Livro de Judite

Livro de Judite

 Capítulo 1

1. Arfaxad, rei dos medos, submetera ao seu império um grande número de nações. Ele edificou uma fortaleza de pedras polidas, à qual deu o nome de Ecbátana.
2. Cercou-a de muralhas de setenta côvados de altura e trinta de largura, e pôs-lhe torres de cem côvados de altura.
3. Estas eram de forma quadrada, e seus lados estendiam-se por um espaço de vinte pés. As portas tinham uma altura proporcionada à das torres.
4. Ele gloriava-se do poder invencível do seu exército e da imponência de seus carros.
5. Ora, no décimo segundo ano de seu reinado, Nabucodonosor, que reinava sobre os assírios em Nínive, a grande cidade, fez guerra a Arfaxad, e venceu-o
6. na grande planície chamada Ragau. Aliaram-se-lhe todos os habitantes das regiões vizinhas do Tigre, do Eufrates e do Jadason, na planície de Erioc, rei dos eliceus.
7. Então engrandeceu-se o reino de Nabucodonosor e seu coração encheu-se de orgulho. Mandou emissários a todos os habitantes da Cilícia, de Damasco, do Líbano,
8. aos povos do Carmelo e de Cedar, aos galileus, na grande planície de Esdrelon,
9. aos habitantes de Samaria e aos povos de além do Jordão até Jerusalém, a toda a terra de Gessém e até aos confins da Etiópia.
10. A todos esses povos enviou Nabucodonosor emissários,
11. mas todos protestaram unanimemente e os despediram de mãos vazias, chegando até a expulsá-los com desprezo.
12. À vista disso, encheu-se de cólera o rei Nabucodonosor contra todos esses povos, e jurou pelo seu trono e pelo seu reino que havia de tomar vingança de todos eles.

 
Capítulo 2

1. No décimo terceiro ano do rei Nabucodonosor, no vigésimo segundo dia do primeiro mês, foi tomada na casa de Nabucodonosor, rei dos assírios, a decisão de que ele se vingaria.
2. Convocou todos os anciãos, todos os seus chefes e guerreiros, e teve com eles um conselho secreto, no qual
3. revelou-lhes o seu desígnio de submeter toda a terra ao seu império.
4. Tendo a sua proposta agradado à assembléia, o rei Nabucodonosor ordenou a Holofernes, marechal do seu exército,
5. dizendo: Vai contra todos os reinos do ocidente, principalmente contra aqueles que desprezaram a minha ordem.
6. Ferirás a todos sem consideração alguma e me sujeitarás todas as fortalezas.
7. Holofernes convocou os generais e oficiais do exército assírio e contou os efetivos da expedição, conforme a ordem do rei: havia cento e vinte mil soldados de infantaria e doze mil frecheiros a cavalo.
8. Mandou adiante do seu exército uma multidão de camelos com provisões abundantes para as tropas, e inumeráveis rebanhos de bois e de cordeiros.
9. Ordenou que em toda a Síria se preparasse trigo para quando ele passasse.
10. Levou também grande quantidade de ouro e de prata do tesouro real.
11. Pôs-se a caminho com todo o exército, com os carros, os cavaleiros e os frecheiros, que se espalharam pela terra como gafanhotos.
12. Atravessou as fronteiras da Assíria e chegou às grandes montanhas de Ange, que ficam ao norte da Cilícia. Penetrou em todos os seus fortes e apoderou-se de todos os seus bens.
13. Tomou de assalto a célebre cidade de Melitene, e saqueou todos os filhos de Társis e os filhos de Ismael, que habitavam defronte do deserto, ao sul da terra de Celon.
14. Passando o Eufrates pela segunda vez, penetrou na Mesopotâmia e arrasou todas as fortalezas do país, desde a torrente de Caboras até o mar.
15. Em seguida, apossou-se de todas as regiões (que marginam o Eufrates), desde a Cilícia até a terra de Jafet, que se estende para o sul.
16. Levou consigo todos os madianitas, saqueou todas as suas riquezas e passou ao fio da espada todos os que lhe opunham resistência.
17. Depois desceu às planícies de Damasco no tempo da colheita, queimou todas as colheitas e cortou todas as árvores e as vinhas.
18. Tornou-se, assim, objeto de terror para todos os habitantes da terra.

 
Capítulo 3

1. Então os reis e os príncipes de todas as cidades e de todas as províncias, da Síria, da Mesopotâmia, da Síria de Sobal, da Líbia e da Cilícia, enviaram seus delegados a Holofernes para lhe dizerem:
2. Cessa a tua indignação contra nós; é melhor que vivamos servindo o grande rei Nabucodonosor, e submetendo-nos a ti, do que morrermos, depois de havermos sofrido, além da nossa perda, os males da escravidão.
3. Eis aí todas as nossas cidades, todas as nossas possessões, todas as nossas montanhas e colinas, nossos campos, nosso gado, nossos rebanhos de cordeiros e de cabras, nossos cavalos e nossos camelos, todos os nossos bens e nossas famílias.
4. Tudo o que nos pertence depende de ora em diante de ti.
5. Somos teus escravos, nós e nossos filhos.
6. Vem a nós como um senhor pacífico e emprega os nossos serviços como te parecer melhor.
7. Holofernes desceu então das montanhas com suas poderosas forças de cavalaria e apoderou-se de todas as cidades e de todos os habitantes do país.
8. Levou de todas as cidades, para suas tropas auxiliares, homens valentes e escolhidos para a guerra.
9. Era tão grande o terror daquelas províncias, que os principais e os magistrados de todas as cidades saíam com o povo ao seu encontro,
10. e o acolhiam com coroas e archotes, dançando ao som dos tamborins e das flautas.
11. Mas não conseguiram apesar disso abrandar a ferocidade daquele coração.
12. Ele destruiu as suas cidades, e cortou os seus troncos sagrados.
13. Pois Nabucodonosor havia-lhe ordenado que exterminasse todos os deuses da terra, para que só ele fosse chamado deus por todas as nações que lhe conquistasse o poder de Holofernes.
14. Ele, atravessando a Síria de Sobal, toda a Apaméia e toda a Mesopotâmia, chegou aos idumeus, na terra de Gabaa.
15. Depois de haver conquistado suas cidades, fez ali uma parada de trinta dias, durante os quais juntou todas as forças de seu exército.

 
Capítulo 4

1. Ouvindo isso, os israelitas de Judá ficaram muito alarmados com a aproximação (de Holofernes).
2. O medo e o terror apoderaram-se deles, temendo que ele fizesse a Jerusalém e ao templo do Senhor o mesmo que ele fizera às outras cidades e aos seus templos.
3. Mandaram mensageiros por toda a Samaria e seus arredores até Jericó, e ocuparam todos os cumes dos montes.
4. Cercaram de muros todas as suas cidades e armazenaram trigo para poderem sustentar o combate.
5. De seu lado, o sumo sacerdote Eliacim escreveu a todos os que habitavam defronte de Esdrelon, que está fronteira à grande planície vizinha de Dotain, e a todos os das terras pelas quais havia passagens,
6. pedindo-lhes que ocupassem as vertentes montanhosas que davam acesso a Jerusalém, e que pusessem guarnições nos desfiladeiros por onde se pudesse passar.
7. Os israelitas executaram todas as ordens de Eliacim, sacerdote do Senhor.
8. Todo o povo orou fervorosamente ao Senhor; humilharam suas almas com jejuns e orações, eles e suas mulheres.
9. Os sacerdotes vestiram-se de cilício, as crianças prostraram-se diante do templo do Senhor, e cobriu-se o altar do Senhor com um cilício.
10. Unidos de coração e de alma, clamaram ao Senhor que não entregasse seus filhos à rapina do vencedor, suas mulheres à devassidão, suas cidades ao extermínio, seu templo à profanação, e não permitisse que eles próprios se tornassem o opróbrio das nações pagãs.
11. Eliacim, sumo sacerdote do Senhor, percorreu então todo o país de Israel e falou ao povo
12. nestes termos: Estai certos de que o Senhor vos ouvirá, se perseverardes jejuando e orando em sua presença.
13. Lembrai-vos de Moisés, servo do Senhor: Amalec, que confiava em sua força, em seu poder, em seu exército, em seus escudos, em seus carros e cavaleiros, foi derrotado por ele, não com a força das armas, mas com o poder da santa oração.
14. Isso mesmo acontecerá a todos os inimigos de Israel, se perseverardes na obra que começastes.
15. Com tais exortações, os israelitas puseram-se a orar diante do Senhor;
16. mesmo aqueles que ofereciam holocaustos ao Senhor, faziam-no revestidos de sacos e com a cabeça coberta de cinzas.
17. E todos rogavam a Deus, de todo o seu coração, que visitasse o seu povo de Israel.

