alguém ama a justiça, seus trabalhos são virtudes; ela ensina a temperança e a prudência, a justiça e a força: não há ninguém que seja mais útil aos homens na vida.
8. Se alguém deseja uma vasta ciência, ela sabe o passado e conjectura o futuro; conhece as sutilezas oratórias e revolve os enigmas; prevê os sinais e os prodígios, e o que tem que acontecer no decurso das idades e dos tempos.
9. Portanto, resolvi tomá-la por companheira de minha vida, cuidando que ela será para mim uma boa conselheira, e minha consolação nos cuidados e na tristeza.
10. Graças a ela, receberei as honras das multidões, e, embora jovem como sou, o respeito dos anciãos.
11. Reconhecerão a penetração de meu julgamento, e excitarei a admiração dos reis.
12. Se me calo, esperarão que eu fale; se falo, estarão atentos; e se prolongo meu discurso, levarão a mão à boca.
13. Por meio dela obterei a imortalidade, e deixarei à posteridade uma lembrança eterna.
14. Governarei povos e as nações ser-me-ão submissas.
15. Príncipes temíveis estarão cheios de medo ao ouvirem falar de mim; mostrar-me-ei bom para com o povo e valoroso no combate.
16. Recolhido em minha casa, repousarei junto dela, porque a sua convivência não tem nada de desagradável, e sua intimidade nada de fastidioso; ela traz consigo, pelo contrário, o contentamento e a alegria!
17. Meditando comigo mesmo nesses pensamentos, e considerando em meu coração que a imortalidade se encontra na aliança com a Sabedoria,
18. a alegria perfeita na sua amizade, contínua riqueza na sua atividade, inteligência nas lições de seus entretenimentos familiares, e glória na comunicação de suas sentenças, saí à sua procura a fim de possuí-la em mim.
19. Eu era um menino vigoroso, dotado de uma alma excelente,
20. ou antes, como era bom, eu vim a um corpo intacto;
21. mas, consciente de não poder possuir a sabedoria, a não ser por dom de Deus, (e já era inteligência o saber de onde vem o dom), eu me voltei para o Senhor, e invoquei-o, dizendo do fundo do coração:

 
Capítulo 9

1. Deus de nossos pais, e Senhor de misericórdia, que todas as coisas criastes pela vossa palavra,
2. e que, por vossa sabedoria, formastes o homem para ser o senhor de todas as vossas criaturas,
3. governar o mundo na santidade e na justiça, e proferir seu julgamento na retidão de sua alma,
4. dai-me a Sabedoria que partilha do vosso trono, e não me rejeiteis como indigno de ser um de vossos filhos.
5. Sou, com efeito, vosso servo e filho de vossa serva, um homem fraco, cuja existência é breve, incapaz de compreender vosso julgamento e vossas leis;
6. porque qualquer homem, mesmo perfeito, entre os homens, não será nada, se lhe falta a Sabedoria que vem de vós.
7. Ora, vós me escolhestes para ser rei de vosso povo e juiz de vossos filhos e vossas filhas.
8. Vós me ordenastes construir um templo na vossa montanha santa e um altar na cidade em que habitais: imagem da sagrada habitação que preparastes desde o princípio.
9. Mas, ao lado de vós está a Sabedoria que conhece vossas obras; ela estava presente quando fizestes o mundo, ela sabe o que vos é agradável, e o que se conforma às vossas ordens.
10. Fazei-a, pois, descer de vosso santo céu, e enviai-a do trono de vossa glória, para que, junto de mim, tome parte em meus trabalhos, e para que eu saiba o que vos agrada.
11. Com efeito, ela sabe e conhece todas as coisas; prudentemente guiará meus passos, e me protegerá no brilho de sua glória.
12. Assim, minhas obras vos serão agradáveis; governarei vosso povo com justiça, e serei digno do trono de meu pai.
13. Que homem, pois, pode conhecer os desígnios de Deus, e penetrar nas determinações do Senhor?
14. Tímidos são os pensamentos dos mortais, e incertas as nossas concepções;
15. porque o corpo corruptível torna pesada a alma, e a morada terrestre oprime o espírito carregado de cuidados.
16. Mal podemos compreender o que está sobre a terra, dificilmente encontramos o que temos ao alcance da mão. Quem, portanto, pode descobrir o que se passa no céu?
17. E quem conhece vossas intenções, se vós não lhe dais a Sabedoria, e se do mais alto dos céus vós não lhe enviais vosso Espírito Santo?
18. Assim se tornaram direitas as veredas dos que estão na terra; os homens aprenderam as coisas que vos agradam e pela sabedoria foram salvos.

 
Capítulo 10

1. O primeiro homem, o pai do mundo, que foi criado sozinho, foi a Sabedoria que cuidou dele, tirou-o de seu próprio pecado,
2. e deu-lhe o poder de reinar sobre todas as coisas.
3. E porque o perverso, na sua ira, dela se afastou, pereceu depois de seu furor fratricida.
4. E estando a terra submersa por causa dele pelo dilúvio, a Sabedoria de novo o salvou, conduzindo o justo num lenho sem valor.
5. E quando as nações unânimes caíram no mal, foi ela que distinguiu o justo, o manteve irrepreensível diante de Deus, e lhe deu a força para vencer sua ternura pelo seu filho.
6. Foi ela que, quando do aniquilamento dos ímpios, salvou o justo, subtraindo-o ao fogo que descera sobre a Pentápole,
7. cuja perversidade ainda no presente é testemunhada por uma terra fumegante e deserta, onde as árvores carregam frutos incapazes de amadurecer, e onde está erigida uma coluna de sal, memorial de uma alma incrédula.
8. Porque aqueles que desprezaram a Sabedoria, não somente se prejudicaram em ignorar o bem, mas ainda deixaram aos homens um testemunho de sua loucura, para que seus pecados não fossem esquecidos.
9. Quanto aos que a honram, a Sabedoria os liberta de sofrimentos;
10. foi ela que guiou por caminhos retos o justo que fugia à ira de seu irmão; mostrou-lhe o reino de Deus, e deu-lhe o conhecimento das coisas santas; ajudou-o nos seus trabalhos, e fez frutificar seus esforços;
11. cuidou dele contra ávidos opressores e o fez conquistar riquezas;
12. ela o protegeu contra seus inimigos e o defendeu dos que lhe armavam ciladas; e no duro combate, deu-lhe vitória, a fim de que ele soubesse quanto a piedade é mais forte que tudo.
13. Ela não abandonou o justo vendido, mas preservou-o do pecado.
14. Desceu com ele à prisão, e não o abandonou nas suas cadeias, até que lhe trouxe o cetro do reino e o poder sobre os que o tinham oprimido; revelou-lhe a mentira de seus acusadores, e conferiu-lhe uma glória eterna.
15. Foi ela que livrou das nações que o tiranizavam, o povo santo e a raça irrepreensível;
16. entrou na alma do servo de Deus, e se opôs, com sinais e prodígios, a reis temíveis.
17. Deu aos santos o galardão de seus trabalhos, conduziu-os por um caminho miraculoso; durante o dia serviu-lhes de proteção, e deu-lhes a luz dos astros, durante a noite.
18. Fê-los atravessar o mar Vermelho, e deu-lhes passagem através da massa das águas,
19. ao passo que engoliu seus inimigos, e depois os tirou das profundezas do abismo.
20. Também os justos, depois de despojados os ímpios, celebraram, Senhor, vosso santo nome, e louvaram, unidos num só coração, vossa mão protetora,
21. porque a Sabedoria abriu a boca aos mudos, e tornou eloqüente a língua das crianças.

 
Capítulo 11

1. Pela mão de um santo profeta aplanou suas dificuldades;
2. eles atravessaram um deserto inabitado, e levantaram suas tendas em lugares ermos;
3. resistiram aos que os atacavam, e repeliram seus inimigos.
4. Tiveram sede e clamaram a vós: do rochedo abrupto a água lhes foi dada, e da pedra seca estancaram sua sede.
5. Porque os elementos que tinham servido para punir seus inimigos, foram-lhes dados, na sua necessidade, como benefício:
6. em lugar das ondas de um rio perene turvadas por uma lama de sangue,
7. pela punição do decreto que consagrava crianças à morte, vós lhes destes, de maneira inesperada, água em abundância,
8. mostrando-lhes, pela sede que então sofreram, como punistes seus inimigos.
9. Por isso, tratados com piedade na sua provação, reconheceram quanto deviam ter sofrido os ímpios, julgados com ira.
10. A estes provastes como um pai que corrige, mas a outros provastes como um rei severo que condena.
11. Tanto estando longe como perto, a dor os consumiu da mesma forma,
12. porque tiveram um segundo para se entristecer e gemer à lembrança dos males passados.
13. Compreendendo, com efeito, que o que era para eles castigo, era para outros ocasião de benefício, sentiram a mão do Senhor;
14. e aquele que, outrora exposto e abandonado, tinham repelido com zombaria, admiraram-no finalmente, porque sofreram uma sede diferente da sede do justo.
15. Por outro lado, para os punir dos loucos pensamentos de sua perversidade, que os faziam extraviar-se na adoração de répteis irracionais e de vis animais, enviastes contra eles uma multidão de animais estúpidos,
16. a fim de que compreendessem que por onde cada um peca, será punido.
17. Não era difícil à vossa mão todo-poderosa, que formou o mundo de matéria informe, mandar contra eles bandos de ursos e de leões ferozes,
18. ou animais desconhecidos e duma nova espécie, cheios de furor, exalando um hálito inflamado, ou espalhando um fumo infecto, ou lançando de seus olhos faíscas terríveis,
19. capazes não só de os exterminar com seus golpes, mas ainda de os matar de terror só pelo seu aspecto.
20. E, mesmo sem isso, eles poderiam perecer por um sopro, perseguidos pela justiça e arrebatados pelo vento de vosso poder; mas, dispusestes tudo com medida, quantidade e peso,
21. porque sempre vos é possível mostrar vosso poder imenso, e quem poderá resistir à força de vosso braço?
22. Diante de vós o mundo inteiro é como um nada, que faz pender a balança, ou como uma gota de orvalho, que desce de madrugada sobre a terra.
23. Tendes compaixão de todos, porque vós podeis tudo; e para que se arrependam, fechais os olhos aos pecados dos homens.
24. Porque amais tudo que existe, e não odiais nada do que fizestes, porquanto, se o odiásseis, não o teríeis feito de modo algum.
25. Como poderia subsistir qualquer coisa, se não o tivésseis querido, e conservar a existência, se por vós não tivesse sido chamada?
26. Mas poupais todos os seres, porque todos são vossos, ó Senhor, que amais a vida.

 
Capítulo 12

1. Vosso espírito incorruptível está em todos.
2. É por isso que castigais com brandura aqueles que caem, e os advertis mostrando-lhes em que pecam, a fim de que rejeitem sua malícia e creiam em vós, Senhor.
3. Foi assim que se deu com os antigos habitantes da Terra Santa.
4. Tínheis horror deles por causa de suas obras detestáveis, sua magia e seus ritos ímpios,
5. seus cruéis morticínios de crianças, seus festins de entranhas, carne humana e sangue, suas iniciações nos mistérios orgíacos,
6. e os crimes de pais contra seres indefesos; e resolvestes aniquilá-los pela mão de nossos pais,
7. para que esta terra, que estimais entre todas, recebesse uma digna colônia de filhos de Deus.
8. Contudo, porque também eles eram homens, vós os poupastes, enviando-lhes vespas precursoras de vosso exército, para que elas os fizessem perecer pouco a pouco.
9. Não é que vos fosse impossível esmagar os maus por meio dos justos num combate, ou exterminar todos juntos por animais ferozes ou por uma palavra categórica;
10. mas castigando-os pouco a pouco, dáveis tempo para o arrependimento, não ignorando que sua raça era maldita, ingênita a sua perversidade, e que jamais seus pensamentos se mudariam,
11. porque sua estirpe era má desde a origem… Não era por temor do que quer que fosse que vos mostráveis indulgente para com eles em seus pecados.
12. Porque, quem ousará dizer-vos: Que fizeste tu? E quem se oporá a vosso julgamento? Quem vos repreenderá de terdes aniquilado nações que criastes? Ou quem se levantará contra vós para defender os culpados?
13. Não há, fora de vós, um Deus que se ocupa de tudo, e a quem deveis mostrar que nada é injusto em vosso julgamentos;
14. nem um rei, nem um tirano que vos possa resistir em favor dos que castigastes.
15. Mas porque sois justo, governais com toda a justiça, e julgais indigno de vosso poder condenar quem não merece ser punido.
16. Porque vossa força é o fundamento de vossa justiça e o fato de serdes Senhor de todos, vos torna indulgente para com todos.
17. Mostrais vossa força aos que não crêem no vosso poder, e confundis os que a não conhecem e ousam afrontá-la.
18. Senhor de vossa força, julgais com bondade, e nos governais com grande indulgência, porque sempre vos é possível empregar vosso poder, quando quiserdes.
19. Agindo desta maneira, mostrastes a vosso povo que o justo deve ser cheio de bondade, e inspirastes a vossos filhos a boa esperança de que, após o pecado, lhes dareis tempo para a penitência;
20. porque se os inimigos de vossos filhos, dignos de morte, vós os haveis castigado com tanta prudência e longanimidade, dando-lhes tempo e ocasião para se emendarem,
21. com quanto cuidado não julgareis vós os vossos filhos, a cujos antepassados concedestes com juramento vossa aliança, repleta de ricas promessas!
22. Portanto, quando nos corrigis, castigais mil vezes mais nossos inimigos, para que em nossos julgamentos nos lembremos de vossa bondade, e para que esperemos em vossa indulgência quando somos julgados.
23. Por isso também aqueles que loucamente viveram no mal, vós os torturastes por meio das suas próprias abominações:
24. porque se tinham afastado demais nos caminhos do erro, tomando por deuses os mais vis animais, deixando-se enganar como meninos sem razão;
25. assim é que, como a meninos sem razão, lhes destes um castigo irrisório.
26. Mas os que recusam a advertência de semelhante correção sofrerão um castigo digno de Deus.
27. Excitados, então, pelos sofrimentos causados por esses animais que tinham julgado deuses, e que os atormentavam, viram o que no começo tinham recusado ver, e reconheceram o verdadeiro Deus. Por isso é que caiu sobre eles a condenação final.

 
Capítulo 13

1. São insensatos por natureza todos os que desconheceram a Deus, e, através dos bens visíveis, não souberam conhecer Aquele que é, nem reconhecer o Artista, considerando suas obras.
2. Tomaram o fogo, ou o vento, ou o ar agitável, ou a esfera estrelada, ou a água impetuosa, ou os astros dos céus, por deuses, regentes do mundo.
3. Se tomaram essas coisas por deuses, encantados pela sua beleza, saibam, então, quanto seu Senhor prevalece sobre elas, porque é o criador da beleza que fez estas coisas.
4. Se o que os impressionou é a sua força e o seu poder, que eles compreendam, por meio delas, que seu criador é mais forte;
5. pois é a partir da grandeza e da beleza das criaturas que, por analogia, se conhece o seu autor.
6. Contudo, estes só incorrem numa ligeira censura, porque, talvez, eles caíram no erro procurando Deus e querendo encontrá-lo:
7. vivendo entre suas obras, eles as observam com cuidado, e porque eles as consideram belas, deixam-se seduzir pelo seu aspecto.
8. Ainda uma vez, entretanto, eles não são desculpáveis,
9. porque, se eles possuíram luz suficiente para poder perscrutar a ordem do mundo, como não encontraram eles mais facilmente aquele que é seu Senhor?
10. Mas são desgraçados e esperam em mortos, aqueles que chamaram de deuses a obras de mãos humanas: o ouro, a prata, artisticamente trabalhados, figuras de animais, alguma pedra inútil, a que, outrora, certa mão deu forma.
11. Assim, um lenhador cortou e serrou uma árvore fácil de manejar. Habilmente ele lhe tirou toda a casca, e com a habilidade do seu ofício, fez dela um móvel útil para seu uso.
12. Com as sobras de seu trabalho, cozinhou comida, com que se saciou.
13. O que ainda lhe restava, não era bom para nada, não passando de madeira torcida e toda cheia de nós; contudo, ele a tomou e consagrou suas horas de lazer a talhá-la; ele a trabalhou com toda a arte que adquirira, e lhe deu a semelhança de um homem,
14. ou o aspecto de algum vil animal. Pôs-lhe vermelhão, uma demão de uma tinta encarnada, e encobriu-lhe cuidadosamente todo defeito.
15. Em seguida, preparou-lhe um nicho digno dele. e o fixou à parede, segurando-o com um prego:
16. foi por medo que caísse, que tomou este cuidado, porque sabe muito bem que ele não pode ajudar-se a si mesmo, pois não passa de uma estátua que tem necessidade de um apoio.
17. Mas quando lhe implora por seus bens, seus casamentos, seus filhos, não se envergonha de falar ao que é inanimado, e pede saúde ao que é desprezível.
18. Reclama a vida ao que é morto, e procura socorro no que é débil; e para uma viagem, invoca o que não pode andar;
19. para um lucro, um trabalho, o bom êxito de uma obra de suas mãos, pede a força ao que nem é capaz de mover as mãos.

 
Capítulo 14

1. Outro, por sua vez, que quer navegar e se prepara para atravessar as impetuosas ondas, invoca um madeiro de pior qualidade que o navio que o leva;
2. porque o desejo do lucro inventou o navio, e uma hábil sabedoria dirigiu sua construção.
3. Mas sois vós, Pai, que o governais pela vossa Providência, porque, se abristes caminho, mesmo no mar, e uma rota segura no meio das ondas -
4. mostrando por aí que vós podeis tirar do perigo aquele que as afronta mesmo sem meios -,
5. quereis entretanto que não sejam inúteis as obras de vossa sabedoria. Por isso os homens confiam a própria vida a um pouco de madeira e atravessam em segurança as ondas num navio.
6. Assim, com efeito, quando na origem dos tempos fizestes perecer gigantes orgulhosos, a esperança do universo, refugiando-se num barco, que vossa mão governava, conservou para o mundo o germe de uma geração.
7. Porque é bendito o madeiro pelo qual se opera a justiça,
8. mas maldito é o ídolo, ele e o que o fez; este porque o formou, aquele porque, sendo corruptível, leva o nome de deus.
9. Com efeito, Deus odeia tanto o ímpio quanto sua impiedade,
10. e a obra sofrerá o mesmo castigo que o autor.
11. Este é o motivo porque também os ídolos das nações serão julgados, porque, na criação de Deus, eles se tornaram uma abominação, objetos de escândalo para os homens, e laços para os pés dos insensatos.
12. É pela idealização dos ídolos que começou a apostasia, e sua invenção foi a perda dos humanos.
13. Eles não existiam no princípio e não durarão para sempre;
14. a vaidade dos homens os introduziu no mundo. E, por causa disso, Deus decidiu a sua destruição para breve.
15. Um pai aflito por um luto prematuro, tendo mandado fazer a imagem do filho, tão cedo arrebatado, honrou, em seguida, como a um deus aquele que não passava de um morto, e transmitiu, aos seus, certos ritos secretos e cerimônias.
16. Este costume ímpio, tendo-se firmado com o tempo, foi depois observado como lei.
17. Foi também em conseqüência das ordens dos príncipes que se adoraram imagens esculpidas, porque aqueles que não podiam honrar pessoalmente, porque moravam longe deles, fizeram representar o que se achava distante, e expuseram publicamente a imagem do rei venerado, a fim de lisonjeá-lo de longe com seu zelo, como se estivesse presente.
18. Isto contribuiu ainda para o estabelecimento deste culto, mesmo entre os que não conheciam o rei; foi a ambição do artista,
19. que, talvez, querendo agradar ao soberano, deu-lhe, por sua arte, a semelhança do belo;
20. e a multidão, seduzida pelo encanto da obra, em breve tomou por deus aquele que tinham honrado como homem.
21. E isto foi uma cilada para a humanidade: os homens, sujeitando-se à lei da desgraça e da tirania, deram à pedra e à madeira o nome incomunicável.
22. Como se não bastasse terem errado acerca do conhecimento de Deus, embora passando a vida numa longa luta de ignorância, eles dão o nome de paz a um estado tão infeliz.
23. Com efeito, sacrificando seus filhos, celebrando mistérios ocultos, ou entregando-se a orgias desenfreadas de religiões exóticas,
24. eles já não guardam a honestidade nem na vida nem no casamento, mas um faz desaparecer o outro pelo ardil, ou o ultraja pelo adultério.
25. Tudo está numa confusão completa – sangue, homicídio, furto, fraude, corrupção, deslealdade, revolta, perjúrio,
26. perseguição dos bons, esquecimento dos benefícios, contaminação das almas, perversão dos sexos, instabilidade das uniões, adultérios e impudicícias -
27. porque o culto de inomináveis ídolos é o começo, a causa e o fim de todo o mal.
28. (Seus adeptos) incitam o prazer até a loucura, ou fazem vaticínios falsos, ou vivem na injustiça, ou, sem escrúpulo, juram falso,
29. porque, confiando em ídolos inanimados, esperam não ser punidos de sua má fé.
30. Contudo, o castigo os atingirá por duplo motivo: porque eles desconheceram a Deus, afeiçoando-se aos ídolos, e porque são culpados, por desprezo à santidade da religião, de ter feito juramentos enganadores.
31. Pois não é o poder dos ídolos invocados, mas o castigo reservado ao pecador, que sempre persegue as faltas dos maus.

 
Capítulo 15

1. Mas vós, Deus nosso, sois benfazejo e verdadeiro, vós sois paciente e tudo governais com misericórdia;
2. com efeito, mesmo se pecamos, somos vossos, porque conhecemos vosso poder; mas não pecaremos, cientes de que somos considerados como vossos.
3. Porque conhecer-vos é a perfeita justiça, e conhecer vosso poder é a raiz da imortalidade.
4. Não fomos seduzidos pelas invenções da arte corruptora dos homens nem pelo vão trabalho dos pintores: borrada figura de cores misturadas,
5. cuja vista excita os desejos dos insensatos, fantasma inanimado de uma imagem sem vida que provoca a paixão!
6. Cativados pelo mal, não merecem esperar senão o mal, os que o fazem, os que o amam e os que o veneram.
7. Eis, portanto, um oleiro que amassa laboriosamente a terra mole, e forma diversos objetos para nosso uso, mas da mesma argila faz vasos destinados a fins nobres e outros, indiferentemente, para usos opostos. Para qual destes usos cada vaso será aplicado? O oleiro será o juiz.
8. Do mesmo barro, forma também, como obreiro perverso, uma vã divindade, ele que, ainda há pouco, nasceu da terra, e em breve voltará a ela, de onde foi tirado, quando lhe serão pedidas as contas de sua vida.
9. Ele mesmo não tem preocupação alguma com o próprio desfalecimento, nem com a brevidade da vida; ele rivaliza, pelo contrário, com aqueles que trabalham o ouro e a prata, imita os que trabalham o cobre.
10. Pó é o seu coração, mais vil que a terra sua esperança, e põe sua glória em fabricar objetos enganadores. E mais desprezível que o barro é sua vida,
11. porque não reconheceu aquele que o formou, aquele que lhe inspirou uma alma ativa e lhe insuflou o espírito vital.
12. Para ele a vida é um divertimento, e nossa existência um mercado lucrativo, porque, diz ele, é preciso aproveitar-se de tudo, mesmo do mal.
13. Mais que qualquer outro, esse homem sabe que peca, fazendo do mesmo barro vasos frágeis e ídolos.
14. Ora, verdadeiramente, muito insensatos, mais infortunados que a alma da criança, são os inimigos de vosso povo, que o oprimiram,
15. porque eles também tiveram por deuses todos os ídolos das nações, que não podem servir-se de seus olhos para ver, que não têm nariz para aspirar o ar, nem ouvidos para ouvir, nem os dedos das mãos para apalpar, e cujos pés são incapazes de andar;
16. foi, com efeito, um homem que os fez, formou-os alguém que recebeu a alma de empréstimo. Nenhum homem pode fazer um deus, mesmo semelhante a si próprio,
17. porque, sendo ele próprio mortal, morto é tudo que produz com suas mãos ímpias. De fato, ele vale mais que os objetos que venera; ele, pelo menos, tem vida, enquanto os ídolos não a têm.
18. Chega-se até a adorar os mais odiosos animais, que são piores ainda que os outros animais irracionais,
19. que nem mesmo possuem o que outros seres vivos possuem: bastante beleza para serem amados, e que foram excluídos da aprovação e da bênção de Deus.

 
Capítulo 16

1. Por isso foram justamente castigados por animais dessa espécie e atormentados por uma multidão de animais;
2. em vez de feri-lo assim, vós favorecíeis vosso povo, satisfazendo por um alimento surpreendente o ardor de seu apetite, e oferecendo-lhe por alimento codornizes.
3. De tal modo que aqueles, mau grado sua fome, diante do aspecto hediondo de animais enviados contra eles, experimentaram a náusea; estes, após uma curta privação, receberam um alimento maravilhoso.
4. Pois era preciso que os primeiros, os opressores, fossem oprimidos por uma inexorável fome, e que aos outros fossem apenas mostrados os tormentos suportados por seus inimigos.
5. Efetivamente, quando o cruel furor dos animais os atingiu também, e quando pereceram com a mordedura de sinuosas serpentes, vossa cólera não durou até o fim.
6. Foram por pouco tempo atormentados, para sua correção: eles possuíram um sinal de salvação que lhes lembrava o preceito de vossa lei.
7. E quem se voltava para ele era salvo, não em vista do objeto que olhava, mas por vós, Senhor, que sois o salvador de todos.
8. Com isso mostráveis a vossos inimigos, que sois vós que livrais de todo o mal.
9. Quanto a eles as mordeduras dos gafanhotos e das moscas os matavam e não se encontrou remédio para salvar sua vida, porque mereciam ser castigados por tais instrumentos;
10. mas a vossos filhos, mesmo os dentes de serpentes venenosas não os puderam vencer, porque sobrevindo a vossa misericórdia curou-os.
11. Eram picados, para que se lembrassem de vossas palavras, e, em seguida, ficavam curados, para que não viessem a esquecê-las completamente e a subtraírem-se a si mesmos de vossos benefícios.
12. Não foi uma erva nem algum ungüento que os curou, mas a vossa palavra que cura todas as coisas, Senhor.
13. Porque vós sois senhor da vida e da morte. Vós conduzis às portas do Hades e de lá tirais;
14. enquanto o homem, se pode matar por sua maldade, não pode fazer voltar o espírito uma vez saído, nem chamar de volta a alma que o Hades já recebeu.
15. Escapar à vossa mão é impossível,
16. e os ímpios, que recusaram conhecer-vos, foram fustigados pela força de vosso braço, perseguidos por chuvas extraordinárias, saraivas e implacáveis tempestades, e consumidos pelo fogo dos raios.
17. O que havia de mais admirável ainda, é que, na água que tudo extingue, o fogo tomava mais violência, porque o universo toma a defesa dos justos.
18. Ora, a chama temperava seu ardor para não queimar os animais enviados contra os ímpios, para que estes se apercebessem e reconhecessem que eram perseguidos pelo julgamento de Deus.
19. Ora, excedendo sua força habitual, o fogo ardia mesmo no meio da água para destruir os frutos de uma terra iníqua…
20. Mas, pelo contrário, foi com o alimento dos anjos que alimentastes vosso povo, e foi do céu que, sem fadiga, vós lhe enviastes um pão já preparado, contendo em si todas as delícias e adaptando-se a todos os gostos.
21. Esta substância que dáveis se parecia com a doçura que mostráveis a vossos filhos. Ela se adaptava ao desejo de quem a comia, e transformava-se naquilo que cada qual desejava.
22. (Embora fosse como) neve e gelo, ela suportava o fogo sem se fundir, para mostrar que era para os inimigos que o fogo destruía as colheitas, quando ardia, apesar da saraiva, e brilhava debaixo de chuvas,
23. enquanto que, quando se tratava de alimentar os justos, até perdia sua natural violência.
24. A criatura que vos é submissa, a vós, seu Criador, aumenta sua força para castigar os maus, e os modera para o bem dos que puseram em vós sua fé.
25. Do mesmo modo, transformada em tudo que se queria, servia à vossa generosidade que a todos alimenta, segundo a vontade dos que dela tinham necessidade,
26. para que os filhos que vós amais, Senhor, aprendessem que não são os frutos da terra que alimentam o homem, mas é vossa palavra que conserva em vida aqueles que crêem em vós.
27. O que não era destruído pelo fogo, fundia-se ao simples calor de um raio de sol,
28. para que se soubesse que é preciso antecipar-se ao sol para vos agradecer, e que é preciso adorar-vos antes de raiar o dia;
29. porque a esperança do ingrato é como a geleira do inverno, que se derramará como água inútil.

 
Capítulo 17

1. Em verdade, grandes e impenetráveis são vossos juízos, Senhor; por isso as almas grosseiras caíram no erro.
2. Por terem acreditado que podiam oprimir a santa nação, os ímpios, prisioneiros das trevas e encarcerados por uma longa noite, jaziam encerrados nas suas casas, tentando escapar à vossa incessante vigilância.
3. Depois de terem imaginado que, com seus secretos pecados, ficariam escondidos sob o sombrio véu do esquecimento, eles se viram dispersados, como presa de um terrível espanto, e amedrontados por alucinações.
4. Mesmo o canto mais afastado em que se abrigavam não os punha ao abrigo do terror: ruídos aterradores ressoavam em torno deles, e taciturnos espectros de lúgubre aspecto lhes apareciam.
5. Nenhuma chama, por intensa que fosse, chegava a iluminar. E a luz brilhante dos astros era impotente para alumiar esta noite sombria.
6. Mas aparecia-lhes de súbito nada mais que uma chama aterradora, e, tomados de terror por esta visão fugitiva, julgavam essas aparições mais terríveis ainda.
7. A arte dos mágicos se mostrou ilusória, e esta sabedoria, a que eles pretendiam, evidenciou-se vergonhosamente como falsidade.
8. Aqueles que se jactavam de banir das almas doentes o terror e a perturbação, eram eles mesmos atormentados por um ridículo temor.
9. Mesmo quando nada de mais grave os aterrorizava, a passagem dos animais e o silvo das serpentes punham-nos fora de si, e eles morriam de medo. Recusavam até mesmo contemplar essa atmosfera à qual nada podia escapar;
10. porque a maldade, condenada por seu próprio testemunho, é medrosa, e, sob o peso da consciência, supõe sempre o pior,
11. pois o temor não é outra coisa que a privação dos socorros trazidos pela reflexão,
12. porque, quanto menor for em sua alma a esperança de auxílio, tanto mais penosa é a ignorância daquilo de que se tem medo.
13. Eles, durante essa noite de impotência, saída dos recantos do Hades impotente, dormiam num mesmo sono,
14. agitados, de um lado, pelo terror dos espectros, e paralisados, de outro, pelo desfalecimento da alma; pois era um pavor repentino e inesperado o que se abatera sobre eles.
15. E todo aquele que caía sem força, ficava como que preso e encerrado num cárcere sem ferros.
16. Fosse ele camponês ou pastor, ou o operário que se afadiga sozinho no seu trabalho, uma vez surpreendido, tinha de suportar a inevitável necessidade, porque todos estavam ligados por uma mesma cadeia de trevas.
17. O silvo do vento, o canto harmonioso dos passarinhos nos ramos espessos, o murmúrio da água correndo precipitadamente, o estrondo das rochas que se despenhavam,
18. a carreira invisível dos animais que saltavam, os urros dos animais selvagens, o eco que repercutia nas cavidades dos montes: tudo os paralisava de terror.
19. Enquanto o mundo inteiro era alumiado de uma brilhante luz, e sem obstáculo se entregava às suas ocupações,
20. somente sobre eles se estendia uma pesada noite, imagem das trevas que mais tarde os deviam acolher; e eram para si mesmos um peso mais insuportável que esta escuridão.

 
Capítulo 18

1. Contudo, para vossos santos havia uma luz brilhantíssima. Sem verem seus semblantes, os outros ouviam-lhes a voz, e julgavam-nos felizes por não sofrerem os mesmos tormentos.
2. Davam-lhes graças, porque não se vingavam dos maus tratos suportados, e pediam-lhes perdão de sua inimizade.
3. Pelo contrário, vós destes uma coluna luminosa para guiá-los na sua marcha para o desconhecido, como um sol que sem incomodá-los alumiava seu glorioso êxodo.
4. Mas eles bem mereciam ser privados da luz e aprisionados nas trevas, eles, que tinham encerrado em prisões os vossos filhos, através dos quais a incorruptível luz da lei se devia comunicar ao mundo.
5. Também tinham resolvido levar à morte os filhos dos santos, mas um deles foi exposto e salvo, e para puni-los fizestes perecer em multidão os seus filhos, e, todos juntos, vós os aniquilastes na profundeza das águas.
6. Esta mesma noite tinha sido conhecida de antemão por nossos pais, para que, conhecendo bem em que juramentos confiavam, ficassem cheios de coragem.
7. Assim vosso povo esperava tanto a salvação dos justos como a perdição dos ímpios,
8. e pelo mesmo fato de terdes destruído nossos inimigos, vós nos convidastes a ser vossos e nos honrastes.
9. Por isso, os santos filhos dos justos ofereciam secretamente um sacrifício; de comum acordo estabeleciam o pacto divino: que os santos participariam dos mesmos bens e correriam os mesmos perigos; e entoavam já os hinos de seus pais,
10. quando se elevaram os gritos confusos dos inimigos e se espalharam as lamentações dos que choravam seus filhos.
11. Uma mesma sentença feria o escravo e o senhor, o homem do povo sofria o mesmo castigo que o rei.
12. Todos igualmente tinham um número incalculável de mortos abatidos da mesma maneira; os sobreviventes não eram suficientes para sepultá-los. porque, num instante, sua melhor geração era exterminada.
13. Depois de terem permanecido incrédulos por causa de seus sortilégios, reconheceram, vendo morrer seus primogênitos, que esse povo era verdadeiramente filho de Deus,
14. porque, quando um profundo silêncio envolvia todas as coisas, e a noite chegava ao meio de seu curso,
15. vossa palavra todo-poderosa desceu dos céus e do trono real, e, qual um implacável guerreiro, arremessou-se sobre a terra condenada à ruína.
16. De pé, ela tudo encheu de morte, e, pisando a terra, tocava os céus.
17. No mesmo instante, visões e sonhos terríveis os perturbaram, e temores inesperados os assaltaram;
18. tombando aqui e acolá, semimortos, revelavam a causa da morte que os atingia;
19. porque os sonhos que os tinham agitado tinham-nos informado antecipadamente, para que eles não perecessem sem conhecer a causa de sua desgraça.
20. Verdade é que a prova da morte feriu também os justos, e numerosos foram os que ela abateu no deserto, mas a ira de Deus não durou muito tempo;
21. porque um homem irrepreensível se apressou a tomar sua defesa, servindo-se das armas de seu ministério pessoal, a oração e o sacrifício expiatório do incenso. Opôs-se à ira, e pôs fim ao flagelo, mostrando que era vosso servo.
22. Dominou a revolta, não pela força física, nem pela força das armas, mas pela sua palavra deteve aquele que castigava, relembrando-lhe os juramentos feitos aos antepassados e a aliança estabelecida.
23. Já os mortos se amontoavam uns sobre os outros, quando ele interveio, deteve a cólera e afastou-a dos vivos.
24. Na sua longa vestimenta estava representado o universo inteiro; nas quatro fileiras de pedras os nomes gloriosos dos patriarcas; e no diadema de sua cabeça vossa Majestade.
25. Diante destas coisas cedeu o exterminador e foi diante destas coisas que retrocedeu: porque a simples demonstração de vossa ira era suficiente.

 
Capítulo 19

1. Quanto aos ímpios, inexorável foi a ira que os perseguiu até o fim: porque Deus previa o que eles haveriam de fazer,
2. isto é, depois de terem deixado partir (os justos), instando mesmo que fossem embora, mudariam de opinião e os perseguiriam.
3. Na verdade, eles estavam ainda enlutados, e gemiam ainda sobre a tumba de seus mortos, quando loucamente tomaram outra resolução e perseguiram, como a fugitivos, aqueles aos quais tinham rogado que partissem.
4. Um merecido destino os impelia a esse proceder extremo, e os atirava no olvido dos acontecimentos passados, para que sofressem, em meio a tormentos, um castigo completo,
5. e fossem feridos de uma morte insólita, enquanto vosso povo tentava uma extraordinária passagem.
6. É que toda a criação, obedecendo às vossas ordens, foi remodelada em sua natureza, para que vossos filhos fossem conservados ilesos.
7. Foi vista uma nuvem cobrir o acampamento, e a terra seca surgir do que tinha sido água, um caminho viável formar-se no mar Vermelho, e um campo verdejante emergir das ondas impetuosas.
8. Por aí passou toda ela, a nação dos que vossa mão protegia, e que viram singulares prodígios.
9. Iam como cavalos conduzidos à pastagem, e saltavam como cordeiros, glorificando-vos a vós, Senhor, seu libertador,
10. porque eles se lembravam ainda do que tinha acontecido na terra estrangeira: como a terra, contrariando a geração dos vivos, tinha produzido moscas, e como o rio, em lugar de peixes, tinha lançado fora uma multidão de rãs.
11. Mais tarde, viram ainda nascer uma nova espécie de pássaros, quando, premidos pela cobiça, pediram manjares delicados, porquanto, para satisfazê-los, codornizes subiram do mar.
12. Os castigos não surpreenderam os pecadores, sem que fossem antes advertidos pela violência dos raios.
13. Suportavam justamente o castigo de sua própria maldade, porque tinham mostrado excessivo ódio pelo estrangeiro.
14. Houve muitos que não quiseram receber hóspedes desconhecidos, mas estes reduziram à escravidão hóspedes que tinham sido benfeitores.
15. E isso não é tudo; haverá algo a mais que um castigo qualquer para aqueles que acolheram mal os estrangeiros:
16. mas estes, a princípio, receberam bem seus hóspedes, e concederam-lhes a participação em seus direitos. Em seguida, eles os encheram de males.
17. Do mesmo modo, foram feridos de cegueira, como aqueles homens, às portas do justo, quando, envolvidos por uma profunda escuridão, procuravam, cada um de seu lado, o caminho para suas casas.
18. Assim, os elementos mudavam suas propriedades entre si, como na harpa os sons mudam de ritmo, conservando a mesma tonalidade. É o que se pode verificar perfeitamente quando se consideram esses acontecimentos.
19. Os seres terrestres tornavam-se aquáticos, os que nadam passavam à terra,
20. o fogo era mais violento debaixo da chuva, e a água esquecia a propriedade que tem de extingui-lo.
21. Além disso, as chamas não ofendiam as carnes dos frágeis animais que as atravessavam, e não liqüefaziam esse alimento celeste, semelhante ao gelo e inteiramente capaz de se derreter.
22. É que em tudo, Senhor, engrandecestes e glorificastes vosso povo, e não vos dedignastes de assisti-lo em todo o tempo e em todo o lugar.

 

Livro do Eclesiástico

Livro do Eclesiástico

 Capítulo 1

1. Toda a sabedoria vem do Senhor Deus, ela sempre esteve com ele. Ela existe antes de todos os séculos.
2. Quem pode contar os grãos de areia do mar, as gotas de chuva, os dias do tempo? Quem pode medir a altura do céu, a extensão da terra, a profundidade do abismo?
3. Quem pode penetrar a sabedoria divina, anterior a tudo?
4. A sabedoria foi criada antes de todas as coisas, a inteligência prudente existe antes dos séculos!
5. O verbo de Deus nos céus é fonte de sabedoria, seus caminhos são os mandamentos eternos.
6. A quem foi revelada a raiz da sabedoria? Quem pode discernir os seus artifícios?
7. A quem foi mostrada e revelada a ciência da sabedoria? Quem pode compreender a multiplicidade de seus caminhos?
8. Somente o Altíssimo, criador onipotente, rei poderoso e infinitamente temível, Deus dominador, sentado no seu trono;
9. foi ele quem a criou no Espírito Santo, quem a viu, numerada e medida;
10. ele a espargiu em todas as suas obras, sobre toda a carne, à medida que a repartiu, e deu-a àqueles que a amavam.
11. O temor do Senhor é uma glória, um motivo de glória, uma fonte de alegria, uma coroa de regozijo.
12. O temor do Senhor alegra o coração. Ele nos dá alegria, regozijo e longa vida.
13. Quem teme o Senhor sentir-se-á bem no instante derradeiro, no dia da morte será abençoado.
14. O amor de Deus é uma sabedoria digna de ser honrada.
15. Aqueles a quem ela se mostra, amam-na logo que a vêem, logo que reconhecem os prodígios que realiza.
16. O temor do Senhor é o início da sabedoria. Ela foi criada com os homens fiéis no seio de sua mãe, ela caminha com as mulheres de escol, vemo-la na companhia dos justos e dos fiéis.
17. O temor ao Senhor é a religião da ciência.
18. Essa religião guarda e santifica o coração; ela lhe traz satisfação e alegria.
19. Aquele que teme ao Senhor achar-se-á confortado, no dia da morte será abençoado.
20. O temor ao Senhor é a plenitude da sabedoria, a plenitude de seus frutos, (para aquele que a possui)
21. ela enche toda a sua casa com os bens que produz, e seus celeiros com seus tesouros.
22. O temor do Senhor é a coroa da sabedoria: dá uma plenitude de paz e de frutos de salvação.
23. Ele a viu e numerou-a; ora, um e outra são um dom de Deus.
24. A sabedoria distribui a ciência e a prudente inteligência; eleva à glória aqueles que a possuem.
25. O temor do Senhor é a raiz da sabedoria, seus ramos são de longa duração.
26. A inteligência e a religião da ciência se acham nos tesouros da sabedoria, mas a sabedoria é abominada pelos pecadores.
27. O temor ao Senhor expulsa o pecado,
28. pois aquele que não tem esse temor não poderá tornar-se justo. A violência de sua paixão causará sua ruína.
29. O homem paciente esperará até um determinado tempo, após o qual a alegria lhe será restituída.
30. O homem de bom senso guarda suas palavras; muitos falarão, em voz alta, de sua prudência.
31. O sentido da instrução está encerrado nos celeiros da sabedoria.
32. Mas o culto de Deus é abominado pelo pecador.
33. Meu filho, tu que desejas ardentemente a sabedoria, sê justo e Deus ta concederá.
34. Pois o temor do Senhor é sabedoria e instrução, e o que lhe é agradável
35. é fidelidade e doçura; ele encherá os celeiros daqueles (que as possuem).
36. Não sejas rebelde ao temor do Senhor, não vás a ele com um coração fingido.
37. Não sejas hipócrita diante dos homens, e que teus lábios não sejam motivo de queda.
38. Vela sobre eles para que não caias, e não atraias sobre tua alma a desonra;
39. e para que Deus, revelando teus segredos, não te destrua no meio da assembléia,
40. por te teres aproximado do Senhor sorrateiramente, com o coração cheio de astúcia e engano.

 
Capítulo 2

1. Meu filho, se entrares para o serviço de Deus, permanece firme na justiça e no temor, e prepara a tua alma para a provação;
2. humilha teu coração, espera com paciência, dá ouvidos e acolhe as palavras de sabedoria; não te perturbes no tempo da infelicidade,
3. sofre as demoras de Deus; dedica-te a Deus, espera com paciência, a fim de que no derradeiro momento tua vida se enriqueça.
4. Aceita tudo o que te acontecer. Na dor, permanece firme; na humilhação, tem paciência.
5. Pois é pelo fogo que se experimentam o ouro e a prata, e os homens agradáveis a Deus, pelo cadinho da humilhação.
6. Põe tua confiança em Deus e ele te salvará; orienta bem o teu caminho e espera nele. Conserva o temor dele até na velhice.
7. Vós, que temeis o Senhor, esperai em sua misericórdia, não vos afasteis dele, para que não caiais;
8. vós, que temeis o Senhor, tende confiança nele, a fim de que não se desvaneça vossa recompensa.
9. Vós, que temeis o Senhor, esperai nele; sua misericórdia vos será fonte de alegria.
10. Vós, que temeis o Senhor, amai-o, e vossos corações se encherão de luz.
11. Considerai, meus filhos, as gerações humanas: sabei que nenhum daqueles que confiavam no Senhor foi confundido.
12. Pois quem foi abandonado após ter perseverado em seus mandamentos? Quem é aquele cuja oração foi desprezada?
13. Pois Deus é cheio de bondade e de misericórdia, ele perdoa os pecados no dia da aflição. Ele é o protetor de todos os que verdadeiramente o procuram.
14. Ai do coração fingido, dos lábios perversos, das mãos malfazejas, do pecador que leva na terra uma vida de duplicidade;
15. ai dos corações tímidos que não confiam em Deus, e que Deus, por essa razão, não protege;
16. ai daqueles que perderam a paciência, que saíram do caminho reto, e se transviaram nos maus caminhos.
17. Que farão eles quando o Senhor começar o exame?
18. Aqueles que temem ao Senhor não são incrédulos à sua palavra, e os que o amam permanecem em sua vereda.
19. Aqueles que temem ao Senhor procuram agradar-lhe, aqueles que o amam satisfazem-se na sua lei.
20. Aqueles que temem ao Senhor preparam o coração, santificam suas almas na presença dele.
21. Aqueles que temem ao Senhor guardam os seus mandamentos, têm paciência até que ele lance os olhos sobre eles,
22. dizendo: Se não fizermos penitência, cairemos nas mãos do Senhor, e não nas mãos dos homens,
23. pois a misericórdia dele está na medida de sua grandeza.

 
Capítulo 3

1. Os filhos da sabedoria formam a assembléia dos justos, e o novo que compõem é, todo ele, obediência e amor.
2. Ouvi, meus filhos, os conselhos de vosso pai, segui-os de tal modo que sejais salvos.
3. Pois Deus quis honrar os pais pelos filhos, e cuidadosamente fortaleceu a autoridade da mãe sobre eles.
4. Aquele que ama a Deus o roga pelos seus pecados, acautela-se para não cometê-los no porvir. Ele é ouvido em sua prece cotidiana.
5. Quem honra sua mãe é semelhante àquele que acumula um tesouro.
6. Quem honra seu pai achará alegria em seus filhos, será ouvido no dia da oração.
7. Quem honra seu pai gozará de vida longa; quem lhe obedece dará consolo à sua mãe.
8. Quem teme ao Senhor honra pai e mãe. Servirá aqueles que lhe deram a vida como a seus senhores.
9. Honra teu pai por teus atos, tuas palavras, tua paciência,
10. a fim de que ele te dê sua bênção, e que esta permaneça em ti até o teu último dia.
11. A bênção paterna fortalece a casa de seus filhos, a maldição de uma mãe a arrasa até os alicerces.
12. Não te glories do que desonra teu pai, pois a vergonha dele não poderia ser glória para ti,
13. pois um homem adquire glória com a honra de seu pai, e um pai sem honra é a vergonha do filho.
14. Meu filho, ajuda a velhice de teu pai, não o desgostes durante a sua vida.
15. Se seu espírito desfalecer, sê indulgente, não o desprezes porque te sentes forte, pois tua caridade para com teu pai não será esquecida,
16. e, por teres suportado os defeitos de tua mãe, ser-te-á dada uma recompensa;
17. tua casa tornar-se-á próspera na justiça. Lembrar-se-ão de ti no dia da aflição, e teus pecados dissolver-se-ão como o gelo ao sol forte.
18. Como é infame aquele que abandona seu pai, como é amaldiçoado por Deus aquele que irrita sua mãe!
19. Meu filho, faze o que fazes com doçura, e mais do que a estima dos homens, ganharás o afeto deles.
20. Quanto mais fores elevado, mais te humilharás em tudo, e perante Deus acharás misericórdia;
21. porque só a Deus pertence a onipotência, e é pelos humildes que ele é (verdadeiramente) honrado.
22. Não procures o que é elevado demais para ti; não procures penetrar o que está acima de ti. Mas pensa sempre no que Deus te ordenou. Não tenhas a curiosidade de conhecer um número elevado demais de suas obras,
23. pois não é preciso que vejas com teus olhos os seus segredos.
24. Acautela-te de uma busca exagerada de coisas inúteis, e de uma curiosidade excessiva nas numerosas obras de Deus,
25. pois a ti foram reveladas muitas coisas, que ultrapassam o alcance do espírito humano.
26. Muitos foram enganados pelas próprias opiniões. Seu sentido os reteve na vaidade.
27. O coração empedernido acabará por ser infeliz. Quem ama o perigo nele perecerá.
28. O coração de caminhos tortuosos não triunfará, e a alma corrompida neles achará ocasião de queda.
29. O coração perverso ficará acabrunhado de tristeza, e o pecador ajuntará pecado sobre pecado.
30. Não há nenhuma cura para a assembléia dos soberbos, pois, sem que o saibam, o caule do pecado se enraíza neles.
31. O coração do sábio se manifesta pela sua sabedoria; o bom ouvido ouve a sabedoria com ardente avidez.
32. O coração sábio e inteligente abstém-se do pecado. Ele triunfará nas obras de justiça.
33. A água apaga o fogo ardente, a esmola enfrenta o pecado.
34. Deus olha para aquele que pratica a misericórdia; dele se lembrará no porvir, no dia de sua infelicidade este achará apoio.

 
Capítulo 4

1. Meu filho, não negues esmola ao pobre, nem dele desvies os olhos.
2. Não desprezes o que tem fome, não irrites o pobre em sua indigência.
3. Não aflijas o coração do infeliz, não recuses tua esmola àquele que está na miséria;
4. não rejeites o pedido do aflito, não desvies o rosto do pobre.
5. Não desvies os olhos do indigente, para que ele não se zangue. Aos que pedem não deis motivo de vos amaldiçoarem pelas costas,
6. pois será atendida a imprecação daquele que te amaldiçoa na amargura de sua alma. Aquele que o criou o atenderá.
7. Torna-te afável na assembléia dos pobres, humilha tua alma diante de um ancião; curva a cabeça diante de um poderoso.
8. Dá ouvidos ao pobre de boa vontade. Paga a tua dívida, dá-lhe com doçura uma resposta apaziguadora.
9. Liberta da casa do orgulhoso aquele que sofre injustiça. Quando fizeres um julgamento, não o faças com azedume.
10. Sê misericordioso com os órfãos como um pai; e sê como um marido para a mãe deles.
11. E serás como um filho obediente do Altíssimo, que, mais do que uma mãe, terá compaixão de ti.
12. A sabedoria inspira a vida aos seus filhos, ela toma sob a sua proteção aqueles que a procuram; ela os precede no caminho da justiça.
13. Aquele que a ama, ama a vida; aqueles que velam para encontrá-la sentirão sua doçura.
14. Aqueles que a possuem terão a vida como herança, e Deus abençoará todo o lugar onde ele entrar.
15. Aqueles que a servem serão obedientes ao Santo; aqueles que a amam serão amados por Deus.
16. Aquele que a ouve julgará as nações; aquele que é atento em contemplá-la permanecerá seguro.
17. Quem nela põe sua confiança tê-la-á como herança e sua posteridade a possuirá,
18. pois na provação ela anda com ele, e escolhe-o em primeiro lugar.
19. Ela traz-lhe o temor, o pavor e a aprovação. Ela o atormenta com sua penosa disciplina, até que, tendo-o experimentado nos seus pensamentos, ela possa confiar nele.
20. Então ela o porá firme, voltará a ele em linha reta. Ela o cumula de alegria,
21. desvenda-lhe seus segredos e enriquece-o com tesouros de ciência, de inteligência e de justiça.
22. Porém, se ele se transviar, ela o abandonará, e o entregará às mãos do seu inimigo.
23. Meu filho, aproveita-te do tempo, evita o mal;
24. para o bem de tua alma, não te envergonhes de dizer a verdade,
25. pois há uma vergonha que conduz ao pecado, e uma vergonha que atrai glória d graça.
26. Em teu próprio prejuízo não te mostres parcial, não mintas em prejuízo de tua alma.
27. Não tenhas complacência com as fragilidade do próximo,
28. não retenhas uma palavra que pode ser salutar, não escondas tua sabedoria pela tua vaidade.
29. Pois a sabedoria faz-se distinguir pela língua; o bom senso, o saber e a doutrina, pela palavra do sábio; e a firmeza, pelos atos de justiça.
30. Não contradigas de nenhum modo a verdade, envergonha-te da mentira cometida por ignorância.
31. Não te envergonhes de confessar os teus pecados; não te tornes escravo de nenhum homem que te leve a pecar.
32. Não resistas face a face ao homem poderoso, não te oponhas ao curso do rio.
33. Combate pela justiça a fim de salvares tua vida; até a morte, combate pela justiça, e Deus combaterá por ti contra teus inimigos.
34. Não sejas precipitado em palavras, e (ao mesmo tempo) covarde e negligente em tuas ações.
35. Não sejas como um leão em tua casa, prejudicando os teus domésticos e tiranizando os que te são submissos.
36. Que tua mão não seja aberta para receber, e fechada para dar.

 
Capítulo 5

1. Não contes com riquezas injustas. Não digas: Tenho o suficiente para viver, pois no dia do castigo e da escuridão, isso de nada te servirá.
2. Quando te sentires forte, não te entregues às cobiças de teu coração.
3. Não digas: Como sou forte! ou: Quem me obrigará a prestar contas dos meus atos?,
4. pois Deus tomará sua vingança. Não digas: Pequei, e o que me aconteceu de mal?, pois o Senhor é lento para castigar (os crimes).
5. A propósito de um pecado perdoado, não estejas sem temor, e não acrescentes pecado sobre pecado.
6. Não digas: A misericórdia do Senhor é grande, ele terá piedade da multidão dos meus pecados,
7. pois piedade e cólera são nele igualmente rápidas, e o seu furor visa aos pecadores.
8. Não demores em te converteres ao Senhor, não adies de dia em dia,
9. pois sua cólera virá de repente, e ele te perderá no dia do castigo.
10. Não te inquietes à procura de riquezas injustas, de nada te servirão no dia do castigo e da escuridão.
11. Não joeires a todos os ventos, não andes por qualquer caminho, pois é assim que se revela o pecador de linguagem dúbia.
12. Firma-te no caminho do Senhor, na sinceridade de teus sentimentos e teus conhecimentos, nunca te afastes de uma linguagem pacífica e eqüitativa.
13. Escuta com doçura o que te dizem a fim de compreenderes, darás então uma resposta sábia e apropriada.
14. Se tiveres inteligência, responde a outrem, senão, põe a mão sobre a tua boca, para que não sejas surpreendido a dizer uma palavra indiscreta, e venhas a te envergonhar dela.
15. A honra e a consideração acompanham a linguagem do sábio, mas a língua do imprudente é a sua própria ruína.
16. Não passes por delator, não caias com embaraço nas armadilhas de tua língua,
17. pois ao ladrão estão reservados a confusão e o arrependimento, à língua dúbia, uma censura severa; ao delator, ódio, inimizade e infâmia.
18. Faze justiça tanto para o pequeno como para o grande.

 
Capítulo 6

1. De amigo não te tornes inimigo de teu próximo, pois o malvado terá por sorte a vergonha e a ignomínia, como todo pecador invejoso e de língua fingida.
2. Não te eleves como um touro nos pensamentos de teu coração, para não suceder que a tua loucura quebre a tua força,
3. devore as tuas folhas, apodreça os teus frutos e te deixe como uma árvore seca no deserto.
4. Pois uma alma perversa é a perda de quem a possui; torná-lo-á motivo de zombaria para seus inimigos, e conduzi-lo-á à sorte dos ímpios.
5. Uma boa palavra multiplica os amigos e apazigua os inimigos; a linguagem elegante do homem virtuoso é uma opulência.
6. Dá-te bem com muitos, mas escolhe para conselheiro um entre mil.
7. Se adquirires um amigo, adquire-o na provação, não confies nele tão depressa.
8. Pois há amigos em certas horas que deixarão de o ser no dia da aflição.
9. Há amigo que se torna inimigo, e há amigo que desvendará ódios, querelas e disputas;
10. há amigo que só o é para a mesa, e que deixará de o ser no dia da desgraça.
11. Se teu amigo for constante, ele te será como um igual, e agirá livremente com os de tua casa.
12. Se se rebaixa em tua presença e se retrai diante de ti, terás aí, na união dos corações, uma excelente amizade.
13. Separa-te daqueles que são teus inimigos, e fica de sobreaviso diante de teus amigos.
14. Um amigo fiel é uma poderosa proteção: quem o achou, descobriu um tesouro.
15. Nada é comparável a um amigo fiel, o ouro e a prata não merecem ser postos em paralelo com a sinceridade de sua fé.
16. Um amigo fiel é um remédio de vida e imortalidade; quem teme ao Senhor, achará esse amigo.
17. Quem teme ao Senhor terá também uma excelente amizade, pois seu amigo lhe será semelhante.
18. Meu filho, aceita a instrução desde teus jovens anos; ganharás uma sabedoria que durará até à velhice.
19. Vai ao encontro dela, como aquele que lavra e semeia, espera pacientemente seus excelentes frutos,
20. terás alguma pena em cultivá-la, mas, em breve, comerás os seus frutos.
21. Quanto a sabedoria é amarga para os ignorantes! O insensato não permanecerá junto a ela.
22. Ela lhes será como uma pesada pedra de provação, eles não tardarão a desfazer-se dela.
23. Pois a sabedoria que instrui justifica o seu nome, não se manifesta a muitos; mas, naqueles que a conhecem, persevera, até (tê-los levado) à presença de Deus.
24. Escuta, meu filho, recebe um sábio conselho, não rejeites minha advertência.
25. Mete os teus pés nos seus grilhões, e teu pescoço em suas correntes.
26. Abaixa teu ombro para carregá-la, não sejas impaciente em suportar seus liames.
27. Vem a ela com todo o teu coração. Guarda seus caminhos com todas as tuas forças.
28. Segue-lhe os passos e ela se dará a conhecer; quando a tiveres abraçado, não a deixes.
29. Pois acharás finalmente nela o teu repouso. E ela transformar-se-á para ti em um motivo de alegria.
30. Seus grilhões ser-te-ão uma proteção, um firme apoio; suas correntes te serão um adorno glorioso;
31. pois nela há uma beleza que dá vida, e seus liames são ligaduras que curam.
32. Como ele te revestirás como de uma vestimenta de glória, e a porás sobre ti como uma coroa de júbilo.
33. Meu filho, se me ouvires com atenção, serás instruído; se submeteres o teu espírito, tornar-te-ás sábio.
34. Se me deres ouvido, receberás a doutrina. Se gostares de ouvir, adquirirás a sabedoria.
35. Permanece na companhia dos doutos anciãos, une-te de coração à sua sabedoria, a fim de que possas ouvir o que dizem de Deus, e não te escapem suas louváveis máximas.
36. Se vires um homem sensato, madruga para ir ter com ele, desgaste o teu pé o limiar de sua porta.
37. Concentra teu pensamento nos preceitos de Deus, sê assíduo à meditação de seus mandamentos. Ele próprio te dará um coração, e ser-te-á concedida a sabedoria que desejas.

 
Capítulo 7

1. Não pratiques o mal, e o mal não te iludirá.
2. Afasta-te da injustiça, e a injustiça se afastará de ti.
3. Meu filho, não semeies o mal nos sulcos da injustiça, e dele não recolherás o sétuplo.
4. Não peças ao Senhor o encargo de guiar outrem, nem ao rei um lugar de destaque.
5. Não te justifiques perante Deus, pois ele conhece o fundo dos corações; não pretendas parecer sábio diante do rei.
6. Não procures tornar-te juiz, se não fores bastante forte para destruir a iniqüidade, para que não aconteça que temas perante um homem poderoso, e te exponhas a pecar contra a eqüidade.
7. Não ofendas a população inteira de uma cidade, não te lances em meio da multidão.
8. Não acrescentes um segundo pecado ao primeiro, pois mesmo por causa de um só não ficarás impune.
9. Não te deixes levar ao desânimo.
10. Não descuides de orar nem de dar esmola.
11. Não digas: Deus há de considerar a quantidade de meus dons; quando os oferecer ao Deus Altíssimo, ele os há de aceitar.
12. Não zombes de um homem que está na aflição, pois há alguém que humilha e exalta: Deus que tudo vê.
13. Não inventes mentira contra teu irmão, não inventes nenhuma mentira contra teu amigo.
14. Cuida-te para não dizeres mentira alguma, pois o costume de mentir é coisa má.
15. Na companhia dos anciãos, não sejas falador, não multipliques as palavras em tua oração.
16. Não abomines as tarefas penosas, nem o labor da terra, que foi criado pelo Altíssimo.
17. Não te coloques no número das pessoas corrompidas,
18. lembra-te de que a cólera não tarda.
19. Humilha profundamente o teu espírito, pois o fogo e o verme são o castigo da carne do ímpio.
20. Não pratiques o mal contra um amigo que demora em te pagar, não desprezes por causa do ouro um irmão bem-amado.
21. Não te afastes da mulher sensata e virtuosa que te foi concedida no temor do Senhor; pois a graça de sua modéstia vale mais do que o ouro.
22. Não maltrates um escravo que trabalha pontualmente, nem o operário que te é devotado.
23. Que o escravo sensato te seja tão caro quanto a tua própria vida! Não o prives da liberdade, nem o abandones na indigência.
24. Tens rebanhos? Cuida deles; se te forem úteis, guarda-os em tua casa.
25. Tens filhos? Educa-os, e curva-os à obediência desde a infância.
26. Tens filhas? Vela pela integridade de seus corpos, não lhes mostres um rosto por demais jovial.
27. Casa tua filha, e terás feito um grande negócio; dá-a a um homem sensato.
28. Se tiveres mulher conforme teu coração, não a repudies, e não confies na que é odiosa.
29. Honra teu pai de todo o coração, não esqueças os gemidos de tua mãe;
30. lembra-te de que sem eles não terias nascido, e faze por eles o que fizeram por ti.
31. Teme a Deus com toda a tua alma, tem um profundo respeito pelos seus sacerdotes.
32. Ama com todas as tuas forças aquele que te criou; não abandones os seus ministros.
33. Honra a Deus com toda a tua alma, respeita os sacerdotes; (nos sacrifícios) oferece-lhes as espáduas.
34. Dá-lhes, como te foi prescrito, a parte da primícias e das vítimas expiatórias; purifica-te de tuas omissões com pequenas (oferendas);
35. oferece ao Senhor os dons das espáduas, os sacrifícios de santificação e as primícias das coisas santas.
36. Estende a mão para o pobre, a fim de que sejam perfeitos teu sacrifício e tua oferenda.
37. Dá de boa vontade a todos os vivos, não recuses esse benefício a um morto.
38. Não deixes de consolar os que choram, aproxima-te dos que estão aflitos.
39. Não tenhas preguiça de visitar um doente, pois é assim que te firmarás na caridade.
40. Em tudo o que fizeres, lembra-te de teu fim, e jamais pecarás.

 
Capítulo 8

1. Não disputes com um homem poderoso, para que não caias em suas mãos.
2. Não tenhas desavença com um rico, para não acontecer que ele te mova um processo;
3. pois o ouro e a prata perderam a muitos, e o poder deles chega até a transviar o coração de um rei.
4. Não tenhas desavença com um grande falador, e não amontoes lenha em sua fogueira.
5. Não convivas com um homem mal-educado, para não acontecer que ele fale mal de teus antepassados.
6. Não desprezes um homem que renuncia ao pecado, não lhe dirijas censuras; lembra-te de que todos merecemos o castigo.
7. Não desprezes um ancião, pois alguns dentre nós também envelheceremos.
8. Não te alegres com a morte de teu inimigo, pois sabes que todos morreremos, e não queremos que com isso se regozijem.
9. Não desprezes o que contarem os velhos sábios, mas entretém-te com suas palavras,
10. pois é com eles que aprenderás a sabedoria, os ensinamentos da inteligência, e a arte de servir irrepreensivelmente os poderosos.
11. Não desprezes os ensinamentos dos anciãos, pois eles os aprenderam com seus pais.
12. Estudarás com eles o conhecimento e a arte de responder com oportunidade.
13. Não acendas os tições dos pecadores, repreendendo-os, para não acontecer que te queimes nas chamas dos seus pecados.
14. Não resistas perante um insolente, para que ele não arme ciladas às tuas palavras.
15. Não emprestes dinheiro a alguém mais poderoso do que tu, pois, se lhe emprestares, considera-o perdido.
16. Não prestes fiança a outrem além de tuas posses, pois se o fizeres, considera-te na obrigação de pagá-la.
17. Não julgues (o procedimento) de um juiz, pois ele julga conforme a eqüidade.
18. Não enveredes por um caminho com um audacioso, para não acontecer que ele faça recair sobre ti seus delitos; pois ele só age segundo o seu capricho, e por causa de sua loucura perecerás com ele.
19. Não tenhas desavença com um homem irascível; não vás para o deserto com um audacioso, porque para ele nada vale o sangue, e ele te destruirá quando te achares sem socorro.
20. Não deliberes com loucos, pois só amam o que lhes agrada.
21. Nada resolvas perante um estranho, pois não sabes o que ele pode imaginar.
22. Não abras teu coração a qualquer homem, para não acontecer que recebas uma falsa amizade, e, além disso, ultrajes.

 
Capítulo 9

1. Não tenhas ciúme da mulher que repousa no teu seio, para que ela não empregue contra ti a malícia que lhe houveres ensinado.
2. Não entregues tua alma ao domínio de tua mulher, para que ela não usurpe tua autoridade e fiques humilhado.
3. Não lances os olhos para uma mulher leviana, para que não caias em suas ciladas.
4. Não freqüentes assiduamente uma dançarina, e não lhe dês atenção, para que não pereças por causa de seus encantos.
5. Não detenhas o olhar sobre uma jovem, para que a sua beleza não venha a causar tua ruína.
6. Nunca te entregues às prostitutas, para que não te percas com os teus haveres.
7. Não lances os olhos daqui e dali pelas ruas da cidade, não vagueies pelos caminhos.
8. Desvia os olhos da mulher elegante, não fites com insistência uma beleza desconhecida.
9. Muitos pereceram por causa da beleza feminina, e por causa dela inflama-se o fogo do desejo.
10. Toda mulher que se entrega à devassidão é como o esterco que se pisa na estrada.
11. Muitos, por haveres admirado uma beleza desconhecida, foram condenados, pois a conversa dela queima como fogo.
12. Nunca te sentes ao lado de uma estrangeira, não te ponhas à mesa com ela;
13. não a provoques a beber vinho, para não acontecer que teu coração por ela se apaixone, e que pelo preço de teu sangue caias na perdição.
14. Não abandones um velho amigo, pois o novo não o valerá.
15. Vinho novo, amigo novo; é quando envelhece que o beberás com gosto.
16. Não invejes a glória nem as riquezas do pecador, pois não sabes qual será a sua ruína.
17. Não sintas prazer com a violência dos injustos; sabe que o ímpio desagrada a Deus até na habitação dos mortos.
18. Afasta-te do homem que tem o poder de matar, e assim não saberás o que é temer a morte.
19. Mas, se dele de aproximares, cuida em não cometer nenhuma falta, para não acontecer que ele tire a tua vida.
20. Sabe que a morte está próxima, porque andas em meio de armadilhas, e no meio das armas de inimigos escolerizados.
21. Tanto quanto possível, desconfia de quem de ti se aproxima, e aconselha-te com os sábios e os prudentes.
22. Que os teus convivas sejam virtuosos. Põe tua glória no temor de Deus.
23. Que o pensamento de Deus ocupe o teu espírito, e os preceitos do Altíssimo sejam a tua conversa.
24. É pela obra de suas mãos que o artista conquista a estima; e um príncipe do povo, pela sabedoria de seus discursos; e os anciãos, pela prudência de suas palavras.
25. Um grande falador é coisa terrível na cidade; o homem de conversas imprudentes torna-se odioso.

 
Capítulo 10

1. Um governador sábio julga o seu povo; o governo de um homem sensato será estável.
2. Tal o juiz do povo, tais os seus ministros; tal o governador da cidade, tais os seus habitantes.
3. Um rei privado de juízo perde o seu povo, as cidades povoam-se pelo bom senso dos que governam.
4. O domínio sobre um país está na mão de Deus. Ele lhe suscitará no tempo oportuno um governador útil.
5. A prosperidade do homem está na mão de Deus; é ele que põe na fronte do escriba um sinal de honra.
6. Não te recordes de nenhuma injustiça causada pelo próximo, nada faças por um procedimento injusto.
7. O orgulho é abominável a Deus e aos homens; e toda a iniqüidade das nações provoca horror.
8. Um reino passa de um povo a outro, por causa das injustiças, dos ultrajes e de fraudes diversas.
9. Nada há mais criminoso do que a avareza; de que se orgulha o que é terra e cinza?
10. Nada há mais iníqüo do que o amor ao dinheiro; aquele que o ama chega até a vender a sua alma. Vivo ainda, despojou-se de suas próprias entranhas.
11. A duração de todo o poder é breve; uma doença prolongada cansa o médico.
12. O médico atalha um breve mal-estar; assim, um que hoje é rei amanhã morrerá.
13. Quando o homem está morto, tem por herança serpentes, bichos e vermes.
14. O início do orgulho num homem é renegar a Deus,
15. pois seu coração se afasta daquele que o criou, porque o princípio de todo pecado é o orgulho; aquele que nele se compraz será coberto de maldições, e acabará sendo por elas derrubado.
16. Eis porque o Senhor desonrou a assembléia dos maus, e os destruiu para sempre.
17. Deus derrubou os tronos dos chefes orgulhosos e em lugar deles fez sentar homens pacíficos.
18. Deus fez secar as raízes das nações arrogantes, e implantou os humildes entre as mesmas nações.
19. O Senhor destruiu as terras das nações, e as arruinou até os alicerces.
20. Destruiu muitas delas e exterminou-as, apagou a sua lembrança de sobre a terra.
21. Deus apaga a memória dos orgulhosos, enquanto faz perdurar a dos humildes de coração.
22. O orgulho não foi criado para os homens, nem a cólera para o sexo feminino.
23. A raça do homem que teme a Deus será honrada; será desonrado aquele que desprezar os preceitos do Senhor.
24. Entre os seus irmãos, a homenagem é feita para aquele que os governa; aqueles que temem a Deus serão honrados na presença do Senhor.
25. Rico, nobre ou pobre, sua glória é o temor do Senhor.
26. Não desprezes o homem justo, ainda que pobre; não enalteças um pecador, ainda que rico,
27. O grande, o justo e o poderoso recebem homenagens, mas ninguém é maior do que aquele que teme a Deus.
28. Homens livres serão os súditos de um escravo sensato. Repreendido, o homem prudente e bem educado não murmura, e o ignorante não será honrado.
29. Não te orgulhes do trabalho que fazes, não sejas indolente no tempo da adversidade.
30. Mais vale o trabalho e abundância, do que o jactancioso que não tem pão.
31. Meu filho, conserva tua alma na doçura, e dá-lhe a honra que merece.
32. Aquele que peca contra si mesmo, que o justificará? Quem devolverá a honra a quem desonrou sua vida?
33. Um pobre é honrado pelo seu conhecimento e temor a Deus; há quem o é por causa de suas riquezas.
34. Mas quanta glória teria se fosse rico aquele que é honrado, mesmo sendo pobre! Mas o que se gloria de sua riqueza, acautele-se para não se tornar pobre.

 
Capítulo 11

1. A sabedoria do humilde levantará a sua cabeça e o fará sentar-se no meio dos grandes.
2. Não avalies um homem pela sua aparência, não desprezes um homem pelo seu aspecto.
3. Pequena é a abelha entre os seres alados: o que produz, entretanto, é o que há de mais doce.
4. Não te glories nunca de tuas vestes, não te engrandeças no dia em que fores homenageado, pois só as obras do Altíssimo são admiráveis, dignas de glória, misteriosas e invisíveis.
5. Muitos príncipes ocuparam o trono, e alguém, em quem se não pensava, usou o diadema.
6. Muitos poderosos foram grandemente oprimidos, e homens ilustres foram entregues às mãos de outrem.
7. Não censures ninguém antes de estares bem informado; e quando te tiveres informado, repreende com eqüidade;
8. nada respondas antes de ter ouvido, não interrompas ninguém no meio do seu discurso.
9. Não indagues das coisas que não te dizem respeito; não te assentes com os maus para julgar.
10. Meu filho, não empreendas coisas em demasia, porque, se adquirires riquezas, não ficarás isento de culpa; se empreenderes muitos negócios, não poderás abrangê-los; se te antecipares, não te sairás bem deles.
11. Há ímpio que trabalha, se apressa e se queixa, porém só se torna menos rico.
12. Há homem esgotado e em grande necessidade de alívio, pobre de energia e rico em necessidades,
13. que o olhar de Deus considera com benevolência, e tira do desalento para lhe dar ânimo; muitos, ao verem isso, ficam surpreendidos e dão glória a Deus.
14. Bens e males, vida e morte, pobreza e riqueza vêm de Deus.
15. Em Deus se encontram a sabedoria, o conhecimento e a ciência da lei; nele residem a caridade e as boas obras.
16. O erro e as trevas foram criados com os pecadores; aqueles que se comprazem no mal, envelhecerão no mal.
17. O dom de Deus permanece nos justos, e seu aproveitamento assegura um triunfo eterno.
18. Há homem que enriquece, vivendo com economia, e a única recompensa que dela usufrui é a
19. de poder dizer: Achei o repouso, vou agora desfrutar meus haveres sozinho.
20. E ele não considera que o tempo passa, que vem a morte, e que, ao morrer, tudo deixará para os outros.
21. Permanece firme em tua aliança com Deus; que isto seja sempre o assunto de tuas conversas. E envelhece praticando os mandamentos.
22. Não prestes atenção ao que fazem os pecadores; põe tua confiança em Deus, e limita-te ao que fazes.
23. É, com efeito, coisa fácil aos olhos de Deus enriquecer repentinamente o pobre.
24. A bênção divina não se faz esperar para recompensar o justo. Em pouco tempo ele o faz crescer e dar fruto.
25. Não digas: De que preciso eu? Que tenho a esperar doravante?
26. Não digas tampouco: Eu me basto a mim mesmo; que mal posso temer para o futuro?
27. No dia feliz não percas a recordação dos males, nem a recordação do bem no dia infeliz.
28. Pois no dia da morte é fácil para Deus dar a cada um conforme o seu comportamento.
29. A dor de um instante faz esquecer os maiores prazeres; com a morte do homem, todos os seus atos serão desvendados.
30. Não louves a homem algum antes de sua morte, pois é em seus filhos que se reconhece um homem.
31. Não tragas um homem qualquer à tua casa, pois numerosas são as armadilhas do que engana.
32. Assim como sai um hálito fétido de um estômago estragado, assim como a perdiz atrai para a armadilha, e o cabrito para os laços, assim é o coração dos soberbos, e daquele que está à espreita para ver a ruína do próximo.
33. Transformando o bem em mal, ele arma ciladas, e põe nódoas nas coisas mais puras.
34. Uma centelha basta para acender uma grande fogueira; um só rebanho é causa de múltiplos morticínios, e o pecador procura traiçoeiramente derramar sangue.
35. Acautela-te contra o corruptor que trama a iniqüidade, para não acontecer que ele faça de ti um eterno objeto de mofa.
36. Dás entrada em tua casa ao estrangeiro? Ele aí suscitará uma discórdia que te derrubará, e te tornará inimigo das pessoas de tua própria casa.

 
Capítulo 12

1. Se fizeres bem, sabe a quem o fazes, e receberás gratidão pelos teus benefícios.
2. Faze o bem para o justo, e disso terás grande recompensa, senão dele, pelo menos do Senhor,
3. pois não há bem para quem persevera no mal e não dá esmolas; porque o Altíssimo tem horror dos pecadores, e usa de misericórdia com os que se arrependem.
4. Dá ao homem bom, não ampares o pecador, pois Deus dará ao mau e ao pecador o que merecem; ele os guarda para o dia em que os castigará.
5. Dá àquele que é bom, e não auxilies o pecador.
6. Faze o bem ao homem humilde, e nada dês ao ímpio; impede que se lhe dê pão, para não suceder que ele se torne mais poderoso do que tu.
7. Pois acharás um duplo mal em todo o bem que lhe fizeres, porque o próprio Altíssimo abomina os pecadores, e exerce vingança sobre os ímpios.
8. O amigo não se conhece durante a prosperidade, e o inimigo não se pode esconder na adversidade.
9. Quando um homem é feliz, seus inimigos estão tristes; é na desgraça que se reconhece um amigo.
10. Não confies nunca em teu inimigo, pois a malícia dele é como a ferrugem que sempre volta no bronze.
11. Ainda mesmo que se humilhe e ande todo submisso, sê vigilante e previne-te contra ele,
12. Não o estabeleças junto de ti, nem ele se assente à tua direita, para não suceder que ele queira tomar o teu lugar e ocupar o teu assento; e que, reconhecendo enfim a veracidade das minhas palavras, te sintas ferido pelos meus avisos.
13. Quem terá pena de um encantador mordido por uma cobra, e de todos os que se aproximam das feras? Assim acontece com aquele que priva com o malvado, e que se acha envolvido nos pecados dele.
14. Ficará uma hora contigo, mas se vieres a fraquejar, não mais poderá conter-se.
15. O inimigo tem a doçura nos lábios, enquanto no coração arma laços para te lançar na cova.
16. O inimigo tem lágrimas nos olhos, mas, se tiver oportunidade, será insaciável de teu sangue.
17. Se a desgraça te ferir, hás de achá-lo em primeiro lugar;
18. ele tem lágrimas nos olhos, mas, fingindo socorrer-te, dar-te-á uma rasteira.
19. Abanará a cabeça e baterá palmas, e, mudando de semblante, não cessará de cochichar.

 
Capítulo 13

1. Quem toca no pez ficará manchado; e quem trata com o orgulhoso, tornar-se-á orgulhoso.
2. Quem se liga com um mais poderoso do que ele, põe (sob os ombros) uma pesada carga. Não te tornes amigo de um mais poderoso do que tu.
3. Que ligação pode haver entre um pote de barro e um pote de ferro? Quando houver choque, (o pote de barro) será quebrado.
4. O rico comete uma injustiça e em seguida se põe a gritar; o pobre, ofendido, guarda silêncio.
5. Enquanto lhe servires, ele te empregará; quando nada mais tiveres, ele te abandonará.
6. Se tens haveres, ele se banqueteará contigo, te esgotará e não cuidará de tua sorte.
7. Se lhe fores útil, ele te dominará; com um sorriso ele te dará esperanças, com belas palavras te dirá: De que necessitas?
8. Confundir-te-á com seus banquetes, até que te tenha exaurido duas ou três vezes; e, por fim, zombará de ti; depois, vendo-te, abandornar-te-á, e abanará a cabeça, escarnecendo de ti.
9. Humilha-te perante Deus e espera que sua mão (execute).
10. Tem cuidado em não te deixares seduzir, para que não caias numa loucura aviltante.
11. Não te rebaixes em tua sabedoria, para não suceder que esse rebaixamento te arraste à loucura.
12. Se um poderoso te chamar, retira-te, e ele será ainda mais levado a insistir.
13. Não sejas importuno, para não acontecer que ele se canse de ti; não te afastes muito dele, para não suceder que ele te esqueça.
14. Não tenhas a audácia de falar de igual para igual com ele, e não confies em suas longas conversas. Pois fazendo-te falar muito, ele te experimentará, e com um sorriso te interrogará sobre os teus segredos.
15. Seu coração impiedoso relembrará todas as tuas palavras, e não te poupará nem aos maus tratos nem às cadeias.
16. Cuida de ti e presta bem atenção aos teus ouvidos, pois caminhas à beira de um abismo.
17. Mas, ouvido tudo isso, encara-o como um sonho, e serás vigilante;
18. ama a Deus durante toda a tua vida, e invoca-o para tua salvação.
19. Todo ser vivo ama o seu semelhante, assim todo homem ama o seu próximo.
20. Toda carne se une a outra carne de sua espécie, e todo homem se associa ao seu semelhante.
21. O logo jamais terá amizade com o cordeiro: assim é entre o pecador e o justo.
22. Que relação pode haver entre um santo homem e um cão? Que ligação pode ter um rico com um pobre?
23. O onagro é a presa do leão no deserto: assim os pobres servem de pasto aos ricos.
24. E como a humanidade é abominada pelo orgulhoso, do mesmo modo o pobre causa horror ao rico.
25. Um rico abalado é apoiado pelos seus amigos. O pobre que tropeça é ainda empurrado pelos seus companheiros.
26. Quando um rico é enganado, numerosos são aqueles que o vêm ajudá-lo; se diz tolices, o apóiam.
27. Quando um pobre é enganado, ainda merece censura, e, se falar com sabedoria, não o levam em consideração.
28. Se fala o rico, todos se calam, e glorificam suas palavras até às nuvens;
29. se fala um pobre, dizem: Que é este homem? E se ele tropeçar, fazem-no cair.
30. A riqueza é boa para quem não tem a consciência pesada, péssima é a pobreza do mau que se lastima.
31. O coração do homem modifica seu rosto, seja em bem, seja em mal.
32. O sinal de um coração feliz é um rosto alegre, tu o acharás dificilmente e com esforço.

 
Capítulo 14

1. Feliz o homem que não pecou pelas suas palavras, e que não é atormentado pelo remorso do pecado.
2. Feliz aquele cuja alma não está triste e que não está privado de esperança!
3. Para o homem avarento e cúpido a riqueza é inútil; para que serve o ouro ao homem invejoso?
4. Quem acumula injustamente, com prejuízo da vida, acumula para outros, e outro há de vir que esbanjará esses bens na devassidão.
5. Para quem será bom aquele que é mau para si mesmo? Não terá nenhuma satisfação em seus bens.
6. Nada é pior do que aquele que é avaro consigo mesmo: eis aí o verdadeiro salário de sua maldade.
7. Se ele fizer algum bem, é inconscientemente, a seu pesar, e acaba desvendando a sua maldade.
8. O olhar do invejoso é mau; ele desvia o rosto e despreza sua alma.
9. O olhar do avarento é insaciável a respeito da iniqüidade, só ficará satisfeito quando tiver ressecado e consumido a sua alma.
10. O olhar maldoso só leva ao mal; não será saciado com pão, mas será pobre e triste em sua própria mesa.
11. Meu filho, se algo tiveres, faze com isso algum bem a ti mesmo, e apresenta a Deus oferendas dignas.
12. Lembra-te de que a morte não tarda, e de que o pacto da moradia dos mortos te foi revelado, pois é lei deste mundo que é preciso morrer,
13. Antes de morrer, faze bem ao teu amigo, e dá esmola ao pobre conforme tuas posses.
14. Não te prives de um dia feliz, e não deixes escapar nenhuma parcela do precioso dom.
15. Não será a outrem que deixarás o fruto de teus esforços e de teus trabalhos, para ser repartido por sorte?
16. Dá e recebe, e justifica a tua alma.
17. Pratica a justiça, antes de tua morte, pois na moradia dos mortos não há de se achar alimento.
18. Toda carne fenece como a erva, e como a folha que cresce numa árvore vigorosa.
19. Umas nascem, outras caem. Assim, nesta raça de carne e sangue, uma geração morre, outra nasce.
20. Tudo o que é corruptível acabará por ser destruído, e o artesão morrerá com o seu trabalho.
21. Toda obra excelente será aprovada e o seu autor nela achará orgulho.
22. Feliz o homem que persevera na sabedoria, que se exercita na prática da justiça, e que, em seu coração, pensa no olhar de Deus que tudo vê;
23. que repassa no seu coração os seus caminhos, que penetra no conhecimento de seus segredos, que caminha atrás dela seguindo-lhe as pegadas, e que permanece em suas vias;
24. que olha pelas suas janelas, que escuta à sua porta,
25. que se detém junto à sua casa e que, enterrando uma estaca dentro de suas muralhas, edifica sua cabana junto a ela. Nessa cabana, seus haveres repousam tranqüilamente para sempre;
26. sob esse abrigo ele estabelece os seus filhos, e ele mesmo residirá debaixo dos seus ramos.
27. Em sua sombra ele encontra abrigo contra o calor, e repousará na sua glória.

 
Capítulo 15

1. Aquele que teme a Deus praticará o bem. Aquele que exerce a justiça possuirá a sabedoria.
2. Ela virá ao seu encontro como mãe cumulada de honrarias, e o receberá como uma esposa virgem;
3. alimentá-lo-á com o pão da vida e da inteligência, e o saciará com a água salutar da sabedoria. Ela se fortalecerá nele e o tornará inabalável,
4. ela o sustentará para que não seja confundido, e o exaltará entre os seus próximos.
5. Abrir-lhe-á a boca no meio da assembléia, enchê-lo-á do espírito de sabedoria e de inteligência, e o revestirá com um manto glorioso.
6. Acumulará sobre ele um tesouro de alegria e de júbilo, e lhe dará por herança um nome eterno.
7. Os homens insensatos não a alcançarão, mas os homens de bom senso irão ao encontro dela; os insensatos não a verão, porque ela está longe do orgulho e da fraude.
8. Os mentirosos dela não se recordarão, mas os homens sinceros achar-se-ão com ela, e prosperarão até a visita de Deus.
9. O louvor não é belo na boca do pecador,
10. porque a sabedoria vem de Deus; o louvor a Deus acompanha a sabedoria, enche a boca fiel, e lhe é inspirada pelo Dominador.
11. Não digas: É por causa de Deus que ela me falta. Pois cabe a ti não fazer o que ele abomina.
12. Não digas: Foi ele que me transviou, pois que Deus não necessita dos pecadores.
13. O Senhor detesta todo o erro e toda a abominação; aqueles que o temem não amam essas coisas.
14. No princípio Deus criou o homem, e o entregou ao seu próprio juízo;
15. deu-lhe ainda os mandamentos e os preceitos.
16. Se quiseres guardar os mandamentos, e praticar sempre fielmente o que é agradável (a Deus), eles te guardarão.
17. Ele pôs diante de ti a água e o fogo: estende a mão para aquilo que desejares.
18. A vida e a morte, o bem e o mal estão diante do homem; o que ele escolher, isso lhe será dado,
19. porque é grande a sabedoria de Deus. Forte e poderoso, ele vê sem cessar todos os homens.
20. Os olhos do Senhor estão sobre os que o temem, e ele conhece todo o comportamento dos homens.
21. Ele não deu ordem a ninguém para fazer o mal, e a ninguém deu licença para pecar;
22. pois não deseja uma multidão de filhos infiéis e inúteis.

 
Capítulo 16

1. Não te regozijes de ter muitos filhos se são maus, nem ponhas neles a tua alegria, se não tiverem o temor de Deus.
2. Não confies na sua vida, nem voltes os teus olhares para os seus trabalhos;
3. pois um único filho temente a Deus vale mais do que mil filhos ímpios.
4. Há mais vantagens em morrer sem filhos, que em deixar após si filhos ímpios.
5. Um único homem sensato fará povoar a pátria, enquanto que um país de maus tornar-se-á deserto.
6. Vi com meus olhos inúmeros exemplos, e meus ouvidos ouviram alguns ainda mais graves.
7. O fogo acender-se-á na assembléia do maus, e a cólera se inflamará sobre um povo incrédulo.
8. Os gigantes não imploraram o perdão de seus pecados, e foram destruídos, apesar de terem confiados na própria força.
9. Deus não poupou a terra onde residia Lot, mas abominou os seus habitantes por causa de sua insolência.
10. Não teve pena deles, exterminou a nação inteira, que se engrandecia com o orgulho, apesar de seus pecados.
11. Assim aconteceu com os seiscentos mil homens vivos que se haviam reunido na dureza de coração; ainda que um único se tivesse mostrado obstinado, seria para admirar que não tivesse sido castigado,
12. pois misericórdia e ira estão sempre em Deus, grandemente misericordioso, porém capaz de cólera.
13. Os seus castigos igualam sua misericórdia; ele julga o homem conforme as suas obras.
14. O pecador não escapará em suas rapinas, e não será postergada a espera daquele que exerce a misericórdia;
15. toda a misericórdia colocará cada um em seu lugar, conforme o mérito de suas obras e a sabedoria de seu comportamento.
16. Não digas: Furtar-me-ei aos olhos de Deus; quem se lembrará de mim no alto do céu?
17. Não serei reconhecido no meio da multidão; quem sou eu no meio de uma tal multidão de criaturas?
18. Eis que o céu e o céu dos céus, o abismo, a terra inteira e tudo o que encerram se abalarão quando ele aparecer.
19. As montanhas, as colinas e os alicerces da terra tremerão de pavor quando Deus os olhar.
20. No meio de tudo isso, o coração do homem é insensato; Deus, porém, conhece todos os corações.
21. Quem é aquele que compreende os caminhos (de Deus), e a tempestade que escapa aos olhos do homem?
22. Com efeito a maior parte de suas obras está oculta; quem anunciará, quem poderá suportar os efeitos de sua justiça? Pois as sentenças (divinas) estão longe do pensamento de muitos, e o exame geral só se realizará no último dia.
23. O homem de coração mesquinho só pensa em vaidades; o imprudente e extraviado só se ocupa de loucuras.
24. Meu filho, ouve-me, adquire uma instrução sadia, torna o teu coração atento às minhas palavras.
25. Dar-te-ei um ensino muito exato, vou tentar explicar-te o que é a sabedoria; torna o teu coração atento às minhas palavras, pois vou descrever-te com exatidão as maravilhas que Deus, desde o início, fez brilhar nas suas obras, e vou expor, com toda a veracidade, o conhecimento de Deus.
26. Por decreto de Deus suas obras existem desde o começo; desde a criação distinguiu-as em partes. Colocou as principais em suas épocas,
27. adornou-as para sempre; elas não sentiram necessidade nem fadiga, e nunca interromperam o seu trabalho.
28. Nunca nenhuma delas embaraçou a vizinha.
29. Não sejas incrédulo à palavra do Senhor.
30. Depois disto, olhou Deus para a terra, e encheu-a de benefícios.
31. É o que revela sobre a terra a alma de todo ser vivo, e é ao seu seio que todos eles voltam.