 
Capítulo 5

1. Holofernes, marechal do exército assírio, foi avisado de que os israelitas se dispunham à resistência e que haviam bloqueado as passagens dos montes.
2. Explodiu então a sua cólera, e, cheio de furor, convocou os príncipes de Moab e os generais dos amonitas e disse-lhes:
3. Dizei-me quem é esse povo que ocupa as montanhas; quais as suas cidades, a sua força, o seu número; qual o poder e o efetivo de seu exército, quem é o seu chefe,
4. e por que motivo foi ele o único dentre todos os povos do oriente que nos desprezou, recusando-se a sair ao nosso encontro para receber-nos pacificamente.
5. Aquior, chefe dos amonitas, respondeu-lhe: Meu senhor, se te dignas ouvir-me, dir-te-ei a verdade acerca desse povo que habita nos montes, e nenhuma mentira sairá de minha boca.
6. Esse povo é da raça dos caldeus;
7. habitaram primeiramente na Mesopotâmia, porque recusavam seguir os deuses de seus pais que estavam na Caldéia.
8. Abandonaram os ritos de seus ancestrais que honravam múltiplas divindades,
9. e passaram a adorar o Deus único do céu, o qual lhes ordenou que saíssem daquele país e fossem estabelecer-se na terra de Canaã. Depois disso sobreveio a toda a terra uma grande fome, e desceram ao Egito onde, durante quatrocentos anos, multiplicaram-se de tal forma que se tornaram uma multidão inumerável.
10. Oprimidos pelo rei do Egito, e obrigados a trabalhar na fabricação de tijolos e de argamassa para a construção de suas cidades, clamaram ao seu Senhor, e este feriu toda a terra do Egito com vários flagelos.
11. A praga cessou, quando os egípcios os expulsaram de sua terra; mas quiseram retomá-los para sujeitá-los de novo à escravidão.
12. Eles fugiram. O Deus do céu abriu-lhes o mar de tal modo que as águas tornaram-se de cada lado sólidas como um muro, e eles atravessaram a pé enxuto pelo fundo do mar.
13. Entretanto, vindo em sua perseguição o inumerável exército dos egípcios, foi de tal maneira envolvido pelas águas que não escapou um sequer que pudesse contar à posteridade o acontecimento.
14. Ao sair do mar Vermelho, ocuparam os desertos do monte Sinai, onde nunca homem algum pôde habitar, nem um ser humano se fixar.
15. Ali, tornaram-se-lhes doces e potáveis as fontes amargas, e por espaço de quarenta anos receberam um alimento vindo do céu.
16. Por toda parte onde entraram sem arco e sem flecha, sem escudos e sem espada, Deus combateu por eles e venceu.
17. Ninguém jamais pôde insultar esse povo, a não ser quando ele se afastou do culto do Senhor, seu Deus.
18. Mas sempre que, ao lado de seu Deus, eles adoravam um outro, logo eram entregues à pilhagem, à espada e à vergonha.
19. E todas as vezes que se arrependiam de ter abandonado o culto do seu Deus, o Deus do céu dava-lhes força para resistir.
20. Finalmente, derrotaram os reis cananeus, jebuseus, fereseus, hiteus, heveus, amorreus e todos os valentes de Hesebon, e tomaram posse de suas terras e de suas cidades.
21. Enquanto não pecavam na presença de seu Deus, eram bem sucedidos, porque o seu Deus odeia a iniqüidade.
22. Há alguns anos, com efeito, tendo-se afastado da via em que Deus lhes ordenara caminhar, foram derrotados nos combates contra várias nações, e muitos dentre eles levados para o cativeiro.
23. Mas converteram-se de novo ao Senhor, seu Deus, e depois dessa dispersão acham-se reunidos desde há pouco: retomaram a posse de suas montanhas e de Jerusalém onde está seu santuário.
24. Agora, pois, meu senhor, informa-te se esse povo cometeu alguma iniqüidade na presença de seu Deus, e então subamos e o ataquemos, porque o seu Deus os entregará nas tuas mãos, e ficarão sujeitos ao teu poder.
25. Mas se esse povo não está manchado de nenhuma ofensa para com o seu Deus, não o poderemos enfrentar, porque o seu Deus o defenderá e seremos o opróbrio de toda a terra.
26. Calando-se Aquior, todos os grandes de Holofernes se indignaram e queriam matá-lo.
27. E diziam entre si: Quem é esse homem que pretende que os israelitas possam resistir ao rei Nabucodonosor e ao seu exército, sendo eles homens sem armas, sem força e ignorantes da estratégia?
28. Para mostrarmos a Aquior que ele nos engana, vamos às montanhas, e, quando tivermos capturado seus príncipes, passá-lo-emos com eles ao fio da espada.
29. É preciso que toda a nação saiba que Nabucodonosor é o deus da terra, e que não há outro fora dele.

 
Capítulo 6

1. A estas palavras, Holofernes encolerizou-se e disse a Aquior:
2. Já que nos predisseste que a nação de Israel será defendida por seu Deus, vou mostrar-te que não há outro deus fora de Nabucodonosor:
3. quando os tivermos ferido a todos como a um só homem, perecerás tu também com eles pela espada dos assírios, e todo o Israel desaparecerá contigo.
4. Assim aprenderás que Nabucodonosor é o Senhor de toda a terra. A espada de meus soldados entrar-te-á pelos flancos e cairás transpassado no meio dos feridos de Israel; não respirarás mais, senão para ser exterminado com eles.
5. Se crês na verdade de tua profecia, não desanimes; muda a palidez de tua face, se pensas que minhas palavras não se podem realizar.
6. E para que saibas que terás a mesma sorte que eles, serás desde já associado a esse povo, a fim de sofreres com eles os golpes de minha vingança, quando minha espada infligir-lhes o castigo que merecem.
7. Então Holofernes ordenou aos seus homens que prendessem Aquior e o levassem a Betúlia para entregá-lo nas mãos dos israelitas.
8. Os escravos de Holofernes tomaram-no e se foram através da planície. Ao se aproximarem dos montes, porém, saíram contra eles os atiradores de funda,
9. e eles desviaram-se para os lados da montanha, onde ataram Aquior a uma árvore pelas mãos e pés. Abandonaram-no ali amarrado, e voltaram para o seu senhor.
10. Ora, os israelitas que desciam de Betúlia encontraram-no e, soltando-o, levaram-no para a cidade. Puseram-no no meio do povo e perguntaram-lhe o motivo por que os assírios o deixaram amarrado.
11. (Naquele tempo, Betúlia era governada por Ozias, filho de Mica, da tribo de Simeão, e por Carmi, também chamado Gotoniel).
12. E, estando no meio dos anciãos e em presença de todo o povo, Aquior contou tudo o que tinha respondido quando Holofernes o interrogara, e como a gente de Holofernes quis matá-lo por ter ele falado assim;
13. e como Holofernes, encolerizado, ordenara que ele fosse por esse motivo entregue aos israelitas, a fim de que, após a vitória sobre eles, ele fizesse perecer também Aquior com diversos suplícios, porque ele dissera que o Deus do céu era o defensor de Israel.
14. Após essa narração de Aquior, todo o povo se prostrou com o rosto por terra em adoração diante do Senhor, e todos, unidos de coração, oraram ao Senhor com gemidos e prantos:
15. Senhor, disseram eles, Deus do céu e da terra, vede o seu orgulho e olhai para a nossa humilhação. Lançai os vossos olhos sobre os vossos fiéis; mostrai que não abandonais aqueles que confiam em vós, mas que humilhais os que presumem de si mesmos e se gloriam do seu poder.
16. Acabada a lamentação, e terminada a prece do povo, que durou um dia todo, encorajaram Aquior, dizendo:
17. O Deus de nossos pais, cujo poder proclamaste, conceder-te-á a recompensa de veres tu a ruína deles.
18. Quando o Senhor nosso Deus tiver livrado os seus servos, que ele esteja também contigo no meio de nós, a fim de que vivas, tu e os teus, conosco, como for do teu agrado.
19. Então Ozias, despedida a assembléia, recebeu Aquior em sua casa e ofereceu-lhe uma grande ceia.
20. E foram convidados a ela todos os anciãos, (pois já) tinha terminado o jejum, e comeram juntos alegremente.
21. Depois foi convocado todo o povo e oraram durante toda a noite no lugar onde estavam reunidos, pedindo socorro ao Deus de Israel.

 
Capítulo 7

1. No dia seguinte, Holofernes ordenou às suas tropas que tomassem de assalto Betúlia.
2. Havia cento e vinte mil soldados de infantaria e vinte e dois mil cavaleiros, além dos homens de armas que tinha aprisionado e dos jovens que havia levado das províncias e das cidades.
3. Prepararam-se todos para combater contra os israelitas e partiram pela encosta da montanha até o cume que olha para Dotain, desde o lugar chamado Belma até Quelmon, que está fronteiro a Esdrelon.
4. Quando os israelitas viram aquela multidão, prostraram-se por terra e cobriram de cinzas as suas cabeças, orando em comum ao Deus de Israel para que fizesse misericórdia ao seu povo.
5. Tomando então as suas armas de guerra, postaram-se nos lugares em que caminhos estreitos conduziam às passagens entre os montes, e ali montaram guarda noite e dia.
6. Entretanto, ao fazer uma ronda pelos arredores, Holofernes descobriu ao sul da cidade a fonte que a abastecia por meio de um aqueduto, e mandou cortá-lo.
7. Havia, entretanto, não longe dos muros, algumas fontes aonde iam furtivamente os sitiados buscar água, mais para aliviar um pouco a sede que para beber.
8. Então os amonitas e os moabitas foram dizer a Holofernes: Os israelitas não confiam nem nas lanças nem nas flechas, mas são defendidos pelas montanhas e sua verdadeira força são as colinas escarpadas.
9. Para que possas vencê-los sem combate, põe guardas às fontes, para não buscarem água ali, e os matareis sem golpes de espada. Ou, pelo menos, esgotados pela sede, entregarão a cidade, a qual, por estar situada nas montanhas, julgavam inexpugnável.
10. Esta sugestão agradou a Holofernes e aos seus oficiais, e ele mandou que cada fonte fosse vigiada por um contingente de cem homens.
11. Passados vinte dias de guarda, secaram-se as fontes e os poços de Betúlia, e os habitantes que recebiam quotidianamente a sua medida de água não a tiveram mais nem sequer para um dia.
12. Então, reuniram-se todos os homens, mulheres, jovens e crianças ao redor de Ozias, e disseram-lhe a uma voz:
13. Deus seja juiz entre nós e ti, pois, recusando negociar a paz com os assírios, atraíste a desgraça sobre nós; e por isso entregou-nos Deus nas suas mãos.
14. Também por isso não há quem nos socorra, estando nós aos seus olhos esgotados pela sede.
15. Agora, pois, reúne todos os que estão na cidade e entreguemo-nos espontaneamente aos homens de Holofernes.
16. É melhor que bendigamos a Deus no cativeiro, vivos, do que morrer vergonhosamente diante de todos os homens, vendo morrer sob os nossos olhos nossas mulheres e nossos filhos.
17. O céu e a terra nos são testemunhas, assim como o Deus de nossos pais que toma vingança de nossos pecados: entrega sem demora a cidade ao exército de Holofernes, para que o fio da espada abrevie o nosso fim, retardado pelo ardor da sede!
18. Tendo eles assim falado, levantou-se um grande pranto e gritos lancinantes na assembléia, e a sua voz elevou-se para Deus durante várias horas:
19. Pecamos, diziam eles, nós e nossos pais, cometemos a injustiça e a iniqüidade.
20. Vós, que sois bom, tende piedade de nós, ou então que vossos castigos tomem vingança de nossas iniqüidades; mas não entregueis os que vos invocam a um povo que vos não conhece,
21. para que se não diga entre os pagãos: Onde está o seu Deus?
22. Fatigados enfim de gritar e de chorar, eles se calaram.
23. Ozias levantou-se então banhado em lágrimas: Coragem, meus irmãos! – disse ele.- Esperemos (ainda) cinco dias a misericórdia do Senhor.
24. Talvez se aplaque a sua cólera e dê glória ao seu nome.
25. Entretanto, se depois de cinco dias não nos chegar socorro algum, faremos o que propusestes.

 
Capítulo 8

1. Ora, tudo isso chegou aos ouvidos de Judite, viúva, filha de Merari, filho de Idox, filho de José, filho de Ozias, filho de Elai, filho de Jamnor, filho de Gedeão, filho de Rafaim, filho de Aquitob, filho de Melquias, filho de Enã, filho de Natanias, filho de Salatiel, filho de Simeão, filho de Rubem.
2. Seu marido chamava-se Manassés, e morrera no tempo da colheita da cevada,
3. ferido de insolação quando fiscalizava os ceifadores que ligavam os feixes no campo; ele morrera em Betúlia, sua cidade, e fora enterrado com seus pais.
4. Judite ficara viúva havia três anos e meio.
5. Ela tinha feito no andar superior de sua casa um quarto reservado para si, no qual se conservava retirada com suas criadas.
6. Trazia um cilício sobre os rins e jejuava todos os dias, exceto nos sábados, nas luas novas e nas festas do povo israelita.
7. Era extremamente bela, e seu marido tinha-lhe deixado grandes riquezas, numerosos criados e domínios cheios de rebanhos de bois e de ovelhas.
8. Era muito estimada por todos porque tinha grande temor a Deus; não havia ninguém que falasse mal a seu respeito.
9. Sabendo, pois, que Ozias tinha prometido entregar a cidade dentro de cinco dias, mandou alguém chamar os anciãos Cabri e Carmi,
10. e estes vieram ter com ela. Ela disse-lhes: Como é possível que Ozias tenha consentido em entregar a cidade aos assírios dentro de cinco dias, se não nos chegar socorro?
11. Quem sois vós para provocar o Senhor?
12. Não é esse o meio de atrair a sua misericórdia, mas antes o de excitar a sua cólera e acender o seu furor
13. Vós impusestes ao Senhor um prazo para exercer a sua misericórdia e fixastes-lhe um dia ao vosso arbítrio!
14. Mas o Senhor é paciente; façamos, pois, penitência por isso e peçamos-lhe perdão com lágrimas nos olhos,
15. pois Deus não ameaça como os homens e não se deixa arrastar como eles à violência da cólera.
16. Humilhemo-nos diante dele e prestemos-lhe nosso culto com espírito de humildade.
17. Roguemos ao Senhor com lágrimas que nos conceda a sua misericórdia como lhe aprouver, para que, assim como se perturbou o nosso coração com o orgulho de nossos inimigos, do mesmo modo encontremos glória em nossa humilhação.
18. Nós não imitamos os pecados de nossos pais, abandonando Deus para adorar divindades estranhas.
19. Por esse crime foram entregues à espada, à pilhagem e ao desprezo de seus inimigos; nós, porém, não admitimos outro Deus fora dele.
20. Esperamos com humildade a sua consolação e ele vingará o nosso sangue dos males que nos causam nossos inimigos. Ele humilhará toda nação que se levantar contra nós; o Senhor nosso Deus cobri-las-á de vergonha.
21. Agora, meus Irmãos, já que sois os anciãos do povo de Deus, e que sua vida depende de vós, reanimai os seus corações com vossas palavras, para que eles se lembrem de que nossos pais foram tentados a fim de que se verificasse se eles serviam verdadeiramente ao seu Deus.
22. Que eles se lembrem de como nosso pai Abraão foi provado e de como passou por múltiplas tribulações para se tornar o amigo de Deus.
23. Assim Isaac, assim Jacó, assim Moisés, e todos os que agradaram a Deus permaneceram fiéis apesar das muitas tribulações.
24. Aqueles, porém, que não aceitaram essas provações no temor ao Senhor e se impacientaram, murmurando contra ele,
25. foram feridos pelo Exterminador e pereceram pelas serpentes.
26. Por isso não nos irritemos por causa do que sofremos.
27. Consideremos que esses tormentos são menos graves que nossos pecados, e que esses flagelos com que o Senhor nos castiga, como escravos, foram-nos mandados para a nossa emenda, e não para a nossa perdição.
28. Ozias e os anciãos responderam-lhe: Tudo o que disseste é verdade; nada há repreensível nas tuas palavras.
29. Roga, pois, a Deus por nós, porque és uma mulher santa e piedosa.
30. Judite respondeu-lhes: Se reconheceis que o que eu vos disse vem de Deus,
31. examinai se vem igualmente dele o que eu resolvi fazer, e orai para que Deus me ajude a realizar o meu desígnio.
32. Ficai esta noite à porta, e eu sairei com minha criada. Orai então para que, como vós o dissestes, o Senhor olhe para o seu povo de Israel dentro de cinco dias.
33. Mas não quero que procureis saber o que eu vou fazer; enquanto eu mesma não voltar para vos avisar, não se faça outra coisa que rogar por mim ao Senhor nosso Deus.
34. Ozias, o príncipe de Judá, respondeu-lhe: Vai em paz, e que o Senhor te ajude a tomar a vingança de nossos inimigos. E retiraram-se.

 
Capítulo 9

1. Tendo eles partido, Judite entrou em seu oratório, pôs o seu cilício, cobriu a cabeça com cinzas e, prostrando-se diante do Senhor, orou dizendo:
2. Senhor, Deus de meu pai Simeão, que lhe destes a espada para se vingar dos estrangeiros que, arrastados pela paixão, violaram uma virgem, descobrindo-lhe vergonhosamente a nudez;
3. que entregastes suas mulheres à rapina, suas filhas ao cativeiro, e todos os seus despojos em partilha aos vossos servos que ardiam de zelo ao vosso serviço, vinde, eu vos peço, ó Senhor meu Deus, e socorrei esta viúva.
4. Vós dispusestes os acontecimentos do passado, determinastes que uns sucedessem a outros, e nada aconteceu sem que vós o quisésseis.
5. Todos os vossos caminhos são previamente escolhidos, e os vossos juízos são marcados por vossa providência.
6. Olhai agora para o acampamento dos assírios, como vos dignastes outrora olhar para o dos egípcios, quando corriam armados atrás dos vossos servos, fiando-se nos seus carros, nos. seus cavaleiros e na multidão dos seus combatentes.
7. Bastou um vosso olhar sobre o seu acampamento para paralisá-los nas trevas.
8. O abismo reteve os seus pés, e as águas submergiram-nos.
9. Senhor, que o mesmo aconteça a estes que confiam no seu número, nos seus carros, nos seus dardos, nos seus escudos, nas suas flechas, e que são orgulhosos de suas lanças.
10. Eles ignoram que vós sóis o nosso Deus, vós que desde todo o tempo sabeis deter as guerras, e que vosso nome é o Senhor.
11. Levantai o vosso braço como nos tempos antigos e quebrai o seu. poder com a vossa força; caia diante de vossa cólera o poder daqueles que prometeram a si próprios violar o vosso santuário, profanar o tabernáculo de vosso nome e derrubar com um golpe de espada os cornos de vosso altar.
12. Fazei, Senhor, que o orgulho desse homem seja cortado com sua própria espada;
13. seja ele preso no laço de seus olhos fixos em mim; e feri-o com as doces palavras de meus lábios.
14. Dai firmeza ao meu coração para o desprezar, e coragem para o abater.
15. Isso será para o vosso nome uma glória digna de memória, tendo-o derrubado a mão de uma mulher.
16. Não é na multidão, Senhor, que está o vosso poder, nem vos comprazeis na força dos cavalos; os soberbos nunca vos agradaram, mas sempre vos foram aceitas as preces dos mansos e humildes.
17. Deus do céu, criador das águas e senhor de toda a criação, ouvi uma pobre suplicante que só confia em vossa misericórdia.
18. Lembrai-vos, Senhor, de vossa promessa; inspirai as palavras de minha boca e dai firmeza à resolução de meu coração, para que a vossa casa vos permaneça (para sempre) consagrada e que todos os povos reconheçam que só vós sois Deus e que não há outro fora de vós.