 
Capítulo 17

1. Deus criou o homem da terra, formou-o segundo a sua própria imagem;
2. e o fez de novo voltar à terra. Revestiu-o de força segundo a sua natureza;
3. determinou-lhe uma época e um número de dias. Deu-lhe domínio sobre tudo o que está na terra.
4. Fê-lo temido por todos os seres vivos, fê-lo senhor dos animais e dos pássaros.
5. De sua própria substância, deu-lhe uma companheira semelhante a ele, com inteligência, língua, olhos, ouvidos, e juízo para pensar; cumulou-os de saber e inteligência.
6. Criou neles a ciência do espírito, encheu-lhes o coração de sabedoria, e mostrou-lhes o bem e o mal.
7. Pôs o seu olhar nos seus corações para mostrar-lhes a majestade de suas obras,
8. a fim de que celebrassem a santidade do seu nome, e o glorificassem por suas maravilhas, apregoando a magnificência de suas obras.
9. Deu-lhes, além disso, a instrução, deu-lhes a posse da lei da vida;
10. concluiu com eles um pacto eterno, e revelou-lhes a justiça de seus preceitos.
11. Viram com os próprios olhos as maravilhas da sua glória, seus ouvidos ouviram a majestade de sua voz: Guardai-vos, disse-lhes ele, de toda a iniqüidade.
12. Impôs a cada um (deveres) para com o próximo.
13. O proceder deles lhe está sempre diante dos olhos, nada lhe escapa.
14. Pôs um príncipe à testa de cada povo;
15. Israel, porém, foi visivelmente o quinhão do próprio Deus.
16. Todas as suas obras lhe são claras como o sol, e seus olhos observam sem cessar o seu proceder.
17. As leis de Deus não são eclipsadas pela iniqüidade deles, e todos os pecados que cometem estão diante do Senhor.
18. A esmola do homem é para ele como um selo, e ele conserva a beneficência do homem como a pupila dos olhos.
19. Depois se levantará para dar a cada um o que lhe é devido, e fá-los-á voltar às profundezas da terra.
20. Aos penitentes, porém, abre o caminho da justiça: conforta os desfalecidos, e conserva-lhes a verdade como destino.
21. Converte-te ao Senhor, abandona os teus pecados.
22. Ora diante dele e diminui as ocasiões de pecado.
23. Volta para o Senhor, afasta-te de tua injustiça, e detesta o que causa horror a Deus.
24. Conhece a justiça e os juízos de Deus; permanece firme no estado em que ele te colocou, e na oração constante ao Altíssimo.
25. Anda na companhia do povo santo, com os que vivem e proclamam a glória de Deus.
26. Não te detenhas no erro dos ímpios, louva a Deus antes da morte;
27. após a morte nada mais há, o louvor terminou. Glorifica a Deus enquanto viveres; glorifica-o enquanto tiveres vida e saúde; louva a Deus e glorifica-o em suas misericórdias.
28. Quão grande é a misericórdia do Senhor, e o perdão que concede àqueles que para ele se voltam!
29. Pois não se pode encontrar tudo nos homens, porque os homens não são imortais, e se comprazem na vaidade e na malícia.
30. O que há de mais luminoso do que o sol? E, entretanto, ele tem eclipses. O que há de mais criminoso do que os pensamentos da carne e do sangue? Ora, isso será castigado.
31. O sol contempla a multidão dos astros do céu, enquanto que todos os homens são apenas terra e cinza.

 
Capítulo 18

1. O Eterno tudo criou sem exceção, só o Senhor será considerado justo. Ele é o rei invencível que permanece para sempre.
2. Quem será capaz de relatar as suas obras?
3. Quem poderá compreender as suas maravilhas?
4. Quem poderá descrever todo o poder de sua grandeza? Quem empreenderá a explicação de sua misericórdia?
5. Nada há a subtrair, nada a acrescentar às maravilhas de Deus; elas são incompreensíveis.
6. Quando o homem tiver acabado, então estará no começo; e quando cessar a pesquisa, ficará perplexo.
7. Que é o homem, e para que serve? Que mal ou que bem pode ele fazer?
8. A duração da vida humana é quando muito cem anos. No dia da eternidade esses breves anos serão contados como uma gota de água do mar, como um grão de areia.
9. É por isso que o Senhor é paciente com os homens, e espalha sobre eles a sua misericórdia.
10. Ele vê quanto é má a presunção do seu coração, e reconhece que o fim deles é lamentável;
11. é por isso que ele os trata com toda a doçura, e mostra-lhes o caminho da justiça.
12. A compaixão de um homem concerne ao seu próximo, mas a misericórdia divina estende-se sobre todo ser vivo.
13. Cheio de compaixão, (Deus) ensina os homens, e os repreende como um pastor o faz com o seu rebanho.
14. Compadece-se daquele que recebe os ensinamentos de sua misericórdia, e do que se apressa a cumprir os seus preceitos.
15. Meu filho, não mistures a repreensão com o benefício, não acrescentes nunca palavras duras e más às tuas dádivas.
16. Porventura o orvalho não refresca o calor ardente? Assim, uma palavra doce vale mais do que um presente.
17. A doçura das palavras não prevalece sobre a própria dádiva? Mas uma e outra coisa se encontram no homem justo.
18. O insensato censura com aspereza; a dádiva de um indiscreto resseca os olhos.
19. Antes de julgar, procura ser justo; antes de falar, aprende.
20. Usa o remédio antes de ficares doente. Interroga-te a ti mesmo antes do juízo, e acharás misericórdia diante de Deus.
21. Antes da doença, humilha-te, e no tempo da enfermidade mostra o teu proceder.
22. Nada te impeça de orar sempre, e não te envergonhes de progredir na justiça até a morte; pois a recompensa de Deus é eterna.
23. Antes da oração, prepara a tua alma, e não sejas como um homem que tenta a Deus.
24. Lembra-te da ira do último dia, e do tempo em que Deus castigará, desviando o rosto.
25. Lembra-te da pobreza quando estiveres na abundância e das necessidades da indigência no dia da riqueza.
26. Entre a manhã e a tarde muda o tempo, e tudo isto acontece num instante aos olhos de Deus.
27. Um homem sábio está sempre alerta; nos dias de tentação, se resguarda do pecado.
28. Todo homem sagaz reconhece a sabedoria, e presta homenagem àquele que a encontrou.
29. Os homens de linguagem sensata procedem também com sabedoria, compreendem a verdade e a justiça, e espalham uma multidão de sentenças e máximas.
30. Não te deixes levar por tuas más inclinações, e refreia os teus apetites.
31. Se satisfizeres a cobiça de tua alma, ela fará de ti a alegria dos teus inimigos.
32. Não te comprazas no meio das multidões, mesmo da menores, porque nelas somos constantemente comprometidos.
33. Não te empobreças, pedindo empréstimos para aparentar, quando nada tens na algibeira; isso equivaleria a atentar contra a tua própria vida.

 
Capítulo 19

1. O operário dado ao vinho não se enriquecerá, e aquele que se descuida das pequenas coisas, cairá pouco a pouco.
2. O vinho e as mulheres fazem sucumbir até mesmos os sábios, e tornam culpados os homens sensatos.
3. Aquele que se une às prostitutas é um homem de nenhuma valia; tornar-se-á pasto da podridão e dos vermes; ficará sendo um grande exemplo, e sua alma será suprimida do número dos vivos.
4. Aquele que é crédulo demais tem um coração leviano; sofrerá prejuízo e será tido como pecador contra si mesmo.
5. Quem se regozija com a iniqüidade será desonrado; quem detesta a correção abreviará a sua vida; quem odeia a tagarelice, destrói sua malícia.
6. Quem peca contra si próprio, arrepender-se-á de tê-lo feito; quem põe sua alegria na malícia, será apontado como infame.
7. Não repitas uma palavra dura e maldosa, e não serás prejudicado.
8. Não confies teu pensamento nem ao amigo nem ao inimigo. Se tiveres cometido uma falta, não a reveles,
9. pois ele te ouvirá, te observará, e, fingindo desculpar o teu pecado, te odiará. E estará sempre presente (para te prejudicar).
10. Ouviste uma palavra contra o teu próximo? Abafa-a dentro de ti; fica seguro de que ela não te fará morrer.
11. Por causa de uma palavra (irrefletida) o tolo estorce-se de dores, como uma mulher que geme para dar à luz.
12. Como uma flecha cravada na gordura da coxa, assim é uma palavra no coração do insensato.
13. Repreende o teu amigo, porque talvez não tenha compreendido, e diga: Nada fiz. Ou se o fez, para que não torne a fazê-lo.
14. Repreende o teu próximo, porque talvez não tenha dito (aquilo) de que é acusado. Ou, se o disse, para que não o torne a dizer.
15. Repreende o teu próximo, porque muitas vezes se diz o que não é verdade,
16. e não acredites em tudo o que dizem. Homem há que peca pela língua, mas sem fazer com intenção.
17. Pois quem não peca pela língua? Repreende o teu próximo antes de ameaçá-lo e dá ensejo ao temor do Altíssimo;
18. pois toda a sabedoria consiste no temor de Deus; nela está o temor de Deus. E em toda a sabedoria reside o cumprimento da lei.
19. O hábito de praticar o mal não é sabedoria; o modo de agir dos pecadores não é prudência.
20. Há uma malícia hábil que é execrável, e há uma estupidez que é apenas falta de sabedoria.
21. Mais vale o homem que tem pouca sabedoria, e a quem falta o senso, mas que tem o temor (de Deus), do que o homem que possui uma grande inteligência, e que transgride a lei do Altíssimo.
22. Há uma habilidade que não falha o alvo, mas que é iníqua.
23. Há quem fale com segurança e só diz a verdade, e há quem se humilhe maliciosamente, cujo coração está cheio de embuste.
24. Há quem se rebaixe com excesso em profunda humilhação, e quem abaixe a cabeça, fingindo não ver o que está oculto.
25. Se a fraqueza o impede de cometer o mal, não deixará de pecar, logo que houver ocasião.
26. Pelo semblante se reconhece um homem; pelo seu aspecto se reconhece um sábio.
27. As vestes do corpo, o riso dos dentes, e o modo de andar de um homem fazem-no revelar-se.
28. Há uma falsa correção na cólera de um insolente; há um modo de julgar que muitas vezes não é justo; e aquele que se cala dá prova de prudência.

 
Capítulo 20

1. Oh! quanto melhor é admoestar que irritar-se, e não impedir de falar aquele que quer confessar a sua falta!
2. Como o eunuco que anseia por violentar uma donzela,
3. assim é o que, por violência, faz um julgamento iníquo.
4. Como é bom que o corrigido manifeste o seu arrependimento! Pois assim se evita um pecado voluntário.
5. Há quem se cale e é considerado sábio, e quem se torne odioso pela intemperança no falar.
6. Há quem se cale por não saber falar, e há quem se cale porque reconhece quando é tempo (de falar).
7. O sábio permanece calado até o momento (oportuno), mas o leviano e imprudente não espera a ocasião.
8. Aquele que se expande em palavras, prejudica-se a si mesmo; quem se permite todo o desregramento torna-se odioso.
9. Para o homem desprovido de instrução há proveito na infelicidade, mas há certas descobertas que lhe acarretam a ruína.
10. Há dom que não é útil. e há dom que é duplamente recompensado.
11. Há quem ache a sua perda na própria glória, e há quem levantará a cabeça após uma humilhação.
12. Há quem compre muito por um preço módico, mas que (de fato) o paga pelo sétuplo do seu valor.
13. O sábio torna-se amável por suas palavras, enquanto que os encantos do insensato desaparecem.
14. O donativo do insensato não te trará proveito, pois ele te fixa com sete olhos.
15. Ele dá pouco e censura muitas vezes; quando abre a sua boca é como uma fogueira.
16. Há quem empresta hoje e amanhã o reclama. Tal homem é odioso.
17. O insensato não tem amigos, e pelo bem que faz não será bem acatado,
18. porque os que comem o seu pão têm línguas falsas; quantas e quantas vezes não zombarão dele?
19. Pois não agiu com bom senso, distribuindo o que devia guardar e o que não devia guardar.
20. A queda de uma língua mentirosa é como uma queda na laje; assim a ruína dos maus virá de repente.
21. Um homem desagradável é como uma história ruim, que se acha continuamente na boca das pessoas mal-educadas.
22. Será mal recebida a máxima que sair da boca do insensato, pois que ele a diz fora de tempo.
23. Há quem se abstenha de pecar por falta de meios, mas ressente o aguilhão do pecado até em seu repouso.
24. Há quem perca a sua alma por causa do respeito humano; perde-a, cedendo a uma pessoa imprudente; perde-se por atender demasiadamente a uma pessoa.
25. Há quem, por falsa vergonha, faça uma promessa a um amigo, e dele se faça gratuitamente um inimigo.
26. A mentira é no homem uma vergonhosa mancha: não deixa os lábios das pessoas mal-educadas.
27. Mais vale um ladrão do que um mentiroso contumaz, mas ambos terão a ruína como partilha.
28. O comportamento dos mentirosos é aviltante, sua vergonha jamais os abandonará.
29. O sábio atrai a si a estima por suas palavras; o homem prudente agradará aos poderosos.
30. Quem cultiva sua terra colherá montes de frutos; quem cultiva a justiça será ele próprio elevado; quem agrada aos poderosos fugirá da iniqüidade.
31. Os presentes e as dádivas cegam os olhos dos juízes. São em sua boca como um freio que os torna mudos e os impede de castigar.
32. Sabedoria escondida é tesouro invisível. Para que serve uma e outro?
33. Mais vale aquele que dissimula sua insipiência, do que aquele que esconde sua sabedoria.

 
Capítulo 21

1. Filho, pecaste? Não o faças mais. Mas ora pelas tuas faltas passadas, para que te sejam perdoadas.
2. Foge do pecado com se foge de uma serpente; porque, se dela te aproximares, ela te morderá.
3. Os seus dentes são dentes de leão, que matam as almas dos homens.
4. Todo pecado é como uma espada de dois gumes: a chaga que ele produz é incurável.
5. O ultraje e a violência destroem as riquezas. A mais rica mansão se arruína pelo orgulho; assim será desenraizada a riqueza do orgulhoso.
6. A oração do pobre eleva-se de sua boca até os ouvidos (de Deus), (e Deus) se apressará em lhe fazer justiça.
7. Aquele que odeia a correção segue os passos do pecador, aquele que teme a Deus volta ao seu próprio coração.
8. De longe é conhecido o poderoso de linguagem insolente, mas o homem sábio sabe como se descartar dele.
9. Quem constrói a sua casa às custas de outrem, é como aquele que amontoa pedras para (construir) no inverno.
10. A reunião dos pecadores é como um amontoado de estopas: seu fim será a fogueira.
11. O caminho dos pecadores é calçado de pedras unidas, mas ele conduz à região dos mortos, às trevas e aos suplícios.
12. Aquele que guarda a justiça penetrará o espírito dela.
13. A sabedoria e o bom senso são a consumação do temor a Deus.
14. Jamais tornar-se-á hábil aquele que não é sábio no bem,
15. pois há uma sabedoria que produz muito mal. E o bom senso não está onde está a amargura.
16. A ciência do sábio espalha-se como a água que transborda, e o conselho que ele dá permanece como fonte de vida.
17. O coração do insensato é como um cântaro lascado, nada retém da sabedoria.
18. Qualquer palavra sábia que ouça o homem sensato, ele a louvará e dela se aproveitará. Que a ouça um voluptuoso, e ela lhe desagradará, e ele a arremessará para trás de si.
19. A conversa do insensato é como um fardo para carregar, mas o encanto se acha nos lábios do homem sensato.
20. A conversação do homem prudente é procurada na sociedade; todos relembrarão suas palavras em seus corações.
21. A sabedoria é para o insensato como uma casa arruinada; a ciência do insensato é feita de palavras incoerentes.
22. A instrução é para o insensato como peias nos pés e como algemas nas mãos.
23. O insensato eleva a voz quando ri, mas o homem sábio sorri discretamente.
24. Para o homem prudente a ciência é um ornato de ouro, uma pulseira que traz no braço direito.
25. O insensato põe facilmente os pés na casa do vizinho, mas aquele que tem educação hesita em visitar um poderoso.
26. O insensato olha dentro de uma casa pela janela; o homem bem educado permanece fora.
27. É sinal de loucura escutar a uma porta; o homem prudente indigna-se com tal grosseria.
28. Os lábios dos imprudentes só proferem tolices, mas as palavras do sábio têm peso na balança.
29. O coração dos insensatos está na boca, a boca dos sábios está no coração.
30. Quando o ímpio amaldiçoa o adversário, amaldiçoa-se a si mesmo.
31. O delator macula-se a si próprio, e é odiado por todos; o que mora com ele será odioso, mas o homem sensato que se cala será honrado.

 
Capítulo 22

1. Ao preguiçoso é atirado esterco, só se fala dele com desprezo.
2. O preguiçoso é apedrejado com excremento, quem o tocar sacudirá a mão.
3. O filho mal educado é a vergonha de seu pai, a filha semelhante não gozará de nenhuma consideração.
4. Um jovem prudente é uma herança para o marido, mas a filha desavergonhada causa mágoa ao seu pai.
5. A mulher atrevida cobre de vergonha o pai e o marido; e é igual aos celerados: ambos a desprezam.
6. Uma palavra inoportuna é música em dia de luto; a sabedoria, porém, emprega com oportunidade o chicote e a instrução.
7. Instruir um insensato é tornar a ajustar um vaso quebrado;
8. falar a quem não ouve é como despertar alguém de um sono profundo.
9. Falar da sabedoria com um insensato é conversar com alguém que está adormecendo; no fim da conversa ele dirá: Que é?
10. Chora sobre um morto, porque ele perdeu a luz; chora sobre um tolo, porque é falho de juízo.
11. Chora menos sobre um morto, porque ele achou o repouso;
12. a vida criminosa do mau, porém, é pior do que a morte.
13. O luto por um morto dura sete dias, mas por um insensato e um ímpio, dura toda a sua vida.
14. Não fales muito com um estulto; não convivas com o insensato.
15. Acautela-te contra ele, para não seres incomodado; e não te mancharás com o contágio de seu pecado.
16. Afasta-te dele: encontrarás repouso, e a sua loucura não te causará mágoa.
17. O que há de mais pesado que o chumbo? E que outro nome dar-lhe a não ser o de insensato?
18. É mais fácil carregar areia, sal ou uma barra de ferro, do que suportar o imprudente, o tolo e o ímpio.
19. Um encaixamento de madeira adaptado aos alicerces de um edifício não se desconjunta. Assim é o coração firmado por uma decisão bem amadurecida.
20. O desígnio de um homem sensato, em qualquer tempo que seja, não será alterado pelo temor.
21. Como a estacada posta em lugar elevado e a parede sem argamassa não podem resistir à violência do vento,
22. assim um coração tímido, de pensamentos tolos, não pode resistir ao choque do temor.
23. O coração medroso do insensato jamais tem temor em seus pensamentos; assim também o que não se apóia nos preceitos divinos.
24. Quem machuca um olho, dele faz sair lágrimas; quem magoa um coração, nele excita a sensibilidade.
25. Quem lança uma pedra aos pássaros, fá-los fugir; assim, quem insulta um amigo, rompe a amizade.
26. Ainda que tenhas arrancado a espada contra o teu amigo, não desesperes; porque o regresso é possível.
27. Ainda que tenhas dito contra ele palavras desagradáveis, não temas, porque a reconciliação é possível, salvo se se tratar de injúrias, afrontas, insolências, revelação de um segredo ou golpes à traição; em todos esses casos fugirá de ti o teu amigo.
28. Permanece fiel ao teu amigo em sua pobreza, a fim de te alegrares com ele na sua prosperidade.
29. Permanece-lhe fiel no tempo da aflição, a fim de teres parte com ele em sua herança.
30. O vapor e a fumaça elevam-se na fornalha antes do fogo; assim o homicídio e o derramamento de sangue são precedidos de injúrias, ultrajes e ameaças.
31. Não me envergonharei de saudar um amigo, nem me esconderei da sua presença; e se me acontecer algum mal por isso, eu o suportarei,
32. mas quem o souber, dele desconfiará.
33. Quem porá uma guarda à minha boca, e um selo inviolável nos meus lábios, para que eu não caia por sua causa, e para que minha língua não me perca?

 
Capítulo 23

1. Senhor, meu pai e soberano de minha vida, não me abandoneis ao conselho de meus lábios, e não permitais que eles me façam sucumbir.
2. Quem fará sentir o chicote em meus pensamentos, e em meu coração a doutrina da sabedoria, para eu não ser poupado nos pecados por ignorância, a fim de que esses erros não apareçam?
3. Para que não aumentem as minhas omissões, e não se multipliquem as minhas ignorâncias, e eu não caia diante de meus adversários, e não escarneça de mim o meu inimigo?
4. Senhor, meu pai e Deus de minha vida, não me abandoneis às suas sugestões;
5. não me deis olhos altivos e preservai-me da cobiça!
6. Afastai de mim a intemperança! Que a paixão da volúpia não se apodere de mim e não me entregueis a uma alma sem pejo e sem pudor!
7. Ouvi, filhos, o conhecimento que eu vos dou: aquele que o guardar não perecerá pelos lábios, nem cairá em ações criminosas.
8. O pecador é apanhado pela sua leviandade; o orgulhoso e o maledicente nela encontrarão motivos de queda.
9. Que tua boca não se acostume ao juramento, porque isso leva a muitos pecados.
10. Que o nome de Deus não esteja sempre na tua boca, e que não mistures nas tuas conversas o nome dos santos, porque nisso não estarias isento de culpa.
11. Pois, assim como um escravo submetido continuamente à tortura, dela trará as cicatrizes, assim, todo homem que jura pelo nome de Deus, não poderá totalmente escapar ao pecado.
12. O homem que jura com freqüência será cheio de iniqüidade, e o flagelo não deixará a sua casa;
13. se não cumprir o juramento, sua culpa recairá sobre ele; e, se dissimular, pecará duplamente.
14. Se jurar em vão, isso não o justificará: sua casa será cheia de castigos.
15. Há uma outra palavra que merece a morte, e não deve ser encontrada na herança de Jacó!
16. Tudo isto está longe dos homens piedosos, que não se comprazem em tais crimes.
17. Não acostumes tua boca a uma linguagem grosseira, pois aí sempre haverá pecado.
18. Lembra-te de teu pai e de tua mãe, quando te achares no meio dos poderosos,
19. para não acontecer que Deus se esqueça de ti na presença deles, e que, tornando-te insensato pela tua excessiva familiaridade, tenhas de suportar um insulto, e desejes não ter nascido, e amaldiçoes o dia do teu nascimento.
20. O homem acostumado a dizer palavras injuriosas jamais se corrigirá disso.
21. Duas espécies de pessoas multiplicam os pecados, e a terceira atrai sobre si a cólera e a perdição.
22. A alma que queima como um fogo ardente não se apagará antes de ter devorado alguma coisa.
23. O homem que abusa de seu próprio corpo, não terá sossego enquanto não acender uma fogueira.
24. Para o fornicador todo o alimento é doce; não se cansará de pecar até à morte.
25. O homem que profana seu leito prejudica-se a si mesmo, e diz: Quem me vê?
26. As trevas me rodeiam, as paredes me escondem; ninguém me olha; a quem temerei? O Altíssimo não se recordará de meus pecados.
27. E ele não compreende que o olhar de Deus tudo vê, que um semelhante temor humano exclui dele o temor a Deus, e que os olhos dos homens o temem.
28. Ele não sabe que os olhos do Senhor são muito mais luminosos que o sol, que examinam por todos os lados o procedimento dos homens, as profundezas do abismo, e investigam o coração humano até em seus mais íntimos esconderijos.
29. Pois, o Senhor Deus conhecia todas as coisas antes de tê-las criado, e as vê todas, depois que as completou.
30. Este tal será castigado nas praças públicas da cidade; será posto em fuga como o potro da égua, e será apanhado onde menos o esperar.
31. Será vexado diante de todos, porque não compreendeu o que é o temor a Deus.
32. Assim também perecerá toda mulher que deixar seu marido, e lhe der como herdeiro um filho adulterino,
33. porque primeiramente ela foi desobediente à lei do Altíssimo, em segundo lugar pecou contra o seu marido, cometendo assim um adultério, dando-se a si filhos de outro homem.
34. Essa mulher será trazida perante a assembléia, e seus filhos serão vigiados.
35. Seus filhos não pegarão raízes; seus ramos não darão frutos.
36. Ela deixará uma memória maldita, e sua desonra jamais se apagará.
37. E todos aqueles que lhe sobreviverem reconhecerão que nada é melhor do que o temor a Deus, e nada mais suave que guardar os seus preceitos.
38. É uma grande glória seguir o Senhor, pois é ele quem dá vida longa.

 
Capítulo 24

1. A sabedoria faz o seu próprio elogio, honra-se em Deus, gloria-se no meio do seu povo.
2. Ela abre a boca na assembléia do Altíssimo, gloria-se diante dos exércitos do Senhor,
3. é exaltada no meio do seu povo, e admirada na assembléia santa.
4. Entre a multidão dos eleitos, recebe louvores, e bênçãos entre os abençoados de Deus.
5. Ela diz: Saí da boca do Altíssimo; nasci antes de toda criatura.
6. Eu fiz levantar no céu uma luz indefectível, e cobri toda a terra como que de uma nuvem.
7. Habitei nos lugares mais altos: meu trono está numa coluna de nuvens.
8. Sozinha percorri a abóbada celeste, e penetrei nas profundezas dos abismos. Andei sobre as ondas do mar,
9. e percorri toda a terra. Imperei sobre todos os povos
10. e sobre todas as nações.
11. Tive sob os meus pés, com meu poder, os corações de todos os homens, grandes e pequenos. Entre todas as coisas procurei um lugar de repouso, e habitarei na moradia do Senhor.
12. Então a voz do Criador do universo deu-me suas ordens, e aquele que me criou repousou sob minha tenda.
13. E disse-me: Habita em Jacó, possui tua herança em Israel, estende tuas raízes entre os eleitos.
14. Desde o início, antes de todos os séculos, ele me criou, e não deixarei de existir até o fim dos séculos; e exerci as minhas funções diante dele na casa santa.
15. Assim fui firmada em Sião; repousei na cidade santa, e em Jerusalém está a sede do meu poder.
16. Lancei raízes no meio de um povo glorioso, cuja herança está na partilha de meu Deus; e fixei minha morada na assembléia dos santos.
17. Elevei-me como o cedro do Líbano, como o cipreste do monte Sião;
18. cresci como a palmeira de Cades, como as roseiras de Jericó.
19. Elevei-me como uma formosa oliveira nos campos, como um plátano no caminho à beira das águas.
20. Exalo um perfume de canela e de bálsamo odorífero, um perfume como de mirra escolhida;
21. como o estoraque, o gálbano, o ônix e a mirra, como a gota de incenso que cai por si própria, perfumei minha morada. Meu perfume é como o de um bálsamo sem mistura.
22. Estendi meus galhos como um terebinto, meus ramos são de honra e de graça.
23. Cresci como a vinha de frutos de agradável odor, e minhas flores são frutos de glória e abundância.
24. Sou a mãe do puro amor, do temor (de Deus), da ciência e da santa esperança,
25. em mim se acha toda a graça do caminho e da verdade, em mim toda a esperança da vida e da virtude.
26. Vinde a mim todos os que me desejais com ardor, e enchei-vos de meus frutos;
27. pois meu espírito é mais doce do que o mel, e minha posse mais suave que o favo de mel.
28. A memória de meu nome durará por toda a série dos séculos.
29. Aqueles que me comem terão ainda fome, e aqueles que me bebem terão ainda sede.
30. Aquele que me ouve não será humilhado, e os que agem por mim não pecarão.
31. Aqueles que me tornam conhecida terão a vida eterna.
32. Tudo isso é o livro da vida, a aliança do Altíssimo, e o conhecimento da verdade.
33. Moisés deu-nos a lei com os preceitos da justiça, a herança da casa de Jacó e as promessas feitas a Israel.
34. (Deus) prometeu a seu servo Davi que faria sair dele um rei muito poderoso, o qual se sentaria eternamente num trono de glória.
35. (A lei) faz transbordar a sabedoria como o Fison, e como o Tigre na época dos frutos novos;
36. ela espalha a inteligência como o Eufrates, e uma inundação como a do Jordão no tempo da colheita.
37. É ela quem derrama a ciência como o Nilo, soltando as águas como o Geon no tempo da vindima.
38. Foi ele quem primeiro a conheceu perfeitamente, essa sabedoria impenetrável às almas fracas.
39. O seu pensamento é mais vasto do que o mar, e seu conselho, mais profundo do que o grande abismo.
40. Eu, a sabedoria, fiz correr os rios.
41. Sou como o curso da água imensa de um rio, como o canal de uma ribeira, e como um aqueduto saindo do paraíso.
42. Eu disse: Regarei as plantas do meu jardim, darei de beber aos frutos de meu prado;
43. e eis que meu curso de água tornou-se abundante, e meu rio tornou-se um mar.
44. Pois a luz da ciência que eu derramo sobre todos é como a luz da manhã, e de longe eu a torno conhecida.
45. Penetrarei em todas as profundezas da terra, visitarei todos aqueles que dormem, e alumiarei todos os que confiam no Senhor.
46. Continuarei a espalhar a minha doutrina como uma profecia, e deixá-la-ei aos que buscam a sabedoria, e não abandonarei seus descendentes até o século santo.
47. Considerai que não trabalhei só para mim, mas para todos aqueles que buscam a verdade.

 
Capítulo 25

1. Meu espírito se compraz em três coisas que têm a aprovação de Deus e dos homens:
2. a união entre os irmãos, o amor entre os parentes, e um marido que vive bem com sua mulher.
3. Mas há três espécies de gente que minha alma detesta, e cuja vida me é insuportável:
4. um pobre orgulhoso, um rico mentiroso e um ancião louco e insensato.
5. Como acharás na velhice aquilo que não tiveres acumulado na juventude?
6. Quão belo é para a velhice o saber julgar, e para os anciãos o saber aconselhar!
7. Quão bela é a sabedoria nas pessoas de idade avançada, e a inteligência com a prudência nas pessoas honradas!
8. A experiência consumada é a coroa dos anciãos; o temor de Deus é a sua glória.
9. Nove coisas se apresentam ao meu espírito, as quais considero felizes, e uma décima que anunciarei aos homens:
10. um homem que encontra a sua alegria em seus filhos; um homem que vive o bastante para ver a ruína de seus inimigos;
11. aquele – feliz dele! – que vive com uma mulher sensata, e que não pecou pela língua, nem teve de servir a pessoas indignas dele.
12. Feliz aquele que encontrou um amigo verdadeiro, e que fala da justiça a um ouvido atento.
13. Como é grande aquele que encontrou sabedoria e ciência! Mas nada é tão grande como aquele que teme ao Senhor:
14. o temor a Deus coloca-o acima de tudo.
15. Feliz o homem que recebeu o dom do temor a Deus.
16. O temor a Deus é o começo de seu amor, e a ele é preciso acrescentar um princípio de fé.
17. A tristeza do coração é uma chaga universal, e a maldade feminina é uma malícia consumada.
18. Toda chaga, não, porém, a chaga do coração;
19. toda malícia, não, porém, a malícia da mulher;
20. toda vingança, não, porém, a que nos causam nossos adversários;
21. toda vingança, não, porém, a de nossos inimigos.
22. Não há veneno pior que o das serpentes;
23. não há cólera que vença a da mulher. É melhor viver com um leão e um dragão, que morar com uma mulher maldosa.
24. A malícia de uma mulher transtorna-lhe as feições, obscurece-lhe o olhar como o de um urso, e dá-lhe uma tez com a aparência de saco.
25. Entre seus parentes, queixa-se o seu marido, e, ouvindo-os, suspira amargamente.
26. Toda malícia é leve, comparada com a malícia de uma mulher; que a sorte dos pecadores caia sobre ela!
27. Como uma ladeira arenosa aos pés de um ancião, assim é a mulher tagarela para um marido pacato.
28. Não contemples a beleza de uma mulher, não cobices uma mulher pela sua beleza.
29. Grandes são a cólera de uma mulher, sua audácia, sua desordem.
30. Se a mulher tiver o mando, ela se erguerá contra o marido.
31. Coração abatido, semblante triste e chaga de coração: eis (o que faz) uma mulher maldosa.
32. Mãos lânguidas, joelhos que se dobram: eis (o que faz) uma mulher que não traz felicidade ao seu marido.
33. Foi pela mulher que começou o pecado, e é por causa dela que todos morremos.
34. Não dês à tua água a mais ligeira abertura, nem à mulher maldosa a liberdade de sair a público.
35. Se ela não andar sob a direção de tuas mãos, ela te cobrirá de vergonha na presença de teus inimigos.
36. Separa-te do seu corpo, a fim de que não abuse sempre de ti.

 
Capítulo 26

1. Feliz o homem que tem uma boa mulher, pois, se duplicará o número de seus anos.
2. A mulher forte faz a alegria de seu marido, e derramará paz nos anos de sua vida.
3. É um bom quinhão uma mulher bondosa; no quinhão daqueles que temem a Deus, ela será dada a um homem pelas suas boas ações.
4. Rico ou pobre, (o seu marido) tem o coração satisfeito, e seu rosto reflete alegria em todo o tempo.
5. Meu coração teme três coisas, e uma quarta faz empalidecer de pavor o meu semblante:
6. a denúncia de uma cidade, o motim de um povo,
7. a calúnia, coisas estas mais temíveis que a morte;
8. mas uma mulher ciumenta é uma dor de coração e um luto.
9. A língua de uma mulher ciumenta é um chicote que atinge todos os homens.
10. Uma mulher maldosa é como jugo de bois desajustado; quem a possui é como aquele que pega um escorpião.
11. A mulher que se dá à bebida é motivo de grande cólera; sua ofensa e sua infâmia não ficarão ocultas.
12. O mau procedimento de uma mulher revela-se na imprudência de seu olhar e no pestanejar das pálpebras.
13. Vigia cuidadosamente a jovem que não se retrai dos homens, para que não se perca, achando ocasião.
14. Desconfia de toda ousadia de seus olhos, e não te admires se ela te desprezar.
15. Como um viajante sedento abre a boca diante da fonte e bebe toda a água que encontra, assim senta-se ela em qualquer cama até desfalecer, e qualquer flecha abre sua aljava.
16. A graça de uma mulher cuidadosa rejubila seu marido,
17. e seu bom comportamento revigora os ossos.
18. É um dom de Deus uma mulher sensata e silenciosa, e nada se compara a uma mulher bem-educada.
19. A mulher santa e honesta é uma graça inestimável;
20. não há peso para pesar o valor de uma alma casta.
21. Assim como o sol que se levanta nas alturas de Deus, assim é a beleza de uma mulher honrada, ornamento de sua casa.
22. Como a lâmpada que brilha no candelabro sagrado, assim é a beleza do rosto na idade madura.
23. Como colunas de ouro sobre alicerces de prata, são as pernas formosas sobre calcanhares firmes.
24. Como fundamentos eternos sobre pedra firme, assim são os preceitos divinos no coração de uma mulher santa.
25. Duas coisas entristecem o meu coração, e uma terceira me irrita:
26. um homem de guerra que perece na indigência, um homem sábio que é desprezado,
27. e aquele que passa da justiça ao pecado; a este último, Deus reserva a espada.
28. Duas coisas me parecem difíceis e perigosas: dificilmente evitará erros o que negocia, e o taberneiro não escapará ao pecado da língua.

 
Capítulo 27

1. A pobreza fez cair vários deles no pecado. Quem procura enriquecer, afasta os olhos (de Deus).
2. Como se enterra um pau entre as junturas das pedras, assim penetra o pecado entre a venda e a compra.
3. O pecado será esmagado com o pecador.
4. Se não te aferrares firmemente no temor ao Senhor, tua casa em breve será destruída.
5. Quando se sacode a joeira, só ficam refugos; assim a perplexidade permanece no pensamento do homem.
6. A fornalha experimenta as jarras do oleiro; a prova do infortúnio, os homens justos.
7. O cuidado aplicado a uma árvore mostra-se no fruto; assim a palavra manifesta o que vai no coração do homem.
8. Não louves um homem antes que ele tenha falado, pois é assim que se experimentam os humanos.
9. Se procurares a justiça, hás de consegui-la, e dela te revestirás como de um manto de festa. Habitarás com ela, ela te protegerá para sempre; e, no dia do juízo, nela encontrarás apoio.
10. As aves chegam-se aos seus semelhantes; assim a verdade volta àqueles que a põem em prática.
11. O leão está sempre à espreita de uma presa; assim o pecado, para aqueles que praticam a iniqüidade.
12. O homem santo permanece na sabedoria, estável como o sol; mas o insensato é inconstante como a lua.
13. Na companhia dos tolos, guarda tuas palavras para outra ocasião. Sê de preferência assíduo junto às pessoas ponderadas.
14. A conversação dos pecadores é odiosa; eles se alegram nas delícias do pecado.
15. Uma linguagem cheia de blasfêmias é horripilante, e sua grosseria fará com que não queiramos ouvi-la.
16. Uma disputa entre orgulhosos faz correr sangue; suas injúrias fazem sofrer os ouvidos.
17. Quem revela o segredo de um amigo perde a sua confiança, e não mais achará amigos que lhe convenham.
18. Ama o teu próximo e sê fiel na amizade com ele;
19. se desvendares seus segredos, em vão correrás atrás dele,
20. pois, como um homem que mata seu amigo, assim é o que destrói a amizade do próximo;
21. como um homem que solta o pássaro que tem na mão, assim abandonaste o teu próximo, e não mais o encontrarás.
22. Não o persigas, já está longe; escapou-se como uma gazela da armadilha. Porque a sua alma foi ferida,
23. e não mais poderás curar (sua ferida). Depois de uma injúria pode haver reconciliação;
24. desvendar, porém, os segredos de um amigo é um desespero para a alma desventurada.
25. Aquele que tem um olhar lisonjeiro trama negros propósitos, e ninguém pode afastá-lo de si.
26. Em tua presença só terá doçura nos lábios, admirará tudo o que disseres; mas em breve mudará sua linguagem e armará laços às tuas palavras.
27. Abomino muitas coisas, porém nada tanto quanto ele; o Senhor também o detesta.
28. Quem lança uma pedra no ar, a vê recair sobre sua cabeça; a ofensa feita por traição atingirá também o traidor.
29. Quem cava uma fossa cairá nela; quem põe uma pedra no caminho do próximo nela tropeçará; quem arma uma cilada a outrem nela será apanhado.
30. O desígnio criminoso volta-se contra o seu autor, que não saberá de onde lhe vem o mal.
31. A zombaria e a ofensa são próprias dos orgulhosos; a vingança os espreita como um leão.
32. Aqueles que escarnecem do pecado dos justos serão apanhados no laço, e a dor os consumirá ainda vivos.
33. Cólera e furor são ambos execráveis; o homem pecador os alimenta em si mesmo.

 
Capítulo 28

1. Aquele que quer vingar sofrerá a vingança do Senhor, que guardará cuidadosamente os seus pecados.
2. Perdoa ao teu próximo o mal que te fez, e teus pecados serão perdoados quando o pedires.
3. Um homem guarda rancor contra outro homem, e pede a Deus a sua cura!
4. Não tem misericórdia para com o seu semelhante, e roga o perdão dos seus pecados!
5. Ele, que é apenas carne, guarda rancor, e pede a Deus que lhe seja propício! Quem, então, lhe conseguirá o perdão de seus pecados?
6. Lembra-te do teu fim, e põe termo às tuas inimizades,
7. pois a decadência e a morte são uma ameaça (para aqueles que transgridem) os mandamentos.
8. Lembra-te do temor a Deus, e não fiques irado contra o próximo.
9. Lembra-te da aliança com o Altíssimo, e passa por cima do erro que o teu próximo cometeu inadvertidamente.
10. Evita a desavença e diminuirás os pecados.
11. O homem irascível provoca as querelas; o pecador espalha a inquietação entre seus amigos, e semeia a inimizade no meio de pessoas que vivem em paz.
12. O fogo queima na proporção da lenha que há na floresta; a ira do homem inflama-se na medida de seu poder, e desenvolve-se em proporção de sua riqueza.
13. Uma querela precipitada acende o fogo; a presteza na disputa derrama sangue; e a língua que presta (falso) testemunho causa a morte.
14. Sopra sobre uma centelha e ela se abrasará; cospe sobre ela e ela se apagará: ambos saem de tua boca.
15. Maldito o delator e o homem que diz branco e preto, pois semeiam a discórdia entre muita gente que vive em paz.
16. A língua de um terceiro abalou muitos deles, e os afugentou de uma nação a outra.
17. Ela destruiu as cidades fortes dos ricos, e arrasou as casas dos poderosos.
18. Desbaratou os exércitos dos povos, e dispersou nações valentes.
19. A língua de um terceiro fez repudiar mulheres de escol, e privou-as do fruto de seu labor.
20. Aquele que o ouve não terá paz, não terá amigo em quem tenha confiança.
21. A chicotada produz um ferimento, porém uma língua má quebra os ossos.
22. Muitos homens morreram pelo fio da espada, mas não tantos quanto os que pereceram por sua própria língua.
23. Feliz aquele que está ao abrigo da língua perversa, que não passou pela cólera dela, que não atraiu sobre si o seu jugo, e que não foi atado pelas suas correntes,
24. pois o jugo dela é um jugo de ferro, e suas correntes, correntes de bronze.
25. A morte que ela dá é morte desastrada, e a moradia dos mortos é-lhe preferível.
26. Ela durará, mas não sempre; ela dominará o proceder dos injustos, e os justos não serão devorados pelas suas chamas.
27. Aqueles que abandonam Deus lhe serão entregues: ela os consumirá sem se apagar; lançar-se-á sobre eles como um leão; e os estraçalhará como um leopardo.
28. Protege teus ouvidos com uma sebe de espinhos; não dês ouvidos à língua maldosa, e põe em tua boca uma porta com ferrolhos.
29. Derrete teu ouro e tua prata; faze uma balança para (pesar) as tuas palavras, e para a tua boca, um freio bem ajustado.
30. Tem cuidado para não pecar pela língua, para não caíres na presença dos inimigos que te espreitam, e para que não venha o teu pecado a ser incurável e mortal.

 
Capítulo 29

1. Aquele que tem compaixão empresta com juros ao seu próximo; aquele que tem a mão generosa guarda os mandamentos.
2. Empresta a teu próximo quando ele estiver necessitado, e de teu lado, paga-lhe o que lhe deves, no tempo marcado.
3. Cumpre tua palavra e procede lealmente com ele, e acharás em toda ocasião o que te é necessário.
4. Muitos consideraram como um achado o que pediam emprestado, e causaram desgosto àqueles que os ajudaram.
5. Até que se tenha recebido, beija-se a mão de quem empresta; com voz humilde fazem-se promessas;
6. mas, chegando o tempo de restituir, pedem-se prazos; só se têm palavras pesarosas e queixas; e toma-se como pretexto (a dificuldade) da época.
7. Se o que pede emprestado pode restituir, nega-se a princípio. Restitui em seguida só a metade da quantia, e a considera como um lucro.
8. Se não tem meios para pagar, priva o que emprestou do seu dinheiro, e dele se faz gratuitamente um inimigo.
9. Ele o paga com ofensas e maldições, e paga com o mal o bem que recebeu.
10. Muitos não emprestam, não por maldade, mas por medo de serem injustamente iludidos.
11. Todavia, sê indulgente para com o miserável, e não o faças esmorecer depois da esmola.
12. Por causa do mandamento, socorre o pobre; e não o deixes ir com as mãos vazias na sua indigência.
13. Perde o teu dinheiro em favor de teu irmão e de teu amigo; não o escondas debaixo de uma pedra para ficar perdido.
14. Gasta o teu tesouro segundo o preceito do Altíssimo, e isso te aproveitará mais do que o ouro.
15. Encerra a esmola no coração do pobre, e ela rogará por ti a fim de te preservar de todo o mal.
16, 17, 18 Para combater o teu inimigo, ela será uma arma mais poderosa do que o escudo e a lança de um homem valente.
19. O homem de bem responsabiliza-se pelo próximo; o homem sem pejo abandona-o a si próprio.
20. Não esqueças o benefício daquele que se responsabiliza por ti, pois ele arriscou a vida para te amparar.
21. O pecador e o impudico fogem de seu fiador;
22. o pecador atribui a si mesmo o benefício de quem por ele se responsabiliza, e com coração ingrato abandona o seu libertador.
23. Um homem se responsabiliza pelo seu próximo, e este, perdendo a vergonha, o abandonará.
24. Um mau penhor perdeu muitas pessoas que prosperavam, e as agitou como as ondas do mar;
25. por uma reviravolta das coisas, ele exilou muitos poderosos, que se tornaram peregrinos em terra estrangeira.
26. O pecador que transgride o mandamento do Senhor, comprometer-se-á a responder inoportunamente por outro; e aquele que tentar muitos empreendimentos não escapará do processo.
27. Ajuda o próximo conforme as tuas posses, e acautela-te para que não caias tu também.
28. O principal para a vida do homem é a água, o pão, o vestuário e uma casa para ocultar a sua nudez.
29. Mais vale o que um pobre come sob um vigamento, do que um magnífico banquete em casa alheia para quem não tem domicílio.
30. Contenta-te com o pouco ou muito que tiveres e evitarás a censura de seres um estranho.
31. É uma vida miserável a daquele que vai de casa em casa; em toda parte onde se hospedar, não estará confiante, e não ousará abrir a boca.
32. Recebe-se com hospitalidade, dá-se de comer e de beber a ingratos; e, depois disso, ouvem-se palavras desagradáveis:
33. Vamos, intruso, prepara a mesa, e o que tens, dá-o de comer aos outros;
34. retira-te, por causa da homenagem que devo prestar aos meus amigos. Preciso de minha casa para nela receber meu irmão.
35. Eis coisas penosas para um homem sensato: ouvir censuras pela hospitalidade e pelo empréstimo que se fez.

 
Capítulo 30

1. Aquele que ama seu filho, castiga-o com freqüência, para que se alegre com isso mais tarde, e não tenha de bater à porta dos vizinhos.
2. Aquele que dá ensinamentos a seu filho será louvado por causa dele, e nele mesmo se gloriará entre seus amigos.
3. Aquele que educa o filho torna o seu inimigo invejoso, e entre seus amigos será honrado por causa dele.
4. O pai morre, e é como se não morresse, pois deixa depois de si um seu semelhante.
5. Durante sua vida viu seu filho e nele se alegrou; quando morrer, não ficará aflito; não terá de que se envergonhar perante seus adversários,
6. pois deixou em sua casa um defensor contra os inimigos, alguém que manifestará gratidão aos seus amigos.
7. Aquele que estraga seus filhos com mimos terá que lhes pensar as feridas; a cada palavra suas entranhas se comoverão.
8. Um cavalo indômito torna-se intratável; a criança entregue a si mesma torna-se temerária.
9. Adula o teu filho e ele te causará medo; brinca com ele e ele te causará desgosto.
10. Não te ponhas a rir com ele, para que não venhas a sofrer com isso, e não acabes rangendo os dentes.
11. Não lhe dês toda a liberdade na juventude, não feches os olhos às suas extravagâncias:
12. obriga-o a curvar a cabeça enquanto jovem, castiga-o com varas enquanto ainda é menino, para que não suceda endurecer-se e não queira mais acreditar em ti, e venha a ser um sofrimento para a tua alma.
13. Educa o teu filho, esforça-te (por instruí-lo), para que te não desonre com sua vida vergonhosa.
14. Mais vale um pobre sadio e vigoroso, que um rico enfraquecido e atacado de doenças.
15. A saúde da alma na santidade e na justiça vale mais que o ouro e a prata. Um corpo robusto vale mais que imensas riquezas.
16. Não há maior riqueza que a saúde do corpo; não há prazer que se iguale à alegria do coração.
17. Mais vale a morte que uma vida na aflição; e o repouso eterno que um definhamento sem fim.
18. Bens escondidos em uma boca fechada são como preparativos de um festim colocados sobre um túmulo.
19. De que serve ao ídolo a oferenda que lhe fazem? Não pode nem comê-la nem lhe respirar o aroma.
20. Assim é aquele que o Senhor repele, e que carrega o castigo de seu pecado;
21. seus olhos vislumbram (o alimento) e ele suspira, assim como suspira o eunuco ao abraçar uma virgem.
22. Não entregues tua alma à tristeza, não atormentes a ti mesmo em teus pensamentos.
23. A alegria do coração é a vida do homem, e um inesgotável tesouro de santidade. A alegria do homem torna mais longa a sua vida.
24. Tem compaixão de tua alma, torna-te agradável a Deus, e sê firme; concentra teu coração na santidade, e afasta a tristeza para longe de ti,
25. pois a tristeza matou a muitos, e não há nela utilidade alguma.
26. A inveja e a ira abreviam os dias, e a inquietação acarreta a velhice antes do tempo.
27. Um coração bondoso e nobre banqueteia-se continuamente, pois seus banquetes são preparados com solicitude.

 
Capítulo 31

1. As vigílias para enriquecer ressecam a carne, as preocupações que elas trazem tiram o sono.
2. A inquietação pelo porvir perturba o sentido. Uma doença grave torna a alma moderada.
3. O rico trabalha para juntar riquezas; quando se entrega ao repouso, goza o fruto de seus haveres.
4. O pobre trabalha por não possuir com que viver, e, ao término da vida, tudo lhe falta.
5. Aquele que ama o ouro não estará isento de pecado; aquele que busca a corrupção será por ela cumulado.
6. O ouro abateu a muitos, e seus encantos os perderam.
7. O ouro é um obstáculo para aqueles que se lhe oferecem em sacrifício; infelizes daqueles que o buscam com ardor: ele fará perecer todos os insensatos.
8. Bem-aventurado o rico que foi achado sem mácula, que não correu atrás do ouro, que não colocou sua esperança no dinheiro e nos tesouros!
9. Quem é esse homem para que o felicitemos? Ele fez prodígios durante sua vida.
10. Àquele que foi tentado pelo ouro e foi encontrado perfeito, está reservada uma glória eterna: ele podia transgredir a lei e não a violou; ele podia fazer o mal e não o fez.
11. Por isso seus bens serão fortalecidos no Senhor, e toda a assembléia dos santos louvará suas esmolas.
12. Se estiveres sentado a uma mesa bem abastecida, não comeces abrindo a boca.
13. Não digas: Que abundância de iguarias há sobre ela!
14. Lembra-te de que um olhar maldoso é coisa funesta.
15. Que coisa há pior que o olho? É por isso que há de se desfazer em lágrimas.
16. Quando ele olhar, não sejas o primeiro a estender a mão, para que não cores, envergonhado pela tua cobiça.
17. Não comas demasiadamente num banquete.
18. Julga os desejos de teu próximo segundo os teus.
19. Serve-te como um homem sóbrio do que te é apresentado, para que não te tornes odioso, comendo muito.
20. Acaba de comer em primeiro lugar, por decoro, e evita todo excesso, para que não desgostes a ninguém.
21. Se tiveres tomado assento em meio de uma sociedade numerosa, não sejas o primeiro a estender a mão para o prato, nem sejas o primeiro a pedir de beber.
22. Não é um pouco de vinho suficiente para um homem bem-educado? Assim não terás sono pesado, e não sentirás dor.
23. A insônia, o mal-estar e as cólicas são o tributo do intemperante.
24. Para um homem sóbrio, um sono salutar; ele dorme até de manhã e sente-se bem.
25. Se tiveres sido obrigado a comer demais, levanta-te e vomita; isso te aliviará, e não te exporás à doença.
26. Ouve-me, meu filho, não me desprezes: reconhecerás no fim a veracidade de minhas palavras.
27. Em todas as tuas ações, sê diligente, e nenhuma doença te acometerá.
28. Muitos lábios abençoarão aquele que dá refeições com liberalidade; o testemunho prestado à honestidade dele é verídico.
29. Toda a cidade resmunga contra aquele que dá de comer com mesquinhez e o testemunho prestado à avareza dele é exato.
30. Não incites a beber aquele que ama o vinho, pois o vinho perdeu a muitos.
31. O fogo põe à prova a dureza do ferro: assim o vinho, bebido em excesso, revela o coração dos orgulhosos.
32. O vinho bebido sobriamente é como uma vida para os homens. Se o beberes moderadamente, serás sóbrio.
33. Que é a vida do homem a quem falta o vinho?
34. Que coisa tira a vida? A morte.
35. No princípio o vinho foi criado para a alegria não para a embriaguez.
36. O vinho, bebido moderadamente, é a alegria da alma e do coração.
37. A sobriedade no beber é a saúde da alma e do corpo.
38. O excesso na bebida causa irritação, cólera e numerosas catástrofes.
39. O vinho, bebido em demasia, é a aflição da alma.
40. A embriaguez inspira a ousadia e faz pecar o insensato; abafa as forças e causa feridas.
41. Não repreendas o próximo durante uma refeição regada a vinho; não o trates com desprezo enquanto ele se entrega à alegria.
42. Não lhe faças censuras, não o atormentes, reclamando o que te é devido.

 
Capítulo 32

1. Fizeram-te rei (do festim)? Não te envaideças com isso. Sê no meio dos outros como qualquer um deles.
2. Ocupa-te com eles e em seguida senta-te. Não tomes lugar à mesa, senão após cumpridos os teus deveres,
3. assim te regozijarás por causa deles. Receberás a coroa como um gracioso adorno, e ganharás a consideração dos convivas.
4. Tu, mais idoso, fala, pois convém
5. que sejas o primeiro a falar, com séria competência. Mas não perturbes a música,
6. nem te alongues em discursos, onde não há quem os ouça. Não te engrandeças sem propósito por causa de tua sabedoria.
7. Como uma pedra de rubi engastada no ouro, assim é a música no meio de uma refeição regada a vinho.
8. Como um sinete de esmeraldas engastadas em ouro, assim é um grupo de músicos no meio de uma alegre e moderada libação.
9. Ouve em silêncio, e tua modéstia provocará a benevolência.
10. Jovem, fala muito pouco de teus assuntos privados.
11. Se fores duas vezes interrogado, que tua resposta seja concisa.
12. Em muitas coisas, porta-te como se as ignorasses; ouve em silêncio e pergunta.
13. No meio dos poderosos, não tomes muitas liberdades; não fales muito onde houver anciãos:
14. vê-se o relâmpago antes de se ouvir o estalido, a graça precede o rubor da modéstia. Pelo teu recato serás benquisto.
15. Uma vez chegada a hora de se levantar, não te demores; sê o primeiro a correr para casa, onde te regozijarás com os divertimentos.
16. Faze o que te aprouver, porém sem pecado e sem orgulho.
17. E em tudo isso glorifica o Senhor que te criou, e que te cumula de todos os seus bens.
18. Aquele que teme o Senhor aceitará sua doutrina, aqueles que vigiam para procurá-lo serão por ele abençoados.
19. Aquele que busca a lei, por ela será cumulado. Aquele, porém, que procede com falsidade, nela achará ocasião de pecado.
20. Aqueles que temem o Senhor terão um juízo reto, e farão brilhar como uma tocha a sua justiça.
21. O pecador foge da censura, e encontra precedentes segundo o seu desejo.
22. O homem prudente não perde ocasião alguma para instruir-se, e o estranho ou o orgulhoso não tem nenhum temor;
23. mesmo quando age sozinho e sem conselheiro, ele será castigado pelos seus próprios desígnios.
24. Meu filho, nada faças sem conselho, e não te arrependerás depois de teres agido.
25. Não te embrenhes num caminho de perdição e não tropeçarás nas pedras. Não te metas num caminho escabroso, para não pores diante de ti uma pedra de tropeço.
26. Previne-te contra teus filhos, sê prudente em presença de teus familiares.
27. Em tudo o que fizeres, age com segurança, pois isso é guardar os mandamentos.
28. Aquele que crê em Deus atende ao que ele manda. Aquele que põe sua confiança nele, não será atingido.

 
Capítulo 33

1. Aquele que teme o Senhor não será surpreendido por nenhuma desgraça. Mas Deus o protegerá na provação, e o livrará de todo o mal.
2. O sábio não odeia nem os mandamentos nem os preceitos. Ele não se despedaçará como uma nave na tempestade.
3. O homem sensato crê na lei de Deus, e a lei lhe é fiel.
4. Aquele que esclarece uma pergunta, prepara a resposta; depois de assim ter orado, ele será atendido. Ele concentra as suas idéias e depois responde.
5. O coração do insensato é como as rodas de um carro, e o seu pensamento é semelhante a um eixo que gira.
6. O amigo zombador é como o garanhão, que relincha debaixo de qualquer um que o monta.
7. Por que um dia prevalece sobre outro dia, uma luz sobre outra luz, um ano sobre outro ano, (provindo todos) do mesmo sol?
8. Foi a ciência do Senhor que os diferenciou, quando criou o sol que atende às suas leis;
9. ele distinguiu os tempos e os dias de festa, nos quais os homens celebram pontualmente as solenidades.
10. Entre eles há alguns que Deus elevou e consagrou; a outros pôs no número dos dias comuns. Foi assim que Deus tirou todos os homens do solo e da terra de que foi formado Adão.
11. Em sua grande sabedoria, o Senhor os distinguiu, e diversificou os seus caminhos.
12. Entre eles, alguns foram abençoados e exaltados, outros foram santificados, e ele os tomou para si. Entre eles, alguns foram amaldiçoados e humilhados, os quais ele expulsou de seu lugar de exílio.
13. Como o barro está nas mãos do oleiro, que o molda e o dispõe,
14. dando-lhe todas as formas que deseja, assim é o homem na mão de quem o criou, e que lhe retribuirá segundo o seu juízo.
15. Diante do mal está o bem; diante da morte, a vida, assim também diante do justo está o pecador. Considera assim todas as obras do Altíssimo; estão sempre duas a duas, opostas uma à outra.
16. E eu fui o último que despertei, e fiz como o que junta os grãos depois da vindima.
17. Eu também esperei na bênção de Deus, e enchi a tina como o vindimador.
18. Olhai que não trabalhei só para mim, mas para todos os que buscam a doutrina.
19. Ouvi-me, ó poderosos e todos os povos! E vós, chefes da assembléia, escutai-me!
20. Ao teu filho, à tua mulher, ao teu irmão, ao teu amigo, não concedas autoridade sobre ti durante tua vida. Não dês teus bens a outrem, para não te arrependeres e teres de tornar a pedi-los.
21. Enquanto viveres e respirares, que ninguém te faça mudar a esse respeito,
22. porque é melhor que os teus filhos te peçam, do que estares tu olhando para as mãos de teus filhos.
23. Em tudo o que fizeres conserva a tua autoridade;
24. não manches o teu bom nome. (Somente) no fim de tua vida, no momento da morte, distribuirás a tua herança.
25. Para o jumento o feno, a vara e a carga. Para o escravo o pão, o castigo e o trabalho.
26. O escravo só trabalha quando corrigido, e só aspira ao repouso; afrouxa-lhe a mão, e ele buscará a liberdade.
27. O jugo e a correia fazem dobrar o mais rígido pescoço; o trabalho contínuo torna o escravo dócil.
28. Para o escravo malévolo a tortura e as peias; manda-o para o trabalho para que ele não fique ocioso,
29. pois a ociosidade ensina muita malícia.
30. Ocupa-o no trabalho, pois é o que lhe convém. Se ele não obedecer, submete-o com grilhões, mas não cometas excessos, seja com quem for, e não faças coisa alguma importante sem ter refletido.
31. Se tiveres um escravo fiel, que ele te seja tão estimado como tu mesmo. Trata-o como irmão, porque foi pelo preço de teu sangue que o obtiveste.
32. Se o maltratares injustamente, ele fugirá;
33. se ele for embora, não saberás a quem perguntar, nem onde deverás procurá-lo.

 
Capítulo 34

1. O insensato (vive) de esperanças quiméricas; os imprudentes edificam sobre os sonhos.
2. Como aquele que procura agarrar uma sombra ou perseguir o vento, assim é o que se prende a visões enganadoras.
3. Isto segundo aquilo, eis o que se vê nos sonhos: é como a imagem de um homem diante dele próprio.
4. Que coisa pura poderá vir do impuro? Que verdade pode vir da mentira?
5. A adivinhação do erro, os augúrios mentirosos e os sonhos dos maus, tudo isso não passa de vaidade.
6. O teu coração, como o de uma mulher que está de parto, sofrerá imaginações. A menos que o Altíssimo te envie uma visão, não detenhas nelas teu pensamento,
7. pois os sonhos fizeram errar muita gente, que pecou porque neles punham sua esperança;
8. a palavra da lei se cumpre integralmente, e a sabedoria tornar-se-á evidente na boca do homem fiel.
9. Que sabe aquele que não foi experimentado? O homem de grande experiência tem inúmeras idéias; aquele que muito aprendeu fala com sabedoria.
10. Aquele que não tem experiência pouca coisa sabe, mas o que passou por muitas dificuldades desenvolve a prudência.
11. Que sabe aquele que não foi tentado? O que foi enganado abundará em sagacidade.
12. Vi muitas coisas em minhas viagens, muitos costumes diferentes.
13. Algumas vezes encontrei-me em perigo de morte, mas fui libertado pela graça de Deus.
14. O espírito daqueles que temem a Deus será procurado, será abençoado quando Deus olhar para eles.
15. Com efeito, sua esperança está posta naquele que os salva, e os olhos de Deus estão voltados para aqueles que o amam.
16. Aquele que teme ao Senhor não tremerá; de nada terá medo, pois o próprio Senhor é sua esperança.
17. Feliz a alma do que teme ao Senhor.
18. Para quem olha ela, e quem é a sua força?
19. Os olhos do Senhor estão voltados para aqueles que o temem; ele é um poderoso protetor, um sólido apoio, um abrigo contra o calor, uma tela contra o ardor do meio-dia,
20. um sustentáculo contra os choques, um amparo contra a queda. Ele eleva a alma, ilumina os olhos; dá saúde, vida e bênção.
21. A oferenda daquele que sacrifica um bem, mal adquirido, é maculada. E os insultos dos injustos não são aceitos por Deus.
22. O Senhor (só se dá) àqueles que o aguardam no caminho da verdade e da justiça.
23. O Altíssimo não aprova as dádivas dos injustos, nem olha para as ofertas dos maus; a multidão dos seus sacrifícios não lhes conseguirá o perdão de seus pecados.
24. Aquele que oferece um sacrifício arrancado do dinheiro dos pobres, é como o que degola o filho aos olhos do pai.
25. O pão dos indigentes é a vida dos pobres; aquele que lho tira é um homicida.
26. Quem tira de um homem o pão de seu trabalho, é como o assassino do seu próximo.
27. O que derrama o sangue e o que usa de fraude no pagamento de um operário são irmãos:
28. um constrói, o outro destrói. O que lhes resta senão a fadiga?
29. Um ora, o outro maldiz; de qual ouvirá Deus a voz?
30. Se aquele que se lava após ter tocado num morto, torna a tocá-lo, de que lhe serve ter-se lavado?
31. Assim se porta o homem que jejua por causa de seus pecados, e torna a cometê-los: de que lhe serve ter-se humilhado? Quem ouvirá a sua prece?

 
Capítulo 35

1. Aquele que observa a lei faz numerosas oferendas.
2. É um sacrifício salutar guardar os preceitos, e apartar-se de todo pecado.
3. Afastar-se da injustiça é oferecer um sacrifício de propiciação, que consegue o perdão dos pecados.
4. Aquele que oferece a flor da farinha dá graças, e o que usa de misericórdia oferece um sacrifício.
5. Abster-se do mal é coisa agradável ao Senhor; o fugir da injustiça alcança o perdão dos pecados.
6. Não te apresentarás diante do Senhor com as mãos vazias,
7. pois todos (esses ritos) se fazem para obedecer aos preceitos divinos.
8. A oblação do justo enriquece o altar; é um suave odor na presença do Senhor.
9. O sacrifício do justo é aceito (por Deus). O Senhor não se esquecerá dele.
10. Dá glória a Deus de bom coração e nada suprimas das primícias (do produto) de tuas mãos.
11. Faze todas as tuas oferendas com um rosto alegre, consagra os dízimos com alegria.
12. Dá ao Altíssimo conforme te foi dado por ele, dá de bom coração de acordo com o que tuas mãos ganharam,
13. pois o Senhor retribui a dádiva, e recompensar-te-á tudo sete vezes mais.
14. Não lhe ofereças dádivas perversas, pois ele não as aceitará.
15. Nada esperes de um sacrifício injusto, porque o Senhor é teu juiz, e ele não faz distinção de pessoas.
16. O Senhor não faz acepção de pessoa em detrimento do pobre, e ouve a oração do ofendido.
17. Não despreza a oração do órfão, nem os gemidos da viúva.
18. As lágrimas da viúva não correm pela sua face, e seu grito não atinge aquele que as faz derramar?
19. Pois da sua face sobem até o céu; o Senhor que a ouve, não se compraz em vê-la chorar.
20. Aquele que adora a Deus na alegria será bem recebido, e sua oração se elevará até as nuvens.
21. A oração do humilde penetra as nuvens; ele não se consolará, enquanto ela não chegar (a Deus), e não se afastará, enquanto o Altíssimo não puser nela os olhos.
22. O Senhor não concederá prazo: ele julgará os justos e fará justiça. O fortíssimo não terá paciência com (os opressores), mas esmagar-lhes-á os rins.
23. Vingar-se-á das nações, até suprimir a multidão dos soberbos, e quebrar os cetros dos iníquos;
24. até que ele dê aos homens segundo as suas obras, segundo a conduta de Adão, e segundo a sua presunção;
25. até que faça justiça ao seu povo, e dê alegria aos justos por um efeito de sua misericórdia.
26. A misericórdia divina no tempo da tribulação é bela; é como a nuvem que esparge a chuva na época da seca.

 
Capítulo 36

1. Tende piedade de nós, ó Deus de todas as coisas, olhai para nós, e fazei-nos ver a luz de vossa misericórdia!
2. Espargi o vosso terror sobre as nações que não vos procuram, para que saibam que não há outro Deus senão vós, e publiquem as vossas maravilhas!
3. Estendei vossa mão contra os povos estranhos, para que vejam o vosso poder.
4. Como diante dos seus olhos mostrastes vossa santidade em nós, assim também, à nossa vista, sereis glorificado neles,
5. para que reconheçam, como também nós reconhecemos, que não há outro Deus fora de vós, Senhor!
6. Renovai vossos prodígios, fazei milagres inéditos,
7. glorificai vossa mão e vosso braço direito,
8. excitai vosso furor e espargi vossa cólera;
9. desbaratai o inimigo e aniquilai o adversário.
10. Apressai o tempo e lembrai-vos do fim, para que sejam apregoadas vossas maravilhas.
11. Devore o ardor da chama aquele que escapar, e sejam arruinados aqueles que maltratam o vosso povo.
12. Esmagai a cabeça dos chefes dos inimigos que dizem: Só nós existimos!
13. Reuni todas as tribos de Jacó, para que saibam que não há outro Deus senão vós, e publiquem vossas maravilhas! Tomai-as como herança, assim como eram no começo.
14. Tende piedade de vosso povo, que é chamado pelo vosso nome, e de Israel, que tratastes como vosso filho primogênito.
15. Tende piedade da cidade que santificastes, de Jerusalém, cidade do vosso repouso.
16. Enchei Sião com vossas palavras inefáveis, e o vosso povo com a vossa glória.
17. Dai testemunho em favor daqueles que são vossas criaturas desde a origem. Tornai verdadeiros os oráculos que proferiam os antigos profetas em vosso nome.
18. Recompensai aqueles que vos esperam pacientemente, a fim de que vossos profetas sejam achados fiéis. Ouvi as orações de vossos servos.
19. Segundo as bênçãos dadas a vosso povo por Aarão, conduzi-nos pelo caminho da justiça, para que todos os habitantes da terra saibam que vós sois o Deus que contempla os séculos.
20. O estômago recebe toda espécie de alimentos, mas entre os alimentos um é melhor do que o outro.
21. O paladar discerne o gosto da caça; o coração sensato discerne as palavras enganadoras.
22. Um coração perverso é causa de tristeza, mas o homem experiente resistir-lhe-á.
23. A mulher pode esposar toda espécie de homens, mas entre as jovens uma é melhor do que a outra.
24. A beleza da mulher alegra o rosto do esposo: ela se torna mais amável que tudo o que o homem pode desejar.
25. Se a sua língua cura os males, tem também doçura e bondade; o seu esposo não é como os demais homens.
26. Aquele que possui uma mulher virtuosa tem com que tornar-se rico; é uma ajuda que lhe é semelhante, e uma coluna de apoio.
27. Onde não há cerca, os bens estão expostos ao roubo; onde não há mulher, o homem suspira de necessidade.
28. Quem confia naquele que não tem morada, e naquele que passa a noite onde quer que a noite o surpreenda? Ou que vagueia de cidade em cidade como um ladrão sempre prestes a fugir?

 
Capítulo 37

1. Todo amigo diz: Eu também contraí amizade. Há porém um amigo que só o é de nome. Não é uma dor que dura até a morte
2. ver um amigo e um companheiro mudarem-se em inimigos?
3. Ó presunção criminosa, onde tiveste origem, para cobrir a terra com tua malícia e tua perfídia?
4. O amigo distrai-se com seu amigo nas suas alegrias; no dia da tribulação, tornar-se-á seu adversário.
5. O amigo compartilha da desventura do seu amigo no interesse de seu ventre; ao ver o inimigo, tomará do escudo.
6. Não te esqueças de teu amigo nos teus pensamentos; no meio da riqueza, não percas a sua lembrança.
7. Não te aconselhes com aquele que te arma um laço. Esconde tuas intenções àqueles que te têm inveja.
8. Todo conselheiro dá sua opinião, mas há conselheiros que só têm em vista o próprio interesse.
9. Estejas prevenido quando tratar-se de um conselheiro; informa-te primeiro quais são os seus interesses, pois ele pensa em si mesmo antes de tudo.
10. Teme que ele plante uma estaca no solo e te diga:
11. Estás no bom caminho, enquanto se põe defronte para ver o que te acontecerá.
12. Vai consultar um homem sem religião sobre as coisas santas; um injusto sobre a justiça; uma mulher sobre sua rival; um tímido sobre a guerra; um mercador sobre o negócio; um comprador sobre uma coisa para vender; um invejoso sobre a gratidão;
13. um ímpio sobre a piedade; um homem desonrado sobre a honestidade; um lavrador sobre o seu trabalho;
14. um operário, contratado por um ano, sobre o término de seu contrato; um criado preguiçoso sobre uma grande tarefa! Não confies neles e em nenhum de seus conselhos.
15. Sê, porém, assíduo junto a um santo homem, quando conheceres um que seja fiel ao temor de Deus,
16. cuja alma se irmana à tua, e que compartilhará da tua dor quando titubeares nas trevas.
17. Fortalece em ti um coração prudente, pois nada tem mais valor para ti.
18. A alma de um santo homem descobre às vezes melhor a verdade que sete sentinelas postas em observação numa colina.
19. Mas em todas as coisas ora ao Altíssimo, para que ele dirija teus passos na verdade.
20. Que uma palavra de verdade preceda todos os teus atos, e um conselho firme preceda toda a tua diligência.
21. Uma palavra má transtorna o coração; dela vêm quatro coisas: o bem e o mal, a vida e a morte; sobre estas quem domina de contínuo é a língua. Há homem hábil que ensina a muita gente, mas que é inútil para si mesmo.
22. Outro é esclarecido e instrui a muitos, e é agradável a si próprio.
23. Aquele que afeta sabedoria nas palavras é odioso; ficará desprovido de tudo.
24. Não recebeu o favor do Senhor, pois é desprovido de toda a sabedoria.
25. Há um sábio que é sábio para si mesmo, e os frutos de sua sabedoria são verdadeiramente louváveis.
26. O sábio ensina o seu povo, e os frutos de sua sabedoria são duradouros.
27. O homem sábio será cumulado de bênçãos. Aqueles que o virem o louvarão.
28. A vida do homem conta poucos dias, mas os dias de Israel são inúmeros.
29. O sábio herdará a honra no meio do povo, e o seu nome viverá eternamente.
30. Meu filho, experimenta tua alma durante tua vida; se o poder lhe for nefasto, não lho dês,
31. pois nem tudo é vantajoso para todos, e todos não se comprazem nas mesmas coisas.
32. Nunca sejas guloso em banquete algum; não te lances sobre tudo o que se serve,
33. pois o excesso no alimento é causa de doença, e a intemperança leva à cólica.
34. Muitos morreram por causa de sua intemperança, o homem sóbrio, porém, prolonga sua vida.

 
Capítulo 38

1. Honra o médico por causa da necessidade, pois foi o Altíssimo quem o criou.
2. (Toda a medicina provém de Deus), e ele recebe presentes do rei:
3. a ciência do médico o eleva em honra; ele é admirado na presença dos grandes.
4. O Senhor fez a terra produzir os medicamentos: o homem sensato não os despreza.
5. Uma espécie de madeira não adoçou o amargor da água? Essa virtude chegou ao conhecimento dos homens.
6. O Altíssimo deu-lhes a ciência da medicina para ser honrado em suas maravilhas;
7. e dela se serve para acalmar as dores e curá-las; o farmacêutico faz misturas agradáveis, compõe ungüentos úteis à saúde, e seu trabalho não terminará,
8. até que a paz divina se estenda sobre a face da terra.
9. Meu filho, se estiveres doente não te descuides de ti, mas ora ao Senhor, que te curará.
10. Afasta-te do pecado, reergue as mãos e purifica teu coração de todo o pecado.
11. Oferece um incenso suave e uma lembrança de flor de farinha; faze a oblação de uma vítima gorda.
12. Em seguida dá lugar ao médico, pois ele foi criado por Deus; que ele não te deixe, pois sua arte te é necessária.
13. Virá um tempo em que cairás nas mãos deles.
14. E eles mesmos rogarão ao Senhor que mande por meio deles o alívio e a saúde (ao doente) segundo a finalidade de sua vida.
15. Aquele que peca na presença daquele que o fez, cairá nas mãos do médico.
16. Meu filho, derrama lágrimas sobre um morto, e chora como um homem que sofreu cruelmente. Sepulta o seu corpo segundo o costume, e não descuides de sua sepultura.
17. Chora-o amargamente durante um dia, por causa da opinião pública, e depois consola-te de tua tristeza;
18. toma luto segundo o merecimento da pessoa, um dia ou dois, para evitar as más palavras.
19. Pois a tristeza apressa a morte, tira o vigor, e o desgosto do coração faz inclinar a cabeça.
20. A tristeza permanece quando (o corpo) é levado; e a vida do pobre é o espelho de seu coração.
21. Não entregues teu coração à tristeza, mas afasta-a e lembra-te do teu fim.
22. Não te esqueças dele, porque não há retorno; de nada lhe servirás e só causarás dano a ti mesmo.
23. Lembra-te da sentença que me foi dada: a tua será igual; ontem para mim, hoje para ti.
24. Na paz em que o morto entrou, deixa repousar a sua memória, e conforta-o no momento em que exalar o último suspiro.
25. A sabedoria do escriba lhe vem no tempo do lazer. Aquele que pouco se agita adquirirá sabedoria.
26. Que sabedoria poderia ter o homem que conduz a charrua, que faz ponto de honra aguilhoar os bois, que participa de seu labor, e só sabe falar das crias dos touros?
27. Ele põe todo o seu coração em traçar sulcos, e o seu cuidado é engordar novilhas.
28. Igualmente acontece com todo carpinteiro, todo arquiteto, que passa no trabalho os dias e as noites. Assim sucede àquele que grava as marcas dos sinetes, variando as figuras por um trabalho assíduo; que aplica todo o seu coração na imitação da pintura, e põe todo o cuidado no acabamento de seu trabalho.
29. Assim acontece com o ferreiro sentado perto da bigorna, examinando o ferro que vai moldar; o vapor do fogo queima as suas carnes, e ele resiste ao ardor da fornalha.
30. O barulho do martelo lhe fere o ouvido de golpes repetidos; seus olhos estão fixos no modelo do objeto.
31. Ele aplica o seu coração em aperfeiçoar a sua obra, e põe um cuidado vigilante em torná-la bela e perfeita.
32. O mesmo sucede com o oleiro que, entregue à sua tarefa, gira a roda com os pés, sempre cuidadoso pela sua obra; e todo o seu trabalho (visa a produzir) uma quantidade (determinada).
33. Com o seu braço dá forma ao barro, torna-o maleável com os pés,
34. aplica o seu coração em aperfeiçoar o verniz, e limpa o forno com muita diligência.
35. Todos esses artistas esperam (tudo) de suas mãos; cada um deles é sábio em sua profissão.
36. Sem eles nenhuma cidade seria construída,
37. nem habitada, nem freqüentada; mas eles mesmos não terão parte na assembléia,
38. não se sentarão nas cadeiras dos juízes, não entenderão as disposições judiciárias, não apregoarão nem a instrução nem o direito, nem serão encontrados a estudar as máximas.
39. Entretanto, sustentam as coisas deste mundo. Sua oração se refere aos trabalhos de sua arte; a eles aplicam sua alma, e estudam juntos a lei do Altíssimo.

 
Capítulo 39

1. O sábio procura cuidadosamente a sabedoria de todos os antigos, e aplica-se ao estudo dos profetas.
2. Guarda no coração as narrativas dos homens célebres, e penetra ao mesmo tempo nos mistérios das máximas.
3. Penetra nos segredos dos provérbios, e vive com o sentido oculto das parábolas.
4. Exerce o seu cargo no meio dos poderosos, e comparece perante aqueles que governam.
5. Viaja pela terra de povos estrangeiros, para reconhecer o que há do bem e do mal entre os homens.
6. Desde o alvorecer aplica o coração à vigília para se unir ao Senhor que o criou, e ora na presença do Altíssimo.
7. Abre sua boca para orar, e pede perdão de seus pecados,
8. pois se for da vontade do Senhor que é grande, ele o cumulará do espírito de inteligência.
9. Então ele espargirá como uma chuva palavras de sabedoria, e louvará o Senhor em sua oração.
10. O Senhor orientará seus conselhos e seus ensinamentos, e ele meditará nos mistérios (divinos).
11. Ensinará ele próprio o conhecimento de sua doutrina. Porá sua glória na lei da aliança do Senhor.
12. Muitos homens louvarão sua sabedoria: jamais cairá ela no esquecimento.
13. A sua memória não desaparecerá; seu nome será repetido de geração em geração.
14. As nações proclamarão sua sabedoria, a assembléia apregoará seu louvor.
15. Enquanto viver, terá maior nome que mil outros, e, quando repousar, será feliz.
16. Refletirei ainda para contá-lo, pois estou cheio de um entusiasmo
17. que diz: Ouvi-me, rebentos divinos, desabrochai como uma roseira plantada à beira das águas;
18. como o Líbano, espargi suave aroma,
19. dai flores como o lírio, exalai perfume e estendei graciosa folhagem. Cantai cânticos e bendizei o Senhor nas suas obras.
20. Dai ao seu nome magníficos elogios, glorificai-o com a voz de vossos lábios, com os cânticos de vossos lábios e a música das harpas. Direis assim à guisa de louvor:
21. Todas as obras do Senhor são excelentes;
22. à sua voz conteve-se a água amontoada, a uma palavra de sua boca as águas ajuntaram-se como em reservatórios.
23. À sua ordem, fez-se calmaria, e a salvação que ele dá não será mesquinha.
24. São-lhe apresentadas as ações de todos os viventes, nada é oculto aos seus olhos.
25. Seu olhar abrange de um século a outro: nada é maravilhoso para ele.
26. Não se deve dizer: O que é isso, o que é aquilo? Pois todas as coisas serão examinadas a seu tempo.
27. A bênção dele é como um rio que transborda;
28. como o dilúvio inundou a terra inteira, assim a sua cólera será a sorte dos povos que não o procuram.
29. Assim como ele transformou as águas em aridez e ressecou a terra, e o seu comportamento é determinado pelo deles, assim, em sua ira, seu comportamento é motivo de queda para os pecadores.
30. Assim como os bens, desde o princípio, foram criados para os bons, assim os bens e os males o foram para os maus.
31. As coisas mais necessárias à vida do homem são: a água, o fogo, o ferro, o sal, o leite, o pão da flor de farinha, o mel, a uva, o azeite e o vestuário:
32. todas essas coisas são bens para os fiéis, mas tornam-se males para os ímpios e os pecadores.
33. Há espíritos que foram criados para a vingança: aumentaram seus tormentos pelo seu furor.
34. No tempo do extermínio manifestarão sua força, e apaziguarão a fúria daquele que os criou.
35. Fogo, granizo, fome e morte, tudo isso foi criado para a vingança,
36. como também os dentes dos animais, os escorpiões, as serpentes, e a espada vingadora destinada ao extermínio dos ímpios.
37. Todas essas coisas se regozijam com as ordens do Senhor, e mantêm-se prontas sobre a terra para servir oportunamente, e, chegando o tempo, não omitirão uma só de suas palavras.
38. Por isso, desde o princípio estou firme em minhas idéias; refleti e as escrevi.
39. Todas as obras do Senhor são boas; ele põe cada coisa em prática quando chega o tempo.
40. Não há razão para dizer: Isto é pior do que aquilo, porque todas as coisas serão achadas boas a seu tempo.
41. E agora, de todo o coração e com a boca, cantai e bendizei o nome do Senhor!

 
Capítulo 40

1. Uma grande inquietação foi imposta a todos os homens, e um pesado jugo acabrunha os filhos de Adão, desde o dia em que saem do seio materno, até o dia em que são sepultados no seio da mãe comum:
2. seus pensamentos, os temores de seu coração, a apreensão do que esperam, e o dia em que tudo acaba,
3. desde o que se senta num trono magnífico, até o que se deita sobre a terra e a cinza;
4. desde o que veste púrpura e ostenta coroa, até aquele que só se cobre de pano. Furor, ciúme, inquietação, agitação, temor da morte, cólera persistente e querelas.
5. E na hora de repousar no leito, o sono da noite perturba-lhe as idéias.
6. Ele repousa um pouco, tão pouco que é como se não repousasse; e no mesmo sono, como uma sentinela durante o dia,
7. é perturbado pelas visões de seu espírito, como um homem que foge do combate. No momento em que (se julga) em lugar seguro, ele se levanta e admira-se do seu vão temor.
8. Assim acontece a toda criatura, desde os homens até os animais. Mas para os pecadores é sete vezes mais.
9. Além do mais, a morte, o sangue, as querelas, a espada, as opressões, a fome, a ruína e os flagelos
10. foram todos criados para os maus, e foi por causa deles que veio o dilúvio.
11. Tudo o que vem da terra voltará à terra, como todas as águas regressam ao mar.
12. Todo presente e todo bem mal adquirido perecerão; a boa fé, porém, subsistirá eternamente.
13. As riquezas dos injustos secarão como uma torrente; elas assemelham-se a uma trovoada que estala na chuva.
14. O homem se regozija quando abre a mão, mas no fim os prevaricadores serão aniquilados.
15. A posteridade dos ímpios não multiplicará os ramos; as raízes impuras agitam-se no alto de um rochedo.
16. A vegetação que cresce à beira das águas, ao longo de um rio, será arrancada antes de todas as ervas dos campos.
17. A beneficência é como um paraíso abençoado, e a misericórdia permanecerá eternamente.
18. Doce é a vida do operário que se basta a si próprio; vivendo assim, encontrarás um tesouro.
19. Os filhos e a fundação de uma cidade dão firmeza a um nome, mas é mais estimada que um e outro uma mulher sem mácula.
20. O vinho e a música alegram o coração: sobre um e outro, porém, prevalece o amor da sabedoria.
21. A flauta e a harpa emitem um som harmonioso; a língua suave, porém, supera uma e outra.
22. A graça e a beleza são atraentes para o olhar; mais do que uma e outra é a vegetação dos campos.
23. Um amigo ajuda a seu amigo no momento oportuno. Mais do que um e outro, uma mulher ajuda seu marido.
24. Os irmãos são um socorro no tempo da tribulação. Mais do que eles, porém, a misericórdia liberta.
25. O ouro e a prata são bases sólidas. Um bom conselho, porém, supera um e outra.
26. As riquezas e as energias elevam o coração; o temor do Senhor, porém, sobrepuja umas e outras.
27. Nada falta àquele que tem o temor ao Senhor; e com ele não há necessidade de outro auxílio.
28. O temor ao Senhor é-lhe como um paraíso abençoado; ele está revestido de uma glória que supera toda glória.
29. Meu filho, não leves nunca uma vida de mendigo, pois mais vale morrer que mendigar.
30. Quando um homem olha para a mesa de outro, sua vida não é realmente vida, na obsessão do alimento, porque se nutre dos víveres de outrem;
31. mas o homem moderado e educado se acautela contra isso.
32. Na boca do insensato, a coisa mendigada é doce; mas nas suas entranhas arderá um fogo.

 
Capítulo 41

1. Ó morte, como tua lembrança é amarga para o homem que vive em paz no meio de seus bens,
2. para o homem tranqüilo e afortunado em tudo, e que ainda se encontra em condição de saborear o alimento!
3. Ó morte, tua sentença é suave para o indigente, cujas forças se esgotam,
4. para quem está no declínio da idade, carregado de cuidados, para quem não tem mais confiança e perde a paciência.
5. Não temas a sentença da morte; lembra-te dos que te precederam, e de todos os que virão depois de ti: é a sentença pronunciada pelo Senhor sobre todo ser vivo.
6. Que te sobrevirá por vontade do Altíssimo? Dez anos, cem anos, mil anos…
7. Na habitação dos mortos não se tomam em consideração os anos de vida.
8. Os filhos dos pecadores tornam-se objeto de abominação, assim como os que freqüentam as casas dos ímpios.
9. A herança dos filhos dos pecadores perecerá. O opróbrio prende-se à sua posteridade.
10. Os filhos de um homem ímpio queixam-se de seu pai porque é por sua culpa que estão envergonhados.
11. Desgraçados de vós, homens ímpios, que abandonastes a lei do Senhor, o Altíssimo!
12. Se nasceis, é na maldição, e quando morrerdes, tereis a maldição como herança.
13. Tudo o que vem da terra voltará à terra. Assim os ímpios passam da maldição à ruína.
14. Os homens se entristecem com (a perda) de seu corpo; porém, até o nome dos ímpios será aniquilado.
15. Cuida em procurar para ti uma boa reputação, pois esse bem ser-te-á mais estável que mil tesouros grandes e preciosos.
16. A vida honesta só tem um número de dias; a boa fama, porém, permanece para sempre.
17. Meus filhos, guardai em paz meu ensinamento: pois uma sabedoria oculta e um tesouro invisível, para que servem essas duas coisas?
18. Mais vale um homem que dissimula a sua ignorância, que um homem que oculta a sua sabedoria.
19. Tende, pois, vergonha do que vou dizer,
20. porque não é bom ter vergonha de tudo, e nem todas as coisas agradam, na verdade, a todos.
21. Envergonhai-vos da fornicação, diante de vosso pai e de vossa mãe; e da mentira, diante do que governa e do poderoso;
22. de um delito, diante do príncipe e do juiz; da iniqüidade, diante da assembléia e do povo;
23. da injustiça, diante de teu companheiro e de teu amigo;
24. de cometeres um roubo no lugar onde moras, por causa da verdade de Deus e de sua aliança. Envergonha-te de pôr os cotovelos sobre a mesa, de usar de fraude no dar e no receber,
25. de não responder àqueles que te saúdam, de lançar os olhos para uma prostituta,
26. de desviar os olhos de teu próximo, de tirar o que a ele pertence, sem devolver-lho.
27. Não olhes para a mulher de outrem; não tenhas intimidades com tua criada, e não te ponhas junto do seu leito.
28. Envergonha-te diante de teus amigos de dizer palavras ofensivas; não censures o que deste.

 
Capítulo 42

1. Não repitas o que ouviste. Não reveles um segredo. Assim estarás verdadeiramente isento de confusão, e acharás graça diante de todos os homens. Não te envergonhes de tudo o que vou dizer, e não faças acepção de pessoas até o ponto de pecar.
2. Não te envergonhes da lei e da aliança do Altíssimo, de uma sentença que justifique o ímpio,
3. de um negócio entre teus amigos e estranhos, da doação de uma herança em favor de teus amigos.
4. Não te envergonhes de usar uma balança fiel e de peso certo, de adquirir pouco ou muito,
5. de não fazer diferença na venda e com os mercadores, de corrigir freqüentemente os teus filhos, de golpear até sangrar as costas de um escravo ruim.
6. Sobre uma mulher má, é bom pôr-se o selo.
7. Onde há muitas mãos, emprega a chave. Conta e pesa tudo o que entregas; assenta o que dás e o que recebes.
8. Não te envergonhes de corrigir o insensato e o tolo; não te envergonhes dos anciãos julgados pelos jovens. Assim te mostrarás verdadeiramente instruído, e serás aprovado por todos.
9. Uma filha é uma preocupação secreta para seu pai; o cuidado dela tira-lhe o sono. Ele teme que passe a flor de sua idade sem se casar, ou que, casada, torne-se odiosa para o marido;
10. receia que seja seduzida na sua virgindade, e que se torne grávida na casa paterna. Teme que, casada, ela viole a fidelidade, ou que, em todo caso, seja estéril.
11. Exerce severa vigilância sobre uma filha libertina, para que ela te não exponha aos insultos dos teus inimigos, e te torne o assunto de troça da cidade, o objeto de mofa pública, e te desonre aos olhos de toda a população.
12. Não detenhas o olhar sobre a beleza de ninguém, não te demores no meio de mulheres,
13. pois assim como a traça sai das roupas, assim a malícia do homem vem da mulher.
14. Um homem mau vale mais que uma mulher que (vos) faz bem, mas que se torna causa de vergonha e de confusão.
15. Relembrarei agora as obras do Senhor, proclamarei o que vi. Pelas palavras do Senhor foram produzidas as suas obras.
16. O sol contempla todas as coisas que ilumina; a obra do Senhor está cheia de sua glória.
17. Porventura não fez o Senhor com que seus santos proclamassem todas as suas maravilhas, maravilhas que ele, o Senhor todo-poderoso, consolidou, a fim de que subsistam para a sua glória?
18. Ele sonda o abismo e o coração humano, e penetra os seus pensamentos mais sutis,
19. pois o Senhor conhece tudo o que se pode saber. Ele vê os sinais dos tempos futuros, anuncia o passado e o porvir, descobre os vestígios das coisas ocultas.
20. Nenhum pensamento lhe escapa, nenhum fato se esconde a seus olhos.
21. Ele enalteceu as maravilhas de sua sabedoria, ele é antes de todos os séculos e será eternamente.
22. Nada se pode acrescentar ao que ele é, nem nada lhe tirar; não necessita do conselho de ninguém.
23. Como são agradáveis as suas obras! E todavia delas não podemos ver mais que uma centelha.
24. Essas obras vivem e subsistem para sempre, e em tudo o que é preciso, todas lhe obedecem.
25. Todas as coisas existem duas a duas, uma oposta à outra; ele nada fez que seja defeituoso.
26. Ele fortaleceu o que cada um tem de bom. Quem se saciará de ver a glória do Senhor?