 
Capítulo 10

1. Quando acabou de orar ao Senhor, levantou-se do lugar onde estava prostrada diante do Senhor.
2. Chamou a sua criada, desceu à sua casa, tirou o cilício e despiu suas vestes de viúva.
3. Lavou-se, ungiu-se de mirra preciosa, arranjou o cabelo e pôs um diadema. Vestiu-se como para uma festa, calçou as sandálias, pôs os braceletes, o colar, os brincos, os anéis e todos os seus enfeites.
4. O Senhor aumentou-lhe a beleza, porque tudo aquilo procedia, não de uma paixão má, mas de sua virtude; por isso o Senhor deu-lhe uma tal formosura, que apareceu aos olhos de todos com um encanto incomparável.
5. Fez que sua criada levasse um odre de vinho, uma garrafa de óleo, grãos torrados, figos secos, pão e queijo, e partiu.
6. Chegando à porta da cidade, encontraram Ozias e os anciãos que as esperavam.
7. Vendo-a, ficaram cheios de admiração diante de sua beleza.
8. Sem lhe perguntar coisa alguma deixaram-na passar e disseram-lhe: Que o Deus de nossos pais te dê a sua graça e fortifique a resolução de teu coração, para que sejas a glória de Jerusalém e o teu nome figure no número dos santos e dos justos.
9. Os que ali estavam disseram a uma só voz: Assim seja! Assim seja!
10. E Judite passou a porta com sua criada, orando ao Senhor.
11. Ao raiar do dia, quando ela descia pela montanha, eis que a encontrou uma patrulha dos assírios e a deteve: De onde vens?, perguntaram-lhe, e aonde vais?
12. Ela respondeu: Sou uma israelita; fugi do meio deles porque vi que eles vos hão de ser entregues como presa, e porque vos desprezaram não querendo render-se espontaneamente a vós para encontrar graça diante de vossos olhos.
13. Por isso pensei comigo mesma: Irei apresentar-me ao príncipe Holofernes para revelar-lhe seus segredos e indicar-lhe um caminho por onde poderá tomar, sem perder um homem sequer do seu exército.
14. Ouvindo estas palavras, os homens olhavam-na de frente com os olhos deslumbrados de admiração pela sua grande beleza.
15. E disseram-lhe: Salvaste a tua vida, porque resolveste descer para o nosso senhor. Podes estar certa de seres bem tratada quando lhe fores apresentada, e tu lhe hás de ganhar o coração.
16. Levaram-na à tenda de Holofernes, declarando quem era.
17. Mal havia ela entrado, Holofernes ficou cativo de seus olhos.
18. Seus oficiais disseram-lhe: Quem poderia desprezar os hebreus que têm tão belas mulheres? Não são elas uma razão suficiente de lhes fazermos guerra?
19. Judite viu Holofernes sentado sob um baldaquino de púrpura, bordado de ouro, com esmeraldas e pedras preciosas:
20. Ela levantou os olhos para o seu rosto e inclinou-se profundamente diante dele até o solo. Os servos de Holofernes levantaram-na por ordem do seu senhor.

 
Capítulo 11

1. Então Holofernes disse-lhe: Tranqüiliza-te! Não temas em teu coração, pois nunca fiz mal algum a quem estivesse pronto a servir o rei Nabucodonosor.
2. Se teu povo não me tivesse desprezado, eu não teria levantado a minha lança contra ele.
3. Mas dize-me, agora, por que os deixaste e vieste para o meio de nós?
4. Judite respondeu-lhe: Ouve as palavras de tua serva, porque se seguires as palavras que te vou dizer, o Senhor chegará aos seus fins por ti.
5. Juro-o por Nabucodonosor, rei da terra, e por seu poder que está nas tuas mãos para castigo daqueles que se desviam, porque não somente contribuis para que os homens o sirvam, mas até os animais do campo lhe obedecem.
6. A sabedoria de teu espírito é, com efeito, célebre em todas as nações, todo o mundo sabe que és o único bom e poderoso em seu reino, e tua administração é louvada em todas as províncias.
7. O que disse Aquior não é um segredo e ninguém ignora o que ordenaste que lhe fosse feito.
8. Porque é manifesto que nosso Deus está de tal forma ofendido pelos pecados do povo, que lhe mandou dizer por meio de seus profetas, que o entregaria por causa de seus pecados.
9. E como os israelitas sabem que ofenderam o seu Deus, tu te tornaste um objeto de terror.
10. Além disso, a fome aperta-os e pela falta de água estão já como mortos.
11. Chegam até a matar os seus animais para beberem o seu sangue.
12. E mesmo as primícias consagradas ao Senhor, seu Deus, que o Senhor lhes proibiu tocar – trigo, vinho e azeite – eles pensam empregá-las, e querem assim comer aquilo que não lhes é permitido nem tocar com as mãos. Procedendo assim, é certo que serão entregues à ruína.
13. E eu, tua serva, que sei de tudo isto, fugi do meio deles, e o Senhor mandou-me a ti para dizer-te estas coisas.
14. Porque tua serva teme a Deus, mesmo junto de ti, e ela sairá do acampamento para orar a Deus.
15. Ele me dirá quando vai puni-los pelos seus pecados, e eu to virei dizer. Levar-te-ei então até o coração de Jerusalém, e encontrarás todo o povo de Israel como um rebanho de ovelhas sem pastor, e não haverá sequer um cão para ladrar contra ti.
16. Isto me foi dito pela providência divina;
17. e como Deus está irritado contra eles, fui enviada para to anunciar.
18. Holofernes e seus servos alegraram-se com este discurso, e admiraram a sabedoria de Judite, dizendo uns aos outros:
19. Não há sobre a terra mulher semelhante a esta no valor, na beleza e na sabedoria de suas palavras.
20. Holofernes disse-lhe: Deus fez muito bem em te mandar antes do povo, a fim de que possas entregá-lo nas nossas mãos.
21. Teu plano é bom: se teu Deus fizer isto por mim, ele será também o meu Deus, e tu serás grande na casa de Nabucodonosor, e o teu nome será célebre em toda a terra.

 
Capítulo 12

1. Mandou então que a introduzissem onde estavam os seus tesouros, ordenando-lhe que ficasse ali, e regulou o que se lhe devia dar de sua mesa.
2. Judite respondeu-lhe: Não posso agora comer do que me mandaste servir, para não cometer infração (contra a Lei); comerei do que trouxe comigo.
3. Holofernes disse-lhe: E quando acabarem as provisões que trouxeste contigo, que poderemos fazer por ti?
4. Por tua vida; meu senhor, replicou Judite, juro que tua serva não gastará todas estas coisas, sem que Deus realize pela minha mão o que resolvi fazer. Os escravos de Holofernes introduziram-na então na tenda que ele tinha designado.
5. Aí entrando, Judite pediu que lhe fosse permitido sair à noite e antes do amanhecer, para fazer suas devoções e orar ao Senhor.
6. Holofernes ordenou aos seus escravos que a deixassem sair e entrar como quisesse, durante três dias, para adorar o seu Deus.
7. Cada noite ela saía ao vale de Betúlia e fazia as suas abluções numa fonte.
8. Ao voltar, rogava ao Senhor Deus de Israel que lhe dirigisse os passos para a libertação do seu povo.
9. Entrava em seguida na sua tenda, e ali permanecia pura até que tomava a sua refeição pela tarde.
10. No quarto dia, Holofernes deu um banquete aos seus oficiais. E disse a Vagao, seu eunuco: Vê se persuades a essa judia que consinta espontaneamente em tornar-se minha concubina.
11. (Entre os assírios era coisa vergonhosa que uma mulher zombasse de um homem, retirando-se sem se ter dado a ele.)
12. Vagao foi ter com Judite e disse-lhe: Não tema a boa jovem entrar à presença de meu senhor; ser-lhe-ia uma honra comer em sua companhia e beber vinho alegremente.
13. Quem sou eu, respondeu ela, para opor-me ao meu senhor?
14. Farei tudo o que parecer bom e melhor aos seus olhos; o que mais lhe agradar, isso será também para mim o melhor durante toda a minha vida.
15. Ela levantou-se e, trajada com requinte, apresentou-se diante dele.
16. O coração de Holofernes agitou-se, porque ardia de paixão por ela.
17. Come e bebe alegremente, disse-lhe ele, pois encontraste graça aos meus olhos.
18. Ao que respondeu Judite: Eu beberei, senhor, porque nunca em minha vida me senti tão engrandecida como hoje.
19. Mas ela tomou e comeu do que a sua serva lhe tinha preparado, e bebeu com ele.
20. Holofernes alegrou-se grandemente por tê-la junto dele, e bebeu vinho como nunca tinha bebido.

 
Capítulo 13

1. Anoiteceu. Os oficiais apressaram-se em voltar aos seus aposentos. Vagao fechou as portas do quarto e foi-se.
2. Estavam todos embriagados pelo vinho.
3. Judite ficou só no seu quarto,
4. enquanto Holofernes repousava em seu leito, bêbedo a cair.
5. Judite havia dito à sua serva que ficasse fora, diante do quarto, vigiando.
6. De pé ao lado do leito, movendo em silêncio os lábios, ela orou com lágrimas a Deus, dizendo:
7. Senhor, Deus de Israel, dai-me força. Olhai agora o que vão fazer minhas mãos, a fim de que, segundo a vossa promessa, levanteis a vossa cidade de Jerusalém, e eu realize o que acreditei ser possível graças a vós.
8. Dizendo isto, aproximou-se da coluna que estava à cabeceira do leito e tomou a espada que ali estava pendurada;
9. desembainhou-a e, tomando os cabelos de Holofernes, disse: Senhor, dai-me força neste momento!
10. Feriu-o duas vezes na nuca e decepou-lhe a cabeça. Desprendeu em seguida o cortinado das colunas, e rolou por terra o corpo mutilado.
11. Feito isto, saiu e deu à sua serva a cabeça de Holofernes para que a metesse no saco.
12. Depois saíram ambas, como de costume, como se fossem para a oração. Atravessaram o acampamento, contornaram o vale e chegaram às portas da cidade.
13. De longe, Judite gritou aos guardas dos muros: Abri as portas, porque Deus está conosco; ele manifestou o seu poder em favor de Israel.
14. Ouvindo estas palavras, os homens chamaram os anciãos da cidade,
15. e toda a população correu para ela, desde o menor até o maior, porque não esperavam mais que ela voltasse.
16. Juntaram-se todos ao redor dela com tochas acesas. Judite, subindo a um lugar mais alto, pediu que se fizesse silêncio. Todos se calaram.
17. Louvai ao Senhor nosso Deus, disse-lhes ela, que não abandonou os que puseram nele a sua esperança,
18. e que cumpriu pelas mãos de sua serva a sua promessa de misericórdia à casa de Israel; esta noite ele matou por minha mão o inimigo de seu povo.
19. Retirando então do saco a cabeça de Holofernes, mostrou-lha dizendo: Eis a cabeça de Holofernes, marechal do exército assírio, e eis o cortinado do baldaquino onde se achava deitado, ébrio a cair, quando o Senhor, nosso Deus, o feriu pela mão de uma mulher.
20. Mas juro-vos, pelo mesmo Senhor, que o seu anjo me protegeu, tanto ao partir, como ao demorar-me lá, e como ao voltar, e o Senhor não permitiu que sua serva fosse manchada: ele reconduziu-me a vós livre de toda a mancha de pecado, cheia de alegria por sua vitória, pela minha salvação e pela vossa libertação.
21. Dai-lhe glória todos vós, porque é bom, porque a sua misericórdia é eterna!
22. Então todos, adorando o Senhor, disseram a Judite: O Senhor te abençoou com o seu poder, porque ele por ti aniquilou os nossos inimigos.
23. Ozias, príncipe do povo de Israel, acrescentou: Minha filha, tu és bendita do Senhor Deus altíssimo, mais que todas as mulheres da terra.
24. Bendito seja o Senhor, criador do céu e da terra, que te guiou para cortar a cabeça de nosso maior inimigo!
25. Ele deu neste dia tanta glória ao teu nome, que nunca o teu louvor cessará de ser celebrado pelos homens, que se lembrarão eternamente do poder do Senhor. Ante os sofrimentos e a angústia de teu povo, não poupaste a tua vida, mas salvaste-nos da ruína, em presença de nosso Deus.
26. E todo o povo respondeu: Assim seja! Assim seja!
27. Mandaram então vir Aquior, e Judite disse-lhe: O Deus de Israel, de quem testemunhaste que toma vingança dos seus inimigos, cortou esta noite por minha mão a cabeça de todos os infiéis.
28. Para provar-te que assim é, eis aqui a cabeça de Holofernes que, na insolência de seu orgulho, desprezava o Deus de Israel e te ameaçava de morte, dizendo: Quando o povo de Israel for vencido, mandarei passar-te ao fio da espada.
29. Vendo a cabeça de Holofernes, Aquior foi tomado de pavor e caiu com o rosto por terra, sem sentidos.
30. Quando recobrou os sentidos e voltou a si, jogou-se aos pés de Judite em sinal de reverência e disse: Sê bendita de teu Deus em todas as tendas de Jacó, porque o Deus de Israel será glorificado por causa de ti entre todas as nações que ouvirem o teu nome.