 
Capítulo 43

1. O firmamento nas alturas é a sua beleza, o aspecto do céu é uma visão de glória.
2. O sol, aparecendo na aurora, anuncia o dia. A obra do Altíssimo é um instrumento admirável.
3. Ao meio-dia queima a terra: quem resiste ao seu ardor? Ele conserva uma fornalha de fogo por efeito de seu calor.
4. O sol queima três vezes mais as montanhas, despedindo raios de fogo, cujo resplendor deslumbra os olhos.
5. Grande é o Senhor que o criou; por sua ordem, ele apressa o seu curso.
6. A lua é, em todas as suas fases regulares, a marca do tempo e o sinal do futuro.
7. É a lua que determina os dias de festa; sua luz diminui a partir da lua cheia.
8. É ela que dá nome ao mês; sua claridade cresce de modo admirável, até ficar cheia.
9. É um sinal para os exércitos do céu que lança no firmamento um glorioso esplendor.
10. O brilho das estrelas faz a beleza do céu; o Senhor ilumina o mundo nas alturas.
11. À palavra do Santo estão prontas para o julgamento: são indefectivelmente vigilantes.
12. Observa o arco-íris e bendiz aquele que o fez: é muito belo no seu resplendor.
13. Faz a volta do céu num círculo de glória: são as mãos do Altíssimo que o estendem.
14. O Senhor com uma ordem faz cair subitamente a neve, acelera a marcha dos raios de seu juízo.
15. Por essa causa se abrem as suas reservas, e voam as nuvens como pássaros.
16. Por sua grandeza condensa as nuvens, e as pedras de granizo caem em estilhaços.
17. As montanhas são abaladas quando ele aparece; por sua vontade sopra o vento do sul.
18. O estrondo do trovão fere a terra, assim como a tempestade do aquilão e o turbilhão dos ventos.
19. Espalha a neve como pássaros que pousam, como gafanhotos que se abatem sobre a terra;
20. o olhar encanta-se com o brilho de sua alvura, o coração fica atônito ao vê-la cair.
21. Deus espalha a geada sobre a terra como sal; quando as águas se congelam tornam-se como pontas de cardo.
22. Quando sopra o vento frio do aquilão, a água gela como cristal, que repousa sobre toda a massa líquida, e veste as águas como se fosse uma couraça.
23. (A geada) devora os montes, queima os desertos, resseca como o fogo tudo o que é verde.
24. O remédio para isso é o rápido aparecimento de um aguaceiro. O orvalho após o frio atenua (o rigor do gelo).
25. A palavra de Deus faz calar o vento; só com o seu pensar apazigua o abismo, no meio do qual o Senhor plantou as ilhas.
26. Os que navegam sobre o mar contam os seus perigos; ouvindo-os, ficaremos arrebatados de admiração.
27. Ali se encontram grandes obras e maravilhas, animais de toda espécie e criaturas monstruosas.
28. Por ele, tudo tende regularmente para a sua finalidade, tudo foi disposto conforme a sua palavra.
29. Diremos muitas coisas, porém faltarão palavras. Mas o resumo de nosso discurso é este: Ele está em tudo.
30. Que podemos nós fazer para glorificá-lo? Pois o Todo-poderoso está acima de todas as suas obras.
31. O Senhor é terrível e soberanamente grande. Seu poder é maravilhoso.
32. Glorificai o Senhor quanto puderdes, que ele ficará sempre acima, porque é admirável a sua grandeza.
33. Bendizei o Senhor, exaltai-o com todas as vossas forças, pois ele está acima de todo louvor.
34. Enaltecendo-o, reuni todas as vossas forças; não desanimeis; jamais chegareis (ao fim).
35. Quem poderá contar o que dele viu? Quem é capaz de louvá-lo, como ele é, desde os primórdios?
36. Muitos segredos são maiores que tudo isso; só vemos um pequeno número de suas obras.
37. O Senhor fez todas as coisas: ele dá sabedoria àqueles que vivem com piedade.

 
Capítulo 44

1. Façamos o elogio dos homens ilustres, que são nossos antepassados, em sua linhagem.
2. O Senhor deu-lhes uma glória abundante, desde o princípio do mundo, por um efeito de sua magnificência.
3. Eles foram soberanos em seus estados, foram homens de grande virtude, dotados de prudência. As predições que anunciaram adquiriram-lhes a dignidade de profetas:
4. eles governaram os povos do seu tempo e, com a firmeza de sua sabedoria, deram instruções muito santas ao povo.
5. Com sua habilidade cultivaram a arte das melodias, publicaram os cânticos das escrituras.
6. Homens ricos de virtude, que tinham gosto pela beleza, e viviam em paz em suas casas.
7. Todos eles adquiriram fama junto de seus contemporâneos, e foram a glória de seu tempo.
8. Aqueles que deles nasceram deixaram um nome que publica seus louvores.
9. Outros há, dos quais não se tem lembrança; pereceram como se nunca tivessem existido. Nasceram, eles e seus filhos, como se não tivessem nascido.
10. Os primeiros, porém, foram homens de misericórdia; nunca foram esquecidas as obras de sua caridade.
11. Na sua posteridade permanecem os seus bens.
12. Os filhos de seus filhos são uma santa linhagem, e seus descendentes mantêm-se fiéis às alianças.
13. Por causa deles seus filhos permanecem para sempre, e sua posteridade, assim como sua glória, não terá fim.
14. Seus corpos foram sepultados em paz, seu nome vive de século em século.
15. Proclamem os povos sua sabedoria, e cante a assembléia os seus louvores!
16. Henoc agradou a Deus e foi transportado ao paraíso, para excitar as nações à penitência.
17. Noé foi julgado justo e perfeito, e no tempo da ira tornou-se o elo de reconciliação.
18. Por isso foram deixados alguns na terra, quando veio o dilúvio.
19. Ele foi o depositário das alianças feitas com o mundo, a fim de que ninguém doravante fosse destruído por dilúvio.
20. Abraão é o pai ilustre de uma infinidade de povos. Ninguém lhe foi igual em glória: guardou a lei do Altíssimo, e fez aliança com ele.
21. O Senhor marcou essa aliança em sua carne; na provação, mostrou-se fiel.
22. Por isso jurou Deus que o havia de glorificar na sua raça, e prometeu que ele cresceria como o pó da terra.
23. Prometeu-lhe que exaltaria sua raça como as estrelas, e que seu quinhão de herança se estenderia de um mar a outro: desde o rio até as extremidades da terra.
24. Ele fez o mesmo com Isaac, por causa de seu pai, Abraão.
25. O Senhor deu-lhe a bênção de todas as nações, e confirmou sua aliança sobre a cabeça de Jacó.
26. Distinguiu-o com suas bênçãos, deu-lhe a herança, e repartiu-a entre as doze tribos.
27. Conservou-lhe homens cheios de misericórdia, que encontraram graça aos olhos de toda carne.

 
Capítulo 45

1. Moisés foi amado por Deus e pelos homens: sua memória é abençoada.
2. O Senhor deu-lhe uma glória semelhante à dos santos; tornou-se poderoso e temido por seus inimigos.
3. Glorificou-o na presença dos reis, prescreveu-lhe suas ordens diante do seu povo, e mostrou-lhe a sua glória.
4. Santificou-o pela sua fé e mansidão, escolheu-o entre todos os homens.
5. Pois (Deus) atendeu-o, ouviu sua voz e o introduziu na nuvem.
6. Deu-lhe seus preceitos perante (seu povo) e a lei da vida e da ciência, para ensinar a Jacó sua aliança e a Israel seus decretos.
7. Exaltou seu irmão Aarão, semelhante a ele, da tribo de Levi.
8. Fez com ele uma aliança eterna, deu-lhe o sacerdócio do seu povo, e cumulou-o de felicidade e de glória.
9. Adornou-o com um cinto de honra, revestiu-o de um manto de glória, coroou-o com todo esse aparato majestoso.
10. Deu-lhe a longa túnica, a túnica inferior e o efod, cujas bordas eram ornadas de numerosas campainhas,
11. que deviam retinir, quando ele andasse, e se ouvisse o seu som no templo, para advertir os filhos de seu povo.
12. Deu-lhe uma túnica santa, tecida de ouro, de pedras preciosas e de púrpura, obra de um homem sábio, dotado de juízo e de verdade.
13. Era uma obra de artista, de fio de escarlate, com doze pedras preciosas engastadas no ouro, gravadas pelo trabalho do lapidador, em memória das doze tribos de Israel.
14. Sobre sua tiara colocou uma coroa de ouro, onde estava gravado o cunho da santidade, da glória e da honra; era uma obra majestosa, adorno que encantava os olhos.
15. Nunca antes dele houve coisa tão magnífica, desde o princípio do mundo.
16. Nenhum estranho dele se revestiu, mas somente os seus filhos, e os filhos de seus filhos no decorrer dos tempos.
17. Os sacrifícios foram diariamente consumidos pelo fogo.
18. Moisés o investiu e o ungiu com o óleo santo.
19. Deus fez com ele e com sua raça uma aliança eterna, que durará tanto quanto os dias do céu, para exercer o sacerdócio, para cantar os louvores do Senhor, e abençoar solenemente o seu povo em seu nome.
20. Escolheu-o entre todos os viventes para oferecer a Deus o sacrifício, o incenso e o perfume da lembrança, e para fazer a expiação em favor do seu povo.
21. Deu-lhe autoridade sobre seus preceitos, e sobre as disposições dos seus julgamentos, para ensinar a Jacó seus mandamentos, e explicar sua lei a Israel.
22. Estrangeiros conspiraram contra ele; por inveja, homens o cercaram no deserto, que eram do partido de Datã e Abiron, e da facção furiosa de Coré.
23. Viu isso o Senhor, e não lhe agradou, e foram destruídos pela impetuosidade de sua cólera.
24. Fez prodígios contra eles, e a chama de seu fogo os devorou.
25. Aumentou ainda mais a glória de Aarão: deu-lhe uma herança, destinou-lhe as primícias dos frutos da terra.
26. Antes de tudo, preparou-lhes alimento em abundância, pois devem comer os sacrifícios do Senhor, os quais deu a ele e à sua posteridade.
27. Mas ele não tem herança na terra das nações, não tem porção entre seu povo, pois (o Senhor) mesmo é o quinhão de sua herança.
28. Finéias, filho de Eleazar, é o terceiro em glória. Ele imitou (Moisés) no temor do Senhor.
29. Permaneceu firme no meio da idolatria do povo; por sua bondade e o zelo de sua alma, apaziguou a ira de Deus contra Israel.
30. É por isso que Deus fez com ele uma aliança de paz, e deu-lhe o principado das coisas santas e do seu povo, a fim de que a ele e a seus descendentes pertencesse para sempre a dignidade sacerdotal.
31. Fez também Deus aliança com o rei Davi, filho de Jessé, da tribo de Judá; tornou-o herdeiro do reino, ele e sua raça, para derramar a sabedoria no nosso coração, e julgar o seu povo com justiça, a fim de que não se perdessem os seus bens: tornou eterna a sua glória no seio de sua raça.

 
Capítulo 46

1. Josué, filho de Nun, foi um valente na guerra. Sucedeu Moisés entre os profetas; foi ilustre, tão ilustre como o nome que trazia,
2. muito ilustre salvador dos eleitos de Deus, para derrubar os inimigos que se levantavam, e para conquistar a herança de Israel.
3. Que glória não alcançou ele em levantar as suas mãos, e em brandir a espada contra as cidades!
4. Quem pôde enfrentá-lo? Pois o Senhor mesmo lhe trazia os seus inimigos.
5. Não deteve ele o sol, em sua cólera? Não se tornou um só dia tão longo como dois?
6. Ele invocou o Altíssimo todo-poderoso, atacando os inimigos de todos os lados: o Deus grande e santo o atendeu com uma chuva de pedras de grande força.
7. Investiu impetuosamente contra as hostes inimigas, e despedaçou-as na descida do vale,
8. para que as nações conhecessem o poder de Deus, e soubessem que não é fácil combater contra Deus, ele seguiu sempre o Todo-poderoso.
9. No tempo em que Moisés ainda vivia, praticou um ato de piedade com Caleb, filho de Jefoné, permanecendo firme contra o inimigo, impedindo o povo de pecar, e abafando a murmuração excitada pela malícia.
10. Dentre um número de seiscentos mil homens de pé, esses dois foram escolhidos e poupados da morte, para levar o povo à sua herança, nessa terra onde mana leite e mel.
11. O Senhor deu força a Caleb; até a velhice permaneceu ele vigoroso, para subir a um lugar elevado na terra (prometida), que a sua descendência recebeu como herança,
12. para que todos os israelitas reconhecessem que é bom obedecer ao Deus santo.
13. Em seguida, vieram os juízes, cada um (designado) pelo seu nome, aqueles cujos corações não se perverteram, e que não se afastaram do Senhor.
14. Que a sua memória seja abençoada, e seus ossos floresçam em seus sepulcros!
15. Que seu nome permaneça eternamente, e passe aos seus filhos com a glória desses santos homens!
16. Amado pelo Senhor seu Deus, Samuel, o profeta do Senhor, instituiu um novo governo, e ungiu príncipes entre o seu povo.
17. Julgou a assembléia segundo a lei do Senhor. E o Deus de Jacó o visitou. Por sua fidelidade ele se mostrou verdadeiramente profeta,
18. e foi fiel em suas palavras, porque viu o Deus da luz.
19. Invocou o Deus todo-poderoso, ofereceu-lhe um cordeiro sem mácula, quando os seus inimigos o perseguiam por todos os lados.
20. O Senhor trovejou do céu, fazendo ouvir sua voz com grande estrondo.
21. Destroçou os príncipes de Tiro, e todos os chefes dos filisteus.
22. Antes de terminar a sua vida neste mundo, tomou como testemunha o Senhor e seu Cristo, de que não tinha recebido dinheiro de pessoa alguma, nem mesmo uma sandália, e não achou ninguém que o acusasse.
23. Depois disso, adormeceu e apareceu ao rei, e lhe mostrou seu fim (próximo); levantou a sua voz do seio da terra para profetizar a destruição da impiedade do povo.

 
Capítulo 47

1. Depois disto (levantou-se Natã, profeta) no tempo de Davi.
2. Assim como a gordura (da vitamina) se separa da carne, assim foi Davi separado do meio dos israelitas.
3. Ele brincou com os leões como se fossem cordeiros, e tratou os ursos como cordeirinhos.
4. Não foi ele quem, em sua mocidade, matou o gigante, e tirou a vergonha do seu povo?
5. Levantando a mão, com uma pedra de sua funda abateu a insolência de Golias,
6. pois ele invocou o Senhor todo-poderoso, o qual deu à sua destra força para derrubar o temível guerreiro, e para levantar o poder do seu povo.
7. Assim, foi ele festejado por causa (da morte) de dez mil homens. Louvaram-no nas bênçãos do Senhor, e ofereceram-lhe uma coroa de glória,
8. porque ele esmagou os inimigos de todos os lados, exterminou u os filisteus, seus adversários, (como se vê) ainda hoje, e abateu o seu poder para sempre.
9. Fez de todas as suas obras uma homenagem ao Santo e ao Altíssimo com palavras de louvor.
10. Louvor ao Senhor com todo o coração. Amou a Deus que o criou, e lhe deu poder contra seus inimigos.
11. Estabeleceu cantores diante do altar, e compôs suaves melodias para os seus cânticos.
12. Deu esplendor às festividades, e brilho aos dias solenes, até o fim da vida, para que fosse louvado o santo nome do Senhor, e fosse glorificada desde o amanhecer a santidade de Deus.
13. O Senhor purificou-o de seus pecados, engrandeceu o seu poder para sempre, e firmou-lhe, por sua aliança, a realeza e um trono de glória em Israel.
14. Depois dele, apareceu seu filho, cheio de sabedoria; por causa dele o Senhor derrubou todo o poder dos inimigos.
15. Salomão reinou em dias de paz. Deus submeteu a ele todos os seus inimigos,
16. a fim de que ele construísse uma casa ao nome do Senhor, e lhe preparasse um santuário eterno. Quão bem foste instruído na tua juventude! Foste cheio de sabedoria como um rio. Tua alma cobriu toda a terra.
17. Encerraste enigmas em sentenças, teu nome foi glorificado até nas ilhas longínquas, e foste amado na tua paz.
18. Por teus cânticos, provérbios, parábolas e interpretações, foste admirado por toda a terra.
19. Em nome do Senhor Deus, que é chamado o Deus de Israel,
20. ajuntaste montes de ouro como se fosse bronze, amontoaste prata como se faz com o chumbo.
21. Entregaste teus flancos às mulheres, saciaste teu corpo,
22. maculaste tua glória, profanaste tua raça, atraindo assim a cólera sobre teus filhos, e o castigo sobre tua loucura,
23. causando com isso um cisma no reino, e fazendo sair de Efraim uma dominação rebelde.
24. Mas Deus não esqueceu a sua misericórdia, não destruiu nem aniquilou as suas obras; não arrancou pela raiz a posteridade de seu eleito, não exterminou a raça daquele que ama o Senhor.
25. Ao contrário, deixou um resto a Jacó, e a Davi um rebento de sua raça.
26. E Salomão teve um fim semelhante ao de seus pais.
27. Deixou depois de si um filho que foi a loucura da nação,
28. um homem desprovido de juízo, chamado Roboão, que transviou o povo por seu conselho.
29. E Jeroboão, filho de Nabat, que fez Israel pecar, e abriu para Efraim o caminho da iniqüidade. Houve entre eles uma profusão de pecados,
30. que os expulsaram para longe de sua terra.
31. Procuraram todos os meios de fazer o mal, até que veio a vingança, que pôs um termo às suas iniqüidades.

 
Capítulo 48

1. Suas palavras queimavam como uma tocha ardente. Elias, o profeta, levantou-se em breve como um fogo.
2. Ele fez vir a fome sobre o povo (de Israel): foram reduzidos a um punhado por tê-lo irritado com sua inveja, pois não podiam suportar os preceitos do Senhor.
3. Com a palavra do Senhor ele fechou o céu, e dele fez cair fogo por três vezes.
4. Quão glorioso te tornaste, Elias, por teus prodígios! Quem pode gloriar-se de ser como tu?
5. Tu que fizeste sair um morto do seio da morte, e o arrancaste da região dos mortos pela palavra do Senhor;
6. tu que lançaste os reis na ruína, que desfizeste sem dificuldade o seu poder, que fizeste cair de seu leito homens gloriosos.
7. Tu que ouviste no Sinai o julgamento do Senhor, e no monte Horeb os decretos de sua vingança.
8. Tu que sagraste reis para a penitência, e estabeleceste profetas para te sucederem.
9. Tu que foste arrebatado num tubilhão de fogo, num carro puxado por cavalos ardentes.
10. Tu que foste escolhido pelos decretos dos tempos para amenizar a cólera do Senhor, reconciliar os corações dos pais com os filhos, e restabelecer as tribos de Jacó.
11. Bem-aventurados os que te conheceram, e foram honrados com a tua amizade!
12. Pois, quanto a nós, só vivemos durante esta vida, e depois da morte, nem mesmo nosso nome nos sobreviverá.
13. Elias foi então arrebatado em um turbilhão, mas seu espírito permaneceu em Eliseu. Nunca em sua vida teve Eliseu medo de um príncipe; ninguém o dominou pelo poder.
14. Nada houve que o pudesse vencer: seu corpo, mesmo depois da morte, fez profecias.
15. Durante a vaida fez prodígios, depois da morte fez milagres.
16. E, apesar de tudo isto, o povo não fez penitência, não se afastou dos seus pecados, até que foi expulso de sua terra, e espalhado por todo o mundo.
17. Só ficou um resto do povo, um príncipe da casa de Davi.
18. Alguns deles fizeram o que é do agrado de Deus; os outros, porém, multiplicaram os seus pecados.
19. Ezequias fortificou a sua cidade, trazendo água até o centro; abriu com ferro um rochedo, e construiu um poço para as águas.
20. Durante o seu reinado veio Senaquerib, que enviou Rabsaces, o qual levantou a sua mão contra eles; ele estendeu a sua mão contra Sião, ensoberbecendo-se com seu poder.
21. Foi então que os seus corações e as suas mãos desfaleceram: sentiram dores como a parturiente.
22. Invocaram o Senhor misericordioso, levantando para o céu as suas mãos estendidas. E o Santo, o Senhor Deus, ouviu logo a sua voz:
23. não se recordou dos seus pecados, não os entregou aos seus inimigos, mas purificou-os pela mão de Isaías, seu santo profeta.
24. Derrubou o acampamento dos assírios, e o anjo do Senhor os desbaratou.
25. Pois Ezequias fez o que era agradável a Deus: caminhou corajosamente pelas pegadas de Davi, seu pai, assim como lhe havia recomendado Isaías, o grande profeta, fiel aos olhos do Senhor.
26. Um dia o sol retrocedeu, e (o profeta) prolongou a vida do rei.
27. Por uma poderosa inspiração ele viu o fim dos tempos, e consolou aqueles que choravam em Sião;
28. ele anunciou o futuro até o fim dos tempos, assim como as coisas ocultas antes que se cumprissem.

 
Capítulo 49

1. A memória de Josias é como uma composição de aromas, preparada pelo perfumista.
2. Em toda boca, sua lembrança é doce como o mel, como uma melodia num festim regado de vinho.
3. Foi divinamente destinado a levar o povo à penitência, e robusteceu a piedade numa época de pecado.
4. Voltou o coração para o Senhor e fez desaparecer as abominações da impiedade.
5. Exceto Davi, Ezequias e Josias, todos pecaram:
6. os reis de Judá abandonaram a lei do Altíssimo, e desprezaram o temor a Deus;
7. por isso tiveram de entregar a outros o seu reino, e a sua glória a uma nação estrangeira.
8. (Os inimigos) queimaram a cidade eleita, a cidade santa, transformaram suas ruas num deserto, conforme o que predissera Jeremias,
9. pois eles maltrataram aquele que havia sido consagrado profeta desde o ventre de sua mãe, para derrubar, para destruir, para arruinar, mas depois reedificar e renovar.
10. Foi Ezequiel quem teve essa visão gloriosa, que o Senhor lhe mostrou num carro de querubins.
11. Pois ele anunciou com uma chuva a sorte dos inimigos, assim como os bens reservados àquele que seguiam o caminho reto.
12. Quanto aos doze profetas, refloresçam os seus ossos em seus túmulos, pois fortaleceram Jacó, e redimiram-se (da servidão) por uma fé corajosa.
13. Como engrandecer a glória de Zorobabel? Foi ele como um anel na mão direita.
14. Do mesmo modo Josué, filho de Josedec; eles que, em seus dias, reconstruíram a casa (de Deus), e tornaram a levantar o templo santo do Senhor, destinado a uma glória eterna.
15. Neemias viverá por longo tempo na recordação; ele reergueu nossas muralhas arruinadas, restabeleceu nossas portas e nossos trincos, e reedificou nossas casas.
16. Ninguém nasceu no mundo comparável a Henoc, pois ele também foi arrebatado desta terra;
17. nem comparável a José, nascido para ser o príncipe de seus irmãos e o sustentáculo de sua raça, o governador de seus irmãos, e o esteio de seu povo.
18. Seus ossos foram conservados com cuidado; depois de sua morte fizeram profecia.
19. Set e Sem foram glorificados entre os homens, porém, acima de qualquer ser vivo da criação, acha-se Adão.

 
Capítulo 50

1. Simão, filho de Onias, sumo sacerdote, foi quem, durante a sua vida, sustentou a casa do Senhor; e durante os seus dias, fortificou o templo.
2. Por ele foi fundado o alto edifício do templo, o edifício duplo e as altas muralhas.
3. Em seus dias a água jorrou dos reservatórios que se encheram extraordinariamente, como o mar (de bronze),
4. ele cuidou do seu povo, libertou-o da perdição.
5. Foi bastante poderoso para aumentar a cidade, conquistou glória em suas relações com a nação, e alargou a entrada do templo e do átrio.
6. Como a estrela-d’alva brilha no meio das nuvens, como brilha a lua nos dias de lua cheia,
7. como brilha o sol radioso, assim resplandeceu ele no templo de Deus.
8. (Ele era) como o arco-íris fulgurando nas nuvens luminosas, como a flor da roseira em dia de primavera, como os lírios à beira de uma corrente de água, e como o incenso que exala seu perfume nos dias de verão;
9. como um fogo que lança centelhas, como o incenso que se queima no fogo;
10. como um vaso de ouro maciço, adornado de pedrarias;
11. como uma oliveira cujos rebentos crescem, e como um cipreste que se ergue para o alto. Assim aparecia ele quando se cobria com o manto de aparato, e revestia os ornatos de sua dignidade.
12. Subindo ao altar santo, honrava os santos ornamentos.
13. Conservando-se de pé junto do altar, recebia as partes (das vítimas) da mão dos sacerdotes, e os seus irmãos o rodeavam como uma coroa, como uma plantação de cedros no monte Líbano.
14. Como as folhas de uma palmeira, todos os filhos de Aarão mantinham-se em volta dele em sua magnificência.
15. A oblação do Senhor era apresentada pelas suas mãos diante do povo de Israel. Quando terminava o sacrifício no altar, a fim de enaltecer a oblação do rei Altíssimo,
16. ele estendia a mão para a libação, e espargia o sangue da videira;
17. derramava ao pé do altar um perfume divino para o príncipe Altíssimo.
18. Então os filhos de Aarão manifestavam-se com exclamações, e tocavam trombetas de metal batido; faziam ouvir grandes clamores para se fazerem lembrados diante de Deus.
19. E todo o povo se comprimia em multidão, e caía com a face por terra, para adorar o Senhor seu Deus, e dirigir preces ao Deus todo-poderoso, o Altíssimo.
20. Os cantores elevavam a voz, e do vasto edifício subia uma suave melodia.
21. O povo orava ao Senhor, o Altíssimo, até que terminasse o culto do Senhor, e que as cerimônias tivessem fim,
22. Então, descendo do altar, o sumo sacerdote elevava as mãos sobre todo o povo israelita, para render glória a Deus em alta voz, e para glorificá-lo em seu nome.
23. E (o povo) repetia sua oração, querendo demonstrar o poder de Deus.
24. E agora, orai ao Deus de todas as coisas, que fez grandes coisas pela terra toda, que multiplicou nossos dias desde o seio materno, e usou de misericórdia para conosco.
25. Que ele nos conceda a alegria do coração, e que a paz esteja com Israel agora e para sempre;
26. para que Israel creia que a misericórdia de Deus está conosco, e que nos liberte quando chegar o dia.
27. Há dois povos que minha alma abomina, e o terceiro, que aborreço, nem sequer é um povo:
28. aqueles que vivem no monte Seir, os filisteus, e o povo insensato que habita em Siquém.
29. Jesus, filho de Sirac de Jerusalém, escreveu neste livro uma doutrina de sabedoria e ciência, e derramou nele a sabedoria de seu coração.
30. Feliz aquele que se entregar a essas boas palavras; aquele que as guardar no coração será sempre sábio;
31. pois, se ele as cumprir, será capaz de todas as coisas, porque a luz de Deus guiará os eus passos.

 
Capítulo 51

1. Glorificar-vos-ei, ó Senhor e Rei, louvar-vos-ei, ó Deus, meu salvador.
2. Glorificarei o vosso nome, porque fostes meu auxílio e meu protetor.
3. Livrastes meu corpo da perdição, das ciladas da língua injusta, e dos lábios dos forjadores de mentira. Fostes meu apoio contra aqueles que me acusavam.
4. Libertastes-me conforme a extensão da misericórdia de vosso nome, dos rugidos dos animais ferozes, prestes a me devorar;
5. da mão daqueles que atacavam a minha vida, do assalto das tribulações que me aturdiam,
6. e da violência das chamas que me rodeavam. Em meio ao fogo não me queimei.
7. Libertastes-me das profundas entranhas da morada dos mortos, da língua maculada, das palavras mentirosas, do rei iníquo e da língua injusta.
8. Minha alma louvará ao Senhor até a morte,
9. porque a minha vida estava prestes a cair nas profundezas da região dos mortos.
10. Eles me rodearam de todos os lados, e ninguém lá estava para ajudar-me. Esperava algum auxílio dos homens e nada veio.
11. Lembrei-me, Senhor, da vossa misericórdia, e de vossas obras que datam do princípio do mundo,
12. pois libertais, Senhor, aqueles que esperam em vós, e os salvais das mãos das nações.
13. Exaltastes a minha habitação sobre a terra, e eu vos roguei quando a morte se aproximou de mim;
14. invoquei o Senhor, pai do meu Senhor, para que me não abandonasse no dia de minha aflição, sem socorro, durante o reinado dos soberbos.
15. Louvarei sem cessar o vosso nome; glorificá-lo-ei em meus louvores, porque foi ouvida a minha prece,
16. porque me livrastes da perdição, e salvastes-me do perigo num tempo de iniqüidade.
17. Eis por que eu vos glorificarei e cantarei vossos louvores e bendirei o nome do Senhor.
18. Quando eu era ainda jovem, antes de ter viajado, busquei abertamente a sabedoria na oração:
19. pedi-a a Deus no templo, e buscá-la-ei até o fim de minha vida. Ela floresceu como uma videira precoce
20. e meu coração alegrou-se nela. Meus pés andaram por caminho reto: desde a minha juventude tenho procurado encontrá-la.
21. Apliquei um pouco o meu ouvido e logo a recolhi.
22. Encontrei em mim mesmo muita sabedoria, e nela fiz grande progresso.
23. Tributarei glória àquele que ma deu,
24. pois resolvi pô-la em prática; fui zeloso no bem e não serei confundido.
25. Lutou minha alma para atingi-la, robusteci-me, pondo-a em prática.
26. Levantei minhas mãos para o alto, e deplorei o erro do meu espírito.
27. Conduzi minha alma para ela, e encontrei-a, ao procurar conhecê-la.
28. Desde o início, graças a ela, possuí o meu coração; eis por que não serei abandonado.
29. Minhas entranhas comoveram-se em procurá-la, e assim adquiri um bem precioso.
30. O Senhor deu-me como recompensa uma língua, e dela me servirei para louvá-lo.
31. Aproximai-vos de mim, ignorantes, reuni-vos na casa do ensino.
32. Por que tardais? Que direis a isto? Vossas almas estão violentamente perturbadas pela sede.
33. Abri a boca e falei: Buscai a sabedoria sem dinheiro!
34. Dobrai a cabeça sob o jugo, receba vossa alma a instrução, porque perto se pode encontrá-la.
35. Vede com os vossos olhos o pouco que trabalhei, e como adquiri grande paz.
36. Recebei a instrução como uma grande soma de prata, e possuireis nela grande quantidade de ouro.
37. Que vossa alma se regozije na misericórdia (de Deus)! E não sereis humilhados quando o louvardes.
38. Cumpri vossa tarefa antes que o tempo (passe) e, no devido tempo, ele vos dará a recompensa.

 

Isaías

Isaías

 Capítulo 1

1. Profecia de Isaías, filho de Amós, a respeito de Judá e Jerusalém no tempo de Ozias, de Joatão, de Acaz e de Ezequias, rei de Judá.
2. Ouvi, céus, e tu, ó terra, escuta, é o Senhor que fala: Eu criei filhos e os eduquei, eles, porém, se revoltaram contra mim.
3. O boi conhece o seu possuidor, e o asno, o estábulo do seu dono; mas Israel não conhece nada, e meu povo não tem entendimento.
4. Ai da nação pecadora, do povo carregado de crimes, da raça de malfeitores, dos filhos desnaturados! Abandonaram o Senhor, desprezaram o Santo de Israel, e lhe voltaram as costas.
5. Onde vos ferir ainda, quando persistis na rebelião? Toda a cabeça está enferma, e todo o coração, abatido.
6. Desde a planta dos pés até o alto da cabeça, não há nele coisa sã. Tudo é uma ferida, uma contusão, uma chaga viva, que não foi nem curada, nem ligada, nem suavizada com óleo.
7. Vossa terra está assolada, vossas cidades, incendiadas. Os inimigos, à vossa vista, devastam vosso país. (É uma desolação, como a ruína de Sodoma).
8. Sião está só como choupana em uma vinha, como choça em pepinal, como cidade sitiada.
9. Se o Senhor dos exércitos não nos tivesse deixado alguns da nossa linhagem, teríamos sido como Sodoma, e ter-nos-íamos tornado como Gomorra.
10. Ouvi a palavra do Senhor, príncipes de Sodoma; escuta a lição de nosso Deus, povo de Gomorra:
11. De que me serve a mim a multidão das vossas vítimas?, diz o Senhor. Já estou farto de holocaustos de cordeiros e da gordura de novilhos cevados. Eu não quero sangue de touros e de bodes.
12. quando vindes apresentar-vos diante de mim, quem vos reclamou isto: atropelar os meus átrios?
13. De nada serve trazer oferendas; tenho horror da fumaça dos sacrifícios. As luas novas, os sábados, as reuniões de culto, não posso suportar a presença do crime na festa religiosa.
14. Eu abomino as vossas luas novas e as vossas festas; elas me são molestas, estou cansado delas.
15. Quando estendeis vossas mãos, eu desvio de vós os meus olhos; quando multiplicais vossas preces, não as ouço. Vossas mãos estão cheias de sangue,
16. lavai-vos, purificai-vos. Tirai vossas más ações de diante de meus olhos.
17. Cessai de fazer o mal, aprendei a fazer o bem. Respeitai o direito, protegei o oprimido; fazei justiça ao órfão, defendei a viúva.
18. Pois bem, justifiquemo-nos, diz o Senhor. Se vossos pecados forem escarlates, tornar-se-ão brancos como a neve! Se forem vermelhos como a púrpura, ficarão brancos como a lã!
19. Se fordes dóceis e obedientes, provareis os melhores frutos da terra;
20. se recusardes e vos revoltardes, provareis a espada. É a boca do Senhor que o declara.
21. Como se prostituiu a cidade fiel, Sião, cheia de retidão? A justiça habitava nela, e agora são os homicidas.
22. Tua prata converteu-se em escória, teu vinho misturou-se com água.
23. Teus príncipes são rebeldes, cúmplices de ladrões. Todos eles amam as dádivas e andam atrás do proveito próprio; não fazem justiça ao órfão, e a causa da viúva não é evocada diante deles.
24. Por isso eis o que diz o Senhor, Deus dos exércitos, o Poderoso de Israel: Ah! eu tirarei satisfação de meus adversários, e me vingarei de meus inimigos.
25. Voltarei minha mão contra ti, e te purificarei no crisol, e eliminarei de ti todo o chumbo.
26. Tornarei teus juízes semelhantes aos de outrora, e teus conselheiros como os de antigamente. Então te chamarão Cidade da Justiça, Cidade fiel.
27. Sião será remida pelo direito, e seus convertidos pela justiça..
28. Os rebeldes e os pecadores serão destruídos juntamente, e aqueles que abandonam o Senhor perecerão.
29. Então tereis vergonha dos carvalhos verdes que cobiçais, e corareis de pejo dos jardins que ora vos agradam,
30. porque sereis como um carvalho verde com folhagem seca, e como um jardim sem água.
31. O homem forte será a estopa. e sua obra, a faísca; eles arderão sem que ninguém possa extinguir.

 
Capítulo 2

1. Visão de Isaías, filho de Amós, acerca de Judá e Jerusalém.
2. No fim dos tempos acontecerá que o monte da casa do Senhor estará colocado à frente das montanhas, e dominará as colinas. Para aí acorrerão todas as gentes,
3. e os povos virão em multidão: Vinde, dirão eles, subamos à montanha do Senhor, à casa do Deus de Jacó: ele nos ensinará seus caminhos, e nós trilharemos as suas veredas. Porque de Sião deve sair a lei, e de Jerusalém, a palavra do Senhor.
4. Ele será o juiz das nações, o governador de muitos povos. De suas espadas forjarão relhas de arados, e de suas lanças, foices. Uma nação não levantará a espada contra outra, e não se arrastarão mais para a guerra.
5. Casa de Jacó, vinde, caminhemos à luz do Senhor.
6. Vós rejeitastes inteiramente vosso povo, a casa de Jacó, porque ela está cheia de adivinhos do Oriente, e de agoureiros como os filisteus; ela transige com os estrangeiros.
7. A sua terra está cheia de prata e de ouro, e há tesouros sem fim. A sua terra está cheia de cavalos e há um sem-número de carros.
8. A sua terra está cheia de ídolos; os homens se prosternam diante da obra de suas mãos, diante daquilo que seus dedos fabricaram.
9. Os mortais serão abatidos e o homem será humilhado; vós não os perdoareis de maneira nenhuma.
10. Refugiai-vos nos rochedos, escondei-vos debaixo da terra, sob o impulso do terror do Senhor, e do esplendor de sua majestade, quando ele se levantar para aterrorizar a terra.
11. A soberba dos mortais será abatida, e o orgulho dos homens será humilhado. Só o Senhor será exaltado naquele tempo.
12. Porque o Senhor dos exércitos terá um dia (para exercer punição) contra todo ser orgulhoso e arrogante, e contra todo aquele que se exalta, para abatê-lo,
13. contra todos os cedros do Líbano, altos e majestosos, e contra todos os carvalhos de Basã,
14. contra todos os altos montes, e contra todos os outeiros elevados,
15. contra todas as torres altas, e contra todas as muralhas fortificadas,
16. contra todas as naus de Társis e contra todos os objetos de luxo.
17. A pretensão dos mortais será humilhada, o orgulho dos homens será abatido. Só o Senhor será exaltado naquele tempo,
18. e todos os ídolos desaparecerão.
19. Refugiai-vos nas cavernas dos rochedos, e nos antros da terra, sob o impulso do terror do Senhor, e do esplendor de sua majestade, quando ele se levantar para aterrorizar a terra.
20. Naquele tempo o homem lançará aos ratos e aos morcegos os ídolos de prata e os ídolos de ouro, que para si tinha feito a fim de adorá-los;
21. refugiar-se-á nas cavernas dos rochedos e nas fendas da pedreira, por causa do espanto da presença do Senhor, e do esplendor de sua majestade, quando ele se levantar para aterrorizar a terra.
22. Cessai de confiar no homem, cuja vida se prende a um fôlego: como se pode estimá-lo?

 
Capítulo 3

1. Eis que o Senhor, Deus dos exércitos, vai tirar de Jerusalém e de Judá todo sustentáculo, todo recurso: toda a reserva de pão e toda a reserva de água,
2. o valente e o guerreiro, o juiz e o profeta, o adivinho e o ancião,
3. o chefe de cinqüenta, o grande e o conselheiro, aquele que possui segredos, e se dedica aos sortilégios.
4. Por príncipes eu lhes darei meninos, e adolescentes deterão o poder sobre eles.
5. Os povos se maltratarão uns aos outros, cada um (atormentará) seu próximo: o jovem insultará o velho, e o vilão, o nobre.
6. Um homem se aproximará de outro e dirá: Tu tens um manto na casa de teu pai; é mister que sejas nosso príncipe; toma sob teu poder esta ruína.
7. O outro, então, protestará: Eu não posso curar estas chagas; e em minha casa não há nem pão nem manto; não me façais príncipe do povo.
8. Jerusalém, com efeito, ameaça ruína, e Judá se desmorona, porque suas palavras e suas ações se opõem ao Senhor, e desafiam os olhares de sua majestade.
9. Sua parcialidade testemunha contra eles; ostentam seus pecados (como Sodoma), em vez de escondê-los. Ai deles, porque causam dano a si mesmos.
10. Feliz o justo, para ele o bem; ele comerá o fruto de suas obras.
11. Ai do ímpio, para ele o mal; porque ele será tratado segundo as suas obras.
12. O meu povo é oprimido por tiranos caprichosos, e cobradores de impostos o dominam. Povo meu, teus guias te desencaminham, destroem o caminho por onde tu passas.
13. O Senhor se levanta para acusar, e se ergue para julgar seu povo.
14. O Senhor entra em juízo contra os anciãos e os magistrados de seu povo. Fostes vós que devorastes a vinha, o espólio do pobre está em vossas casas.
15. Por que razão calcais aos pés o meu povo, e maltratais a face dos pobres?, declara o Senhor Deus dos exércitos.
16. E o Senhor disse: Já que são pretensiosas as filhas de Sião, e andam com o pescoço emproado, fazendo acenos com os olhos, e caminham com passo afetado, fazendo retinir as argolas de seus tornozelos,
17. o Senhor tornará sua cabeça calva e desnudará sua fronte.
18. Naquele tempo o Senhor lhes tirará as jóias, as argolas, os colares, as lúnulas,
19. os brincos, os braceletes e os véus,
20. os diademas, as cadeias, os cintos, os frascos de perfumes e os amuletos,
21. os anéis e os pingentes da fronte,
22. os vestidos de festa, os mantos, as gazas e as bolsas,
23. os espelhos, as musselinas, os turbantes e as mantilhas.
24. E então, em lugar de perfume, haverá podridão, em lugar de cinto, uma corda, em lugar de cabelos encrespados, uma cabeça raspada, em lugar do largo manto, um cilício, uma cicatriz em lugar da beleza.
25. Teus varões tombarão à espada, e teus bravos, na batalha.
26. Suas portas gemerão e se lastimarão; e ela, despojada, sentar-se-á por terra.

 
Capítulo 4

1. Naquele tempo, sete mulheres disputarão entre si um homem, e dirão: É do nosso pão que comeremos, e de nossas vestes que nos cobriremos. Deixa-nos apenas trazer o teu nome, faze cessar nosso opróbrio.
2. Naquele tempo, aquilo que o Senhor fizer crescer será o ornamento e a glória, e o fruto da terra será o orgulho e o ornato daqueles de Israel que foram salvos.
3. O que restar de Sião, os sobreviventes de Jerusalém, serão chamados santos, e todos os que estiverem computados entre os vivos em Jerusalém.
4. Quando o Senhor tiver lavado a imundície das filhas de Sião, e apagado de Jerusalém as manchas de sangue pelo sopro do direito e pelo vento devastador,
5. o Senhor virá estabelecer-se sobre todo o monte Sião e em suas assembléias: de dia como uma nuvem de fumaça, e de noite como um fogo flamejante. Porque sobre todos se estenderá a glória do Senhor,
6. como a cobertura de uma tenda, à guisa de sombra contra o calor do dia, e de refúgio e abrigo contra a procela e a chuva.

 
Capítulo 5

1. Eu quero cantar para o meu amigo seu canto de amor a respeito de sua vinha: meu amigo possuía uma vinha num outeiro fértil.
2. Ele a cavou e tirou dela as pedras; plantou-a de cepas escolhidas. Edificou-lhe uma torre no meio, e construiu aí um lagar. E contava com uma colheita de uvas, mas ela só produziu agraço.
3. E agora, habitantes de Jerusalém, e vós, homens de Judá, sede juízes entre mim e minha vinha.
4. Que se poderia fazer por minha vinha, que eu não tenha feito? Por que, quando eu esperava vê-la produzir uvas, só deu agraço?
5. Pois bem, mostrar-vos-ei agora o que hei de fazer à minha vinha: arrancar-lhe-ei a sebe para que ela sirva de pasto, derrubarei o muro para que seja pisada.
6. Eu a farei devastada; não será podada nem cavada, e nela crescerão apenas sarças e espinhos; vedarei às nuvens derramar chuva sobre ela.
7. A vinha do Senhor dos exércitos é a casa de Israel, e os homens de Judá são a planta de sua predileção. Esperei deles a prática da justiça, e eis o sangue derramado; esperei a retidão, e eis os gritos de socorro.
8. Ai de vós, que ajuntais casa a casa, e que acrescentais campo a campo, até que não haja mais lugar, e que sejais os únicos proprietários da terra.
9. Os meus ouvidos ouviram ainda este juramento do Senhor dos exércitos: Grande número de casas, eu o juro, será devastado, grandes e magníficas herdades ficarão desabitadas.
10. Dez jeiras de vinha não produzirão mais que um bato, e um homer de semente não dará mais que um efá.
11. Ai daqueles que desde a manhã procuram a bebida, e que se retardam à noite nas excitações do vinho!
12. Amantes da cítara e da harpa, do tamborim e da flauta, e do vinho em seus banquetes, mas para as obras do Senhor não têm um olhar sequer, e não enxergam a obra de suas mãos.
13. Por causa disso meu povo será desterrado sem nada pressentir. Sua nobreza será atenazada pela fome, e a multidão, mirrada pela sede.
14. Por isso a morada dos mortos se alargará, e abrirá desmesuradamente a boca. O esplendor (de Sião) e sua multidão barulhenta, seu alvoroço e sua alegria desaparecerão dela.
15. O homem será curvado, os grandes serão humilhados, os olhares altivos serão abatidos,
16. e o Senhor dos exércitos triunfará no juízo; o Deus santo mostrar-se-á como tal, fazendo justiça.
17. Os cordeiros serão apascentados nesses lugares como em suas pastagens, e sobre as ruínas pastarão os cabritos.
18. Ai daqueles que arrastam a correção com as cordas da indisciplina, e a pena do pecado como com os tirantes de um carro!
19. (Ai) daqueles que dizem: Que ele se avie, que faça já sua obra, a fim de que a vejamos. Que o plano do Santo de Israel se execute para que o conheçamos!
20. Ai daqueles que ao mal chamam bem, e ao bem, mal, que mudam as trevas em luz e a luz em trevas, que tornam doce o que é amargo, e amargo o que é doce!
21. Ai daqueles que são sábios aos próprios olhos, e prudentes em seu próprio juízo!
22. Ai daqueles que põem sua bravura em beber vinho, e sua coragem em misturar licores;
23. (ai) daqueles que, por uma dádiva, absolvem o culpado, e negam justiça àquele que tem o direito a seu lado!
24. Por isso, assim como a palhoça é devorada por uma língua de fogo, e como a palha é consumida pela chama, assim a raiz deles sucumbirá na podridão e sua flor voará como a poeira, porque repudiaram a lei do Senhor dos exércitos, e desprezaram a palavra do Santo de Israel.
25. Por isso o furor do Senhor se inflama contra seu povo, apodera-se dele e o castiga; os montes tremem, seus cadáveres, como carniça, jazem nas ruas. Entretanto, sua cólera não se aplacou, e sua mão está prestes a precipitar-se.
26. Ele arvora uma bandeira para chamar uma nação longínqua, assobia para fazê-la vir dos confins da terra, e ei-la que, ágil, acorre às pressas.
27. Ninguém dentre eles se arrasta ou tropeça, ninguém dorme nem cochila; ninguém desata a cinta de seus rins, nem desaperta a correia dos sapatos.
28. Agudas são as suas flechas e todos os seus arcos, entesados. Os cascos de seus cavalos são (duros) como a pederneira, e as rodas de seus carros assemelham-se à tempestade.
29. É (como) o rugido da leoa, e o rosnar do leãozinho. Ele brame e agarra a sua presa, e a carrega sem que ninguém lha arrebate.
30. Naquele tempo, um estrondo, semelhante ao bramido do mar, retumbará contra ele. Quando olhar a terra, só verá trevas e angústia, e no céu se estenderão nuvens tenebrosas.

 
Capítulo 6

1. No ano da morte do rei Ozias, eu vi o Senhor sentado num trono muito elevado; as franjas de seu manto enchiam o templo.
2. Os serafins se mantinham junto dele. Cada um deles tinha seis asas; com um par (de asas) velavam a face; com outro cobriam os pés; e, com o terceiro, voavam.
3. Suas vozes se revezavam e diziam: Santo, santo, santo é o Senhor Deus do universo! A terra inteira proclama a sua glória!
4. A este brado as portas estremeceram em seus gonzos e a casa, encheu-se de fumo.
5. Ai de mim, gritava eu. Estou perdido porque sou um homem de lábios impuros, e habito com um povo (também) de lábios impuros e, entretanto, meus olhos viram o rei, o Senhor dos exércitos!
6. Porém, um dos serafins voou em minha direção; trazia na mão uma brasa viva, que tinha tomado do altar com uma tenaz.
7. Aplicou-a na minha boca e disse: Tendo esta brasa tocado teus lábios, teu pecado foi tirado, e tua falta, apagada.
8. Ouvi então a voz do Senhor que dizia: Quem enviarei eu? E quem irá por nós? Eis-me aqui, disse eu, enviai-me.
9. Vai, pois, dizer a esse povo, disse ele: Escutai, sem chegar a compreender, olhai, sem chegar a ver.
10. Obceca o coração desse povo, ensurdece-lhe os ouvidos, fecha-lhe os olhos, de modo que não veja nada com seus olhos, não ouça com seus ouvidos, não compreenda nada com seu espírito. E não se cure de novo.
11. Até quando, Senhor’ disse eu. E ele respondeu: Até que as cidades fiquem devastadas e sem habitantes, as casas, sem gente, e a terra, deserta;
12. até que o Senhor tenha banido os homens, e seja grande a solidão na terra.
13. Se restar um décimo (da população), ele será lançado ao fogo, como o terebinto e o carvalho, cuja linhagem permanece quando são abatidos. (Sua linhagem é um germe santo).

 
Capítulo 7

1. No tempo de Acaz, filho de Joatão, filho de Ozias, rei de Judá, Rasin, rei de Arão, foi com Pecá, filho de Romelia, rei de Israel, contra Jerusalém para lhe dar combate; mas não pôde apoderar-se dela.
2. Quando se soube, na casa de Davi, que (o exército da) Síria estava acampado em Efraim, o coração do rei e o de seu povo ficaram perturbados como as árvores das florestas agitadas pelos ventos.
3. Então disse o Senhor a Isaías: Vai ter com Acaz, com Sear-Jasub, teu filho, na extremidade do aqueduto do reservatório superior, no caminho do campo do pisoeiro.
4. E dize-lhe: Tem ânimo, não temas, não vacile o teu coração diante desses dois pedaços de tições fumegantes. (Diante do furor de Rasin, da Síria, e do filho de Romelia).
5. Visto que a Síria decidiu tua perdição, com Efraim e o filho de Romelia, dizendo:
6. Vamos contra Judá, nós o bateremos, e nos apoderaremos dele, e proclamaremos rei o filho de Tabeel.
7. Eis o que disse o Senhor Javé: Isso não acontecerá, essas coisas não se realizarão,
8. porque a capital da Síria é Damasco, e a cabeça de Damasco é Rasin. (Dentro de sessenta e cinco anos Efraim desaparecerá do rol dos povos.)
9. E a capital de Efraim é Samaria, e a cabeça de Samaria é o filho de Romelia. Se não o crerdes, não subsistireis.
10. O Senhor disse ainda a Acaz:
11. Pede ao Senhor teu Deus um sinal, seja do fundo da habitação dos mortos, seja lá do alto.
12. Acaz respondeu: De maneira alguma! Não quero pôr o Senhor à prova.
13. Isaías respondeu: Ouvi, casa de Davi: Não vos basta fatigar a paciência dos homens? Pretendeis cansar também o meu Deus?
14. Por isso, o próprio Senhor vos dará um sinal: uma virgem conceberá e dará à luz um filho, e o chamará Deus Conosco.
15. Ele será nutrido com manteiga e mel até que saiba rejeitar o mal e escolher o bem.
16. Porque antes que o menino saiba rejeitar o mal e escolher o bem, a terra, cujos dois reis tu temes, será devastada.
17. O Senhor fará vir sobre ti, sobre teu povo e sobre a casa de teu pai, dias tais como não houve desde que Efraim se separou de Judá [o rei dos assírios].
18. Naquele dia, o Senhor assobiará às moscas que estão nas margens dos rios do Egito e às abelhas da terra da Assíria.
19. Elas virão pousar em massa nos vales escarpados, nas cavernas dos rochedos, sobre todas as moitas e todas as pastagens.
20. Naquele tempo, com uma navalha emprestada do outro lado do rio [com o rei da Assíria] o Senhor vos raspará a cabeça e os pêlos das pernas, assim como a barba.
21. Naquele tempo, cada homem manterá uma vaca e duas ovelhas;
22. comer-se-á a manteiga de todo o leite que elas derem, porque é de manteiga e mel que viverão aqueles que subsistirem na terra.
23. Naquele tempo, todo terreno que contiver mil vides valendo mil siclos de prata será abandonado às sarças e aos espinhos.
24. Ali só se entrará com setas e arcos, porque toda aquela terra estará coberta de sarças e espinhos. Não se voltará mais aos montes que eram cultivados à enxada, por causa das sarças e dos espinhos; será permitido aos bois pastá-los e serão pisados pelos carneiros.

 
Capítulo 8

1. E o Senhor disse-me: Toma uma grande placa e escreve nela em caracteres legíveis: Maer-chalal-hach-baz. (Toma depressa os despojos, faze velozmente a presa).
2. Tomai por testemunhas fidedignas o sacerdote Urias e Zacarias, filho de Jeberequias.
3. Eu me aproximei da profetisa, que concebeu e deu à luz um filho. (Então) o Senhor me disse Chama-o Maer-Chalal-hach-baz,
4. porque antes que o menino saiba dizer: papai, mamãe, as riquezas de Damasco e os despojos de Samaria serão carregados diante do rei da Assíria.
5. O Senhor disse-me ainda:
6. Porque este povo rejeitou as águas tranqüilas de Siloé, e perdeu o domínio diante de Rasin e do filho de Romelia,
7. o Senhor fará cair sobre ele as águas do rio, abundantes e impetuosas (o rei da Assíria com todo o seu poder); subirá por toda parte pelas suas ribanceiras, transbordará por todas as suas margens,
8. invadirá Judá, inundá-lo-á e o submergirá, e subirá até o pescoço. Com suas asas desdobradas cobrirá toda a terra, ó Emanuel!
9. Aprendei-o, povos, e ficareis consternados. Ouvi com atenção, terras longínquas. Podeis pegar em armas e sereis destruídos;
10. preparai um plano, e ele malogrará; dai ordens e elas não serão executadas, porque Deus está conosco.
11. Porque eis o que o Senhor me disse quando me agarrou e me preveniu contra essa política:
12. Não chameis conspiração tudo aquilo que o povo chama conspiração; não vos assusteis.
13. É o Senhor que vós deveis ter por conspirador; é a ele que é preciso respeitar, a ele que se deve temer.
14. Ele será a pedra de escândalo e a pedra de tropeço para as duas casas de Israel, o laço e a cilada para os habitantes de Jerusalém.
15. Muitos dentre eles vacilarão, cairão e serão despedaçados; serão presos ao laço e apanhados na armadilha.
16. Eu vou recolher esta declaração e selar esta revelação para os meus discípulos.
17. Terei confiança no Senhor que se esconde da casa de Jacó,e esperarei nele.
18. Eu e os filhos que o Senhor me deu somos, em Israel, sinais e presságios da parte do Senhor dos exércitos, que habita no monte de Sião.
19. Se vos disserem: Consultai os espíritos dos mortos, os adivinhos, os que conhecem segredos e dizem em voz baixa: Porventura um povo não deve consultar os seus deuses? Consultar os mortos em favor dos vivos?
20. Para aceitar uma lei e um testemunho. É o que se dirá. Porque não haverá aurora para eles.
21. Andarão errantes pela terra, fatigados e esfomeados; atormentados pela fome, agastar-se-ão e amaldiçoarão o seu rei e o seu Deus. Levantarão os olhos, depois olharão para a terra,
22. e só verão misérias, escuridão e trevas angustiantes. Repelir-se-ão dentro da noite
23. (pois não há trevas onde há angústia?). No passado ele humilhou a terra de Zabulon e de Neftali, mas no futuro cobrirá de honras o caminho do mar, a Transjordânia e o distrito das nações.

 
Capítulo 9

1. O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; sobre aqueles que habitavam uma região tenebrosa resplandeceu uma luz.
2. Vós suscitais um grande regozijo, provocais uma imensa alegria; rejubilam-se diante de vós como na alegria da colheita, como exultam na partilha dos despojos.
3. Porque o jugo que pesava sobre ele, a coleira de seu ombro e a vara do feitor, vós os quebrastes, como no dia de Madiã.
4. Porque todo calçado que se traz na batalha, e todo manto manchado de sangue serão lançados ao fogo e tornar-se-ão presa das chamas;
5. porque um menino nos nasceu, um filho nos foi dado; a soberania repousa sobre seus ombros, e ele se chama: Conselheiro admirável, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da paz.
6. Seu império será grande e a paz sem fim sobre o trono de Davi e em seu reino. Ele o firmará e o manterá pelo direito e pela justiça, desde agora e para sempre. Eis o que fará o zelo do Senhor dos exércitos.
7. O Senhor profere uma palavra contra Jacó, e ela vai cair sobre Israel.
8. Todo o povo conhece seus efeitos, Efraim e os habitantes de Samaria, que dizem no seu orgulho e na sua pretensão:
9. Os tijolos caíram, nós edificaremos com pedras lavradas, os sicômoros foram cortados, nós os substituiremos por cedros.
10. O Senhor sustentou seus inimigos contra ele, e estimulou seus adversários.
11. Os arameus do Oriente, os filisteus do Ocidente devoraram Israel com bons dentes. Apesar de tudo, sua cólera não se aplacou, e sua mão está prestes a precipitar-se.
12. O povo, porém, não se voltou para quem o feria, e não buscou o Senhor dos exércitos.
13. Então o Senhor cortou a cabeça e a cauda de Israel, a palma e o junco em um só dia
14. (a cabeça é o ancião e o respeitável, a cauda é o falso profeta).
15. (Aqueles que conduziam esse povo, desencaminharam-no, e os que eles conduziam, perderam-se.)
16. Por isso o Senhor não poupa os jovens e não tem piedade dos órfãos nem das viúvas, porque todos eles são ímpios e perversos, e todas as bocas proferem infames palavras. Apesar de tudo, sua cólera não se aplacou, e sua mão está prestes a precipitar-se.
17. Porque a maldade queima como um fogo que devora as sarças e os espinhos, e depois envolve a espessura da floresta, de onde a fumaça se eleva em turbilhões.
18. Pela cólera do Senhor a terra está em fogo, e o povo veio a ser presa das chamas.
19. Cortam à direita, e têm fome, comem à esquerda, e não se satisfazem. Cada um devora a carne de seu próximo, e ninguém tem piedade de seu irmão;
20. Manassés come Efraim, e Efraim, Manassés; depois os dois juntos atacam Judá. Apesar de tudo, sua cólera não se aplacou, e sua mão está prestes a precipitar-se.

 
Capítulo 10

1. Ai daqueles que fazem leis injustas e dos escribas que redigem sentenças opressivas,
2. para afastar os pobres dos tribunais e negar direitos aos fracos de meu povo; para fazer das viúvas sua presa e despojar os órfãos.
3. Que fareis vós no dia do ajuste de contas, e da tempestade que virá de longe? Junto de quem procurareis auxílio, e onde deixareis vossas riquezas?
4. A menos que vos curveis entre os cativos, tombareis entre os mortos. Apesar de tudo, sua cólera não se aplacou, e sua mão está prestes a precipitar-se.
5. Ai da Assíria, vara de minha cólera e bastão que maneja o meu furor.
6. Eu o enviei contra uma nação ímpia, e o lancei contra o povo, o objeto de minha cólera, para que o entregasse à pilhagem e lhe levasse os despojos, e o calcasse aos pés como a lama das ruas.
7. Mas ele não entendeu dessa maneira, e este não foi o seu pensamento. Ele só pensa em destruir, em exterminar nações em massa.
8. Porque disse: Porventura meus chefes não são todos eles reis?
9. Não teve Calano o destino de Carcamis, Emat, o de Arfad, e Samaria, o de Damasco?
10. Assim como minha mão se apoderou dos reinos de falsos deuses, cujos ídolos eram mais numerosos que os de Jerusalém e de Samaria,
11. assim como tratei Samaria e seus falsos deuses, não devo tratar também Jerusalém e seus ídolos?
12. Quando o Senhor tiver terminado a sua obra no monte Sião e em Jerusalém, ele punirá a linguagem orgulhosa do rei da Assíria e seus olhares insolentes. Porque ele disse:
13. Foi pela força de minha mão que eu agi, e pela minha destreza, porque sou hábil. Dilatei as fronteiras, saqueei os tesouros e lancei por terra aqueles que estavam no trono.
14. Minha mão tomou como um ninho a riqueza dos povos. Assim como se recolhem os ovos abandonados, eu reuni a terra inteira. Ninguém moveu a asa, nem abriu o bico, nem piou.
15. Acaso o machado se vangloria à custa do lenhador? Ou a serra se levanta contra o serrador? Como se a vara fizesse agitar aquele que a maneja, como se o bastão fizesse mover o braço!
16. Por isso o Senhor Deus dos exércitos fará enfraquecer seus robustos guerreiros, e debaixo de sua glória acender-se-á um fogo como o de um incêndio.
17. A luz de Israel tornar-se-á um fogo e seu Santo, uma chama, para queimar e devorar as suas sarças e seus espinhos em um só dia.
18. O esplendor de seu bosque e de seu jardim ele o aniquilará, corpo e alma. (Será como um doente que definha.)
19. Restarão tão poucas árvores em sua floresta, que um menino poderá contá-las.
20. Naquele tempo, o restante de Israel e os remanescentes da casa de Jacó deixarão de apoiar-se naquele que os fere, mas apoiar-se-ão com confiança no Senhor, o Santo de Israel.
21. Um resto voltará, um resto de Jacó, para o Deus forte.
22. Ainda que teu povo fosse inumerável como a areia do mar, dele só voltará um resto. A destruição está resolvida, a justiça vai tirar a desforra.
23. Esta sentença de ruína o Senhor Deus dos exércitos executará no centro de toda a terra.
24. Por isso o Senhor Deus dos exércitos disse: Povo meu, que habitas em Sião, não temas o assírio que te castiga com a vara, e brande seu bastão contra ti, como outrora os egípcios.
25. Porque dentro de muito pouco tempo meu ressentimento contra vós terá fim e minha cólera o aniquilará.
26. O Senhor Deus dos exércitos vibrará o açoite contra ele como quando feriu Madiã no penhasco de Oreb, e quando estendeu seu bastão sobre o mar, contra o Egito.
27. Naquele tempo, o peso que ele te impôs será tirado de teus ombros, e o seu jugo desaparecerá de teu pescoço… Ele avança pelo lado de Rimon,
28. vai contra Aiat; passou por Magron, e depositou sua bagagem em Micmas;
29. transpuseram o desfiladeiro, e acamparam em Gaba. Ramá está aterrorizada, e Gabaat de Saul, tomada de pânico.
30. Levanta tua voz, ó filha de Galim; escuta, Laís; responde-lhe Anatot.
31. Medmena está em fuga, e os habitantes de Gabim retiraram-se;
32. mais um dia de pouso em Nobe, e depois ele levantará sua mão contra o monte Sião, contra a colina de Jerusalém.
33. O Senhor Deus dos exércitos, com um golpe terrível, abate os ramos, as grandes árvores são cortadas, e as mais altas lançadas por terra;
34. a ramagem da floresta tomba pelo ferro, e o Líbano desaba pela força.

 
Capítulo 11

1. Um renovo sairá do tronco de Jessé, e um rebento brotará de suas raízes.
2. Sobre ele repousará o Espírito do Senhor, Espírito de sabedoria e de entendimento, Espírito de prudência e de coragem, Espírito de ciência e de temor ao Senhor.
3. (Sua alegria se encontrará no temor ao Senhor.) Ele não julgará pelas aparências, e não decidirá pelo que ouvir dizer;
4. mas julgará os fracos com eqüidade, fará justiça aos pobres da terra, ferirá o homem impetuoso com uma sentença de sua boca, e com o sopro dos seus lábios fará morrer o ímpio.
5. A justiça será como o cinto de seus rins, e a lealdade circundará seus flancos.
6. Então o lobo será hóspede do cordeiro, a pantera se deitará ao pé do cabrito, o touro e o leão comerão juntos, e um menino pequeno os conduzirá;
7. a vaca e o urso se fraternizarão, suas crias repousarão juntas, e o leão comerá palha com o boi.
8. A criança de peito brincará junto à toca da víbora, e o menino desmamado meterá a mão na caverna da áspide.
9. Não se fará mal nem dano em todo o meu santo monte, porque a terra estará cheia de ciência do Senhor, assim como as águas recobrem o fundo do mar.
10. Naquele tempo, o rebento de Jessé, posto como estandarte para os povos, será procurado pelas nações e gloriosa será a sua morada.
11. Naquele tempo, o Senhor levantará de novo a mão para resgatar o resto de seu povo, os sobreviventes da Assíria e do Egito (de Patros, da Etiópia, de Elão, de Senaar, de Emat e das ilhas do mar).
12. Levantará o seu estandarte entre as nações, reunirá os exilados de Israel, e recolherá os dispersos de Judá dos quatro cantos da terra.
13. A inveja de Efraim abrandar-se-á, e os inimigos de Judá se desvanecerão. (Efraim não mais invejará Judá, e Judá não será mais inimigo de Efraim.)
14. Eles voarão para o lado dos filisteus ao Ocidente e, juntos, saquearão os filhos do Oriente. Estenderão a mão sobre a Iduméia e Moab, e os amonitas lhes serão submissos.
15. Assim como o Senhor pôs a seco o braço de mar do Egito, com seu sopro ardente, ele estenderá a mão sobre o rio e o dividirá em sete braços, de sorte que se poderá atravessar a vau.
16. O caminho se abrirá para o resto de seu povo que escapar da Assíria, como se abriu para Israel no tempo em que ele saiu da terra do Egito.

 
Capítulo 12

1. E dirás naquele tempo: Eu vos rendo graças, Senhor, porque vos irritastes; vossa cólera se aplacou e vós me consolastes.
2. Eis o Deus que me salva, tenho confiança e nada temo, porque minha força e meu canto é o Senhor, e ele foi o meu salvador.
3. Vós tirareis com alegria água das fontes da salvação,
4. e direis naquele tempo: Louvai ao Senhor, invocai o seu nome, fazei que suas obras sejam conhecidas entre os povos; proclamai que seu nome é sublime.
5. Cantai ao Senhor, porque ele fez maravilhas, e que isto seja conhecido por toda a terra.
6. Exultai de gozo e alegria, habitantes de Sião, porque é grande no meio de vós o Santo de Israel.

 
Capítulo 13

1. Oráculo contra Babilônia, revelado a Isaías, filho de Amós.
2. Levantai o estandarte sobre a colina escalvada, elevai a voz contra eles. Fazei-lhes sinal com as mãos, para que transponham as portas dos nobres.
3. Em minha cólera requisitei minhas tropas sagradas, e chamei os meus bravos e meus altivos triunfadores.
4. Escutai esse ruído sobre os montes como vozerio de grande multidão; escutai o tumulto dos reinos e das nações reunidas. É o Senhor dos exércitos que passa em revista suas tropas para a batalha.
5. Chegam de uma terra longínqua, da extremidade dos céus, o Senhor e os instrumentos de seu furor, para devastar toda a terra.
6. Lamentai-vos, porque o dia do Senhor está próximo como uma devastação provocada pelo Todo-poderoso.
7. Por causa disso deixam cair os braços; todos perdem a coragem;
8. ficam cheios de terror… Tomados de convulsões e dores, eles se retorcem como uma mulher em parto. Olham uns para os outros e têm o rosto em fogo.
9. Eis que virá o dia do Senhor, dia implacável, de furor e de cólera ardente, para reduzir a terra a um deserto, e dela exterminar os pecadores.
10. Nem as estrelas do céu, nem suas constelações brilhantes, farão resplandecer sua luz; o sol se obscurecerá desde o nascer, e a lua já não enviará sua luz.
11. Punirei o mundo por seus crimes, e os pecadores por suas maldades. Abaterei o orgulho dos arrogantes e humilharei a pretensão dos tiranos.
12. Tornarei os homens mais raros que o ouro fino, e os mortais mais raros que o metal de Ofir.
13. Farei oscilar os céus, e a terra abalada será sacudida pela ira do Senhor Deus dos exércitos, no dia do seu furor ardente.
14. Então, como uma gazela assustada, como um rebanho que ninguém recolhe, cada um voltará para seu povo, e fugirá para sua terra.
15. Todos aqueles que forem encontrados serão mortos; os que forem apanhados serão passados à espada.
16. Seus filhinhos serão massacrados diante de seus olhos, suas casas serão saqueadas, e suas mulheres, violadas.
17. Suscitarei contra eles os medos, que não se interessam pela prata, nem apreciam o ouro.
18. Seus arcos abaterão os jovens; não terão compaixão pelos frutos das entranhas, nem piedade das crianças.
19. Então Babilônia, a pérola dos reinos, a jóia de que os caldeus tanto se orgulham, será destruída por Deus, como Sodoma e Gomorra.
20. Nunca mais será habitada, nem povoada até o fim dos tempos. O árabe não mais erguerá aí sua tenda, os pastores não amalharão aí seus rebanhos,
21. as feras terão aí seu covil, os mochos freqüentarão as casas, as avestruzes morarão aí, e os sátiros farão aí suas danças.
22. Os chacais uivarão nos seus palácios, e os lobos, nas suas casas de prazer. Sua hora está próxima e seus dias estão contados.

 
Capítulo 14

1. Porque o Senhor terá compaixão de Jacó, e ainda dará a Israel a sua predileção e os restabelecerá na sua terra, os estrangeiros se reunirão a eles e se agregarão à casa de Jacó.
2. Os povos virão buscá-los para conduzi-los à sua morada. Possuí-los-á a casa de Israel na terra do Senhor como servos e como servas. Conservarão prisioneiros aqueles que os tinham detido, e dominarão seus opressores.
3. Quando o Senhor te tiver aliviado de tuas penas, de teus tormentos e da dura servidão a que estiveste sujeito,
4. cantarás esta sátira contra o rei de Babilônia, e dirás: Como? Não existe mais o tirano! Acabou-se a tormenta!
5. O Senhor despedaçou o bastão dos perversos e o cetro dos opressores.
6. Ele feria os povos com fúria, vibrando golpes sem interrupção, e governava as nações com brutalidade, subjugando-as sem piedade.
7. Toda a terra conhece o repouso e a paz, todos exultam em cantos de alegria.
8. Até os ciprestes se regozijam de tua queda, dizendo com os cedros do Líbano: Desde que caíste, não sobe até nós o lenhador.
9. Debaixo da terra se agita a morada dos mortos, para receber-te à tua chegada; despertam em tua honra as sombras dos grandes, e todos os senhores da terra, e levantam-se de seus tronos todos os reis das nações.
10. Todos tomam a palavra para dizer-te: Finalmente, eis-te fraco como nós, eis-te semelhante a nós.
11. Tua majestade desceu à morada dos mortos, acompanhada do som de tuas harpas. Jazes sobre um leito de vermes e os vermes são a tua coberta.
12. Então! Caíste dos céus, astro brilhante, filho da aurora! Então! Foste abatido por terra, tu que prostravas as nações!
13. Tu dizias: Escalarei os céus e erigirei meu trono acima das estrelas. Assentar-me-ei no monte da assembléia, no extremo norte.
14. Subirei sobre as nuvens mais altas e me tornarei igual ao Altíssimo.
15. E, entretanto, eis que foste precipitado à morada dos mortos, ao mais profundo abismo.
16. Detêm-se para ver-te melhor, e procuram reconhecer-te: Porventura é aquele que fazia tremer a terra, e abalava os impérios,
17. que fazia do mundo um deserto, e destruía as cidades, e impedia os prisioneiros de voltarem para suas casas?
18. Todos os reis das nações, todos repousam com glória, cada um no seu túmulo;
19. tu, porém, foste atirado para longe de teu sepulcro, como um aborto que causa horror. Os cadáveres dos homens mortos à espada jazem sobre as pedras de uma tumba;
20. tal como uma carniça que se calca aos pés, tu não te reunirás a eles no sepulcro, porque arruinaste tua terra, e fizeste perecer o teu povo. Nunca, jamais se falará da raça dos ímpios.
21. Preparai o massacre dos filhos por causa da iniqüidade dos pais. Que eles não se levantem para conquistar o mundo, e invadir toda a face da terra.
22. Levantar-me-ei contra eles, declara o Senhor dos exércitos, apagarei o nome e o vestígio de Babilônia, sua raça e sua posteridade, diz o Senhor.
23. Farei dela o domínio da garça real, um lodaçal. Varrê-la-ei com a vassoura da destruição, – palavra do Senhor dos exércitos.
24. Jurou o Senhor dos exércitos: Por certo será feito como eu decidi, e o que resolvi se cumprirá.
25. Esmagarei o assírio em minha terra e o calcarei aos pés nos meus montes. Serão livres de seu jugo, e o seu fardo não lhes pesará nos ombros.
26. Eis a decisão tomada para toda a terra; é assim que eu estendo a mão sobre todas as nações.
27. O Senhor dos exércitos decidiu, quem mudará sua sentença? Sua mão está estendida, quem o fará retirá-la?
28. Este oráculo data do ano da morte do rei Acaz:
29. Não te alegres, ó terra dos filisteus, de que tenha sido quebrada a vara que te feria, porque da estirpe da serpente nascerá uma áspide, e seu fruto será um dragão voador.
30. Os humildes poderão pastar nas minhas pastagens, e os pobres dormirão tranqüilos. Eu farei, porém, morrer de fome a tua raça, e matarei tua posteridade.
31. Lamenta-te, ó porta! Grita, ó cidade! Treme, ó terra inteira dos filisteus! Porque do norte vem uma nuvem de poeira, e batalhões em filas cerradas.
32. E que responderá (meu povo) aos mensageiros desta nação? Que o Senhor fundou Sião, e que os humildes de seu povo aí encontrarão o refúgio.

 
Capítulo 15

1. Oráculo contra Moab. Sim, atacada de noite, Ar-Moab foi destruída. Sim, atacada de noite, Quir-Moab foi destruída.
2. O povo de Dibon subiu aos lugares altos para chorar, ao Nebo e ao Medaba: Moab lamenta-se. Todas as cabeças estão raspadas, todas as barbas cortadas.
3. Na rua vestem burel e lamentam-se nos terraços. Tudo geme e se desfaz em pranto.
4. Hesebon e Eleale soltam gritos, e sua voz chega até Jasa. Também Moab sente seus rins fremirem e sua alma desfalecer.
5. Do fundo do coração Moab geme, seus fugitivos alcançam Segor (em Eglat-Salisia). Sim, a subida de Luit, fazem-na chorando. Sim, pela estrada de Oronaim soltam gritos de aflição.
6. Ah! As águas de Nemrim se esgotaram. A erva secou, a relva murchou, e as plantas não mais existem,
7. Por isso levam seus bens e suas provisões para além da torrente dos salgueiros.
8. Porque o clamor circula por todas as fronteiras de Moab, suas lamentações ecoam até Eglaim, suas lamentações atingem Beer-Elim.
9. Porque as águas de Dimon estão cheias de sangue (porque enviarei sobre Dimon novos infortúnios, um leão contra os remanescentes de Moab e contra os sobreviventes de Adma).

 
Capítulo 16

1. Enviai o cordeiro ao soberano da terra de Selá, pelo deserto, ao monte de Sião.
2. Como aves espantadas, como ninhada dispersa, tais serão as filhas de Moab na passagem do Arnon.
3. Dá teu aviso, intervém como árbitro, cobre-nos com tua sombra como a noite, em pleno meio-dia; esconde os exilados, não traias os fugitivos.
4. Deixa morar em tua casa os exilados de Moab, sê o seu refúgio contra o devastador, até que o opressor desapareça, a devastação tenha fim, e o invasor deixe a terra.
5. O trono se consolidará pela bondade; nele sentará constantemente, na casa de Davi, um juiz amante do direito e zeloso da justiça.
6. Nós conhecemos o orgulho de Moab, o soberbo, sua arrogância, sua altivez, sua insolência e a perfídia de sua língua.
7. Por isso Moab geme sobre Moab e todos se lamentam. Pelos bolos de uvas de Quir-Hasereth, eles suspiram consternados;
8. porque o campo de Hesebon está seco e os soberanos das nações saquearam a vinha de Sabama, cujos sarmentos atingiram Jáser e se perdiam no deserto, cujos rebentos se prolongavam e atravessavam o mar.
9. Por isso eu choro com Jáser sobre a vinha de Sabama; banho-vos com minhas lágrimas, Hesebon e Eleale; porque sobre vossa colheita e vossa messe retumbou o grito do pisoeiro.
10. A alegria e a animação desapareceram dos pomares, nas vinhas não há mais cantos nem vozes alegres; já não se pisa a vindima nas cubas, e o grito do pisoeiro cessou.
11. Por isso estremeço sobre Moab como uma harpa, e meu coração geme sobre Quir-Hares;
12. por mais que Moab se agite nos lugares altos, por mais que visite seus santuários para orar, nada obterá.
13. Esse é o oráculo que o Senhor pronunciou outrora contra Moab.
14. E agora, ele declara: Dentro de três anos, contados como os anos de um assalariado, a soberania de Moab, tão considerável, será insignificante, e dela não restará senão um débil vestígio.

 
Capítulo 17

1. Oráculo contra Damasco. Damasco vai ser suprimida do número das cidades, e será reduzida a ruínas abandonadas para sempre.
2. Suas cidades serão abandonadas aos rebanhos que virão repousar aí sem que ninguém os enxote.
3. Foi tirado o baluarte de Efraim, foi tirada a realeza de Damasco; os restos de Aarão perecerão, passarão como a glória de Israel. Oráculo do Senhor dos exércitos.
4. Naquele dia a glória de Jacó declinará, e sua gordura reduzir-se-á em magreza,
5. como quando o ceifador já colheu o trigo e seu braço cortou as espigas, alguém rebusca as searas no vale de Rafaim;
6. aí não haverá para respigar, como quando já se varejou as oliveiras, senão dois ou três bagos no mais alto topo. Oráculo do Senhor, Deus de Israel.
7. Naquele dia o homem voltará seus olhares para o seu Criador, seus olhos verão o Santo de Israel;
8. e ele não olhará mais aquilo que seus dedos fizeram (as estacas sagradas e as estelas ao sol).
9. Naquele dia, tuas cidades serão abandonadas como as cidades despovoadas dos amorreus e dos heveus, abandonadas no tempo da invasão dos israelitas. Elas ficarão desabitadas,
10. porque esqueceste o Deus que te salva, e não te lembraste de tua fortaleza! Esforçar-te-ás em vão para plantar jardins de Adônis, e neles semear plantas exóticas;
11. no dia em que plantares, vê-los-ás crescer, e numa bela manhã tua planta dará flores; porém a colheita será nula no dia do infortúnio, e o mal, irremediável.
12. Oh! Esse barulho de povo numeroso, esse rumor semelhante ao do mar! Esse tumulto de nações poderosas, semelhante ao brilhar de águas impetuosas!
13. Ele as ameaça e elas fogem para longe como, nas alturas, a palha levada pelo vento, como a poeira levantada pela tempestade.
14. Quando veio a noite, houve terror, e antes da manhã, nada mais restava deles. Esta será a sorte daqueles que nos saqueiam, tal será o quinhão daqueles que nos despojam.

 
Capítulo 18

1. Oh! terra em que ressoa o ruído de asas, além dos rios da Etiópia,
2. tu enviaste mensageiros por mar, em barcos de papiro, sobre a face das águas. Ide, mensageiros velozes, a um povo de alta estatura e de pele luzente, a uma nação temida ao longe, a uma nação poderosa e dominadora, cuja terra é cortada pelos rios.
3. Vós, que habitais o mundo e povoais a terra, quando o estandarte se erguer nas alturas, olhai. E quando soar a trombeta, ouvi!
4. Pois eis o que o Senhor me disse: Eu olho com serenidade do lugar onde me encontro, como o calor suave de um dia luminoso, como a nuvem que dá o orvalho durante o calor da messe.
5. Porque antes da vindima, quando tiver passado a floração, e a flor se tornar um cacho amadurecente, os sarmentos serão cortados com a foice, e as cepas serão aparadas e arrancadas,
6. e serão todos abandonados aos abutres dos montes, aos animais selvagens da planície; os abutres viverão deles no estio e os animais selvagens da planície os comerão no inverno.
7. Naquele tempo serão levadas oferendas ao Senhor dos exércitos da parte do povo de alta estatura e pele luzente, do povo temido ao longe, da nação poderosa e dominadora, cuja terra é cortada pelos rios; serão levadas ao lugar onde reside o nome do Senhor dos exércitos, sobre o monte Sião.

 
Capítulo 19

1. Oráculo contra o Egito. Eis que o Senhor, montado numa nuvem rápida, vem ao Egito. Os ídolos do Egito tremem diante dele e o Egito sente desfalecer sua coragem.
2. Excitarei os egípcios, uns contra os outros, e eles se baterão irmão contra irmão, amigo contra amigo, cidade contra cidade, reino contra reino.
3. O Egito perderá a cabeça, e eu abolirei sua prudência. Consultarão os ídolos e os feiticeiros, os evocadores de mortos e os adivinhos.
4. Entregarei esta terra nas mãos de um soberano cruel, um rei implacável a dominará. Oráculo do Senhor dos exércitos.
5. As águas do mar se estancarão, e o rio se tornará seco e árido.
6. A água estagnará nos canais, os rios do Egito diminuirão e secarão. Juncos e caniços murcharão
7. nas campinas à margem do Nilo; tudo o que cresce ao longo do rio secará, cairá e desaparecerá;
8. os pescadores ficarão desolados, os que lançam o anzol no rio se lamentarão, e os que lançam suas redes às águas ficarão consternados.
9. Os que trabalham o linho ficarão decepcionados, os cardadores e os tecelães serão confundidos,
10. os tecedores ficarão à míngua, e todos os trabalhadores em desolação.
11. Os príncipes de Soã enlouquecerão, os sábios conselheiros do faraó formarão um conselho insensato. Como ousais dizer ao faraó: Eu sou filho de sábios, filho dos antigos reis?
12. Onde estão agora os teus sábios? Que eles te anunciem e te façam saber os desígnios do Senhor dos exércitos contra o Egito!
13. Os príncipes de Soã perdem a razão, os príncipes de Nof são iludidos; e os chefes das tribos desencaminham o Egito.
14. O Senhor difundiu entre eles um espírito de vertigem, e eles vagueiam por todo o Egito sem desígnio certo, como um bêbado que cambaleia em seu vômito.
15. O Egito não está em condições de decidir o que devem fazer a cabeça e a cauda, a palma e o junco.
16. Naquele tempo, os egípcios serão como mulheres, tremerão de medo sob a ameaça da mão do Senhor levantada sobre eles.
17. Então a terra de Judá será o terror do Egito; logo que se fale nela, ele se encherá de pavor, por causa dos desígnios que o Senhor dos exércitos formou contra ele.
18. Naquele tempo, haverá no Egito cinco cidades que falarão a língua de Canaã e jurarão pelo Senhor dos exércitos. Uma delas será chamada a Cidade do Sol.
19. Naquele tempo, haverá um altar erguido ao Senhor, em pleno Egito, e, em suas fronteiras, um obelisco dedicado ao Senhor.
20. E eles servirão de monumento ao Senhor na terra do Egito. Quando maltratados pelos opressores, invocarão o Senhor, e ele lhes enviará um salvador, um defensor que os libertará.
21. O Senhor se dará a conhecer ao Egito, os egípcios conhecerão o Senhor naquele tempo, e lhe oferecerão sacrifícios e oblações; farão votos ao Senhor e os cumprirão.
22. Quando o Senhor ferir os egípcios, será para curá-los; eles se voltarão para o Senhor, que se deixará aplacar e os curará.
23. Naquele tempo, haverá um caminho do Egito para a Assíria; os assírios irão ao Egito, e os egípcios, à Assíria. O Egito e a Assíria renderão culto ao Senhor.
24. Naquele tempo, Israel será, como terceiro, aliado ao Egito e à Assíria, objeto da bênção no meio da terra que o Senhor dos exércitos abençoará nestes termos: Bendito seja meu povo do Egito, a Assíria, obra de minhas mãos, e Israel, minha herança!

 
Capítulo 20

1. No ano em que veio a Azot o general enviado por Sargão, rei da Assíria, este assediou Azot e apoderou-se dela.
2. (Naquele tempo o Senhor tinha falado pelo ministério de Isaías, nestes termos: Vai, desata o saco que trazes às costas e tira as sandálias dos teus pés. Isaías dispôs-se a executá-lo, ia nu e descalço.)
3. O Senhor disse: Do mesmo modo que meu servo Isaías vagueia nu e descalço há três anos, para dar uma imagem do que aguarda o Egito e a Etiópia,
4. assim serão levados pelo rei da Assíria os prisioneiros egípcios e os deportados da Etiópia, moços e velhos, nus e descalços, com o dorso descoberto (a nudez do Egito).
5. Então aqueles que esperavam na Etiópia e punham no Egito a sua confiança serão amedrontados e confundidos.
6. Os habitantes desta costa dirão naquele dia: Eis aqueles em quem esperávamos, entre os quais queríamos encontrar proteção, procurar auxílio e socorro contra o rei da Assíria! Como nos livraremos deles?

 
Capítulo 21

1. Oráculo do deserto marítimo. Como um furacão desencadeado do meio-dia, assim vem isto do deserto, de uma terra horrível.
2. Uma visão sinistra me foi revelada: O salteador rouba, o destruidor devasta. Arroja-te, ó Elão, assaltai, ó medos; não tenhais piedade.
3. Por essa causa tenho os rins atenazados, e sou tomado de dores como uma mulher no parto. Atordoa-me o sofrimento, cega-me o terror;
4. minha razão desvaira, o terror me invade, e o crepúsculo desejado causa-me espanto.
5. Põem a mesa, estendem o tapete, comem e bebem… Alerta, capitães! Untai o escudo.
6. Porque o Senhor me disse: Vai postar uma sentinela! Que ela te anuncie o que vir!
7. Se vir uma fila de cavaleiros, dois a dois, uma fila de asnos, outra de camelos, que preste atenção, muita atenção.
8. E então grite: Eu vejo! Em meu posto de guarda, Senhor, eu me mantenho o dia inteiro; em meu observatório permaneço de pé todas as noites.
9. Eis que vem a cavalaria, cavaleiros dois a dois. Tomam a palavra e dizem-me: Caiu, caiu Babilônia! Todos os simulacros de seus deuses foram despedaçados contra a terra.
10. Ó povo meu, pisado, malhado como o grão, o que aprendi do Senhor dos exércitos, do Deus de Israel, eu te anuncio.
11. Oráculo contra Edom. Gritam-me de Seir: Sentinela, em que pé está a noite? Sentinela, em que pé está a noite?
12. E a sentinela responde: A manhã chega, igualmente a noite. Se quereis sabê-lo, voltai a interrogar.
13. Oráculo das estepes. Passai a noite nas brenhas da estepe, caravanas de dedanitas;
14. ide levar água àqueles que têm sede, habitantes da terra de Pemá, ide oferecer pão aos fugitivos.
15. Porque fogem diante das espadas, diante da espada nua, diante do arco retesado, diante do rude combate.
16. Porque eis o que me disse o Senhor: Ainda (um) ano, contado como os anos do mercenário, e desaparecerá o império de Cedar.
17. E só ficará um punhado dos valentes arqueiros, filhos de Cedar. O Senhor, Deus de Israel, o disse.

 
Capítulo 22

1. Oráculo do vale da Visão. Que tens, pois, para subir em multidão aos terraços,
2. cidade ruidosa, cidade turbulenta, cidade alegre! Teus mortos não foram transpassados pela espada, nem mortos em combate.
3. Todos os teus chefes escaparam e fugiram para longe; teus bravos foram feitos prisioneiros sem que tivessem estirado o arco.
4. Por isso eu digo: Não me olheis, deixai-me derramar lágrimas amargas, não procureis consolar-me da ruína de meu povo.
5. Porque este é um dia de derrota, de esmagamento e de confusão, enviado pelo Senhor, Deus dos exércitos. No vale da Visão abalam a muralha e gritam para a montanha.
6. Elão toma sua aljava, Arão monta a cavalo, Quir prepara o seu escudo.
7. Teus belos vales estão atravancados de carros, os cavaleiros postam-se às tuas portas:
8. tirou-se o véu de Judá! Nesse dia voltais os olhos para o arsenal do palácio da Floresta.
9. Olhais as brechas da cidade de Davi e vedes que elas são numerosas. Acumulais as águas da piscina inferior,
10. examinais as casas de Jerusalém e as demolis para consolidar a muralha.
11. Cavais um reservatório entre os dois muros para as águas da piscina velha. Mas não olhais para aquele que quis estas coisas, e não vedes aquele que as preparou já de há muito.
12. O Senhor Deus dos exércitos vos convida nesse dia a chorar e a dar brados de pesar, a raspar a cabeça e a cingir o cilício.
13. E eis que tudo se destina à alegria e ao prazer; matam bois, degolam carneiros, comem carne e bebem vinho: Comamos e bebamos, porque amanhã morreremos!
14. Porém o Senhor dos exércitos revelou-me: jamais este crime será perdoado sem que sejais mortos. Oráculo do Senhor, Deus dos exércitos.
15. Contra Sobna, prefeito do palácio. Eis o que diz o Senhor, Deus dos exércitos: Vai ter com esse ministro,
16. que cava para si um sepulcro num lugar elevado, que talha para si uma morada na rocha. Que propriedade tens aqui, que parentes tens nela, para ousares cavar-te nela um sepulcro?
17. Eis que o Senhor te lança com força, ó grande homem, arremessa-te, rolando,
18. lançando-te como uma bola para uma terra vasta em todo o sentido. É lá que morrerás, lá será a tua famosa tumba! Ó vergonha da casa de teu senhor!
19. Depor-te-ei de teu cargo e arrancar-te-ei do teu posto.
20. Naquele dia chamarei meu servo Eliacim, filho de Helcias.
21. Revesti-lo-ei com a tua túnica, cingi-lo-ei com o teu cinto, e lhe transferirei os teus poderes; ele será um pai para os habitantes de Jerusalém e para a casa de Judá.
22. Porei sobre seus ombros a chave da casa de Davi; se ele abrir, ninguém fechará, se fechar, ninguém abrirá;
23. fixá-lo-ei como prego em lugar firme, e ele será um trono de honra para a casa de seu pai.
24. Dele estarão pendentes todos os membros de sua família, os ramos principais e os ramos menores, toda espécie de vasos, desde os copos até os jarros.
25. Porém, um belo dia, diz o Senhor dos exércitos, o prego, fincado em lugar firme, cederá, arrancar-se-á e cairá, e toda a carga que ele sustentava será feita em pedaços: palavra do Senhor.

 
Capítulo 23

1. Oráculo contra Tiro. Lastimai-vos, navios de Társis, porque vosso porto foi destruído. Foi no regresso de Chipre que eles receberam a nova.
2. Estão estupefatos os habitantes da costa, o mercador de Sidon, o corredor do mar,
3. cujos mensageiros navegam ao largo. O grão de Sihor era a sua colheita, e sua renda era tirada do comércio das nações.
4. Envergonha-te, Sidon, porque o mar (a fortaleza do mar) te diz: Eu não concebi nem dei à luz. Não criei rapazes nem eduquei moças.
5. Quando o Egito receber esta nova, tremerá ao ter conhecimento da sorte de Tiro.
6. Passai a Társis, lastimai-vos, habitantes da costa.
7. Acaso não é a vossa cidade gloriosa, cuja origem remonta aos dias antigos, e que dirigia seus passos para se estabelecer ao longe?
8. Quem, pois, tomou essa decisão contra Tiro, essa cidade coroada, cujos mercadores eram soberanos, e os traficantes, fidalgos da terra?
9. Foi o Senhor dos exércitos quem o decidiu, para ferir o orgulho da nobreza e para aviltar os mais considerados da terra.
10. Cultiva agora a terra, filha de Társis, teu porto já não existe.
11. O Senhor estendeu a mão sobre o mar e abalou os reinos. Ele ordenou a destruição das fortalezas de Canaã.
12. E disse: Cessa de rejubilar-te, Sidon, filha desonrada! Levanta-te e vai estabelecer-te em Chipre! Mesmo lá, não terás repouso.
13. Reduziram-na a ruínas.
14. Lastimai-vos, navios de Társis, porque vosso porto foi destruído.
15. Naquele tempo, Tiro será esquecida durante setenta anos. No reinado de outro rei, ao fim de setenta anos, realizar-se-á para ela a canção da meretriz:
16. Toma a tua cítara, percorre a cidade, meretriz esquecida, toca com perfeição, canta a toda voz para que se lembrem de ti.
17. No fim de setenta anos, o Senhor visitará Tiro, e ela recomeçará a enriquecer-se, mantendo comércio com todos os reinos do mundo, em toda a superfície da terra.
18. Porém, os lucros, que lhe trouxer seu comércio, serão consagrados ao Senhor, em vez de serem entesourados; seu comércio aproveitará àqueles que habitam na presença do Senhor, a fim de que tenham com que se nutrir com abundância e se vestir magnificamente.