 
Capítulo 14

1. Então Judite disse a todo o povo: Ouvi-me, irmãos, pendurai esta cabeça no alto de nossas muralhas.
2. Quando o sol se levantar, tome cada um as suas armas e saí com ímpeto, não para descerdes simplesmente (até o vale), mas como para atacá-los.
3. Será necessário que as sentinelas corram a acordar o seu general para o combate.
4. Quando os seus chefes tiverem corrido à tenda de Holofernes e o encontrarem decapitado, jazendo no seu próprio sangue, serão tomados de pavor.
5. E quando os virdes fugir, persegui-os destemidamente, porque o Senhor os esmagará sob os vossos pés.
6. Então Aquior, vendo o poder que manifestara o Deus de Israel, abandonou o culto pagão, creu em Deus, circuncidou-se e foi incorporado ao povo de Israel, assim como toda a sua descendência até o dia de hoje.
7. Logo que raiou o dia, penduraram nas muralhas a cabeça de Holofernes, cada um tomou as suas armas e saíram fazendo um grande alarido e soltando gritos agudos.
8. Vendo isto, correram as sentinelas à tenda de Holofernes.
9. Os que estavam na tenda vieram (ver) e fizeram grande barulho à porta do quarto para o despertar, e aumentavam cada vez mais o tumulto para que Holofernes acordasse com o ruído, sem que houvesse necessidade (de entrar) para o acordar.
10. Porque ninguém ousava bater na porta nem entrar no quarto do marechal dos assírios.
11. Mas chegando os generais com os tribunos e com todos os oficiais do exército do rei dos assírios, ordenaram aos camareiros:
12. Entrai e despertai-o, porque os ratos saíram de seus buracos e se atrevem a nos provocar ao combate.
13. Então Vagao, entrando no quarto, parou diante da cortina e bateu com as mãos, porque supunha que ele dormia com Judite.
14. Aplicando, porém, os ouvidos e não percebendo movimento algum de um homem que dorme, aproximou-se da cortina e a levantou. À vista do cadáver de Holofernes decapitado, que jazia por terra num charco de sangue, soltou um forte grito, rompeu em lágrimas e rasgou as suas vestes.
15. Entrou então na tenda de Judite e não a encontrou. Correu para fora e disse ao povo:
16. Uma judia pôs a confusão na casa do rei Nabucodonosor: Holofernes jaz ali caído por terra, e a sua cabeça não está com o corpo!
17. Ouvindo estas palavras, todos os oficiais do exército assírio rasgaram suas vestes, um terror e um espanto extremos os invadiram, e os seus espíritos ficaram completamente desorientados, e um clamor indescritível levantou-se do acampamento.

 
Capítulo 15

1. Quando todo o exército soube que Holofernes tinha sido decapitado, perderam a razão e o conselho. Agitados pelo espanto e pelo terror, buscaram a salvação na fuga.
2. Sem trocar uma palavra sequer com o seu vizinho, com a cabeça baixa, deixando tudo, fugiram pelas planícies e pelos montes, procurando escapar aos hebreus, pois ouviam que vinham armados sobre eles.
3. Os israelitas, vendo-os fugir, perseguiram-nos. Desceram as encostas atrás deles tocando a trombeta e soltando grandes gritos.
4. E como os assírios iam fugindo desordenadamente, os israelitas que os perseguiam juntos, formados em batalhão, destroçavam todos os que podiam atingir.
5. Ozias mandou mensageiros a todas as cidades e províncias de Israel.
6. Assim, cada localidade e cada cidade armou o melhor de sua juventude e a enviou contra os assírios, e perseguiram-nos à ponta de espada até a sua fronteira mais afastada.
7. Entretanto, os que tinham ficado em Betúlia, entraram no acampamento dos assírios e levaram um enorme despojo deixado pelo inimigo em sua fuga.
8. Enfim, aqueles que voltaram vitoriosos para Betúlia, trouxeram consigo tudo o que pertencera aos assírios, um numeroso rebanho, grande quantidade de material e de animais de carga; e assim todos, desde o maior até o menor, se enriqueceram com seus despojos.
9. Veio então de Jerusalém a Betúlia o sumo sacerdote Joaquim com todos os anciãos para ver Judite.
10. Quando ela lhes veio ao encontro, abençoaram-na todos a uma só voz, dizendo: Tu és a glória de Jerusalém; Tu és a alegria de Israel, tu és a honra de nosso povo.
11. Deste prova de alma viril e coração valente. Amaste a castidade, e não quiseste, depois da morte do teu marido, conhecer outro homem; então o Senhor te fortaleceu e por isso serás eternamente bendita.
12. Ao que todo o povo respondeu: Assim seja! Assim seja!
13. Trinta dias mal bastaram ao povo de Israel para recolher os despojos dos assírios.
14. Tudo o que se soube ter pertencido a Holofernes, o povo deu-o a Judite: ouro, prata, vestes, pedras preciosas e outros objetos.
15. Todo o povo entregou-se a grandes festas, com as mulheres, com as jovens e com os jovens, ao som de harpas e cítaras.

 
Capítulo 16

1. E Judite expressou-se nestes termos: Entoai um cântico ao meu Deus com tamborins, cantai ao Senhor com címbalos. Entoai-lhe salmos e louvores, exaltai e invocai o seu nome.
2. Porque é um Deus que extermina guerras – Senhor é o seu nome. Acampou no meio do seu povo e me livrou da mão de todos os meus inimigos.
3. Assur veio das montanhas, do norte, veio com imensa tropa de guerreiros. Multidão de encher os vales, cavalaria de cobrir morros inteiros!
4. Jurara incendiar a minha terra. Passar meus jovens ao fio da espada e esmagar minhas criancinhas, levar embora meus filhos e minhas filhas, ao cativeiro…
5. O Senhor onipotente os rechaçou, por mãos de uma mulher!
6. Seu caudilho foi derrotado, não por jovens; foi ferido, não por filhos de Titãs; vencido, não por gigantes enormes: foi Judite, filha de Merari, quem o paralisou com a formosura de seu rosto.
7. Despiu o seu vestido de viúva, para consolação dos que sofriam em Israel. Ungiu o rosto com essência perfumada,
8. cingiu os cabelos com um diadema e vestiu um vestido de linho, para o seduzir.
9. Suas sandálias arrebataram-lhe os olhos, sua beleza extasiou-lhe a alma, e a espada lhe decepou a nuca.
10. Os persas tremeram de ver tamanha valentia, os medos se acovardaram perante sua audácia.
11. Então, os humildes gritaram, e eles tremeram espavoridos, os fracos (do meu povo) clamaram, e eles foram tomados de espanto; ao estrépito das vozes, deitaram a fugir.
12. Filhos de jovens mães os transpassaram e, como a meninos fugitivos, os feriram: ei-los derrotados na batalha de meu Senhor!
13. Cantarei a Deus um cântico novo: Sois grande, Senhor, sois glorioso, de admirável poder, invencível.
14. Todas as criaturas vos rendam homenagem, porque com uma só palavra fizestes todas as coisas; enviastes o vosso espírito, e foram criadas, e nada pôde resistir à vossa voz.
15. Podem abalar-se montanhas e águas, rochedos derreter-se como cera diante de vossa face: para aqueles que vos temem sereis sempre propício.
16. Bem pouca coisa é o sacrifício de suave fragrância, é como nada a gorda carne dos sacrifícios; quem teme ao Senhor, este é grande, para sempre!
17. Ai das nações que se insurgirem contra o meu povo! No dia do juízo as punirá o Senhor todo-poderoso: entregará as suas carnes aos vermes e ao fogo, e hão de chorar eterna dor.
18. Depois desta vitória, todo o povo foi a Jerusalém para adorar o Senhor. Purificaram-se e todos ofereceram os seus holocaustos, cumprindo os seus votos e suas promessas.
19. Judite ofereceu todas as armas de Holofernes recebidas do povo, e o cortinado que ela mesma tinha tirado do leito de Holofernes para que servisse de anátema de esquecimento.
20. O povo alegrou-se grandemente diante do santuário, e o regozijo desta vitória foi celebrado com Judite durante três meses.
21. Terminada a festa, cada um voltou para a sua casa, e Judite, que tinha grande crédito em Betúlia, adquiriu ainda maior renome em todo o país de Israel.
22. À coragem juntava a castidade, de tal sorte que nunca em toda a sua vida conheceu outro homem, desde que morreu Manassés, seu marido.
23. Nos dias de festa aparecia em público com todos os seus adornos.
24. Ela viveu cento e cinco anos na casa de seu marido, e deu liberdade à sua escrava. Morreu e foi sepultada em Betúlia junto de seu marido.
25. Todo o povo a chorou durante sete dias.
26. Em todos os dias de sua vida, e muitos anos depois de sua morte, não houve quem perturbasse a paz de Israel.
27. O aniversário de sua vitória foi posto pelos hebreus no número dos dias santos, e ainda hoje é celebrado pelos judeus.