 
Capítulo 24

1. Eis que o Senhor devasta a terra e a torna deserta, transtorna a sua face e dispersa seus habitantes.
2. Isso acontece ao sacerdote como ao leigo, ao senhor como ao escravo, à senhora como à serva, ao vendedor como ao comprador, ao que empresta como ao que toma emprestado, ao credor como ao devedor.
3. A terra será totalmente devastada, inteiramente pilhada, porque o Senhor assim o decidiu.
4. A terra está na desolação, murcha; o mundo definha e esmorece, e os chefes do povo estão aterrados.
5. A terra foi profanada por seus habitantes, porque transgrediram as leis, violaram as regras e romperam a aliança eterna.
6. Por isso a maldição devora a terra e seus habitantes expiam suas penas; os habitantes da terra são consumidos, um pequeno número de homens sobrevive.
7. O mosto está triste, a vinha, murcha, e os que tinham o coração em alegria suspiram.
8. O som alegre dos tamborins cessou, os risos morreram e o som alegre da cítara calou-se.
9. Não se canta mais bebendo vinho. O licor é amargo ao bebedor.
10. A cidade desordenada está em ruínas, todas as casas fechadas, para que ninguém possa entrar nelas.
11. Gritam nas ruas: Não há mais vinho! Acabada a alegria, o regozijo foi banido da terra.
12. Na cidade só restam escombros e a porta arrombada está em pedaços,
13. pois isso acontece na terra, no meio dos povos, como com as oliveiras que alguém vareja, como com as uvas que, acabada a vindima, alguém rebusca.
14. Eles elevam a voz e cantam, do lado do mar aclamam a majestade do Senhor:
15. Glorificai, pois, ao Senhor, nas regiões da luz, e, nas ilhas do mar, o nome do Senhor, Deus de Israel.
16. Dos confins da terra, ouvimos cantar: Honra ao justo! Eu, porém, disse: Infeliz de mim, infeliz de mim! Ai de mim! Os salteadores saqueiam, os salteadores obstinam-se na pilhagem.
17. O terror, a fossa e a cilada vão apanhar-te, habitante da terra.
18. O que fugir para escapar do terror cairá na fossa, o que se livrar da fossa será preso no laço. Porque as comportas lá do alto abrir-se-ão e os fundamentos da terra serão abalados.
19. A terra é feita em pedaços: estala, fende-se, é sacudida,
20. cambaleia como um homem embriagado e balança como uma rede. Seus crimes pesam sobre ela, e ela cairá para não mais se levantar.
21. Naquele tempo o Senhor, lá do alto, examinará a milícia celeste e os reis do mundo, sobre a terra.
22. Serão amontoados como prisioneiros num calabouço, serão encerrados numa prisão, e, depois de muitos dias, serão castigados.
23. A lua corará de vergonha e o sol empalidecerá, porque o Senhor dos exércitos reinará sobre o monte Sião e em Jerusalém, e sua glória resplandecerá diante de seus anciãos.

 
Capítulo 25

1. Senhor, vós sois meu Deus; exaltar-vos-ei e celebrarei vosso nome, porque executastes maravilhosos desígnios, concebidos, de há muito, com firme constância.
2. Reduzistes a cidade a um montão de pedras e a fortaleza a um acervo de ruínas. A cidadela dos orgulhosos está aniquilada e jamais será reconstruída.
3. Por isso um povo forte vos glorifica e a sociedade das nações valentes vos venera.
4. Porque vós sois refúgio para o fraco, refúgio para o pobre na sua tribulação, abrigo contra a tempestade e sombra contra o calor. (Porque o sopro dos tiranos é como uma tempestade de inverno,
5. como o calor sobre uma terra árida. Vós fazeis cessar o clamor dos tiranos, assim como cessa o calor à sombra de uma nuvem. O canto triunfal dos tiranos extinguir-se-á).
6. O Senhor dos exércitos preparou para todos os povos, nesse monte, um banquete de carnes gordas, um festim de vinhos velhos, de carnes gordas e medulosas, de vinhos velhos purificados.
7. Nesse monte tirará o véu que vela todos os povos, a cortina que recobre todas as nações,
8. e fará desaparecer a morte para sempre. O Senhor Deus enxugará as lágrimas de todas as faces e tirará de toda a terra o opróbrio que pesa sobre o seu povo, porque o Senhor o disse.
9. Naquele dia dirão: Eis nosso Deus do qual esperamos nossa libertação. Congratulemo-nos, rejubilemo-nos por seu socorro,
10. porque a mão do Senhor repousa neste monte, enquanto que Moab é pisada no seu lugar como pisada é a palha no monturo.
11. Aí estende as suas mãos como as estende o nadador para nadar. Porém, (o Senhor) abate o seu orgulho, e frustra-lhe o esforço das mãos.
12. Suas muralhas, soberbas e fortes, ele as faz cair e as arrasa até o rés-do-chão.

 
Capítulo 26

1. Naquele tempo será cantado este cântico na terra de Judá: Nós vimos uma cidade forte, em que se pôs por proteção muro e antemuro.
2. Abri as portas, deixai entrar um povo justo, que respeita a fidelidade,
3. que tem caráter firme e conserva a paz, porque tem confiança em vós.
4. Tende sempre confiança no Senhor, porque o Senhor é o rochedo perene.
5. Ele derrubou os que habitavam nas alturas e destruiu a cidade soberba; derrubou-a por terra e ao nível do chão a reduziu.
6. Ela é calcada aos pés pela plebe, sob os passos dos indigentes.
7. O caminho do justo é reto; vós aplanais a senda do justo.
8. Seguindo a vereda de vossos juízos, Senhor, nós vos esperamos; por vosso nome e vossa memória nossa alma aspira.
9. Minha alma vos deseja durante a noite e meu espírito vos procura desde a manhã. Quando vossos juízos se exercem sobre a terra, os habitantes do mundo aprendem a justiça.
10. Porém, se se perdoar o ímpio, ele não aprenderá a justiça; na terra da retidão ele se entregará ao mal e não verá a majestade do Senhor.
11. Senhor, vossa mão está levantada sem que o percebam. Que vejam vosso ardente amor por vosso povo, e sejam confundidos; e que o fogo, bom para os vossos inimigos, os devore.
12. Senhor, proporcionai-nos a paz! Pois vós nos tendes tratado segundo o nosso procedimento.
13. Senhor, nosso Deus, outros senhores, além de vós, nos têm dominado, mas não queremos reconhecer outro senão vós.
14. Os mortos não reviverão, as sombras não ressuscitarão, porque vós os castigastes e destruístes e apagastes até sua memória.
15. Aumentai a nação, Senhor (aumentai a nação), manifestai vossa grandeza, e dilatai as fronteiras da nação.
16. Senhor, na tribulação, nós vos buscamos, e clamamos a vós na angústia em que vosso castigo nos abate.
17. Como uma mulher grávida, prestes a dar à luz, se retorce e grita em suas dores, assim estamos diante de vós, Senhor:
18. nós concebemos e sofremos para dar à luz (o vento), sem poder dar a salvação à nossa terra; não nasceram novos habitantes no mundo.
19. Que os vossos mortos revivam! Que seus cadáveres ressuscitem! Que despertem e cantem aqueles que jazem sepultos, porque vosso orvalho é um orvalho de luz e a terra restituirá o dia às sombras.
20. Vai, povo meu, entra nos teus quartos, fecha atrás de ti as portas. Esconde-te por alguns instantes até que a cólera passe,
21. porque o Senhor vai sair de sua morada para punir os crimes dos habitantes da terra; porque a terra fará brotar o sangue que ela bebeu, e não ocultará mais os corpos dos assassinados.

 
Capítulo 27

1. Naquele dia o Senhor ferirá, com sua espada pesada, grande e forte, Leviatã, o dragão fugaz, Leviatã, o dragão tortuoso; e matará o monstro que está no mar.
2. Naquele dia se dirá: Cantai a bela vinha!
3. Eu, o Senhor, sou o vinhateiro; no momento oportuno eu a rego, a fim de que seus sarmentos não murchem. Dia e noite eu a vigio,
4. e nada tenho contra ela. Se nela crescerem sarças e espinhos, eu lhes farei guerra e os queimarei a todos,
5. a menos que se coloquem sob minha proteção, que façam a paz comigo, que façam comigo a paz!
6. Um dia Jacó lançará raízes, Israel produzirá flores e botões, e eles cobrirão o mundo de frutos.
7. Porventura (o Senhor) os feriu como feriu aqueles que os feriam? Massacrou-os como massacrou aqueles que os massacravam?
8. Ele operou justiça, mediante a expulsão e o exílio deles, arrebatando-os com seu sopro impetuoso como o vento do Oriente.
9. Assim foi expiado o crime de Jacó, e este é o resultado do perdão de seu pecado: ele quebrou as pedras dos altares, como se trituram as pedras de cal; as estacas sagradas e os monumentos ao sol não se erguem mais,
10. porque a cidade forte é agora uma solidão, uma morada abandonada como o deserto. Aí vêm pastar os bois e aí pernoitam e comem os seus ramos.
11. Tão logo os galhos secos se quebram, as mulheres vêm e lhes põem fogo. É um povo sem compreensão, por isso seu Criador não tem piedade dele, aquele que o formou não lhe dá nenhum perdão.
12. Naquele tempo o Senhor malhará o trigo desde o leito do rio até a torrente do Egito. E vós sereis apanhados um a um, filhos de Israel.
13. Naquele tempo soará a grande trombeta. E serão vistos chegar os exilados da terra da Assíria, e os fugitivos espalhados pela terra do Egito. Eles adorarão o Senhor no monte santo, em Jerusalém.

 
Capítulo 28

1. Ai da coroa pretensiosa dos embriagados de Efraim e da flor murcha que faz ostentação de seu ornato, dominando o vale fértil de homens vencidos pelo vinho.
2. Eis que vem, por ordem do Senhor, um homem forte e poderoso como chuva de pedras, um furacão destruidor. Como trombas de água que se abatem com violência, precipita (tudo) por terra.
3. Será pisada aos pés a coroa pretensiosa dos embriagados de Efraim,
4. e a flor murcha que faz ostentação de seu ornato, dominando o vale fértil. Será como o figo prematuro, antes do verão, que a gente vê, logo colhe, e apenas o tem na mão, já o devora.
5. Naquele dia o Senhor dos exércitos será uma coroa resplandecente, um diadema esplêndido para o resto do seu povo,
6. um espírito de justiça para o juiz que faz parte do tribunal, e de valentia, para aqueles que rechaçam às portas o inimigo.
7. Mas também estes titubeiam sob o efeito do vinho, alucinados pela bebida; sacerdotes e profetas cambaleiam na bebedeira. Estão afogados no vinho, desnorteados pela bebida, perturbados em sua visão, vacilando em seus juízos.
8. Todas as mesas estão cobertas, de asqueroso vômito, não há sequer um lugar limpo.
9. A quem pretende ele ensinar a sabedoria? A quem quer fazer compreender as revelações? A meninos apenas desmamados que acabam de deixar o seio?
10. E ordem sobre ordem, ordem sobre ordem, norma sobre norma, norma sobre norma, ora para cá, ora para lá!
11. Pois bem, será por gente que balbucia, será numa língua bárbara que o Senhor falará a esse povo!
12. Por mais que se lhes dissesse: Eis o repouso, deixai repousar aquele que está fatigado, é o momento de estarem calmos, eles nada quiseram ouvir.
13. Por isso a palavra de Deus lhes vai dizer: Ordem sobre ordem, ordem sobre ordem, norma sobre norma, norma sobre norma, ora para cá, ora para lá! A fim de que caiam de costas e se despedacem, e sejam apanhados no laço e presos.
14. Escutai, pois, gracejadores, a palavra do Senhor, vós que governais esse povo que está em Jerusalém.
15. Fizemos um pacto com a morte, dizeis vós, uma convenção com a morada dos mortos; a inundação passará sem atingir-nos porque fizemos da mentira um abrigo, e da perfídia um refúgio.
16. Por isso o Senhor Deus lhes diz: Eu coloquei em Sião uma pedra, um bloco escolhido, uma pedra angular preciosa, de base: quem confiar nela não tropeçará.
17. Tomarei o direito por fio de prumo e, por nível, a justiça. O granizo derrubará o abrigo da mentira, e as águas inundarão o refúgio ilusório.
18. Vosso pacto com a morte será quebrado, vosso entendimento com a morada dos mortos não subsistirá; quando a onda transbordante passar, sereis por ela esmagados.
19. Cada vez que ela passar, arrebatar-vos-á, porque ela passará cada manhã (de dia e de noite). E aí só haverá terror na interpretação de oráculos.
20. Porque o leito será muito curto para que alguém se deite nele, e o cobertor muito estreito para que alguém se cubra com ele.
21. Porque o Senhor se levantará como no monte Perasim e fremirá como no vale de Gabaon para concluir sua obra, sua obra singular, para executar seu trabalho, seu trabalho inaudito.
22. Assim, pois, cessai de zombar para que vossos grilhões não se apertem, porque eu ouvi uma sentença de ruína por ordem do Senhor dos exércitos (contra toda a terra).
23. Aplicai os ouvidos para ouvir minha voz, sede atentos para escutar minha palavra!
24. Porventura o trabalhador trabalha sempre (para semear)? Cava e amanha incessantemente o seu terreno?
25. Acaso, depois de ter aplainado a superfície, não espalhará aí a nigela e semeará o cominho? Ele lançará aí o trigo e a cevada, e a espelta a eito.
26. É o seu Deus quem o instruiu, quem lhe ensinou o costume.
27. Pois não será necessário pisar a nigela com a grade, nem passar a roda do carro sobre o cominho; mas a nigela será batida com um pau e o cominho com a vara.
28. E preciso triturar o trigo? Não, não se bate indefinidamente. Uma vez que sobre ele passe a roda do carro, joeira-se sem triturá-lo.
29. Isso também vem do Senhor: admirável é seu conselho e alta a sua sabedoria.

 
Capítulo 29

1. Ai de Ariel, ai de Ariel, a cidade em que Davi acampou! Ajuntai um ano a outro; que se complete um ciclo de festas,
2. e cercarei Ariel, haverá prantos e gemidos; e tu te tornarás para mim como um ariel.
3. Acamparei contra ti como Davi, cercar-te-ei de acampamentos e levantarei trincheiras contra ti.
4. Falarás baixinho, da terra; tua voz sufocada subirá da poeira (tua voz sairá da terra como a de um espectro, tua palavra se elevará da poeira como um ganido).
5. A multidão de teus inimigos será como a poeira fina; a multidão de teus soldados será como a palha, que voa, pois, de repente,
6. serás visitada pelo Senhor dos exércitos com forte trovão, tremor de terra e estrondos, tempestade, furacão e chamas de fogo devorador.
7. Como se dissipa um sonho, uma visão noturna, assim se desvanecerá a multidão das nações que atacam Ariel, os acampamentos e as trincheiras daqueles que a sitiam.
8. Isso acontecerá tal como acontece com o esfomeado que sonha estar comendo e desperta com o estômago vazio, tal como o sequioso que sonha estar bebendo e acorda fatigado pela sede; assim será feito da multidão das nações que atacam a montanha de Sião.
9. Pasmai-vos e maravilhai-vos, obstinai-vos, feridos de cegueira, embriagai-vos, mas não de vinho, cambaleai, mas não por causa da bebida.
10. Porque o Senhor espalhou sobre vós um espírito de torpor, fechou vossos olhos e cobriu vossas cabeças.
11. A revelação de todos esses acontecimentos permanece para vós como o texto de um livro selado. Quando o oferecem a um letrado, pedindo-lhe que o leia, ele responde: Não posso, o livro está selado;
12. se o oferecem a um iletrado, pedindo-lhe que o leia, ele responde: Não sei ler.
13. O Senhor disse: Esse povo vem a mim apenas com palavras e me honra só com os lábios, enquanto seu coração está longe de mim e o temor que ele me testemunha é convencional e rotineiro,
14. por isso continuarei a tratar esse povo de modo tão estranho que a sabedoria dos espertalhões se perderá e a inteligência dos astutos desaparecerá.
15. Ai daqueles que querem esconder do Senhor seus desígnios, que fazem intrigas nas trevas e dizem: Quem nos vê e quem nos conhece?
16. Que perversidade a vossa! Pode-se tratar como barro o oleiro? Pode a obra dizer do artífice: Ele nada me fez? Pode o pote dizer do oleiro: Ele nada entende disso?
17. Acaso, dentro de mui pouco tempo, não será o Líbano convertido em vergel, e o vergel não passará por floresta?
18. Naquele tempo os surdos ouvirão as palavras de um livro; e, livres da obscuridade e das trevas, os olhos dos cegos verão.
19. Os humildes encontrarão cada vez mais ventura no Senhor e os homens mais pobres, graças ao Santo de Israel, estarão jubilosos.
20. Pois não haverá mais tiranos, já terá desaparecido o cético, e todos os que planejavam o mal serão exterminados;
21. os que, por uma palavra, acusam os outros; os que, à porta, procuram enganar o juiz e por um nada fazem o inocente perder sua causa.
22. Por isso eis o que disse o Senhor, o Deus da casa de Jacó, que resgatou Abraão: Daqui em diante Jacó não será mais confundido, e seu rosto não mais empalidecerá,
23. porque, quando virem nele minha obra, bendirão o meu nome. Glorificarão o Santo de Jacó e temerão o Deus de Israel.
24. Os espíritos desencaminhados aprenderão sabedoria, e os que murmuravam receberão instrução.

 
Capítulo 30

1. Ai dos filhos rebeldes, diz o Senhor, eles seguem um plano que não vem de mim. Concluem alianças sem o meu consentimento, acumulando, assim, falta sobre falta.
2. Eles se voltam para o Egito sem me consultar, para refugiar-se sob a proteção do faraó, para abrigar-se à sombra do Egito.
3. O apoio do faraó ser-vos-á decepção e o abrigo à sombra do Egito, uma ignomínia.
4. Ainda que os chefes estejam em Soã e que os embaixadores tenham atingido Hanes,
5. todo mundo será enganado por esse povo inútil, que não dá nem auxílio nem socorro, e só causa decepção e opróbrio.
6. (Oráculo contra as feras do sul): Para a terra da tribulação e da angústia, de onde vêm o leão e a leoa, a víbora e o dragão voador, conduzirão as riquezas sobre o dorso de jumentos, e os tesouros sobre a corcova de camelos, para ofertá-los a um povo que não lhes serve de nada.
7. O socorro do Egito é ineficaz e nulo por isso eu o chamo Raab, o inerte.
8. Agora, pois, vai escrever estas coisas numa prancheta, inscreve-as num livro, a fim de que isso permaneça para o futuro e seja um testemunho eterno.
9. Porque este é um povo rebelde, são filhos mentirosos, filhos que se recusam a ouvir as instruções do Senhor.
10. E dizem aos videntes: Não vejais, e aos profetas: Não nos anuncieis a verdade, dizei-nos coisas agradáveis, profetizai-nos fantasias.
11. Afastai-vos do caminho, retirai-vos da vereda, deixai de colocar-nos sob os olhos do Santo de Israel.
12. Por isso, eis a réplica do Santo de Israel: Visto que rejeitais esta advertência, para fiar-vos de meios tortuosos e perversos, e procurar aí vosso apoio,
13. acontecerá para vós, por causa desse crime, como uma fenda que forma saliência numa muralha elevada: de improviso e num instante sobrevém o desabamento;
14. quebra-se como um pote de barro despedaçado sem piedade, de modo que os destroços não ofereçam sequer um caco para apanhar brasas no fogão ou tirar água da cisterna.
15. Porque aqui está o que disse o Senhor Deus, o Santo de Israel: É na conversão e na calma que está a vossa salvação; é no repouso e na confiança que reside a vossa força. Porém, sem nada querer ouvir,
16. vós dissestes: Não, galoparemos a cavalo – pois bem, fugireis, portanto; montaremos corcéis ligeiros – pois bem, sereis perseguidos numa corrida veloz.
17. (Mil fugirão à ameaça de um só), à ameaça de cinco inimigos, deitar-vos-eis a fugir até que não subsista mais do que um vestígio (escasso), como um mastro no cume de um monte, como um estandarte sobre uma colina.
18. É por isso que o Senhor está desejoso de vos perdoar; é por isso que ele se ergue para vos poupar; porque o Senhor é um Deus justo; ditosos aqueles que nele esperam.
19. Sim, povo de Sião, que habitas em Jerusalém, não terás mais de que chorar. À voz de tua súplica ele te fará misericórdia; assim que a ouvir, ele te atenderá.
20. (Quando o Senhor vos tiver dado o pão da angústia e a água da tribulação) aquele que te instrui não se esconderá mais, e verás com teus olhos aquele que te ensina.
21. Ouvirás com teus ouvidos estas palavras retumbarem atrás de ti: É aqui o caminho, andai por ele, quando te desviares quer para a direita, quer para a esquerda.
22. Acharás imundo o revestimento de prata de teus ídolos esculpidos e as aplicações de ouro de tuas estátuas fundidas: arrojá-los-ás como imundícies, gritando-lhes: Fora daqui!
23. (O Senhor) dará chuvas às sementes com que proverdes o solo e o pão que produzir a terra será nutritivo e saboroso. Naquele dia teu gado pastará em vastas pastagens;
24. os bois e os asnos, que trabalham a terra, comerão uma forragem salgada que será joeirada com a pá e com a peneira.
25. Então, em todo monte alto e em toda colina elevada haverá arroios de água corrente, no dia da grande mortandade, em que desabarão as fortalezas.
26. Então a luz da lua será viva como a do sol, e a do sol brilhará sete vezes mais (como a luz de sete dias), no dia em que o Senhor pensar a chaga de seu povo e curar as contusões dos golpes que recebeu.
27. Vede! É o nome do Senhor que vem de longe, sua cólera é ardente, uma nuvem pesada se levanta, seus lábios respiram furor, e sua língua é como um fogo devorador.
28. Seu sopro assemelha-se a uma torrente transbordante cuja água sobe até o pescoço. Ele passará as nações no crivo destruidor e porá nos queixos dos povos um freio que os desencaminhe.
29. Vós, porém, fareis retumbar vossos cânticos, como na noite em que se celebra festa; e tereis alegria no coração, como o que caminha ao som da flauta, para vir ao monte do Senhor, junto ao rochedo de Israel.
30. O Senhor fará retumbar sua voz majestosa, e mostrará como o seu braço desaba em sua cólera ardente, nas chamas de um fogo devorador, na tempestade, com chuva e granizo.
31. À voz do Senhor, o assírio tremerá e será ferido pela vara.
32. A cada golpe da vara vingadora (que o Senhor lhe infligirá), soarão tamborins e cítaras.
33. Sim, um lugar de incineração está preparado também para Moloc, cavado, profundo e largo; palha e lenha ali há em quantidade, e o sopro do Senhor, como uma torrente de enxofre, acendê-lo-á.

 
Capítulo 31

1. Ai daqueles que vão ao Egito buscar socorros, e que contam com a cavalaria, que se fiam no número de carros e no valor dos cavaleiros, em vez de voltarem seus olhares para o Santo de Israel e de consultarem o Senhor.
2. Entretanto, ele também é sábio, e faz vir o mal; não retira sua palavra, e se ergue contra a casa dos maus, e contra a ajuda daqueles que fazem o mal.
3. O egípcio é homem e não deus, seus cavalos são carne e não espírito. Quando o Senhor estender a mão, o protetor cambaleará e o protegido cairá. E eles perecerão conjuntamente.
4. Eis, pois, o que me diz o Senhor: Assim como ruge um leão, um jovem leão que defende sua presa, ainda que se congregue contra ele um tropel de pastores, sem se deixar intimidar pelos seus gritos, e sem recuar diante do número, assim o Senhor dos exércitos descerá ao combate, sobre o monte de Sião e sobre sua colina.
5. Como aves que voam, o Senhor dos exércitos protegerá Jerusalém, pondo-a ao abrigo, libertando-a, poupando e salvando.
6. Voltai, pois, filhos de Israel, àquele de quem estais tão profundamente separados.
7. Naquele dia cada um lançará fora seus ídolos de prata e seus ídolos de ouro, obras de vossas mãos criminosas.
8. O assírio cairá sob os golpes de uma espada que não é de homem, uma espada que não é de um mortal e fará dele sua presa. Ele fugirá diante da espada, e seus jovens guerreiros serão subjugados.
9. Seu rochedo desaparecerá de terror, seus chefes, espavoridos, abandonarão seu estandarte. Palavra do Senhor, cujo fogo está em Sião, e a fornalha em Jerusalém.

 
Capítulo 32

1. Eis que um rei reinará segundo a justiça, e os príncipes governarão com eqüidade.
2. Cada um deles será como um abrigo contra o vento, um refúgio contra a chuva torrencial; como um fio de água num chão ressecado, e como a sombra de um alto rochedo em terra ressequida.
3. Os olhos dos que vêem não mais serão ofuscados, e os ouvidos dos que ouvem estarão atentos.
4. Os espíritos insensatos dispor-se-ão a compreender, e a língua dos gagos falará prontamente e com clareza;
5. não mais se qualificará de nobre ao perverso, nem ao trapaceiro, de grande.
6. Porque o insensato profere loucuras e seu coração dá-se ao mal; comete impiedades, forma sobre o Senhor conceitos errôneos, deixa o faminto queixar-se de sua miséria, priva da bebida àquele que tem sede.
7. As intrigas do trapaceiro são desleais, ele maquina desígnios criminosos para perder os humildes com mentiras, o pobre que faz valer seu direito;
8. o fidalgo, porém, tem pensamentos dignos, e um procedimento nobre.
9. Mulheres descuidadas, escutei minha voz. Jovens confiantes demais, ouvi minhas palavras.
10. Dentro de um ano e alguns dias, tremereis, indolentes, porque a vindima estará perdida e a colheita, frustrada.
11. Fremi, descuidadas, tremei, confiantes. Despi-vos até estardes nuas. Cingi os vossos rins,
12. batei nos vossos peitos, (chorando) sobre a sorte dos campos férteis e das vinhas fecundas,
13. sobre as terras de meu povo, onde só crescem sarças, sobre todas as casas de prazer da cidade alegre.
14. O palácio está deserto, a cidade barulhenta está abandonada. Ofel e a torre de guarda serão para sempre planaltos desnudos, onde vagueiam os asnos selvagens e pastam os rebanhos.
15. Até que sobre nós se derrame o espírito do alto, então o deserto se mudará em vergel, e o vergel tomará o aspecto de uma floresta;
16. no deserto reinará o direito, e a justiça residirá no vergel.
17. A justiça produzirá a paz e o direito assegurará a tranqüilidade;
18. meu povo habitará em mansão serena, em moradas seguras, em abrigos tranqüilos.
19. (A floresta será abatida e a cidade, humilhada).
20. Bem-aventurados sereis por semear à margem de todos os cursos de água, e por deixar o boi e o asno sem peias.

 
Capítulo 33

1. Ai de ti, devastador que ainda não foste devastado, salteador que ainda não foste saqueado! Quando acabares de devastar, serás devastado, quando acabares de saquear, serás saqueado.
2. Senhor, tende piedade de nós, pois esperamos em vós. Sede nosso auxílio em cada manhã e nosso socorro no tempo da tribulação.
3. Ao fragor de vosso trovão, os povos fogem; quando vós vos ergueis, as nações se dispersam.
4. Recolherão o despojo como se amontoam os gafanhotos, saltam por cima assim como se atiram os gafanhotos.
5. O Senhor é grande, porque reina no alto; ele enche Sião de retidão e de justiça.
6. Teus dias estarão em segurança. A sabedoria e o conhecimento garantem a salvação, e o temor do Senhor será o seu tesouro.
7. Eis que a gente de Ariel lamenta nas ruas, os mensageiros de paz choram amargamente.
8. Os caminhos estão desertos, não há mais transeuntes nas veredas; o inimigo violou o tratado, desprezou as testemunhas, e não teve consideração para com ninguém.
9. A terra está enlutada e abatida, o Líbano, desonrado e ressequido, Saron assemelha-se a uma estepe, Basã e o Carmelo perdem sua folhagem.
10. Agora eu me erguerei, diz o Senhor, agora eu me manifestarei em toda a minha sublimidade.
11. Vós concebestes feno e gerareis palha; meu sopro, como um fogo, vos consumirá.
12. Os povos serão calcinados como espinhos cortados que se queimam.
13. Vós, que estais longe, ouvi o que eu fiz; vós, que estais perto, conhecei o meu poder.
14. Em Sião os pecadores serão aterrados, o medo apoderar-se-á dos ímpios. Quem de nós poderá permanecer perto deste fogo devorador? Quem de nós poderá permanecer perto das chamas eternas?
15. Aquele que procede bem e diz a verdade, que não quer um benefício extorquido, que não quer tocar um presente corruptor, que fecha os ouvidos aos propósitos sanguinários e cerra os olhos para não ver o mal.
16. Semelhante homem habitará nas alturas, e terá por asilo os rochedos fortificados; seu pão lhe é dado e a água lhe é assegurada.
17. Teus olhos verão o rei no seu esplendor, e contemplarão um grande território.
18. Teu coração recordará os terrores passados: Que foi feito do cobrador? Que foi feito do fiscal? Onde está aquele que inspecionava as fortificações?
19. Tu não verás mais aquele povo insolente, aquele povo de linguagem ininteligível, de língua bárbara que ninguém compreende.
20. Olha para Sião, a cidade de nossas festas; teus olhos verão Jerusalém, habitação tranqüila, tenda bem fixada, cujas estacas jamais serão arrancadas, nem as cordas rompidas.
21. Lá, na verdade, temos o arroio do Senhor, que nos serve de rios com largos canais; aí não passa embarcação a remo e nenhum navio imponente o sulca.
22. Porque o Senhor é nosso juiz, o Senhor é nosso legislador; o Senhor é nosso rei que nos salvará.
23. (Teus cordames afrouxaram, não sustentam mais o mastro e não estendem mais a vela.) Então o próprio cego apoderar-se-á da sua parte de um grande despojo, e os próprios coxos se entregarão ao saque;
24. ninguém mais (em Jerusalém) se dirá doente: o povo dessa cidade terá seus pecados perdoados.

 
Capítulo 34

1. Aproximai-vos, nações, para ouvir, e vós, Povos, estai atentos! Que ouça a terra e tudo o que ela contém, o mundo e tudo o que ele produz,
2. porque o Senhor está indignado contra todas as nações e enfurecido contra todas as suas tropas. Ele as devotou ao massacre e as destinou ao morticínio.
3. Os que forem mortos serão atirados sem sepultura, e o mau cheiro exalará de seus cadáveres; os montes serão banhados de sangue,
4. que escorrerá de todas as colinas; os céus se enrolarão como um livro, e todo o seu exército tombará, como cai da vinha a folha morta, como deixa a figueira o verdor emurchecido,
5. porque, nos céus, está inebriada (de cólera) a espada do Senhor. Ela vai precipitar-se sobre Edom, sobre o povo que ele destinou ao castigo.
6. A espada do Senhor está coberta de sangue, está impregnada de gordura, do sangue dos cordeiros e dos bodes, da gordura dos rins dos carneiros. Porque há um sacrifício ao Senhor em Bosra, uma grande carnificina na terra de Edom;
7. em vez de búfalos, os povos aí tombarão, uma multidão de robustos guerreiros, em lugar de touros. Sua terra embeber-se-á de sangue, o chão impregnar-se-á de gordura.
8. Porque é para o Senhor um dia de vingança, um ano de desforra para o defensor de Sião.
9. As torrentes da terra mudar-se-ão em pez, e sua terra em enxofre; o chão tornar-se-á pez que arderá
10. dia e noite; jamais se extinguirá, e sua fumaça subirá de geração em geração; (ela) será transformada em deserto por toda a eternidade, e jamais alguém passará por ali.
11. Será domínio do mocho e da garça, a coruja e o corvo habitá-la-ão. O Senhor estenderá sobre ela o cordel da destruição, e o fio de prumo da desolação.
12. Os sátiros farão aí sua morada, … seus covis. Nela não mais se falará em rei, e todos os seus príncipes terão desaparecido.
13. Os espinhos crescerão em seus palácios, as urtigas e os cardos, em suas fortalezas; será o covil dos chacais e o parque das avestruzes.
14. Nela se encontrarão cães e gatos selvagens, e os sátiros chamarão uns pelos outros; espectro noturno freqüentará esses lugares e neles encontrará o seu repouso.
15. A serpente lá fará seu ninho e porá ovos, chocá-los-á e fará sair da casca os filhotes; lá também se ajuntarão os abutres, nenhum estará ausente.
16. Procurai no livro do Senhor (e lede): nem um só deles faltará, porque é a boca do Senhor que os mandou, e seu espírito que os ajuntou.
17. Foi ele que lhes designou seu quinhão, foi sua mão que lhes repartiu a terra com o cordel. Eles a possuirão para sempre, habitá-la-ão de geração em geração.

 
Capítulo 35

1. O deserto e a terra árida regozijar-se-ão. A estepe vai alegrar-se e florir. Como o lírio
2. ela florirá, exultará de júbilo e gritará de alegria. A glória do Líbano lhe será dada, o esplendor do Carmelo e de Saron; será vista a glória do Senhor e a magnificência do nosso Deus.
3. Fortificai as mãos desfalecidas, robustecei os joelhos vacilantes.
4. Dizei àqueles que têm o coração perturbado: Tomai ânimo, não temais! Eis o vosso Deus! Ele vem executar a vingança. Eis que chega a retribuição de Deus: ele mesmo vem salvar-vos.
5. Então se abrirão os olhos do cego. E se desimpedirão os ouvidos dos surdos;
6. então o coxo saltará como um cervo, e a língua do mudo dará gritos alegres. Porque águas jorrarão no deserto e torrentes, na estepe.
7. A terra queimada se converterá num lago, e a região da sede, em fontes. No covil dos chacais crescerão caniços e papiros.
8. E haverá uma vereda pura, que se chamará o caminho santo; nenhum ser impuro passará por ele, e os insensatos não rondarão por ali.
9. Nele não se encontrará leão, nenhum animal feroz transitará por ele; mas por ali caminharão os remidos,
10. por ali voltarão aqueles que o Senhor tiver libertado. Eles chegarão a Sião com cânticos de triunfo, e uma alegria eterna coroará sua cabeça; a alegria e o gozo possuí-los-ão; a tristeza e os queixumes fugirão.

 
Capítulo 36

1. No décimo quarto ano do reinado de Ezequias aconteceu que Senaquerib, rei da Assíria, atacou todas as cidades fortificadas de Judá e se apoderou delas.
2. O rei da Assíria tinha enviado de Laquis a Jerusalém, contra o rei Ezequias, o general de exército com um poderoso contingente de tropas. Ele tomou posição ao pé do aqueduto do reservatório superior, no caminho do campo do pisoeiro.
3. Eliacim, filho de Helcias, prefeito do palácio, foi ter com ele, junto com o escriba Sobna e o cronista Joaé, filho de Asaf.
4. O general lhes disse: Eis o que direis a Ezequias: Assim fala o grande rei, o rei da Assíria: de onde te vem tanta confiança?
5. Tu só dizes palavras vãs. Entretanto, é de prudência e de bravura que se precisa na guerra. Sobre quem, então, pões tua confiança para contra mim te revoltares?
6. Eu o vejo: é com o Egito que tu contas, com esse caniço rachado que fere e transpassa a mão quando alguém sobre ele se apóia. Eis o que é o faraó, rei do Egito, para todos os que confiam nele.
7. Dir-me-eis, sem dúvida, que é no Senhor, vosso Deus, que pondes vossa confiança. Mas não é esse Deus de quem Ezequias suprimiu os lugares altos e os altares, dizendo ao povo de Judá e Jerusalém: É somente diante desse altar que vos prostrareis?
8. Pois então, faze uma convenção com meu soberano, o rei da Assíria. Eu fornecerei dois mil cavalos, se puderes encontrar cavaleiros para montá-los.
9. Mas como serás capaz de repelir um só dos menores oficiais de meu soberano? Contas com o Egito para arranjar carros e cavaleiros?
10. Porventura foi sem o consentimento do Senhor que ataquei esta terra para destruí-la? O Senhor foi quem me disse: Vai contra aquela terra e a destrói.
11. Eliacim, Sobna e Joaé disseram ao general: Fala a teus servos em aramaico, pois nós entendemos esse dialeto; não nos fales em hebraico, posto que a turba que está sobre a muralha pode ouvir-nos.
12. Porém o general replicou: Porventura é (unicamente) a teu soberano e a ti que meu soberano me encarregou de transmitir esta mensagem? Não é antes a esses homens que estão sobre as muralhas e que vão ser reduzidos, como vós, a comer seus excrementos e a beber sua urina?
13. O general adiantou-se, então, e se pôs a gritar em hebraico: Escutai o que disse o grande rei, o rei da Assíria!
14. Eis o que disse o rei: Não vos deixeis enganar por Ezequias; ele é incapaz de vos livrar.
15. Que ele não vos leve a confiar no Senhor, dizendo que o Senhor vos livrará e que esta cidade não cairá nas mãos do rei da Assíria!
16. Não escuteis o rei Ezequias! Eis o que vos diz o rei da Assíria: Fazei a paz comigo. Rendei-vos. Cada um de vós poderá comer o fruto de sua vinha e de sua figueira e beber a água de seu poço,
17. até que eu venha conduzir-vos a uma terra semelhante à vossa, uma terra de trigo e de vinho, uma terra de cereais e de vinhas.
18. Que Ezequias não abuse de vós dizendo que o Senhor vos livrará! Porventura os deuses das outras nações as livraram cada uma das mãos do rei da Assíria?
19. Onde estão os deuses de Hamat e Arfad? Onde estão os deuses de Sefarvaim? Porventura livraram eles a Samaria de minha mão?
20. Dentre todos os deuses dessas terras qual é o que salvou sua terra de minha mão? Por que então o Senhor preservaria Jerusalém?
21. O povo guardou silêncio. Não houve uma só palavra de resposta, pois o rei lhes havia proibido responder.
22. Eliacím, filho de Helcias, prefeito do palácio, o escriba Sobna e o cronista Joaé, filho de Asaf, retomaram para junto de Ezequias, com as vestes rasgadas, e lhe relataram as palavras do general.

 
Capítulo 37

1. A este relato, o rei Ezequias rasgou suas vestes e, envolvendo-se num saco, dirigiu-se ao templo do Senhor.
2. Depois enviou Eliacim, prefeito do palácio, o escriba Sobna e os decanos dos sacerdotes, cobertos de sacos, ao profeta Isaías, filho de Amós,
3. para dizer-lhe: Eis o que diz Ezequias: este dia é um dia de tribulação, de castigo e de opróbrio. Os filhos estão prestes a nascer, mas falta força para pô-los no mundo.
4. O Senhor teu Deus talvez tenha ouvido as palavras do general enviado pelo rei da Assíria, seu soberano, para insultar o Deus vivo, e irá castigá-lo pelas palavras que ouviu. Intercede, pois, em favor do resto que subsiste ainda!
5. E os servos do rei Ezequias foram ter com Isaías,
6. o qual lhes deu esta resposta: Eis o que diz o Senhor: não te espantes com as palavras que ouviste e com os ultrajes que proferiram contra mim os servos do rei da Assíria.
7. Vou insuflar-lhe um espírito que, ao receber uma certa notícia, fá-lo-á retornar à sua terra, onde eu o farei morrer pela espada.
8. O general, que soubera que o rei da Assíria tinha deixado Laquis, voltou para junto do seu soberano, que encontrou ocupado com o cerco de Lobna.
9. O rei recebeu a seguinte informação a respeito de Taraca, rei da Etiópia: Ele acaba de pôr-se em marcha para fazer-te guerra. Senaquerib enviou então mensageiros a Ezequias dizendo-lhes:
10. Eis o que direis a Ezequias, rei de Judá: não te deixes enganar pelo Deus em que tu confias, pensando que Jerusalém não será entregue às mãos do rei da Assíria.
11. Tu ouviste contar como os reis da Assíria trataram todas as terras que devastaram. E tu escaparias?
12. As nações que meus ancestrais aniquilaram: Gosã, Harã, Resef e os filhos de Éden que estavam em Talasar, porventura foram salvos pelos seus deuses?
13. Onde está o rei de Hamat, o de Arfad e o de Sefarvaim, de Ana e de Ava?
14. Ezequias, tomando a carta das mãos dos mensageiros, leu-a; depois, subiu ao templo e a desdobrou diante do Senhor,
15. dirigindo-lhe esta súplica:
16. Ó Senhor dos exércitos, Deus de Israel, vós que estais sentado sobre os querubins, não há outro Deus, senão vós, por todos os reinos da terra. Vós, que fizestes os céus e a terra,
17. inclinai o ouvido, Senhor, e escutai! Abri os olhos, Senhor, e vede! Ouvi a mensagem que Senaquerib fez trazer para ultrajar o Deus vivo!
18. É verdade, Senhor, que os reis da Assíria despovoaram as nações, devastaram seus territórios
19. e entregaram seus deuses às chamas; é porque não eram deuses, eram objetos feitos pela mão do homem, de pau e de pedra, e eles os aniquilaram.
20. Mas vós, Senhor nosso Deus, livrai-nos da mão de Senaquerib, a fim de que todos os povos da terra saibam que vós, Senhor, sois o único Deus.
21. Então Isaías, filho de Amós, mandou dizer a Ezequias: Eis o que disse o Senhor, Deus de Israel: eu ouvi a súplica que tu me dirigiste por causa de Senaquerib, rei da Assíria.
22. Eis o oráculo que o Senhor pronuncia contra ele: A virgem, filha de Sião, despreza-te e zomba de ti. A filha de Jerusalém meneia a cabeça por trás de ti.
23. A quem insultaste e ultrajaste? Contra quem elevaste a voz e olhaste por cima dos ombros? Ao Santo de Israel!
24. Por meio de teus servos insultaste o Senhor e disseste: Com a multidão dos meus carros galgarei ao cimo dos montes, aos confins do Líbano. Abaterei os seus cedros mais altos, seus ciprestes mais belos; penetrarei até os últimos limites do meu bosque mais espesso;
25. Cavarei e beberei água estrangeira; com a planta de meus pés ressecarei todos os canais do Egito.
26. Ignoras que desde o princípio preparei o que acontecerá, desde remotos tempos decidi o que agora realizarei: reduzirei a ruínas e escombros cidades fortificadas.
27. Seus habitantes ficarão sem forças, serão tomados de pavor e confusão, semelhantes à erva das pastagens, ao capim dos telhados, aos frutos atingidos pela longa estiagem.
28. Eu sei quando te levantas e te sentas, quando sais e quando entras, e conheço teus furores contra mim.
29. Porque ficaste furioso contra mim e subiram aos meus ouvidos as tuas insolências, porei argola em teu nariz e freio em tua boca, e te forçarei a voltar pelo caminho por onde vieste.
30. E eis o que te servirá de sinal: este ano se comem restolhos; o ano que vem, aquilo que nascer sozinho; no terceiro ano, porém, semeareis e colhereis; plantareis vinhas e comereis os seus frutos.
31. O resto, que subsistir da casa de Judá, lançará novas raízes no solo e produzirá frutos no alto.
32. Pois de Jerusalém surgirá um resto, e do monte Sião, sobreviventes. Eis o que fará o zelo do Senhor dos exércitos.
33. Por isso, eis o oráculo do Senhor ao rei da Assíria: não entrará nesta cidade nem atirará flechas contra ela, não lhe oporá escudo nem a cercará de trincheiras.
34. Mas voltará pelo caminho por onde veio, sem entrar na cidade – oráculo do Senhor.
35. Protegerei esta cidade para salvá-la, por minha causa e de Davi, meu servo.
36. O anjo do Senhor apareceu no campo dos assírios e feriu cento e oitenta e cinco mil homens. No dia seguinte, de manhã, ao despertar, só havia lá cadáveres.
37. Senaquerib, rei da Assíria, levantou acampamento; retomou o caminho de sua terra e ficou em Nínive.
38. Certo dia em que ele estava prostrado no templo de Nesroc, seu deus, seus filhos, Adramelec e Sarasar, o assassinaram a golpes de espada. E fugiram para a terra de Ararat. Seu filho Assaradon o sucedeu no trono.

 
Capítulo 38

1. Naquele tempo, Ezequias esteve doente, quase à morte. O profeta Isaías, filho de Amós, veio ter com ele e lhe disse: Eis o que disse o Senhor: põe em ordem a tua casa porque vais morrer, não te restabelecerás.
2. Então Ezequias voltou-se para a parede e se pôs a orar ao Senhor;
3. Senhor, disse ele, lembrai-vos de que tenho andado diante de vós com lealdade, de todo o coração, segundo a vossa vontade. E chorava abundantemente.
4. Depois a palavra do Senhor foi dirigida a Isaías nestes termos:
5. Vai dizer a Ezequias: eis o que diz o Senhor, o Deus de Davi, teu pai: Ouvi tua oração e vi tuas lágrimas, prolongarei tua vida por quinze anos,
6. livrar-te-ei, a ti e a esta cidade, das mãos do rei da Assíria. Protegerei esta cidade.
7. E eis o sinal, da parte do Senhor, para convencer-te de que cumprirá a promessa:
8. farei a sombra recuar os dez graus que o sol já lhe fez descer no relógio solar de Acaz. E o sol voltou dez graus para trás.
9. Poema composto por Ezequias, rei de Judá, quando esteve doente e se restabeleceu.
10. Eu dizia: É necessário, pois, que eu me vá, no apogeu de minha vida. Serei encerrado por detrás das portas da habitação dos mortos, durante os anos que me restariam a viver.
11. Eu dizia: Não verei mais o Senhor na terra dos viventes. Não verei mais a luz entre os habitantes do mundo.
12. Arrancam as estacas de meu abrigo, arrebatam-me como uma tenda de pastores. Como um tecelão, enrolam a tela de minha vida, depois cortam-lhe o laço. Dia e noite estou desamparado,
13. e grito até o amanhecer. Como um leão, quebram-me todos os ossos.
14. Como a andorinha, dou gritos agudos e gemo como a pomba. Meus olhos se cansam de olhar para o alto. Senhor, estou em agonia, socorrei-me.
15. Para que falar assim? Que dizer-lhe, uma vez que é ele mesmo quem assim o faz? O tempo que me resta eu o arrasto, vivendo em amargura.
16. Restituí-me a saúde, fazei-me reviver.
17. Eis que meu sofrimento se mudou em conforto; vós preservastes minha vida do túmulo onde se apodrece, e lançastes para trás de vós todos os meus pecados.
18. Com efeito, não é a morada dos mortos que vos louvará, nem a morte que vos celebrará. O que desce à sepultura não espera mais em vossa bondade.
19. Quem está vivo, somente quem está vivo pode louvar-vos, como eu o faço hoje. O pai dá a conhecer a seus filhos vossa fidelidade, diante da casa do Senhor.
20. Senhor, dignai-vos a nos salvar, e nós faremos soar a corda de nossos instrumentos todos os dias de nossa vida,
21. Isaías disse então: Que tragam um cataplasma de figos para aplicar sobre a úlcera, e Ezequias sarará.
22. Ezequias disse: Que sinal me garantirá que eu tornarei ao templo do Senhor?

 
Capítulo 39

1. Nessa mesma época, o rei de Babilônia, Merodac-Baladã, enviou a Ezequias embaixadores levando uma mensagem e presentes, porque soubera da doença e do restabelecimento do rei.
2. Ezequias sentiu-se lisonjeado e os fez visitar os tesouros de seu palácio: a baixela de prata e ouro, os perfumes, os ungüentos preciosos, assim como seu arsenal e todos os seus depósitos. Nada houve em seu palácio e em todos os seus domínios que Ezequias não lhes mostrasse.
3. Então o profeta Isaías veio visitar o rei Ezequias e lhe disse: Que disseram esses homens, e de onde vieram eles para fazer-te visita? Vieram ver-me de longe, de Babilônia, respondeu Ezequias.
4. E que visitaram eles em tua casa?, replicou Isaías. Viram tudo o que se encontra em meu palácio, respondeu Ezequias; nada há em meus tesouros que eu não lhes tenha mostrado.
5. Então Isaías disse a Ezequias; Escuta a, palavra do Senhor dos exércitos!
6. Aproxima-se o tempo em que se levará para Babilônia tudo aquilo que há em teu palácio, tudo o que acumularam os teus pais até este dia. Nada ficará, declara o Senhor.
7. Tomarão até os teus próprios filhos, que geraste, para fazer deles eunucos no palácio do rei de Babilônia.
8. Ezequias respondeu a Isaías: A sentença do Senhor, que acabas de proferir, é justa. Pois dizia a si mesmo: Ao menos terei paz e segurança enquanto viver.

 
Capítulo 40

1. Consolai, consolar meu povo, diz vosso Deus.
2. Animai Jerusalém, dizei-lhe bem alto que suas lidas estão terminadas, que sua falta está expiada, que recebeu, da mão do Senhor, pena dupla por todos os seus pecados.
3. Uma voz exclama: Abri no deserto um caminho para o Senhor, traçai reta na estepe uma pista para nosso Deus.
4. Que todo vale seja aterrado, que toda montanha e colina sejam abaixadas: que os cimos sejam aplainados, que as escarpas sejam niveladas!
5. Então a glória do Senhor manifestar-se-á; todas as criaturas juntas apreciarão o esplendor, porque a boca do Senhor o prometeu.
6. Clama!, disse uma voz, e eu respondi: Que clamarei? Toda criatura é como a erva e toda a sua glória como a flor dos campos!
7. A erva seca e a flor fenece quando o sopro do Senhor passa sobre elas. (Verdadeiramente o povo é semelhante à erva.)
8. A erva seca e a flor fenece, mas a palavra de nosso Deus permanece eternamente.
9. Subi a uma alta montanha, para anunciar a boa nova a Sião. Elevai com força a voz, para anunciar a boa nova a Jerusalém. Elevai a voz sem receio, dizei às cidades de Judá: Eis vosso Deus!
10. Eis o Senhor Deus que vem com poder, estendendo os braços soberanamente. Eis com ele o preço de sua vitória; faz-se preceder pelos frutos de sua conquista;
11. como um pastor, vai apascentar seu rebanho, reunir os animais dispersos, carregar os cordeiros nas dobras de seu manto, conduzir lentamente as ovelhas que amamentam.
12. Quem, pois, mediu o mar no côncavo da mão, quem com seus dedos abertos mediu os céus? Quem com o alqueire mediu a matéria terrestre, pesou as montanhas no gancho, e as colinas na balança?
13. Quem determinou o espírito do Senhor, e que conselheiro lhe deu lições?
14. De quem recebeu conselho para julgar bem, para que se lhe indique o caminho da justiça, (se lhe ensine a ciência) e se lhe mostre a via mais prudente?
15. As nações são para ele apenas uma gota de água num balde, um grão de areia na balança; as ilhas não pesam mais que o pó,
16. o Líbano não bastaria para o braseiro de seu altar, nem seus animais para os holocaustos.
17. Todas as nações juntas nada são diante dele: a seus olhos são como que inexistentes.
18. A quem poderíeis comparar Deus, e que imagem dele poderíeis oferecer?
19. Um artesão funde uma estátua, o ourives, a placa de ouro, e faz derreter as correntinhas de prata. (4l,6) Prestam-se assistência mútua, dizem um ao outro: Coragem! (4l,7) O fundidor estimula o ourives, e o malhador, o ferreiro: A solda é boa, diz. Ele a reforça com rebites para que não oscile.
20. Aquele que deseja esculpir uma imagem, escolhe madeira que não apodrece; põe-se à procura de um operário hábil, a fim de assentar uma estátua que não oscile.
21. Não o sabíeis? Não o aprendestes? Não vos ensinaram desde a origem? Não compreendestes nada da fundação da terra?
22. Aquele que domina acima do disco terrestre, cujos habitantes vê como se fossem gafanhotos, aquele que estende os céus como um véu de gaze, e como tenda os desdobra para aí se abrigar,
23. reduz os príncipes a nada, e faz desaparecer os governantes da terra;
24. apenas estejam plantados, apenas sejam semeados, apenas seu talo tenha lançado raízes no solo, sopra sobre eles e os resseca, e o turbilhão os varre como palha.
25. A quem então poderíeis comparar-me, que possa ser a mim igualado?, diz o Santo.
26. Levantai os olhos para o céu e olhai. Quem criou todos esses astros? Aquele que faz marchar o exército completo, e a todos chama pelo nome, o qual é tão rico de força e dotado de poder, que ninguém falta ao seu chamado.
27. Por que dizer-te então, ó Jacó, por que repetir, ó Israel: Escapa meu destino ao Senhor, passa meu direito despercebido a meu Deus?
28. Não o sabes? Não o aprendeste? O Senhor é um Deus eterno. Ele cria os confins da terra, sem jamais fatigar-se nem aborrecer-se; ninguém pode sondar sua sabedoria.
29. Dá forças ao homem acabrunhado, redobra o vigor do fraco.
30. Até os adolescentes podem esgotar-se, e jovens robustos podem cambalear,
31. mas aqueles que contam com o Senhor renovam suas forças; ele dá-lhes asas de águia. Correm sem se cansar, vão para a frente sem se fatigar.

 
Capítulo 41

1. Ilhas, silenciai para me ouvir, e que os povos renovem suas forças. Que venham tomar a palavra, e pleitear comigo sua causa!
2. Quem suscitou do Oriente aquele cujos passos são acompanhados de vitórias? Quem pôs então as nações
à sua mercê, e fez cair diante dele os reis? Sua espada os reduz a pó, seu arco os dispersa como se fossem palha.
3. Persegue-os e passa invulnerável, sem mesmo tocar com seus pés o caminho.
4. Quem, pois, realizou essas coisas? Aquele que desde a origem chama as gerações à vida: eu, o Senhor, que sou o primeiro – e que estarei ainda com os últimos.
5. À sua vista as ilhas são presas de temor, e os confins da terra tremem. (Que se apresentem e venham).
8. Mas tu, Israel, meu servo, Jacó que escolhi, raça de Abraão, meu amigo,
9. tu, que eu trouxe dos confins da terra, e que fiz vir do fim do mundo, e a quem eu disse: Tu és meu servo, eu te escolhi, e não te rejeitei;
10. nada temas, porque estou contigo, não lances olhares desesperados, pois eu sou teu Deus; eu te fortaleço e venho em teu socorro, eu te amparo com minha destra vitoriosa.
11. Vão ficar envergonhados e confusos todos aqueles que se revoltaram contra ti; serão aniquilados e destruídos aqueles que te contradizem;
12. em vão os procurarás, não mais encontrarás aqueles que lutam contra ti; serão destruídos e reduzidos a nada aqueles que te combatem.
13. Pois eu, o Senhor, teu Deus, eu te seguro pela mão e te digo: Nada temas, eu venho em teu auxílio.
14. Portanto, nada de medo, Jacó, pobre vermezinho, Israel, mísero inseto. Sou eu quem venho em teu auxílio, diz o Senhor, teu Redentor é o Santo de Israel.
15. Vou fazer de ti um trenó triturador, novinho, eriçado de pontas: calcarás e esmagarás as montanhas, picarás miúdo as colinas como a palha do trigo.
16. Tu as joeirarás e o vento as carregará; o turbilhão as espalhará; entretanto, graças ao Senhor, alegrar-te-ás, gloriar-te-ás no Santo de Israel.
17. Os infelizes que buscam água e não a encontram e cuja língua está ressequida pela sede, eu, o Senhor, os atenderei, eu, o Deus de Israel, não os abandonarei.
18. Sobre os planaltos desnudos, farei correr água, e brotar fontes no fundo dos vales. Transformarei o deserto em lagos, e a terra árida em fontes.
19. Plantarei no deserto cedros e acácias, murtas e oliveiras; farei crescer nas estepes o cipreste, ao lado do olmo e do buxo,
20. a fim de que saibam à evidência, e pela observação compreendam, que foi a mão do Senhor que fez essas coisas, e o Santo de Israel quem as realizou.
21. Pleiteai vossa causa, diz o Senhor; fazei valer vossos argumentos, diz o rei de Jacó.
22. Que se apresentem e nos predigam o que vai acontecer. Do passado ou do que souberam predizer, a que tenhamos dado atenção? Ou então anunciai-nos o futuro, para nos fazer conhecer o final.
23. Revelai o que acontecerá mais tarde, e admitiremos que vós sois deuses. Fazei qualquer coisa a fim de que nos possamos medir!
24. Mas nada sois, vossa obra é nula, afeiçoar-se a vós é abominável.
25. Eu o fiz surgir do norte e ele vem, do oriente, chamei-o pelo nome; ele calca aos pés os príncipes como lama, qual o oleiro quando amassa o barro.
26. Quem o havia predito para nos prevenir, quem o havia anunciado, para que se diga: É exato? Ninguém o declarou, ninguém o avisou, ninguém ouviu vossos oráculos.
27. Eu sou o primeiro que disse a Sião: Ei-los, e enviei a Jerusalém a boa nova.
28. Entre eles não encontrei ninguém, ninguém que soubesse dar um aviso. Pergunto-lhes: De onde vem ele? Não respondem.
29. Pois bem, todos eles nada são, suas obras são nulas. Suas estátuas, vazias como o vento.

 
Capítulo 42

1. Eis meu Servo que eu amparo, meu eleito ao qual dou toda a minha afeição, faço repousar sobre ele meu espírito, para que leve às nações a verdadeira religião.
2. Ele não grita, nunca eleva a voz, não clama nas ruas.
3. Não quebrará o caniço rachado, não extinguirá a mecha que ainda fumega. Anunciará com toda a franqueza a verdadeira religião; não desanimará, nem desfalecerá,
4. até que tenha estabelecido a verdadeira religião sobre a terra, e até que as ilhas desejem seus ensinamentos.
5. Eis o que diz o Senhor Deus que criou os céus e os desdobrou, que firmou a terra e toda a sua vegetação, que dá respiração a seus habitantes, e o sopro vital àqueles que pisam o solo:
6. Eu, o Senhor, chamei-te realmente, eu te segurei pela mão, eu te formei e designei para ser a aliança com os povos, a luz das nações;
7. para abrir os olhos aos cegos, para tirar do cárcere os prisioneiros e da prisão aqueles que vivem nas trevas.
8. Eu sou o Senhor, esse é meu nome, a ninguém cederei minha glória, nem a ídolos minha honra.
9. Realizaram-se os primeiros acontecimentos anunciados, eu predigo outros; antes que aconteçam, eu vo-los faço conhecer.
10. Cantai ao Senhor um cântico novo, do fim do mundo entoai seus louvores; que o mar o celebre com tudo o que contém, assim como as ilhas com seus habitantes!
11. Que o deserto e suas vilas elevem a voz, assim como os acampamentos onde habita Cedar! Que os povos de Sela clamem alegremente, que do alto das montanhas lancem suas aclamações!
12. Que dêem glória ao Senhor e espalhem seu louvor pelas ilhas!
13. Tal como um herói, o Senhor avança; como um guerreiro, ele desperta seu ardor; lança seu grito de guerra, como um herói que afronta seus inimigos.
14. Muito tempo guardei o silêncio, permaneci mudo e me contive. Mas agora grito, como mulher nas dores do parto; minha respiração se precipita.
15. Vou devastar montanhas e colinas, secar toda a vegetação, transformar os cursos de água em terras áridas, e fazer secar os tanques.
16. Aos cegos farei seguir um caminho desconhecido, por atalhos desconhecidos eu os encaminharei; mudarei diante deles a escuridão em luz, e as veredas pedregosas em estradas planas. Todas essas maravilhas, eu as realizarei, não deixarei de executá-las.
17. Retrocederão, cheios de vergonha, aqueles que se fiam nos ídolos, e que dizem às estátuas fundidas: Sois nosso Deus.
18. Surdos, ouvi, cegos, olhai e vede!
19. Quem é cego, senão meu servo, e surdo como o mensageiro que envio? (Quem é cego como o meu mensageiro e surdo como o servo do Senhor?)
20. Vistes muitas coisas sem lhes dar atenção, tivestes os ouvidos abertos sem escutar.
21. O Senhor quer, por causa de sua justiça, publicar uma lei grande e magnífica.
22. Todavia é um povo saqueado e despojado, todos foram acorrentados nos cárceres, fizeram-nos desaparecer nas prisões; são expostos à pilhagem sem que ninguém os livre, despojam-nos, e ninguém lhes faz restituir.
23. Quem dentre vós prestará atenção a essas coisas? Quem as ouvirá pensando no futuro?
24. Quem então entregou Jacó aos saqueadores, Israel aos depredadores? (Não é o Senhor contra quem pecamos, cujas vias não quiseram seguir, nem respeitar suas ordens).
25. Então despejou sobre eles sua cólera, e as violências da guerra; esta os envolveu de chamas sem que se apercebessem, e os consumiu sem que dessem atenção.

 
Capítulo 43

1. E agora, eis o que diz o Senhor, aquele que te criou, Jacó, e te formou, Israel: Nada temas, pois eu te resgato, eu te chamo pelo nome, és meu.
2. Se tiveres de atravessar a água, estarei contigo. E os rios não te submergirão; se caminhares pelo fogo, não te queimarás, e a chama não te consumirá.
3. Pois eu sou o Senhor, teu Deus, o Santo de Israel, teu salvador. Dou o Egito por teu resgate, a Etiópia e Sabá em compensação.
4. Porque és precioso a meus olhos, porque eu te aprecio e te amo, permuto reinos por ti, entrego nações em troca de ti.
5. Fica, tranqüilo, pois estou contigo, do oriente trarei tua raça, e do ocidente eu te reunirei.
6. Devolve-os!, direi ao setentrião e ao meio-dia: Não os retenhas! Traze meus filhos das longínquas paragens, e minhas filhas dos confins da terra;
7. todos aqueles que trazem meu nome, e que criei para minha glória.
8. Fazei comparecer o povo cego apesar de ter olhos, e os surdos que têm ouvidos!
9. Que todas as nações se congreguem e que os povos se reúnam! Quem dentre eles soube predizer o que se passa, e foi o primeiro que no-lo fez saber? Que apresentem suas testemunhas para justificar suas pretensões, que sejam ouvidas para que se possa dizer: É exato.
10. Vós sois minhas testemunhas, diz o Senhor, e meus servos que eu escolhi, a fim de que se reconheça e que me acreditem e que se compreenda que sou eu. Nenhum deus foi formado antes de mim, e não haverá outros depois de mim.
11. Fui eu, sou eu o Senhor, não há outro salvador a não ser eu.
12. Sou eu quem predisse e salvei, e não um deus estranho entre vós. Vós sois minhas testemunhas, diz o Senhor, eu sou Deus
13. desde toda a eternidade. Ninguém poderia escapar de minha mão; quando executo, quem poderia destruir minha obra?
14. Eis o que diz o Senhor, vosso Redentor, o Santo de Israel: Por vossa causa, envio a Babilônia, a fim de fazer cair os ferrolhos dos cárceres, e os caldeus lamentar-se-ão em altos brados.
15. Eu sou o Senhor, vosso Santo, o criador de Israel, vosso rei.
16. Eis o que diz o Senhor que abriu uma passagem através do mar, um caminho em meio às ondas,
17. que pôs em campo carros e cavalos, a tropa de soldados e chefes: eles caíram então para nunca mais se levantar; Extinguiram-se como um pavio de vela.
18. Não vos lembreis mais dos acontecimentos de outrora, não recordeis mais as coisas antigas,
19. porque eis que vou fazer obra nova, a qual já surge: não a vedes? Vou abrir uma via pelo deserto, e fazer correr arroios pela estepe.
20. Dar-me-ão glória os animais selvagens, os chacais e as avestruzes, pois terei feito jorrar água no deserto, e correr arroios na estepe, para saciar a sede de meu povo, meu eleito;
21. o povo, que formei para mim, contará meus feitos.
22. No entanto, não foste tu que me chamaste, Jacó, tu não te fatigaste por mim, Israel.
23. Não me ofereceste carneiros em holocausto, nem me honraste com sacrifícios; não cobrei de ti um pesado imposto em oblações, nem te sobrecarreguei exigindo incenso.
24. Não me compraste, a preço alto, cana perfumada, nem me fartaste com a gordura das vítimas. Mas me atormentaste com teus pecados, cansaste-me com tuas iniqüidades.
25. Sempre sou eu quem deve apagar tuas faltas, e não mais me lembrar de teus pecados.
26. Refresca tua memória e discutamos: apresenta tuas contas, para te justificar!
27. Já teu primeiro pai pecou, teus representantes me ofenderam,
28. teus príncipes profanaram meu santuário. Então entreguei Jacó ao anátema e Israel às injúrias.

 
Capítulo 44

1. Agora escuta, Jacó, meu servo, Israel, a quem escolhi.
2. Eis o que diz o Senhor que te criou, que te formou desde o seio materno e te socorreu: nada temas, Jacó, meu servo, meu Israel, a quem escolhi!
3. Porque derramarei água sobre o solo sequioso, fá-la-ei correr sobre a terra árida, derramarei meu espírito sobre tua posteridade, e minha bênção sobre teus rebentos.
4. Crescerão como a vegetação irrigada, como os álamos à beira dos arroios.
5. Um dirá: Eu sou do Senhor, outro reclamará para si o nome de Jacó, um terceiro escreverá na sua mão: Ao Senhor, e receberá o cognome de Israel.
6. Eis o que diz o Senhor, o rei de Israel, seu Redentor, o Senhor dos exércitos: Eu sou o primeiro e o último, não há outro Deus afora eu.
7. Quem é igual a mim? Que venha sustentar suas pretensões! Que prove e pleiteie contra mim! Quem anunciou o futuro, desde a origem? Que nos predigam o que deve ainda acontecer! Não tenhais medo então, e não tremais!
8. Não vos tenho esclarecido desde há muito tempo? Vós sois minhas testemunhas: existe outro Deus a não ser eu? Haverá outro rochedo além de mim?
9. Os fabricantes de ídolos nada são e suas preciosas obras nada valem; para confusão deles, suas testemunhas não sabem ver nem compreender.
10. Aquele que quer modelar um deus, funde uma estátua que não servirá para nada.
11. Seus fiéis ficarão decepcionados e seus operários são apenas homens. Que todos se congreguem e compareçam. Ficarão assustados e decepcionados.
12. O ferreiro manipula o formão e trabalha no forno; talha o ídolo com golpes de martelo; modela-o com mão vigorosa; mas tem fome, sente-se esgotado, tem sede, está extenuado.
13. O escultor em madeira estica o cordel, traça o esquema a lápis, desbasta a imagem com o cinzel, mede-a com o compasso; dá-lhe forma humana, fá-la um belo tipo de homem, para colocá-la numa casa.
14. Vai cortar madeira, apanha um roble ou um carvalho que tinham deixado crescer entre as árvores da floresta que o Senhor havia plantado, e que a chuva havia feito crescer.
15. Depois faz com a madeira um fogo, e leva-o para se aquecer; queima-a também para cozer o pão; enfim serve-se dela para fabricar um ídolo diante do qual se prosterna.
16. Queima a metade de sua madeira, sobre a brasa assa a carne, come esse assado até fartar-se. Então aquece-se e diz: Como é bom sentir o calor e admirar a chama!
17. Com a sobra faz um deus, um ídolo diante do qual se prostra para adorá-lo e orar dizendo: Salva-me, tu és meu deus.
18. Falta bom senso e juízo a essa gente; têm os olhos tão fechados que não vêem, seus corações não podem compreender.
19. Ninguém reflete nem tem bom senso e inteligência para se dizer: Queimei metade, cozi pão sobre a brasa, aí assei a carne que comi e iria eu fazer do resto um ídolo miserável? Prostrar-me-ia diante de um pedaço de madeira?
20. Este homem se nutre de cinzas, seu coração desabusado o desencaminha, ele não consegue salvar-se nem dizer: Não será um logro o que tenho nas mãos?
21. Lembra-te dessas coisas, Jacó! (Recorda-te), Israel, que tu és meu servo. Eu te formei, tu és meu servo, Israel, não posso esquecer-te.
22. Fiz desaparecer tuas iniqüidades como uma nuvem, e teus pecados como uma neblina: volve a mim, porque te resgatei.
23. Céus, regozijai-vos, pois o Senhor agiu: Ressoai de alegria, profundezas da terra! Explodi de alegria, ó montanhas! E tu também, floresta, com todas as tuas árvores, porque o Senhor resgatou Jacó, e manifestou sua glória em Israel.
24. Eis o que diz o Senhor, teu Redentor, que te formou desde o seio de tua mãe: Sou eu, o Senhor, que fiz todas as coisas, sozinho estendi os céus. Firmei a terra: quem estava comigo?
25. Confundo os sinais dos falsos profetas, faço delirar os adivinhos, faço voltar atrás os sábios, e transformo sua sabedoria em loucura.
26. Mantenho a palavra de meus servos, cumpro o que predizem meus enviados; digo que Jerusalém deve ser reabitada. Que as cidades de Judá devem ser reedificadas. Delas reerguerei as ruínas.
27. Digo ao abismo: Seca-te, vou estancar tuas torrentes.
28. Digo de Ciro: É meu pastor, executará em tudo a minha vontade. Falando de Jerusalém: Que seja reedificada! E do templo: Que seja reconstruído!

 
Capítulo 45

1. Eis o que diz o Senhor a Ciro, seu ungido, que ele levou pela mão para derrubar as nações diante dele, para desatar o cinto dos reis, para abrir-lhe as portas, a fim de que nenhuma lhe fique fechada:
2. Irei eu mesmo diante de ti, aplainando as montanhas, arrebentando os batentes de bronze, arrancando os ferrolhos de ferro.
3. Dar-te-ei os tesouros enterrados e as riquezas escondidas, para mostrar-te que sou eu o Senhor, aquele que te chama pelo teu nome, o Deus de Israel.
4. É por amor de meu servo, Jacó, e de Israel que escolhi, que te chamei pelo teu nome, com títulos de honra, se bem que não me conhecesses.
5. Eu sou o Senhor, sem rival, não existe outro Deus além de mim. Eu te cingi, quando ainda não me conhecias,
6. a fim de que se saiba, do levante ao poente, que nada há fora de mim. Eu sou o Senhor, sem rival;
7. formei a luz e criei as trevas, busco a felicidade e suscito a infelicidade. Sou eu o Senhor, que faço todas essas coisas.
8. Que os céus, das alturas, derramem o seu orvalho, que as nuvens façam chover a vitória; abra-se a terra e brote a felicidade e ao mesmo tempo faça germinar a justiça! Sou eu, o Senhor, a causa de tudo isso.
9. Ai daquele que discute com quem o formou, vaso entre os vasilhames de terra! Acaso diz a argila ao oleiro: Que fazes? Acaso diz a obra ao operário: És incompetente?
10. Ai daquele que ousa dizer a seu pai: Por que me geraste? E à sua mãe: Por que me concebeste?
11. Eis o que diz o Senhor, o Santo de Israel e seu criador: Pretendeis pedir-me conta do futuro, ditar-me um modo de agir?
12. Fui eu quem fez a terra, e a povoou de homens; foram minhas mãos que estenderam os céus, e eu comando todo o seu exército.
13. Fui eu quem, na minha justiça, suscitou Ciro, e quem por toda parte lhe aplaina o caminho; e é ele quem fará reedificar minha cidade e libertar meus deportados, sem recompensa nem dádivas, diz o Senhor dos exércitos.
14. Eis o que diz o Senhor: os pobres do Egito, os traficantes da Etiópia, os de elevada estatura de Sabaim, passarão para a tua terra e serão teus, servir-te-ão e desfilarão acorrentados, prostrar-se-ão diante de ti e te implorarão: Deus só se encontra em tua morada, não tem rival algum, os outros deuses não existem.
15. Verdadeiramente um Deus se esconde em tua casa, o Deus de Israel, um Deus que salva!
16. Ficarão envergonhados e confusos todos aqueles que se lhe opuseram; ignominiosamente retirar-se-ão os fabricantes de ídolos.
17. Israel obterá do Senhor uma salvação eterna, sem confusão nem vergonha, até o fim dos tempos.
18. Eis o que diz o Senhor que criou os céus, ele, o único Deus que formou a terra e a estabilizou, que não a criou para que seja um caos, mas a organizou para que nela se viva: eu sou o Senhor, e não tenho rival.
19. Não tenho falado às escondidas, nem numa terra tenebrosa. Não disse à raça de Jacó: Procurai-me no caos, eu, o Senhor, digo, a verdade, e me manifesto com toda a franqueza.
20. Vinde, reuni-vos todos, aproximai-vos, vós que fostes salvos dentre as nações! Nada disso compreendem aqueles que trazem seu ídolo de madeira, aqueles que oram a um deus impotente para salvar.
21. Fazei valer vossos argumentos, consultai-vos uns aos outros: quem havia predito o que se passa, quem o tinha anunciado desde longa data? Não fui eu, o Senhor, e nenhum outro? Não há Deus fora de mim.
22. Volvei-vos para mim, e sereis salvos, todos os confins da terra, porque eu sou Deus e sou o único,
23. juro-o por mim mesmo! A verdade sai de minha boca, minha palavra jamais será revogada: todo joelho deve dobrar-se diante de mim, toda língua deve jurar por mim,
24. dizendo: É só no Senhor que se encontra a vitória e a força. A ele virão envergonhados todos aqueles que se tinham levantado contra ele;
25. mas toda a raça de Israel achará no Senhor o triunfo e a glória.

 
Capítulo 46

1. Bel cai, Nebo desmorona. Suas estátuas são carregadas em lombo de mula, fazem delas o fardo de animais exaustos.
2. Desmoronam todos e desabam; incapazes de salvar aqueles que os carregam, vão eles mesmos ao cativeiro.
3. Ouvi-me, casa de Jacó, e vós, sobreviventes da casa de Israel, que eu carreguei desde vosso nascimento e sustentei desde o seio materno:
4. permanecerei o mesmo até vossa velhice, sustentar-vos-ei até o tempo dos cabelos brancos; eu vos carregarei como já carreguei, cuidarei de vós e preservar-vos-ei;
5. a quem podereis comparar-me ou igualar-me? Quem poreis em paralelo comigo, que me seja igual?
6. Eis os que desembolsam seu ouro, e pesam a prata na balança; contratam um ourives para que ele faça um deus, diante do qual se prostram em adoração;
7. eles o carregam nos ombros e o transportam, depois o colocam em seu posto, onde se mantém, sem mais poder mover-se. Por mais que o invoquem, nunca responde, e não salva do infortúnio;
8. lembrai-vos disso, sede razoáveis, e entrai em vós mesmos, pecadores.
9. Recordai-vos do que se passou outrora. Só eu sou Deus, e não há nenhum outro, eu sou Deus e ninguém me é semelhante.
10. Desde o princípio eu predisse o futuro, anuncio antecipadamente o que ainda não se cumpriu. Meu plano realizar-se-á, executarei todas as minhas vontades.
11. Chamo do oriente uma ave de rapina, de uma terra longínqua o homem de meus desígnios. O que disse, executarei; o que concebi, realizarei.
12. Escutai-me, homens desanimados, que vos julgais longe da salvação!
13. Faço aproximar-se a salvação que prometi; ela não está longe: e a libertação que predisse não tardará. Darei a vitória a Sião, e minha glória a Israel.

 
Capítulo 47

1. Desce de teu trono, agacha-te ao solo, virgem, filha de Babilônia; assenta-te no chão, sem trono, filha dos caldeus! Já não serás chamada a delicada e a voluptuosa.
2. Toma a mó, vai moer a farinha, tira teu véu, arregaça teu vestido, descobre tuas pernas para passar os rios,
3. (descobre tua nudez, que se veja teu opróbrio). Vou exercer uma implacável vingança,
4. diz o nosso Redentor, que se intitula o Senhor dos exércitos, o Santo de Israel.
5. Senta-te em silêncio, mergulha na escuridão, filha dos caldeus, porque não mais te chamarão a soberana dos reinos.
6. Sem dúvida eu me havia irritado contra meu povo, profanei minha herança, entreguei-o nas tuas mãos; mas tu o trataste sem piedade, fizeste pesar duramente teu jugo sobre o ancião.
7. Tu te dizias: Eu serei sempre soberana perpétua. Sem refletir, não consideraste o fim.
8. Agora, portanto, ouve isto, voluptuosa, que reinas em segurança, que dizes em teu coração: Eu e nada mais que eu! Não conhecerei a viuvez, nem a perda de meus filhos.
9. Estas duas desgraças virão sobre ti num só dia: a perda de teus filhos e a viuvez te atormentarão ao mesmo tempo, a despeito de todos os teus sortilégios e teus poderosos encantos.
10. Tu te fiavas em tua malícia e dizias a ti mesma: Ninguém me vê! Mas tua habilidade e tua astúcia te desencaminharam a tal ponto que dizias em teu coração: Eu e nada a não ser eu!
11. Ora, uma calamidade virá sobre ti e não saberás conjurá-la; a catástrofe vai desabar sobre ti sem que possas impedi-la. Repentinamente alcançar-te-á uma ruína que não terás sabido evitar.
12. Agarra-te, portanto, a teus feitiços e à multidão de teus sortilégios, nos quais te esmeraste desde tua juventude! Talvez acharás uma receita eficaz para criar o terror.
13. Esbanjaste teus esforços entre tantos conselheiros. Que eles então se levantem e te salvem, aqueles que preparam o mapa do céu e observam os astros, que comunicam a cada mês como irão as coisas.
14. Ei-los como argueiros de palha que o fogo consumirá; não poderão escapar às investidas da chama. (Não será um braseiro onde se coze o pão, nem um fogo perto do qual se assenta).
15. Eis o que valerão teus feiticeiros que tens procurado consultar desde tua juventude. Eles fogem espavoridos, cada qual para seu lado, sem que nenhum venha em teu socorro.

 
Capítulo 48

1. Ouvi isto, casa de Jacó, vós, que tendes o nome de Israel, e que saístes das entranhas de Judá, vós, que jurais pelo nome do Senhor e que invocais o Deus de Israel, mas sem sinceridade nem retidão,
2. porque vós vos declarais da cidade santa, vós vos apoiais no Deus de Israel, cujo nome é o Senhor dos exércitos.
3. O que passou, eu predisse com muita antecipação; depois me pus à obra, e tudo se realizou.
4. Sabendo bem que és rígido, que tua cerviz tem músculos de ferro, e que tua fronte é de bronze,
5. eu te predisse os acontecimentos com muita antecedência, antes que acontecessem eu te preveni, para que não pudesses dizer: Foi meu ídolo quem os fez, foi minha estátua esculpida ou fundida quem os provocou.
6. Do que ouviste, vês a realização: não deves atestá-lo? Pois bem, vou revelar-te agora novos acontecimentos, ainda mantidos em segredo, e que tu não conheces.
7. Foram criados agora, e não antigamente; nunca até aqui ouviste falar disso, de maneira que não poderás dizer: Já o sabia.
8. Não, tu nada sabias, tu não o suspeitavas, eu não te havia feito ainda a confidência, porque sabia que eras desleal, chamado rebelde desde teu nascimento.
9. Eu continha minha cólera por minha honra, dominava-a, sem te ferir, por causa de minha glória.
10. Passei-te no cadinho como a prata, provei-te ao crisol da tribulação;
11. ajo unicamente preocupado com minha honra: como tolerar que se profane meu nome? A ninguém posso ceder minha glória.
12. Ouve-me, Jacó, e tu, Israel, que eu chamei! Sou sempre o mesmo, o primeiro, e sou também o último.
13. Foi minha mão que fundou a terra, e minha destra que estendeu os céus; quando os convoco, todos se apresentam.
14. Reuni-vos todos e escutai: quem dentre vós predisse esses acontecimentos? Aquele que o Senhor ama fará sua vontade contra Babilônia e a raça dos caldeus.
15. Eu mesmo falei e o chamei, eu o fiz vir e lhe dei feliz êxito.
16. Aproximai-vos de mim para ouvir isto: desde o início, nunca falei às escondidas, desde que a coisa existe, estou eu aí. (E agora o Senhor Deus com seu Espírito me envia).
17. Eis o que diz o Senhor, teu Redentor, o Santo de Israel: eu sou o Senhor teu Deus, que te dá lições salutares, que te conduz pelo caminho que deves seguir.
18. Ah! Se tivesses sido atento às minhas ordens! Teu bem-estar assemelhar-se-ia a um rio, e tua felicidade às ondas do mar;
19. tua posteridade seria como a areia, e teus descendentes, como os grãos de areia; nada poderia apagar nem abolir teu nome de diante de mim.
20. Saí de Babilônia, fugi da Caldéia! Proclamai a notícia com gritos de alegria, publicai-a até as extremidades do mundo. Dizei: o Senhor resgatou seu servo Jacó!
21. Não há sede para eles no deserto para onde os leva, porque faz brotar para eles água de um rochedo, fende as rochas para que as águas jorrem.
22. (Mas não há paz para os maus, diz o Senhor).

 
Capítulo 49

1. Ilhas, ouvi-me; povos de longe, prestai atenção! O Senhor chamou-me desde meu nascimento; ainda no seio de minha mãe, ele pronunciou meu nome.
2. Tornou minha boca semelhante a uma espada afiada, cobriu-me com a sombra de sua mão. Fez de mim uma flecha penetrante, guardou-me na sua aljava.
3. E disse-me: Tu és meu servo, (Israel), em quem me rejubilarei.
4. E eu dizia a mim mesmo: Foi em vão que padeci, foi em vão que gastei minhas forças. Todavia, meu direito estava nas mãos do Senhor, e no meu Deus estava depositada a minha recompensa.
5. E agora o Senhor fala, ele, que me formou desde meu nascimento para ser seu Servo, para trazer-lhe de volta Jacó e reunir-lhe Israel, (porque o Senhor fez-me esta honra, e meu Deus tornou-se minha força).
6. Disse-me: Não basta que sejas meu servo para restaurar as tribos de Jacó e reconduzir os fugitivos de Israel; vou fazer de ti a luz das nações, para propagar minha salvação até os confins do mundo.
7. Eis o que diz o Senhor, o Redentor, o Santo de Israel, ao objeto de desprezo dos homens e de horror das nações, ao escravo dos tiranos: diante de ti, reis se levantarão e príncipes se prostrarão, por causa do Senhor que é fiel, e do Santo de Israel que te elegeu.
8. Eis o que diz o Senhor: no tempo da graça eu te atenderei, no dia da salvação eu te socorrerei, (Eu te formei e designei para fazer a aliança com os povos), para restaurar o país e distribuir as heranças devastadas,
9. para dizer aos prisioneiros: Saí! E àqueles que mergulham nas trevas: Vinde à luz! Ao longo de todo o trajeto terão o que comer. Sobre todas as dunas encontrarão seu alimento.
10. Não sentirão fome nem sede; o vento quente e o sol não os castigarão, porque aquele que tem piedade deles os guiará e os conduzirá às fontes.
11. Tornar-lhes-ei acessíveis todas as montanhas, e caminhos atingirão as alturas.
12. Ei-los que vêm de longe, ei-los do norte e do poente, e outros da terra dos sienitas.
13. Cantai, ó céus; terra, exulta de alegria; montanhas, prorrompei em aclamações! Porque o Senhor consolou seu povo, comoveu-se e teve piedade dos seus na aflição.
14. Sião dizia: O Senhor abandonou-me, o Senhor esqueceu-me.
15. Pode uma mulher esquecer-se daquele que amamenta? Não ter ternura pelo fruto de suas entranhas? E mesmo que ela o esquecesse, eu não te esqueceria nunca.
16. Eis que estás gravada na palma de minhas mãos, tenho sempre sob os olhos tuas muralhas.
17. Acorrem já aqueles que vão reconstruir-te, enquanto teus destruidores e devastadores fogem.
18. Lança o olhar à volta e vê: reúnem-se todos e vêm a ti. Por minha vida, diz o Senhor, de gala te revestirás, como uma noiva te cingirás.
19. Teus bairros em ruína e devastados, teu território saqueado serão demasiado estreitos para teus habitantes, após a partida daqueles que se aproveitavam de ti.
20. Teus ouvidos ouvirão ainda de teus filhos, que julgavas perdidos: O espaço é estreito demais para mim; dê-me espaço para que eu me instale!
21. Então dirás a ti mesma: Quem me gerou estes filhos? Não tinha filhos, era estéril: Quem os criou? Eis que eu estava desamparada e só: De onde vieram eles?
22. Eis o que diz o Senhor Deus: com a mão vou fazer sinal às nações, e levantar meu estandarte para alertar os povos. Trarão teus filhos na dobra de seu manto, e em seus ombros carregarão tuas filhas.
23. Reis serão teus aios: prostrados diante de ti, a face contra a terra, lamberão a poeira de teus pés. Saberás então que eu sou o Senhor, e que não serão confundidos os que contam comigo.
24. Acaso tirar-se-á a presa ao forte? Ou o que for tomado por um robusto guerreiro escapar-lhe-á das mãos?
25. Eis o que diz o Senhor: sim, a presa do bravo lhe será retirada, a presa do robusto guerreiro lhe escapará; sustentarei tua causa contra teu adversário, libertarei eu mesmo teus filhos.
26. Farei teus opressores comerem sua própria carne, embriagar-se-ão com seu próprio sangue, como se fosse vinho. E toda criatura saberá que sou eu o Senhor, teu Salvador, teu Redentor, o Poderoso de Jacó.

 
Capítulo 50

1. Eis o que diz o Senhor: Onde está a carta de divórcio pela qual eu teria repudiado vossa mãe? Ou então, a qual de meus credores eu vos vendi? Está bem claro que por vossos crimes fostes vendidos, e por causa de vossos pecados vossa mãe foi repudiada.
2. Então, por que não encontrei pessoa alguma quando vim? Por que ninguém respondeu ao meu apelo? Tenho eu realmente a mão demasiado curta para libertar, ou não tenho bastante força para salvar? Contudo, com uma simples ameaça, seco o mar e transformo as ondas em terra firme, de forma tal a faltar água para seus peixes, e seus animais perecerem de sede.
3. Visto os céus com vestimentas de luto, e os cubro como de um cilício.
4. O Senhor Deus deu-me a língua de um discípulo para que eu saiba reconfortar pela palavra o que está abatido. Cada manhã ele desperta meus ouvidos para que escute como discípulo;
5. (o Senhor Deus abriu-me o ouvido) e eu não relutei, não me esquivei.
6. Aos que me feriam, apresentei as espáduas, e as faces àqueles que me arrancavam a barba; não desviei o rosto dos ultrajes e dos escarros.
7. Mas o Senhor Deus vem em meu auxílio: eis por que não me senti desonrado; enrijeci meu rosto como uma pedra, convicto de não ser desapontado.
8. Aquele que me fará justiça aí está. Quem ousará atacar-me? Vamos medir-nos! Quem será meu adversário? Que se apresente!
9. O Senhor Deus vem em meu auxílio: quem ousaria condenar-me? Cairão em frangalhos como um manto velho; a traça os roerá.
10. Que aqueles dentre vós que temem o Senhor ouçam a voz de seu Servo! Que aqueles que caminham no escuro, privados de luz, confiem no nome do Senhor e contem com o seu Deus!
11. Mas vós, que ateais um incêndio, que preparais projéteis inflamáveis, ide ao fogo do vosso incêndio, e dos projéteis que fizestes arder! É minha mão que vos imporá esse tratamento: sereis prostrados nos tormentos.

 
Capítulo 51

1. Ouvi-me, vós que seguis a justiça, e que buscais o Senhor! Olhai a rocha de que fostes talhados, a pedreira de onde vos tiraram:
2. considerai Abraão, vosso pai, e Sara, que vos pôs no mundo. Ele estava só, quando o chamei, mas eu o abençoei e o multipliquei,
3. porque o Senhor vai ter piedade de Sião, e reparar todas as suas ruínas. Do deserto em que ela se tornou ele fará um Éden, e da sua estepe um jardim do Senhor. Aí encontrar-se-ão o prazer e a alegria, os cânticos de louvor e as melodias da música.
4. Povos, escutai bem! Nações, prestai-me atenção! Pois é de mim que emanará a doutrina e a verdadeira religião que será a luz dos povos.
5. De repente minha justiça chegará, minha salvação vai aparecer, (meu braço fará justiça aos povos), as ilhas em mim terão esperança e contarão com meu braço.
6. Levantai os olhos para o céu, volvei vosso olhar à terra: os céus vão desvanecer-se como fumaça, como um vestido em farrapos ficará a terra, e seus habitantes morrerão como moscas. Mas minha salvação subsistirá sempre, e minha vitória não terá fim.
7. Ouvi-me, vós que conheceis a justiça, povo meu, em cujo coração está a minha doutrina: não temais os insultos dos homens, não vos deixeis abater pelos seus ultrajes,
8. porque a traça os comerá como uma vestimenta, e os vermes das traças os roerão como lã. Mas minha vitória subsistirá sempre e meu triunfo persistirá de geração em geração.
9. Desperta, braço do Senhor, desperta, recobra teu vigor! Levanta-te como nos dias do passado, como nos tempos de outrora. Não foste tu que esmagaste Raab e fendeste de alto a baixo o Dragão?
10. Não foste tu que secaste o mar e estancaste as águas do grande abismo? Tu que abriste no fundo do mar um caminho, para por aí passarem os resgatados?
11. Por aí voltarão aqueles que o Senhor tiver libertado. Chegarão a Sião com cânticos de triunfo, uma eterna alegria cingir-lhes-á a cabeça; o júbilo e a alegria os invadirão, a tristeza e os lamentos fugirão.
12. Sou eu, sou eu quem vos consola! Como podes temer um mortal, um filho do homem, que acabará como a erva?
13. Como esquecer o Senhor, teu criador, que estendeu os céus e fundou a terra, para não cessares de tremer todo o tempo diante da cólera do opressor que procura fazer-te perecer? Mas de que vale a cólera do opressor?
14. Em breve o prisioneiro vai ser solto, não perecerá no cárcere, e o pão não lhe faltará.
15. Eu sou o Senhor teu Deus, que revolvo o mar e faço rugir as ondas; eu me chamo o Senhor dos exércitos.
16. Na tua boca coloquei minhas palavras, com a sombra de minha mão eu te cobri, para estender os céus e fundar a terra, e dizer a Sião: Tu és meu povo.
17. Desperta! Desperta! Levanta-te, Jerusalém, tu que bebeste da mão do Senhor a taça de sua cólera, que esgotaste até os resíduos o cálice que dá vertigem.
18. (De todos os filhos que ela pôs no mundo, nenhum a orientou; entre os filhos que ela criou, nenhum a segurou pela mão.)
19. Esses dois males te sobrevieram, – quem te lastimaria? Saque e ruína, fome e espada – quem te consolaria?
20. Teus filhos jazem desfalecidos (pelos cantos da rua), como um antílope apanhado no laço, tontos com a cólera do Senhor e com as ameaças de teu Deus.
21. Ouve então isto, infeliz, tu que estás embriagada, mas não pelo vinho.
22. Eis o que diz o Senhor teu Deus que toma a defesa de seu povo: Vou retirar de tua mão a taça que dá a vertigem, não mais terás para beber o cálice de minha cólera,
23. e eu vou pô-lo na mão dos tiranos, na mão de teus opressores que te diziam: Curva-te para passarmos, quando apresentavas teu dorso como o chão que se calca, como uma rua para os viandantes.

 
Capítulo 52

1. Desperta, desperta, põe teus adornos, Sião, veste teus trajes de gala, Jerusalém, cidade santa, porque não mais verás penetrar em tua casa nem incircuncisos nem impuros!
2. Sacode a poeira que te cobre, levanta-te, Jerusalém, e reina, desvencilha-te das cadeias que te prendem o pescoço, filha cativa de Sião.
3. Porque eis o que diz o Senhor: vós fostes vendidos gratuitamente e sereis resgatados sem pagamento.
4. Porque eis o que diz o Senhor Deus: meu povo desceu outrora do Egito para aí habitar, depois a Assíria o oprimiu sem motivo.
5. E agora que faço eu aqui, diz o Senhor, já que meu povo foi levado gratuitamente? Seus opressores soltam brados de triunfo, diz o Senhor, e meu nome é ultrajado todo dia, sem cessar.
6. Por isso meu povo vai saber meu nome: naquele dia compreenderá que sou eu quem diz: Eis-me aqui!
7. Como são belos sobre as montanhas os pés do mensageiro que anuncia a felicidade, que traz as boas novas e anuncia a libertação, que diz a Sião: Teu Deus reina!
8. Ouve! Tuas sentinelas elevam a voz, e todas juntas soltam alegres gritos, porque vêem com seus próprios olhos o Senhor voltar a Sião.
9. Prorrompei todas em brados de alegria, ruínas de Jerusalém, porque o Senhor se compadece de seu povo, e resgata Jerusalém!
10. O Senhor descobre seu braço santo aos olhares das nações, e todos os confins da terra verão o triunfo de nosso Deus.
11. Parti, parti! Retirai-vos daí, não toqueis nada de impuro! Deixai estas paragens, purificai-vos, vós que levais os vasos do Senhor,
12. porque não partireis com precipitação, não vos retirareis como fugitivos, porquanto diante de vós irá o Senhor, e o Deus de Israel seguirá à vossa retaguarda.
13. Eis que meu Servo prosperará, crescerá, elevar-se-á, será exaltado.
14. Assim como, à sua vista, muitos ficaram embaraçados – tão desfigurado estava que havia perdido a aparência humana -,
15. assim o admirarão muitos povos: os reis permanecerão mudos diante dele, porque verão o que nunca lhes tinha sido contado, e observarão um prodígio inaudito.

 
Capítulo 53

1. Quem poderia acreditar nisso que ouvimos? A quem foi revelado o braço do Senhor?
2. Cresceu diante dele como um pobre rebento enraizado numa terra árida; não tinha graça nem beleza para atrair nossos olhares, e seu aspecto não podia seduzir-nos.
3. Era desprezado, era a escória da humanidade, homem das dores, experimentado nos sofrimentos; como aqueles, diante dos quais se cobre o rosto, era amaldiçoado e não fazíamos caso dele.
4. Em verdade, ele tomou sobre si nossas enfermidades, e carregou os nossos sofrimentos: e nós o reputávamos como um castigado, ferido por Deus e humilhado.
5. Mas ele foi castigado por nossos crimes, e esmagado por nossas iniqüidades; o castigo que nos salva pesou sobre ele; fomos curados graças às suas chagas.
6. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas, seguíamos cada qual nosso caminho; o Senhor fazia recair sobre ele o castigo das faltas de todos nós.
7. Foi maltratado e resignou-se; não abriu a boca, como um cordeiro que se conduz ao matadouro, e uma ovelha muda nas mãos do tosquiador. (Ele não abriu a boca.)
8. Por um iníquo julgamento foi arrebatado. Quem pensou em defender sua causa, quando foi suprimido da terra dos vivos, morto pelo pecado de meu povo?
9. Foi-lhe dada sepultura ao lado de fascínoras e ao morrer achava-se entre malfeitores, se bem que não haja cometido injustiça alguma, e em sua boca nunca tenha havido mentira.
10. Mas aprouve ao Senhor esmagá-lo pelo sofrimento; se ele oferecer sua vida em sacrifício expiatório, terá uma posteridade duradoura, prolongará seus dias, e a vontade do Senhor será por ele realizada.
11. Após suportar em sua pessoa os tormentos, alegrar-se-á de conhecê-lo até o enlevo. O Justo, meu Servo, justificará muitos homens, e tomará sobre si suas iniqüidades.
12. Eis por que lhe darei parte com os grandes, e ele dividirá a presa com os poderosos: porque ele próprio deu sua vida, e deixou-se colocar entre os criminosos, tomando sobre si os pecados de muitos homens, e intercedendo pelos culpados.

 
Capítulo 54

1. Dá gritos de alegria, estéril, tu que não tens filhos; entoa cânticos de júbilo, tu que não dás à luz, porque os filhos da desamparada serão mais numerosos do que os da mulher casada, declara o Senhor.
2. Amplia o espaço da tua tenda, desdobra sem constrangimento as telas que te abrigam, alonga tuas cordas, consolida tuas estacas,
3. pois deverás estender-te à direita e à esquerda; teus descendentes vão invadir as nações, povoar as cidades desertas.
4. Nada temas, não serás desapontada. Não te sintas perturbada, não terás do que te envergonhar, porque vais esquecer-te da vileza de tua mocidade. Já não te lembrarás do opróbrio de tua viuvez,
5. pois teu esposo é o teu Criador: chama-se o Senhor dos exércitos; teu Redentor é o Santo de Israel: chama-se o Deus de toda a terra.
6. Como uma mulher abandonada e aflita, eu te chamo. Pode-se repudiar uma mulher desposada na juventude? – diz o Senhor teu Deus.
7. Por um momento eu te havia abandonado, mas com profunda afeição eu te recebo de novo.
8. Num acesso de cólera volvi de ti minha face. Mas no meu eterno amor, tenho compaixão de ti.
9. Vou fazer hoje como no tempo de Noé: tal como jurei então que o dilúvio de Noé não mais se abateria sobre a terra, do mesmo modo faço juramento de não mais me irritar contra ti, e de nunca mais te atemorizar.
10. Mesmo que as montanhas oscilassem e as colinas se abalassem, jamais meu amor te abandonará e jamais meu pacto de paz vacilará, diz o Senhor que se compadeceu de ti.
11. Infeliz, sacudida pela tempestade e sem alívio, eis que te vou construir em pedra de jaspe e preparar teus alicerces de safira.
12. Farei tuas ameias de rubis, as portas de cristal, e todo um recinto de pedras preciosas.
13. Todos os teus filhos serão instruídos pelo Senhor, e a felicidade deles será grande; tu serás fundada sobre a justiça.
14. Serás isenta de qualquer opressão, nada terás a temer, e de todo o terror, pois não poderá atingir-te.
15. Se te atacarem, não será de minha parte; teus agressores sucumbirão diante de ti.
16. De fato, fui eu quem criou o ferreiro, que sopra sobre o fogo de brasas e dele tira as armas trabalhadas pela sua arte; também fui eu quem criou os demolidores para destruir:
17. qualquer arma forjada contra ti, ver-se-á destinada ao insucesso, e na justiça ganharás causa de qualquer língua que quiser acusar-te. Tal é o apanágio dos servos do Senhor, tal é o triunfo que lhes reservo, diz o Senhor.

 
Capítulo 55

1. Todos vós, que estais sedentos, vinde à nascente das águas; vinde comer, vós que não tendes alimento. Vinde comprar trigo sem dinheiro, vinho e leite sem pagar!
2. Por que despender vosso dinheiro naquilo que não alimenta, e o produto de vosso trabalho naquilo que não sacia? Se me ouvis, comereis excelentes manjares, uma suculenta comida fará vossas delícias.
3. Prestai-me atenção, e vinde a mim; escutai, e vossa alma viverá: quero concluir convosco uma eterna aliança, outorgando-vos os favores prometidos a Davi.
4. Farei de ti um testemunho para os povos, um condutor soberano das nações;
5. conclamarás povos que nunca conheceste, e nações que te ignoravam acorrerão a ti, por causa do Senhor teu Deus, e do Santo de Israel que fará tua glória.
6. Buscai o Senhor, já que ele se deixa encontrar; invocai-o, já que está perto.
7. Renuncie o malvado a seu comportamento, e o pecador a seus projetos; volte ao Senhor, que dele terá piedade, e a nosso Deus que perdoa generosamente.
8. Pois meus pensamentos não são os vossos, e vosso modo de agir não é o meu, diz o Senhor;
9. mas tanto quanto o céu domina a terra, tanto é superior à vossa a minha conduta e meus pensamentos ultrapassam os vossos.
10. Tal como a chuva e a neve caem do céu e para lá não volvem sem ter regado a terra, sem a ter fecundado, e feito germinar as plantas, sem dar o grão a semear e o pão a comer,
11. assim acontece à palavra que minha boca profere: não volta sem ter produzido seu efeito, sem ter executado minha vontade e cumprido sua missão.
12. Sim, partireis com júbilo, e sereis reconduzidos em paz; montanhas e colinas aclamar-vos-ão, e todas as árvores do campo vos aplaudirão.
13. Em lugar do espinheiro, crescerá o cipreste, em lugar da urtiga, crescerá a murta; isso será para o renome do Senhor, um título para sempre imperecível.

 
Capítulo 56

1. Eis o que diz o Senhor: respeitai o direito e praticai a justiça, porque minha salvação não tarda a chegar e minha justiça a revelar-se.
2. Feliz do homem que assim se comporta, e o filho do homem que se atém a isso, que observa o sábado sem profaná-lo, e abstém-se de toda má ação.
3. Que o estrangeiro que deseja afeiçoar-se ao Senhor não diga: Certamente o Senhor vai excluir-me de seu povo. Que o eunuco não diga: Oh! sou apenas um lenho seco.
4. Porque eis o que diz o Senhor: aos eunucos que observarem meus sábados, que escolherem o que me é agradável, e se afeiçoarem à minha aliança,
5. eu darei na minha casa e dentro de minhas muralhas um monumento e um nome de mais valor que filhos e filhas; dar-lhes-ei um nome que jamais perecerá.
6. Quanto aos estrangeiros que desejam unir-se ao Senhor, para servi-lo e amar seu nome, para serem seus servos, se observarem o sábado sem profaná-lo, e se se afeiçoarem à minha aliança,
7. eu os conduzirei ao meu monte santo e os cumularei de alegria na minha casa de oração; seus holocaustos e sacrifícios serão aceitos sobre meu altar, pois minha casa chamar-se-á Casa de Orações para todos os povos.
8. Oráculo do Senhor Deus que reúne os exilados de Israel: eu lhes agregarei ainda outros junto aos seus já reunidos.
9. Animais dos campos, vinde todos apascentar-vos, como também os animais da floresta.
10. Meus guardas estão todos cegos e não vêem nada; são cães mudos incapazes de latir, sonham estirados, gostam de cochilar;
11. são cães vorazes e insaciáveis (são pastores que nada observam), cada qual segue seu caminho em busca de seu interesse.
12. Vinde, vou buscar o vinho; com licores nos embriagaremos; amanhã, como hoje, haverá uma enorme bebedeira.

 
Capítulo 57

1. E o justo perece sem que ninguém se aperceba; as pessoas de bem são arrebatadas e ninguém se importa;
2. por causa do mal, o justo é arrebatado para entrar na paz; repousam sobre seus leitos aqueles que seguiam o caminho reto.
3. E vós, aproximai-vos, filhos da feiticeira, descendência da mulher adúltera e devassa!
4. De quem vos escarneceis? A quem fazeis caretas e mostrais a língua? Não sois filhos do pecado, raça bastarda?
5. Vós vos abrasais sob os arvoredos de terebintos e sob qualquer árvore verde; vós imolais crianças no leito das torrentes e nas cavernas dos rochedos.
6. As pedras polidas da torrente, eis o que te toca, sim, eis o teu quinhão; tu lhes ofereces libações, preparas-lhes oferendas. (Posso a isso resignar-me?)
7. Sobre o cume de elevada montanha preparas teu leito, e é aí que sobes para oferecer sacrifícios.
8. Por trás da porta e seus umbrais, colocas teu emblema, porque não foi para mim que tu te descobriste, que estendeste a cama onde subiste; vais assalariar para ti aqueles com quem desejas ter negócios; admirando o ídolo, multiplicaste com eles as prostituições.
9. Depois corres a Melec com óleos, és pródiga em aromas, envias ao longe teus mensageiros, e os fazes descer à morada dos mortos.
10. De tanto andar assim, tu te fatigas, sem jamais dizer: já basta; encontras ainda força, e segues sem parar.
11. A quem temias então? De quem tinhas medo, para ser infiel, para não te lembrares de mim nem te preocupares comigo? Sem dúvida eu me calava e fechava os olhos; por isso tu não me temias.
12. Pois bem, vou mostrar o que valem tua justiça e tuas obras! Elas não te servirão de coisa alguma,
13. quando pedires socorro. E não te salvarão teus ídolos: todos serão levados pelo vento. Um sopro as carregará. Aquele, porém, que contar comigo herdará a terra, e possuirá meu monte santo.
14. (Será dito:) Abri, abri a estrada, aplanai-a! Retirai do caminho de meu povo todo obstáculo!
15. Porque eis o que diz o Altíssimo, cuja morada é eterna e o nome santo: Habitando como Santo uma elevada morada, auxilio todavia o homem atormentado e humilhado; venho reanimar os humildes, e levantar os ânimos abatidos.
16. Realmente, não desejo controvérsias sem fim, nem persistir sempre no descontentamento, senão o espírito desfalecerá diante de mim, assim como as almas que criei.
17. Por causa do crime de meu povo me irritei um momento; feri-o, dando-lhe as costas na minha indignação, enquanto o rebelde agia segundo sua fantasia.
18. Vi sua conduta, disse o Senhor, e o curarei. Vou guiá-lo e consolá-lo,
19. vou fazer assomar aos lábios dos aflitos a ação de graças. Paz, paz àquele que está longe e àquele que está perto.
20. Mas os ímpios são como um mar encapelado, que não pode acalmar-se, cujas ondas revolvem lodo e lama. Não há paz para os ímpios, diz meu Deus.

 
Capítulo 58

1. Clama em alta voz, sem constrangimento; faze soar a tua voz como a corneta. Denuncia a meu povo suas faltas, e à casa de Jacó seus pecados.
2. Sem dúvida eles me procuram dia após dia, desejam conhecer o comportamento que me agrada, como uma nação que houvesse sempre praticado a justiça, sem abandonar a lei de seu Deus. Informam-se junto a mim sobre as exigências da justiça, desejam a presença de Deus.
3. De que serve jejuar, se com isso não vos importais? E mortificar-nos, se nisso não prestais atenção? É que no dia de vosso jejum, só cuidais de vossos negócios, e oprimis todos os vossos operários.
4. Passais vosso jejum em disputas e altercações, ferindo com o punho o pobre. Não é jejuando assim que fareis chegar lá em cima vossa voz.
5. O jejum que me agrada porventura consiste em o homem mortificar-se por um dia? Curvar a cabeça como um junco, deitar sobre o saco e a cinza? Podeis chamar isso um jejum, um dia agradável ao Senhor?
6. Sabeis qual é o jejum que eu aprecio? – diz o Senhor Deus: É romper as cadeias injustas, desatar as cordas do jugo, mandar embora livres os oprimidos, e quebrar toda espécie de jugo.
7. É repartir seu alimento com o esfaimado, dar abrigo aos infelizes sem asilo, vestir os maltrapilhos, em lugar de desviar-se de seu semelhante.
8. Então tua luz surgirá como a aurora, e tuas feridas não tardarão a cicatrizar-se; tua justiça caminhará diante de ti, e a glória do Senhor seguirá na tua retaguarda.
9. Então às tuas invocações, o Senhor responderá, e a teus gritos dirá: Eis-me aqui! Se expulsares de tua casa toda a opressão, os gestos malévolos e as más conversações;
10. se deres do teu pão ao faminto, se alimentares os pobres, tua luz levantar-se-á na escuridão, e tua noite resplandecerá como o dia pleno.
11. O Senhor te guiará constantemente, alimentar-te-á no árido deserto, renovará teu vigor. Serás como um jardim bem irrigado, como uma fonte de águas inesgotáveis.
12. Reerguerás as ruínas antigas, reedificarás sobre os alicerces seculares; chamar-te-ão o reparador de brechas, o restaurador das moradias em ruínas.
13. Se te abstiveres de calcar aos pés o sábado, de cuidar de teus negócios no dia que me é consagrado, se achares o sábado um dia maravilhoso, se achares respeitável o dia consagrado ao Senhor, se tu o venerares não seguindo os teus caminhos, não te entregando às tuas ocupações e às conversações,
14. então encontrarás tua felicidade no Senhor: eu te farei galgar as alturas da terra, e gozar a herança de Jacó, teu pai; porque a boca do Senhor falou.

 
Capítulo 59

1. Não, não é a mão do Senhor que é incapaz de salvar, nem seu ouvido demasiado surdo para ouvir,
2. são vossos pecados que colocaram uma barreira entre vós e vosso Deus. Vossas faltas são o motivo pelo qual a Face se oculta para não vos ouvir,
3. porque vossas mãos estão manchadas de sangue e vossos dedos de crimes; vossos lábios proferem mentira, vossa língua entretém pérfidas conversas.
4. Pessoa alguma cita em justiça com razão, ninguém pleiteia de boa fé: apóiam-se sobre falsos argumentos, pretende-se aquilo que não é. Concebeu-se a intriga e gera-se o crime.
5. Chocam ovos de áspide, e tecem teias de aranha. Se se comem seus ovos, morre-se, se se quebra um, sai dele uma víbora;
6. suas teias não poderiam servir para roupa, não nos podemos cobrir com o que tecem. Fazem obras infamantes, entregam-se a atos de violência.
7. Seus pés correm para o mal: têm pressa de derramar o sangue inocente. Meditam projetos malignos, só se encontram sobre sua passagem estrago e ruínas;
8. o caminho da paz lhes é desconhecido, seguem atalhos tortuosos, onde aqueles que passam ignoram a felicidade.
9. Eis por que o direito permanece afastado de nós, e a justiça não vem a nós. Esperamos a luz, e eis as trevas; aguardamos o dia, e andamos na escuridão.
10. Vamos como cegos apalpando o muro, caminhamos às apalpadelas como aqueles que perderam a vista. Em pleno dia tropeçamos como ao crepúsculo, mergulhamos nas trevas como os mortos.
11. Rugimos todos como ursos, e gememos como pombas. Esperamos o direito, mas em vão, a salvação, mas ela permanece longe de nós,
12. porque nossas faltas são inúmeras perante vós, e nossos pecados dão testemunho contra nós; temos consciência de nossos crimes, e conhecemos nossas iniqüidades:
13. nós nos temos revoltado contra o Senhor e o temos renegado, nós nos afastamos de nosso Deus; só temos falado de opressão e de revolta, exalamos de nosso coração palavras mentirosas.
14. O direito é posto de lado, a justiça se mantém afastada, a boa fé tropeça na praça pública e não pode ali entrar a retidão.
15. Desaparecida a boa fé, fica despojado aquele que se abstém do mal. O Senhor viu com indignação que não havia mais justiça.
16. Viu que aí não existia pessoa alguma, e admirou-se de que ninguém interviesse. Então foi seu próprio braço que lhe veio em auxílio, e sua justiça que lhe serviu de apoio.
17. Vestiu a justiça como uma couraça, pôs sobre a cabeça o capacete da salvação, revestiu-se da vingança como de uma cota de armas, e envolveu-se de zelo como de um manto.
18. Pagará a cada um segundo suas obras: cólera contra seus adversários, represália contra seus inimigos. (Usará de represálias contra as ilhas).
19. Desde o poente será visto o nome do Senhor, e desde o levante sua majestade, pois ele virá como uma torrente impetuosa precipitada pelo sopro do Senhor.
20. Mas virá como redentor a Sião, e aos filhos arrependidos de Jacó – Oráculo do Senhor.
21. (Eis minha aliança com eles, diz o Senhor: meu espírito que sobre ti repousa, e minhas palavras que coloquei em tua boca não deixarão teus lábios nem os de teus filhos, nem os de seus descendentes, diz o Senhor, desde agora e para sempre).

 
Capítulo 60

1. Levanta-te, sê radiosa, eis a tua luz! A glória do Senhor se levanta sobre ti.
2. Vê, a noite cobre a terra e a escuridão, os povos, mas sobre ti levanta-se o Senhor, e sua glória te ilumina.
3. As nações se encaminharão à tua luz, e os reis, ao brilho de tua aurora.
4. Levanta os olhos e olha à tua volta: todos se reúnem para vir a ti; teus filhos chegam de longe, e tuas filhas são transportadas à garupa.
5. Essa visão tornar-te-á radiante; teu coração palpitará e se dilatará, porque para ti afluirão as riquezas do mar, e a ti virão os tesouros das nações.
6. Serás invadida por uma multidão de camelos, pelos dromedários de Madiã e de Efá; virão todos de Sabá, trazendo ouro e incenso, e publicando os louvores do Senhor.
7. Todo o gado menor de Cedar se reunirá junto a ti, os carneiros de Nabaiot ficarão à tua disposição; fá-los-ão subir sobre meu altar para minha satisfação, e para a honra de meu templo glorioso.
8. Quem é que voa assim como as nuvens, ou como as pombas volvendo ao pombal?
9. Sim, as frotas convergem para mim, e os navios de Társis abrem a marcha, para trazer de longe teus filhos, bem como sua prata e seu ouro, para honrar o nome do Senhor teu Deus, o Santo de Israel, que te cobriu de glória.
10. Estrangeiros reerguerão tuas muralhas, e seus reis te servirão, pois, se te castiguei na minha cólera, na minha bondade tenho piedade de ti.
11. Tuas portas ficarão abertas permanentemente, nem de dia nem de noite serão fechadas, a fim de deixar afluir as riquezas das nações sob a custódia de seus reis.
12. (Porque a nação ou o reino que recusar servir-te perecerá, e sua terra será devastada).
13. A glória do Líbano virá a ti, e todos juntos, o cipreste, a faia e o buxo, para ornamentar meu lugar santo e honrar o lugar onde pousam meus pés.
14. Os próprios filhos de teus opressores a ti virão humilhados; a teus pés se prostrarão todos aqueles que te desprezavam; chamar-te-ão a cidade do Senhor, a Sião do Santo de Israel.
15. De abandonada e amaldiçoada, sem ninguém para te socorrer, farei de ti um objeto de admiração para sempre, um motivo de alegria para as gerações futuras.
16. Sugarás o leite das nações, e mamarás ao peito dos reis: saberás que eu, o Senhor, sou teu salvador, que teu redentor é o Poderoso de Jacó.
17. Em vez de bronze, farei vir ouro; em lugar de ferro, farei vir prata; (em vez de madeira, bronze; em vez de pedras, ferro), farei reinar sobre ti a paz, e governar a justiça.
18. Não se ouvirá mais falar de violência em tua terra, nem de devastações e de ruínas em teu território. Chamarás tuas muralhas Salvação, tuas portas, Glória.
19. Não terás mais necessidade de sol para te alumiar, nem de lua para te iluminar: permanentemente terás por luz o Senhor, e teu Deus por resplendor.
20. Teu sol não mais se deitará, e tua lua não terá mais declínio, porque terás constantemente o Senhor por luz, e teus dias de luto estarão acabados.
21. Teu povo será um povo de justos que possuirá a terra para sempre; será uma planta cultivada pelo Senhor, obra de suas mãos destinada à sua glória.
22. Do menor nascerá toda uma tribo, e do mínimo, uma nação poderosa, sou eu, o Senhor, que em tempo oportuno realizarei essas coisas.

 
Capítulo 61

1. O espírito do Senhor repousa sobre mim, porque o Senhor consagrou-me pela unção; enviou-me a levar a boa nova aos humildes, curar os corações doloridos, anunciar aos cativos a redenção, e aos prisioneiros a liberdade;
2. proclamar um ano de graças da parte do Senhor, e um dia de vingança de nosso Deus; consolar todos os aflitos,
3. dar-lhes um diadema em vez de cinzas, o óleo da alegria em vez de vestidos de luto, cânticos de glória em lugar de desespero. Então os chamarão as azinheiras da justiça, plantadas pelo Senhor para sua glória.
4. Reconstruirão as ruínas antigas, reerguerão as relíquias do passado, restaurarão as cidades destruídas, repararão as devastações seculares;
5. virão estrangeiros apascentar vosso gado miúdo, gente de fora vos servirá de lavradores e vinhateiros;
6. a vós chamar-vos-ão sacerdotes do Senhor, de ministros de nosso Deus sereis qualificados. Vós vos alimentareis com as riquezas das nações, e brilhareis com sua opulência.
7. Já que tiveram parte dupla de vergonha e tiveram como quinhão opróbrios e escarros, receberão em sua terra parte dupla de herança, e a alegria deles será eterna.
8. Porque eu, o Senhor, amo a eqüidade, e detesto o fruto da rapina; por isso vou dar-lhes fielmente sua recompensa, e concluir com eles uma aliança eterna.
9. Sua raça tornar-se-á célebre entre as nações, e sua descendência entre os povos: todos, vendo-os, reconhecerão que são a abençoada raça do Senhor.
10. Com grande alegria eu me rejubilarei no Senhor e meu coração exultará de alegria em meu Deus, porque me fez revestir as vestimentas da salvação. Envolveu-me com o manto de justiça, como um neo-esposo cinge o turbante, como uma jovem esposa se enfeita com suas jóias.
11. Porque, quão certo o sol faz germinar seus grãos e um jardim faz brotar suas sementes, o Senhor Deus fará germinar a justiça e a glória diante de todas as nações.

 
Capítulo 62

1. Por amor a Sião, eu não me calarei, por amor de Jerusalém, não terei sossego, até que sua justiça brilhe como a aurora, e sua salvação como uma flama.
2. As nações verão então tua vitória, e todos os reis teu triunfo. Receberás então um novo nome, determinado pela boca do Senhor.
3. E tu serás uma esplêndida coroa na mão do Senhor, um diadema real entre as mãos do teu Deus;
4. não mais serás chamada a desamparada, nem tua terra, a abandonada; serás chamada: minha preferida, e tua terra: a desposada, porque o Senhor se comprazerá em ti e tua terra terá um esposo;
5. assim como um jovem desposa uma jovem, aquele que te tiver construído te desposará; e como a recém-casada faz a alegria de seu marido, tu farás a alegria de teu Deus.
6. Sobre tuas muralhas, Jerusalém, coloquei vigias; nem de dia nem de noite devem calar-se. Vós, que deveis manter desperta a memória do Senhor, não vos concedais descanso algum
7. e não o deixeis em paz, até que tenha restabelecido Jerusalém para dela fazer a glória da terra.
8. O Senhor o jurou por sua destra e por seu braço poderoso: Não deixarei mais teus inimigos alimentarem-se de teu trigo, nem os estrangeiros beberem o vinho, produto de teu trabalho.
9. Aqueles que colherem o trigo o comerão louvando o Senhor; aqueles que vindimarem beberão o vinho no átrio de meu santuário.
10. Passai, passai pelas portas, preparai o caminho ao povo! Abri, abri a estrada, retirai dela as pedras! Alçai o estandarte para convocar os povos.
11. Eis o que o Senhor proclama até os confins da terra: Dizei a Sião: eis, aí vem teu salvador; eis com ele o preço de sua vitória, ele faz-se preceder dos frutos de sua conquista;
12. os resgatados do Senhor serão chamados Povo Santo, e tu, cidade não mais desamparada, serás chamada a desejada.

 
Capítulo 63

1. Quem é aquele que vem de Edom, de Bosra, as vestes tintas, envolvido num traje magnífico, altaneiro na plenitude de sua força? Sou eu, que luto pela justiça e sou poderoso para salvar.
2. Por que, pois, tuas roupas estão vermelhas como as vestimentas daquele que pisa num lagar?
3. Eu pisei sozinho o lagar, e ninguém dentre os povos me auxiliou. Então eu os calquei com cólera, esmaguei-os com fúria; o sangue deles espirrou sobre meu vestuário, manchei todas as minhas roupas.
4. É que eu desejava um dia de vingança, e o ano da redenção dos meus havia chegado.
5. Olhei então, e não houve pessoa alguma para me ajudar; estranhei que ninguém me viesse amparar; então apelei para meu braço e achei forças na minha indignação.
6. Por isso, na minha cólera, arrasei os povos, na minha fúria triturei-os, fazendo correr seu sangue pela terra.
7. Quero celebrar os benefícios do Senhor e seus gloriosos feitos, por tudo o que fez em nosso favor, e por sua grande bondade, com a qual nos cumulou na sua ternura e na riqueza de seu amor.
8. Verdadeiramente, dizia de si para si, aqueles são meu povo, filhos que não me renegarão. E tornou-se seu salvador
9. em todas as suas aflições. Não era um mensageiro nem um anjo, mas sua própria Face que os salvava. No seu amor e na sua ternura ele mesmo os livrava do perigo. Durante o passado sustentou-os e amparou-os constantemente.
10. Mas revoltaram-se, ofenderam seu santo espírito, desde então tornou-se inimigo deles, e lhes fez guerra. Então se lembraram dos dias de outrora, de Moisés, seu servo.
11. Onde está aquele que tirou dos céus o pastor de seu rebanho? Onde está aquele que pôs nele seu santo espírito?
12. Aquele que à direita de Moisés atuou com o seu braço glorioso, e dividiu as águas diante dos seus para assegurar-se um renome eterno;
13. e os conduziu através dos abismos, sem tropeçarem, como o cavalo em descampado.
14. Como ao animal que desce ao vale, o espírito do Senhor os levava ao repouso. Foi assim que conduzistes vosso povo, para afirmar vosso glorioso renome.
15. Olhai do alto do céu e vede de vossa santa e gloriosa morada: Que foi feito de vosso amor ciumento e de vosso poder, e da emoção de vosso coração? Dai livre expansão à vossa ternura,
16. porque sois nosso pai. Abraão, de fato, nos ignora, e Israel não nos conhece; sois vós, Senhor, o nosso pai, nosso Redentor desde os tempos passados.
17. Por que, Senhor, desviar-nos para longe de vossos caminhos, por que tornar nossos corações insensíveis ao vosso temor? Voltai, por amor de vossos servos e das tribos de vossa herança!
18. Por que pagãos invadiram vosso templo, e nossos inimigos pisaram vosso santuário? Há muito tempo estamos como gente que já não governais, e que não traz vosso nome.

 
Capítulo 64

1. Oh! Se rasgásseis os céus, se descêsseis para fazer desabar diante de vós as montanhas,
2. como o fogo faz fundir a cera, como a chama faz evaporar a água, assim faríeis conhecer a vossos adversários quem sois, e as nações tremeriam diante de vós,
3. vendo-vos executar prodígios inesperados dos quais nunca se tinha ouvido falar.
4. Nenhum ouvido ouviu, olho algum viu outro deus salvar assim aqueles que contam com ele.
5. Vós vindes à frente daqueles que procedem bem, e se recordam de vossas vias. Eis que vos irritastes, e nós éramos culpados; isso perdura há muito tempo: como seríamos salvos?
6. Todos nós nos tornamos como homens impuros, nossas boas ações são como roupa manchada; como folhas todos nós murchamos, levados por nossos pecados como folhas pelo vento.
7. Não há ninguém para invocar vosso nome, para recuperar-se e a vós se afeiçoar, porque nos escondeis a vossa Face, e nos deixais ir a nossos pecados.
8. E, no entanto, Senhor, vós sois nosso pai; nós somos a argila da qual sois o oleiro: todos nós fomos modelados por vossas mãos.
9. Oh! Senhor, não vos irriteis excessivamente! Não guardeis a lembrança da culpa indefinidamente. Olhai, pois! Somos vosso povo:
10. apesar disso, vossas cidades santas tornaram-se um deserto, Sião tornou-se um ermo, Jerusalém, uma solidão.
11. Nosso santo e glorioso templo, onde nossos antepassados celebravam vossos louvores, tornou-se presa das chamas: tudo o que tínhamos de precioso foi saqueado.
12. A esse espetáculo, Senhor, podereis ficar insensível? Guardar silêncio e humilhar-nos mais ainda?

 
Capítulo 65

1. Mantive-me à disposição das pessoas que não me consultavam, ofereci-me àqueles que não me procuravam. Eis-me aqui, eis-me aqui, dizia eu a um povo que não invocava meu nome.
2. Estendia constantemente as mãos a uma nação indócil e rebelde, que seguia o mau caminho de acordo com suas inclinações;
3. há pessoas que não cessam de provocar-me diretamente, que sacrificam nos jardins, e queimam perfumes em cima de tijolos,
4. que se instalam nos túmulos, e passam a noite em antros, que comem carne de porco, e guarnecem seus pratos de alimentos imundos;
5. Mantém-te à distância, dizem eles, não me toques, porque eu te santificaria. Tudo isso me enche as narinas da fumaça, de um fogo que queima sempre.
6. Pois bem, eis a decisão que tomei: não me calarei enquanto não os fizer expiar
7. suas iniqüidades e as de seus pais, que queimavam o incenso nas montanhas, e me ultrajavam nas colinas. Vou calcular o salário deles, e lançá-lo em seu próprio seio.
8. Eis o que diz o Senhor: quando se encontra sumo num cacho de uvas, diz-se: Não o destruam, há aí uma bênção. Assim, por amor a meus servos, em lugar de destruir tudo,
9. tirarei de Jacó uma raça, e de Judá um herdeiro de minhas montanhas; meus eleitos as possuirão, e meus servos aí viverão.
10. Saron servirá de pastagem ao rebanho miúdo, e no vale de Acor espojar-se-ão os bois (para o povo que me tiver procurado).
11. Quanto a vós, desertores do Senhor, que haveis esquecido meu monte santo, que preparais a mesa para Gad, e encheis a taça de vinho aromatizado para Meni,
12. à espada eu vos destino; todos vós vos curvareis para serdes degolados, porque quando eu chamava, não respondíeis; quando falava, vos fazíeis de surdos; praticáveis o que eu acho ruim, e escolhíeis o que me desagrada.
13. Portanto, eis o que diz o Senhor Deus: meus servos comerão e vós tereis fome, meus servos beberão e vós tereis sede, meus servos se rejubilarão e vós ficareis envergonhados,
14. meus servos cantarão na alegria de seu coração, e vós vos lamentareis com o coração angustiado, rugireis com a alma em desespero.
15. Vosso nome ficará como um termo de maldição entre meus eleitos: (Que o Senhor Deus te faça morrer!) enquanto meus servos receberão um novo nome.
16. Aquele que desejar ser abençoado na terra, desejará sê-lo pelo Deus fiel, e aquele que jurar na terra, jurará pelo Deus fiel, porque as desgraças de outrora serão esquecidas, já não lhes volverão ao espírito.
17. Pois eu vou criar novos céus, e uma nova terra; o passado já não será lembrado, já não volverá ao espírito,
18. mas será experimentada a alegria e a felicidade eterna daquilo que vou criar. Pois vou criar uma Jerusalém destinada à alegria, e seu povo ao júbilo;
19. Jerusalém me alegrará, e meu povo me rejubilará; doravante já não se ouvirá aí o ruído de soluços nem de gritos.
20. Já não morrerá aí nenhum menino, nem ancião que não haja completado seus dias; será ainda jovem o que morrer aos cem anos: não atingir cem anos será uma maldição.
21. Serão construídas casas onde habitarão, serão plantadas vinhas cujos frutos comerão.
22. Não mais se construirá para que outro se instale; não mais se plantará para que outro se alimente. Os filhos de meu povo durarão tanto quanto as árvores, e meus eleitos gozarão do trabalho de suas mãos.
23. Não trabalharão mais em vão, não darão mais à luz filhos votados a uma morte repentina, porque serão a raça abençoada pelo Senhor, eles e seus descendentes.
24. Antes mesmo que me chamem, eu lhes responderei; estarão ainda falando e já serão atendidos.
25. O lobo e o cordeiro pastarão juntos, o leão, como um boi, se alimentará de palha, e a serpente comerá terra. Nenhum mal nem desordem alguma será cometida, em todo o meu monte santo, diz o Senhor.

 
Capítulo 66

1. Eis o que diz o Senhor: o céu é meu trono, e a terra meu escabelo. Que casa poderíeis contruir-me, que lugar poderíeis indicar-me para moradia?
2. Fui eu quem fez o universo, e tudo me pertence, declara o Senhor E o angustiado que atrai meus olhares, o coração contrito que teme minha palavra.
3. Imola-se um boi e mata-se um homem, sacrifica-se uma ovelha e parte-se a nuca de um cão, apresenta-se uma oblação e derrama-se sangue de porco, queima-se incenso e veneram-se ídolos; tal como essa gente adere a suas práticas, e aprecia seus atos abomináveis,
4. também eu terei prazer em maltratá-los. E farei vir sobre eles os males que temem, porque chamei, sem que ninguém me respondesse, falei, sem que me escutassem, porque fizeram aquilo que considero um mal, e escolheram o que me desagrada.
5. Ouvi a palavra do Senhor, vós que a temeis! eis o que dizem vossos irmãos que vos odeiam, que vos renegam por causa de meu nome: Que o Senhor manifeste sua glória para que vejamos vossa alegria! Mas eles serão confundidos.
6. Escutai esse tumulto que se levanta da cidade, esse barulho que vem do templo. Escutai, é o Senhor que trata seus inimigos como o merecem.
7. Antes da hora ela deu à luz, antes de sentir as dores, deu à luz um filho.
8. Quem jamais ouviu tal coisa, quem jamais viu coisa semelhante? É possível um país nascer num dia? Pode uma nação ser criada repentinamente? Desde as primeiras dores Sião deu à luz seus filhos.
9. Para que não desse à luz abriria eu o seio materno?, diz o Senhor. Eu que dou a fecundidade, o fecharia?, diz teu Deus.
10. Regozijai-vos com Jerusalém e encontrai aí a vossa alegria, vós todos que a amais; com ela ficai cheios de alegria, vós todos que estais de luto,
11. a fim de vos amamentar à saciedade em seu seio que consola, a fim de que sugueis com delícias seus peitos generosos.
12. Pois eis o que diz o Senhor: vou fazer a paz correr para ela como um rio, e como uma torrente transbordante a opulência das nações. Seus filhinhos serão carregados ao colo, e acariciados no regaço.
13. Como uma criança que a mãe consola, sereis consolados em Jerusalém.
14. Com essa visão vossos corações pulsarão de alegria, e vossos membros se fortalecerão como plantas. O Senhor manifestará a seus servos seu poder, e aos seus inimigos sua cólera.
15. Pois o Senhor virá no meio do fogo, com seus carros semelhantes ao furacão, para satisfazer sua cólera num braseiro, e cumprir suas ameaças em chamas ardentes;
16. porque o Senhor fará a justiça de toda a terra pelo fogo e de todo o ser vivente pela espada, e muitos cairão sob os golpes do Senhor.
17. Aqueles que se santificam e se purificam para ir aos jardins, conduzidos por alguém que se encontra no meio deles, aqueles que comem carne de porco, de animais rasteiros e ratos, verão cessar ao mesmo tempo suas maneiras de agir e de pensar, declara o Senhor.
18. E virei para reunir os homens de todas as nações e de todas as línguas; todos virão e verão minha glória.
19. Executarei no meio deles um prodígio e enviarei às nações aqueles dentre eles que tiverem escapado (a Társis, Put e Lud, Mosoc e Ros, Tubal e Javã), às ilhas longínquas que nunca ouviram falar de mim e não viram minha glória; eles farão conhecer às nações a minha glória.
20. De cada uma das nações trarão todos os vossos irmãos como oferenda ao Senhor, a cavalo, em carros, em liteiras, em lombo de mulas e de dromedários, ao meu monte santo, a Jerusalém, diz o Senhor, tal como os filhos de Israel trazem sua oferenda em vasos purificados à casa do Senhor.
21. Escolherei mesmo entre eles sacerdotes e levitas, diz o Senhor.
22. Pois, assim como os novos céus e a nova terra que vou criar devem subsistir diante de mim, declara o Senhor, assim devem subsistir vossa raça e vosso nome.
23. E assim, cada mês, à lua nova, e cada semana, aos sábados, todos virão prostrar-se diante de mim, diz o Senhor.
24. E quando se virarem, poderão ver os cadáveres daqueles que se revoltaram contra mim, porque o verme deles não morrerá e seu fogo não se extinguirá, e para todos serão um espetáculo horripilante.

 

Jeremias

Jeremias

 Capítulo 1

1. Palavras de Jeremias, filho de Helcias, um dos sacerdotes que viviam em Anatot, na terra de Benjamim.
2. A palavra do Senhor foi-lhe dirigida no tempo de Josias, filho de Amon, rei de Judá, no décimo terceiro ano de seu reinado.
3. Foi-lhe ainda dirigida no tempo de Joaquim, filho de Josias, rei de Judá, até o fim do décimo primeiro ano do reinado de Sedecias, filho de Josias, rei de Judá, até a deportação dos habitantes de Jerusalém, no quinto mês.
4. Foi-me dirigida nestes termos a palavra do Senhor:
5. Antes que no seio fosses formado, eu já te conhecia; antes de teu nascimento, eu já te havia consagrado, e te havia designado profeta das nações.
6. E eu respondi: Ah! Senhor JAVÉ, eu nem sei falar, pois que sou apenas uma criança.
7. Replicou porém o Senhor: Não digas: Sou apenas uma criança: porquanto irás procurar todos aqueles aos quais te enviar, e a eles dirás o que eu te ordenar.
8. Não deverás temê-los porque estarei contigo para livrar-te – oráculo do Senhor.
9. E o Senhor, estendendo em seguida a sua mão, tocou-me na boca. E assim me falou: Eis que coloco minhas palavras nos teus lábios.
10. Vê: dou-te hoje poder sobre as nações e sobre os reinos para arrancares e demolires, para arruinares e destruíres, para edificares e plantares.
11. Nestes termos foi-me dirigida a palavra do Senhor: Que vês, Jeremias? E eu respondi: Vejo um ramo de amendoeira.
12. Viste bem, disse-me o Senhor, porque velo sobre minha palavra para que se cumpra.
13. Pela segunda vez dirigiu-se a mim a palavra do Senhor, e assim falou: Que estás vendo? Vejo, respondi, uma caldeira fervente cujo vapor toma a direção norte-sul.
14. Disse-me o Senhor: É do norte que vai transbordar a desgraça sobre todos os habitantes da terra.
15. Pois vou convocar todos os povos dos reinos do norte – oráculo do Senhor. Eles virão, e cada um estabelecerá seu sólio diante das portas de Jerusalém, em torno de suas muralhas, e de todas as cidades de Judá.
16. Eu os condenarei pelos males que cometeram, por me haverem abandonado, ofertando incenso a outros deuses e adorando a obra de suas mãos.
17. Tu, porém, cinge-te com o teu cinto e levanta-te para dizer-lhes tudo quanto te ordenar. Não temas a presença deles; senão eu te aterrorizarei à vista deles;
18. quanto a mim, desde hoje, faço de ti uma fortaleza, coluna de ferro e muro de bronze, (erguido) diante de toda nação, diante dos reis de Judá e seus chefes, diante de seus sacerdotes e de todo o povo da nação.
19. Eles te combaterão mas não conseguirão vencer-te, porque estou contigo, para livrar-te – oráculo do Senhor.

 
Capítulo 2

1. A palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos:
2. Vai e clama aos ouvidos de Jerusalém estas palavras – oráculo do Senhor: Lembro-me de tua afeição quando eras jovem, de teu amor de noivado, no tempo em que me seguias ao deserto, à terra sem sementeiras.
3. Era, então, Israel propriedade sagrada do Senhor. As primícias de sua colheita, todos quantos dela comiam, carregavam-lhe a culpa, e o mal lhes advinha – oráculo do Senhor.
4. Escutai a palavra do Senhor, casa de Jacó, e vós, famílias todas que sois da casa de Israel -
5. oráculo do Senhor: Que injustiça em mim encontraram vossos pais para que de mim se afastassem correndo após o que é nada, e tornando-se a si mesmos vãos;
6. por haverem cessado de dizer: Onde está o Senhor que nos fez sair do Egito, guiando-nos através do deserto, terra de desolação e de abismos, terra de aridez e de trevas, terra por onde nenhum homem atravessa, onde homem algum habita?
7. Encaminhei-vos a uma terra de vergéis, para lhe comerdes os frutos e saborear-lhe os bens; tão logo chegastes, maculastes-me a terra; e transformastes minha herança em lugar que me causa horror.
8. Não haviam dito os sacerdotes: Onde está o Senhor? Os depositários da lei não me conheceram; revoltaram-se contra mim os pastores, e os profetas proferiram oráculos em nome de Baal. Puseram-se a seguir aqueles (deuses) que nenhum socorro lhes dão.
9. Por isso – oráculo do Senhor -, entro agora em juízo contra vós e contra os filhos de vossos filhos.
10. Passai, portanto, às ilhas de Cetim e olhai: enviai homens a Cedar e observai bem, vede se lá existe algo semelhante.
11. Troca uma nação seus deuses? (Os quais nem são deuses!) Meu povo, contudo, trocou (aquele que é) sua glória por aquele que nada é.
12. Ó céus, pasmai, tremei de espanto e horror – oráculo do Senhor.
13. Porque meu povo cometeu uma dupla perversidade: abandonou-me, a mim, fonte de água viva, para cavar cisternas, cisternas fendidas que não retêm a água.
14. Israel é servo, porventura? É escravo nascido na própria casa? Por que foi entregue à pilhagem?
15. Rugiram contra ele os leões enfurecidos; transformando a região em deserto, as cidades foram entregues às chamas, e já não possuem habitantes.
16. Até os homens de Mênfis e de Táfnis te raparam a cabeça.
17. Não te aconteceu tudo isso por haveres abandonado o Senhor teu Deus, quando te guiava pelo caminho?
18. E agora, por que tomas a rota do Egito para ir beber a água do Nilo? Para que tomas o caminho da Assíria a fim de beber a água do Eufrates?
19. Valeu-te este castigo tua malícia, e tuas infidelidades atraíram sobre ti a punição. Sabe, portanto, e vê quanto te foi funesto e amargo abandonar o Senhor teu Deus e não ter tido mais temor algum de mim – oráculo do Senhor JAVÉ dos exércitos.
20. Há muito rompeste o jugo e quebraste os laços; disseste, então: Não quero mais ser dominado. Sobre todas as colinas elevadas, debaixo de todas as árvores verdejantes, qual cortesã te reclinavas.
21. E eu que te havia plantado de vides escolhidas, todas de boa cepa; como te transformaste em sarmentos bastardos de uma videira estranha?
22. Ainda que te lavasses com potassa, e usasses muito sabão, continuaria teu pecado a macular-te a meus olhos – oráculo do Senhor JAVÉ.
23. Como podes dizer: Não me profanei nem andei atrás dos Baal? Olha para os sinais de teus passos no vale, vê tudo o que fizeste. Dromedária leviana, a correr sem rumo,
24. jumenta selvagem habituada ao deserto, aspirando o vento no calor da paixão, quem a deterá em seus ardores? Aqueles que a procuram não se afadigarão, pois que a encontrarão no mês (do seu cio).
25. Toma cuidado que teu pé se não descalce e tua garganta não se resseque: Não vale a pena, dizes. Não! Amo os estrangeiros e quero segui-los.
26. Assim como se embaraça o ladrão ao ser pego em flagrante, assim também serão confundidos os homens da casa de Israel, eles, seus reis e seus chefes, seus sacerdotes e profetas
27. que dizem à madeira: Tu és meu pai, e à pedra: Foste tu que me geraste. Voltam-me as costas, e não o semblante. E depois exclamam, no dia da calamidade: Salvai-nos, Senhor.
28. Onde estão os deuses que havias feito? Que se levantem, se podem salvar-te no dia da desgraça. Pois que tens tantos deuses quantas cidades, ó Judá.
29. Por que discutis comigo? Vós todos me fostes infiéis – oráculo do Senhor.
30. Em vão castiguei vossos filhos, nem deram atenção à reprimenda. A espada dizimou vossos profetas qual leão devastador.
31. Que raça que sois! Considerai o que diz o Senhor: Tenho eu sido para Israel um deserto, ou terra envolta em trevas? Por que clama o meu povo: Eis que somos nossos senhores, e não voltaremos mais para vós?
32. Esquece a jovem seus ornatos, ou a noiva seu cinto? Meu povo, porém, esqueceu-me, desde dias sem conta.
33. Bem sabes encontrar o caminho a fim de procurar o que amas! Assim foi que ensinaste a teus pés o caminho do crime.
34. Até na orla de tua veste vê-se o sangue dos pobres inocentes, que, entretanto, não havias surpreendido em falta.
35. E ainda dizes: Sou inocente; por isso afastou-se de mim a sua cólera. Eis, porém, que te vou processar, já que dizes: Não pequei!
36. Com que pressa mudas de caminho! Serás desiludida pelo Egito, como o foste pela Assíria.
37. De lá sairás também com a cabeça entre as mãos, porquanto o Senhor repele aqueles em quem confias, e seu apoio não te trará bom êxito.

 
Capítulo 3

1. (A palavra do Senhor foi-me dirigida) nestes termos: Se um homem repudia a mulher, e ela o abandona para tornar-se mulher de outro, tornará o marido a recebê-la? Não ficará esta terra gravemente profanada? E tu, após haveres pecado com inúmeros amantes, voltarás para mim? – oráculo do Senhor.
2. Ergue os olhos para os lugares (altos) e vê: onde não te prostituíste? Sentavas à beira dos caminhos a espreitá-los, qual árabe no deserto; e profanaste a terra com teus vícios e devassidões.
3. Assim foram-te as chuvas recusadas, e as águas da primavera não caíram; tu, porém, com semblante lascivo, não quiseste envergonhar-te.
4. E agora clamas: Pai, amigo de minha juventude!
5. Ficará ele para sempre irritado? E guardará de mim eterno rancor? Eis o que dizes, ainda que persistindo em praticar o mal.
6. No tempo do rei Josias, disse-me o Senhor: Viste o que fez Israel, a Revoltada? Andou pelas montanhas altaneiras e sob as árvores verdejantes, para entregar-se à prostituição.
7. E eu pensei comigo mesmo: depois de haver cometido todos esses crimes, ela voltará para mim… Porém, não voltou! Soube disso sua irmã, a Pérfida Judá.
8. E viu como repudiei a Revoltada Israel e lhe concedi a carta de divórcio, em razão de seus adultérios. Contudo, sua irmã, a Pérfida Judá, não se atemorizou, mas também ela se tornou prostituta!
9. E com sua ardente luxúria maculou a terra, adulterando-se com a pedra e com a madeira.
10. Não obstante tudo isso, sua irmã, a Pérfida Judá, não voltou para mim na inteireza do seu coração. Era apenas hipocrisia – oráculo do Senhor.
11. Disse-me em seguida o Senhor: A Revoltada Israel afigura-se inocente em face da Pérfida Judá.
12. Vai, inclina-te para o norte e profere em altas vozes: volta, Israel, Revoltada – oráculo do Senhor; não te mostrarei mais um semblante enfurecido, pois que sou benigno – oráculo do Senhor; não guardo rancor eterno.
13. Reconhece apenas a tua falta; foste infiel ao Senhor, teu Deus; vagaste à procura de (deuses) estrangeiros sob todas as árvores verdejantes; não escutaste minha voz – oráculo do Senhor.
14. Voltai, filhos rebeldes – oráculo do Senhor -, pois que sou vosso Senhor. Eu vos tomarei, um de cada cidade e dois de cada família e vos reconduzirei a Sião.
15. Dar-vos-ei pastores segundo o meu coração, os quais vos apascentarão com inteligência e sabedoria.
16. Quando vos multiplicardes e numerosos vos tornardes na terra, naqueles dias – oráculo do Senhor – não mais se falará da Arca da Aliança do Senhor; nem mais se pensará nela, perdendo-se a lembrança e a saudade; nem a ela se há de referir.
17. Naquele tempo, Jerusalém será chamada trono do Senhor e todas as nações lá se reunirão em nome do Senhor, sem mais persistir na obstinação do seu coração perverso.
18. Naqueles dias, a casa de Judá unir-se-á à de Israel, e das regiões do norte voltarão juntas à terra, cuja posse concedi a seus pais.
19. Que lugar, dissera eu, vou conceder-te entre meus filhos, que terra de delícias vou dar-te como herança, a mais bela jóia das nações! E eu acrescentara: Chamar-me-ás: meu pai, e não te desviarás de mim.
20. Mas, qual a mulher que trai aquele que a ama, assim me traíste, casa de Israel – oráculo do Senhor.
21. Nas colinas ressoa um clamor: suspiros de súplica dos israelitas, porque seguiram caminhos tortuosos, esquecendo-se do Senhor, seu Deus.
22. Voltai, filhos rebeldes, e eu sanarei (as conseqüências) de vossas revoltas. Aqui estamos (dizeis), voltamos para vós, porque sois o Senhor, nosso Deus.
23. Em verdade, é ilusório (o culto) nas colinas, as festas tumultuosas nas montanhas; é realmente no Senhor, nosso Deus, que se encontra a salvação de Israel.
24. O ídolo infame devora, desde nossa juventude, o produto do labor de nossos pais, o gado e os rebanhos, seus filhos e suas filhas.
25. Deitemo-nos em nossa vergonha, e que nos sirva de coberta nossa ignomínia, pois pecamos, nós e nossos pais, desde a juventude até o dia de hoje, contra o Senhor, nosso Deus, e não escutamos a voz do Senhor, nosso Deus.

 
Capítulo 4

1. Se tu, Israel, voltares – oráculo do Senhor, se voltares para mim, se ante meu olhar te despojares de tuas práticas abomináveis; se não andares a vaguear de um lado para outro,
2. se pela vida do Senhor jurares, lealmente, com retidão e justiça, então as nações incluir-te-ão em suas bênçãos, e almejarão partilhar de tua glória.
3. Assim fala o Senhor aos homens de Judá e Jerusalém: Desbravai um novo campo, evitai semear entre espinhos, ó homens de Judá e Jerusalém.
4. Circuncidai-vos em honra do Senhor, tirai os prepúcios de vossos corações, para que meu furor se não converta em fogo, e não vos consuma, sem que ninguém possa extingui-lo, por causa da perversidade de vossos atos.
5. Dai o alarme ao povo de Judá, avisai Jerusalém; mandai soar a trombeta pela terra inteira; gritai em altas vozes! Proclamai: Reuni-vos! Retiremo-nos para as cidades fortificadas!
6. Erguei um estandarte dos lados de Sião! Abrigai-vos, não vos detenhais! Pois que vou desencadear do norte uma desgraça, catástrofe imensa.
7. Do seu covil parte um leão, e qual demolidor de nações se põe a caminho, saindo de seu refúgio para transformar em deserto a tua terra, e as cidades em desolação, onde ninguém mais habitará.
8. Revesti-vos, pois, de saco, chorai e gemei, pois que a tremenda cólera do Senhor não se afastou de nós.
9. Naquele dia, – oráculo do Senhor -, faltará a coragem tanto ao rei como aos chefes; os sacerdotes serão tomados de terror; e os profetas, de espanto.
10. Dir-se-á: Ah! Senhor JAVÉ! Na verdade enganastes este povo e Jerusalém, quando lhe dissestes: Tereis a paz, no momento em que a espada ia feri-los de morte.
11. Naquele tempo, dir-se-á a esse povo e a Jerusalém: qual vento abrasador desencadeado das colinas do deserto; incapaz de joeirar e purificar, assim é o proceder da filha do meu povo;
12. vento impetuoso chega de lá até mim, mas, por minha vez, vou agora pronunciar minha sentença:
13. eis que alguém se levanta, como nuvens tempestuosas. São seus carros semelhantes ao furacão, seus cavalos, mais ligeiros que águias. Ai de nós! Estamos perdidos!
14. Jerusalém, limpa o coração da maldade, a fim de que consigas a salvação. Até quando abrigarás no coração pensamentos que te são funestos?
15. Eis que uma voz, vinda de Dã, dá o alarme, e desde os montes de Efraim anuncia a calamidade.
16. Proclamai-a às nações, ei-la! Levai a notícia até Jerusalém: assaltantes chegam de terra longínqua, lançando clamores contra as cidades de Judá.
17. Quais guardiães de campo, circundam a cidade, por se haver ela revoltado contra mim – oráculo do Senhor.
18. É o teu proceder, são os teus atos que te acarretam essas desgraças. Eis o fruto de tua malícia, uma amargura que te fere o coração.
19. Minhas entranhas! Minhas entranhas! Sofro! Oh! as fibras de meu coração! O coração me bate, não me posso calar! Ouço o som das trombetas e o fragor da batalha.
20. Anunciam-se desastres sobre desastres, todo o país foi devastado. Foram de repente destruídas minhas tendas; num instante, meus pavilhões.
21. Até quando verei o estandarte, e ouvirei o som da trombeta?
22. Está louco o meu povo; nem mais me conhece. São filhos insensatos, desprovidos de inteligência, hábeis em praticar o mal, incapazes do bem.
23. Olho para a terra: tudo é caótico e deserto; para o céu: dele desapareceu toda a luz.
24. Olho para as montanhas e as vejo vacilar; e as colinas todas estremecem.
25. Olho: já não há nenhum ser humano; todas as aves do céu fugiram.
26. Olho: tornaram-se desertos os campos; todas as cidades foram destruídas diante do Senhor, ante a fúria de sua cólera.
27. Porque toda a terra será devastada – oráculo do Senhor -, mas não a exterminarei completamente.
28. Eis a razão pela qual a terra cobriu-se de luto, e o céu, lá no alto, revestiu-se de negror. Pois que eu disse, e assim decretei: não voltarei atrás e não me retratarei.
29. Ao grito de: Cavaleiros! Arqueiros!, toda a terra desandou em fuga. Lançaram-se nos esconderijos e galgaram rochedos, as cidades foram abandonadas e os habitantes desapareceram.
30. E tu, devastada, para que revestir-te de púrpura, engalanar-te com ornamentos de ouro, e alongar-te os olhos com pinturas? Em vão tentas ser bela; desprezam-te os amantes. É tua vida que odeiam.
31. Ouço gritos como os da mulher ao dar à luz, gritos de angústia quais os do primeiro parto. São os clamores da filha de Sião; geme e ergue as mãos: Desgraçada de mim! Desfaleço ante os algozes.

 
Capítulo 5

1. Percorrei as ruas de Jerusalém, olhai, perguntai; procurai nas praças, vede se nelas encontrais um homem, um só homem que pratique a justiça e que seja leal; então eu perdoarei a cidade.
2. Mesmo quando juram: Pela vida de Deus!, é para prestar falso juramento.
3. Senhor, não se compraz o vosso olhar em contemplar a lealdade? Vós os feris, e eles não sentem a dor; vós os abateis, e recusam aceitar a correção. Mais duro que o rochedo apresentam o semblante, recusando converter-se.
4. E a mim mesmo eu dizia: são apenas vulgares e insensatos, porque não conhecem os caminhos do Senhor, a lei do seu Deus.
5. Irei procurar os grandes para falar-lhes, pois que eles conhecem as sendas do Senhor, a lei do seu Deus. Mas todos esses também quebraram o jugo, e romperam os laços.
6. Eis por que o leão da floresta os ferirá e o lobo da estepe os dizimará; a pantera os espreitará em suas cidades; e aquele que dela sair será despedaçado, porquanto numerosos são os seus delitos, e sem conta suas revoltas.
7. Por que perdoar-te? Teus filhos abandonaram-me; juram por deuses que não o são. Cumulei-os de dons; e eles cometem o adultério, acercando-se das casas de devassidão.
8. Garanhões bem nutridos, no calor do cio, cada qual relincha ante a mulher do próximo.
9. E não os punirei por esses crimes? – oráculo do Senhor. Não se vingaria minha alma de semelhante nação?
10. Escalai muros (de minha videira), destruí-a, mas não a aniquileis completamente. Arrancai-lhe os sarmentos, porquanto não pertencem ao Senhor.
11. A casa de Israel e a casa de Judá foram-me infiéis – oráculo do Senhor.
12. Renegaram o Senhor, e exclamaram: Não há Deus! Nenhum mal nos advirá, não veremos a espada e a fome.
13. São apenas vento os profetas, de ninguém são arautos; assim lhes aconteça a eles mesmos.
14. Por isso, o Senhor, Deus dos exércitos, vos diz: Já que tendes essa linguagem, vou introduzir minhas palavras como fogo em tua boca, e desse povo fazer lenha que a chama devorará.
15. Ó casa de Israel, vou lançar contra vós uma nação que vem de longe – oráculo do Senhor -, nação antiga e poderosa, da qual não compreendes a linguagem, e ignoras a fala.
16. Sua aljava é qual sepulcro escancarado, e seus homens todos são valentes;
17. ela devorará tuas searas e teu pão, devorará teus filhos e tuas filhas, devorará teus rebanhos e teu gado, devorará tuas vinhas e tuas figueiras, à ponta da espada conquistará as praças fortes nas quais depositas tua confiança.
18. Mesmo, porém, naqueles dias, disse o Senhor, não vos exterminarei de todo.
19. E, quando disserdes: Por que assim nos tratou o Senhor Deus? – responderás: Assim como me abandonastes para servir em vossa terra a deuses estrangeiros, assim também servireis a estrangeiros em terra que não é a vossa.
20. Anunciai isto à casa de Jacó, proclamai o que segue à terra de Judá:
21. escutai bem, povo insensato e sem inteligência: vós que tendes olhos para não ver e ouvidos para não ouvir:
22. Não temeis a minha face? – oráculo do Senhor. Não tremeis diante de mim, eu que fixei a areia como limite ao mar, barreira eterna que não será ultrapassada? Por mais que se lhe agitem as ondas, são impotentes, murmuram, mas não vão além;
23. enquanto tiver esse povo um coração indócil e rebelde, recuará e ir-se-á embora.
24. E em seu coração não dirá: temamos ao Senhor, nosso Deus, que no tempo devido nos manda a chuva do outono e a chuva da primavera, e nos garante as semanas destinadas à colheita.
25. Foram vossas iniqüidades que alteraram essa ordem, vossos pecados que vos privaram desses bens.
26. Porquanto perversos se encontram no seio de meu povo, que espreitam, de tocaia, como caçadores de pássaros, armando laços para apanhar os homens.
27. À semelhança de uma gaiola cheia de pássaros, assim estão suas casas repletas (de fruto) de suas presas. Por esta forma tornam-se ricos e poderosos,
28. e se apresentam nutridos e reluzentes; ultrapassam, porém, os limites do mal. Não procedem com justiça para com o órfão, mas prosperam! E não fazem justiça aos infelizes!
29. Como não repreender tamanhos excessos – oráculo do Senhor – e não vingar-me de semelhante nação?
30. Coisas horríveis, espantosas, ocorreram nesta terra:
31. mentem os profetas em seus oráculos, os sacerdotes dominam pela força. E meu povo mostra-se satisfeito! Que fareis vós, quando chegar o fim?

 
Capítulo 6

1. Fugi, filhos de Benjamim, para longe de Jerusalém! Tocai as trombetas em Técua, erguei uma flâmula no alto de Betacarém! Porque dos lados do setentrião surge uma desgraça, uma grande calamidade.
2. A bela e delicada filha de Sião, eu a destruo.
3. Para ela caminham pastores e rebanhos, que armam ao redor as suas tendas; cada um apascenta o seu quinhão.
4. Declarai-lhe guerra! De pé! Cavalguemos em pleno dia! Desgraçados que somos! O dia cai, estendem-se as sombras da noite.
5. Ergamo-nos. Travemos combate à noite, e lhe destruamos os palácios!
6. Eis o que diz o Senhor dos exércitos: abatei as árvores, erguei plataformas contra Jerusalém! É ela a cidade que deve ser castigada, pois que se intumesceu de violências.
7. Como a nascente faz brotar a água, assim ela expande sua maldade; nela apenas soam palavras de violência e ruína, e só se vêem chagas e feridas.
8. Corrige-te, Jerusalém, para que de ti não se afaste minha alma, e eu não te transforme em deserto, terra sem habitantes.
9. Eis o que diz o Senhor dos exércitos: rebuscar-se-ão como numa vinha os restos de Israel; põe lá de novo tua mão como o vindimador ao sarmento.
10. A quem falar? Quem tomar por testemunha para que me escutem? Estão-lhes os ouvidos incircuncidados, e são incapazes de atenção. A palavra do Senhor tornou-se-lhes objeto de tédio, e nela não encontram prazer algum.
11. Estou, porém, possuído do furor do Senhor, cansado de contê-lo. Difunde-o à criança que vagueia pelas ruas e à assembléia dos jovens, porque todos serão presos, o marido e a mulher, o ancião e aquela que é cumulada de dias.
12. A outros passarão suas moradas, assim como os campos e as mulheres; pois que vou estender a mão sobre os habitantes desta terra – oráculo do Senhor.
13. Na verdade, do maior ao menor, todos se entregam aos ganhos desonestos; desde o profeta ao sacerdote praticam todos a mentira;
14. tratam com negligência as feridas do meu povo, e exclamam: Tudo vai bem! Tudo vai bem!, quando tudo vai mal.
15. Assim serão confundidos pelo procedimento abominável, mas a vergonha lhes é desconhecida, e já não sabem o que seja enrubescer; cairão, portanto, com os que tombarem, e perecerão no dia em que os castigar – oráculo do Senhor.
16. Assim fala o Senhor: sustai vossos passos e escutai; informai-vos sobre os caminhos de outrora, vede qual a senda da salvação; segui-a, e encontrareis a quietude para vossas almas. Responderam, porém: Não a seguiremos!
17. Coloquei sentinelas junto de vós, ficai atentos ao som das trombetas. E eles responderam: Não lhes prestaremos ouvidos!
18. Portanto, escutai, ó nações: saiba a assembléia o que lhe vai acontecer.
19. Terra, escuta: vou mandar sobre esse povo uma desgraça, fruto de suas maquinações, já que não ouviu as minhas palavras, e desprezou os meus ensinamentos.
20. Que me importam o incenso de Sabá e as canas aromáticas de longínquos países? Não me agradam vossos holocaustos, nem me comprazem os sacrifícios.
21. Eis por que, assim fala o Senhor: vou criar obstáculos a esse povo onde pais e filhos tropeçarão. E vizinho e amigo encontrarão neles a morte.
22. Assim fala o Senhor: Eis que do norte surge um povo, e dos confins do mundo ergue-se uma grande nação.
23. Manejam o arco e o dardo, e são cruéis e sem compaixão. Seus urros assemelham-se ao bramido do mar; e montarão em cavalos, dispostos a combater como um só homem contra ti, filha de Sião.
24. Ante tal notícia caíram-nos os braços, a angústia apossou-se de nós, como as dores de uma mulher no parto.
25. Não saiais para o campo, nem andeis pelos caminhos, porquanto o inimigo empunha a espada, e por toda parte reina o pavor.
26. Ó filha de meu povo, veste o saco, revolve-te nas cinzas. Cobre-te de luto como se fora por um filho único, e ecoem teus amargos gemidos, porquanto vai cair de repente sobre nós o devastador.
27. Qual experimentador de metais, coloquei-te entre meu povo, para que lhe conheças e examines a conduta.
28. São rebeldes entre rebeldes, caluniadores, depravados e de coração duro como o cobre e o ferro.
29. Queimou-se o fole, o chumbo se esgotou, fundiram em vão o metal e o refundiram; as escórias, porém, não se soltaram.
30. Chamai esse povo de moeda falsa, pois que o Senhor o rejeitou.

 
Capítulo 7

1. A palavra do Senhor foi nestes termos dirigida a Jeremias:
2. Vai à porta do templo do Senhor; lá pronunciarás este discurso: escutai a palavra do Senhor, vós todos, povos de Judá, que entrais por estas portas para vos prosternar diante dele.
3. Eis o que diz o Senhor dos exércitos, o Deus de Israel: reformai vosso procedimento e a maneira de agir, e eu vos deixarei morar neste lugar.
4. Não vos fieis em palavras enganadoras, semelhantes a estas: Templo do Senhor, templo do Senhor, aqui está o templo do Senhor.
5. Se reformardes vossos costumes e modos de proceder, se verdadeiramente praticardes a justiça;
6. se não oprimirdes o estrangeiro, o órfão, a viúva; se não espalhardes neste lugar o sangue inocente e não correrdes, para vossa desgraça, atrás dos deuses alheios,
7. então permitirei que permaneçais neste lugar, nesta terra que dei a vossos pais por todos os séculos.
8. Vós, contudo, vos fiais em fórmulas enganadoras que de nada vos servirão.
9. Roubais, matais, cometeis adultérios, prestais juramentos falsos; ofereceis incenso a Baal e procurais deuses que vos são desconhecidos;
10. E depois, vindes apresentar-vos diante de mim, nesta casa em que foi invocado meu nome, e exclamais: Estamos salvos! – para, em seguida, recomeçar a cometer todas essas abominações.
11. É, por acaso, a vossos olhos uma caverna de bandidos esta casa em que meu nome foi invocado? Também eu o vejo – oráculo do Senhor.
12. Ide, portanto, à minha casa de Silo, onde a princípio habitou meu nome, e vede o que lhe fiz por causa da maldade do meu povo de Israel.
13. E agora, porque tendo-vos já continuamente advertido, não me atendestes,
14. vou fazer da casa em que foi invocado meu nome e na qual depositastes vossa confiança, desse lugar que vos dei assim como a vossos pais, o que fiz de Silo,
15. e vos repelirei de minha presença, assim como repeli vossos irmãos, a raça inteira de Efraim.
16. Quanto a ti, não intercedas por esse povo. Não ergas em favor dele queixas ou súplicas e não insistas junto de mim, porque não te escutarei.
17. Não vês o que faz ele nas cidades de Judá e nas ruas de Jerusalém?
18. Os filhos juntam lenha, os pais acendem o fogo e as mulheres sovam a massa para fazer tortas destinadas à rainha do céu, depois fazem libações a deuses estranhos, o que provoca a minha ira.
19. Será, porém, a mim próprio que ele fere – oráculo do Senhor – ou a si mesmo, para sua maior vergonha?
20. Por isso eis o que diz o Senhor JAVÉ: eis que minha cólera vai extravasar-se sobre este lugar, sobre os homens e os animais, sobre as árvores dos campos e os frutos da terra. E ela se inflamará para não mais se extinguir.
21. Eis aqui o que diz o Senhor dos exércitos, o Deus de Israel: Amontoai holocaustos sobre sacrifícios, e deles comei a carne;
22. porquanto não falei a vossos pais e nada lhes prescrevi a respeito de holocaustos e sacrifícios, no dia em que os fiz sair do Egito.
23. Foi esta a única ordem que lhes dei: escutai minha voz: serei vosso Deus e vós sereis o meu povo; segui sempre a senda que vos indicar, a fim de que sejais felizes.
24. Eles, porém, não escutaram, nem prestaram ouvidos, seguindo os maus conselhos de seus corações empedernidos; voltaram-me as costas em lugar de me apresentarem seus rostos.
25. Desde o dia em que vossos pais deixaram o Egito até agora, enviei-vos todos os meus servos, os profetas. Todos os dias sem cessar os mandei.
26. Eles, porém, não os escutaram, nem lhes deram atenção; endureceram a cerviz e procederam pior que os pais.
27. Quando tudo isso lhes transmitires, também a ti não escutarão. Chamá-los-ás e não obterás resposta.
28. Dir-lhes-ás então: Esta é a nação que não escuta a voz do Senhor, seu Deus, e não aceita suas advertências. A lealdade desapareceu, tendo sido banida de sua boca.
29. Corta teus cabelos e lança-os fora. Ergue um canto fúnebre sobre as colinas, porquanto o Senhor rejeita e abandona essa raça contra a qual se encolerizou.
30. Fizeram os filhos de Judá o que é mal a meus olhos, – oráculo do Senhor; colocaram ídolos abomináveis na casa em que meu nome foi invocado, e o macularam.
31. Ergueram o lugar alto de Tofet, no vale do Filho de Inom para lá queimarem seus filhos e filhas, não lhes havendo eu ordenado tal coisa que nem me passara pela mente.
32. Eis por que virão os dias – oráculo do Senhor -, em que não mais se dirá Tofet, nem vale do Filho de Inom, mas vale do Massacre, onde, por falta de lugar, serão enterrados os mortos em Tofet.
33. Os cadáveres desse povo servirão de pasto às aves do céu e aos animais da terra, sem que ninguém os expulse.
34. Nas cidades de Judá e nas ruas de Jerusalém farei silenciarem os gritos de alegria e os cantos de júbilo, cantos do esposo e vozes da esposa, porquanto a terra será reduzida a um deserto.

 
Capítulo 8

1. Naquele tempo – oráculo do Senhor – serão retirados de seus sepulcros os ossos dos reis de Judá, dos seus chefes e sacerdotes, dos seus profetas e habitantes de Jerusalém.
2. E serão expostos ao sol, à lua e à multidão das estrelas que tanto amaram e serviram, e que seguiram, consultaram e adoraram. Esses ossos não serão mais recolhidos, nem enterrados, permanecendo como adubo na superfície do solo.
3. Preferível à vida será a morte para os sobreviventes dessa raça perversa, em todos os lugares pelos quais eu os houver dispersado – oráculo do Senhor dos exércitos.
4. Dir-lhe-ás, então: Eis o que diz o Senhor: não se deverá levantar aquele que tomba? Não voltará aquele que se desviou?
5. Por que persiste esse povo de Jerusalém em perpétua loucura? Obstinam-se na má fé, recusando converter-se.
6. Atentamente os escutei: não falam, porém, com sinceridade. Nem um deles se arrepende da maldade e não clama: Que fiz eu? Retomam todos a caminhada, à semelhança do cavalo que se arremessa à batalha.
7. Até a cegonha pelo ar reconhece a estação, e as rolas e as andorinhas são fiéis à migração. O meu povo, porém, não conhece a lei do Senhor.
8. Como podeis dizer: Somos sábios, e temos conosco a lei do Senhor? Na verdade foi a mentira que fez desta lei o estilete enganador dos escribas.
9. Os sábios consternados e confundidos ficarão cobertos de vergonha, por haverem repelido a palavra do Senhor; qual seria então a sabedoria deles?
10. Eis por que a outros darei suas mulheres, e seus campos a novos donos, já que, do menor ao maior deles, todos se entregam aos lucros desonestos. Desde o profeta até o sacerdote, praticam todos a mentira.
11. Tratam sem cuidado da ferida da filha do meu povo, e dizem: Vai tudo bem! Vai tudo bem! quando vai tudo mal.
12. Pelo seu proceder abominável serão confundidos, mas nem ao menos conhecem a vergonha, e nem o que seja enrubescer. Assim como os que caem, tombarão também e perecerão no dia do castigo – oráculo do Senhor.
13. Vou reuni-los todos e arrebatá-los – oráculo do Senhor. Mas não havia uma só uva na vinha, nem figo na figueira. A folhagem havia murchado. E assim lhes dei quem os haveria de conquistar.
14. Para que ainda nos determos? Reuni-vos, e vamos para as praças fortes: lá havemos de perecer. Porquanto o Senhor, nosso Deus, decidiu que pereçamos, fazendo-nos beber água envenenada, já que pecamos contra ele.
15. Aguardávamos a felicidade e nenhum bem encontramos, nenhum tempo de exaltação, e só vemos o terror.
16. Ouve-se, desde Dã, o relinchar dos cavalos, e toda a terra estremece com o estrépito de seus corcéis, que ao chegarem destroem a terra e o quanto nela existe: a cidade e os habitantes.
17. Vou lançar serpentes contra vós, e víboras insensíveis aos encantamentos, que vos morderão – oráculo do Senhor.
18. Onde encontrar consolo para a minha dor? Dentro de mim sofre o coração. Chega-me de uma terra longínqua
19. a voz amargurada da filha do meu povo: Não está mais o Senhor em Sião? E nela não mora mais o seu rei? Por que me irritaram com seus ídolos, com as vãs divindades de outros países?
20. Passou a ceifa; terminou a colheita, e não nos chegou a libertação.
21. Faz-me sofrer a chaga da filha de meu povo, cobre-me o luto; apossa-se de mim a desolação.
22. Não haverá mais bálsamo de Galaad? Nem se poderá encontrar um médico? Por que, então, a ferida da filha de um povo não se há de cicatrizar?
23. Oh! tivesse eu em minha cabeça um manancial, e em meus olhos uma fonte de lágrimas! Dia e noite eu choraria os mortos da filha de meu povo.

 
Capítulo 9

1. Oh! se encontrasse eu no deserto um abrigo de viandantes; abandonaria meu povo, e para longe dele me afastaria, pois que não passa de uma legião de adúlteros, um bando de traidores.
2. Retesam a língua, como fazem a seus arcos, para o engodo; e a lealdade não permanece neles. Caminham de crime em crime; já nem me conhecem mais – oráculo do Senhor.
3. Que se mantenha em guarda cada um de vós contra o amigo. Nem mesmo do irmão vos deveis fiar, pois que todo irmão procura suplantar, e todo amigo calunia.
4. Zombam do próximo todos eles; ninguém diz a verdade. Exercitam a língua na mentira, aplicam-se a fazer o mal.
5. Habitam no seio da falsidade; por má fé recusam conhecer-me – oráculo do Senhor.
6. Por isso, eis o que diz o Senhor dos exércitos: Vou fundi-los num cadinho para prová-los. Que outra coisa farei ante (a maldade) da filha de meu povo?
7. Suas línguas são dardos mortíferos, que só proferem mentiras. Com a boca saúdam o próximo, enquanto no coração lhe armam ciladas.
8. Por tantos crimes não devo castigá-los – oráculo do Senhor – e não se vingará minha alma de semelhante nação?
9. A respeito dos montes erguerei gemidos; entoarei cânticos fúnebres sobre as planícies do deserto, porque o fogo devorou esses lugares e ninguém passa por eles. Nem mais se ouve o mugir do gado. Tanto as aves do céu como os animais, todos fugiram e desapareceram.
10. Farei de Jerusalém um amontoado de pedras, um covil de chacais; e das cidades de Judá um deserto, onde ninguém mais habitará.
11. Haverá algum homem sábio que possa compreender essas coisas? A quem as revelou o Senhor a fim de que as explique? Por que perdeu-se essa terra, queimada como o deserto, por onde ninguém mais passa?
12. É, diz o Senhor, porque abandonou a lei que lhe havia proposto, porque não escutou, nem seguiu a minha voz,
13. mas sim os pendores de seu coração empedernido, e os ídolos que seus pais lhe haviam dado a conhecer.
14. Eis por que disse o Senhor dos exércitos, o Deus de Israel: vou alimentá-lo com absinto, e lhe darei de beber água pestilenta.
15. Depois, dispersá-lo-ei entre nações que nem ele, nem seus pais conheceram, e contra ele enviarei uma espada que o abaterá até o extermínio.
16. Eis o que diz o Senhor dos exércitos: tratai de chamar as carpideiras para que venham. E que venham as mais hábeis e não tardem,
17. para que, sem demora, entoem sobre nós suas lamúrias, e se fundam em lágrimas nossos olhos, e a água brote de nossas pálpebras,
18. pois que seu canto fúnebre se elevou em Sião: Por que fomos assim devastados? Cheios de vergonha, devemos abandonar a terra, já que foram derrubadas nossas casas.
19. Mulheres, escutai a palavra do Senhor. E que vossos ouvidos compreendam o que sua boca profere! Ensinai a vossas filhas essa lamentação; cada uma ensine à companheira esse canto fúnebre:
20. A morte assomou às nossas janelas, introduzindo-se em nossos palácios, exterminando crianças nas ruas e jovens nas praças públicas.
21. Cadáveres humanos jazem como esterco nos campos, como feixes atrás do segador. E ninguém os recolhe.
22. Eis o que diz o Senhor: não se envaideça o sábio do saber, nem o forte de sua força, e da riqueza não se orgulhe o rico!
23. Aquele, porém, que se quiser vangloriar, glorie-se de possuir inteligência e de saber que eu, seu Senhor, exerço a bondade, o direito e a justiça sobre a terra, pois nisso encontro o meu agrado – oráculo do Senhor.
24. Dias virão – oráculo do Senhor – em que castigarei todos os circuncidados que conservam seus prepúcios:
25. o Egito, Judá e Edom, os filhos de Amon e Moab e todos os habitantes do deserto que rapam os cabelos das fontes. Porquanto, todas as nações (são incircuncisas, tais como) todos os da casa de Israel são incircuncisos de coração.

 
Capítulo 10

1. Escutai, casa de Israel, a palavra que o Senhor vos dirige! Oráculo do Senhor:
2. Não imiteis o procedimento dos pagãos; nem temais os sinais celestes, como os temem os pagãos,
3. porquanto os deuses desses povos são apenas vaidade. São cepos abatidos na floresta, obra trabalhada pelo cinzel do artesão,
4. decorada com prata e ouro. A golpes de martelo são-lhes fixados os pregos (e postos em seus lugares) para que não se movam.
5. Assemelham-se esses deuses a uma estaca em campo de pepinos, que devem ser levados, pois não caminham. Não os temais, pois que vos não podem fazer mal, nem têm o poder de fazer o bem.
6. Nenhum se assemelha a vós, Senhor, que sois grande. E por causa de vosso poder, grande é também vosso nome.
7. Quem não vos há de temer, rei dos povos? A vós é devido todo respeito, porquanto entre os sábios dos povos pagãos, e nos seus reinos, nenhum se assemelha a vós.
8. São todos eles néscios e insensatos, e seus ensinamentos são vaidade, pura lenha.
9. É prata batida, importada de Társis, ouro de Ofir, trabalho de escultor e de ourives, revestido de púrpura arroxeada e vermelha: não passam de obra de artista.
10. O Senhor, ao contrário, é verdadeiramente Deus, Deus vivo, eterno rei. Treme a terra ante a sua cólera, e os povos pagãos não podem suportar sua ira.
11. (Dir-lhes-eis, portanto: os deuses que não fizeram o céu e a terra desaparecerão da terra e de sob os céus.)
12. Só ele criou a terra pelo seu poder e consolidou o mundo pela sua sabedoria, desdobrando os céus pela sua inteligência.
13. Ao som de sua voz, reúnem-se as águas nos céus; dos confins da terra manda subir as nuvens, e transforma os relâmpagos em chuvas, fazendo desencadearem-se os ventos de seus redutos.
14. Então, os homens se tornam estupefatos e aturdidos, e se envergonha o artista da estátua que concebeu, porque são apenas mentira os ídolos que fundiu, e neles não respira vida.
15. São apenas vãos simulacros que se desvanecerão no dia do castigo.
16. Não se dá o mesmo com aquele que é a herança de Jacó, pois foi ele que tudo criou, e Israel é a sua tribo. E seu nome é JAVÉ dos exércitos.
17. Apanha da terra o teu fardo, tu que estás sitiada!
18. Pois assim falou o Senhor: lançarei ao longe, de uma vez, os habitantes desta terra, e os acompanharei de perto para que me encontrem.
19. Ai de mim, por causa de minha ferida! É bem dolorosa a minha chaga! Eu havia dito: fosse apenas esse o meu mal, eu o suportaria!
20. Foi devastada a minha tenda, e suas cordas todas se romperam. Abandonaram-me meus filhos, e não mais existem; ninguém mais tenho para levantá-la, e de novo erguer meu pavilhão.
21. Na verdade, são néscios os pastores; não procuram mais o Senhor. Por isso não logram êxito e dispersaram-se os seus rebanhos.
22. Eis que se propaga um grande rumor, e o eco de um imenso tumulto vem do norte para transformar as cidades de Judá num deserto, num covil de chacais.
23. Bem sei, Senhor, que não é o homem dono de seu destino, e que ao caminhante não lhe assiste o poder de dirigir seus passos.
24. Castigai-nos, Senhor, mas com eqüidade, e não com furor, para que não sejamos reduzidos ao nada.
25. Derramai esse furor sobre as nações que vos desconhecem, sobre os povos que não invocam o vosso nome, pois que eles devoraram Jacó, e o consumiram, transformando-lhe as casas em deserto.

 
Capítulo 11

1. Eis a palavra que foi dirigida a Jeremias da parte do Senhor:
2. Ouvi o texto desta aliança e o transmiti ao povo de Judá e aos habitantes de Jerusalém.
3. Dize-lhes: Eis o que proclama o Senhor Deus de Israel: maldito seja aquele que não obedecer às prescrições desta lei
4. que, no dia em que os tirei do Egito, daquela fornalha de ferro, eu impus a vossos pais, nestes termos: ouvi minha voz e executai minhas ordens, mediante o que sereis meu povo e eu o vosso Deus.
5. Então ratificarei o juramento que fiz a vossos pais de lhes dar uma terra onde mana leite e mel, qual hoje é a vossa. Assim seja, Senhor, respondi-lhe:
6. Em seguida, disse-me o Senhor: difunde este texto por todas as cidades de Judá e pelas ruas de Jerusalém, dizendo-lhes: ouvi as palavras desta lei e executai-a.
7. Desde o dia em que os fiz sair do Egito até hoje, adverti com instância vossos pais, falando-lhes assim: ouvi minha voz!
8. Não ouviram, porém, e nenhuma atenção prestaram, seguindo, obstinadamente, os pendores maus de seus corações. Assim, contra eles executei todas as ameaças contidas no pacto que lhes havia ordenado, mas que não observavam.
9. Disse-me em seguida o Senhor: há uma conspiração entre os habitantes de Judá e de Jerusalém;
10. volveram às iniqüidades dos antepassados que se haviam recusado a ouvir minhas palavras, indo, eles também, atrás de outros deuses a fim de cultuá-los. A casa de Israel e a casa de Judá violaram a aliança que haviam firmado com seus pais.
11. Por tal culpa, assim declara o Senhor: vou descarregar sobre eles uma calamidade, da qual não poderão escapar. E, quando gritarem por mim, eu não os escutarei.
12. Então, as cidades de Judá e os habitantes de Jerusalém irão apelar para os deuses ante os quais queimaram incenso. Esses deuses, porém, não os salvarão no momento da catástrofe,
13. porque, ó Judá, possuis tantos deuses quantas são tuas cidades; e quantas ruas tens em Jerusalém, tantos altares de infâmia ergueste para neles queimar oferendas em honra de Baal.
14. Quanto a ti, não intercedas por esse povo, nem ores por ele, nem supliques, porque ao tempo de sua desgraça, quando clamarem por mim, não os escutarei.
15. Por que cometeu minha bem-amada tanta maldade em minha casa? Porventura teus votos e as carnes imoladas apartarão de ti teus males, para que possas exultar?
16. Verdejante oliveira de belos frutos – tal o nome que te dera o Senhor. Ao estrépito, porém de imenso ruído ateou-lhe fogo, e se queimaram seus galhos.
17. O Senhor dos exércitos, que te plantara, decretou a calamidade contra ti por causa dos crimes cometidos pela casa de Israel e pela casa de Judá, causando-me revolta os sacrifícios que fizeram em honra de Baal.
18. Instruído pelo Senhor, eu o desvendei. Vós me fizestes conhecer seus intentos.
19. E eu, qual manso cordeiro conduzido à matança, ignorava as maquinações tramadas contra mim: destruamos a árvore em seu vigor. Arranquemo-la da terra dos vivos, e que seu nome caia no esquecimento.
20. Vós sois, porém, Senhor dos exércitos, justo juiz que sondais os rins e os corações. Serei testemunha da vingança que tomarei deles e a vós confio minha causa.
21. Eis por que assim se pronunciou o Senhor contra os habitantes de Anatot que conspiram contra a minha vida, dizendo: Cessa de proclamar oráculos em nome do Senhor, se não queres perecer em nossas mãos.
22. Por isso, assim falou o Senhor dos exércitos: Vou castigá-los. Vão tombar os jovens sob a espada, e seus filhos e filhas perecerão de fome.
23. Ninguém escapará, porquanto, assim que chegar o ano do castigo, mandarei desabar a tormenta sobre os habitantes de Anatot.

 
Capítulo 12

1. Sois sumamente justo, Senhor, para que eu entre em disputa convosco. Entretanto, em espírito de justiça, desejaria falar-vos. Por que alcançam bom êxito os maus em tudo quanto empreendem? E por que razão vivem felizes os pérfidos?
2. Vós os plantastes, e eles criam raízes, crescem e frutificam. Permaneceis em seus lábios; longe, porém, dos corações.
3. Mas vós, Senhor, me conheceis e me vedes, e sondais os sentimentos do meu coração a vosso respeito. Arrebatai-os, quais carneiros para a matança, e consagrai-os em vista ao massacre.
4. Até quando permanecerá a terra em luto, e há de secar a erva dos campos? Por causa da maldade dos homens que nela habitam, animais e pássaros perecem, por haverem dito: Não verá o Senhor o nosso fim.
5. Se te afadigas em correr com os que andam a pé, como poderás lutar com os (que vão a) cavalo? Se não te sentes em segurança senão em terra tranqüila, que farás na selva do Jordão?
6. Teus próprios irmãos e tua família são traidores, mesmo quando em altas vozes te chamam. Não creias neles, mesmo que te dirijam palavras amigas.
7. Deixei minha família, abandonei minha herança, e releguei a mãos inimigas o que de mais caro possuía o meu coração.
8. Meu povo foi para mim qual leão na floresta, a rugir contra mim: eis por que o tenho em aversão.
9. Será minha herança qual abutre matizado cercado de aves de rapina? Vamos! Reuni todos os animais selvagens, e conduzi-os à carniça!
10. Pastores, em grande número, destruíram minha vinha, e pisaram minhas terras, transformando em horrível deserto minha encantadora propriedade.
11. Tornaram-na uma solidão e apresentaram-na a meus olhos enlutada e devastada. Desolada ficou toda a terra, pois que ninguém mais a toma a peito.
12. De todos os cantos do deserto surgem os devastadores. A espada do Senhor dizima a terra inteira, e para ninguém haverá salvação.
13. Semearam trigo, e só colheram espinhos, fatigando-se inutilmente. Foi-lhes decepcionante a colheita, por causa da grande cólera do Senhor.
14. Eis o que diz o Senhor contra todos os meus maus vizinhos que usurpam a herança que eu dera a meu povo de Israel: vou arrancá-los de suas terras, e do meio deles apartar a tribo de Judá.
15. Quando os houver, porém, arrancado, apiedar-me-ei deles novamente e os reconduzirei cada um à sua herança, cada um à sua terra.
16. Se aprenderem a seguir os caminhos prescritos ao meu povo, e a jurar em meu nome, Pela vida de Deus!, tal como ensinaram meu povo a jurar por Baal, então terão direito de cidadania no meio do meu povo.
17. Se, porém, não me escutarem, desarraigarei essa gente e a exterminarei – oráculo do Senhor.