 

Livro de Ester

Livro de Ester

 Capítulo 1

1. No tempo de Assuero, que reinava desde a Índia até a Etiópia sobre cento e vinte e sete províncias,
2. naqueles dias em que ele ocupava o trono real de Susa, sua capital,
3. no terceiro ano de seu reinado, deu um banquete a todos os cortesãos e a seus servos. Tinha reunido em sua presença os chefes do exército dos persas e dos medos, os príncipes e os governadores das províncias,
4. para fazer manifestação da riqueza e do esplendor de seu reino, da rara magnificência de sua grandeza, durante um tempo considerável, a saber, cento e oitenta dias.
5. Passado esse tempo, o rei ofereceu a toda a população de Susa, a capital, desde o maior até o menor, um banquete de sete dias no pátio do jardim, junto ao palácio.
6. Cortinas brancas de algodão e de púrpura violeta, presas por cordões brancos e purpúreos a anéis de prata e a colunas de mármore; leitos de ouro e prata sobre um pavimento de pórfiro, de mármore branco, de nácar e pedra preta;
7. bebida servida em copos de ouro de variadas formas; o vinho real em abundância oferecido pela liberalidade do rei.
8. Bebia-se sem ser importunado por ninguém, segundo uma ordem do rei, porque ele tinha recomendado a todos os chefes de sua casa que deixassem cada um proceder como lhe agradasse.
9. Por sua parte, a rainha Vasti ofereceu o banquete das mulheres no palácio do rei Assuero.
10. No sétimo dia, o rei cujo coração estava alegre pelo vinho, ordenou a Mauman, Bazata, Harbona, Bagata, Abgata, Zetar e Carcar – os sete eunucos a serviço, junto de Assuero -
11. que trouxessem à sua presença a rainha Vasti com o diadema real, para mostrar ao povo e aos grandes toda a sua beleza, porque era formosa de aspecto.
12. Mas a rainha Vasti recusou sujeitar-se à ordem do rei transmitida pelos eunucos, com o que se irritou grandemente o rei, acendendo-se o seu furor.
13. Consultou os sábios versados na ciência dos tempos. (Porque os assuntos reais eram tratados desse modo, com jurisconsultos,
14. e os mais considerados eram Carsena, Setar, Admata, Tarsis, Mares, Marsena e Memucan, sete príncipes da Pérsia e da Média, que contemplavam a face do rei e ocupavam o primeiro lugar no reino.)
15. Que lei, disse ele, se deve aplicar à rainha Vasti, por não ter obedecido a ordem que o rei Assuero lhe transmitiu pelos eunucos?
16. Não foi somente em relação ao rei, respondeu Memucan, que se comportou mal a rainha Vasti, mas também em relação a todos os príncipes e os povos das províncias do rei Assuero.
17. Porque o proceder da rainha será conhecido de todas as mulheres e as incitará a desprezar seus maridos. Dirão: O rei Assuero tinha mandado trazer à sua presença a rainha Vasti, mas ela não quis vir.
18. Daqui em diante, as senhoras da Pérsia e da Média, sabendo da conduta da rainha, responderão do mesmo modo a todos os grandes do rei e disso resultará, por toda parte, desprezo e irritação.
19. Se o rei achar bom, publique-se em seu nome um decreto real, que ficará consignado nas ordenações da Pérsia e da Média como irrevogável, em força do qual Vasti não apareça mais diante de Assuero e o rei confira o título de rainha a outra que seja mais digna.
20. Quando o edito for conhecido na imensidade de seu reino, todas as mulheres respeitarão seus maridos, desde o maior até o mais humilde.
21. Esse parecer agradou ao rei e aos príncipes, de modo que o rei seguiu o conselho de Memucan.
22. O rei expediu cartas para todas as províncias reais, a cada uma em sua escrita e a cada povo em sua língua própria: elas decretavam que todo homem devia ser o senhor em sua casa e fazer-se respeitar por sua mulher.

 
Capítulo 2

1. Quando, pouco depois, a cólera do rei se acalmou, pensou em Vasti, no que ela tinha feito e na decisão que tomara a respeito dela.
2. Então as pessoas do séquito do rei disseram:
3. Que se procurem para o rei donzelas virgens, belas de aspecto; que o rei envie pessoas a todas as províncias de seu reino, para reunir todas as jovens virgens de belo aspecto e trazê-las a Susa, sua capital, ao harém, sob a vigilância de Hegai, eunuco do rei e encarregado das mulheres, que providenciará às necessidades de seu toucador.
4. A jovem que souber agradar ao rei se tornará rainha em lugar de Vasti. Isso agradou ao rei que seguiu esse conselho.
5. Ora, havia em Susa, a capital, um judeu chamado Mardoqueu, filho de Jair, filho de Semei, filho de Cis, da tribo de Benjamim,
6. que tinha sido trazido de Jerusalém entre os cativos deportados com Jeconias, rei de Judá, por Nabucodonosor, rei de Babilônia.
7. Era o tutor de Edissa – isto é, Ester, – filha de seu tio, órfã de pai e mãe. A moça era de belo porte e agradável de aspecto; na morte de seus pais, Mardoqueu a tinha adotado por filha.
8. Logo que foi publicado o edito do rei, numerosas jovens foram reunidas em Susa, a capital, sob a guarda de Hegai. Ester também foi levada ao palácio e posta sob a guarda de Hegai, o encarregado das mulheres.
9. A jovem lhe agradou e ganhou suas graças; tanto que ele se apressou a lhe proporcionar ungüentos e perfumes para seu toucador e adorno. Deu-lhe sete companheiras, escolhidas na casa do rei, reservando a elas o melhor apartamento do gineceu.
10. Ester não tinha revelado sua raça nem sua família, porque Mardoqueu lhe tinha proibido falar disso.
11. Cada dia ele passeava diante do pátio do gineceu para ter notícias de Ester e saber o que lhe acontecia.
12. Toda jovem começava por sujeitar-se, durante doze meses, à lei das mulheres. Nesse período se purificavam seis meses com óleo de mirra, e seis meses com cosméticos e outros bálsamos em uso entre as mulheres.
13. Depois disso, quando chegava a vez de cada uma entrar junto ao rei, podia, ao passar do gineceu ao palácio, tomar consigo tudo o que queria.
14. Admitida à tarde, se retirava pela manhã a um outro palácio das mulheres, sob a guarda de Chaasgaz, o eunuco do rei posto à frente das concubinas. E não voltava mais junto ao rei, se ele não tivesse manifestado o desejo, chamando-a expressamente.
15. Chegou a vez de Ester entrar junto ao rei. A filha de Abigail (tio desse Mardoqueu que a tinha adotado por filha), não pediu nada além do que lhe foi dado por Hegai, eunuco do rei, encarregado das mulheres. Mas ela ganhava as boas graças de todos os que a viam.
16. Foi levada junto ao rei Assuero, a seu palácio. Era o décimo mês (mês de Tebet), do ano sétimo do seu reinado.
17. O rei amou-a mais que todas as outras mulheres; e ganhou ela as graças e o favor real mais que todas as demais jovens. Tanto que o rei colocou sobre sua cabeça o diadema real e a fez rainha em lugar de Vasti.
18. O rei deu um grande banquete a todos os seus príncipes e a seus servos em honra de Ester; concedeu um dia de descanso a seus Estados e fez benefícios verdadeiramente reais.
19. Na segunda vez que reuniram as jovens, Mardoqueu se achava sentado à porta do rei.
20. Obedecendo à proibição de seu tutor, Ester não tinha revelado nem sua família, nem sua raça. Obedecia ainda a Mardoqueu, como quando estava sob a sua tutela.
21. Naquele tempo, pois, Mardoqueu se sentava à porta do palácio. Ora, dois eunucos do rei, Bigtã e Tares, guardas da entrada, cedendo ao ressentimento, pensaram levantar sua mão contra o rei.
22. Mardoqueu o soube e deu parte à rainha Ester, e esta o referiu ao rei da parte de Mardoqueu.
23. Examinado o assunto e reconhecido como certo, foram os dois eunucos suspensos numa forca. E se consignou o fato nas Crônicas, em presença do rei.