 
Capítulo 13

1. Disse-me o Senhor: Vai e compra um cinto de linho e coloca-o sobre os rins, sem contudo mergulhá-lo na água.
2. Comprei-o, conforme ordenara o Senhor, e com ele me cingi.
3. Pela segunda vez, assim me falou o Senhor:
4. Toma o cinto que compraste e que trazes contigo e encaminha-te para as margens do Eufrates. Lá ocultarás esse cinto na cavidade de um rochedo.
5. Fui assim escondê-lo, junto do Eufrates, como me havia dito o Senhor.
6. Tempos depois, voltou o Senhor a dizer-me: Põe-te a caminho em demanda das margens do Eufrates, a fim de buscar o cinto que, conforme minhas ordens, lá escondeste.
7. Dirigi-me, então, ao rio e, tendo cavado, retirei o cinto do local onde o escondera. O cinto, porém, apodrecera, e para nada mais servia.
8. Então, nestes termos, foi-me dirigida a palavra do Senhor:
9. Eis o que diz o Senhor: assim também destruirei a soberba de Judá, e o orgulho imenso de Jerusalém.
10. Esse povo perverso que recusa executar-me as ordens, que segue os pendores do coração empedernido, que corre aos deuses estranhos para render-lhes homenagens e prostrar-se ante eles, tornar-se-á semelhante a esse cinto sem mais serventia alguma.
11. À semelhança de um cinto que se prende aos rins de um homem, assim uni a mim toda a casa de Israel e toda a casa de Judá – oráculo do Senhor -, a fim de que constituíssem meu povo, minha honra, glória e ufania. Elas, porém, não obedeceram.
12. Vai, portanto, e assim lhes fala: Eis o que diz o Senhor, Deus de Israel: uma vasilha é destinada a ser enchida de vinho. Responderão eles: bem sabíamos que toda vasilha é para ser enchida de vinho!
13. Mas tu lhes dirás: Eis o que diz o Senhor: vou encher de embriaguez todos os habitantes desta terra: os reis que ocupam o trono de Davi, os sacerdotes, os profetas e a população inteira de Jerusalém;
14. e vou quebrá-los, uns contra os outros, pais e filhos – oráculo do Senhor -, sem que compaixão, piedade ou perdão me impeçam de destruí-los.
15. Escutai, prestai ouvidos e não vos enchais de orgulho, pois quem fala é o Senhor.
16. Rendei glória ao Senhor, vosso Deus, antes que surjam as trevas, e antes que se choquem vossos pés nos montes invadidos pelas sombras. A luz que esperais será transformada em escuridão, pois que ele a converterá em noite profunda.
17. Se não prestardes ouvidos, a minha alma derramará lágrimas em segredo por vosso orgulho, e meus olhos se fundirão em pranto, por causa da deportação do rebanho do Senhor.
18. Dize ao rei e à rainha: sentai-vos no chão, porque caiu de vossa cabeça o diadema que a ornava.
19. As cidades do sul estão fechadas, e não há quem as abra. Judá foi arrebatada; completou-se a deportação.
20. Ergue os olhos; vê os que chegam do norte. Onde está o rebanho que te fora confiado, onde os carneiros que constituíam tua glória?
21. Que dirás, quando Deus te der por senhores aqueles que exercitaste contra ti? E acaso não se apossarão de ti dores quais as da mulher que está de parto?
22. Se vieres a dizer em teu coração: Por que me acontecem tais coisas? É por causa da enormidade de tua falta que foram levantadas as tuas vestes e puseram brutalmente teu calcanhar a nu.
23. Pode um etíope mudar a própria pele? Ou um leopardo apagar as malhas de que se reveste? E vós, como podereis praticar o bem, se estais impregnados de maldade?
24. Eu os dispersarei como palha que o vento do deserto arrebata.
25. Tal é teu destino, a partilha que receberás de mim – oráculo do Senhor -, porque te esqueceste de mim, confiando no que é apenas mentira.
26. Até a cabeça erguerei tuas vestes a fim de expor aos olhares tua nudez!
27. Teus adultérios e desregramentos, e tua luxúria infame nas colinas e nos campos, todas essas abominações, eu as vi. Desgraçadas de ti, Jerusalém! Por quanto tempo, ainda, permanecerás impura?

 
Capítulo 14

1. Eis o que diz o Senhor a Jeremias a propósito da seca:
2. Judá está coberta de luto, e às suas portas enlanguesce o povo, a cabeça pendida para a terra. De Jerusalém se levanta um clamor de angústia.
3. Os grandes da cidade enviaram os servos à procura de água. Encaminham-se estes às cisternas; água, porém, não encontram, e voltam com os recipientes vazios, envergonhados, confundidos, cobertas as cabeças.
4. Fende-se o solo todo, porque a chuva não rega a terra. Decepcionam-se os lavradores e cobrem suas cabeças.
5. Até a corça no campo abandona a cria, por falta de pastagem.
6. Mantêm-se nos montes os asnos selvagens, aspirando o ar como chacais. Seus olhos perderam o brilho, pois que não há erva.
7. Ó Senhor, se nos acusam nossas iniqüidades, agi de acordo com a honra de vosso nome. São, na verdade, numerosas nossas infidelidades; pecamos contra vós.
8. Senhor, esperança de Israel, vós que sois o seu salvador no tempo da desgraça, por que sois qual estrangeiro nessa terra, viajante de uma noite apenas?
9. Por que sois como um homem desvairado, como um guerreiro que não nos pode mais defender? No entanto, Senhor, permaneceis entre nós, e é o vosso nome que trazemos. Não nos abandoneis!
10. Eis o que diz o Senhor acerca desse povo: Compraz-se ele em vaguear, e não sabe deter os seus pés. Deles o Senhor não se agrada. Lembrando-se de suas iniqüidades, castiga-o por causa de seus pecados.
11. Disse-me o Senhor em seguida: Não intercedas em favor desse povo.
12. Se jejuar, não escutarei seus lamentos, e se oferecer holocaustos e oblações não os aceitarei. Quero destruí-los pela espada, pela fome e pela peste.
13. Eu, porém, lhe respondi: Ah, Senhor JAVÉ, olhai para o que dizem os profetas: a espada não vos atingirá e não sofrereis fome, pois que nesse lugar eu vos darei paz e segurança.
14. Replicou, porém, o Senhor: São mentiras que proferiram os profetas em meu nome. Não os enviei, não lhes dei ordem, e nem mesmo lhes falei. Visões de mentiras, adivinhações vãs, invenções de suas mentes, eis o que profetizam!
15. Por isso eis o que diz o Senhor: Acerca dos profetas que em meu nome proferem oráculos, quando missão alguma lhes confiei, e que proclamam não haver espadas, nem fome nesta terra, serão eles que hão de perecer pela espada e pela fome.
16. E os homens aos quais se dirigem serão lançados nas ruas de Jerusalém, vítimas da espada e da fome, sem que ninguém os venha sepultar, nem eles, nem suas mulheres, nem seus filhos e filhas; e sobre eles farei recair o mal que praticaram.
17. E tu lhes dirás: Que se me fundam em lágrimas os olhos, noite e dia sem descanso, porquanto de um golpe horrível foi ferida a virgem, filha de meu povo, e sua chaga não tem cura!
18. Se saio pelos campos, encontro homens atravessados pela espada; e se regresso à cidade, eu vejo outros passando pelo tormento da fome. Até o profeta e o sacerdote perambulam sem rumo pela terra.
19. Repelistes Judá, de verdade, e vossa alma se desgostou de Sião? Por que nos feristes de mal incurável? Esperamos a salvação; nada, porém, existe de bom; aguardamos a era de soerguimento, mas só vemos o terror!
20. Senhor! Conhecemos nossa malícia e a iniqüidade de nossos pais. (Bem sabemos) que pecamos contra vós.
21. Pela honra, porém, de vosso nome, não nos abandoneis, nem desonreis o vosso trono de glória. Lembrai-vos! E não rompais o pacto que conosco firmastes.
22. Haverá, entre os vãos ídolos dos pagãos, algum que provoque a chuva? Ou é o céu que proporciona os aguaceiros? Não! Sois vós, Senhor, nosso Deus, vós, em quem depositamos nossa esperança; vós, que todas essas coisas haveis criado.

 
Capítulo 15

1. Disse-me, então, o Senhor: Mesmo que Moisés e Samuel se apresentassem diante de mim, meu coração não se voltaria para esse povo. Expulsai-o para longe de minha presença! Que se afaste de mim!
2. E se te perguntarem: Para onde iremos? Dir-lhes-ás: oráculo do Senhor: Para a peste, os que são para a peste! Para a espada, os que são para a espada! Para a fome, os que são para a fome! Ao cativeiro, os que são para o cativeiro.
3. Destinar-lhes-ei – oráculo do Senhor – quatro flagelos: a espada para degolá-los, os cães para arrastá-los, e as aves do céu e os animais da terra para devorá-los e destruí-los.
4. Farei deles objeto de horror para todos os reinos da terra, por causa de Manassés, filho de Ezequias, rei de Judá, por tudo o que ele fez em Jerusalém.
5. Quem de ti se apiedará, Jerusalém? Quem te lastimará? Quem se afastará de sua rota para perguntar por ti?
6. Abandonaste-me – oráculo do Senhor -, voltaste-me as costas. Por isso sobre ti estendi a mão para perder-te, cansado como estou de perdoar.
7. Eu os joeirei com o crivo às portas da terra; privei de filhos o meu povo, e o deixei perecer. Seu proceder, porém, não mudou.
8. Mais numerosas serão as viúvas do que a areia do mar. Conduzirei contra a mãe do jovem guerreiro, em pleno meio-dia, o devastador. E sobre eles, de súbito, deixarei cair a agonia e o terror.
9. Desfalece aquela que deu à luz sete filhos, pronta a entregar a alma. Antes que findasse o dia, deitou-se-lhe o sol, e de vergonha e consternação se cobriu. O que deles restar, entregarei à espada de seus inimigos – oráculo do Senhor.
10. Ai de mim, ó minha mãe, que me geraste, para tornar-se objeto de disputa e de discórdia em toda a terra! Não sou credor nem devedor, e, no entanto, todos me maldizem.
11. Na verdade, diz o Senhor, eu te livrarei para o teu bem. O inimigo virá implorar-te no dia da desgraça e da aflição.
12. Poderá o ferro quebrar o ferro do norte e o bronze?
13. Entrego gratuitamente à pilhagem teus bens e tesouros, por todos os teus pecados, na terra inteira.
14. Fá-los-ei passar com seus inimigos para um país que não conheces, porquanto inflamou-se um fogo em minhas narinas, que arderá para vos consumir.
15. E vós que tudo sabeis, Senhor, lembrai-vos de mim, amparai-me, e vingai-me de meus perseguidores. Não deixeis que eu pereça por vossa paciência (para com eles).
16. Vede: é por vós que sofro ultrajes da parte daqueles que desprezam vossas palavras. Aniquilai-os. Vossa palavra constitui minha alegria e as delícias do meu coração, porque trago o vosso nome, ó Senhor, Deus dos exércitos!
17. Não me assentei entre os escarnecedores, para entre eles encontrar o meu prazer. Apoiado em vossa mão, assentei-me à parte, porque me havíeis enchido de indignação.
18. Por que não tem fim a minha dor, e não cicatriza a minha chaga, rebelde ao tratamento? Ai! Sereis para mim qual riacho enganador, fonte de água com que não se pode contar?
19. Eis a razão pela qual diz o Senhor: Se voltares, farei de ti o servo que está a meu serviço. Se apartares o precioso do que é vil serás como a minha boca. Serão eles, então, que virão a ti, e não tu que irás a eles.
20. Então, erguerei ante esse povo sólida muralha como o bronze. Será atacada, mas não conseguirão vencê-la, pois estarei a teu lado para proteger-te e te livrar – oráculo do Senhor.
21. Arrebatar-te-ei da mão dos maus e te libertarei do poder dos violentos.

 
Capítulo 16

1. Foi-me dirigida a palavra do Senhor nestes termos:
2. Não tomarás esposa, nem terás filho ou filha neste lugar,
3. porquanto eis o que diz o Senhor a respeito dos filhos e das filhas que nasceram neste lugar, das mães que os conceberam e dos pais a quem devem a vida nesta terra:
4. perecerão todos de moléstias mortais, sem pranto nem sepulturas. Qual esterco jazerão sobre o solo; perecerão pela espada e pela fome, e seus cadáveres servirão de pasto às aves do céu e aos animais da terra.
5. E disse, ainda, o Senhor: Não entres em casa em que haja luto, para chorar com seus moradores, porque – oráculo do Senhor – desse povo retiro a minha paz, minha proteção e minha misericórdia.
6. Grandes e pequenos morrerão nesta terra, e ficarão sem lamentações e sem sepulturas, e não se farão incisões, nem rasparão os cabelos.
7. O pão não será repartido para consolar o enlutado que chora um defunto, nem se lhe oferecerá a taça do consolo pela morte de seus pais.
8. Não entrarás, igualmente, na casa em que houver uma festa, sentando-te à mesa com os convivas.
9. Pois assim fala o Senhor dos exércitos, o Deus de Israel: Vou abafar em tal lugar, ante vossos olhos, diante de vós, os gritos de alegria, cânticos de júbilo e os hinos do esposo e a canção da esposa.
10. Assim que tiveres levado ao povo essa mensagem e te perguntarem: Por que decretou o Senhor contra nós todos esses flagelos? Qual é o pecado, qual o crime que cometemos contra o Senhor, nosso Deus?
11. Tu lhe dirás: é porque vossos pais me abandonaram – oráculo do Senhor -, para correr atrás de outros deuses, rendendo-lhes um culto e ante eles se prosternando, porque me abandonaram e deixaram de observar a minha lei; e
12. porque vós mesmos fizestes pior que vossos pais, cada qual, sem me ouvir, obstinando-se em seguir as más tendências de seus corações.
13. Assim, expulsar-vos-ei desta terra para vos lançar numa terra que não conhecestes, nem vós nem vossos pais. Lá, dia e noite, rendereis culto aos deuses estranhos, porque eu não vos perdoarei.
14. Eis por que virão dias – oráculo do Senhor – em que não mais se dirá: Viva Deus, que tirou do Egito os israelitas!
15. Mas sim: Viva Deus, que fez com que regressassem os israelitas do norte e de todos os países pelos quais os havia dispersado! Fá-los-ei regressar à terra que dei a seus pais.
16. Vou mandar – oráculo do Senhor – pescadores em grande número para que pesquem. Depois enviarei numerosos caçadores para que cacem pelas montanhas e colinas e até nas cavidades dos rochedos.
17. Porquanto, sob o meu olhar tenho seus atos que não me são ocultos, e suas iniqüidades não se podem esquivar a meus olhares.
18. Primeiramente, pagar-lhes-ei em dobro o salário de sua iniqüidade e do seu pecado, por haverem profanado a minha terra com os restos imundos de seus ídolos e enchido minha herança de abominações.
19. Senhor, minha força e amparo, refúgio no dia da desgraça, virão nações dos confins do mundo, exclamando: o que nossos pais receberam em partilha não passa de um nada, vaidades que para nada poderão servir.
20. Poderá o homem fabricar deuses para si? Não serão deuses, porém!
21. Então, vou mostrar-lhes, sim, desta feita vou mostrar-lhes minha mão e meu poder, a fim de que saibam que o meu nome é Senhor.

 
Capítulo 17

1. Acha-se inscrito o pecado de Judá com estilete de ferro; e gravado com ponta de diamante sobre a pedra de seu coração,
2. nos ângulos de seus altares. (Lembrando-se de seus filhos), (pensam) em suas estelas e marcos sagrados, junto das árvores verdejantes no alto das colinas elevadas.
3. Entregarei à pilhagem a minha montanha que domina a planície, assim como os teus bens e tesouros, e os lugares altos em que pecas pela terra inteira.
4. Deixarás ao abandono a herança que te conferira, e eu te farei o escravo dos teus inimigos, em terra que desconheces, porquanto acendeste o fogo de minha cólera que não mais cessará de flamejar.
5. Eis o que diz o Senhor: Maldito o homem que confia em outro homem, que da carne faz o seu apoio e cujo coração vive distante do Senhor!
6. Assemelha-se ao cardo da charneca e nem percebe a chegada do bom tempo, habitando o solo calcinado do deserto, terra salobra em que ninguém reside.
7. Bendito o homem que deposita a confiança no Senhor, e cuja esperança é o Senhor.
8. Assemelha-se à árvore plantada perto da água, que estende as raízes para o arroio; se vier o calor, ela não temerá, e sua folhagem continuará verdejante; não a inquieta a seca de um ano, pois ela continua a produzir frutos.
9. Nada mais ardiloso e irremediavelmente mau que o coração. Quem o poderá compreender?
10. Eu, porém, que sou o Senhor, sondo os corações e escruto os rins, a fim de recompensar a cada um segundo o seu comportamento e os frutos de suas ações.
11. Qual perdiz a chocar ovos que não pôs, tal é aquele que pela fraude se enriqueceu; em meio à vida, precisa deixá-los; demonstra, pelo seu fim, ser insensato.
12. Trono sublime de glória antiga, ó santuário nosso,
13. Senhor, que sois a esperança de Israel, confundidos serão todos os que vos abandonam, e de vergonha serão cobertos os que de vós se afastam, por haverem deixado o Senhor, fonte das águas vivas.
14. Curai-me, Senhor, e ficarei curado; salvai-me, e serei salvo, porque sois a minha glória.
15. Ei-los que clamam: Que é feito dos oráculos do Senhor? Que eles se cumpram!
16. Eu, porém, nunca vos incitei a enviar a desgraça, nem desejei o dia da catástrofe. Bem conheceis as palavras que me saíram da boca: elas estão em vossa presença.
17. Não me sejais objeto de espanto, vós que, no dia da desgraça, sois meu refúgio.
18. Sejam envergonhados meus perseguidores, e não eu! Sejam consternados, não eu! Fazei recair sobre eles o dia da aflição, esmagai-os com dupla desgraça.
19. Eis o que me diz o Senhor: Vai colocar-te à porta dos filhos do povo, por onde entram e saem os reis de Judá, e a todas as portas de Jerusalém.
20. Dir-lhes-ás: Escutai a palavra do Senhor, reis de Judá, povo de Judá, e vós todos, habitantes de Jerusalém, que entrais por estas portas.
21. Assim fala o Senhor. Evitai carregar – pois disso depende vossa vida – fardos no dia de sábado, fazendo-os atravessar as portas de Jerusalém.
22. Abstende-vos de transportar fardo algum para fora de vossas casas em dia de sábado. Não vos entregueis a trabalho algum, mas santificai o dia de sábado, como ordenei a vossos pais.
23. Eles, porém, não prestaram ouvidos, e endureceram a cerviz para não ouvirem, nem se deixarem instruir.
24. Se verdadeiramente me escutardes – oráculo do Senhor -, se não deixardes passar carga nenhuma pelas portas desta cidade em dia de sábado, e se santificardes esse dia, abstendo-vos de desempenhar qualquer trabalho,
25. então pelas portas da cidade entrarão, conduzidos em carros e montados a cavalo, reis e príncipes que ocuparão o trono de Davi, assim como seus oficiais, a gente de Judá e os habitantes de Jerusalém. E esta cidade será povoada para sempre!
26. E outros virão das cidades de Judá, dos arredores de Jerusalém, das terras de Benjamim e das planícies e montes, assim como do Negeb, para oferecerem holocaustos, sacrifícios, oblações, incenso e sacrifícios de ações de graças na casa do Senhor.
27. Se, porém, não observardes meus preceitos acerca da santificação do sábado, e a respeito da abstenção de transportar fardos pelas portas da cidade no dia de sábado, porei fogo nessas portas, e ele consumirá os palácios de Jerusalém, sem que ninguém possa extingui-lo.

 
Capítulo 18

1. Foi dirigida a Jeremias a palavra do Senhor nestes termos:
2. Vai e desce à casa do oleiro, e ali te farei ouvir minha palavra.
3. Desci, então, à casa do oleiro, e o encontrei ocupado a trabalhar no torno.
4. Quando o vaso que estava a modelar não lhe saía bem, como sói acontecer nos trabalhos de cerâmica, punha-se a trabalhar em outro à sua maneira.
5. Foi esta, então, a linguagem do Senhor: casa de Israel, não poderei fazer de vós o que faz esse oleiro? – oráculo do Senhor.
6. O que é a argila em suas mãos, assim sois vós nas minhas, Casa de Israel.
7. Ora anuncio a uma nação ou a um reino que vou arrancá-lo e destruí-lo.
8. Mas se essa nação, contra a qual me pronunciei, se afastar do mal que cometeu, arrependo-me da punição com que resolvera castigá-la.
9. Outras vezes, em relação a um povo ou reino, resolvo edificá-lo e plantá-lo.
10. Se, porém, tal nação proceder mal diante de meus olhos e não escutar minha palavra, recuarei do bem que lhe decidira fazer.
11. Assim, portanto, dirige-te agora nestes termos à gente de Judá e aos habitantes de Jerusalém: Es o que diz o Senhor: nutro o desígnio de lançar-vos uma desgraça, tenciono um projeto contra vós. Voltai todos, portanto, do mau caminho, emendai vosso proceder e vossos atos.
12. É inútil, responderão eles, seguiremos nossas idéias e cada um de nós agirá de acordo com as más inclinações de seu coração obstinado.
13. Eis por que assim fala o Senhor: Interrogai as nações pagãs: quem jamais ouviu semelhante coisa? Foi perversidade sem nome a cometida pela virgem de Israel.
14. Acaso será abandonado o rochedo que domina a planície pela neve do Líbano? E esgotar-se-ão as águas fluentes, que, frescas, correm das montanhas?
15. No entanto, o meu povo me esqueceu! Incensa ídolos quiméricos, que o fazem tropeçar pelo caminho, o caminho de outrora, conduzindo-o por veredas (tortuosas) de caminhos não trilhados.
16. A um deserto será reduzida a terra, objeto de perpétuo assobio; e o que por ele passar, estupefato, meneará a cabeça.
17. À semelhança do vento de leste, eu o dispersarei ante seus inimigos. E lhe voltarei as costas e não a face no dia da desgraça.
18. Vinde, disseram então, e tramemos uma conspiração contra Jeremias! Por falta de um sacerdote não perecerá a lei, nem pela falta de um sábio, o conselho, ou pela falta de um profeta, a palavra divina. Vinde e firamo-lo com a língua, não lhe demos ouvidos às palavras!
19. Senhor, ouvi-me! Escutai o que dizem meus inimigos.
20. É assim que pagam o bem com o mal? Abrem uma cova para atentar-me contra a vida. Lembrai-vos de que ante vós me apresentei a fim de por eles interceder e deles afastar a vossa cólera.
21. Assim, entregai-lhes os filhos à fome e a eles próprios ao fio da espada. Percam suas mulheres os filhos e maridos, morram os homens pela peste, e os jovens caiam sob a espada nos combates.
22. Quando, de súbito, sobre eles lançardes hordas armadas, ouçam-se os clamores partidos de suas casas, já que cavaram uma fossa para prender-me, e armaram laços a meus pés.
23. Vós, porém, Senhor, que bem conheceis suas conspirações de morte contra mim, não lhes perdoeis tal iniqüidade. Que a vossos olhos o seu pecado permaneça indelével e caiam diante de vós. Agi contra eles no dia de vossa cólera.

 
Capítulo 19

1. Eis o que me diz o Senhor: Vai à casa do oleiro e compra um vaso de barro. Tomarás então contigo anciãos do povo e anciãos dos sacerdotes,
2. e te dirigirás ao vale do Filho de Inom, próximo da entrada da olaria. E lá pronunciarás o oráculo que te ditar.
3. Dir-lhes-ás, então: escutai a palavra do Senhor, reis de Judá e vós todos, habitantes de Jerusalém. Eis o que diz o Senhor dos exércitos, Deus de Israel: sobre este lugar vou mandar desgraça tamanha que fará tinir os ouvidos a quem dela ouvir falar.
4. Abandonaram-me, profanaram este lugar e ofereceram incenso a outros deuses que nem eles conheceram nem seus pais e nem os reis de Judá. Macularam este lugar com o sangue dos inocentes,
5. e ergueram o lugar alto a Baal para, em honra dele, queimarem os seus filhos em holocausto. Tais coisas não as prescrevi, delas não falei e nem ao pensamento me vieram.
6. Por tudo isso, virão dias – oráculo do Senhor – em que este lugar não mais se chamará Tofet, nem vale do Filho de Inom, mas sim, vale do Massacre.
7. Aí aniquilarei os planos de Judá e Jerusalém, e ordenarei que caiam seus habitantes sob a espada dos inimigos e pelas mãos daqueles que odeiam a sua vida. Entregarei seus cadáveres como pasto às aves do céu e aos animais da terra.
8. Farei dessa cidade objeto de assombro, causa de zombaria. E a vista de suas chagas será motivo de escárnio a quem por ela passar.
9. Na angústia e na miséria a que a reduzirão os inimigos que lhe odeiam a vida, ver-se-á mesmo compelida a comer a carne de seus filhos e de suas filhas; e eles se devorarão uns aos outros.
10. Em seguida, sob o olhar dos que forem contigo, partirás a bilha,
11. exclamando: Eis o que diz o Senhor dos exércitos: quebrarei este povo e a cidade como se parte um vaso de barro, sem que possa ser refeito. (E, por falta de outro local, enterrar-se-á em Tofet.)
12. Eis o que farei desse lugar – oráculo do Senhor – e dos seus habitantes: de tal modo o farei, que o tornarei semelhante a Tofet.
13. As casas de Jerusalém e os palácios dos reis de Judá ficarão imundos como o solo de Tofet, casas sobre cujos tetos foi queimado o incenso às milícias dos céus e oferecidas libações a deuses estranhos.
14. Regressou então Jeremias de Tofet, aonde o Senhor o enviara a profetizar. De pé, no átrio do templo do Senhor, exclamou à multidão:
15. Eis o que diz o Senhor dos exércitos, o Deus de Israel: vou despejar sobre esta cidade e sobre as aldeias de sua jurisdição os flagelos de que as ameacei, porque seus habitantes endureceram a cerviz para não acatar minhas palavras.

 
Capítulo 20

1. Tendo o sacerdote Fassur, filho de Emer, que era superintendente do templo, ouvido o profeta Jeremias pronunciar esse oráculo,
2. mandou espancá-lo e pô-lo em grilhões na porta superior de Benjamim, que se encontra no templo do Senhor.
3. No dia seguinte, quando Fassur mandou libertá-lo, disse-lhe Jeremias: Não é mais Fassur que te chama o Senhor, mas sim Magor-Missabib.
4. Pois assim diz o Senhor: vou fazer de ti objeto de pavor, para ti mesmo e teus amigos, os quais, sob teu olhar, perecerão à espada de seus inimigos. Entregarei Judá nas mãos do rei de Babilônia, que os deportará para Babilônia, onde os ferirá à espada.
5. E entregarei todas as riquezas desta cidade, todo o produto de seu trabalho, todas as suas reservas preciosas e todos os tesouros dos reis de Judá, nas mãos de seus inimigos, que os tomarão como presa, e os levarão para Babilônia.
6. E tu, Fassur, serás arrastado, com tua família, para o cativeiro. Irás a Babilônia para lá morrerem e serem enterrados tu e teus amigos, aos quais proferiste falsos oráculos.
7. Seduzistes-me, Senhor; e eu me deixei seduzir! Dominastes-me e obtivestes o triunfo. Sou objeto de contínua irrisão, e todos zombam de mim.
8. Cada vez que falo é para proclamar a aproximação da violência e devastação. E dia a dia a palavra do Senhor converte-se para mim em insultos e escárnios.
9. E, a mim mesmo, eu disse: Não mais o mencionarei e nem falarei em seu nome. Mas em meu seio havia um fogo devorador que se me encerrara nos ossos. Esgotei-me em refreá-lo, e não o consegui.
10. Ouço as invectivas da multidão: Cerca-nos o terror! Denunciai-o! Vamos denunciá-lo! Os que eram meus amigos espiam-me agora os passos. Se cair em abusos, tiraremos vantagem, e dele nos vingaremos.
11. O Senhor, porém, está comigo, qual poderoso guerreiro. Por isso, longe de triunfar, serão esmagados meus perseguidores. Sua queda os mergulhará na confusão. Será, então, a vergonha eterna, inesquecível.
12. Senhor, Deus dos exércitos, vós que sondais o justo, e que escrutais os rins e os corações, concedei-me o poder de contemplar a vingança que deles ides tirar! Pois em vossas mãos depositei a minha causa.
13. Cantai ao Senhor, glorificai-o, porque salvou a vida do miserável das mãos do mau.
14. Maldito o dia em que nasci! Nem abençoado seja o dia em que minha mãe me deu à luz.
15. Maldito o homem que levou a notícia a meu pai e que o cumulou de felicidade ao dizer-lhe: Nasceu-te um menino!
16. A ele suceda o que às cidades aconteceu, que o Senhor sem piedade aniquilou! Desde o alvorecer ouça os gritos de alarme e o fragor da batalha ao meio-dia.
17. Por que não me matou, antes de eu sair do ventre materno?! Minha mãe teria sido meu túmulo e eu ficaria para sempre guardado em suas entranhas! Por que saí do seu seio? Para só contemplar tormentos e misérias, e na vergonha consumir meus dias?

 
Capítulo 21

1. Eis o que disse o Senhor a Jeremias, quando o rei Sedecias lhe enviou Fassur, filho de Melquias, e o sacerdote Sofonias, filho de Maasias, para dizerem a ele:
2. Consulta o Senhor em nosso nome porque Nabucodonosor, rei de Babilônia, nos ataca. Talvez o Senhor queira renovar seus milagres a nosso favor, fazendo com que ele se afaste de nós.
3. Eis, respondeu-lhes Jeremias, o que transmitireis a Sedecias:
4. Oráculo do Senhor, Deus de Israel: as armas que empunhais para o combate, fora dos muros, contra o rei de Babilônia e os caldeus que vos sitiam, vou reuni-las no interior desta cidade.
5. Então, com toda a força de meu braço vigoroso, com furor, indignação e cólera, combaterei contra vós.
6. Ferirei os habitantes desta cidade, homens e animais, que serão vítimas de grande peste.
7. Em seguida – oráculo do Senhor -, Sedecias, rei de Judá, seus servos e o povo, e tudo quanto escapar da peste, da espada e da fome, entregá-los-ei a Nabucodonosor, rei de Babilônia, a esses inimigos que lhes odeiam a vida. E eles os passarão ao fio da espada, sem perdão, nem piedade ou misericórdia.
8. Dirás então ao povo – oráculo do Senhor: eis que vos coloco na encruzilhada dos caminhos da vida e da morte.
9. Aquele que ficar na cidade perecerá pela espada, pela fome ou pela peste; aquele que sair para entregar-se aos caldeus, que vos sitiam, viverá, e a vida a salvo será seu espólio.
10. Fixei meus olhares sobre esta cidade, para sua desgraça e não para o bem – oráculo do Senhor. Cairá ela nas mãos do rei de Babilônia, e este a entregará às chamas.
11. Eis o que dirás acerca da casa de Judá: Escutai a palavra do Senhor!
12. Casa de Davi, eis o que diz o Senhor: Praticai a justiça desde o nascer do dia, livrai o oprimido das mãos do opressor, para que meu furor não se inflame como o fogo, braseiro que não se pode extinguir, por causa da maldade de vosso procedimento.
13. Eis-me aqui contra ti, habitante do vale, rochedo que dominas a planície. A vós que dizeis: Quem nos virá atacar? Quem penetrará em nossos refúgios?
14. Castigar-vos-ei – oráculo do Senhor -, deitarei fogo à sua floresta e seus arredores serão devorados.

 
Capítulo 22

1. Eis o que me diz o Senhor: Desce ao palácio do rei de Judá, e lá pronunciarás este oráculo:
2. Ouve a palavra do Senhor, rei de Judá, que ocupas o trono de Davi, tu, teus servos e teu povo que entrais por essas portas.
3. Eis o que diz o Senhor: Praticai o direito e a justiça, e livrai o oprimido das mãos do opressor. Não deixeis o estrangeiro sofrer vexames e violências, nem o órfão e a viúva, nem derrameis neste lugar sangue inocente.
4. Se obedecerdes fielmente a esta ordem, continuarão a passar pelas portas deste palácio os reis herdeiros do trono de Davi, montados em carros e cavalos, com seus servos e seu povo.
5. Se, porém, não escutardes estas palavras, juro-o por mim mesmo – palavra do Senhor -, será reduzido a escombros este palácio.
6. Porque eis o oráculo do Senhor sobre o palácio do rei de Judá: Eras a meus olhos como os montes de Galaad, qual o cimo do Líbano. Juro, porém, que te vou transformar em solidão, num deserto.
7. Preparo contra ti destruidores, munidos de seus instrumentos, que abaterão teus cedros mais formosos, e os lançarão ao fogo.
8. Muitos pagãos, ao passarem perto desta cidade, uns aos outros hão de dizer: Por que assim tratou o Senhor esta grande cidade?
9. E ser-lhes-á respondido: Porque seus habitantes abandonaram a aliança com o Senhor, seu Deus, prosternando-se ante outros deuses e a eles rendendo culto.
10. Não choreis o morto, nem por ele vos lamenteis. Chorai, chorai antes sobre aquele que parte, e que não voltará mais, nem tornará a ver o país natal.
11. Porque assim fala o Senhor a respeito de Selum, filho de Josias, rei de Judá, que reinava em lugar do pai, e partiu desse lugar: Não voltará mais para ali.
12. Morrerá no local do seu exílio, sem jamais rever a pátria.
13. Ai daquele que para si construiu esse palácio por meios desonestos, e seus salões, violando a eqüidade. Ai daquele que faz seu próximo trabalhar sem paga, e lhe recusa o salário!
14. E daquele que diz: Vou mandar construir suntuosa morada, salões espaçosos, com largas janelas e revestimento de cedro, e pinturas de vermelho.
15. Julgas ter o posto de rei porque rivalizas (no emprego) do cedro? Também teu pai comia e bebia, praticava a justiça e a eqüidade, e tudo lhe era próspero.
16. Julgava a causa do pobre e do infeliz, e tudo lhe era próspero. Não é isso conhecer-me? – oráculo do Senhor.
17. Mas teus olhos e teu coração não procuraram senão satisfazer tua cobiça, derramar o sangue do inocente e exercer a opressão e a violência.
18. Eis, portanto, o oráculo do Senhor sobre Joaquim, filho de Josias, rei de Judá: não haverá lamentações por ele: Ai, meu irmão! Ai, minha irmã! Nem o chorarão, dizendo: Ai, Senhor! Ai, majestade!
19. Sua pompa fúnebre será qual a do asno, e o arrastarão, jogando-o para fora das portas de Jerusalém.
20. Sobe ao Líbano e clama em altas vozes, fazendo-as ressoar por Basã. Clama do alto do monte Aborim, porque teus amantes foram esmagados.
21. Falei-te no tempo de tua prosperidade, disseste-me, porém: Não te ouvirei. Pois é este teu costume desde a juventude, não escutas a minha voz.
22. Serão teus pastores pasto dos ventos, e teus amantes serão levados ao cativeiro. A vergonha e a confusão serão tua partilha, por causa de tua malícia.
23. Tu que moras no Líbano e fazes teu ninho nos cedros, quanto haverás de gemer, presa das dores, e das convulsões semelhantes às da mulher ao dar à luz!
24. Pela minha vida! – oráculo do Senhor -, ainda que Conias, filho de Joaquim, rei de Judá, fosse um anel em minha mão direita, eu o arrancaria!
25. Entregar-te-ei aos que odeiam a tua vida, àqueles que temes, a Nabucodonosor, rei de Babilônia, e aos caldeus.
26. Lançar-te-ei, a ti e à tua mãe que te pôs no mundo, em terra que não é a vossa terra natal, e onde morrereis.
27. E à terra a que aspiram, não tornarão a voltar.
28. Acaso será Conias algum traste desprezível, que ninguém mais tem em conta? Por que são repelidos, ele e sua raça, e atirados a uma terra que não conhecem?
29. Terra, terra, terra, escuta a palavra do Senhor. Eis o que diz o Senhor:
30. Inscrevei este homem entre os que não deixaram descendência, entre aqueles que coisa alguma lograram em vida! Pois que ninguém de sua raça conseguirá ocupar o trono de Davi e reinar sobre Judá.

 
Capítulo 23

1. Ai dos pastores que deixam perder-se e dispersar-se o rebanho miúdo de minha pastagem! – oráculo do Senhor.
2. Por isso, assim fala o Senhor, Deus de Israel, acerca dos pastores que apascentam o meu povo: Dispersastes o meu rebanho e o afugentastes, sem dele vos ocupar. Eu, porém, vou ocupar-me à vossa custa da malícia de tal procedimento – oráculo do Senhor.
3. Reunirei o que restar das minhas ovelhas, espalhadas pelos países em que as exilei e as trarei para as pastagens em que se hão de multiplicar.
4. Escolherei para elas pastores que as apascentarão, de sorte que não tenham receios nem temores, e já nenhuma delas se extravie – oráculo do Senhor.
5. Dias virão – oráculo do Senhor – em que farei brotar de Davi um rebento justo que será rei e governará com sabedoria e exercerá na terra o direito e a eqüidade.
6. Sob seu reinado será salvo Judá, e viverá Israel em segurança. E eis o nome com que será chamado: Javé-nossa-justiça!
7. Eis por que chegarão dias – oráculo do Senhor – em que não se dirá mais: Viva Deus, que tirou do Egito os filhos de Israel.
8. Mas sim: Viva Deus, que fez voltar os israelitas do norte e de todas as terras, aonde os exilara, trazendo-os à pátria.
9. Aos profetas. Parte-se dentro de mim o coração, e se me abalaram todos os ossos. Assemelho-me a um ébrio, qual homem prostrado pelo vinho, por causa do Senhor e de sua palavra santa.
10. A terra está cheia de adultérios e está em luto esta terra maldita. As pastagens do deserto ressecaram e os homens correm para o mal. É a iniqüidade que lhes dá forças.
11. São profanos o próprio profeta e o sacerdote. Até no meu templo encontro sua perversidade – oráculo do Senhor.
12. Por isso o seu caminho será como um caminho escorregadio nas trevas, e lá se entrechocarão e hão de cair. Pois precipitarei a desgraça sobre eles no ano em que os castigar – oráculo do Senhor.
13. Entre os profetas samaritanos vi absurdos: profetizaram em nome de Baal e desencaminharam meu povo de Israel.
14. Mas, entre os profetas de Jerusalém vejo coisas hediondas: adultério e hipocrisia. Encorajam os maus, para que nenhum se converta da maldade. A meus olhos são todos iguais a Sodoma e seus congêneres semelhantes a Gomorra.
15. Por isso, eis o oráculo do Senhor dos exércitos, contra os profetas: vou nutri-los com absinto, e dar-lhes de beber águas contaminadas. Porquanto, é pela atitude dos profetas de Jerusalém que a impiedade invadiu a terra.
16. Eis o que diz o Senhor dos exércitos: não escuteis os profetas que vos transmitem vãos oráculos; são visões do próprio espírito que vos divulgam, e não as palavras do Senhor.
17. Não cessam de proclamar aos que me desprezam: Oráculo do Senhor: tudo irá bem para vós! e aos que seguem, obstinadamente, as tendências do coração dizem ainda: Nada de mal vos acontecerá.
18. Mas qual deles assistiu à deliberação do Senhor? Quem o viu, e lhe escutou a palavra? Quem a ouviu e lhe prestou atenção?
19. Ora, eis que explode a tempestade do Senhor, o seu furor, e a tormenta que redemoinha, prestes a cair sobre a cabeça dos maus.
20. Não se acalmará a cólera do Senhor, enquanto não se executarem e cumprirem seus desígnios. Somente nos dias que virão os entendereis plenamente.
21. Não enviei tais profetas: são eles que correm; nem jamais lhes falei; e, no entanto, proferiram oráculos.
22. Houvessem eles assistido à minha deliberação, e seriam minhas as palavras que haveriam de proferir, fazendo que meu povo renunciasse à perversidade de seu procedimento.
23. Porventura eu sou Deus apenas quando estou perto? – oráculo do Senhor. Não o sou também quando de longe?
24. Poderá um homem se ocultar de tal modo que eu o não veja? – oráculo do Senhor. Porventura não enche minha presença o céu e a terra? – oráculo do Senhor.
25. Ouço o que dizem os profetas que proferem em meu nome falsos oráculos. Tive um sonho. Tive um sonho!
26. Quanto tempo vai durar isso? Julgam esses profetas, ao proferirem mentiras e as imposturas de seus corações,
27. que irão, pelos sonhos que contam uns aos outros, tornar meu nome esquecido do povo, assim como aconteceu a seus pais, que esqueceram o meu nome por causa do de Baal?
28. Conte o profeta o sonho que tiver! Mas, a quem for dado ouvir-me a palavra, que fielmente a reproduza. Que vem fazer a palha com o grão? – oráculo do Senhor.
29. Não se assemelha ao fogo minha palavra – oráculo do Senhor -, qual martelo que fende a rocha?
30. Eis por que – oráculo do Senhor – vou lançar-me contra os profetas que imitam minhas revelações falando a outros.
31. Vou pedir contas aos profetas, cujas línguas não vacilam em proclamar: oráculo do Senhor.
32. Irei contra os profetas de sonhos enganadores que, ao narrá-los, ludibriam com mentiras e fatuidade o meu povo, quando nem missão lhes outorguei, nem mandato algum, e de nenhuma valia são para esse povo – oráculo do Senhor.
33. Quando esse povo ou algum profeta ou sacerdote vier perguntar-te: Qual o novo fardo do Senhor que anuncias? dir-lhe-ás: Fardo? És tu esse fardo, e dele me alijarei – oráculo do Senhor.
34. E o profeta, o sacerdote ou o leigo, que (ousar) dizer: oráculo do Senhor, eu o castigarei, assim como a sua família.
35. Eis como entre vós deveis exprimir-vos: Que respondeu o Senhor? ou: Que disse o Senhor?
36. Não repitais, porém: oráculo do Senhor, porquanto tal palavra tornar-se-á um fardo para cada um, já que deturpais o sentido das palavras de Deus.
37. Ao profeta dirás portanto: Que te respondeu o Senhor? Que te disse o Senhor?
38. Se, porém, empregardes esta palavra: oráculo do Senhor, sendo que vos adverti de que não a deveríeis repetir,
39. por tal motivo erguer-vos-ei (qual um fardo) e longe de mim vos lançarei, bem como a cidade que a vós e a vossos pais havia outorgado.
40. Eu vos afligirei com um perpétuo opróbrio, uma eterna vergonha, inesquecível.

 
Capítulo 24

1. (Fez-me o Senhor contemplar esta visão): colocadas diante do templo do Senhor estavam duas cestas de figos. (Isso foi depois que Nabucodonosor, rei de Babilônia, havia deportado de Jerusalém Jeconias, filho de Joaquim, rei de Judá, juntamente com os chefes de Judá, e seus carpinteiros e serralheiros).
2. Uma das cestas continha ótimos figos, como o são os prematuros; a outra, porém, tão maus que nem mesmo se podiam comer.
3. Disse-me o Senhor: Que vês, Jeremias? Figos, respondi; excelentes uns, péssimos outros, que nem mesmo servem para comer.
4. Foi-me então dirigida pelo Senhor a palavra, nestes termos:
5. Eis o que disse o Senhor Deus de Israel. Assim como contemplas (com prazer) os figos bons, assim também olharei favoravelmente os desterrados de Judá que destes lugares exilei para a terra dos caldeus.
6. A eles lançarei olhar benévolo e os reconduzirei a esta terra, onde os restabelecerei para não mais arruiná-los, e de novo os plantarei sem que os torne a arrancar.
7. Dar-lhes-ei um coração capaz de conhecer-me e de saber que sou eu o Senhor. Eles serão o meu povo, e eu serei o seu Deus porque de todo o coração se voltarão a mim.
8. E, à semelhança do que acontece aos maus figos que por demais estragados, já não são comíveis, assim também farei, diz o Senhor, de Sedecias, rei de Judá, dos seus chefes e do resto da população de Jerusalém que permanece nesta terra ou que no Egito se haja refugiado.
9. Farei deles objeto de pavor, de desgraça para todos os reinos da terra, de vergonha e zombaria, escárnio e maldição em toda parte por onde os dispersar.
10. Contra eles enviarei a espada, a fome e a peste até que sejam exterminados do solo que a eles e a seus pais havia concedido.

 
Capítulo 25

1. Eis o que foi dito a Jeremias a respeito de todo o povo de Judá, no quarto ano do reinado de Joaquim, filho de Josias, rei de Judá (era no primeiro ano de Nabucodonosor, rei de Babilônia)
2. e que o profeta Jeremias tornou conhecido de todo o povo de Judá e dos habitantes de Jerusalém:
3. Desde o décimo terceiro ano de Josias, filho de Amon, rei de Judá, até este dia, eis que vinte e três anos são decorridos desde que a palavra do Senhor me foi dirigida e que vo-la transmiti com assiduidade, sem a terdes, entretanto, escutado.
4. Continuamente o Senhor enviou-vos os profetas, seus servos, mas nenhuma atenção lhes prestastes, e não destes ouvidos às suas mensagens.
5. Assim falava ele: renuncie cada um de vós à vida perversa e à maldade do procedimento, e ficareis para sempre na terra que o Senhor vos havia concedido, assim como a vossos pais desde sempre.
6. Não andeis à procura de outros deuses, para ante eles vos prostrardes e lhes renderdes culto. Não me provoqueis à cólera, para vossa própria desgraça, com esses (ídolos) que vossas mãos fabricaram.
7. Mas não me escutastes – oráculo do Senhor -, o que provocou minha cólera, para a vossa desgraça, por causa dos (ídolos) feitos por vossas mãos.
8. Por isso, assim disse o Senhor dos exércitos: porque não me escutastes as palavras,
9. vou conclamar todas as tribos do norte, – oráculo do Senhor -, assim como o meu servo, Nabucodonosor, rei de Babilônia, a fim de lançá-los contra esta terra e seus habitantes, e todas essas nações que a cercam. Votá-los-ei ao interdito e deles farei objeto de assombro, de assobio e de eterna ruína.
10. Abafarei seus gritos de alegria e os cânticos de júbilo, a voz do esposo e da esposa, e amortecerei o ruído da mó e o brilho da lâmpada.
11. Converter-se-á esta terra em angústia e solidão, e por setenta anos lhe há de perdurar a servidão ao rei de Babilônia.
12. Decorridos esses setenta anos, castigarei o rei de Babilônia e seu povo por causa de seus pecados – oráculo do Senhor -, assim como a terra dos caldeus, que transformarei definitivamente num deserto.
13. Contra essa terra executarei todas as ameaças que proferi contra ela, e que neste livro se acham consignadas. (O que Jeremias profetizou contra todas as nações pagãs.)
14. Porquanto, eles serão, por sua vez, subjugados por numerosas nações e grandes reis, e lhes retribuirei segundo os atos e feitos de suas mãos!
15. Eis o que me disse o Senhor, Deus de Israel: Toma de minhas mãos esta taça cheia do vinho de minha ira, e faze com que dele bebam todos os povos, aos quais te enviarei.
16. Quando o tiverem bebido, ficarão aturdidos e enlouquecerão à vista da espada que contra eles enviarei.
17. Tomei, então, a taça das mãos do Senhor e dela fiz beberem todos os povos aos quais me enviou o Senhor:
18. Jerusalém e as cidades de Judá, seus reis e chefes, para transformar tudo num deserto, numa desolação ante a qual se há de escarnecer, exemplo que será citado entre as maldições, como hoje se vê;
19. ao faraó, rei do Egito, aos seus servos, oficiais e povo,
20. assim como à mistura das populações, a todos os reis de terra de Us, a todos os reis da terra dos filisteus e a Ascalon, Gaza, Acaron, ao que resta de Azot,
21. à Iduméia, a Moab e aos filhos de Amon;
22. a todos os reis de Tiro, aos de Sidônia e aos das ilhas que estão além do mar,
23. e a Dedã, Tema e Buz; a todos os que se fazem cortar os cabelos nas têmporas;
24. aos reis da Arábia e aos da mistura de populações que habita o deserto;
25. a todos os reis de Zambri, aos de Elã e aos reis da Média;
26. a todos os reis do norte, próximos ou longínquos, uns após outros; a todos os reinos do mundo que habitam na superfície da terra. E depois deles beberá o rei de Sesac.
27. Dir-lhes-ás, então: assim disse o Senhor Deus de Israel: Bebei, embriagai-vos, vomitai, e caí para não mais vos levantardes sob o gládio que envio contra vós. -
28. Se recusarem tomar a taça de tuas mãos para beber, isto lhes dirás: eis o que me disse o Senhor dos exércitos: Haveis de bebê-la.
29. É pela cidade, onde meu nome foi invocado, que começo a punir; e vós, estaríeis isentos do meu castigo? Não, não sereis poupados, pois que farei vir a espada sobre todos os habitantes da terra – oráculo do Senhor dos exércitos.
30. E assim profetizarás: Ruge o Senhor do alto do céu, e de sua morada santa faz ouvir a sua voz. Ruge contra o seu rebanho, e lança o grito do pisador contra todos os habitantes da terra.
31. Estende-se o tumulto até os confins do mundo, pois que o Senhor está em litígio com as nações. Entra em processo contra toda carne, entregando à espada os maus – oráculo do Senhor.
32. Eis o que diz o Senhor dos exércitos: eis que o flagelo vai estender-se de nação em nação. E dos confins da terra vai desencadear-se violenta tempestade.
33. Aqueles que o Senhor nesse dia tiver atingido, de uma a outra extremidade da terra, não serão chorados, nem recolhidos e sepultados, jazendo no solo qual esterco.
34. Brami, pastores, gritai! Rolai na poeira, chefes do rebanho! Pois que chegou o dia de vossa destruição, e caireis como carneiros escolhidos.
35. Não haverá mais refúgio para os pastores, nem salvação para os chefes do rebanho!
36. Ouvi os gritos dos pastores, e os bramidos dos chefes do rebanho, porque o Senhor lhes devasta os pastos.
37. A placidez dos campos é devastada pela cólera fervente do Senhor.
38. Partiu qual leão ao safar-se da rede; a terra vai transformar-se em deserto, sob os golpes do gládio destruidor, e da ardente cólera do Senhor.

 
Capítulo 26

1. No começo do reinado de Joaquim, filho de Josias, rei de Judá, foi dirigida a Jeremias a palavra do Senhor nestes termos:
2. Eis o que disse o Senhor: coloca-te no átrio do templo e a toda a gente de Judá, que vier prosternar-se no templo do Senhor, repete todas as palavras que te ordenei dizer, sem deixar nenhuma.
3. Talvez as ouçam eles e renunciem ao perverso comportamento. Arrepender-me-ei, então, dos males que cogito desencadear sobre eles por motivo da perversidade de sua vida.
4. E então tu lhes dirás: eis o que diz o Senhor: Se não me escutardes, se não obedecerdes à lei que vos impus,
5. e não ouvirdes as palavras dos profetas, meus servos, que não cessei de vos enviar continuamente, sem que delas vos importásseis,
6. farei deste edifício o que fiz de Silo e desta cidade um exemplo que todos os povos da terra citarão em suas maldições.
7. Os sacerdotes, os profetas e todo o povo ouviram Jeremias pronunciar essas palavras no templo.
8. Mal, porém, acabara de repetir o que o Senhor lhe ordenara dizer ao povo, lançaram-se sobre ele os sacerdotes, os profetas e a multidão, exclamando: À morte!
9. Por que proferes, em nome do Senhor, este oráculo: a este templo: o mesmo acontecerá que a Silo e se transformará em deserto sem habitantes esta cidade? Ajuntou-se então a multidão no templo em torno de Jeremias.
10. Ao saberem do que ocorria, acorreram do palácio real ao templo os oficiais de Judá e se postaram no umbral da Porta Nova do templo do Senhor.
11. Então, os sacerdotes e os profetas clamaram aos oficiais e à multidão: Este homem merece a morte porque profetizou contra esta cidade, como todos ouvistes com vossos próprios ouvidos.
12. Jeremias, porém, retrucou aos oficiais e ao povo: Foi o Senhor quem me deu o encargo de proferir contra este povo e esta cidade os oráculos que ouvistes.
13. Reformai, portanto, vossa vida e modo de agir, escutando a voz do Senhor, vosso Deus, a fim de que afaste de vós o mal de que vos ameaça.
14. Quanto a mim entrego-me nas vossas mãos. Fazei de mim o que quiserdes e que melhor se vos afigure.
15. Sabei, porém, que se me condenardes à morte, será de sangue inocente que maculareis esta cidade e seus habitantes; pois, na verdade, foi o Senhor quem me ordenou vos transmitisse estes oráculos.
16. Disseram, então, os oficiais e a multidão aos sacerdotes e profetas: Este homem não merece a morte! Foi em nome do Senhor, nosso Deus, que nos falou.
17. Ante a multidão tomaram a palavra alguns dos anciãos:
18. Miquéias de Morechet, disseram eles, que profetizava no tempo de Ezequias, rei de Judá, assim falou ao povo: isto diz o Senhor dos exércitos: Sião será como um campo lavrado. Jerusalém será um montão de escombros, e a colina do templo, um morro cheio de mato.
19. Ezequias, rei de Judá, e o povo de Judá condenaram-no por isso à morte! Não temeram eles o Senhor? Não lhe imploraram o favor, a ponto de se arrepender do mal com que os ameaçava? E nós poderíamos arcar com a responsabilidade de tão grande crime?
20. Houve também um homem que proferia oráculos em nome do Senhor: Urias, filho de Semei, de Cariatiarim. Contra a cidade e o país anunciara os mesmos flagelos que Jeremias.
21. Chegaram suas palavras aos ouvidos do rei Joaquim e de seus oficiais e chefes, tendo o rei procurado meios de condená-lo à morte. Urias, informado do que se passava, teve medo e fugiu, refugiando-se no Egito.
22. Mas Joaquim enviou ao Egito Elnatã, filho de Acobor, acompanhado de alguns homens.
23. Estes trouxeram o profeta do Egito e entregaram-no ao rei, o qual o mandou degolar, jogando seu cadáver na fossa comum.
24. Contudo, a influência de Aicã, filho de Safã, protegeu Jeremias, impedindo que fosse entregue ao povo e condenado à morte.

 
Capítulo 27

1. No início do reinado de Sedecias, filho de Josias, rei de Judá, foi dirigida a palavra do Senhor a Jeremias nestes termos:
2. Eis o que me disse o Senhor: prepara laços e barras de jugo e coloca-os ao pescoço.
3. Em seguida, tu os enviarás ao rei de Edom, ao rei de Moab, ao rei dos filhos de Amon, ao rei de Tiro e ao rei de Sidônia, por intermédio dos embaixadores que vieram a Jerusalém apresentar-se a Sedecias, rei de Judá.
4. E encarregá-los-ás de levar a seus senhores esta mensagem: eis o que disse o Senhor, Deus de Israel: dizei a vossos senhores:
5. eu sou aquele que, por soberana ação da força do meu braço, criei a terra, e os homens e animais que nela se encontram, e a dou a quem melhor me aprouver;
6. todos estes países agora eu os entreguei ao meu servo Nabucodonosor, rei de Babilônia, a quem confiei mesmo os animais dos campos para lhe serem sujeitos.
7. Todas estas nações ficar-lhe-ão submissas, assim como a seu filho e neto, até que chegue também a vez de sua terra, a qual será dominada por numerosas nações e grandes reis.
8. A nação ou o reino que se recusar a servir Nabucodonosor, rei de Babilônia, e a inclinar-se ante o seu jugo, eu castigarei – oráculo do Senhor – pela espada, pela fome ou pela peste até que se aniquile em suas mãos.
9. Não escuteis, portanto, vossos profetas e adivinhos, nem vossos vaticinadores, astrólogos e feiticeiros que vos disseram que não sereis sujeitos ao rei de Babilônia.
10. Porque são mentiras que vos profetizam a fim de que sejais banidos de vossa terra, dispersados por mim e levados a perecer.
11. Ao contrário, o povo que se inclinar ante o jugo do rei de Babilônia e a ele submeter-se, deixá-lo-ei tranqüilo em sua terra – oráculo do Senhor -, a fim de cultivá-la e nela morar.
12. Dirigi-me, em seguida, a Sedecias com quem mantive a mesma linguagem: curvai vossas cabeças sob o jugo do rei de Babilônia. Servi-o a ele e a seu povo, e tereis a vida.
13. Por que expor-te, tu e teu povo, à morte pela espada, pela fome e pela peste, como o Senhor anunciou a todo povo que recusar servidão ao rei de Babilônia?
14. não escuteis, portanto, a voz dos profetas que dizem que não sereis submetidos ao rei de Babilônia, pois são mentiras o que vos anunciam.
15. Não fui eu quem os enviou – oráculo do Senhor – e eles mentem proferindo oráculos em meu nome. Assim eu vos repelirei, e vós e vossos profetas perecereis.
16. Dirigi-me, em seguida, aos sacerdotes e ao povo: Eis o que diz o Senhor: Não escuteis a voz dos profetas ao dizer-vos que os objetos do templo em breve voltarão de Babilônia. É falsidade o que proferem.
17. Não os escuteis. Submetei-vos ao rei de Babilônia, a fim de que possais viver. Por que seria esta cidade transformada em deserto?
18. Se na verdade são profetas inspirados pelo Senhor, que intercedam junto ao Senhor dos exércitos, a fim de que os objetos que ficaram no templo, no palácio do rei de Judá e em Jerusalém não sejam levados para Babilônia!
19. Porquanto, eis o que disse o Senhor dos exércitos a respeito das colunas, do mar, dos pedestais e dos demais objetos que ficaram na cidade,
20. e que Nabucodonosor, rei de Babilônia, não retirou, ao deportar de Jerusalém para Babilônia Jeconias, filho de Joaquim, rei de Judá, juntamente com todos os notáveis de Judá e Jerusalém…
21. Eis o que disse o Senhor dos exércitos, Deus de Israel, com referência aos objetos que ficaram no templo, no palácio do rei e em Jerusalém:
22. serão eles carregados para Babilônia – oráculo do Senhor – e lá permanecerão até o dia em que eu for buscá-los e os trouxer para recolocá-los neste lugar.

 
Capítulo 28

1. Nesse mesmo ano, no começo do reinado de Sedecias, rei de Judá, ou seja, no quinto mês do quarto ano, Ananias, filho de Azur, profeta de Gabaão, veio ao templo e, perante os sacerdotes e a multidão, proferiu as seguintes palavras:
2. Assim fala o Senhor dos exércitos, Deus de Israel: vou romper o jugo do rei de Babilônia.
3. Ainda exatamente mais dois anos, e farei voltar a este lugar todos os objetos do templo que Nabucodonosor, rei de Babilônia, dele retirou, levando-os para Babilônia.
4. Para aqui trarei Jeconias, filho de Joaquim, rei de Judá, e todos os deportados de Judá que foram para Babilônia – oráculo do Senhor -, porquanto vou romper o jugo do rei de Babilônia.
5. O profeta Jeremias, porém, na presença dos sacerdotes e do povo que se aglomerava no templo, respondeu ao profeta Ananias:
6. assim seja, disse ele, e que Deus o permita! Realize o Senhor tua profecia e traga de volta o mobiliário do templo e os deportados de Babilônia.
7. Escuta, contudo, o que vou dizer-te, assim como a todo o povo:
8. os profetas que nos precederam a mim e a ti anunciaram, contra numerosos países e reinos poderosos, guerra, fome e peste.
9. Quanto ao profeta que predisse a felicidade, somente quando seu oráculo se realizar, poder-se-á saber se ele é realmente um enviado do Senhor.
10. Arrancou, então, o profeta Ananias o jugo do pescoço do profeta Jeremias e, partindo-o,
11. exclamou perante a multidão: Oráculo do Senhor! Assim é que, dois anos decorridos, quebrarei do pescoço de todas as nações o jugo de Nabucodonosor, rei de Babilônia! Retirou-se, então, o profeta Jeremias.
12. Mas, depois que o profeta Ananias assim arrancou e destruiu o jugo do pescoço de Jeremias, a palavra do Senhor foi dirigida a este nestes termos:
13. Vai dizer a Ananias: eis o que disse o Senhor: quebraste um jugo de madeira, mas o substituíste por outro de ferro.
14. Porquanto, eis o que disse o Senhor dos exércitos: é de ferro o jugo que imponho ao pescoço de todas estas nações, a fim de que se submetam a Nabucodonosor, rei de Babilônia. Ficar-lhe-ão submissas, e a ele dou também todo o poder sobre os animais selvagens.
15. E Jeremias acrescentou, ao dirigir-se ao profeta Ananias: Ouve bem, Ananias! Não te outorgou missão o Senhor. És tu que arrastas o povo a crer na mentira.
16. Por isso, eis o que disse o Senhor: vou afastar-te da face da terra. Ainda neste ano morrerás, pois que insuflaste a revolta contra o Senhor!
17. Nesse mesmo ano, no sétimo mês, pereceu o profeta Ananias.

 
Capítulo 29

1. Eis o teor da carta que o profeta Jeremias endereçou de Jerusalém aos demais anciãos cativos, aos sacerdotes e profetas, e a todo o povo deportado por Nabucodonosor para Babilônia,
2. depois que deixaram Jerusalém, o rei Jeconias, a rainha-mãe, os eunucos, os chefes de Judá e Jerusalém e os carpinteiros e serralheiros.
3. Foi esta carta levada por Elasa, filho de Safã, e Gamarias, filho de Helcias,os quais Sedecias, rei de Judá, enviara a Babilônia, junto ao rei Nabucodonosor, e assim dizia:
4. Eis o que diz o Senhor dos exércitos, Deus de Israel, a todos os cativos que deportei de Jerusalém para Babilônia:
5. construí casas e nelas morai, plantai pomares e comei seus frutos.
6. Procurai mulher e gerai filhos e filhas, procurai mulheres para vossos filhos, e dai vossas filhas a maridos para que dêem ao mundo rapazes e moças. Multiplicai-vos em lugar de diminuir.
7. Tomai a peito o bem da cidade para onde vos exilei e rogai por ela ao Senhor, porque só tereis que lucrar com a sua prosperidade.
8. Pois assim disse o Senhor dos exércitos, Deus de Israel: Não vos deixeis engodar pelos profetas que se acham entre vós, nem pelos adivinhos. Não escuteis os sonhos que anunciam.
9. Porquanto esses homens mentem, pretendendo pronunciar oráculos em meu nome. Não lhes outorguei tal encargo – oráculo do Senhor.
10. Eis o que diz o Senhor: Quando setenta anos tiverem decorrido para Babilônia, eu vos visitarei a fim de realizar a promessa que vos fiz de aqui vos reconduzir.
11. Bem conheço os desígnios que mantenho para convosco – oráculo do Senhor -, desígnios de prosperidade e não de calamidade, de vos garantir um futuro e uma esperança.
12. Invocar-me-eis e vireis suplicar-me, e eu vos atenderei.
13. Procurar-me-eis e me haveis de encontrar, porque de todo o coração me fostes buscar.
14. Permitirei que me encontreis – oráculo do Senhor; e vos trarei do cativeiro e vos irei buscar em todas as nações e em todos os lugares por onde vos dispersei – oráculo do Senhor – para reintegrar-vos no lugar de onde vos exilei.
15. Objetareis, porém, que o Senhor vos suscitou profetas em Babilônia.
16. Eis o que diz o Senhor a propósito do rei que ocupa o trono de Davi, do povo que permaneceu na cidade, e de todos os vossos irmãos que não partiram convosco para o exílio:
17. eis o que diz o Senhor dos exércitos: vou enviar contra eles a espada, a fome e a peste, e os tratarei como figos deteriorados, tão maus que não se podem mais comer.
18. Persegui-los-ei com a espada, a fome e a peste, e deles farei objeto de horror ante todos os reinos da terra, exemplo a ser citado entre as maldições, assunto de espanto que fará pasmar, e vergonha aos olhos das nações para onde eu os dispersar;
19. porque não escutaram minhas palavras – oráculo do Senhor – quando, sem cessar, lhes enviava os profetas, meus servos, aos quais também não ouviram – oráculo do Senhor.
20. Mas vós todos, exilados que deportei de Jerusalém para Babilônia, escutai a palavra do Senhor:
21. eis o que diz o Senhor dos exércitos, Deus de Israel, a respeito de Acab, filho de Colias, e de Sedecias, filho de Maasias, que vos transmitem em meu nome falsos oráculos: vou entregá-los nas mãos de Nabucodonosor, rei de Babilônia, que os mandará matar ante vossos olhos.
22. Servirão eles de maldição entre os judeus cativos que se acham em Babilônia. E dir-se-á: Que Deus faça contigo como a Sedecias e Acab, os quais o rei de Babilônia mandou frigir no fogo!
23. E isso porque cometeram uma infâmia em Israel; por consumarem o adultério com as mulheres de seus vizinhos, e ainda por haverem proferido falsos oráculos em meu nome e contra minha vontade. Tudo isso eu sei por havê-lo testemunhado – oráculo do Senhor.
24. E a Semeias Neelamita dirás:
25. Eis o que diz o Senhor dos exércitos, Deus de Israel: já que enviaste uma carta em teu nome a todo o povo de Jerusalém, ao sacerdote Sofonias, filho de Maasias, e a todos os sacerdotes, na qual lhes dizes:
26. Fez-te o Senhor sacerdote em lugar do sacerdote Jojada, a fim de que vigies no templo todo fanático que se intitular profeta e o metas no cepo ou no cárcere;
27. por que, então, não fizeste voltar à razão Jeremias de Anatot que profetiza entre vós?
28. Eis que nos escreve para Babilônia a fim de nos dizer: isso durará longo tempo. Construí casas e habitai-as; plantai pomares e deles comei os frutos.
29. Leu esta carta o sacerdote Sofonias ao profeta Jeremias,
30. ao qual falou o Senhor, nestes termos:
31. Eis o que mandarás dizer a todos os deportados: oráculo do Senhor a respeito de Semeias Neelamita: porque Semeias vos proferiu oráculos, sem que eu lhos houvesse delegado, e vos levou a crer em mentiras,
32. eis o que diz o Senhor: vou usar de severidade com Semeias Neelamita e sua descendência. Nenhum dos seus subsistirá entre vós para desfrutar a felicidade que concederei a meu povo – oráculo do Senhor – , pois que pregou a revolta contra o Senhor.

 
Capítulo 30

1. Dirigiu o Senhor nestes termos a palavra a Jeremias.
2. Eis o que disse o Senhor, Deus de Israel: consignarás em um livro todas as palavras que te tenho dito.
3. Pois dias virão – oráculo do Senhor – em que mudarei a sorte de meu povo, Israel e Judá, disse o Senhor, a fim de reintegrá-lo na posse da terra que havia dado a seus pais.
4. Eis as palavras que pronunciou o Senhor a respeito de Judá.
5. Eis o que disse o Senhor: fez-se ouvir um grito de pavor e por toda parte o espanto! Acabou-se a paz!
6. Perguntai! Vede se um homem pode dar à luz. Por que, então, vejo todos os homens com as mãos sobre os rins qual a mulher em parto? Por que trazem essa palidez em seus semblantes?
7. Desgraça! Nenhum dia se assemelha a este; tempo de tribulação para Jacó, do qual, porém, será libertado.
8. Naquele dia – oráculo do Senhor dos exércitos – partirei o jugo que lhe pesa ao pescoço e lhe romperei os laços. Não serão mais cativos dos estrangeiros,
9. mas servirão o Senhor, seu Deus, e Davi, seu rei, que eu lhes suscitarei.
10. E tu, Jacó, meu servo, não temas – oráculo do Senhor -; não tremas, Israel, pois que te vou retirar da terra longínqua, assim como tua raça da terra do exílio. Jacó tornará a viver na tranqüilidade e em segurança, sem que ninguém mais o perturbe.
11. Estou contigo – oráculo do Senhor – para livrar-te. Aniquilarei os povos entre os quais te dispersei. A ti, porém, não destruirei; castigar-te-ei com eqüidade, sem te deixar impune.
12. Porque eis o que diz o Senhor: tua ferida é incurável e perigosa a tua chaga.
13. Ninguém quer tomar o encargo de curá-la, não há para ti remédio nem emplasto.
14. Esqueceram-te os que te amavam, e contigo nem mais se preocupam. Pois que te feri, como se fere um inimigo, com cruel castigo, por causa da gravidade de tua falta e do número de teus pecados.
15. Por que choras sobre tua ferida? Por que incurável é tua dor? É por causa da gravidade de tua falta e do número de teus pecados que te fiz isso.
16. Todos aqueles, contudo, que te devoram, serão devorados; irão para o cativeiro teus opressores; teus destruidores serão despojados, e entregarei ao saque os que te pilharam.
17. Vou enfaixar tuas chagas e curar tuas feridas – oráculo do Senhor. Chamam-te a Repudiada, Sião, de quem não mais se cuida.
18. Mas, eis o que diz o Senhor: restaurarei as tendas de Jacó, e me apiedarei de suas moradas. Será a cidade reconstruída em sua colina, e reedificado o palácio no primitivo lugar.
19. Cânticos de louvor se erguerão e gritos de alegria. Multiplicar-lhes-ei o número, que não será mais reduzido; eu os exaltarei, e não serão mais humilhados.
20. Os filhos serão como eram outrora, e forte será diante de mim sua assembléia; eu castigarei seus opressores.
21. Um dentre eles será o chefe, e do meio deles sairá seu soberano. Mandarei buscá-lo, e perante mim terá acesso, porque nenhum homem se arriscaria a aproximar-se de mim – oráculo do Senhor.
22. Sereis o meu povo, e eu, o vosso Deus.
23. Eis a tempestade do Senhor, a explosão do seu furor, a borrasca que turbilhona, prestes a irromper sobre a cabeça dos maus.
24. Não se acalmará a cólera do Senhor, sem que cumpra e realize seus desígnios. Somente nos dias que virão, havereis de compreender.

 
Capítulo 31

1. Naquele tempo – oráculo do Senhor – serei o Deus de todas as tribos de Israel, e elas constituirão o meu povo.
2. Eis o que diz o Senhor: foi concedida graça no deserto ao povo que o gládio poupara. Dentro em pouco Israel gozará de repouso.
3. De longe me aparecia o Senhor: amo-te com eterno amor, e por isso a ti estendi o meu favor.
4. Reconstruir-te-ei, e serás restaurada, ó virgem de Israel! Virás, ornada de tamborins, participar de alegres danças.
5. E ainda plantarás vinhas nas colinas de Samaria. E delas colherão frutos os plantadores,
6. pois dia virá em que os veladores gritarão nos montes de Efraim: Erguei-vos! Subamos a Sião, ao Senhor, nosso Deus!
7. Porque isto diz o Senhor: Lançai gritos de júbilo por causa de Jacó. Aclamai a primeira das nações. E fazei retumbar vossos louvores, exclamando: O Senhor salvou o seu povo, o resto de Israel.
8. Eis que os trago da terra do norte, e os reúno dos confins da terra. O cego e o coxo estarão entre eles, e também a mulher grávida e a que deu à luz. Será imensa a multidão que há de voltar,
9. e que voltará em lágrimas. Conduzi-la-ei em meio às suas preces; levá-la-ei à beira de águas correntes, por caminhos em que não tropeçarão, porque sou para com Israel qual um pai, e Efraim é o meu primogênito.
10. Nações, escutai a palavra do Senhor; levai a notícia às ilhas longínquas e dizei: Aquele que dispersou Israel o reunirá, e o guardará, qual pastor o seu rebanho.
11. Porquanto o Senhor resgata Jacó e o liberta das mãos do seu dominador.
12. Regressarão entre gritos de alegria às alturas de Sião, acorrendo aos bens do Senhor: ao trigo, ao mosto e ao óleo, ao gado menor e ao maior. Sua alma se assemelha a jardim bem regado, e sua fraqueza cessará.
13. Então a jovem executará danças alegres; jovens e velhos partilharão (o júbilo) comum. Transformar-lhes-ei o luto em regozijo, e os consolarei após o sofrimento e os alegrarei.
14. Cumularei os sacerdotes de abundantes vítimas gordas, e meu povo fartar-se-á de meus bens – oráculo do Senhor.
15. Eis o que diz o Senhor: ouve-se em Ramá uma voz, lamentos e amargos soluços. É Raquel que chora os filhos, recusando ser consolada, porque já não existem.
16. Eis o que diz o Senhor: Cessa de gemer, enxuga tuas lágrimas! Tuas penas terão a recompensa – oráculo do Senhor. Voltarão (teus filhos) da terra inimiga.
17. Desponta em teu futuro a esperança – oráculo do Senhor. Teus filhos voltarão à sua terra.
18. Sim, ouço os gemidos de Efraim: Vós me castigastes; fui punido, qual novilho insubmisso. Convertei-me, porém, e que eu volte, já que sois vós o Senhor, meu Deus.
19. Após haver errado, arrependi-me, e ao compreender feri-me a coxa. Sinto-me envergonhado e confundido, porque trago o opróbrio de minha juventude.
20. Não é, porém, Efraim, filho querido, eternamente amado por mim? Todas as vezes que falo contra ele, mais viva se torna em mim a sua lembrança. E meu coração se comove ao pensar nele. Terei compaixão dele – oráculo do Senhor.
21. Ergue sinais, coloca postes indicadores, olha bem o caminho, a senda que percorres. Volta, virgem de Israel, volta para tuas cidades.
22. Até quando andarás vagando, filha rebelde? Eis que o Senhor criou uma coisa nova sobre a terra: É a esposa que cerca (de cuidados) o esposo.
23. Eis o que diz o Senhor dos exércitos, Deus de Israel: Quando eu lhes houver mudado a sorte à terra de Judá e às suas cidades, proferirão de novo este desejo: Que o Senhor te abençoe mansão de salvação, montanha santa!
24. E nesses lugares, em Judá e suas cidades, juntos habitarão operários e pastores,
25. porque saciarei a alma fatigada e à que enlanguesce matarei a fome.
26. Despertei, então, e senti quão doce me havia sido o sonho.
27. Dias virão – oráculo do Senhor – em que disseminarei sementeiras pelas casas de Israel e de Judá, das quais nascerão homens e animais.
28. Da mesma forma que por eles velei a fim de prejudicá-los, assim velarei para construir e plantar – oráculo do Senhor.
29. Então, não se dirá mais: Os pais comeram uvas verdes, e prejudicados ficaram os dentes dos filhos,
30. mas cada qual morrerá em razão do próprio pecado e, se alguém comer uvas verdes, serão atingidos os próprios dentes.
31. Dias hão de vir – oráculo do Senhor – em que firmarei nova aliança com as casas de Israel e de Judá.
32. Será diferente da que concluí com seus pais no dia em que pela mão os tomei para tirá-los do Egito, aliança que violaram embora eu fosse o esposo deles.
33. Eis a aliança que, então, farei com a casa de Israel – oráculo do Senhor: Incutir-lhe-ei a minha lei; gravá-la-ei em seu coração. Serei o seu Deus e Israel será o meu povo.
34. Então, ninguém terá encargo de instruir seu próximo ou irmão, dizendo: Aprende a conhecer o Senhor, porque todos me conhecerão, grandes e pequenos – oráculo do Senhor -, pois a todos perdoarei as faltas, sem guardar nenhuma lembrança de seus pecados.
35. Eis o que diz o Senhor, que mandou o sol iluminar o dia, ordenou à lua e às estrelas clarearem a noite; que ergue as ondas encapeladas do mar e cujo nome é Javé dos exércitos:
36. Se algum dia cessassem essas leis perante mim – oráculo do Senhor, (somente) então cessaria a raça de Israel, de ser uma nação ante meus olhos, para sempre.
37. Eis o que diz o Senhor: se algum dia os fundamentos da terra puderem ser sondados, somente então poderia eu abandonar a raça de Israel.
38. Dias virão – oráculo do Senhor – em que a cidade será reconstruída pelo Senhor, desde a torre de Hananeel até a porta do Ângulo.
39. Será o cordel estendido para medir até a colina de Gareb, e voltará para Goa.
40. Todo o vale cheio de cadáveres e cinza, e todos os campos até a torrente de Cedron e o ângulo da porta dos Cavalos, a leste, serão bens consagrados ao Senhor. Jamais serão eles devastados, nem destruídos.

 
Capítulo 32

1. A palavra do Senhor foi dirigida a Jeremias, no décimo ano do reinado de Sedecias, rei de Judá. Era, então, o décimo oitavo do reinado de Nabucodonosor.
2. O exército do rei de Babilônia sitiava Jerusalém, e o profeta Jeremias estava detido no cárcere do palácio real.
3. Sedecias, rei de Judá, mandara-o encarcerar lá, dizendo-lhe: Por profetizares desse modo: Oráculo do Senhor: vou entregar esta cidade ao rei de Babilônia, que dela se apossará.
4. E, Sedecias, rei de Judá, não se livrará das mãos dos caldeus, mas cairá sob o poder do rei de Babilônia, a quem falará de viva voz, olhar ante olhar.
5. E, ele será levado a Babilônia, onde permanecerá até que dele eu me ocupe – oráculo do Senhor. E, se entrardes em luta com os caldeus, não tereis êxito.
6. Foi nestes termos que me falou o Senhor, disse Jeremias:
7. Eis que virá Hanameel, filho de teu tio Selum, a fim de te propor a compra de sua terra de Anatot, pois que tens prioridade para comprá-la.
8. Hanameel, meu primo, veio, portanto, procurar-me no cárcere, como havia anunciado o Senhor. Compra, disse-me então, a minha terra de Anatot, na terra de Benjamim, porque cabe a ti, por direito de herança, resgatá-la. Compra-a, portanto. Compreendi que nisso havia um convite do Senhor.
9. Assim, comprei a terra de meu primo, fixando-lhe o preço: dezessete siclos de prata.
10. Lavrei, então, uma escritura e, após tê-la selado, chamei testemunhas perante as quais pesei o dinheiro na balança.
11. Tomei, a seguir, a escritura de venda selada em que figuravam as cláusulas e estipulações, assim como a cópia aberta,
12. e entreguei a primeira a Baruc, filho de Néria, filho de Maasias, em presença de Hanameel, meu primo, das testemunhas signatárias do ato de venda e de todos os judeus que estavam no átrio da prisão.
13. Em seguida, ante eles, dei esta ordem a Baruc:
14. Eis o que diz o Senhor dos exércitos, Deus de Israel: toma estes documentos, esta escritura de venda selada e aquela cópia aberta, e coloca-as num vasilhame de barro a fim de que por muito tempo se conservem.
15. Porquanto, eis o que predisse o Senhor dos exércitos, Deus de Israel: Ainda serão compradas casas, campos e vinhas desta terra.
16. Depois de ter entregue a Baruc, filho de Néria, o contrato de venda, dirigi ao Senhor a seguinte oração:
17. Ah! Senhor Javé, fostes vós que fizestes o céu e a terra com a força de vosso braço. Nada vos é impossível.
18. Concedeis vossos favores a milhares, e castigais os filhos por causa dos pecados dos pais. Deus grande e poderoso que tendes o nome de Javé dos exércitos:
19. sois grande em vossos desígnios, poderoso em vossas realizações e vossos olhos se acham abertos para todos os destinos dos homens, a fim de retribuir a cada um de acordo com sua conduta e os frutos de seus atos.
20. Vós que, outrora no Egito e até agora, tanto em Israel como no estrangeiro, também realizastes milagres e prodígios, e conquistastes o nome glorioso de que agora gozais;
21. vós que fizestes sair do Egito o vosso povo, com prodígios, milagres e com a ação poderosa de vosso braço, por toda parte semeando o terror;
22. vós que lhe haveis dado esta terra, por juramento prometido a seus pais, terra que mana leite e mel!
23. Entraram nesta terra e dela tomaram posse; não escutaram, porém, a vossa voz, nem observaram vossa lei, e nada fizeram do que lhes havíeis imposto. Então, sobre eles chamastes todas essas calamidades.
24. As máquinas de guerra dos inimigos aproximam-se da cidade, a fim de assaltá-la. Vai ser entregue a cidade aos caldeus que a assaltam pela espada, pela fome e pela peste. O que predissestes, realiza-se. Vede!
25. Não obstante, vós me dissestes, Senhor Javé, que comprasse o campo a peso de dinheiro, perante testemunha, quando prestes está a cidade a cair nas mãos dos caldeus!..
26. Foi, então, dirigida nestes termos a Jeremias a palavra do Senhor:
27. Eu sou, em verdade, o Senhor, o Deus de todas as criaturas. Haverá algo que me seja impossível?
28. Eis por que assim diz o Senhor: vou entregar esta cidade aos caldeus e ao rei de Babilônia que dela se hão de apoderar.
29. Os assaltantes caldeus penetrarão na cidade, pôr-lhe-ão fogo e incendiarão as casas, sobre cujos tetos foram feitos sacrifícios a Baal e libações a deuses estranhos, o que me desperta a ira.
30. Os israelitas e judeus, desde a juventude, outra coisa não fizeram senão desgostar-me; sim, só praticam os israelitas o que me é odioso – oráculo do Senhor.
31. Desde o dia em que foi construída esta cidade até hoje, não cessou de exasperar-me a cólera e o furor, de sorte que a repilo de minha presença,
32. por causa de todo o mal cometido pelos israelitas e judeus para irritar-me, bem como os seus reis, príncipes e sacerdotes e todos os de Judá e Jerusalém.
33. Voltaram-me as costas, em vez de me olharem. Ainda que, sem cessar, os tenha instruído, recusaram os meus avisos.
34. E no templo colocaram seus ídolos abomináveis, e conspurcaram o lugar em que meu nome é invocado.
35. Ergueram altares a Baal no vale do Filho de Hinon, para aí queimarem os filhos e as filhas em honra de Moloc, o que não lhes havia ordenado nem jamais me tinha passado pela mente: cometer tal infâmia e tornar Judá culpado de semelhante crime!
36. Assim diz agora o Senhor Deus de Israel, a propósito desta cidade, a qual dizes que vai ser entregue ao rei de Babilônia pela espada, pela fome e pela peste:
37. vou reunir os habitantes de todos os países em que os exilaram minha cólera, meu furor e indignação, e os trarei para aqui, a fim de que habitem em segurança.
38. Serão eles o meu povo, e eu o seu Deus.
39. Dar-lhes-ei um só coração e um mesmo destino, a fim de que sempre me reverenciem, para o seu próprio bem e de seus descendentes.
40. Com eles firmarei pacto eterno, por cujos termos não cessarei mais de lhes proporcionar o bem, e no coração lhes infundirei o temor para que de mim não se venham a afastar.
41. Encontrarei minha alegria em lhes fazer o bem e solidamente os colocarei nesta terra, com toda a minha alma e coração.
42. Porquanto diz o Senhor: assim como lancei sobre este povo tão imensa calamidade, também sobre ele farei recair todo o bem que lhe prometo.
43. Serão comprados campos na terra, da qual dizeis ser um deserto sem homens nem animais, entregue aos caldeus.
44. E serão eles comprados a peso de dinheiro, escrituras serão passadas e seladas perante testemunhas, na terra de Benjamim, nos arredores de Jerusalém, nas cidades de Judá, nas cidades das montanhas, da planície e do Negeb, porque a sorte dos cativos eu a mudarei – oráculo do Senhor.

 
Capítulo 33

1. Pela segunda vez, enquanto Jeremias ainda estava detido no átrio da prisão, foi-lhe dirigida a palavra do Senhor nestes termos:
2. Eis o que diz o Senhor que criou (a terra), que a modelou e consolidou e cujo nome é Javé:
3. invoca-me, e te responderei, revelando-te grandes coisas misteriosas que ignoras.
4. Portanto, eis o que diz o Senhor, Deus de Israel, a propósito das casas da cidade e dos palácios dos reis de Judá que foram demolidos para dar lugar às fortificações e às armas dos caldeus,
5. vindos para combater, e para enchê-las de cadáveres dos homens que firo em minha cólera, e por cuja malícia desviei minha face dessa cidade.
6. Vou pensar-lhes as feridas e curá-las, e proporcionar-lhes abundância de felicidade e segurança.
7. Transformarei a sorte de Judá e de Israel, e fá-los-ei voltar ao que eram outrora.
8. Purificá-los-ei de todos os pecados que contra mim cometeram, e lhes perdoarei todas as iniqüidades de que se tornaram culpados, revoltando-se contra mim.
9. Será para mim motivo de alegria, felicidade e glória diante de todas as nações da terra, o saberem todo o bem com que agraciei meu povo. Ficarão tomadas de receio e temor por causa desse bem e da prosperidade de que vou cumulá-lo.
10. Eis o que diz o Senhor: neste lugar, do qual dizeis que não passa de um deserto sem homens nem animais; nas cidades de Judá e nas ruas de Jerusalém devastadas, onde homem algum habita, nem um animal se encontra, ouvir-se-ão novamente
11. gritos de alegria, cânticos de júbilo, a voz do esposo e da esposa, aclamações daqueles que cantarão: louvai o Senhor dos exércitos, pois que ele é bom e eterna a sua misericórdia, ao apresentarem no templo seus sacrifícios de ação de graças, pois que restituirei a terra tal qual era outrora – oráculo do Senhor.
12. Eis o que diz o Senhor dos exércitos: Neste lugar que é deserto, sem homens nem animais, e em todas as suas cidades, haverá novamente abrigos para os pastores que apascentarão seus rebanhos.
13. Nas cidades das montanhas, nas da planície e nas do Negeb, na terra de Benjamim, nos arredores de Jerusalém e nas cidades de Judá hão de passar ainda rebanhos pela mão do que os conta – oráculo do Senhor.
14. Eis que outros dias virão.
15. E nesses dias e nesses tempos farei nascer de Davi um rebento justo que exercerá o direito e a eqüidade na terra.
16. Naqueles dias e naqueles tempos viverá Jerusalém em segurança e será chamada Javé-nossa-justiça.
17. Porque diz o Senhor: Não faltará jamais a Davi um sucessor para ocupar o trono da Casa de Israel.
18. E, diante de mim, não faltarão jamais descendentes aos sacerdotes e aos levitas para oferecer os holocaustos, queimar as oferendas e celebrar o sacrifício cotidiano.
19. Nestes termos foi a palavra do Senhor dirigida a Jeremias:
20. Eis o que disse o Senhor: se puderdes romper o meu pacto com o dia e a noite, de sorte que dia e noite não surjam no devido tempo,
21. então poderá ser rompido o pacto que fiz com Davi, meu servo, e não terá ele filho que lhe ocupe o trono, e com os sacerdotes e levitas, meus ministros.
22. À semelhança do exército celestial, que se não pode enumerar, e como a areia do mar, que se não pode medir, assim multiplicarei a posteridade de Davi, meu servo, e os levitas, meus ministros.
23. Foi a palavra do Senhor dirigida a Jeremias nestes termos:
24. Não reparaste nas palavras que proferem esses homens? As duas famílias, dizem eles, que pelo Senhor haviam sido eleitas, foram por ele repelidas! É assim que desprezam meu povo, a ponto de, a seus olhos, não constituir mais uma nação.
25. Eis o que diz o Senhor: se não firmei pacto com o dia e a noite, nem regulei as leis do céu e da terra,
26. então poderei rejeitar a raça de Jacó e de Davi, meu servo, e abster-me de escolher da sua descendência os chefes para a raça de Abraão, de Isaac e de Jacó! Pois hei de lhes melhorar a sorte, e deles me apiedarei.

 
Capítulo 34

1. Eis a palavra que pelo Senhor foi dirigida a Jeremias, quando Nabucodonosor, rei de Babilônia, com seu exército, com todos os reinos da terra que lhe eram vassalos e com todos os povos, combatia contra Jerusalém e as cidades que a cercavam.
2. Eis o que disse o Senhor Deus de Israel: vai procurar Sedecias, rei de Judá, e dize-lhe: Eis o que diz o Senhor: vou entregar esta cidade ao rei de Babilônia, que a incendiará.
3. Nem tu lhe poderás escapar. Serás capturado e entregue às suas mãos. Verás o rei de Babilônia, face a face, que de viva voz te falará, e irás para Babilônia.
4. Escuta, contudo, Sedecias, rei de Judá, a palavra do, Senhor! Eis o que ele profere a teu respeito. Não morrerás pela espada.
5. Será em paz que haverás de morrer e, assim como perfumes foram queimados em honra de teus pais, os reis antigos que te precederam, assim também por ti serão queimados. Lágrimas serão derramadas por tua causa: eu, o Senhor, sou eu quem o prediz – oráculo do Senhor.
6. Tudo isso transmitiu Jeremias ao rei Sedecias de Judá, em Jerusalém,
7. enquanto o exército do rei de Babilônia sitiava a cidade, assim como Laquis e Azeca, últimas cidades de Judá que ainda resistiam.
8. Eis a palavra que foi dirigida a Jeremias pelo Senhor, depois que o rei Sedecias fez um pacto com o povo de Jerusalém, a fim de proclamar um decreto de alforria,
9. segundo o qual cada um deveria libertar seu escravo hebreu, homem ou mulher, não conservando na escravidão seus irmãos judeus.
10. Aceitaram todos esse acordo, chefes e povo, consentindo em emancipar seus escravos e em não mais conservá-los em servidão.
11. Mais tarde, porém, voltando atrás em tal decisão, retomaram os escravos e mulheres, que haviam libertado, reduzindo-os novamente ao estado de escravidão.
12. Foi então que a palavra do Senhor assim se dirigiu a Jeremias:
13. Eis o que disse o Senhor, Deus de Israel: no dia em que tirei vossos pais da terra do Egito, desse período de escravidão, com eles concluí uma aliança, assim concebida:
14. ao fim de sete anos, cada um de vós emancipará seu irmão hebreu que lhe houver sido vendido. Servir-te-á durante seis anos; no sétimo, porém, o libertarás. – Não me escutaram, entretanto, vossos pais, nem prestaram atenção.
15. Agora, fizestes o que é grato a meus olhos, cada um proclamando a liberdade ao próximo pela conclusão de um acordo em minha presença, na casa em que meu nome é invocado.
16. Mudastes, porém, de parecer e profanastes meu nome, retomando cada qual vosso escravo e vossa serva que se haviam tornado livres, para de novo os reduzirdes à escravidão.
17. Eis por que diz o Senhor: assim como não me haveis obedecido no que tange à proclamação da liberdade de vossos irmãos, vou, por minha vez, proclamar a vossa volta à espada, à peste e à fome, transformando-vos em objeto de espanto para todos os reinos da terra.
18. Os homens que violaram minha aliança, e não observaram as cláusulas do acordo celebrado em minha presença, vou tratá-los como o touro, que cortaram em dois para passar entre as duas metades.
19. Os chefes de Judá e de Jerusalém, os eunucos, os sacerdotes, e toda a gente da terra, que passaram entre as duas partes do touro,
20. entregá-los-ei aos seus inimigos e àqueles que lhes procuram tirar a vida e os seus cadáveres servirão de pasto às aves do céu e aos animais da terra.
21. Quanto a Sedecias, rei de Judá, entregá-lo-ei, juntamente com seus príncipes, aos inimigos e àqueles que lhe querem tirar a vida, ao exército do rei de Babilônia que de vós se apartou.
22. Vou dar ordens, – oráculo do Senhor – para que voltem a esta cidade. Eles a sitiarão tomando-a de assalto, e haverão de lhe pôr fogo. E transformarei as cidades de Judá em solidão, sem habitantes!

 
Capítulo 35

1. Eis a palavra que foi dirigida pelo Senhor a Jeremias, no tempo de Joaquim, filho de Josias, rei de Judá.
2. Vai procurar a família dos recabitas para falar com eles. Em seguida conduzi-los-ás a uma das salas do templo, onde lhes oferecerás vinho para beber.
3. Fui, então, à procura de Jezonias, filho de Habsanias, seus irmãos e filhos, e toda a família dos recabitas,
4. e os conduzi ao templo, à sala dos filhos de Hanã, filho de Jegdelias, homem de Deus, perto da sala dos chefes, acima da de Maasias, filho de Selum, guarda do vestíbulo.
5. Coloquei diante deles um vaso cheio de vinho e taças, e lhes disse: Bebei este vinho!
6. Responderam eles, porém: Não bebemos vinho, pois que Jonadab, filho de Recab, e nosso avô, assim nos prescreveu: jamais bebereis vinho, vós e vossos filhos.
7. Não construireis casa, não semeareis, não plantareis nem possuireis vinhas, mas habitareis sempre em tendas, a fim de que, por muito tempo, possais viver em uma terra onde permanecereis como estrangeiros. -
8. Observamos a ordem de Jonadab, filho de Recab, nosso avô, em todos os pontos: abstemo-nos de vinho em todos os nossos dias, nós, nossas mulheres, nossos filhos e filhas;
9. não construímos casa para habitar nelas, não possuímos vinhas, nem campos de sementeiras,
10. vivendo debaixo de tendas. Assim em tudo temos obedecido ao que nosso avô Jonadab nos prescreveu.
11. Quando, porém, Nabucodonosor, rei de Babilônia, invadiu a terra, uns aos outros dissemos: vinde e entremos em Jerusalém a fim de escapar do exército dos caldeus e dos arameus. Eis a razão por que nos encontramos em Jerusalém.
12. Foi, então, dirigida assim a Jeremias a palavra do Senhor:
13. Eis o que diz o Senhor dos exércitos, Deus de Israel: vai e dize ao povo de Judá e aos habitantes de Jerusalém: não aceitareis a minha admoestação e não obedecereis à minha palavra? – oráculo do Senhor. -
14. São observadas as ordens de Jonadab, filho de Recab, que proibiu a seus filhos beberem vinho. Abstiveram-se de beber, a fim de se conformarem com a ordem de seu pai. E a mim, que não cesso de vos falar, não me escutais.
15. Sem descanso, enviei-vos desde o princípio os profetas, meus servos, para dizer-vos: desviai-vos do mau caminho e reformai a vossa vida. Não andeis a correr atrás de deuses estranhos para lhes render culto. Ficareis, então, na terra que vos dei, a vós e a vossos pais. Não destes, porém, ouvidos, nem obedecestes.
16. Os filhos de Jonadab, filho de Recab, respeitam as prescrições de seus pais, mas esse povo não me escuta!
17. Eis por que, assim diz o Senhor dos exércitos, Deus de Israel, vou lançar sobre Judá e os habitantes de Jerusalém os flagelos de que os ameacei, porquanto lhes falei e não me escutaram, e quando os chamei não me responderam.
18. A seguir, disse Jeremias à família dos recabitas: Eis o que diz o Senhor dos exércitos, Deus de Israel: já que obedecestes à ordem do vosso pai Jonadab, e observastes tudo o que vos prescreveu,
19. promete-vos o Senhor dos exércitos, Deus de Israel, que a Jonadab, filho de Recab, não faltarão descendentes que se hão de conservar na minha presença.

 
Capítulo 36

1. No quarto ano de Joaquim, filho de Josias, rei de Judá, foi a palavra do Senhor dirigida a Jeremias, nestes termos:
2. Toma um rolo de um livro e nele escreverás todos os oráculos que te ditei a propósito de Israel, de Judá e das nações pagãs, desde que te comecei a falar, no tempo de Josias, até o presente.
3. Quando o povo de Judá compreender todo o mal que lhe pretendo fazer, talvez cada um se afaste de seu perverso caminho, de sorte que eu lhes possa perdoar as iniqüidades e os pecados.
4. Mandou então Jeremias que viesse Baruc, filho de Néria, o qual, sob ditado do profeta, escreveu em um rolo todos os oráculos que recebera do Senhor.
5. Em seguida, Jeremias deu esta ordem a Baruc: Estou impossibilitado de dirigir-me ao templo.
6. Vai até lá em dias de jejum e, tomando o rolo em que escreveste as palavras que te ditei, lerás os oráculos do Senhor perante o povo e a gente de Judá, vinda de suas cidades.
7. Talvez dirijam eles súplicas ao Senhor e se convertam da má vida, porquanto imensa é a indignação e grande o furor com que o Senhor ameaça esse povo.
8. E Baruc, filho de Néria, executou pontualmente a ordem do Profeta Jeremias, lendo no templo os oráculos do Senhor inscritos no rolo.
9. No quinto ano do reinado de Joaquim, filho de Josias, rei de Judá, no nono mês, um jejum foi prescrito diante do Senhor, para toda a população de Jerusalém e os habitantes, das cidades de Judá que lá se haviam reunido.
10. Então Baruc leu em seu rolo as palavras de Jeremias, achando-se no templo, na sala do secretário Gamarias, filho de Safã, sala esta situada no vestíbulo superior, à entrada da porta nova do templo. Foi feita essa leitura perante o povo.
11. Miquéias, filho de Gamarias, filho de Safã, ouvindo a leitura de todos esses oráculos do Senhor,
12. desceu ao palácio real, à câmara do secretário, onde se achava reunido um conselho de ministros: o secretário Elisama, Dalaias, filho de Semeias, Elnatã, filho de Acobor, Gamarias, filho de Safã, Sedecias, filho de Ananias, assim como todos os ministros.
13. Contou-lhes Miquéias tudo o que ouvira ler Baruc perante o povo.
14. Então os ministros enviaram Judi, filho de Natanias, filho de Selemias, filho de Cusi, com a missão de dizer a Baruc: toma o rolo do qual acabas de ler ao povo, e vem ter conosco. Munido do rolo, dirigiu-se Baruc, filho de Néria, para onde o chamavam os ministros.
15. Disseram-lhe então: senta-te e lê. Pôs-se Baruc a ler.
16. Ao ouvirem esses oráculos, entreolharam-se aterrados os ministros. É preciso, disseram eles, que levemos todas estas coisas ao conhecimento do rei.
17. Em seguida, dirigindo-se a Baruc: como, perguntaram-lhe, escreveste todos esses oráculos?”
18. Ele mos ditava, respondeu Baruc, e eu os escrevia com tinta neste rolo.”
19. Então disseram-lhe os ministros: Vai e esconde-te, assim como Jeremias, e que ninguém conheça o teu esconderijo.
20. Em seguida, deixando guardado o rolo na mesa do secretário Elisama, foram procurar o rei em sua casa a fim de pô-lo a par do assunto.
21. Mandou este, então, que Judi fosse buscar o rolo; Judi, tendo-o apanhado na sala do secretário Elisama, voltou com ele a fim de lê-lo em presença do rei, tendo em torno, de pé, os seus ministros.
22. O rei estava assentado num aposento de inverno – era o nono mês -, com um braseiro aceso em sua frente.
23. À medida que Judi acabava de ler três ou quatro colunas, cortava-as o rei com o canivete do escriba e as atirava às chamas do braseiro, até que todo o rolo foi consumido pelo fogo.
24. Nem o rei nem os ministros presentes à leitura se encheram de temor ou rasgaram suas vestes.
25. Nem mesmo quis o rei escutar os rogos que lhe dirigiram EInatã, Dalaias e Gamarias para que não queimasse o rolo.
26. Ordenou, a seguir, ao príncipe real Jeremiel, a Saraias, filho de Ezriel e a Selemias, filho de Abdel, que prendessem Baruc, o escriba, e o profeta Jeremias. O Senhor, porém, os escondeu.
27. Depois que o rei queimou o rolo que continha os oráculos escritos por Baruc e que Jeremias lhe ditara, foi a palavra do Senhor dirigida ao profeta nestes termos:
28. toma outro rolo, e nele escreverás todos os oráculos contidos no primeiro, que foi queimado por Joaquim, rei de Judá.
29. E dirás ao rei: Eis o que diz o Senhor: queimaste aquele rolo, dizendo: por que nele escreveste a ameaça de que o rei de Babilônia viria arruinar esta terra, e exterminar-lhe os homens e os animais?
30. Pois bem, eis o que diz o Senhor a respeito de Joaquim, rei de Judá: nenhum de seus descendentes ocupará o trono de Davi. Ficará seu cadáver exposto ao calor do dia e ao frio da noite.
31. Castigarei assim a iniqüidade nele, em sua raça e em seus servidores. E sobre eles, sobre os habitantes de Jerusalém e o povo de Judá, farei cair todos os flagelos de que os ameacei, sem que me houvessem escutado.
32. Tomou Jeremias outro rolo e o entregou a Baruc, filho de Néria, seu secretário, o qual nele escreveu, sob ditado do profeta, todos os oráculos contidos no rolo atirado ao fogo por Joaquim, rei de Judá. E vários outros oráculos lhes foram acrescentados.

 
Capítulo 37

1. O rei Sedecias, filho de Josias, sucedeu a (Je) Conias, filho de Joaquim, tendo sido proclamado rei da terra de Judá por Nabucodonosor, rei de Babilônia.
2. Nem ele, porém, nem seus súditos e a população da terra escutaram os oráculos que lhes transmitia o Senhor, por intermédio do profeta Jeremias.
3. O rei Sedecias enviou, entretanto, Jucal, filho de Selemias, e o sacerdote Sofonias, filho de Maasias, ao profeta Jeremias, a fim de lhe dizer: Intercede por nós junto ao Senhor, nosso Deus.
4. Jeremias, que ainda não havia sido aprisionado, andava entre o povo.
5. Partira então do Egito o exército do faraó. Ao receberem tal notícia, os caldeus, que sitiavam Jerusalém, abandonaram a cidade.
6. Nestes termos foi a palavra do Senhor dirigida ao profeta Jeremias: Eis o que diz o Senhor Deus de Israel:
7. assim falarás ao rei de Judá que te envia seus delegados para interrogar-me: o exército do faraó que saiu para vos dar socorro vai regressar ao Egito.
8. Voltarão os caldeus a sitiar a cidade, tomá-la-ão de assalto e a entregarão às chamas.
9. Oráculo do Senhor: não queirais enganar-vos, julgando que os caldeus se irão definitivamente. Eles não irão embora.
10. Ainda que derrotásseis todo o exército dos caldeus que combate contra vós, e que dele só restassem feridos sob as tendas, cada um deles ainda se levantaria para incendiar a cidade.
11. Quando as tropas dos caldeus se afastaram de Jerusalém, ante a aproximação do exército do faraó,
12. quis Jeremias sair da cidade para dirigir-se à terra de Benjamim, a fim de lá se reabastecer com o resto do povo.
13. Encontrava-se porém um guarda às portas de Benjamim, chamado Jerias, filho de Selemias, filho de Ananias, o qual, ao chegar o profeta, deteve-o, dizendo: tu foges para os caldeus.
14. É falso! retorquiu o profeta, eu não passo para os caldeus. Não quis porém Jerias ouvi-lo; prendeu-o e levou-o à presença dos chefes.
15. E estes, enfurecendo-se contra Jeremias, açoitaram-no e prenderam-no na casa do escriba Jonatã, transformada em prisão.
16. Foi então o profeta atirado num calabouço, onde permaneceu vários dias.
17. O rei Sedecias, porém, mandou-o buscar, a fim de interrogá-lo secretamente em seu palácio. Tens, porventura, perguntou-lhe, algum oráculo do Senhor? Sim, respondeu-lhe Jeremias. Serás entregue nas mãos do rei de Babilônia.
18. E acrescentou ao rei Sedecias: em que te ofendi, a ti, aos teus servos e a teu povo, para que me lançasses na prisão?
19. Onde estão os profetas que vos prediziam não dever mais voltar o rei de Babilônia contra vós e contra a terra?
20. Escuta-me, agora, ó meu rei e digna-te acolher minha súplica: não permitas que seja eu reconduzido à casa do escriba Jonatã, para que eu não morra lá.
21. Ordenou então o rei Sedecias que Jeremias fosse retido no pátio do cárcere e que lhe dessem todos os dias uma torta de pão, da rua dos Padeiros, enquanto na cidade houvesse pão. E assim permaneceu Jeremias no pátio do cárcere.

 
Capítulo 38

1. Safatias, filho de Matã, Gedelias, filho de Fassur, Jucal, filho de Selemias, e Fassur, filho de Melquias, ouviram as palavras que Jeremias pronunciara diante de todos.
2. Oráculo do Senhor, dizia ele: aquele que ficar na cidade morrerá pela espada, fome e peste, ao passo que o que sair, a fim de se entregar aos caldeus, viverá, e a vida a salvo será seu espólio. E viverá.
3. Oráculo do Senhor: a cidade será entregue ao exército do rei de Babilônia, que a tomará de assalto.
4. Disseram, então, os chefes ao rei: Seja esse homem eliminado, pois que desencoraja o que resta de guerreiros na cidade em todo o povo, proferindo semelhantes palavras. Não procura ele a salvação do povo mas a sua perdição.
5. Respondeu-lhes o rei Sedecias: “Ele está em vossas mãos. O rei nada vos pode recusar.
6. Tomaram então Jeremias e, por meio de cordas, o fizeram descer na cisterna de Melquias, o príncipe real, a qual se encontrava no pátio do cárcere. Não havia água na cisterna; havia, porém, lodo, onde Jeremias se atolou.
7. Um eunuco etíope do palácio real, chamado Abdemelec, soube, porém, que haviam lançado Jeremias na cisterna. Como estivesse o rei nesse momento assentado à porta de Benjamim,
8. saiu ele do palácio para ir encontrá-lo.
9. Ó rei, meu Senhor, disse-lhe o eunuco, andaram mal esses homens, tratando assim o profeta Jeremias e lançando-o na cisterna. Morrerá de fome, pois que não há mais pão na cidade.
10. Respondeu-lhe então o rei com esta ordem: Leva daqui contigo trinta homens e faze com que retirem o profeta Jeremias da cisterna, antes que morra.
11. Abdemelec, tomando então os homens consigo, dirigiu-se ao palácio e ao vestiário da tesouraria e de lá tirou pedaços de estofo e velhos andrajos. E, tomando uma corda, fê-los descer até Jeremias, na cisterna.
12. Coloca, disse Abdemelec a Jeremias, estes pedaços de estofo e estes retalhos sob tuas axilas embaixo das cordas. Assim fez o profeta.
13. Então, erguendo-o por meio das cordas, retiraram-no para fora da cisterna. E Jeremias ficou no pátio do cárcere.
14. Mandou então o rei Sedecias que lhe trouxessem o profeta Jeremias e o conduzissem à terceira porta do templo, e lhe disse: Tenho algo a perguntar-te; nada me ocultes.
15. Disse Jeremias ao rei: Se eu te responder, não me mandarás matar? Aliás, se te der um conselho, não me ouvirás.
16. Então o rei Sedecias fez em segredo a Jeremias este juramento: Pela vida de Deus que nos deu a vida, não te mandarei matar nem te entregarei aos que odeiam a tua vida!
17. E Jeremias disse então a Sedecias: Eis o que diz o Senhor dos exércitos, Deus de Israel: se te entregares aos oficiais do rei de Babilônia, terás a vida salva e a cidade não será queimada. E sobreviverás, assim como tua família.
18. Mas, se te não entregares aos oficiais do rei de Babilônia, cairá a cidade nas mãos dos caldeus, os quais a incendiarão. E tu não lhes escaparás.
19. Temo os judeus, replicou o rei Sedecias, que já se aliaram aos caldeus, e que me maltratarão se a eles for entregue.
20. Tal não acontecerá, retorquiu Jeremias. Escuta, portanto, a voz do Senhor naquilo que te digo: nada te acontecerá e terás a vida salva.
21. Mas, se recusares entregar-te, eis (a visão) que o Senhor me mostrou:
22. todas as mulheres que ficarem no palácio do rei de Judá serão entregues aos oficiais do rei de Babilônia. E elas dirão: foste enganado, e te subjugaram os teus bons amigos. Desapareceram, enquanto teus pés se atolavam na lama.
23. Todas as tuas mulheres e teus filhos serão entregues aos caldeus. E tu não lhes escaparás. Serás feito prisioneiro pelo rei de Babilônia e a cidade será entregue às chamas!
24. Disse, então, Sedecias e Jeremias: Que ninguém saiba do que falamos, senão poderás morrer.
25. Se souberem os ministros que tivemos esta entrevista, se te vierem procurar a fim de perguntar-te, sob ameaça de morte, tudo quanto te disse o rei, sem nada ocultar,
26. dir-lhes-ás: fui suplicar ao rei que não fosse reconduzido à casa de Jonatã, onde encontraria a morte.
27. Com efeito, todos os ministros foram interrogá-lo, tendo-lhes respondido o profeta exatamente como lhe ordenara o rei. Deixaram-no então tranqüilo, porquanto nada transpirou da conversa havida.
28. Assim passou Jeremias a habitar o pátio do cárcere, até o dia da tomada de Jerusalém. De fato, lá estava ele quando foi expugnada Jerusalém…

 
Capítulo 39

1. No ano nono do reinado de Sedecias, rei de Judá, no décimo mês, Nabucodonosor, rei de Babilônia, veio sitiar Jerusalém com todo o seu exército.
2. No undécimo ano do reinado de Sedecias, no nono dia do quarto mês, foi aberta uma brecha na cidade.
3. Penetraram então por essa brecha os oficiais de Babilônia e se apossaram da porta do centro. Eram eles Nabusezbã, chefe dos eunucos, Nergal-Sereser, chefe dos magos, e todos. os demais oficiais do rei de Babilônia.
4. Ao vê-los, Sedecias, rei de Judá, e todos os seus guerreiros, puseram-se em fuga, saindo da cidade durante a noite, pelo caminho do jardim real e pela porta entre os dois muros, e tomaram o rumo da planície (do Jordão).
5. Mas as tropas dos caldeus perseguiram-nos e alcançaram Sedecias nas planícies de Jericó. Aprisionaram-no então e o conduziram à presença de Nabucodonosor, rei de Babilônia, em Rebla, na terra de Emat. Após ter pronunciado contra ele uma sentença,
6. o rei de Babilônia mandou decapitar os filhos de Sedecias ante os olhos do pai, assim como os nobres de Judá.
7. Em seguida, mandou furar os olhos de Sedecias e metê-lo em grilhões de bronze, a fim de conduzi-lo a Babilônia.
8. Então os caldeus atearam fogo ao palácio real, assim como às casas particulares, e demoliram as muralhas de Jerusalém.
9. Nabuzardã, chefe dos guardas, deportou para Babilônia o que restava da população da cidade, os que se lhe haviam rendido e o resto do povo.
10. Deixou, contudo, na terra de Judá, uma parte dos pobres do povo, aqueles que não possuíam bens, e entre eles distribuiu naquele dia vinhas e terras.
11. (Quando da tomada de Jerusalém), Nabucodonosor, rei de Babilônia, deu a Nabuzardã, chefe dos guardas, a seguinte ordem a respeito de Jeremias:
12. Toma-o e nele põe os olhos. Não lhe faças porém mal algum, agindo a respeito dele conforme seus desejos.
13. Então, Nabuzardã, chefe dos guardas, Nabusezbã, chefe dos eunucos, Nergal-Sereser, chefe dos magos, e todos os principais oficiais do rei de Babilônia,
14. mandaram buscar Jeremias no pátio do cárcere, e o entregaram a Godolias, filho de Aicão, filho de Safã, para que fosse reconduzido à sua casa. E assim permaneceu Jeremias no meio do povo.
15. Enquanto Jeremias estava ainda detido no pátio do cárcere, foi-lhe dirigida a palavra do Senhor nestes termos:
16. Vai e dize ao etíope Abdemelec: eis o que diz o Senhor dos exércitos, Deus de Israel: vou executar contra essa cidade as predições que fiz para sua desgraça e não para o bem. E elas se realizarão naquele dia à tua vista.
17. Então, porém, te salvarei – oráculo do Senhor – e não serás entregue aos homens que temes.
18. Farei com que escapes, e não cairás a golpe de espada. A vida a salvo será o teu espólio, porque em mim puseste confiança – oráculo do Senhor.

 
Capítulo 40

1. Eis a palavra do Senhor que foi dirigida a Jeremias, depois que Nabuzardã, chefe dos guardas, mandou trazê-lo de Ramá, onde o encontrara carregado de ferros, entre os deportados de Jerusalém e de Judá que eram conduzidos a Babilônia.
2. Mandou o chefe dos guardas que trouxessem Jeremias e lhe disse: havia predito o Senhor, teu Deus, a calamidade que caiu sobre este lugar.
3. Ele a fez vir, fez como havia anunciado; e porque pecastes contra ele e não lhe escutastes a voz, tudo isso aconteceu.
4. Pois bem, agora tiro-te dos grilhões que te prendem as mãos. Se te agradar, vem comigo para Babilônia; velarei por ti. Se, porém, preferes ficar, deixa. Vê: toda essa terra está ao teu dispor; podes ir para onde melhor te parecer.
5. (Ele, porém, ainda não se voltava.) Volta para Godolias, filho de Aicão, filho de Safã, nomeado pelo rei de Babilônia para governador das cidades de Judá, e vai morar com ele no meio do povo, ou aonde melhor te aprouver’. Deu-lhe, então, o chefe dos guardas víveres e presentes, e o deixou ir.
6. Jeremias foi para junto de Godolias, filho de Aicão, em Masfa, e com ele permaneceu entre o povo que havia deixado na terra.
7. Ante a notícia de que o rei de Babilônia nomeara governador da terra Godolias, filho de Aicão, e lhe confiara homens, mulheres, crianças e pobres que não haviam sido deportados, vieram os chefes das tropas, que se tinham dispersado pela terra,
8. procurar o governador, com seus companheiros, em Masfa. Eram eles, Ismael, filho de Natanias, Joanã e Jonatã, filhos de Carée, Saraias, filho de Taneumet, os filhos de Efoi, de Netofa, e Jezonias, filho de Maacati, e suas gentes.
9. Godolias, filho de Aicão, filho de Safã, declarou-lhes sob juramento: Não tenhais receio de servir aos caldeus. Ficai na terra submissos ao rei de Babilônia, e nada vos acontecerá.
10. Ficarei em Masfa para estar às ordens dos caldeus que para aqui vierem. Recolhei, pois, o vinho, as frutas e o óleo, fazendo deles provisão. E instalai-vos nas cidades para onde voltais.
11. Sabendo, a seu turno, que o rei de Babilônia deixara em Judá o resto do povo, sob as ordens de Godolias, filho de Aicão, filho de Safã, todos os judeus, que estavam em Moab e entre os filhos de Amon, ou na Iduméia e nas demais regiões,
12. deixaram esses lugares por onde andavam dispersos e vieram à terra de Judá para junto de Godolias, em Masfa, e lá fizeram abundante colheita de vinho e de frutos.
13. Joanã, filho de Carée, e todos os chefes de tropas, disseminados pelas províncias, vieram procurar Godolias em Masfa.
14. Sabes, disseram-lhe então, que Baalis, rei dos filhos de Amon, encarregou Ismael, filho de Natanias, de tirar-te a vida? Não quis, porém, Godolias acreditar nisso.
15. Então Joanã, filho de Carée, tomou à parte Godolias, em Masfa, e lhe disse: E se eu fosse matar Ismael, filho de Natanias, sem que pessoa alguma o soubesse? Por que permitir que te matem? Seria isso a dispersão de todos os judeus que se reuniram em torno de ti e o aniquilamento do que resta de Judá.
16. Godolias, filho de Aicão, disse porém a Joanã, filho de Carée: Não faças isso. É falso o que dizes de Ismael.

 
Capítulo 41

1. Decorria o sétimo mês. Ismael, filho de Natanias, filho de Elisama, de linhagem real e um dos grandes do rei, apresentou-se, acompanhado de dez homens, diante de Godolias, filho de Aicão, em Masfa, e juntos comeram.
2. Então Ismael, filho de Natanias, e seus dez companheiros, a golpes de espada, atentaram contra a vida de Godolias, filho de Aicão, filho de Safã. E assim mataram aquele que o rei de Babilônia nomeara governador da terra,
3. bem como todos os judeus que estavam com ele. Ismael matou, igualmente, todos os guerreiros caldeus que lá se encontravam.
4. Dois dias depois da morte de Godolias, quando ainda todos a ignoravam,
5. chegou a Siquém, de Silo e de Samaria um grupo de oitenta homens, de barba raspada, vestes rasgadas e o rosto desfigurado. Traziam oferendas e incenso para a casa do Senhor.
6. Ismael, filho de Natanias, saiu de Masfa ao encontro deles, banhado em lágrimas. Quando, afinal, os encontrou, disse-lhes: Vinde a Godolias, filho de Aicão.
7. Apenas, porém, chegaram ao meio da cidade, mandou Ismael decapitá-los, e lançar seus corpos em uma cisterna.
8. Entre as vítimas, contudo, encontravam-se dez homens que disseram a Ismael: Não nos mates. Temos no campo provisões escondidas de trigo, cevada, azeite e mel. Diante disso, suspendeu Ismael o massacre e não os matou como os demais, seus irmãos.
9. A cisterna em que Ismael lançara os cadáveres dos homens que matara era imensa e fora perfurada pelo rei Asa, quando se defendia contra Baasa, rei de Israel. Foi essa cisterna que Ismael encheu de cadáveres.
10. Em seguida, aprisionou quantos ainda restavam em Masfa, as princesas reais e toda a população que lá ficara, entregue por Nabuzardã, chefe dos guardas, aos cuidados de Godolias, filho de Aicão. Conduzindo seus cativos, pôs-se Ismael a caminho das terras dos filhos de Amon.
11. Ante a notícia de todo o mal que cometera Ismael, filho de Natanias, Joanã, filho de Carée e os oficiais de guerra que o acompanhavam
12. reuniram todos os seus homens a fim de atacar Ismael, filho de Natanias. Alcançaram-no perto da piscina de Gabaon.
13. Quando todo o povo que estava com Ismael avistou Joanã, filho de Carée, e todos os oficiais de guerra que vinham com ele, encheu-se de alegria.
14. E a multidão que Ismael trouxera de Masfa abandonou-o e foi unir-se a Joanã, filho de Carée.
15. Entretanto, Ismael, filho de Natanias, conseguiu escapar de Joanã, com mais oito homens, fugindo para a terra dos filhos de Amon.
16. Então, Joanã, filho de Carée, e os oficiais que o acompanhavam, puseram-se à testa da tropa de sobreviventes de que Ismael, filho de Natanias, se apoderara em Masfa, após o assassínio de Godolias, filho de Aicão. Guerreiros, mulheres, crianças e eunucos, fê-los todos regressar de Gabaon.
17. Puseram-se então a caminho, detendo-se em Camaã, nas proximidades de Belém, para de lá se retirarem para o Egito.
18. Queriam assim furtar-se aos caldeus, dos quais receavam represálias, dado que Ismael, filho de Natanias, assassinara Godolias, filho de Aicão, nomeado para governar a terra pelo rei de Babilônia.

 
Capítulo 42

1. Foram, então, todos os oficiais, Joanã, filho de Carée, e Jesonias, filho de Osaías, bem como o povo, desde os grandes até os pequenos,
2. dizer ao profeta Jeremias: Ouve a nossa súplica, e intercede por nós, junto ao Senhor, em favor do que resta de nós. De muitos que éramos, bem podes ver a quão poucos fomos reduzidos.
3. Que o Senhor, teu Deus, nos indique o caminho que devemos seguir e o que devemos fazer.
4. Ouço o que me dizeis, respondeu Jeremias, e o que desejais vou solicitar ao Senhor, vosso Deus. O que me disser o Senhor vo-lo transmitirei fielmente.
5. Clamaram então: Que o Senhor seja testemunha fiel e verdadeira contra nós se não fizermos o que o Senhor, teu Deus, te encarregar de nos transmitir!
6. Seja-nos favorável ou adverso, obedeceremos à ordem do Senhor, nosso Deus, junto ao qual te delegamos a fim de que nos seja propícia a submissão às ordens do Senhor, nosso Deus.
7. Decorridos dez dias, a palavra do Senhor foi dirigida a Jeremias.
8. Convocou este então Joanã, filho de Carée, todos os oficiais e o povo, grandes e pequenos.
9. Eis, disse-lhes Jeremias, o que me falou o Senhor Deus de Israel, junto ao qual me delegastes a fim de apresentar-lhe a vossa súplica:
10. se quiserdes permanecer nesta terra, nela vos restaurarei, e não vos destruirei. Plantar-vos-ei e dela não vos arrancarei. Pesa-me o mal que vos fiz.
11. Não tenhais receio do rei de Babilônia que tanto temeis! Não o temais – oráculo do Senhor -, porque estou convosco para salvar-vos e livrar-vos de suas mãos.
12. Conseguir-vos-ei as suas graças, e ele terá piedade de vós, devolvendo-vos a posse de vossa terra.
13. Se, porém, desobedecendo à voz do Senhor, disserdes: não permaneceremos aqui;
14. iremos para o Egito, onde não teremos mais guerras, nem ouviremos mais o som da trombeta e onde o pão não nos faltará mais, e lá nos instalaremos -,
15. então, escutai a palavra do Senhor, sobreviventes de Judá. Eis o que disse o Senhor dos exércitos, Deus de Israel: obstinando-vos em partir para o Egito, a fim de lá habitar,
16. sereis atingidos no Egito pela espada que temeis, pela fome que vos aterroriza, e lá morrereis.
17. Quantos se obstinarem em ir para o Egito perecerão pela espada, fome e peste, e nenhum escapará ao flagelo que contra eles lançarei.
18. Porquanto, eis o que diz o Senhor dos exércitos, Deus de Israel: assim como o furor de minha cólera se lançou sobre os habitantes de Jerusalém, também contra vós se lançará, se fordes para o Egito. Servireis de exemplo de execração, sereis objeto de horror, de maldição e vergonha, e jamais tornareis a ver esses lugares.
19. Eis o que vos diz o Senhor, sobreviventes de Judá: não entreis no Egito, e sabei que hoje vos dou solene aviso.
20. Seria enganar-vos a vós mesmos o delegar-me junto ao Senhor, vosso Deus, dizendo: intercedei por nós junto ao Senhor, nosso Deus. Faremos quanto disserdes que nos foi ordenado pelo Senhor, nosso Deus.
21. Hoje eu vo-lo digo: não escutastes a voz do Senhor, vosso Deus, nem coisa alguma do que me encarregou de transmitir-vos.
22. Sabei, pois, que morrereis pela espada, fome e peste nessa terra onde quereis ir estabelecer-vos.

 
Capítulo 43

1. Assim que Jeremias acabou de dizer ao povo o que o Senhor lhe tinha encarregado de transmitir,
2. Azarias, filho de Osaías, Joanã, filho de Carée, e todos aqueles orgulhosos exclamaram: São mentiras o que proferes. Não te deu o Senhor, nosso Deus, o encargo de nos dizer que não fôssemos morar no Egito.
3. É Baruc, filho de Néria, que te lança contra nós com o fim de nos entregar aos caldeus para a morte e para a deportação à Babilônia.
4. E assim Joanã, filho de Carée, os chefes e os sobreviventes do povo mostraram-se surdos à voz do Senhor que lhes ordenara permanecerem em Judá.
5. Joanã, filho de Carée, e os chefes conduziram os sobreviventes judeus que haviam regressado dos países em que se tinham dispersado, a fim de habitarem novamente na terra de Judá.
6. Eram homens, mulheres e crianças, as princesas reais, todos os que Nabuzardã, chefe dos guardas havia deixado junto de Godolias, filho de Aicão, filho de Safã, entre eles o profeta Jeremias e Baruc, filho de Néria.
7. Desobedecendo, assim, à voz do Senhor, partiram para o Egito e alcançaram Táfnis.
8. Em Táfnis foi dirigida a Jeremias a palavra do Senhor nestes termos:
9. toma em tuas mãos pedras bem grandes e, ante os olhos dos judeus, introduze-as na calçada em frente à porta do palácio do faraó, em Táfnis.
10. E, em seguida, lhes dirás: Eis o que diz o Senhor dos exércitos, Deus de Israel: vou mandar chamar aqui meu servo Nabucodonosor, rei de Babilônia; colocar-lhe-ei o trono sobre as pedras introduzidas neste lugar, e sobre elas estenderá ele também o seu tapete.
11. Ele virá aqui e ferirá o Egito. O que é para a morte, à morte! O que é para o cativeiro, ao cativeiro! O que é para a espada, à espada!
12. Lançará fogo aos templos dos deuses do Egito, e os queimará, levando cativos (os seus ídolos). Despojará o Egito, qual pastor a limpar seu manto, e regressará triunfante.
13. E destruirá os obeliscos do templo do Sol, no Egito, e entregará às chamas todos os templos dos seus deuses.

 
Capítulo 44

1. Eis a palavra que foi dirigida a Jeremias a propósito de todos os judeus, residentes no Egito, em Migdol, em Táfnis, em Mênfis e na região de Faturés:
2. Eis o que diz o Senhor dos exércitos, Deus de Israel: vistes todas as calamidades que fiz recair sobre Jerusalém e sobre todas as cidades de Judá. Converteram-se, agora, em desertos inabitáveis.
3. (Tudo isso aconteceu) por causa do mal que cometeram, irritando-me por incensarem e renderem culto a deuses estranhos que não conheciam, nem vós nem vossos pais.
4. Desde o início, contudo, jamais cessei de enviar-vos os profetas, meus servos, a fim de dizer-vos que não devíeis cometer tão detestáveis abominações.
5. Não me escutaram, porém, e nem deram ouvidos, recusando abandonar sua maldade e cessar de oferecer incenso a deuses estranhos.
6. Assim, sobre eles recaiu toda a minha cólera, consumindo as cidades de Judá e as ruas de Jerusalém, que ficaram reduzidas ao estado de devastação, como hoje se apresentam.
7. E, agora, eis o que diz o Senhor dos exércitos, Deus de Israel: por que trabalhais assim contra vós mesmos, causando desse modo no seio de Judá a exterminação dos homens, das mulheres, das crianças e dos meninos de peito, a tal ponto que de vosso povo ninguém sobreviverá,
8. dado que me irritastes pela vossa vida, ofertando incenso a deuses estranhos, aqui no Egito, aonde viestes estabelecer-vos? Por que perecer e tornar-vos entre todas as nações da terra um tema de maldição e objeto de vergonha?
9. Esquecestes os crimes de vossos pais, os dos reis de Judá e das mulheres de vossa terra, vossos próprios crimes e os de vossas mulheres, cometidos na terra de Judá e nas ruas de Jerusalém?
10. Nenhum arrependimento até hoje sentiram, nem temor tiveram. Não observaram minha lei, nem os mandamentos que vos havia imposto assim como a vossos pais.
11. Eis por que, assim disse o Senhor dos exércitos, Deus de Israel, vou desviar de vós a minha face para vossa desgraça e extermínio de Judá.
12. E tomarei o resto de Judá que quis vir habitar no Egito. Perecerão todos, vítimas da espada e da fome. Perecerão pequenos e grandes, pela espada e pela fome; serão citados como execráveis, e constituirão objeto de espanto, de maldição e de opróbrio.
13. Castigarei os que residem no Egito, como o fiz em Jerusalém, pela espada, pela fome e pela peste.
14. Dos que vieram de Judá estabelecer-se no Egito, nenhum escapará nem sobreviverá para regressar à Judéia, local a que aspiram voltar para lá de novo habitar. Ninguém voltará, a não ser alguns fugitivos.
15. Então, todos os homens, cientes de que suas mulheres ofereciam incenso aos deuses estranhos, todas as mulheres em grande número lá reunidas e todo o povo residente em Faturés, no Egito, responderam a Jeremias:
16. O que nos dizes em nome do Senhor não o aceitamos.
17. Cumpriremos, porém, todas as promessas que fizemos de queimar incenso à rainha do céu e de lhe oferecer libações, como o fazíamos, nós e nossos pais, nossos reis e chefes, nas cidades de Judá e nas ruas de Jerusalém. Então, tínhamos pão em fartura, vivíamos na abundância e não sabíamos o que fosse a desgraça.
18. Ora, depois que cessamos de queimar incenso à rainha do céu e de lhe oferecer libações, tudo nos falta, e perecemos pela espada e pela fome.
19. Além disso, quando queimamos incenso à rainha do céu e lhe oferecemos libações, é, porventura, sem o consentimento de nossos maridos que ofertamos torta à sua efígie e lhe rendemos libações?
20. Dirigiu-se então Jeremias à multidão, aos homens e mulheres e a quantos lhe haviam assim respondido:
21. Do incenso que queimastes, disse-lhes, nas cidades de Judá e nas ruas de Jerusalém, vós, vossos pais, vossos reis e chefes, assim como o povo, não se terá recordado o Senhor e nisso não terá pensado?
22. Não tendo o Senhor podido suportar mais tempo a maldade de vossos atos e abominações, foi nossa terra reduzida ao estado de solidão, devastada e amaldiçoada, onde ninguém mais habita, como hoje se apresenta.
23. E, se a calamidade presente vos adveio, é porque oferecestes o incenso desse modo, pecando contra o Senhor, e porque lhe recusastes ouvir a voz e observar suas leis e preceitos.
24. Jeremias acrescentou, a respeito do povo e das mulheres: Escutai a palavra do Senhor, povo de Judá que reside no Egito.
25. Eis o que diz o Senhor dos exércitos, Deus de Israel: vós e vossas mulheres fazeis com as mãos o que diz a vossa boca. Dizeis: cumpriremos as promessas de oferecer incenso e libações em honra da rainha do céu. – Pois bem! Cumpri vossos votos, mantende vossas promessas.
26. Escutai, porém, a palavra do Senhor, judeus que habitais no Egito. Eis, diz o Senhor, pelo meu grande nome eu juro! Esse nome não será mais pronunciado em todo o Egito por nenhum homem de Judá, dizendo: Pela vida do Senhor Javé!
27. Vou ocupar-me com eles para a desgraça e não para o bem. Todos os judeus que residem no Egito perecerão pela espada e pela fome, até o total aniquilamento.
28. O pequeno número deles que escapar à espada voltará do Egito para Judá. Os sobreviventes de Judá que vierem estabelecer-se no Egito saberão que predição se há de consumar, se a minha, ou a deles.
29. Eis o sinal – oráculo do Senhor – pelo qual reconhecereis que, aqui mesmo, me laçarei contra vós, a fim de que saibais que minha predição se há de cumprir com certeza para a vossa desgraça.
30. Eis o que diz o Senhor: vou entregar o faraó Hofra, rei do Egito, aos seus inimigos e àqueles que lhe querem roubar a vida, assim como entreguei Sedecias, rei de Judá, ao poder de Nabucodonosor, rei de Babilônia, seu inimigo, e que lhe procurava tirar a vida.

 
Capítulo 45

1. Eis a mensagem que o profeta Jeremias enviou a Baruc, filho de Néria, quando este escreveu todos estes oráculos, ditados pelo profeta, no quarto ano do reinado de Joaquim, filho de Josias, rei de Judá:
2. Eis o que diz o Senhor, Deus de Israel, a teu respeito, Baruc:
3. tu exclamas: desgraçado de mim, porque o Senhor acumula sobre mim tristezas e dores! Desfaço-me em gemidos e não encontro repouso.
4. Eis o que lhe dirás: oráculo do Senhor: vou destruir o que havia construído; arrancar o que havia plantado e isso em toda esta terra.
5. E tu reclamarias para ti grandes favores? Não os peças, porque sobre todas as criaturas vou fazer recair o flagelo _ oráculo do Senhor. Mas, conservar-te-ei a vida, como espólio, em todos os lugares para aonde fores.

 
Capítulo 46

1. Palavra do Senhor dirigida ao profeta Jeremias, contra as nações pagãs.
2. Sobre o Egito. – Contra o exército do faraó Necao, rei do Egito, que se encontrava nas margens do rio Eufrates, em Carcâmis, e que foi batido por Nabucodonosor, rei da Babilônia, no quarto ano do reinado de Joaquim, filho de Josias, rei de Judá.
3. Preparai o escudo e o pavês! Ao combate!
4. Atrelai os cavalos! Cavaleiros, montai! Ponde os capacetes! Em forma! Empunhai as lanças! Revesti vossas couraças!
5. Mas, que vejo? Estão aterrados, e em plena derrota. São batidos seus guerreiros, e fogem, desvairados, sem olhar para trás. De todos os lados o terror – oráculo do Senhor.
6. O mais ágil não se pode salvar, e não escapará o mais forte. Ao norte, às margens do Eufrates, cambaleantes, enlouquecem!
7. Quem surge ao longe, semelhante ao Nilo, qual rio de águas encapeladas?
8. É o Egito que sobe, semelhante ao Nilo, qual rio de águas encapeladas. E ele clama: Dilato-me e inundarei a terra, tragando cidades e habitantes.
9. Avante, cavalos! Carros, precipitai-vos! Em marcha, guerreiros! Homens da Etiópia e da Líbia que empunhais o escudo, e vós, lídios, que retesais o arco!
10. Chegou o dia do Senhor Javé dos exércitos, dia da vingança em que arruinará seus inimigos. Devorará a espada até fartar-se, abeberando-se de sangue. É a imolação ao Senhor Javé dos exércitos, ao norte, às margens do Eufrates.
11. Sobe a Galaad, em busca de bálsamo, virgem, filha do Egito, é em vão que aplicas remédios, pois que para teu mal não há cura.
12. Conhecem as nações tua vergonha, e se espalham pela terra teus clamores. Chocam-se guerreiro contra guerreiro, e ambos se arruínam.
13. Eis a palavra do Senhor que foi dirigida ao profeta Jeremias, referente à vinda de Nabucodonosor, rei de Babilônia, ao Egito para atacá-lo:
14. Anunciai no Egito, clamai em Migdol, em Mênfis e em Táfnis: Erguei-vos! Estai prontos! Pois que a espada faz devastações em torno de vós.
15. Por que foram derribados os teus valentes? Não puderam eles resistir, pois era o Senhor quem os precipitava.
16. Multiplicou os que oscilavam, fazendo-os cair uns sobre os outros, a exclamar: Vamos reunir nosso povo, nossa terra natal, a fim de fugir da espada devastadora.
17. E bradam: O faraó, rei do Egito, está perdido! Deixou passar o tempo favorável!
18. Pela minha vida – oráculo do rei cujo nome é Senhor dos exércitos: como o Tabor se realça entre as montanhas, qual o Carmelo dominando o mar, aproxima-se (o inimigo).
19. Prepara tua bagagem para o exílio, filha do Egito, que moras nesses lugares, porque Mênfis vai tornar-se deserto, lugar devastado e ermo.
20. A uma novilha formosa assemelha-se o Egito. Mas eis que do norte a mosca sugadora precipita-se sobre ela.
21. Os mercenários que aí viviam como bezerros cevados fogem também em massa, impotentes, porque o dia da desgraça veio sobre eles. É a hora do castigo.
22. Sua voz assemelha-se à da serpente que sibila, quando chegam em tropel abatendo-se sobre ela com machados, quais lenhadores.
23. E abaterão suas florestas – oráculo do Senhor – de árvores sem conta. São, porém, mais numerosos que gafanhotos, e ninguém pode contá-los.
24. Confundida encontra-se a filha do Egito, entregue assim nas mãos de um povo do norte.
25. Disse o Senhor dos exércitos, Deus de Israel: Vou lançar-me contra Amon de Nô, e contra o faraó, o Egito, seus deuses e reis; contra o faraó e os que nele confiam.
26. Entregá-los-ei nas mãos daqueles que lhes querem roubar a vida: Nabucodonosor, rei de Babilônia, e sua gente. E depois disso, como outrora, será ainda habitado o Egito – oráculo do Senhor.
27. Tu, porém, Jacó, servo meu, não temas Israel, não te enchas de pavor! Vou trazer-te da terra longínqua, e livrarei tua raça da terra do exílio. Jacó tornará a viver em segurança, sem que ninguém mais o inquiete.
28. E tu, Jacó, meu servo, não te aflijas, pois estou contigo – oráculo do Senhor. Aniquilarei todas as nações para onde te desterrei. A ti, porém, não te aniquilarei, mas castigar-te-ei com eqüidade, e não te inocentarei.

 
Capítulo 47

1. Eis a palavra do Senhor, dirigida ao profeta Jeremias acerca dos filisteus, antes que o faraó se apoderasse de Gaza.
2. Assim fala o Senhor: Vede as águas que se levantam do norte, semelhantes a uma torrente que transborda, submergindo a terra e o quanto ela contém, a cidade e seus habitantes. Lançam gritos os homens e clama a população inteira,
3. ao estrépito das patas dos corcéis, do estrondo dos carros e do ranger das rodas. Os próprios pais nem olham mais para os filhos e, alquebrados, deixam pender os braços.
4. É que surgiu o dia da destruição dos filisteus, e de Tiro e Sidônia será tirado o que lhes resta de aliados, porque o Senhor vai arruinar os filisteus, e os restos da ilha de Caftor.
5. Gaza raspou a cabeça, Ascalon está aniquilada como o vale que a cerca. Até quando farás em ti incisões?
6. Quando repousarás, espada do Senhor? Entra na tua bainha, acalma-te, não te agites mais!
7. Como descansará, porém, se o Senhor lhe deu ordens? É contra Ascalon e as costas do mar que a dirigiu.

 
Capítulo 48

1. Contra Moab. – Eis o que diz o Senhor dos exércitos, Deus de Israel: Ai de Nebo, porque chegou a sua ruína! Cariataim, tomada de assalto, cobriu-se de vergonha; a praça forte ficou em tumulto e desvairada.
2. Findou-se a glória de Moab! Em Hesebon conspira-se contra ela: Vamos riscar esse povo do número das nações! E tu também, Madmen, serás reduzida ao silêncio, porque a espada te persegue.
3. Gritos elevam-se de Oronaim: Devastação! Catástrofe!
4. Moab foi abatido; gritam seus filhinhos.
5. Pela encosta de Luit chora-se; sobe-se em prantos, e pela descida de Oronaim ouvem-se clamores de angústia.
6. Fugi! Salvai-vos! Sede qual zimbro no deserto!
7. Porque puseste a confiança nos teus ídolos e nos teus tesouros, tu também serás tomada. E será levado para o exílio Camos com seus sacerdotes e chefes!
8. Em todas as cidades penetrará o devastador; nenhuma será poupada. Será destruído o vale, e o planalto devastado, como disse o Senhor.
9. Dai asas a Moab para que tome vôo, porque suas cidades transformar-se-ão em deserto.
10. Maldito aquele que faz com negligência a obra do Senhor! Maldito o que recusa o sangue à sua espada!
11. Desde a juventude, Moab vivia em paz, repousando sobre a borra, sem ser transvasada, nem exilada. Assim o sabor lhe ficou, e intato o aroma.
12. Dias, porém, virão – oráculo do Senhor -, em que lhe enviarei transvasadores que o trasfegarão, esvaziando os tonéis e quebrando os odres.
13. E Moab envergonhar-se-á de Camos, como Israel envergonhou-se de Betel que constituía sua esperança.
14. Como podeis dizer: Somos bravos, valentes guerreiros?
15. Moab está devastado; escalaram suas cidades. A flor de sua mocidade desce para a matança – oráculo do rei, cujo nome é Senhor dos exércitos.
16. A ruína de Moab é iminente, aproxima-se-lhe a largos passos a desgraça.
17. Chorai-a vós, seus vizinhos, e dizei vós, que lhe conheceis o nome: Como se partiu esse cetro poderoso, esse cetro cheio de glórias?
18. Desce de tua glória, assenta-te no solo ressecado, filha de Dibon, que moras (neste lugar), porque o devastador de Moab sobe contra ti, para destruir tuas muralhas.
19. Detém-te no caminho e espreita, habitante de Aroer; interroga o que foge e o que escapa, perguntando-lhes: O que aconteceu?
20. Moab em ruínas cobre-se de vergonha: gritai, gemei! Anuncia ao norte de Arnon que Moab foi destruído.
21. Foi o julgamento executado sobre a terra da planície, sobre Helon, Jasa, Mefaat,
22. Dibon, Nebo e Bet-Deblataim;
23. sobre Cariataim, Bet-Gamul, Bet-Maon,
24. Cariot e Bosra, e sobre todas as cidades, próximas ou distantes da terra de Moab.
25. Foi abatido o poderio de Moab, partiu-se-lhe o braço – oráculo do Senhor.
26. Embriagai Moab, porque desafiou o Senhor. Debater-se-á no próprio vômito. E por sua vez tornar-se-á objeto de zombaria.
27. Não era Israel alvo de teu escárnio? Foi ele surpreendido entre ladrões, para que, ao falar dele, sempre abanasses a cabeça?
28. Abandonai as cidades para habitar os rochedos, habitantes de Moab, assim como faz a pomba que coloca o ninho na borda dos precipícios.
29. Conhecemos o orgulho do soberbo Moab, sua altivez, sua jactância, seu orgulho e arrogância de coração.
30. Conheço-lhe a presunção – oráculo do Senhor -, a jactância e a vaidade.
31. Eis por que gemerei sobre Moab inteiro, e sobre ele lançarei gritos; choro o povo de Quir-Heres.
32. Mais que sobre Jazer, choro sobre ti, vinha de Sabama; tuas vides se alongavam até o mar, atingindo o mar de Jazer; sobre tuas searas de vindimas lançou-se o devastador.
33. Afastaram-se a alegria e o regozijo dos vergéis da terra de Moab; fiz com que secasse o vinho nos lagares; já não se amassam as uvas entre gritos de alegria, nem a canção é a mesma canção.
34. O clamor de Hesebom sobe até Eleale, e a voz se estende até Jasa, e de Segor até Oronaim e Eglat-Selesia, porque as próprias águas de Ninrim secaram.
35. Farei desaparecer de Moab – oráculo do Senhor -, aqueles que sobem aos lugares altos para incensar seus deuses.
36. Por isso, meu coração por Moab geme, como geme a flauta; meu coração pelo povo de Quir-Heres geme, como geme a flauta. Eis a razão pela qual todo o proveito obtido se perdeu.
37. Todas as cabeças foram rapadas, e cortadas as barbas. Foram golpeadas as mãos, e os rins cobertos de sacos.
38. Sobre os tetos de Moab e em suas praças, só lamentos se ouvirão, porque despedacei Moab, qual vaso inútil – oráculo do Senhor.
39. Tudo é ruína! Gemei! Quão vergonhoso é para Moab baixar assim a cerviz! Tornou-se Moab objeto de escarmento, e de pavor para todos os vizinhos!
40. Porquanto, assim diz o Senhor: o inimigo, como águia, toma vôo, estendendo as asas sobre Moab;
41. tomam-se-lhe as cidades, arrebatam-se-lhe as fortificações, e o coração dos guerreiros de Moab será naquele dia semelhante ao coração da mulher em parto.
42. Moab foi riscado do número dos povos, porque desafiou o Senhor.
43. O terror, o fosso e o laço acercam-se de ti, ó moabita – oráculo do Senhor.
44. Quem fugir do terror cairá no fosso, e o que escapar do fosso será apanhado no laço! Porque trarei sobre ele, sobre Moab, o ano do seu castigo – oráculo do Senhor.
45. À sombra de Hesebon detiveram-se, extenuados, os fugitivos; de Hesebon, porém, jorrou um fogo, uma chama do meio do Seon, que devora os flancos de Moab e as cabeças dos filhos do tumulto.
46. Desgraçado de ti, Moab! Chegou teu fim, povo de Camos! São arrastados teus filhos ao cativeiro, e tuas filhas, aprisionadas.
47. Com o andar do tempo, porém – oráculo do Senhor -, mudarei a sorte de Moab. (Fim do julgamento acerca de Moab.)

 
Capítulo 49

1. Aos amonitas – Eis o que diz o Senhor: Israel não possui filhos nem herdeiros? Por que Melcom apoderou-se de Gad, e instalou seu povo nas suas cidades?
2. Dias virão – oráculo do Senhor – em que farei ouvir gritos de guerra em Rabá dos amonitas; ficará ela reduzida a um montão de escombros; suas filhas serão entregues às chamas, e Israel herdará dos que dele herdaram – oráculo do Senhor.
3. Lamenta-te, Hesebon, porque Hai foi devastada; gritai, filhas de Rabá, revesti-vos de cilícios e cobri-vos de saco, errando pelo redil, porquanto Melcom vai ser levado ao exílio com todos os seus sacerdotes e chefes.
4. Por que orgulhar-te da fertilidade de teus vales? Filha esquiva que tanto confias em teus tesouros, dizendo: Quem ousaria atacar-me?
5. Vou desencadear em volta de ti o terror – oráculo do Senhor dos exércitos. Sereis expulsos, um por um, sem que ninguém consiga reunir os fugitivos.
6. Em seguida, mudarei a sorte dos amonitas.
7. Contra Edom. – Eis o que diz o Senhor dos exércitos: Não existe mais sabedoria em Temã? Perdeu-se o conselho dos clarividentes, desvaneceu-se a inteligência?
8. Fugi, voltai as costas, ocultai-vos nos esconderijos, habitantes de Dedã, pois que trago a ruína sobre Esaú: chegou a hora da devastação.
9. Se vierem a ti vindimadores, nenhum cacho deixarão. Se forem ladrões noturnos, pilharão à saciedade.
10. Porquanto eu sondei Esaú, e lhe descobri os esconderijos: ele não se pode mais ocultar. Arruinou-se-lhe a raça, seus irmãos. e seus vizinhos. E não subsistirá mais.
11. Abandona teus órfãos, dar-lhes-ei do que viver; ponham tuas viúvas sua confiança em mim!
12. Porque assim falou o Senhor: Aqueles que não deviam beber deste cálice, terão de beber. E tu? Estarias isento dele? Não, tu beberás;
13. juro-o por mim mesmo – oráculo do Senhor. Será Bosra objeto de pasmo e de opróbrio, uma solidão maldita; e suas cidades serão eterna ruína.
14. Chegou-me uma notícia da parte do Senhor; um arauto foi-me enviado dentre as nações: Uni-vos! Atacai-o! Erguei-vos para a guerra!
15. Olha: faço-te pequeno entre as nações, desprezado entre os homens.
16. O terror… o orgulho do teu coração enganou-te, a ti, que habitas nas concavidades dos rochedos, e que ocupas o cume das colinas. Ainda que colocasses teu ninho tão alto quanto o da águia, de lá te precipitaria – oráculo do Senhor.
17. Será transformada Edom em objeto de espanto, e o transeunte, estupefato, mofará de suas ruínas.
18. Repetir-se-á a catástrofe de Sodoma e Gomorra, e das cidades vizinhas – oráculo do Senhor. Ninguém mais habitará lá e nenhum ser humano a povoará.
19. Qual leão (o inimigo) que sobe dos espinheiros do Jordão para uma pastagem sem fim, assim, num instante, farei fugir daqui (Edom) e aí estabelecerei aquele que eu escolher. Quem se iguala a mim? Quem poderia provocar-me? Qual o pastor que poderia afrontar-me?
20. Escutai a decisão do Senhor acerca de Edom, e seus desígnios contra os homens de Temã: serão arrastados para a morte, como débeis cordeiros, e seus campos serão devastados;
21. ao estrondo de sua queda, treme a terra e até o mar Vermelho ressoa o seu fragor.
22. Qual uma águia, eis que desprende o vôo, estendendo suas asas sobre Bosra; e o coração dos guerreiros de Edom, naquele dia, se assemelhará ao coração da mulher em parto.

Oráculo contra a Síria

23. Contra Damasco: Foram confundidos Emat e Arfad porque uma notícia funesta lhes adveio, e de medo desfaleceram: é o mar em tormenta que não se pode acalmar.
24. Damasco perdeu a coragem, desejaria fugir. O terror, porém, a paralisa, e a angústia e a dor dela se apoderam, qual mulher em parto.
25. Como não foi abandonada a cidade gloriosa, a cidade que fazia minhas delícias?
26. Porquanto, cairão os jovens em suas praças, e seus homens de guerra nesse dia perecerão – oráculo do Senhor dos exércitos.
27. Vou lançar fogo nas muralhas de Damasco para devorar os palácios de Ben-Hadad. Oráculo contra os filhos do oriente
28. A Cedar e os reinos de Asor, vencidos por Nabucodonosor, rei de Babilônia. Eis o que diz o Senhor: Erguei-vos! Atacai Cedar! Aniquilai os filhos do oriente!
29. Sejam-lhes as tendas arrebatadas e os rebanhos! E que se lhes tirem os pavilhões, bagagens e camelos ao grito de: Que o terror se espalhe!
30. Salvai-vos! Fugi a toda pressa, ocultai-vos em esconderijos, habitantes de Asor – oráculo do Senhor.
31. Erguei-vos! Atacai um povo pacífico que vive em segurança – oráculo do Senhor – e que habita sozinho, sem portas nem ferrolhos.
32. Sejam seus camelos a vossa presa e seus rebanhos numerosos o vosso espólio! Espalharei por todos os ventos esses homens de cabelos raspados, e de toda parte lançarei sobre eles a desgraça, – oráculo do Senhor.
33. Asor tornar-se-á guarida de chacais, eterna solidão onde ninguém mais habitará, e onde doravante nenhum ser humano permanecerá.
34. Palavra do Senhor dirigida ao profeta Jeremias acerca de Elão, no começo do reinado de Sedecias, rei de Judá, nestes termos:
35. Eis o que diz o Senhor dos exércitos: Vou quebrar o arco de Elão, e o melhor de sua força.
36. Mandarei vir sobre Elão os quatro ventos, dos quatro cantos do céu. E esses ventos os dispersarei. Não haverá nação onde não cheguem fugitivos de Elão.
37. Farei tremer os elamitas diante de seus inimigos, e ante aqueles que tramam contra sua vida; precipitarei calamidades sobre eles: o fogo de minha cólera – oráculo do Senhor – e lançarei sobre eles a espada até que sejam exterminados.
38. Colocarei meu trono em Elão, e mandarei matar o rei e os chefes – oráculo do Senhor.
39. Com o correr dos tempos, porém, mudarei a sorte de Elão – oráculo do Senhor.

 
Capítulo 50

1. Palavra do Senhor pronunciada contra Babilônia, país dos caldeus, por intermédio do profeta Jeremias.
2. Proclamai o que vos digo e publicai-o entre as nações! Erguei um sinal; anunciai-o! Nada oculteis e exclamai: Babilônia foi tomada! Bel cobriu-se de confusão; Merodac foi destroçado; e seus ídolos foram confundidos, e abatidas suas imundícies.
3. Porque um povo vindo do norte avança contra ela, o qual fará de seu território um deserto inabitado, donde animais e homens fugirão e desaparecerão.
4. Naqueles dias, naqueles tempos – oráculo do Senhor -, voltarão os israelitas e os judeus, e em lágrimas hão de caminhar, procurando o Senhor, seu Deus;
5. pôr-se-ão em procura de Sião, e para lá voltarão seus rostos. Vinde! Unamo-nos ao Senhor por uma eterna aliança que não será jamais esquecida!
6. Era meu povo qual rebanho de ovelhas perdidas. Seus pastores as tinham perdido ao azar das montanhas; caminhavam por montanhas e colinas, esquecendo-se de seu aprisco.
7. Quantos as encontravam, devoravam-nas; e diziam seus inimigos: Nenhum mal existe nisso, porquanto pecaram contra o Senhor, verdadeiro aprisco, e esperança de seus pais.
8. Fugi do recinto de Babilônia, abandonai a Caldéia! Sede como os cabritos à frente do rebanho,
9. porque vou suscitar e conduzir contra Babilônia uma coligação de grandes nações vindas do norte. Contra ela se hão de enfileirar e a levarão de vencida. Suas setas são as de hábil guerreiro que não dispara sem atingir o alvo.
10. A Caldéia será entregue à pilhagem, e os que a saquearem se fartarão – oráculo do Senhor.
11. Sim, alegrai-vos! Podeis estar contentes, saqueadores de minha herança! Sim, saltai qual novilha na campina, e relinchai qual garanhão!
12. Ficará coberta de confusão a vossa mãe. Aquela que vos gerou corará de vergonha; ela é colocada no último lugar das nações, porque não é senão deserto, desolado e pantanoso.
13. Priva-a de seus habitantes a cólera do Senhor, ficando reduzida a um estado de solidão. Quem passar por Babilônia e lhe contemplar a queda assobiará de pasmo.
14. Em marcha para assaltar Babilônia, vós todos, arqueiros! Atirai contra ela sem poupar as flechas, porquanto pecou contra o Senhor.
15. De todos os cantos, lançai contra ela o grito de guerra! Ela estende a mão; desmoronam-se-lhe as torres e as muralhas, pois assim é o castigo do Senhor. Vingai-vos dela, fazendo o mesmo que ela fez.
16. Exterminai em Babilônia aquele que semeia, e o que maneja a foice no tempo da colheita ante a espada devastadora. Volte cada um para o seu povo, e fuja para a sua terra.
17. Israel é qual ovelha desgarrada perseguida por leões. Um a devorou: o rei da Assíria, e outro lhe partiu os ossos: Nabucodonosor, rei de Babilônia.
18. Eis por que assim fala o Senhor dos exércitos, Deus de Israel: vou castigar o rei de Babilônia e a sua terra, assim como castiguei o rei da Assíria.
19. Trarei novamente Israel para as suas pastagens, a fim de que entre nas pastagens do Carmelo e de Basã; e nos montes de Efraim e de Galaad fartar-se-á.
20. Naqueles dias e naqueles tempos – oráculo do Senhor – buscar-se-á a iniqüidade de Israel, mas ela terá desaparecido, e também o pecado de Judá, mas não o acharão, porque perdoarei ao resto que tiver poupado.
21. Sobe contra a terra de Merataim e contra a população de Pecod. Devasta, extermina – oráculo do Senhor – e executa todas as minhas ordens.
22. Tumulto de guerra no país, desastre imenso.
23. Como foi feito em pedaços o martelo que feria o mundo inteiro? Como se transformou Babilônia em objeto de pasmo entre as nações?
24. Lancei-te a rede e, sem o saberes, foste colhida de improviso, Babilônia. Eis-te apanhada e presa, por haveres provocado o Senhor.
25. Abriu o Senhor seu arsenal para dele tirar as armas de sua indignação, porque o Senhor dos exércitos tem algo a fazer contra a terra dos caldeus.
26. Vinde contra ela de todos os confins, abri seus celeiros, amontoai em feixes, e tudo exterminai sem que reste coisa alguma.
27. Matai todos os seus touros! Que desçam ao matadouro! Ai deles, porque o seu dia chegou, o tempo do seu castigo!
28. Ouviram-se os gritos dos fugitivos e daqueles que escaparam da terra de Babilônia, a fim de anunciarem em Sião a vingança do Senhor, nosso Deus, a vingança que toma pelo seu templo.
29. Convocai contra Babilônia os arqueiros, quantos retesam o arco, e sitiai-a, a fim de que ninguém possa escapar. Tratai-a segundo a sua conduta, tomai-lhe tudo o que ela fez, porque ela se levantou contra o Santo de Israel.
30. Por isso os seus jovens vão cair nas praças e todos os seus guerreiros perecerão nesse dia – oráculo do Senhor.
31. É contra ti que me volto, ó insolente – oráculo do Senhor Javé dos exércitos -, chegou o teu dia, o tempo do teu castigo.
32. Atordoar-se-á a insolente, e cairá sem que ninguém mais a levante. Lançar-lhe-ei fogo nas suas cidades, e tudo em volta será devorado.
33. Eis o que diz o Senhor dos exércitos: andam oprimidos os israelitas, assim como os judeus. Aqueles que os levaram ao cativeiro os detêm, recusando-se a libertá-los.
34. É forte, contudo, o seu vingador, cujo nome é Senhor dos exércitos; e defender-lhe-á com ardor a causa, a fim de que volte a calma ao país, e faça tremer os habitantes de Babilônia.
35. À espada os caldeus – oráculo do Senhor – e a população de Babilônia, os seus chefes e os seus sábios!
36. À espada os seus adivinhos mentirosos, para que enlouqueçam! À espada seus guerreiros, para que deles se aposse o terror!
37. À espada os seus cavalos e os seus carros, e toda a massa de povo que nela se encontra, para que se tornem como mulheres! À espada seus tesouros, para que sejam saqueados!
38. À espada suas águas, para que se esgotem! Porquanto é uma terra de ídolos, de gente apaixonada por seus espantalhos!
39. Por isso as feras aí farão sua morada com os chacais, e os avestruzes aí fixarão sua habitação. Jamais será ela habitada e para sempre ficará deserta.
40. Acontecer-lhe-á como no tempo em que Deus destruiu Sodoma, Gomorra e as cidades vizinhas – oráculo do Senhor. Ninguém mais aí habitará, e nenhum ser humano a povoará.
41. Eis que do norte acorre um povo: uma grande nação e reis numerosos erguem-se dos confins da terra,
42. armados de arcos e de setas. São cruéis e sem piedade; o barulho que fazem assemelha-se ao rugido do mar. Montados em cavalos alinham-se em ordem de batalha contra ti, filha de Babilônia.
43. Ao chegar-lhe tal notícia, deixou pender os braços o rei de Babilônia, e a angústia o oprimiu, qual a dor de uma mulher ao dar à luz.
44. Qual leão, lança-se o inimigo dos espinheiros do Jordão para uma pastagem perpétua; assim também em um instante eu os farei desaparecer, e aí estabelecerei aquele que escolhi. Porquanto, quem se iguala a mim? Quem poderia citar-me em juízo? Qual o pastor que poderia afrontar-me?
45. Escutai, portanto, a decisão do Senhor a propósito de Babilônia e seus desígnios contra a Caldéia: sim, serão arrastadas (à morte) como débeis cordeiros, e seus campos serão devastados.
46. Ao estrondo da queda de Babilônia comoveu-se a terra, e até entre as nações chegou seu eco.

 
Capítulo 51

1. Eis o que declara o Senhor: vou levantar contra Babilônia e sua população de Lebcamai um vento de destruição.
2. Vou enviar a Babilônia cesteiros que a irão joeirar, e que lhe deixarão vazia a terra, porque, no dia da desgraça, de todos os lados cairão sobre ela.
3. Que o arqueiro não retese seu arco contra o arqueiro nem se pavoneie em sua couraça. Não lhe poupeis a mocidade; exterminai todo o seu exército.
4. Caiam eles, feridos de morte, na terra dos caldeus, e transpassados nas ruas de Babilônia!
5. Porque Israel e Judá não enviuvaram do seu Deus, o Senhor dos exércitos, se bem que sejam terras cheias de crimes contra o Santo de Israel.
6. Fugi para longe do recinto de Babilônia; que cada um salve a vida e não pereça nos seus crimes, pois chegado é o tempo da vingança do Senhor que lhe vai dar o que mereceu.
7. Era Babilônia na mão do Senhor qual taça de ouro que embriagava toda a terra; bebiam as nações o seu vinho e enlouqueciam.
8. Caiu, porém, de repente, Babilônia: está esmagada. Chorai sobre ela! Ide à procura de um bálsamo para a sua ferida; talvez venha a curar-se.
9. Tentamos curar Babilônia, mas em vão. Deixai-a! Vamos cada qual para sua terra. Atingem o céu as suas faltas, sobem tão alto quanto as nuvens.
10. Pôs o Senhor em evidência a justiça de nossa causa. Vinde, a fim de que narremos em Sião a obra do Senhor, nosso Deus!
11. Aguçai vossas flechas! Colocai vossos escudos! Excitou o Senhor o espírito dos reis da Média, terra que deseja destruir Babilônia. É a vingança do Senhor, a vingança do seu templo.
12. Levantai bandeira sobre os muros de Babilônia! Reforçai a guarda! Colocai sentinelas! Armai emboscadas! Porque o Senhor executa o plano que concebeu, a ameaça que proferiu contra os babilônicos.
13. Tu que te assentas sobre as grandes águas, e que possuis imensos tesouros, chegou teu fim. Acabaram-se as tuas rapinas.
14. Jurou-o o Senhor dos exércitos, por si mesmo: Encher-te-ei de homens tão numerosos como gafanhotos, que lançarão gritos triunfantes sobre ti.
15. Criou ele a terra por seu poderio; firmou o mundo com a sua sabedoria, e em sua inteligência estendeu os céus.
16. Ao som de sua voz acumularam-se as águas nos céus; dos confins da terra faz subirem as nuvens, resolve em chuvas os relâmpagos, e de seus reservatórios tira os ventos.
17. Atônitos ficam, então, os homens. Envergonha-se o artífice da estátua que modelou, porque os ídolos que fundiu não passam de mentiras, e não possuem vida.
18. São apenas vãos simulacros, que se desvanecerão no dia do castigo,
19. O mesmo não acontecerá àquele que é a herança de Jacó, pois ele criou tudo, e Israel é a tribo do seu patrimônio. Seu nome é Javé dos exércitos.
20. És para mim um martelo, uma arma de guerra. Por teu intermédio esmago nações, aniquilo reinos
21. e destruo o cavalo e o cavaleiro, o carro e o cocheiro
22. por meio de ti despedaço homens e mulheres, velhos e crianças e quebranto o jovem e a jovem.
23. Por tuas mãos exterminarei pastores e rebanhos, lavradores e suas juntas, governantes e magistrados.
24. Mas, à Babilônia e aos caldeus retribuirei, ante vossos olhos, todo o mal que fizeram a Sião – oráculo do Senhor.
25. É contra ti que me lanço, monte destruidor – oráculo do Senhor -, tu que destróis toda a terra; contra ti vou estender a mão, para precipitar-te do alto dos rochedos, e fazer de ti montanha em chamas.
26. De teus escombros não se poderá tirar pedra de ângulo, nem pedra de alicerce, porque te hás de transformar em eterna ruína – oráculo do Senhor.
27. Por toda a terra erguei o estandarte, tocai a trombeta entre as nações. E contra ela uni os povos em guerra santa, mobilizai os reinos de Ararat, de Meni e Ascenez! Contra ela nomeai escribas recrutadores, e lançai os cavalos, quais gafanhotos eriçados.
28. Recrutai contra ela os povos em guerra santa, os reis da Média, seus governadores e oficiais, e todas as terras de seu domínio.
29. Treme a terra e se turba, porque se cumpre a ameaça do Senhor, contra Babilônia, de reduzir a terra de Babilônia a um lugar ermo e de horror.
30. Deixaram de lutar os guerreiros de Babilônia, abrigando-se nas fortalezas. Quebrou-se-lhes o vigor, mais pareciam mulheres. Incendiaram-se as casas: quebram-se os ferrolhos.
31. Surgem correio sobre correio, mensageiros sobre mensageiros, anunciando ao rei de Babilônia que toda a cidade se acha cercada,
32. que estão fechadas as passagens e os fortins em fogo, e consternados os guerreiros.
33. Porque eis o que falou o Senhor dos exércitos, Deus de Israel: Assemelha-se a filha de Babilônia à eira do tempo do apisoamento, ainda por um pouco, e para ela logo virá o tempo da colheita.
34. Tragou-me, partiu-me Nabucodonosor, rei de Babilônia, deixou-me qual vaso vazio. Engoliu-me, como o faria um dragão, enchendo o ventre do que de melhor eu possuía, e expulsou-me.
35. Recaia sobre Babilônia a nossa carne dilacerada!, dizem os habitantes de Sião; E sobre a Caldéia o meu sangue derramado!, diz Jerusalém.
36. Eis por que, assim falou o Senhor: Vou tomar tua causa em minhas mãos, e hei de vingar-te. Porei teu mar a seco e estancarei suas nascentes.
37. Tornar-se-á Babilônia um amontoado de pedras, covil de chacais, objeto de horror, lugar ermo, que será escarnecido.
38. Rugem seus homens em multidão como leões, e rosnam como leõezinhos.
39. Quando estiverem sequiosos, dar-lhes-ei de beber, e os embriagarei a fim de que se deleitem, adormecendo-os num sono eterno, do qual não mais despertem – oráculo do Senhor.
40. Fá-los-ei, como carneiros, descer ao matadouro, quais cordeiros e cabritos.
41. Como foi tomada Sesac, e vencida a glória de toda a terra? Como se tornou Babilônia objeto de horror, no meio das nações?
42. Subiu o mar contra Babilônia, e ela foi coberta pela multidão de suas ondas.
43. Tornaram-se desertos seus arredores, terra árida e desolada, onde ninguém mais há de morar, e nenhum ser humano habitar.
44. Castigarei Bel em Babilônia tirando-lhe da boca o que havia comido. E dela não se acercarão mais as nações. Eis que se desmorona a muralha de Babilônia!
45. Sai de lá, povo meu! Salve cada um a própria vida, ante a cólera ardente do Senhor!
46. Não se desfaleça o vosso coração. Não tenhais medo das notícias que se farão ouvir na terra. Durante um ano um rumor far-se-á ouvir e outro rumor no ano seguinte: Violências na terra, tirano contra tirano.
47. Eis por que virão dias em que me lançarei contra os ídolos de Babilônia: será, então, coberta de vergonha a terra inteira, em cujo meio cairão os homens feridos de morte.
48. O céu, a terra e tudo quanto encerram lançarão sobre Babilônia exclamações de alegria – oráculo do Senhor – porque contra ela se lançaram os devastadores vindos do norte.
49. Ó mortos de Israel, necessário é que caia Babilônia por sua vez, assim como, por causa dela, caíram todos os mortos da terra.
50. Escapai da espada; parti, não vos detenhais. Na terra longínqua, não vos esqueçais do Senhor, e seja Jerusalém o sonho de vossos corações.
51. Estamos confundidos; ouvimos a injúria, e a vergonha cobriu-nos os rostos, porque estrangeiros penetraram no santuário do templo.
52. Eis por que virão dias – oráculo do Senhor – em que me lançarei contra os ídolos de Babilônia e em que, na terra inteira, gemerão aqueles que são massacrados.
53. Ainda que Babilônia atingisse os céus e sua alta fortaleza se tornasse inacessível, os devastadores, sob minhas ordens, não deixarão de alcançá-la – oráculo do Senhor.
54. Eleva-se de Babilônia um clamor, e da Caldéia irrompe um tumulto de grande desastre.
55. É o Senhor quem devasta Babilônia, fazendo-lhe calar o ruído das vozes. Bramem como torrentes de água as suas ondas e ressoam os seus gritos,
56. porquanto contra Babilônia se arrojou o devastador. Foram presos os guerreiros e quebrados os seus arcos, porque o Senhor, que é o Deus das contas, não deixará de lhes dar a paga.
57. Embriagarei seus chefes e seus sábios, seus governantes, oficiais e guerreiros que dormirão um sono eterno e jamais despertarão! – Oráculo do rei, cujo nome é Javé dos exércitos.
58. Eis o que diz o Senhor dos exércitos: as muralhas imensas de Babilônia serão inteiramente arrasadas, e suas portas, altas como são, incendiadas. Assim, de nada valeram os sofrimentos dos povos, e em proveito do fogo esgotaram-se as nações.
59. Eis a ordem dada pelo profeta Jeremias a Saraías, filho de Néria, filho de Maasias, ao ir a Babilônia com Sedecias, rei de Judá, no quarto ano de seu reinado. Era Saraías o camareiro-mor.
60. Havia Jeremias escrito num livro todas as calamidades que haveriam de atingir Babilônia e todas as predições sobre ela.
61. E disse, então, a Saraías: Quando chegares a Babilônia, procurarás um meio de ler todas essas palavras.
62. Assim, dirás: Senhor, fostes vós que declarastes a destruição desta cidade, que se tornaria inabitável para homens e animais, transformando-se em solidão eterna.
63. E quando terminares a leitura do que nele se acha escrito, tu o ligarás a uma pedra e o lançarás ao Eufrates, dizendo: assim será mergulhada Babilônia, sem que jamais se possa erguer da calamidade que lançarei contra ela. (E cairão extenuados.) Fim dos oráculos de Jeremias.

 
Capítulo 52

1. Tinha Sedecias vinte e um anos ao começar seu reinado. Seu reino durou onze anos em Jerusalém. Chamava-se sua mãe Amital, filha de Jeremias, e era natural de Lobna.
2. Como Joaquim, ele também praticou o mal aos olhos do Senhor.
3. Assim aconteceu em Jerusalém e Judá, por querer o Senhor, em sua cólera, repeli-los para longe de sua presença.
4. No nono ano de seu reinado, no décimo dia do décimo mês, foi Nabucodonosor, com todo o seu exército, contra Jerusalém, armando e construindo fortificações em torno dela.
5. Até o décimo primeiro ano do reinado de Sedecias perdurou o sítio da cidade.
6. No nono dia do quarto mês, como a fome invadisse a cidade e não tivesse a população o que comer,
7. uma brecha foi feita na muralha da cidade e, à noite, fugiram os guerreiros pelo caminho da porta entre os dois muros, perto do jardim do rei, enquanto os caldeus cercavam a cidade. Tomaram esses homens o caminho da planície do Jordão.
8. Mas o exército dos caldeus perseguiu o rei e o alcançou nas planícies de Jericó. Então as tropas de Sedecias o abandonaram, dispersando-se em fuga.
9. Foi então o rei aprisionado e conduzido a Rebla, na presença do rei de Babilônia que contra ele pronunciou sua sentença.
10. E, diante de seus olhos, foram degolados em Rebla seus filhos, assim como todos os chefes de Judá.
11. Em seguida, foram-lhe arrancados os olhos e, ligado com cadeias de bronze, levaram-no para Babilônia, onde, até o dia de sua morte, permaneceu encarcerado.
12. No sétimo dia do quinto mês, décimo nono ano do reinado de Nabucodonosor, rei de Babilônia, Nabuzardã, chefe da guarda e servidor do rei de Babilônia, penetrou em Jerusalém,
13. pôs fogo no templo do Senhor, no palácio real, e em todas as casas da cidade, e entregou às chamas as casas dos maiorais.
14. Em seguida, as tropas dos caldeus, que acompanhavam o chefe da guarda, demoliram as muralhas que cercavam Jerusalém.
15. E Nabuzardã, chefe da guarda, deportou para Babilônia uma parte dos pobres da terra e o que restara da população da cidade, bem como os que já se haviam rendido ao rei de Babilônia e o restante dos artífices.
16. O chefe da guarda deixou ali alguns homens pobres, como vinhateiros e lavradores.
17. Quebraram também os caldeus as colunas de bronze do templo do Senhor, juntamente com os pedestais e o mar de bronze que estava no templo, levando todo esse metal para Babilônia.
18. Carregaram também cinzeiros, pás, facas, vasos e demais objetos de bronze que serviam ao culto.
19. Carregou ainda o chefe dos guardas as bacias, os braseiros, vasos, potes, candelabros, taças, copos e colheres, e o que havia em ouro e prata.
20. Quanto às duas colunas, ao mar, aos doze bois de bronze que as sustentavam, e aos pedestais que Salomão mandara fabricar para o templo do Senhor, difícil seria calcular o valor do bronze de todos esses objetos.
21. A altura de uma dessas colunas era de dezoito côvados e um cordão de doze côvados cingia-lhe a volta, sendo a espessura de quatro dedos, e oco o seu interior.
22. Encimava-as um capitel de bronze de cinco côvados; uma grade de romãs, também em bronze, cercavam o alto do capitel. Era semelhante a esta a segunda coluna, com romãs em torno,
23. em número de noventa e seis, e o total das romãs, em volta da grade, era de cem.
24. O chefe da guarda aprisionou o primeiro sacerdote, Saraías, e Sofonias, o segundo e os três guardas do vestíbulo.
25. Tomou da cidade um eunuco, que era encarregado do comando dos homens de guerra, sete homens do séquito do rei que foram encontrados na cidade, o intendente do exército, encarregado do recrutamento na terra, assim como mais sessenta homens da terra que se encontravam na cidade.
26. Nabuzardã, chefe da guarda, aprisionou-os e mandou-os conduzir a Rebla, ante o rei de Babilônia.
27. E este mandou executá-los em Rebla, na região de Emat. E assim Judá foi deportado para longe de sua terra.
28. Eis o número dos homens que Nabucodonosor levou ao cativeiro: no sétimo ano, 3.032 homens de Judá;
29. no décimo oitavo ano de Nabucodonosor, 832 pessoas foram deportadas de Jerusalém;
30. no vigésimo terceiro ano de Nabucodonosor, Nabuzardã, chefe dos guardas, deportou de Judá 745 pessoas. Ao todo, 4.600 pessoas.
31. No trigésimo sétimo ano do cativeiro de Joaquin, rei de Judá, no vigésimo quinto dia do décimo segundo mês, Evilmerodac, rei de Babilônia, no ano de sua elevação ao trono, perdoou Joaquin, rei de Judá, e mandou libertá-lo da prisão.
32. Falando-lhe com benevolência, designou-lhe um trono mais elevado que o dos reis que estavam com ele em Babilônia.
33. Mandou que lhe mudassem as vestes de prisioneiro e, até o fim de sua vida, Joaquin comeu à mesa do rei da Babilônia.
34. Durante toda a sua vida, até o dia de sua morte, sua manutenção foi garantida pelos cuidados do rei de Babilônia.
 

Lamentações

Lamentações

Capítulo 1

1. Alef. Como está abandonada a cidade tão povoada! Assemelha-se a uma viúva a grande entre as nações. Rainha entre as províncias, ficou sujeita ao tributo.
2. Bet. Ela chora pela noite adentro, lágrimas lhe inundam as faces, ninguém mais a consola de quantos a amavam. Seus amigos todos a traíram, e se tornaram seus inimigos.
3. Guimel. Judá partiu para o exílio em miséria e dura servidão. Habita entre as nações sem achar repouso. Atingiram-no seus perseguidores entre as suas fronteiras.
4. Dalet. Estão de luto os caminhos de Sião, e ninguém mais vem às suas festas. Suas portas todas estão desertas, gemem seus sacerdotes, afligem-se as virgens, e ela mesma vive na amargura.
5. He. Apossaram-se dela seus opressores, e tranqüilos vivem seus inimigos, pois o Senhor a aflige por causa do número de seus crimes. Partiram cativos os seus filhos diante do opressor.
6. Vau. Desapareceu da filha de Sião toda a sua glória. Seus príncipes se tornaram como cervos que não encontraram pastagens e que fogem, esgotados, diante dos que os perseguem.
7. Zain. Nestes dias de males e vida errante, recorda-se Jerusalém das delícias dos tempos idos. Agora que seu povo sucumbiu sob os golpes do inimigo e ninguém vem socorrê-la! Olham-na seus inimigos, e zombam de sua devastação.
8. Het. Graves foram os pecados de Jerusalém: ela ficou uma imundície. Quem a honrava, agora a despreza porque lhe viram a nudez. E ela geme e esconde o rosto.
9. Tet. Vê-se sua mancha sobre suas vestes. Ela não previra esse fim. É imensa a sua decadência, e ninguém vem consolá-la. Olhai, Senhor, para a minha miséria, porque o inimigo se ensoberbece.
10. Iod. O adversário lançou a mão sobre todos os seus tesouros. E ela viu os pagãos penetrarem em seu santuário, aqueles dos quais dissestes que não entrariam em vossa assembléia.
11. Caf. Geme todo o seu povo à procura de pão. Por víveres troca suas jóias a fim de recuperar as forças. Vede, Senhor, e considerai o aviltamento a que cheguei!
12. Lamed. Ó vós todos, que passais pelo caminho: olhai e julgai se existe dor igual à dor que me atormenta, a mim que o Senhor feriu no dia de sua ardente cólera.
13. Mem. Até aos meus ossos lançou ele do alto um fogo que os devora. Sob meus passos estendeu redes e me fez cair violentamente, enchendo-me de pavor. Eu ando amargurado o dia inteiro!
14. Nun. O jugo dos meus crimes está ligado pelas suas mãos. Pesa-me ao pescoço um feixe que faz vacilar minha força. O Senhor me entregou em mãos das quais não posso libertar-me.
15. Samec. Rejeitou o Senhor todos os bravos que viviam em meus muros. Enviou contra mim um exército a fim de abater minha jovem elite. O Senhor esmagou no lagar a virgem, filha de Judá.
16. Ain. Eis o motivo por que choro; fundem-se em lágrimas os meus olhos, porque ninguém a meu lado me consola, nem me alenta. Vivem consternados os meus filhos, porque triunfa o inimigo.
17. Pe. Sião estende as suas mãos sem que ninguém a console. Mandou o Senhor contra Jacó inimigos sem conta. Jerusalém se tornou entre eles objeto de aversão.
18. Sade. O Senhor é justo, porque fui rebelde à sua voz. Escutai todos vós, ó povos, e vede a minha dor. Minhas virgens e meus jovens foram conduzidos para o exílio.
19. Cof. Implorei a meus amigos e eles me iludiram. Meus sacerdotes e os anciãos pereceram na cidade enquanto buscavam alimento para revigorar as forças.
20. Res. Vede, Senhor, a minha angústia! Tremem minhas entranhas, e meu coração está perturbado por causa de minhas revoltas. De fora mata a espada, de dentro alastra a morte.
21. Sin. Meus suspiros são ouvidos sem que ninguém me console. Meus inimigos, vendo minha ruína, sentem-se felizes com a vossa intervenção. Fazei vir o dia por vós predito! Que a mesma sorte lhes advenha!
22. Tau. Que todos os seus crimes vos estejam presentes! Tratai-os como a mim me tratastes por todos os meus crimes! Porque não cessam meus gemidos, e está doente meu coração.

 
Capítulo 2

1. Alef. Como cobriu irritado o Senhor com uma nuvem a filha de Sião? Precipitou do céu à terra a gloria de Israel, e na sua cólera desinteressou-se do escabelo dos seus pés.
2. Bet. O Senhor destruiu sem piedade todas as moradias de Jacó. E em seu furor arruinou as fortificações da filha de Judá. Lançou por terra e conspurcou o reino e seus príncipes.
3. Guimel. Na violência do seu furor, quebrou todo o poder de Israel. Ao aproximar-se o inimigo, retirou o apoio de sua mão, e provocou um incêndio em Jacó que devora tudo que o cerca.
4. Dalet. Retesou o arco, qual inimigo; firmou o braço, qual adversário; e tudo quanto encantava os olhos ele degolou. Na tenda da filha de Sião lançou o fogo do seu furor.
5. He. Semelhante a um inimigo o Senhor destruiu Israel. Demoliu seus edifícios, abateu suas fortalezas; sobre a filha de Sião acumulou dores sobre dores.
6. Vau. Arrombou-lhe a tenda, como um jardim, e devastou seu santuário. O Senhor aboliu em Sião festas e sábados. E no ardor de sua cólera repeliu rei e sacerdote.
7. Zaim. Desgostou-se do altar e rejeitou seu santuário. Entregou nas mãos dos inimigos as muralhas de seus fortes; elevaram-se gritos no templo, como nos dias de festas.
8. Het. Resolveu o Senhor demolir os muros da filha de Sião. Estendeu o cordel, sem deter-se antes que tudo destruísse, e derrubou o muro e o antemuro que, juntos, desabaram.
9. Tet. Jazem sob escombros as suas portas que ele quebrou, partindo as traves. Acham-se no estrangeiro seu rei e príncipes. Não há mais oráculos. Mesmo os profetas não mais recebem as visões do Senhor.
10. Iod. Sentados no chão, taciturnos, jazem os anciãos da filha de Sião. Jogaram poeira sobre os cabelos; vestiram-se com sacos; e as virgens de Jerusalém pendem a fronte para a terra.
11. Caf. Ardiam-me os olhos, de tantas lágrimas; fremiam minhas entranhas. Minha bílis se espalhou por terra, ante a ruína da filha de meu povo, quando nas ruas da cidade desfaleciam os meninos e as crianças de peito.
12. Lamed. Onde há pão (e onde há vinho)?!, diziam eles às mães, desfalecendo, quais feridos, nas ruas da cidade, e entregando a alma no regaço materno.
13. Mem. Que dizer? A quem te comparar, filha de Jerusalém? Quem irá salvar-te e consolar-te, ó virgem, filha de Sião? É imensa como o mar tua ruína: quem poderá curar-te?
14. Nun. Os teus profetas tinham visões apenas extravagantes e balofas. Não manifestaram tua malícia, o que teria poupado teu exílio. Os oráculos que te davam eram apenas mentiras e enganos.
15. Samec. Todos os transeuntes, ao te verem, batem palmas, e assobiando meneiam a cabeça sobre a filha de Jerusalém. Eis a cidade da qual diziam ser a beleza perfeita, a alegria do universo.
16. Pe. Abrem a boca contra ti todos os teus inimigos. Escarnecem e rangem os dentes. Nós destruímos, dizem eles, eis o dia esperado, estamos nele, estamos vendo!
17. Ain. Realizou o Senhor o seu desígnio, executando as ameaças que outrora proferira. E destruiu sem piedade. À tua custa contentou o inimigo, exaltando o poder de teus adversários.
18. Sade. Seu coração clama ao Senhor. Ó muralha da filha de Sião, transborda dia e noite a torrente de tuas lágrimas! Não te dês descanso, e teus olhos não cessem de chorar!
19. Cof. Levanta-te à noite; grita ao início de cada vigília; que se derrame teu coração ante a face do Senhor. Ergue para ele as mãos, pela vida de teus filhos que caem de inanição, em todos os cantos das ruas.
20. Res. Olhai, Senhor, e considerai! A quem jamais tratastes assim? Como! Mães a devorar os seus frutos, suas criancinhas de colo! Foram massacrados sacerdotes e profetas no santuário do Senhor!
21. Sin. Jazem pelo chão nas ruas o menino e o velho. Virgens e jovens pereceram pelo gládio. Matastes, no dia de vossa cólera, imolastes sem piedade.
22. Tau. Convocastes como para uma festa a multidão de terrores. No dia do furor divino ninguém fugiu, nenhum escapou. E aqueles que criei e eduquei meu inimigo os exterminou!