 
Capítulo 3

1. Depois desses acontecimentos, o rei Assuero elevou em dignidade Amã, filho de Amedata, o agagita, e lhe deu um lugar acima de todos os grandes que o rodeavam.
2. Todos os servos do rei, que estavam à sua porta, dobravam o joelho e prostravam-se diante de Amã, por ordem expressa do rei; entretanto, Mardoqueu não queria nem dobrar o joelho, nem prostrar-se.
3. Por que, pois, lhe diziam os servos que estavam à porta real, desobedeces assim à ordem do rei?
4. E como lhe repetissem isso todos os dias, sem que ele fizesse conta, denunciaram-no a Amã, para ver se esse Mardoqueu persistia em sua resolução, pois ele lhes havia dito que era judeu.
5. Amã viu que Mardoqueu não queria nem inclinar-se, nem prostrar-se diante dele e isso o pôs em cólera.
6. Mas teve como pouco vingar-se só de Mardoqueu, cuja raça conhecia, e procurou um meio de exterminar a nação de Mardoqueu, todos os judeus do reino de Assuero.
7. No primeiro mês, chamado Nisã, do ano duodécimo do reinado de Assuero, foi lançado o pur, isto é, a sorte, diante de Amã, para cada dia e para cada mês, até o duodécimo mês, isto é, Adar.
8. Então Amã disse ao rei Assuero: Há em todas as províncias do teu reino uma nação dispersa e separada das outras; suas leis são diferentes das dos demais povos e se nega a observar as leis do rei. Não convém aos interesses do rei deixar essa gente em paz.
9. Se ao rei lhe parece bem, dê-se ordem de fazê-los perecer, e eu pesarei dez mil talentos de prata nas mãos dos funcionários, para que os recolham ao tesouro real.
10. Tirando o anel de seu dedo, o rei o entregou a Amã, filho de Amedata, o agagita, o opressor dos judeus.
11. Eu te entrego, lhe disse, esse dinheiro e ao mesmo tempo esse povo; faze dele o que quiseres.
12. No dia treze do primeiro mês foram convocados os escribas reais. Foram escritas pontualmente todas as ordens do rei aos sátrapas do rei, aos governadores de cada província e aos príncipes de cada nação, a cada província segundo sua escritura e a cada nação em sua língua própria. O edito estava assinado com o nome de Assuero e levava o selo real.
13. Foram expedidas cartas, por correios, para todas as províncias do rei, a fim de destruir, matar e exterminar todos os judeus, jovens, velhos, crianças e mulheres, num só dia, no dia treze do duodécimo mês chamado Adar e a fim de entregar ao saque os seus despojos.
14. Uma cópia do edito, que devia ser promulgado em cada província, foi enviada a todos os povos, para que todos estivessem preparados para o dia marcado.
15. Por ordem do rei, os correios partiram a toda a pressa. O edito fora publicado primeiro em Susa, a capital, e enquanto o rei bebia acompanhado de Amã, a consternação reinava na cidade de Susa.

 
Capítulo 4

1. Quando Mardoqueu soube o que se tinha passado, rasgou suas vestes, cobriu-se de saco e cinza, e percorreu a cidade, dando gritos de dor.
2. Veio desse modo até diante da porta do rei, pela qual ninguém tinha o direito de passar com vestes de luto.
3. Em cada província, em toda parte onde chegava a ordem do rei e seu edito, havia grande desolação entre os judeus. Jejuaram, choraram e fizeram lamentações; e muitos se deitavam sobre o saco e a cinza.
4. As criadas de Ester e seus eunucos vieram contar-lhe o que se passava, e isso lhe causou grande temor. Mandou roupas para revestir Mardoqueu, fazendo-lhe despir o saco de que estava coberto, mas ele não as aceitou.
5. Então Ester, chamando Atac, um dos eunucos que o rei pusera a seu serviço, encarregou-o de perguntar a Mardoqueu o que significavam aqueles sinais de dor.
6. Atac foi ter com Mardoqueu, que estava na praça da cidade, diante da porta do rei.
7. Soube dele tudo o que tinha acontecido e a quantia de dinheiro que Amã tinha prometido recolher ao tesouro real em troca da destruição dos judeus.
8. Mardoqueu lhe entregou também uma cópia do edito, publicado em Susa para exterminá-los. Devia mostrá-la a Ester, pô-la a par de tudo e movê-la a ir ter com o rei para implorar sua graça e interceder junto dele em favor do povo.
9. Atac veio referir a Ester as palavras de Mardoqueu,
10. mas a rainha mandou Atac responder-lhe:
11. Todos os servos do rei e o povo de suas províncias sabem bem que, para quem quer que seja, homem ou mulher, que penetrar sem ser chamado na câmara interior do palácio, há uma lei real condenando-o à morte, exceção feita somente àquele para o qual o rei estender seu cetro de ouro, conservando-lhe a vida. E eis que são já trinta dias que não sou chamada junto ao rei.
12. As palavras de Ester foram referidas a Mardoqueu, e este lhe mandou responder:
13. Não imagines que serás a única entre todos os judeus a escapar, por estares no palácio.
14. Se te calares agora, o socorro e a libertação virão aos judeus de outra parte; mas tu e a casa de teu pai perecereis. E quem sabe se não foi para essas circunstâncias que chegaste à realeza.
15. Ester mandou responder a Mardoqueu:
16. Vai reunir todos os judeus de Susa e jejuai por mim sem comer nem beber durante três dias e três noites. Eu farei a mesma coisa com as minhas criadas. Depois disso, apesar da lei, irei ter com o rei. Se houver de morrer, morrerei.
17. Mardoqueu se retirou e fez o que Ester pediu.

 
Capítulo 5

1. Três dias depois Ester se revestiu de seus trajes reais e se apresentou na câmara interior do palácio, diante do aposento real, onde estava o rei sentado sobre seu trono, diante da porta de entrada do edifício.
2. Logo que o rei viu a rainha Ester no átrio, esta conquistou suas boas graças, de sorte que ele estendeu o cetro de ouro que tinha na mão. E Ester se aproximou para tocá-lo.
3. O rei lhe disse: Que tens, rainha Ester e que queres? Mesmo a metade de meu reino eu te daria.
4. Se parecer bem ao rei, respondeu ela, venha hoje com Amã ao banquete que lhe preparo.
5. O rei disse então: Apressai-vos em fazer vir Amã para atender ao desejo de Ester. O rei foi, pois, com Amã ao banquete que Ester tinha preparado.
6. Enquanto se bebia o vinho, o rei disse à rainha: Qual é o teu pedido? Ser-te-á concedido. Que desejas? Mesmo que fosse a metade de meu reino, a receberias.
7. Eis, respondeu, meu pedido e meu desejo:
8. se achei graça aos olhos do rei, e se lhe agrada aceder ao meu pedido e cumprir o meu desejo, que o rei e Amã tornem a vir ao banquete que lhes mandarei preparar. Amanhã eu responderei à pergunta do rei.
9. Amã voltou naquele dia gozoso e alegre de coração. Mas à vista de Mardoqueu que, diante da porta do rei, não se levantava nem se movia à sua passagem, encheu-se de furor contra o judeu.
10. Soube, entretanto, conter-se e retirou-se para casa. Então, mandou buscar os seus amigos e Zarés, sua mulher, e
11. lhes falou do esplendor de suas riquezas, do número de seus filhos, de tudo o que tinha feito o rei para exaltá-lo e do lugar que lhe tinha conferido sobre todos os príncipes e todo o pessoal real.
12. Além disso, acrescentou, fui o único que a rainha Ester admitiu com o rei ao banquete que ela deu e sou ainda convidado para amanhã, com o rei.
13. Mas tudo isso o tenho por nada, enquanto vir esse judeu Mardoqueu na antecâmara do rei.
14. Zarés, sua mulher, e todos os seus amigos lhe disseram: Não há mais que preparar uma forca de cinqüenta côvados de altura. E amanhã cedo pede ao rei que nela seja suspenso Mardoqueu. Depois irás satisfeito ao banquete com o rei. Isso agradou a Amã, e este mandou levantar a forca.

 
Capítulo 6

1. Naquela noite o rei não pôde conciliar o sono. Mandou que lhe trouxessem o livro dos Anais, as Crônicas, que lhe foram lidas.
2. Achava-se aí consignada a narração da denúncia que tinha feito Mardoqueu (da conjuração) de Bigtã e Tares, os dois eunucos do rei que tinham querido levantar sua mão contra o rei.
3. Que honras, disse então o rei, e que distinções recebeu Mardoqueu por isso? – Nenhuma, responderam os servos do rei.
4. E o rei perguntou: Quem está no pátio? Ora, nesse mesmo instante entrava Amã no pátio exterior do palácio para pedir ao rei que mandasse suspender Mardoqueu na forca que tinha feito levantar.
5. Os servos do rei responderam: É Amã que está no pátio. – Que entre!, retornou o rei.
6. Entrou, pois, Amã e o rei lhe disse: Que se deveria fazer para um homem que o rei quer honrar? – A quem, senão a mim, quererá o rei honrar?, pensou Amã.
7. Por isso respondeu ao rei: Para um homem a quem o rei deseja honrar
8. convém que lhe tragam as vestes com que se adorna o rei, o cavalo que o rei monta, e sobre sua cabeça se coloque a coroa real.
9. As vestes e o cavalo se darão a um dos senhores da corte e este revestirá o homem a quem o rei quer honrar e o passeará a cavalo pela praça da cidade, dizendo em altas vozes diante dele: É assim que é tratado o homem a quem o rei quer honrar.
10. O rei replicou: Toma, pois, depressa as vestes e o cavalo, como disseste, e faze tudo isso para Mardoqueu, o judeu que está assentado em minha antecâmara. E que nada se omita de tudo o que disseste.
11. Amã tomou as vestes e o cavalo, revestiu Mardoqueu e o conduziu a cavalo pela praça da cidade, clamando diante dele: É assim que é tratado o homem a quem o rei quer honrar.
12. Depois Mardoqueu voltou à porta do palácio, enquanto Amã se retirava precipitadamente para casa, consternado e de cabeça coberta,
13. para contar a Zarés, sua mulher, e a todos os seus amigos o que lhe tinha acontecido. Seus conselheiros e sua mulher Zarés lhe responderam: Se Mardoqueu, diante do qual começou tua queda, pertence ao povo judeu, não o vencerás, mas sucumbirás diante dele.
14. Eles falavam ainda, quando sobrevieram os eunucos do rei para levá-lo imediatamente ao banquete que Ester tinha preparado.