 
Capítulo 3

1. Eu sou o homem que conheceu a dor, sob a vara de seu furor.
2. Conduziu-me e me fez caminhar nas trevas e não na claridade.
3. Ele não cessa de voltar a mão todos os dias contra mim.
4. Consumiu minha carne e minha pele, partiu meus ossos.
5. Em torno de mim acumulou veneno e dor.
6. Fez-me morar nas trevas como os mortos do tempo antigo.
7. Cercou-me com muralhas sem saída, carregou-me de pesados grilhões.
8. Não obstante meus gritos e apelos sufocou a minha prece!
9. Fechou-me a vereda com pedras e obstruiu o meu caminho.
10. Foi ele para mim qual urso de emboscada, qual leão traiçoeiro.
11. Desviou-me para me dilacerar, deixando-me no abandono.
12. Retesou o arco e me tomou para alvo de suas setas.
13. Cravou em meus rins as flechas de sua aljava.
14. Tornei-me escárnio do meu povo, objeto constante de suas canções.
15. Saturou-me de amarguras, saciou-me de absinto.
16. Quebrou-me os dentes com cascalhos, mergulhou-me em cinzas.
17. A paz foi roubada de minha alma, nem sei mais o que é felicidade.
18. E eu penso: perdi minha força e minha esperança no Senhor.
19. A lembrança de meus tormentos e minhas misérias é para mim absinto e veneno.
20. A pensar nisso sem cessar, minha alma desfalece dentro de mim.
21. Eis, porém, o que vou tomar a peito para recuperar a esperança.
22. É graças ao Senhor que não fomos aniquilados, porque não se esgotou sua piedade.
23. Cada manhã ele se manifesta e grande é sua fidelidade.
24. Disse-me a alma: o Senhor é minha partilha, e assim nele confio.
25. O Senhor é bom para quem nele confia, para a alma que o procura.
26. Bom é esperar em silêncio o socorro do Senhor.
27. É bom para o homem carregar seu jugo na mocidade.
28. Permaneça só e em silêncio, quando Deus lho determinar!
29. Leve sua boca ao pó; haverá, talvez, esperança?
30. Estenda a face a quem o fere, e se farte de opróbrios!
31. Porque o Senhor não repele para sempre.
32. Após haver afligido, ele tem piedade, porque é grande sua misericórdia.
33. Não lhe alegra o coração humilhar e afligir os homens.
34. Calcar aos pés todos os cativos da terra;
35. violar o direito de um homem à face do Altíssimo;
36. lesar os direitos de outros… Não vê tudo isso o Senhor?
37. De quem se executa a ordem, sem que Deus a ordene?
38. Não é da boca do Altíssimo que procedem males e bens?
39. De que pode o homem em vida queixar-se? Que cada um se queixe de seus pecados.
40. Examinemos, escrutemos o nosso proceder, e voltemos para o Senhor.
41. Elevemos os corações, tanto quanto as mãos, para Deus lá nos céus.
42. Pecamos, recalcitramos, e não nos perdoastes.
43. Cobristes-vos de cólera para nos perseguir. Matastes sem piedade.
44. Numa nuvem vos envolvestes para impedir que a prece a atravessasse.
45. E de nós fizestes raspas, refugo das nações.
46. Contra nós abrem a boca todos os nossos inimigos.
47. Fosso e terror – é o nosso quinhão, com ruínas e desolação.
48. Rios de lágrimas correm-me dos olhos, por causa da ruína da filha de meu povo.
49. Não cessam meus olhos de chorar, porque não cessa (a desgraça),
50. até que do alto dos céus o Senhor desça seu olhar.
51. Minha alma se amargura, ao ver todas as filhas da minha cidade.
52. Caçaram-me como a um pardal os que, sem razão, me odeiam.
53. Quiseram precipitar-me no fosso rolando uma pedra sobre mim.
54. Acima de mim subiam as águas: Estou perdido!, exclamei.
55. Invoquei, Senhor, o vosso nome do profundo fosso.
56. Ouvistes-me gritar: Não aparteis do meu chamado o vosso ouvido.
57. E vós viestes no dia em que vos invoquei e dissestes: Não tenhas medo!
58. Defendestes, Senhor, a minha causa, e minha vida resgatastes.
59. Vistes, Senhor, o mal que me fizeram: fazei-me justiça.
60. Vós vedes seus projetos vingativos e suas tramas contra mim.
61. Senhor, ouvistes suas injúrias e todos os seus conluios contra mim;
62. As palavras de meus inimigos e o que sem cessar estão tramando contra mim.
63. Observai-os: sentados ou de pé, fazem de mim objeto de suas canções.
64. Dai-lhes, Senhor, a paga, o que merece o seu proceder.
65. Cegai-lhes o coração; feri-os com a vossa maldição;
66. persegui-os com vossa cólera, e exterminai-os do nosso universo, Senhor!

 
Capítulo 4

1. Alef. Como escureceu o ouro, como se alterou o ouro fino! Foram dispersadas as pedras sagradas por todos os cantos da rua?
2. Bet. Os nobres filhos de Sião, tão estimados quanto o ouro fino, ei-los contados como vasos, obra de um oleiro!
3. Guimel. Mesmo chacais dão a mama a fim de aleitar suas crias; mas a filha do meu povo é cruel, qual avestruz do deserto.
4. Dalet. A língua dos bebês, de tanta sede, se lhes prega ao palato! As crianças reclamam pão. E ninguém lho dá.
5. He. Aqueles que em comidas finas se compraziam definham pelas ruas. E os que foram educados no fausto têm por leito o esterco.
6. Vau. O castigo da filha do meu povo é maior que o pecado de Sodoma, num momento destruída sem que ninguém lhe lançasse a mão.
7. Zain. Os príncipes brilhavam mais que a neve, mais brancos do que o leite. Seus corpos eram mais vermelhos que o coral, e era de safira o seu aspecto.
8. Het. Agora, seus rostos ficaram mais sombrios do que a fuligem; pelas ruas, são irreconhecíveis. A pele se lhes colou aos ossos, e qual madeira ressecou-se.
9. Tet. As vítimas do gládio são mais felizes do que as da fome, que lentamente se esgotam pela falta dos produtos da terra.
10. Iod. Mãos de mulheres, cheias de ternura, cozinharam os filhos, a fim de servirem de alimento, quando da ruína da filha de meu povo.
11. Caf. O Senhor saciou o seu furor, e derramou o ardor de sua cólera, acendendo um fogo em Sião que a devorou até os alicerces.
12. Lamed. Não podiam acreditar os reis da terra, e todos os habitantes do mundo, que o inimigo opressor transporia as portas de Jerusalém.
13. Mem. Foi por causa dos pecados de seus profetas e das iniqüidades dos sacerdotes, que derramavam em seus muros o sangue dos justos.
14. Nun. Quais cegos erravam pelas ruas, vertendo sangue a tal ponto que ninguém ousava tocar em suas vestes.
15. Samec. Para trás! É um impuro! – lhes gritavam. Para trás! Para trás! Não toqueis! E quando fugiam, errantes entre os pagãos, todos diziam: Aqui não ficarão.
16. Pe. A face do Senhor dispersou-os e para eles não olha mais: nenhuma deferência aos sacerdotes, nem piedade com os anciãos.
17. Ain. Nossos olhos se consumiam, na esperança de um vão socorro. Espreitávamos do alto das torres a vinda de um povo incapaz de nos livrar.
18. Sade. Espreitavam os nossos passos; nem mais podíamos andar pela rua. Nosso fim se aproxima. Terminam nossos dias. Sim! Chegou o nosso termo.
19. Cof. Os que nos perseguiam eram mais velozes que as águias do céu. Seguiram-nos pelos montes e nos armaram ciladas no deserto.
20. Res. O sopro de nossa vida o ungido do Senhor, caiu em suas ciladas. De quem dizíamos: À sua sombra viveremos entre as nações.
21. Sin. Exulta, alegra-te, filha de Edom, habitante da terra de Hus! A ti também será passado o cálice, e embriagada descobrirás tua nudez.
22. Tau. Findou teu castigo, filha de Sião (Deus) não mais te exilará. É a teus crimes que ele vai castigar, filha de Edom, e descobrir os teus pecados.

 
Capítulo 5

1. Lembrai-vos, Senhor, do que nos aconteceu. Olhai, considerai nossa humilhação.
2. Nossa herança passou a mãos estranhas, e nossas casas foram entregues a desconhecidos.
3. Órfãos, fomos privados de nossos pais, e nossas mães são como viúvas.
4. Somente a preço de dinheiro nos é dado beber; a nossa lenha, devemos pagá-la.
5. Carregando o jugo ao pescoço, somo perseguidos, extenuamo-nos, não há trégua para nós!
6. Estendemos a mão ao Egito e à Assíria para obtermos o pão para comer.
7. Pecaram nossos pais, e já não existem, e sobre nós caíram os castigos de suas iniqüidades.
8. Um povo de escravos domina sobre nós. Ninguém nos arrebata de suas mãos.
9. Se comemos o pão, é com perigo de nossa vida, por causa da espada que ataca no deserto.
10. Nossa pele esbraseou-se como ao forno, sob os ardores da fome.
11. Foram violadas as mulheres de Sião e as jovens nas cidades de Judá;
12. chefes foram executados pelas mãos (dos inimigos) que nenhum respeito tiveram pelos anciãos.
13. Jovens tiveram que girar a mó, e adolescentes vergaram sob o peso dos fardos de lenha.
14. Não se assentam mais às portas os anciãos, deixaram os jovens de dedilhar as cordas da lira.
15. Fugiu-nos a alegria dos corações; nossas danças se converteram em luto.
16. Caiu-nos da cabeça a coroa; desgraçados de nós, porque pecamos.
17. Amargurou-se-nos o coração, e nossos olhos toldaram-se (de lágrimas),
18. porque o monte Sião foi assolado, e nele andam à solta os chacais.
19. Vós, porém, Senhor, sois eterno, e vosso trono subsistirá através dos tempos.
20. Por que persistir em esquecer-nos? Por que abandonar-nos para sempre?
21. Reconduzi-nos a vós, Senhor; e voltaremos. Fazei-nos reviver os dias de outrora.
22. A menos que nos tenhais abandonado, e que contra nós demasiadamente vos tenhais irritado.
 

Baruc

Baruc

 Capítulo 1

1. Eis o texto do livro escrito por Baruc, filho de Nérias, filho de Maasias, filho de Sedecias, filho de Sedei, filho de Helcias, em Babilônia,
2. no quinto ano, sétimo dia do (quinto) mês. Decorria o tempo em que os caldeus tomaram Jerusalém e a haviam incendiado.
3. Leu Baruc este livro em presença de Jeconias, filho de Joaquim, rei de Judá, e de todo o povo, que para tal fim se reunira,
4. dos nobres, príncipes reais, anciãos e de quantos residiam em Babilônia, às margens do rio Sodi, desde os mais simples até os mais elevados.
5. Ao ouvi-lo, puseram-se todos a chorar e a jejuar, orando ao Senhor.
6. Fizeram, em seguida, uma coleta de dinheiro, de acordo com as posses de cada um,
7. e o produto enviaram a Jerusalém, ao sacerdote Joaquim, filho de Helcias, filho de Salom, assim como aos outros sacerdotes e a quantos ainda com ele se encontravam na cidade.
8. No décimo dia do mês de Sivã, Baruc já havia recuperado os utensílios da casa do Senhor – que haviam sido levados por ocasião da pilhagem -, a fim de devolvê-los à terra de Judá. Eram objetos de prata feitos a mandado de Sedecias, filho se Josias, rei de Judá,
9. depois que Nabucodonosor, rei de Babilônia, deportou de Jerusalém para Babilônia Jeconias, juntamente com os príncipes, os artífices, os principais e o povo.
10. Eis o que escreveram: servi-vos do dinheiro que vos enviamos, a fim de comprar vítimas para os holocaustos, os sacrifícios expiatórios, e para o incenso. Preparai também oferendas que poreis sobre o altar do Senhor, nosso Deus.
11. Orai pela saúde de Nabucodonosor, rei da Babilônia, e pela vida de seu filho Baltasar, a fim de que elas sejam como uma vida celeste na terra.
12. Que o Senhor nos dê força e ilumine os nossos olhos para que vivamos à sombra de Nabucodonosor, rei de Babilônia, e de seu filho Baltasar, e que a eles sirvamos por longos dias e gozemos de seus favores.
13. Rogai também ao Senhor, nosso Deus, por nós, porque pecamos contra ele, e a sua cólera ainda não se desviou de nós.
14. Tomai conhecimento deste livro que vos enviamos para que dele façais a leitura pública no templo, nos dias de festas e de assembléias religiosas.
15. Eis o que direis: O Senhor, nosso Deus, é justo. Nós, porém, devemos, hoje, corar de vergonha, nós, homens de Judá e habitantes de Jerusalém,
16. nossos reis e príncipes, sacerdotes, profetas e nossos pais,
17. porque pecamos contra o Senhor.
18. Nós lhe desobedecemos; recusamo-nos a ouvir a voz do Senhor, nosso Deus, e a seguir os mandamentos que nos deu.
19. Desde o dia em que o Senhor tirou nossos pais do Egito até agora, persistimos em nos mostrar recalcitrantes contra o Senhor, nosso Deus, e, em nossa leviandade, recusamos escutar-lhe a voz.
20. Por isso, como agora o vemos, persegue-nos a calamidade assim como a maldição que o Senhor pronunciara pela boca de Moisés, seu servo, quando este fez com que saíssem do Egito nossos pais, a fim de nos proporcionar uma terra que mana leite e mel.
21. Contudo, a despeito dos avisos dos profetas que nos enviou, não escutamos a voz do Senhor, nosso Deus.
22. Seguindo cada um de nós as inclinações perversas do coração, servimos a deuses estranhos e praticamos o mal ante os olhos do Senhor, nosso Deus.

 
Capítulo 2

1. Assim sendo, pôs o Senhor em execução a ameaça que, contra nós, havia pronunciado, e contra os nossos chefes que governavam Israel, os nossos reis e príncipes e todo Israel e Judá;
2. a ameaça de lançar sobre nós calamidades tais como nunca, sob o céu, ocorreram semelhantes ao que se passou em Jerusalém. (Foi visto realizar-se) o que na lei de Moisés se encontra:
3. chegar cada um de nós a comer a carne do filho ou da filha.
4. Entregou-os ao domínio de todos os reinos que nos cercavam, e os tornou objeto de opróbrio e maldição para todos os povos, em cujo meio o Senhor os havia dispersado.
5. Assim passaram a ser súditos em lugar de senhores, porque cometemos o pecado contra o Senhor, nosso Deus, e lhe desatendemos à voz.
6. O Senhor, nosso Deus, é justo. Nós é que hoje devemos corar de pejo, assim como nossos pais.
7. Aconteceram todas as calamidades de que nos ameaçara o Senhor.
8. E nós não (tentamos) abrandar a cólera do Senhor contra nós, renunciando aos pensamentos perversos de nosso coração.
9. E assim, o Senhor que velava sobre a calamidade, desencadeou-a sobre nós. Todavia, o Senhor é justo em todos os acontecimentos que nos impôs
10. porque nenhuma atenção prestamos ao seu aviso que consistia em seguir os mandamentos que o Senhor nos havia imposto.
11. E agora, Senhor, Deus de Israel, que fizestes sair o vosso povo do Egito pela força de vossa mão, com milagres e prodígios por um efeito do poder de vosso braço, que criastes um nome até hoje:
12. pecamos, é verdade, e procedemos como ímpios, Senhor, nosso Deus, praticando o mal contra todos os vossos preceitos.
13. Dignai-vos desviar de nós a vossa cólera, porque não passamos de uns poucos restantes entre as nações pelas quais nos dispersastes!
14. Atendei, Senhor, à nossa prece suplicante e, por vosso amor, salvai-nos. Fazei-nos encontrar perdão ante os olhos daqueles que nos deportaram,
15. a fim de que o mundo saiba que vós sois o Senhor, nosso Deus. Porventura não é de vosso nome que provém o de Israel e de sua linhagem?
16. Lançai, Senhor, o vosso olhar sobre nós lá do alto de vossa morada santa e atendei à nossa voz. Inclinai vossos ouvidos, Senhor, a fim de nos ouvir.
17. Abri os vossos olhos, e volvei-os sobre nós! Não são os mortos das moradas subterrâneas, cujo sopro se lhes desprendeu das entranhas, que rendem glória ao Senhor, (e louvam) sua justiça,
18. e sim a alma (viva), por mais acabrunhada que esteja de tristeza, aquele que caminha curvado e esfalfado, o olhar desfalecido, e a alma a penar de fome – estes vos rendem glória e louvam a vossa justiça, ó Senhor.
19. Não é em nome dos méritos de nossos pais e reis que vos apresentamos nossa súplica, Senhor, nosso Deus.
20. Pois (é com razão) que desencadeastes sobre nós a vossa cólera e furor, como o predissestes por intermédio dos profetas, vossos servos.
21. Eis o que diz o Senhor: dobrai a cerviz e servi ao rei de Babilônia; assim ficareis na terra que dei a vossos pais.
22. Se não atenderdes ao aviso que vos deu o Senhor, vosso Deus, de submeter-vos ao rei de Babilônia,
23. farei calar nas cidades de Judá e nas ruas de Jerusalém os gritos de alegria e júbilo, o cântico do noivo e da noiva, e a terra inteira transformar-se-á em deserto inabitável.
24. Não escutamos, entretanto, vosso apelo para que nos submetêssemos ao rei de Babilônia. E executastes a ameaça que havíeis ordenado proferissem os profetas, vossos servos, de que os ossos de nossos reis e pais fossem arrebatados de suas sepulturas.
25. E lá estão eles, expostos ao calor dos dias e ao frio das noites, após a morte de nossos pais, no sofrimento cruel da fome, da espada e da peste.
26. Assim, foi por causa da malícia da casa de Israel e de Judá, que reduzistes o povo, que de vós recebeu o nome, ao estado em que hoje se encontra.
27. E ainda, foi pela vossa bondade e misericórdia, Senhor, nosso Deus, que agistes conosco,
28. como o declarastes por intermédio de vosso servo Moisés, no dia em que o impelistes a gravar por escrito a vossa lei na presença dos israelitas:
29. Se não escutardes a minha voz, esta grande e vasta multidão será reduzida a um punhado de homens entre as nações, pelas quais os dispersarei.
30. Bem sei que não me escutam. É um povo recalcitrante. Contudo, na terra do exílio, tomarão a peito esse caso,
31. reconhecendo que sou eu o Senhor e Deus. Dar-lhes-ei então um coração apto a compreender e dóceis ouvidos.
32. E lá na terra do exílio, render-me-ão louvores e se hão de recordar de meu nome.
33. Ante a lembrança do destino de seus pais que pecaram contra o Senhor, renunciarão às suas obstinações e ao seu perverso proceder.
34. Trá-los-ei então para a terra que, sob juramento, havia prometido a seus pais, Abraão, Isaac e Jacó. Dela retomarão posse, e eu lá os multiplicarei, e seu número não mais diminuirá.
35. Com eles estabelecerei eterna aliança; e serei o seu Deus, e eles serão o meu povo. E jamais expulsarei Israel, meu povo, da terra que lhe outorguei.

 
Capítulo 3

1. Senhor, todo-poderoso, Deus de Israel, é uma alma angustiada e um coração atormentado que clama a vós:
2. Escutai, Senhor! Tende piedade! Porque pecamos contra vós.
3. Estais sentado sobre um trono eterno, e nós caminhamos para um definitivo aniquilamento.
4. Senhor, todo-poderoso, Deus de Israel, escutai a prece dos mortos de Israel, dos filhos daqueles que pecaram contra vós, que não atenderam à voz do Senhor, seu Deus, e por isso foram levados à desgraça.
5. Não mais tomeis em conta os crimes de nossos pais; lembrai-vos, apenas, nesta hora, do poder de vosso nome.
6. Sois o Senhor nosso Deus, e nós queremos louvar-vos, Senhor.
7. Por esse motivo é que nos inspirastes o temor a vós e a necessidade de vos invocar. Agora, em nosso exílio, vos louvamos, já que o nosso coração renunciou às iniqüidades de nossos pais, que contra vós pecaram.
8. Olhai! Aqui vivemos em um exílio, para onde nos dispersastes, a fim de sermos objeto de opróbrio, de insultos e maldições, e para carregarmos o peso das culpas de nossos pais, que haviam abandonado o Senhor, nosso Deus.
9. Escuta, Israel, os mandamentos de vida; medita, a fim de que aprendas a prudência.
10. Donde vem, Israel, donde vem, que te encontras em terra inimiga, que definhas em solo estranho, passas por imundo, qual cadáver,
11. e és contado entre os ocupantes dos túmulos?
12. Negligenciaste a fonte da sabedoria.
13. Se houvesses caminhado pelas sendas de Deus, poderias habitar para sempre na paz.
14. Aprende onde se acha a prudência, a força e a inteligência, a fim de que saibas, ao mesmo tempo, onde se encontram a vida longa e a felicidade, o fulgor dos olhos e a paz.
15. Quem jamais encontrou sua morada, e penetrou em seus domínios?
16. Onde estão os chefes das nações que domavam os animais da terra,
17. e brincavam com as aves do céu, que entesouravam prata e ouro, em quem os homens confiavam, e cujos bens são inesgotáveis?
18. Onde estão aqueles que trabalham a prata com dificuldade? Nada resta de suas obras.
19. Desapareceram, desceram à habitação dos mortos, e outros subiram ao lugar deles;
20. os mais jovens viram o dia e habitaram a terra; não descobriram, porém, o caminho da sabedoria,
21. nem conheceram a senda que a ela conduz. Também seus filhos não a alcançaram e longe permaneceram de seu caminho.
22. Dela não se ouviu falar em Canaã nem foi vista em Temã.
23. Mesmo os filhos de Agar, à procura de prudência terrestre, e os negociantes de Madiã e Temã, os amigos de provérbios e os desejosos de prudência, não puderam conhecer o caminho da sabedoria, nem dela obter informações sobre sua pista.
24. Ó Israel!, quão imensa é a casa de Deus; como é vasta a extensão de seus domínios!
25. Sim, é vasta, imensa, ampla, ilimitada.
26. Lá nasceram os famosos gigantes antigos, de estatura imensa e alma de guerreiros.
27. Não os escolheu Deus, nem lhes mostrou o caminho da sabedoria.
28. E por falta de sagacidade pereceram, vítimas da própria estultícia.
29. Quem escalou o céu a fim de procurar a sabedoria, e a trouxe para baixo das nuvens?
30. Quem atravessou o mar para encontrá-la, e a adquiriu, ao preço do ouro mais puro?
31. Ninguém conhece o caminho que a ela conduz, nem sabe a pista que lá o possa levar.
32. Somente aquele que tudo sabe a conhece, e por efeito de sua prudência a descobre; aquele que criou a terra para tempos que não findam; aquele que de animais a povoou;
33. aquele que lança o relâmpago e o faz brilhar, que o chama e ele, bramindo, obedece.
34. Brilham em seus postos as estrelas e se alegram;
35. e as chama, e respondem: Aqui estamos. E jubilosas refulgem para o seu criador.
36. É ele o nosso Deus, com ele nenhum outro se compara.
37. Conhece a fundo os caminhos que conduzem à sabedoria, galardoando com ela Jacó, seu servo, e Israel, seu favorecido.
38. Foi então que ela apareceu sobre a terra, onde permanece entre os homens.

 
Capítulo 4

1. Ela é o livro dos mandamentos divinos e a Lei que subsiste para todo o sempre. Todos aqueles que a seguem adquirirão a vida, e os que a abandonam morrerão.
2. Volta para ela, Jacó, abraça-a. Caminha ao seu encontro, ao esplendor da sua luz.
3. Não entregues a outros esta glória, nem relegues esta salvação a nação estrangeira.
4. Ditosos somos nós, Israel, porque a nós foi revelado o que agrada a Deus!
5. Coragem, povo meu, que trazeis o nome de Israel!
6. Fostes, em verdade, vendidos aos pagãos, não, porém, para serdes aniquilados. Por haverdes desencadeado a cólera divina é que fostes entregues aos inimigos.
7. Havíeis exasperado vosso Criador, ofertando sacrifícios aos demônios e não a Deus.
8. Esquecestes o vosso Criador, o Deus eterno, e contristastes Jerusalém, vossa nutriz.
9. Esta viu precipitar-se sobre vós a ira divina, e clamou: Escutai, vizinhas de Sião! Fez-me Deus suportar cruel tormento.
10. Assisti à deportação de meus filhos e filhas, que o Eterno lhes infligiu.
11. Eu os educara com alegria e fui obrigada a deixá-los partir com lágrimas de luto.
12. Que ninguém se regozije com minha viuvez e meu desamparo! Por causa dos pecados de meus filhos vivo desolada, já que se afastaram da lei de Deus,
13. negligenciando seus mandamentos, afastando-se dos caminhos de seus preceitos e não seguindo a vereda da disciplina segundo sua justiça.
14. Vinde, vizinhas de Sião! Pensai na deportação de meus filhos e filhas, que o Eterno lhes infligiu.
15. Lançou contra eles um povo longínquo, povo insolente, de linguagem bárbara, sem respeito pelo ancião, sem piedade para com o pequenino.
16. Roubou à viúva os bem-amados, deixando-me sozinha, sem as minhas filhas.
17. E que posso eu fazer por vós?
18. Somente aquele que vos infligiu estes males pode salvar-vos das mãos de vossos inimigos.
19. Ide, filhos meus! Ide! Quanto a mim, permanecerei na solidão.
20. Tirei minhas vestes dos dias de paz para revestir-me do saco dos suplicantes. Até meu último dia invocarei o Eterno.
21. Coragem, meus filhos! E vós também orai a Deus, a fim de que vos salve da mão poderosa de vossos inimigos!
22. Do Eterno espero a vossa libertação, espero que do Santo me venha a alegria, pela misericórdia que breve vos será concedida pelo Eterno, vosso Salvador.
23. Entre lágrimas e coberta de luto deixei-vos partir… Deus, porém, vos devolverá a mim para uma eterna alegria,
24. porque as vizinhas de Sião, que viram a vossa deportação, verão em breve Deus conceder-vos a libertação, seguida de imensa glória e de fulgor emanando do Eterno.
25. Suportai, filhos meus, com paciência o golpe da cólera divina. Fostes perseguidos por vossos inimigos; em breve, porém, assistireis à sua ruína, e sobre suas cervizes poreis os pés.
26. Meus delicados filhos tiveram de andar por ásperos caminhos, acossados, qual rebanho roubado pelo inimigo.
27. Coragem, porém, meus filhos. Orai a Deus, pois aquele que vos feriu, lembrar-se-á de vós!
28. Quisestes apartar-vos de Deus; ponde agora dez vezes mais zelo em procurá-lo.
29. Porquanto, aquele que sobre vós precipitou a catástrofe conceder-vos-á, com a libertação, eterno regozijo.
30. Coragem, Jerusalém! Aquele que te deu o nome consolar-te-á.
31. Miseráveis os que te maltrataram, e que se regozijaram com tua ruína!
32. Miseráveis as cidades em que teus filhos conheceram a servidão, miserável aquela que conservou teus cativos!
33. Em verdade, assim como se regozijou com tua queda, e triunfou, quando de tua ruína, assim também vai gemer com a própria desolação.
34. Aniquilarei a altivez de sua numerosa população, e sua arrogância transformar-se-á em luto,
35. porque um fogo constante, vindo do Eterno, a atingirá e gênios maus vão persegui-la por muito tempo.
36. Jerusalém, volta o teu olhar para o oriente, vê a alegria que te vem de Deus.
37. Olha! Eis que voltam os filhos que viras partir. Chegam do oriente e do ocidente, à voz do Altíssimo, repletos da alegria que lhes dá a glória de Deus.

 
Capítulo 5

1. Tira, Jerusalém, a veste de luto e de miséria; reveste, para sempre, os adornos da glória divina.
2. Cobre-te com o manto da justiça que vem de Deus, e coloca sobre a cabeça o diadema da glória do Eterno.
3. Deus vai mostrar à terra, e sob todos os céus, teu esplendor.
4. Eis o nome que te é dado por Deus, para todo o sempre: Paz da Justiça e Esplendor do temor a Deus!
5. Ergue-te, Jerusalém, galga os cumes e olha para o oriente! Olha: ao chamado do Altíssimo, reúnem-se teus filhos, desde o poente ao levante, felizes por se haver Deus lembrado deles.
6. Quando de ti partiram, caminhavam a pé, arrastados pelos inimigos. Deus, porém, tos devolve, conduzidos com honras, quais príncipes reais,
7. porque Deus dispôs que sejam abaixados os montes e as colinas, e enchidos os vales para que se una o solo, para que Israel caminhe com segurança sob a glória divina.
8. As florestas e as árvores de suave fragrância darão sombra a Israel, por ordem do Senhor.
9. Em verdade, é o próprio Deus quem conduz Israel, pleno de júbilo no esplendor de sua majestade, pela sua justiça, pela sua misericórdia!

 
Capítulo 6

Cópia de uma carta dirigida por Jeremias aos prisioneiros que deviam ser deportados para Babilônia, pelo rei dos babilônios, para dar-lhes conta da mensagem que Deus o havia encarregado de transmitir.

1. É por causa dos pecados que cometestes contra Deus que ides deportados para Babilônia como prisioneiros, por Nabucodonosor, rei dos babilônios.
2. Quando chegardes a Babilônia, será para ficardes lá por muito tempo, durante longos anos, até sete gerações. Depois disso, porém, farei com que volteis em paz.
3. Ireis ver em Babilônia deuses de prata, ouro e madeira, deuses que são carregados aos ombros e que, não obstante, inspiram temor aos pagãos.
4. Quanto a vós, preveni-vos! Não imiteis esses estrangeiros, deixando que também o temor desses deuses se aposse de vós.
5. Quando virdes a multidão comprimir-se em torno deles para adorá-los, dizei no silêncio de vossos corações: É somente a vós, Senhor, que devemos adorar.
6. Porque meu anjo estará ao vosso lado, e poderia vingar-se na vossa vida.
7. A língua desses deuses é polida por um artista. Mas, apesar de dourados e prateados, são falsos e incapazes de falar.
8. Como se fora para uma donzela apaixonada por enfeites, eles pegam ouro
9. e confeccionam coroas para serem colocadas nas cabeças de suas divindades. Acontece, até, que os sacerdotes roubam o ouro e a prata para utilizá-los em proveito próprio,
10. ou para presentear prostitutas que mantêm em suas casas. Eles ataviam com lindas vestes, como se fossem homens (esses deuses) de prata, de ouro ou madeira,
11. enquanto estes nem mesmo são capazes de defender-se contra a ferrugem e os vermes. Vestem-nos de púrpura;
12. precisam, porém, tirar-lhes do rosto a poeira que neles se acumula.
13. Possui o deus um cetro como se fora governador de província; mas é incapaz de condenar à morte aqueles que contra ele se rebelam.
14. Ostenta na mão o machado e a espada, mas nem pode garantir-se contra um inimigo ou um ladrão. E disto se pode concluir que não são deuses. Não tendes por que temê-los.
15. Quando a ferramenta de um homem se quebra, perde a utilidade. Assim também acontece com seus deuses.
16. Se os colocardes num templo, enchem-se seus olhos da poeira erguida pelos pés dos visitantes.
17. Quando um homem ofende o rei, fecham-se atrás dele as portas da prisão, porque vai ser conduzido à morte. Assim os sacerdotes defendem os templos por meio de portas munidas de fechaduras e ferrolhos, a fim de impedir que ladrões venham roubar os deuses.
18. E acendem mais luzes do que eles mesmos precisam, enquanto que os deuses não podem vê-las,
19. porque são apenas quais vigas de seu templo, cujo coração está também corroído. E eles nem se apercebem dos vermes que fervilham no solo e que vêm devorá-los, assim como as suas vestes.
20. Escurece-lhes os rostos a fumaça que se desprende do templo.
21. Morcegos, andorinhas e outras aves esvoaçam em torno de seus corpos, e gatos saltam sobre eles.
22. De tudo isso podeis concluir que não são deuses, e que nenhum respeito lhes deveis.
23. O ouro que os reveste serve, sem dúvida, para embelezá-los mas, se não se polir o ouro, não brilham. E nem sentiram quando foram fundidos.
24. Foram comprados por preço exorbitante, quando neles nem sequer um sopro de vida existe.
25. Não possuindo pés, devem ser carregados aos ombros, revelando assim a todos a sua ignomínia. Bem mais, porém, seus servos deveriam envergonhar-se,
26. pois se algum deus vier a cair por terra, não poderá por si mesmo levantar-se; virá alguém repô-lo de pé, pois que é incapaz de qualquer movimento. E se o colocarem obliquamente, não poderá erguer-se. São como cadáveres ante as oferendas que lhes trazem.
27. Os sacerdotes, porém, vendem essas ofertas em proveito próprio, e suas mulheres as preparam, sem nada repartir com os pobres e os infelizes.
28. As mulheres em seu estado de impureza e que deram à luz tocam nesses sacrifícios. Portanto, bem podeis reconhecer que não são deuses. Não tenhais pois para com eles respeito algum.
29. Como poderiam eles ser chamados deuses? Pois há mulheres que tomam parte no culto desses ídolos de prata, de ouro e de madeira!
30. E nos seus templos, os sacerdotes assentam-se com as vestes rasgadas, descoberta a cabeça, cabelos e barbas raspados!
31. Gritam e clamam ante seus ídolos, como se fora no festim de um morto.
32. E roubam-lhes as vestimentas e com elas presenteiam suas mulheres e filhos.
33. São incapazes de retribuir, quer se lhes faça um bem ou um mal. Nem mesmo poderiam aclamar um rei ou destroná-lo.
34. Nem podem dar ricos presentes nem (a mais vil) moeda. Se alguém não cumprir os votos que lhes fez, nem podem protestar.
35. Tampouco lhes é dado proteger alguém da morte, como arrancar o fraco das mãos do mais forte.
36. Não possuem o poder de dar vista ao cego, nem de salvar alguém da miséria.
37. Não se compadecem da viúva e nenhum bem fazem ao órfão.
38. Quais pedras da montanha, são esses ídolos de madeira, dourada ou prateada, e seus servos deveriam envergonhar-se deles.
39. Como, pois, crer em tais deuses, e assim chamá-los?
40. Os próprios caldeus os afrontam. Quando se lhes apresenta um mudo, levam-no a Bel, suplicando-lhe que dê voz ao mudo, como se o deus pudesse ouvir alguma coisa.
41. E, embora saibam bem isso, não podem abster-se de assim agir, tão falhos que são de inteligência.
42. Mulheres, cingidas de corda, vão sentar-se à beira dos caminhos e aí fazem fumaça, queimando sementes.
43. Quando uma delas é levada por um transeunte e com ele dorme, zomba da vizinha por não haver recebido semelhante honra e não ter sido rompida a sua corda.
44. É apenas mentira tudo quanto se faz perante eles. Como se poderá, então, acreditar e proclamar que sejam deuses?
45. Foram confeccionados por artífices e ourives, e não poderiam ser diferentes do que o quiseram seus artífices.
46. E se estes não atingem idade avançada,
47. como poderia ser diferente a obra de suas mãos? Assim só deixam a seus descendentes engano e vergonha.
48. Sobrevenham guerras ou calamidades, e eis os sacerdotes a entrarem em conciliábulos a fim de saber aonde deverão ir ocultar-se com seus ídolos.
49. Como acreditar, então, que sejam deuses aqueles que são incapazes de se salvar da guerra ou de outra qualquer calamidade?
50. Mais tarde vir-se-á a saber que os ídolos de madeira dourada ou prateada são apenas engano. E aos olhos de todos os povos e de todos os reis tornar-se-á evidente que não são deuses, mas obras de mãos humanas, já que nada se encontra de divino neles.
51. Como, pois, poderá deixar de se tornar evidente que não são deuses?
52. Eles não podem entronizar um rei num país, nem dar chuva aos homens.
53. Nem sequer podem ainda julgar suas contendas, nem protegê-los contra os males (que lhes advenham), pois de nenhum poder dispõem, assemelhando-se a gralhas que esvoaçam entre o céu e a terra.
54. Se o fogo atinge o templo desses ídolos de madeira dourada ou prateada, seus sacerdotes procuram salvar-se, pondo-se ao abrigo, enquanto seus deuses são consumidos quais vigas no incêndio.
55. E não poderiam resistir nem a um rei nem aos inimigos. Como admitir, então, ou mesmo supor que possam ser tidos por deuses?
56. Esses deuses de madeira prateada e dourada nem mesmo podem defender-se contra os ladrões.
57. Mais fortes que eles, arrebatam-lhes o ouro e a prata e até as vestes de que foram cobertos, e se retiram sem que os deuses tenham podido defender-se a si mesmos.
58. Assim, melhor que a dos falsos deuses é a condição de um rei, que pode lançar mão de seu poder, ou a de um utensílio doméstico, do qual o dono pode servir-se, ou mesmo a da porta de uma casa, que protege o que dentro dela se encontra, ou ainda a da coluna de madeira no palácio real.
59. O sol, a lua e as estrelas, que brilham e se destinam à utilidade dos homens, obedecem de boa mente.
60. Assim também o relâmpago, tão belo ao faiscar; o vento que sopra sobre a terra
61. e as nuvens que recebem de Deus a ordem de percorrer toda a terra executam a missão que lhes foi imposta.
62. Quando o fogo é enviado do céu para consumir as florestas das montanhas, cumpre o que lhe foi ordenado. Nem a beleza, nem o poder dos ídolos podem igualar-se a essas maravilhas.
63. Eis por que não há motivo para crer nem proclamar que sejam deuses, já que não lhes é dado praticar a justiça junto aos homens nem lhes outorgar o bem.
64. Se admitis que não são deuses, não tenhais deles receio algum.
65. Eles não têm a faculdade de amaldiçoar os reis nem de abençoá-los.
66. Muito menos podem fazer com que no céu apareçam sinais aos pagãos; não brilham como o sol, nem alumiam como a lua.
67. Valem mais que eles os animais, pois, ao menos pela fuga, têm a faculdade de procurar a segurança num abrigo.
68. De maneira alguma, pois, se nos convence que eles sejam deuses. Por conseguinte, não os temais.
69. Assim como um espantalho em campo de pepinos, esses deuses de madeira dourada ou prateada de nada preservam.
70. Moita de espinhos num jardim, na qual vêm os pássaros pousar; cadáver lançado em lugar tenebroso, eis o que são esses deuses de madeira dourada e prateada.
71. Enfim, pela púrpura e pelo escarlate que sobre eles se desgastam pode-se reconhecer que não são deuses. Acabarão por ser devorados, e se tornarão desonra para sua nação.
72. Melhor é, portanto, a condição de um homem honesto que não tem ídolos, pois assim estará sempre isento de confusão.
 

Ezequiel

Ezequiel

 Capítulo 1

1. No trigésimo ano, no quinto dia do quarto mês, quando me encontrava entre os deportados, às margens do rio Cobar, abriram-se os céus e contemplei visões divinas.
2. No quinto dia do mês – era o quinto ano de cativeiro do rei Joaquin -
3. foi a palavra do Senhor dirigida ao sacerdote Ezequiel, filho de Buzi, na Caldéia, às margens do rio Cobar. Nesse lugar veio a mão do Senhor sobre mim.
4. Tive então uma visão: soprava do lado norte um vento impetuoso, uma espessa nuvem com um feixe de fogo resplandecente, e, no centro, saído do meio do fogo, algo que possuía um brilho vermelho.
5. Distinguia-se no centro a imagem de quatro seres que aparentavam possuir forma humana.
6. Cada um tinha quatro faces e quatro asas.
7. Suas pernas eram direitas e as plantas de seus pés se assemelhavam às do touro, e cintilavam como bronze polido.
8. De seus quatro lados mãos humanas saíam por debaixo de suas asas. Todos os quatro possuíam rostos, e asas.
9. Suas asas tocavam uma na outra. Quando se locomoviam, não se voltavam: cada um andava para a frente.
10. Quanto ao aspecto de seus rostos tinham todos eles figura humana, todos os quatro uma face de leão pela direita, todos os quatro uma face de touro pela esquerda, e todos os quatro uma face de águia.
11. Eis o que havia no tocante as suas faces. Suas asas estendiam-se para o alto; cada qual tinha duas asas que tocavam às dos outros, e duas que lhe cobriam o corpo.
12. Cada qual caminhava para a frente: iam para o lado aonde os impelia o espírito; não se voltavam quando iam andando.
13. No meio desses seres, divisava-se algo parecido com brasas incandescentes, como tochas que circulavam entre eles; e desse fogo que projetava uma luz deslumbrante, saíam relâmpagos.
14. Os seres ziguezagueavam como o raio.
15. Ora, enquanto contemplava esses seres vivos, divisei uma roda sobre a terra ao lado de cada um dos quatro.
16. O aspecto e a estrutura dessas rodas eram os de uma gema de Társis. Todas as quatro se assemelhavam, e pareciam construídas uma dentro da outra.
17. Podiam deslocar-se em quatro direções, sem retornar em seus movimentos.
18. Seus aros eram de uma altura assombrosa, guarnecidos de olhos em toda a circunferência.
19. Quando os seres vivos se deslocavam ou se erguiam da terra, locomoviam-se as rodas e se elevavam com eles.
20. Para onde os impulsionava o espírito. iam eles, e as rodas com eles se erguiam, pois o espírito do ser vivo (de igual modo) animava as rodas.
21. Quando caminhavam, elas se moviam; quando paravam, também elas interrompiam o curso; se se erguiam da terra, as rodas do mesmo modo se suspendiam, pois o espírito desses seres vivos estava (também) nas rodas.
22. Pairando acima desses seres, havia algo que se assemelhava a uma abóbada, límpida como cristal, estendida sobre suas cabeças.
23. Sob essa abóbada, alongavam-se as suas asas até se tocarem, tendo cada um (sempre) duas que lhe cobriam o corpo.
24. Eu escutava, quando eles caminhavam, o ruído de suas asas, semelhante ao barulho das grandes águas, à voz do Onipotente, um vozerio igual ao de um campo (de batalha).
25. Quando paravam, abaixavam as asas, e fazia-se um ruído acima da abóbada que ficava sobre as cabeças.
26. Acima dessa abóbada havia uma espécie de trono, semelhante a uma pedra de safira; e, bem no alto dessa espécie de trono, uma silhueta humana.
27. Vi que ela possuía um fulgor vermelho, como se houvesse sido banhada no fogo, desde o que parecia ser a sua cintura, para cima; enquanto que, para baixo, vi algo como fogo que esparzia clarões por todos os lados.
28. Como o arco-íris que aparece nas nuvens em dias de chuva, assim era o resplendor que a envolvia. Era esta visão a imagem da glória do Senhor.

 
Capítulo 2

1. Filho do homem, dizia-me, fica de pé, porque eu te falo!
2. Enquanto ela me falava, entrou o espírito em mim, e me fez ficar de pé; então ouvi aquele que me falava.
3. Filho do homem, dizia-me, envio-te aos israelitas, a essa nação de rebeldes, revoltada contra mim, a qual, do mesmo modo que seus pais, vem pecando contra mim até este dia.
4. É a esses filhos de testa dura e de coração insensível que te envio, para lhes dizer: oráculo do Senhor Javé.
5. Quer te ouçam ou não (pois é uma raça indomável), hão de ficar sabendo que há um profeta no meio deles!
6. Quanto a ti, filho do homem, não os temas, nem te arreceies dos seus intentos, conquanto estejas entre moitas de abrolhos e de espinhos e vivas entre escorpiões; não te deixes intimidar por suas palavras, nem te espantes com sua atitude, porque é uma raça rebelde.
7. Tu lhes transmitirás os meus oráculos, quer te dêem ouvidos ou não; é uma raça pertinaz.
8. E tu, filho do homem, escuta o que eu te digo: não sejas rebelde, como essa raça de rebelados. Abre a boca e come o que te vou dar.
9. Olhei e vi avançando para mim uma mão, que segurava um manuscrito enrolado,
10. que foi desdobrado diante de mim: estava coberto com escrita de um e de outro lado: eram cânticos de luto, de queixumes e de gemidos.

 
Capítulo 3

1. Filho do homem, falou-me, come o rolo que aqui está, e, em seguida, vai falar à casa de Israel.
2. Abri a boca, e ele mo fez engolir.
3. Filho do homem, falou-me, nutre o teu corpo, enche o teu estômago com o rolo que te dou. Então o comi, e era doce na boca, como o mel.
4. Em seguida, acrescentou: Filho do homem, vai até a casa de Israel para lhe transmitir as minhas palavras.
5. Não é a um povo de linguagem incompreensível, de linguagem bárbara que te envio, e sim aos israelitas;
6. não é a populações inumeráveis, de idioma incompreensível, de linguajar selvagem, cuja língua não compreenderias: eles te ouviriam, se eu te enviasse a eles;
7. mas a casa de Israel recusará escutar-te, porque eles não querem atender a mim! Pois, toda a casa de Israel nada mais é do que gente teimosa, de coração insensível.
8. Pois bem!, tornarei o teu semblante tão endurecido quanto o deles;
9. vou dar a teu rosto a rigidez do diamante, que é mais resistente que a rocha. Não os temas, pois, e não te deixes amedrontrar por causa deles, pois são uma raça de recalcitrantes.
10. Filho do homem, ajuntou ele, acolhe em teu coração, escuta com toda a atenção tudo quanto eu te disser.
11. Depois dirigir-te-ás a teus compatriotas exilados, para lhes falar. Dir-lhes-ás: oráculo do Senhor Javé – quer te escutem ou não.
12. Então o espírito se apoderou de mim e ouvi atrás de mim um vozerio de violento rumor. Bendita seja a glória do Senhor, onde ela repousar!
13. Ouvi o rumor do bater das asas dos seres vivos e o ruído de suas rodas ao lado deles, um barulho portentoso.
14. O espírito, a seguir, me transportou e me levou. Eu ia, com o coração repleto de amargura e furor, desde que a mão do Senhor havia pesado sobre mim.
15. Cheguei a Tel Abib, junto dos deportados que se haviam instalado às margens do Cobar, e ali fiquei sete dias no meio deles, em sombria estupefação.
16. Passados esses sete dias, a palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos:
17. filho do homem, estabeleço-te como sentinela na casa de Israel. Logo que escutares um oráculo saindo de minha boca, tu lho transmitirás de minha parte.
18. Se digo ao malévolo que ele vai morrer, e tu não o prevines e não lhe falas para pô-lo de sobreaviso devido ao seu péssimo proceder, de modo que ele possa viver, ele há de perecer por causa de seu delito, mas é a ti que pedirei conta do seu sangue.
19. Contudo, se depois de advertido por ti, não se corrigir da malícia e perversidade, ele perecerá por causa de seu pecado, enquanto tu hás de salvar a tua vida.
20. E, quando um justo abandonar a sua justiça para praticar o mal, e eu permitir diante dele algum tropeço, ele perecerá. Se não o advertires, ele morrerá por causa do seu delito, sem que sejam tomadas em conta as boas obras que anteriormente praticou, e é a ti que pedirei conta do seu sangue.
21. Ao contrário, se advertires ao justo que se abstenha do pecado, e ele não pecar, então ele viverá, graças à tua advertência, e tu, assim, terás salvo a tua vida.
22. A mão do Senhor veio ali sobre mim. Vamos, disse-me ele, vai à planície, onde te vou falar.
23. Pus-me então a caminho para a planície; e eis que a glória do Senhor lá estava, tal qual eu a havia contemplado às margens do Cobar. E caí com a face em terra.
24. Mas o espírito do Senhor entrou em mim para me pôr em pé, enquanto me falava o Senhor: Vai encerrar-te em tua casa.
25. Filho do homem, vão amarrar-te com cordas para que não possas mais ir ao meio deles.
26. Prenderei tua língua a teu paladar, de modo que o teu mutismo te impeça de repreendê-los, pois é uma raça de recalcitrantes.
27. Quando eu, porém, te falar, abrir-te-ei a boca, e lhes dirás: oráculo do Senhor Javé. Que escute então aquele que quiser escutar, e que não escute aquele que não o quiser, pois é uma raça de recalcitrantes.

 
Capítulo 4

1. Filho do homem, toma um tijolo, põe-no diante de ti, e desenha nele a cidade de Jerusalém.
2. Farás contra ela trabalhos de assédio, contra ela construirás terraços e trincheiras, estabelecerás campos e prepararás aríetes.
3. Tomarás em seguida uma frigideira de ferro, e a colocarás como uma muralha de ferro entre ti e a cidade. Em seguida voltarás contra ela a tua face; ela será atacada e farás então o assédio. Será isto um símbolo para a casa de Israel.
4. Deita-te sobre o lado esquerdo e toma sobre ti a iniqüidade da casa de Israel; todo o tempo em que ficares assim deitado levarás sua iniqüidade.
5. E eu fixo o número dos anos do seu pecado, segundo o número de dias que te concedo, trezentos e noventa dias, durante os quais carregarás a iniqüidade da casa de Israel.
6. Quando esse período estiver terminado, tu te deitarás sobre o lado direito, para de novo levar a iniqüidade da casa de Judá durante quarenta dias; cada dia que te concedo corresponde a um ano.
7. Voltarás a tua face e estenderás o teu braço nu para Jerusalém sitiada, profetizando contra ela.
8. Ligar-te-ei com cordas, para que não possas volver-te de um lado para o outro, até que tenhas chegado ao termo dos dias de tua reclusão.
9. Tomarás trigo, cevada, favas, lentilhas, milho e aveia, que guardarás num mesmo recipiente para fazeres o teu pão. É isso que comerás durante todo o tempo que estiveres deitado, ou seja, por trezentos e noventa dias.
10. O peso desse alimento que comerás por dia de vinte e quatro horas será de vinte siclos.
11. A ração de água que irás beber será reduzida a um sexto de hin por vinte e quatro horas.
12. Tomarás esse alimento sob a forma de torta de cevada, cozida em fogo de excrementos humanos, e à sua vista.
13. É assim, falou-me o Senhor, que comerão os israelitas os alimentos impuros por entre as nações onde eu os dispersar.
14. Ah! Senhor Javé, respondi, nunca estive manchado. Desde minha infância até hoje, jamais comi animal morto ou despedaçado; nenhuma carne impura entrou em minha boca.
15. Pois bem, me disse, eu te permito trocar os excrementos humanos por esterco de vaca, sobre o qual farás cozer o teu pão.
16. Em seguida ajuntou: Filho do homem, vou desesperar Jerusalém de fome. Aí se comerá, na angústia, um pão rigorosamente pesado, beber-se-á, no meio do assombro, uma água racionada,
17. e, na penúria de pão e água, virão a esmorecer uns e outros e perecerão por causa da sua iniqüidade.

 
Capítulo 5

1. E tu, filho do homem, toma uma navalha afiada, à maneira de navalha de barbeiro, e passa-a sobre a cabeça e na barba; em seguida colocarás numa balança os cabelos que houveres cortado.
2. Queimarás um terço no meio da cidade, logo que tiver decorrido o tempo do assédio; tomarás outro terço, e o cortarás com a espada, em derredor da cidade; o último terço, dispersá-lo-ás ao vento, e sacarei da espada contra eles.
3. Reservarás, entretanto, pequena quantidade que guardarás na dobra do teu manto,
4. mas guardarás ainda uma parte para arremessá-la ao fogo e queimá-la. É de lá que sairá a chama.
5. E dirás a toda a casa de Israel: oráculo do Senhor Javé. Trata-se de Jerusalém, que eu tinha situado em meio às nações, tendo em derredor os povos pagãos.
6. Ela porém se rebelou contra as minhas leis, com mais perversidade que as outras nações, e contra as minhas ordens com maior (violência) que os países vizinhos, pois rejeitaram os meus decretos e não seguiram as minhas prescrições.
7. Portanto, oráculo do Senhor Javé: já que vos mostrastes mais turbulentos que os pagãos, vossos vizinhos; já que não tendes observado as minhas leis, nem executado os meus preceitos, e nem seguido os costumes dos povos que vos circundam,
8. pois bem! – oráculo do Senhor – irei apoderar-me de ti à vista das nações, e com rigor procederei contra ti,
9. e, devido a tuas abominações, vou executar no meio de ti coisas como não fiz e como não hei jamais de fazer.
10. No teu meio, os pais devorarão os filhos e os filhos devorarão os pais. Contra ti hei de proceder com rigor, e a todo vento dispersarei o que de ti restar.
11. Por minha vida! – oráculo do Senhor Javé – já que manchaste o meu santuário com todas as tuas infâmias e todas as tuas abominações, eu também te arrasarei sem um gesto de consideração e piedade.
12. Um terço de tua população morrerá de peste ou perecerá de fome no interior dos muros, um terço tombará sob a espada ao teu redor; e o outro terço, que dispersarei por todos os ventos, desembainharei a espada contra ele.
13. Darei livre curso à minha cólera, saciarei o meu furor contra eles, e me vingarei. E cairão na conta, quando eu tiver saciado o meu furor contra eles, de que foi por zelo e afeição que o falei, eu, o Senhor.
14. Farei de ti uma desolação, uma infâmia entre as nações que te cercam, aos olhos de todos os transeuntes.
15. Serás presa dos opróbrios, objeto de vergonha, um exemplo e horror para os povos que te rodeiam, quando eu saciar contra ti a minha cólera ardente, com os castigos da minha ira (sou eu, o Senhor, que o digo),
16. quando eu dardejar contra vós as flechas funestas e mortais da fome (porque tornarei a fome cada vez mais rude, e vos privarei do pão),
17. quando contra ti enviar a fome e as feras que farão perecer teus filhos, quando passar a ti a peste sangrenta, e quando invocar sobre ti o gládio. Sou eu, o Senhor, que o digo.

 
Capítulo 6

1. A palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos:
2. Filho do homem, volta-te para as montanhas de Israel, e contra elas profere o oráculo
3. seguinte: montes de Israel, escutai a palavra do Senhor Javé. Eis o que diz o Senhor Javé às colinas, aos outeiros, aos ribeiros e aos vales: vou enviar contra vós a espada para destruir os vossos lugares altos.
4. Vossos altares serão demolidos, quebrados os vossos obeliscos; farei cair os vossos homens, transpassados a golpes diante dos vossos ídolos.
5. Sim, perante eles estenderei os cadáveres dos israelitas, espalharei todas as vossas ossadas em torno dos vossos altares.
6. Em todo lugar onde vos fixardes, hão de ser as vossas cidades despovoadas, e devastados os lugares altos, de sorte que os vossos altares serão saqueados, demolidos os vossos ídolos, quebrados, suprimidos; os vossos obeliscos, despedaçados, as vossas obras, aniquiladas.
7. No vosso meio tombarão homens traspassados de golpes, e sabereis que sou eu o Senhor.
8. Todavia, eu vos deixarei um resto quando vos tiver dispersado entre as nações. Os sobreviventes que escaparem ao massacre
9. se recordarão de mim em meio dos gentios, para onde tiverem sido deportados; quebrantarei o seu coração que se prostituiu longe de mim, e seus olhos, que se prostituíram com os ídolos. Eles cairão em si, desgostosos de suas práticas abomináveis;
10. compreenderão que sou eu o Senhor e não é em vão que os tenho ameaçado com essas calamidades.
11. Eis o que diz o Senhor Deus: bate palmas, tripudia, e dize: Ah! Ah! sobre todas as abominações perversas da casa de Israel, que irá perecer pela espada, fome e peste.
12. Aquele que se achar longe morrerá de peste, o que se achar próximo tombará pela espada; os sobreviventes sitiados perecerão de fome, porque contra eles saciarei o meu furor.
13. E saberão que sou eu o Senhor, quando os seus mortos estiverem estirados em meio aos seus ídolos, em torno dos seus altares, em todas as colinas elevadas, debaixo de todas as árvores verdejantes, debaixo de todos os terebintos frondosos, em todos os lugares onde ofereceram aos dolos o incenso de agradável odor.
14. Estenderei a mão contra eles e, por toda parte onde habitam, desolarei e devastarei a terra, desde o deserto até Ribla. E saberão que eu sou o Senhor.

 
Capítulo 7

1. A palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos:
2. filho do homem, oráculo do Senhor à terra de Israel: eis o fim. O fim vem para todos os quatro cantos da terra.
3. Chegou o fim para ti, vou desencadear contra ti a minha cólera, vou julgar-te de acordo com o teu procedimento e fazer cair sobre ti o peso de todas as tuas práticas abomináveis.
4. Não te tomarei em consideração, serei sem complacência, pedirei conta de teu proceder, e todos os teus horrores serão manifestos no teu meio. Então sabereis que sou eu o Senhor.
5. Eis o que diz o Senhor Javé: uma desgraça única! Eis que irá suceder: uma desgraça!
6. O fim se avizinha, o fim se aproxima, ele desperta para cair sobre ti; ei-lo!
7. Tua vez é chegada, habitante da terra! É vindo o momento, o dia está próximo; não há mais alegria sobre as montanhas; é o pânico.
8. Vou em breve desencadear o meu furor contra ti, fartar a minha cólera, julgar-te segundo o teu proceder; farei cair sobre ti o peso das tuas abominações.
9. Não te tomarei em consideração, serei implacável, pedirei conta de teu proceder, e todos os teus horrores serão manifestos no teu meio. Então sabereis que sou eu o Senhor que fere.
10. Eis o dia! Ei-lo que chega. Tua vez chegou. A vara floriu o orgulho produziu seus frutos!
11. a violência levantou-se com um cetro de impiedade: isso não vem deles, nem da multidão, nem da sua tropa, nem da sua magnificência.
12. Chegou o tempo o dia se aproxima! Que não se alegre o comprador, que não se aflija o vendedor, pois a cólera vai pesar sobre toda a multidão.
13. O vendedor não recuperará o que houver vendido, mesmo que esteja vivo, porque a visão contra toda a multidão não será revogada, e ninguém terá força de proteger a si mesmo, devido a seu pecado.
14. Soa a trombeta; está tudo pronto; mas ninguém marcha para o combate, porque o meu furor se desencadeia sobre toda a multidão.
15. Fora, a espada; dentro, a peste e a fome. Quem estiver no campo perecerá pela espada; o que se encontrar na cidade será devorado pela peste e pela fome.
16. Se alguns chegarem a se refugiar nas montanhas, gemerão como as pombas dos vales, cada qual por causa do seu pecado.
17. Todas as mãos cairão (desalentadas), todos os joelhos tremerão.
18. Revestir-se-ão de saco e tremerão como varas verdes! A vergonha transparecerá em todos os rostos e todas as cabeças serão raspadas.
19. Deitarão o dinheiro às ruas, seu ouro será como imundície; sua prata e seu ouro não poderão salvá-los no dia da cólera do Senhor. Não saberão eles nem comer à vontade nem encher o ventre, porque é lá que os farei cair no pecado.
20. Punham seu orgulho na beleza das suas jóias; fabricavam seus ídolos abomináveis; por isso farei deles objetos de repugnância.
21. Abandoná-los-ei à pilhagem, às mãos de estranhos e, devido à profanação, farei deles o espólio dos ímpios da terra.
22. Desviarei os olhos e será profanado o meu tesouro; bárbaros penetrarão aí para profaná-lo.
23. Prepara-te uma cadeia; pois a terra está repleta de crimes, e a cidade cheia de violências.
24. Farei vir também os mais bárbaros pagãos, que se apoderarão de todas as casas; porei termo ao orgulho dos poderosos, e os lugares santos serão profanados.
25. É a ruína que está chegando. Procurar-se-á salvação, sem que se possa encontrá-la.
26. Sobrevirão desastres sobre desastres, má nova sobre má nova. Pedir-se-ão oráculos ao profeta, faltará a lei para o sacerdote, e o conselho para os anciãos.
27. O rei há de pôr luto, ficará o príncipe cheio de consternação, tremerão as mãos dos homens do povo. Tratá-los-ei de conformidade com o proceder que levaram, julgá-los-ei conforme houverem merecido. Então saberão que sou o Senhor.

 
Capítulo 8

1. No sexto ano, no quinto dia do sexto mês, estava eu sentado em minha casa, com os anciãos de Judá, quando a mão do Senhor baixou sobre mim.
2. Olhei: enxerguei algo como uma silhueta humana. Abaixo do que parecia serem seus rins, era fogo e, desde os rins até o alto, havia um clarão vermelho.
3. Estendeu uma espécie de mão, e me agarrou pelos cachos dos cabelos. O espírito levantou-me entre o céu e a terra, e me levou a Jerusalém, em visões divinas, à entrada da porta interior que olha para o norte, lá onde se erige o ídolo que provoca o ciúme (do Senhor).
4. Lá se me manifestou a glória do Deus de Israel, tal como a visão que tive no vale.
5. E ele me disse: filho do homem, ergue os olhos para o norte. Levantei os olhos para o norte, e vi ao norte da porta do altar, à entrada, o ídolo que provoca o ciúme (do Senhor).
6. Filho do homem, disse-me, vês tu a abominação que praticam, como eles procedem na casa de Israel, para que eu me afaste do meu santuário? Verás, todavia, coisas muito mais graves.
7. Conduziu-me até a entrada do adro e, reparando, vi que havia um rombo no muro.
8. Filho do homem, disse-me ele, fura a muralha. Quando a furei, divisei uma porta.
9. Aproxima-te, diz ele, e contempla as horríveis abominações a que se entregam aqui.
10. Fui até ali para olhar: enxerguei aí toda espécie de imagens de répteis e de animais imundos e, pintados em volta da parede, todos os ídolos da casa de Israel.
11. Setenta anciãos da casa de Israel, entre os quais Jazanias, filho de Safã, se achavam de pé diante deles, segurando cada qual o seu turíbulo, do qual se elevava espessa nuvem de fumaça.
12. Filho do homem, disse-me ele, vês tu o que fazem os anciãos de Israel na obscuridade, cada um deles em sua câmara, guarnecida de ídolos, pensando que o Senhor não os vê, e que ele abandonou a terra?
13. E ajuntou: Verás ainda abominações mais graves que eles estão cometendo.
14. Conduziu-me, então, para a entrada da porta setentrional da casa do Senhor: mulheres estavam assentadas, chorando Tamuz.
15. Filho do homem, falou-me, tu viste? Verás ainda abominações piores do que estas.
16. Levou-me então ao interior do templo. À entrada do santuário do Senhor, entre o vestíbulo e o altar, avistei cerca de vinte e cinco homens, que, de costas para o santuário do Senhor, com a face voltada para o oriente, se prosternavam diante do sol.
17. Filho do homem, disse-me ele, vês isto? Não basta à casa de Judá entregar-se a esses ritos abomináveis que aqui se praticam? Haverá ainda ela de encher a terra de violência, e não cessará de me irritar? Ei-los que trazem o ramo ao nariz.
18. Está bem! Eu, de minha parte, procederei com furor, não terei condescendência, serei impiedoso. Inutilmente clamarão a meus ouvidos, não os ouvirei.

 
Capítulo 9

1. Depois ouvi gritar com voz forte: Aproximai-vos, vós, os guardas da cidade, trazendo cada um de vós o instrumento de destruição.
2. Surgiram então, do pórtico superior que olha para o norte, seis homens trazendo cada um na mão o instrumento de destruição. Encontrava-se no meio deles um personagem vestido de linho, trazendo à cintura um tinteiro de escriba. Entraram para se colocar de pé ao lado do altar de bronze.
3. Então a glória do Deus de Israel se elevou de cima do querubim, onde repousava, até a soleira do templo. Chamou o Senhor o homem vestido de linho, que trazia à cintura os instrumentos de escriba,
4. e lhe disse: Percorre a cidade, o centro de Jerusalém, e marca com uma cruz na fronte os que gemem e suspiram devido a tantas abominações que na cidade se cometem.
5. Depois, dirigindo-se aos outros em minha presença, disse-lhes: Percorrei a cidade, logo em seguida, e feri! Não tenhais consideração, nem piedade.
6. Velhos, jovens, moços, moças, crianças e mulheres, matai todos até o total extermínio; precavei-vos, todavia, de tocar em quem estiver assinalado por uma cruz. Começai por meu santuário. Começaram pelos anciãos que encontraram defronte ao templo,
7. Manchai o templo, disse-lhes, e enchei de cadáveres os adros; em seguida saí! E foram-se eles para prosseguir o morticínio na cidade.
8. Permanecendo só durante esse massacre, prostrei-me de face contra a terra, e gritei: Ah! Senhor Javé, ides exterminar o que resta de Israel, desencadeando vosso furor contra Jerusalém.
9. A falta de Israel e de Judá é grande, muito grande, respondeu-me: a terra transborda de sangue e a cidade extravasa de perversão, porque dizem entre eles: o Senhor abandonou a terra! O Senhor não enxerga mais nada!
10. Está bem! Eu, de minha parte, não terei complacência, mostrar-me-ei impiedoso, farei recair sobre a sua cabeça o peso de seu proceder.
11. Depois disso reapareceu o personagem vestido de linho, que trazia à cintura os instrumentos de escriba. Vinha prestar contas. Fiz o que me ordenastes.

 
Capítulo 10

1. Olhei. Na abóbada estendida acima da cabeça dos querubins, havia como que uma pedra de safira, uma espécie de trono, que aparecia sobre eles.
2. (O Senhor) disse então ao homem vestido de linho: Passa no meio das rodas, debaixo do querubim; enche a mão de carvões ardentes que tomarás entre os querubins, e espalha essas brasas sobre a cidade. E ele se foi sob as minhas vistas.
3. Quando o homem acabou de fazer isso, estavam os querubins à direita do templo, e a nuvem enchia o átrio interior.
4. A glória do Senhor elevou-se acima dos querubins até a soleira do templo, e enquanto o esplendor da glória do Senhor enchia o átrio, a nuvem invadia o templo.
5. O ruflar das asas dos querubins fazia-se ouvir até no pátio exterior, e assemelhava-se à voz do Deus onipotente quando fala.
6. Apenas havia ordenado ao homem de linho tomar o fogo no intervalo das rodas, entre os querubins, este veio postar-se junto de uma roda,
7. e (um dos) querubins estendeu a mão para o fogo que se encontrava em meio dos querubins. Daí ele retirou brasas, que colocou na mão do homem vestido de linho, o qual as tomou, e saiu.
8. Notei que os querubins pareciam ter mãos humanas sob as asas.
9. Eu olhei ainda. Havia ao lado dos querubins quatro rodas, uma junto a cada um deles. Possuíam o clarão da gema de Társis.
10. Todas as quatro pareciam ter a mesma forma, e cada uma parecia estar no meio da outra.
11. Deslocando-se nas quatro direções, avançavam sem se voltarem, porque iam sempre na direção tomada pela que ia à frente, sem se voltar em seu movimento.
12. Todo o seu corpo, suas costas, suas mãos e suas asas, assim como as rodas, achavam-se guarnecidas de olhos em derredor: cada um dos quatro possuía uma roda.
13. Ouvi que se dava a essas rodas o nome de turbilhão.
14. Cada um (dos querubins) tinha quatro faces: o primeiro, a de um querubim; o segundo, um aspecto humano; o terceiro, o de um touro, e o quarto o de uma águia.
15. Os querubins se elevaram (eram os seres vivos que eu tinha visto às margens do Cobar).
16. Quando os querubins se deslocavam, as rodas se deslocavam com eles; quando desdobravam as asas para elevar-se da terra, as rodas não se desprendiam deles.
17. Quando paravam, as rodas paravam; se se elevavam no espaço, elas de igual modo se elevavam, porque o espírito desses seres vivos estava (também) nelas.
18. De repente, a glória do Senhor deixou a soleira do templo e pousou sobre os querubins.
19. Estes desdobraram as asas, e eu os vi alçarem-se da terra com as rodas ao lado, para partirem. Eles pararam à entrada da porta oriental do templo, dominados pela glória do Senhor.
20. Estavam lá os seres vivos que eu tinha visto debaixo do Deus de Israel, às margens do Cobar, e reconheci os querubins:
21. cada um tinha quatro figuras e quatro asas, e sob as asas algo parecido com mãos humanas.
22. Suas figuras assemelhavam-se àquelas que eu tinha visto às margens do Cobar. Cada um deles ia para a frente diante de si.

 
Capítulo 11

1. O espírito arrebatou-me e transportou-me à porta oriental do templo do Senhor, a que olha para o Levante. Havia à entrada dessa porta vinte e cinco homens, entre os quais distingui Jazanias, filho de Azur, e Feltias, filho de Banaías, chefes do povo.
2. Filho do homem, falou-me o Senhor, são estes os maquinadores de perversidades, os difusores de maus conselhos nesta cidade,
3. que dizem: Não é agora o momento de reconstruir as nossas casas? Eis a panela e nós somos a carne.
4. Por causa disso, filho do homem, profetiza contra eles!
5. Então o espírito do Senhor apoderou-se de mim e disse-me: Fala: oráculo do Senhor: eis como falais, casa de Israel; mas eu conheço os pensamentos que vos sobem ao espírito.
6. Tendes feito crime sobre crime nesta cidade, tendes juncado suas ruas de cadáveres.
7. Eis por que diz o Senhor Javé: os mortos, cujos cadáveres tendes ocultado na cidade, são a carne e a cidade é a panela. Mas a vós eu vos farei sair.
8. Receais a espada; farei com que a espada venha sobre vós, oráculo do Senhor Javé.
9. Eu vos farei sair da cidade, atirar-vos-ei às mãos dos estrangeiros, e com rigor procederei contra vós.
10. Tombareis sob a espada, procederei com rigor contra vós, até os confins de Israel, e sabereis que sou eu, o Senhor.
11. Esta cidade não será para vós a panela, e dentro dela não estareis como carne: até os confins de Israel vos hei de julgar.
12. E conhecereis que sou eu o Senhor, cujas leis não observais, nem praticais as minhas ordens, pois imitais os costumes dos povos que vos cercam.
13. Ora, enquanto eu profetizava, Feltias, filho de Banaías, caiu morto. Então, prostrado com a face em terra, clamei: Ah! Senhor Javé, ides aniquilar o que resta de Israel?
14. A palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos:
15. filho do homem: é dos teus irmãos, dos teus parentes, da casa de Israel toda que os habitantes de Jerusalém dizem: ei-los longe do Senhor! É a nós efetivamente que pertence esta terra.
16. Dize-lhes então: eis o que diz o Senhor Javé: eu os tenho lançado para longe entre as nações, e os dispersei em diversos países, e lhes tenho sido, por pouco tempo, um santuário nos países para onde foram.
17. Por isso lhes digo: eis o que diz o Senhor Javé: eu vos reunirei dentre as nações e vos recolherei dos países onde vos achais dispersos, para vos fazer retornar à terra de Israel.
18. Quando houverem reentrado e extirpado os ídolos e objetos abomináveis,
19. eu lhes darei um só coração e os animarei com um espírito novo: extrairei do seu corpo o coração de pedra, para substituí-lo por um coração de carne,
20. a fim de que observem as minhas leis, guardem e pratiquem os meus mandamentos, sejam o meu povo e eu o seu Deus.
21. Quanto àqueles que têm o coração apegado aos ídolos e às suas práticas abomináveis, farei pesar sobre suas cabeças o peso de seu proceder – oráculo do Senhor Javé.
22. Nesse momento, os querubins desdobraram as asas, e as rodas se puseram em movimento com eles, enquanto a glória do Deus de Israel sobre eles repousava.
23. A glória do Senhor, elevando-se então no interior da cidade foi parar sobre a montanha que está do lado oriental da cidade.
24. Em seguida o espírito arrebatou-me e conduziu-me à Caldéia, em visão, pelo espírito de Deus, junto dos exilados. Então se esvaiu a visão que eu havia contemplado;
25. e eu contei aos exilados tudo quanto o Senhor me tinha feito ver.

 
Capítulo 12

1. A palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos:
2. filho do homem, habitas em meio de uma casta de recalcitrantes, de gente que tem olhos para ver e não vê nada, ouvidos para escutar, a nada ouve; é uma raça de recalcitrantes.
3. Pois bem, filho do homem, prepara-te uma bagagem de emigrante, e parte, em pleno dia, sob os seus olhos. Parte sob os olhos deles, do lugar onde habitas para outro local. Talvez reconheçam que são eles um bando de recalcitrantes.
4. Prepararás os teus petrechos em pleno dia, sob os seus olhares, como um fardo de emigrante. E depois, à noite, sob os seus olhares, seguirás como um homem que parte para o exílio.
5. Ante as vistas deles, farás um buraco no muro, pelo qual farás passar o teu fardo.
6. À vista deles, o carregarás aos ombros e sairás, quando escurecer, a fronte velada, de modo que não vejas a pátria! Faço assim de ti um símbolo para a casa de Israel.
7. Fiz como me ordenara. Em pleno dia deixei os meus afazeres e preparei uma espécie de bagagem de emigrante; em seguida, à noite, furei a muralha, com minha própria mão; após isso, quando se fez noite, pus minha bagagem nos ombros, e saí à vista deles.
8. Logo ao amanhecer, a palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos:
9. filho do homem, a casa de Israel, esse bando de recalcitrantes, não te perguntou o que fazias lá?
10. Dize-lhes: eis o que diz o Senhor Javé: isto é um oráculo relativo ao príncipe que se acha em Jerusalém e a toda a casa de Israel, que ali se encontra.
11. Dirás: sou para vós um símbolo; assim como tenho feito, assim lhes há de suceder: irão para o exílio, deportados.
12. O príncipe, que está no meio deles, porá a bagagem às costas e sairá ao anoitecer; fará um buraco no muro para poder sair dele: cobrirá a face para não ver a pátria.
13. Mas eu lançarei sobre ele o meu laço e ele será apanhado em minhas redes. Eu o conduzirei à Babilônia, à terra dos caldeus; ele, porém, não a verá. É lá que terá de morrer.
14. Todo o seu séquito, sua guarda, suas tropas, eu os semearei aos (quatro) ventos e tirarei a espada contra eles.
15. Quando eu os tiver disseminado por entre as nações, e dispersado por todos os países, saberão que sou eu o Senhor.
16. Mas hei de poupar um resto deles; alguns hão de escapar ao gládio, à fome e à peste, para que venham a contar aos povos, entre os quais se estabelecerem, as abominações (de Israel). E conhecerão eles que sou eu o Senhor.
17. A palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos:
18. filho do homem, come o teu pão com tremor, bebe a tua água com (sinais de) inquietação e receio.
19. E dirás às gentes desta terra: eis o que diz o Senhor Javé para os habitantes de Jerusalém, e da terra de Israel. É na aflição que hão de comer o seu pão e no terror que beberão a sua água, porque a terra será despojada de tudo quanto nela se encontra, devido às violências dos seus habitantes.
20. As cidades habitadas serão despovoadas e a terra há de ser devastada. Sabereis assim que sou eu o Senhor.
21. A palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos:
22. filho do homem, que ditado é esse que corre em Israel: passam os dias, mas as visões ficam sem efeito?
23. Pois bem, dize-lhes: eis o que diz o Senhor: farei cessar esse provérbio, não se repetirá mais isso em Israel. Dize-lhes, pois: aproximam-se os dias em que todas essas visões se hão de cumprir.
24. Nenhuma visão daqui por diante será vã e nenhum oráculo, ineficaz em Israel,
25. porque sou eu, o Senhor, que falo: o que eu digo sucederá sem mais delongas. É em vosso tempo, raça de rebeldes, que proferirei o oráculo e o executarei – oráculo do Senhor Javé.
26. A palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos:
27. filho do homem, dizem os israelitas: a visão do profeta não diz respeito senão a um longínquo futuro. Pois bem, dize-lhes: eis o que diz o Senhor Javé: não há mais delongas para meus oráculos. O que eu digo vai acontecer, – oráculo do Senhor Javé.

 
Capítulo 13

1. A palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos:
2. filho do homem, profetiza contra os profetas israelitas que (pretendem) profetizar, dize àqueles que profetizam de sua própria cabeça: escutai a palavra do Senhor:
3. eis o que diz o Senhor Javé: ai dos profetas insensatos que seguem sua própria inspiração sem terem tido (realmente) visão alguma.
4. Assim como chacais nos esconderijos, tais são os teus profetas, ó Israel.
5. Não subistes por sobre as brechas para refazer um muro à casa de Israel, a fim de poder estar seguro no combate no dia do Senhor.
6. Vêem só visões disparatadas, só fazem predições enganosas, eles que dizem: oráculo do Senhor! quando o Senhor não os enviou; e, todavia, esperam a realização de sua palavra.
7. Não é verdade que não tendes senão visões ineptas e não fazeis senão predições enganadoras, quando dizeis: oráculo do Senhor, quando eu não falei coisa alguma?
8. E, por isso, eis o que diz o Senhor Javé: porque proferis oráculos enganadores e tendes visões mentirosas, eu vou castigar-vos – oráculo do Senhor Javé.
9. Estenderei minha mão contra esses profetas de visões ineptas e de oráculos enganadores. Não farão mais parte do conselho do meu povo, não serão inscritos no número da casa de Israel e não regressarão à terra de Israel. E saberão assim que sou eu o Senhor Javé.
10. Porquanto abusam do meu povo, dizendo: Tudo vai bem, quando tudo vai mal. Quando o meu povo constrói um muro, ei-los a cobrirem-no de gesso.
11. Dize pois àqueles que põem esse gesso: este muro vai cair. Vai haver um aguaceiro, vai cair saraiva grossa, vai desencadear-se uma tempestade;
12. e o muro vai rachar. Então, se vos dirá: onde está o reboco de gesso que amassastes?
13. Pois bem! Eis o que diz o Senhor Javé: em minha indignação, desencadearei um furacão, em minha cólera, vou mandar uma tempestade, em meu furor de destruição, farei cair granizo.
14. Abaterei assim o muro que emboçastes, pô-lo-ei abaixo, desnudá-lo-ei até as suas fundações. Ele desmoronará e perecereis no meio dos (escombros). Sabereis assim que sou o Senhor.
15. Quando houver saciado o meu furor contra o muro e contra aqueles que o tiverem rebocado de gesso, direi: nada de muro! Desapareceram aqueles que o rebocaram,
16. esses profetas israelitas que profetizavam sobre Jerusalém e tinham para ela visões de bem-estar quando tudo ia mal! – oráculo do Senhor Javé.
17. Tu, filho do homem, volta-te agora para as filhas do teu povo que profetizam de sua própria cabeça, e pronuncia contra elas
18. o oráculo seguinte: eis o que diz o Senhor Javé: ai daquelas que cosem faixas para todos os punhos, que confeccionam véus para as cabeças de todos os tamanhos, com o fito de fazerem caça às almas. Como?! Capturais as almas do meu povo, enquanto vós conservais em vida vossas próprias almas!
19. Vós me aviltais perante o meu povo por alguns punhados de cevada e uns pedaços de pão, fazendo perecer vidas que não deveriam morrer, e dando vida a quem não deveria viver. Assim, enganais o meu povo, que não quer senão ouvir fábulas.
20. Eis por que diz o Senhor: vou contra as ligaduras de que vos servis para dar caça às almas: eu as arrancarei de vossos braços e darei vôo às almas que, como pássaros, apanhastes na armadilha.
21. Rasgarei do mesmo modo os vossos véus e livrarei o meu povo de vossas mãos, a fim de que deixem de ser presa em vossas mãos. E sabereis assim que eu sou o Senhor.
22. Porque vós abateis a coragem do justo com vossas mentiras, enquanto eu não o abato, porque encorajais o ímpio a não renunciar ao seu caminho perverso para não reencontrar a vida,
23. já não tereis essas visões tolas e não mais proferireis oráculos. Libertarei o meu povo de vossas mãos, e sabereis que eu sou o Senhor.

 
Capítulo 14

1. Vieram à minha procura alguns anciãos de Israel, e se assentaram junto de mim.
2. A palavra do Senhor foi-me então dirigida nestes termos:
3. filho do homem, esses homens têm os ídolos instalados no coração, e eles têm constantemente diante dos olhos o que os leva a cair no pecado. É preciso deixar-me consultar por eles?
4. Pois bem, fala-lhes e anuncia-lhes: eis o que diz o Senhor Javé: se acontecer a um israelita, que tem ídolos instalados no coração e conserva diante dos olhos o que o faz cair no pecado, vir ter com um profeta, sou eu, o Senhor, que lhe responderei pessoalmente segundo a multidão dos seus ídolos,
5. a fim de atingir no coração essa casa de Israel que, por amor aos seus ídolos, se tem afastado de mim.
6. Por isso diz à casa de Israel: eis o que diz o Senhor Javé: retornai! Renunciai a vossos ídolos, deixai de vez todas as vossas práticas abomináveis.
7. Se efetivamente sucede a algum israelita ou, também, a algum estrangeiro que more em Israel afastar-se de mim e instalar ídolos no coração, conservando diante dos olhos o que o faz cair no pecado, e depois se dirigir a um profeta para me consultar por seu ministério,
8. sou eu, o Senhor, que hei de responder contra esse homem; farei dele um exemplo que se há de tornar proverbial, porque o eliminarei do meu povo, e sabereis por essa forma que eu sou o Senhor.
9. E, se o profeta se deixar seduzir e proferir um oráculo, é que eu, o Senhor, o terei seduzido; estenderei a mão contra ele e o farei seduzir; contra ele estenderei a mão, e o farei desaparecer do meio do meu povo de Israel.
10. Carregarão o peso da sua falta, tanto o consulente como o profeta,
11. a fim de que a casa de Israel não se afaste para longe de mim, e não se manche por causa de todos os seus delitos. Então eles serão o meu povo e eu serei o seu Deus – oráculo do Senhor Javé.
12. A palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos:
13. filho do homem, se uma terra pecasse contra mim por infidelidade e eu estendesse contra ela a mão, suprimindo-lhe o pão que fortifica, e a ela enviasse a fome exterminadora dos animais e dos homens,
14. ainda que houvesse nessa terra Noé, Daniel e Jó, esses três homens só salvariam a si próprios, devido à sua justiça – oráculo do Senhor Javé.
15. Se eu deixasse os animais ferozes percorrerem a terra para devorar as crianças e transformarem-na em deserto, onde ninguém, por temor dessas feras, ousasse passar,
16. e se esses três homens se encontrassem nessa terra – por minha vida! – oráculo do Senhor Javé -, eles não poderiam salvar nem seus filhos nem suas filhas; somente eles escapariam e a terra continuaria deserta.
17. Ou, se eu fizesse vir a espada sobre essa terra, dizendo: que a espada passe por aqui e corte indistintamente homens e animais,
18. e se esses três homens se encontrassem aí – por minha vida! – oráculo do Senhor Javé -, não poderiam eles salvar nem seus filhos nem suas filhas; somente eles seriam salvos.
19. Ou ainda, se eu enviasse a peste sobre essa terra, e fizesse cair sobre ela o meu furor no sangue, exterminando homens e feras,
20. e se Noé, Daniel e Jó se encontrassem aí – por minha vida! – oráculo do Senhor Javé -, não poderiam eles garantir por sua justiça nem seus filhos nem suas filhas, mas somente a sua própria vida.
21. Assim fala o Senhor Deus: mesmo que lance eu os meus quatro funestos flagelos – a espada, a fome, as feras e a peste – contra Jerusalém, para exterminar dela homens e animais,
22. subsistirão entretanto alguns sobreviventes, filhos e filhas, que sairão da cidade. Eis que eles virão até vós. Quando tiverdes visto seu proceder e seus atos, vós vos consolareis das calamidades que eu houver desencadeado contra Jerusalém, de tudo quanto eu lhe houver infligido,
23. Eles vos consolarão, quando houverdes observado o seu comportamento e seus atos: reconhecereis não ser sem motivo que eu tratei a cidade como fiz – oráculo do Senhor Javé.

 
Capítulo 15

1. A palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos:
2. filho do homem, a lenha da vinha por que valeria mais que a de galhos das outras árvores da floresta?
3. Toma-se dela para fazer um objeto? Faz-se mesmo uma cavilha para pendurar o que quer que seja?
4. Eis aí: mete-se no fogo para destruir. Quando o fogo consumir as duas extremidades, e queimar o meio, pode ainda servir para alguma coisa?
5. Quando ele estava intacto, não servia para objeto algum; consumido e queimado pelo fogo, ainda menos poderá servir para qualquer coisa.
6. Eis por que diz o Senhor Javé: assim como entre as árvores da floresta é a madeira da vide que eu lanço ao fogo para consumir, assim lançarei eu os habitantes de Jerusalém.
7. Voltarei contra eles a minha face. Fugirão ao fogo; o fogo, porém, os devorará. Saberão que eu sou o Senhor, quando eu voltar contra eles a minha face,
8. e transformar a terra num deserto, porque me têm sido infiéis – oráculo do Senhor Javé;

 
Capítulo 16

1. A palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos:
2. filho do homem, mostra a Jerusalém os seus crimes abomináveis.
3. Dir-lhe-ás: eis o que diz o Senhor Javé a respeito de Jerusalém: por tua origem e nascimento, pertences à terra de Canaã; teu pai foi um amorreu e tua mãe, uma hitita.
4. No dia do teu nascimento, teu cordão umbilical não foi cortado; não te banharam com água para te purificar, não te untaram com sal, nem te enfaixaram.
5. Ninguém se inclinou sobre ti para te prestar algum piedoso cuidado. No dia em que nasceste foste exposta em meio das campinas; só havia infortúnio para ti.
6. Passei junto de ti e te percebi banhada em teu sangue. Eu te gritei: vive (malgrado o teu sangue), vive (malgrado o teu sangue),
7. e eu te fiz multiplicar como a erva dos prados. Cresceste. Ficaste moça. Teus seios se formaram, veio-te o pêlo. Mas estavas nua, inteiramente nua.
8. Passando junto de ti, verifiquei que já havia chegado o teu tempo, o tempo dos amores. Estendi sobre ti o pano do meu manto, cobri tua nudez; depois fiz contigo uma aliança ligando-me a ti pelo juramento – oráculo do Senhor Javé – e tu me pertenceste.
9. Então eu te mergulhei na água para limpar o sangue de que estavas coberta, e te ungi com óleo.
10. Eu te vesti de tecidos bordados, calcei-te com sapatos de pele de golfinho, cingi-te com um cinto de fino linho e um véu de seda.
11. Ornei-te de adornos: braceletes nos teus pulsos, colares em teu pescoço,
12. um anel para o teu nariz, brincos para tuas orelhas, uma coroa magnífica para tua cabeça.
13. Teus ornatos eram de ouro, prata, com vestimentas de linho fino, de seda e panos bordados; teu alimento era trigo, mel e óleo. Cada vez mais bela, chegaste à dignidade real.
14. A reputação da tua beleza correu entre as nações, pois essa beleza era perfeita, graças ao esplendor que te havia eu preparado – oráculo do Senhor Javé.
15. Tu, porém, te fiaste na beleza, aproveitaste da tua fama para te prostituíres e ofereceste a tua sensualidade a todo transeunte, a quem te entregaste.
16. Tomaste tuas vestimentas para delas fazeres lugares altos para ti, ornados de panos de variegadas cores, e te deste à depravação, o que jamais deveria ter sucedido, e que te não sucederá jamais.
17. Tomaste as esplêndidas jóias feitas com o meu ouro e minha prata, jóias que eu te havia doado, e fabricaste com elas imagens humanas, com que te prostituíste,
18. cobriste-as com as tuas próprias vestes bordadas, e lhes ofereceste o meu óleo e os meus aromas.
19. O pão que eu te havia dado, a flor da farinha, o óleo e o mel com que te nutrias, deste-os em oferenda de agradável odor. Eis o que tens feito – oráculo do Senhor Javé.
20. Depois tomaste os teus filhos e tuas filhas, que para mim deste à luz e os ofereceste a eles para sua nutrição. Por acaso são poucas as tuas prostituições?
21. Degolaste os meus filhos e os fizeste passar pelo fogo em sua honra.
22. Em meio a todas essas depravações abomináveis, não te lembraste do tempo de tua juventude, quando estavas toda nua e te rolavas em teu sangue.
23. Para cúmulo de todas essas maldades – Ai! Ai de ti! Oráculo do Senhor -,
24. edificaste uma colina, um lugar alto em todas as encruzilhadas.
25. À entrada de cada rua erigiste um lugar alto, e desonraste a tua beleza, dando teu corpo a todos os que vinham, multiplicando as tuas depravações.
26. Tu te prostituíste com os egípcios, teus vizinhos de corpos vigorosos, e multiplicaste as prostituições para me irritar.
27. Mas eu estendi a mão contra ti; reduzi a tua porção, deixei-te à mercê das tuas inimigas, as filhas dos filisteus, envergonhadas elas próprias do teu infame proceder.
28. Tu te prostituíste também com os assírios, porque não estavas satisfeita, e ainda assim não te deste por saciada;
29. multiplicaste as tuas depravações no país dos mercadores, entre os caldeus, sem que, contudo, te tenhas fartado.
30. Como é frouxo o teu coração – oráculo do Senhor Javé -, para teres tido ali o comportamento de uma prostituta,
31. por teres construído um montículo em todas as encruzilhadas, e um lugar alto à entrada de todas as ruas, sem mesmo procurar um salário como meretriz.
32. Tens sido mulher adúltera que acolhe os estranhos em lugar do esposo.
33. A todas as prostitutas se dão presentes, mas tu fizeste brindes a todos os teus amantes, procedeste com largueza para que de todos os lados viessem prostituir-se contigo.
34. Tens sido o avesso das outras mulheres em tuas depravações: não te procuravam; eras tu que pagavas ao invés de receber, fazendo tudo ao contrário do que fazem as outras.
35. Em vista de tudo isto, luxuriosa, escuta o que diz o Senhor:
36. eis o que diz o Senhor Javé: por tua prata dilapidada, por tua nudez descoberta no decurso de tuas prostituições com os teus amantes e com os teus ídolos abomináveis, pelo sangue de teus filhos que lhes deste,
37. vou reunir todos os teus amantes com aquele a quem juraste amor, todos quantos amaste e todos que detestas-te, vou reuni-los contra ti de todos os lados, e perante eles descobrirei a tua nudez, a fim de que te contemplem totalmente.
38. Eu infligirei o castigo às adúlteras e às criminosas, e contra ti desencadearei meu furor e meus ciúmes.
39. Entregar-te-ei nas suas mãos; eles demolirão o teu montículo, abaterão o teu lugar alto; despojar-te-ão dos teus vestidos; levarão os teus ornatos e te deixarão nua e despojada.
40. Em seguida sublevarão contra ti a multidão: serás apedrejada e perecerás pela espada;
41. atearão fogo à tua casa e se fará juízo contra ti, aos olhos de uma multidão de mulheres; porei fim às tuas prostituições e não terás mais salário a dar.
42. Saciarei o meu furor contra ti e, quando tiveres deixado de ser objeto do meu zelo, eu me acalmarei, e minha cólera terminará.
43. Porque não te lembraste do tempo da tua mocidade, e tudo isso fizeste com o fito de provocar-me, vou fazer cair sobre tua cabeça o peso de teu proceder – oráculo do Senhor Javé -, a fim de que não ajuntes novos crimes às tuas abominações.
44. Todos os amigos de provérbios dirão a teu respeito: tal mãe, tal filha.
45. De fato és bem filha de tua mãe, que tomou aversão a seu marido e a seus filhos; és bem irmã de tuas irmãs, que tomaram aversão a seus maridos e a seus filhos. Tua mãe era uma hitita e teu pai, um amorreu.
46. Tua irmã mais velha é Samaria, que habita à esquerda com suas filhas; tua irmã mais moça é Sodoma, que habita com suas filhas à tua direita.
47. Ainda não estavas contente em seguir seu passo e em imitar seus horrores; era pouco! Foste mais longe que elas na corrupção.
48. Por minha vida – oráculo do Senhor Javé -, tua irmã Sodoma e suas filhas não fizeram o que fizeste tu e tuas filhas.
49. O crime da tua irmã Sodoma era este: opulência, glutoneria, indolência, ociosidade; eis como vivia ela, assim como suas filhas, sem tomar pela mão o miserável e o indigente.
50. Tornaram-se arrogantes e, sob os meus olhos, se entregaram à abominação; por isso eu as fiz desaparecer, como viste.
51. Quanto à Samaria, não cometeu ela a metade dos teus pecados, porque multiplicaste os teus crimes além dos seus e, por todas essas perversidades que cometeste, justificaste as tuas irmãs.
52. Carrega, pois, também tu, a vergonha das faltas pelas quais tu as justific