 
Capítulo 7

1. O rei e Amã vieram, pois, ao banquete de Ester.
2. No segundo dia, bebendo vinho, disse ainda o rei a Ester: Qual é teu pedido, rainha Ester? Será atendido. Que é que desejas? Fosse mesmo a metade de meu reino, tu obterias.
3. A rainha respondeu: Se achei graça a teus olhos, ó rei, e se ao rei lhe parecer bem, concede-me a vida, eis o meu pedido; salva meu povo, eis o meu desejo.
4. Fomos votados, eu e meu povo, ao extermínio, à morte, ao aniquilamento. Se tivéssemos sido vendidos como escravos, eu me calaria, mas eis que agora o opressor não poderia compensar o prejuízo que causa ao mesmo rei.
5. Quem é, replicou o rei, e onde está quem maquina tal projeto em seu coração?
6. O opressor, o inimigo, disse a rainha, é Amã, eis aí o infame!
7. Amã ficou tomado de terror diante do rei e da rainha. O rei, aceso em cólera, levantou-se e deixou o banquete, dirigindo-se ao jardim do palácio, ao passo que Amã permanecia ali, para implorar a Ester o perdão de sua vida, porque via bem que no espírito do rei estava decretada sua perda.
8. Quando o rei voltou do jardim do palácio para a sala do banquete, viu Amã que se tinha deixado cair sobre o divã em que repousava Ester: Como!, exclamou. Ei-lo que quer fazer violência à rainha em minha casa, em meu palácio! Mal tinha saído essa palavra da boca do rei, quando cobriram a face de Amã.
9. Harbona, um dos eunucos, disse ao rei. A forca preparada por Amã para Mardoqueu, cuja denúncia em favor do rei tinha sido tão salutar, acha-se levantada na casa de Amã, alta de cinqüenta côvados.- Que o suspendam nela!, exclamou o rei.
10. E suspenderam Amã na forca que tinha preparado para Mardoqueu. Isso acalmou a cólera do rei.

 
Capítulo 8

1. Naquele mesmo dia Assuero fez presente à rainha Ester da casa de Amã, o opressor dos judeus; e Mardoqueu se apresentou diante do rei, porque Ester tinha manifestado o que ele era dela.
2. Tirando seu anel, que tinha retomado de Amã, o rei o presenteou a Mardoqueu, que foi colocado por Ester à frente da casa de Amã.
3. Ester voltou de novo à presença do rei e falou. Prostrada a seus pés, desfeita em lágrimas, lhe suplicava que destruísse as maquinações que Amã, o agagita, tinha perversamente urdido contra os judeus.
4. O rei estendeu o cetro de ouro a Ester, a qual se pôs em pé diante dele.
5. Se parecer bem ao rei, disse ela, e se achei graça diante dele, e se isso lhe parecer justo e se sou agradável a seus olhos, que revogue por escrito as cartas, que Amã, filho de Amedata, o agagita, tinha concebido o redigido para perder os judeus de todas as províncias do rei.
6. Como poderia eu ver a desgraça que aguarda meu povo, e como poderia assistir ao extermínio de minha raça?
7. O rei Assuero respondeu à rainha Ester e ao judeu Mardoqueu: Fiz presente a Ester da casa de Amã, e fiz perecer esse homem por ter levantado a mão contra os judeus.
8. Escrevei, portanto, vós mesmos, em nome do rei, em favor dos judeus, como bem vos parecer e selai com o selo real, porque toda ordem escrita em nome do rei e firmada com seu selo é irrevogável.
9. Foram então chamados os escribas do rei, no vigésimo terceiro dia do terceiro mês, chamado Sivã; e conforme as instruções de Mardoqueu, escreveram aos judeus, aos sátrapas, aos governadores e aos senhores das cento e vinte e sete províncias situadas entre a Índia e a Etiópia, a cada província em sua escritura, a cada nação em sua língua, e aos judeus na sua própria escritura e língua.
10. Redigiram-se, pois, em nome do rei Assuero e marcaram-se com o selo real as cartas, que foram expedidas por correios a cavalo, tendo como montarias cavalos procedentes das cavalariças reais.
11. Essas comunicações diziam que o rei outorgava aos judeus, em qualquer cidade em que residissem, o direito de se reunir para defender sua vida, de destruir, matar e fazer perecer, em cada província do reino, todos os que se armassem para atacá-los, com suas mulheres e filhos; igualmente o direito de se apoderarem de seus despojos.
12. (Tudo isso se faria) num só dia, em todas as províncias do rei Assuero, no dia treze do duodécimo mês, chamado Adar.
13. Uma cópia do edito, que devia ser promulgado como lei em cada província, foi enviada a todos os povos, a fim de que os judeus estivessem preparados, naquele dia, para tirar vingança de seus inimigos.
14. Os correios, montando cavalos das cavalariças reais, partiram apressadamente e cumpriram diligentemente a ordem do rei. O edito foi publicado primeiramente em Susa, a capital.
15. Saiu então Mardoqueu da casa do rei, com uma veste real, azul e branca, com uma grande coroa de ouro e um manto de linho e púrpura. A cidade de Susa alegrou-se com os gritos de júbilo.
16. Não havia para os judeus senão felicidade, alegria e cantos de triunfo.
17. Em cada província, em cada cidade, aonde quer que chegasse o edito real, havia entre os judeus transportes de gozo, banquetes e regozijo. Muitos no país se fizeram judeus, tanto era o temor que lhes inspiravam.

 
Capítulo 9

1. No duodécimo mês, que é o de Adar, no dia treze do mês, data em que entrava em vigor a ordem e o edito do rei, no mesmo dia em que os inimigos dos judeus contavam fazer-lhes mal, aconteceu tudo ao contrário, e os judeus dominaram seus inimigos.
2. Estavam reunidos em suas respectivas cidades, em todas as províncias do rei Assuero para levantarem a mão contra aqueles que desejavam sua perda. Ninguém pôde resistir-lhes, porque o terror se tinha apoderado de todos os povos.
3. Todos os senhores das províncias, os sátrapas, os governadores, os funcionários do rei tomaram o partido dos judeus, por temor de Mardoqueu.
4. Porque este ocupava um alto lugar no palácio real e sua fama se espalhava em todas as províncias, onde sua influência não cessava de crescer.
5. Os judeus, pois, feriram todos os seus inimigos a golpes de espada: massacre e extermínio de seus opressores, aos quais trataram como quiseram.
6. Em Susa, na capital, mataram quinhentos homens.
7. Fizeram igualmente perecer Farsandata, Delfon, Esfata,
8. Forata, Adalia, Aridata,
9. Fermesta, Arisai, Aridai e Jesata,
10. os dez filhos de Amã, filho de Amedata, o opressor dos judeus. Mas se abstiveram de toda pilhagem.
11. Nesse mesmo dia fizeram conhecer ao rei o número das vítimas em Susa, a capital.
12. E o rei disse a Ester: Em Susa, na capital, os judeus mataram quinhentos homens e os dez filhos de Amã. Que não terão feito nas outras províncias do rei! (Entretanto), tens ainda algum pedido? Ser-te-á concedido. Tens algum desejo? Será satisfeito.
13. Se parecer bem ao rei, respondeu Ester, seja permitido ainda amanhã, aos judeus de Susa, agir conforme ao decreto de hoje, e que se suspendam numa forca os dez filhos de Amã.
14. O rei deu ordem para que assim se fizesse. O edito foi publicado em Susa e suspenderam na forca os dez filhos de Amã.
15. Os judeus de Susa se reuniram de novo no dia quatorze do mês de Adar, e mataram na cidade trezentos homens, sem entretanto dar-se à pilhagem.
16. Os outros judeus que estavam disseminados pelas províncias do rei se juntaram para defender suas vidas e se pôr a salvo dos ataques de seus inimigos. Massacraram setenta e cinco mil, sem entretanto entregar-se à pilhagem.
17. Era o dia treze do mês de Adar. No dia quatorze repousaram e fizeram um dia de banquete de alegria.
18. Quanto aos judeus de Susa, que se juntaram no dia treze e catorze do mesmo mês, repousaram no dia quinze, fazendo-o um dia de alegre banquete
19. Eis por que os judeus do campo, que habitam nas cidades não fortificadas, fazem no dia catorze do mês de Adar, um dia de festa com banquetes de alegria, dia em que mandam presentes uns aos outros.
20. Mardoqueu consignou por escrito todos esses acontecimentos. Enviou cartas a todos os judeus das províncias do rei Assuero, próximas ou longínquas,
21. para lhes ordenar que celebrassem cada ano o dia catorze e o dia quinze do mês de Adar,
22. como sendo dias em que tinham sido postos a salvo dos ataques de seus inimigos, e mês em que sua angústia tinha sido trocada em alegria e sua dor em felicidade. Deviam, pois, nesses dias oferecer alegres banquetes, dar-se presentes e praticar generosidade com os pobres.
23. Os judeus erigiram em costume o que tinham feito na primeira vez e o que Mardoqueu lhes tinha mandado.
24. Porque Amã, filho de Amedata, o agagita, o opressor dos judeus, tinha resolvido perdê-los, e lançado (contra eles) o pur, isto é, a sorte, para exterminá-los e destruí-los.
25. Mas quando Ester se apresentou diante do rei, este ordenou por escrito que a perversa maquinação, tramada contra os judeus, recaísse sobre a cabeça de seu autor e que este e seus filhos fossem suspensos à forca.
26. É por isso que se chamam esses dias Purim, da palavra pur. Assim, conforme o conteúdo dessa carta, conforme o que eles mesmos tinham visto e o que lhes tinha acontecido,
27. os judeus instituíram e estabeleceram para si, para sua posteridade e para seus adeptos, o costume irrevogável de celebrar anualmente esses dois dias, segundo a forma prescrita e no tempo marcado.
28. Esses dias deviam ser recordados e celebrados de geração em geração, em cada família, em cada província e em cada cidade. Jamais poderiam ser abolidos esses dias dos Purim entre os judeus, nem sua recordação se apagar entre seus descendentes.
29. A rainha Ester, filha de Abigail, e o judeu Mardoqueu escreveram uma segunda vez com insistência para confirmar a carta sobre os Purim.
30. Depois enviaram a todos os judeus das cento e vinte e sete províncias do rei Assuero cartas com palavras de paz,
31. e a recomendação de celebrarem fielmente esses dias dos Purim no tempo marcado, como o judeu Mardoqueu e a rainha Ester os tinham instituído, e como eles tinham estabelecido, tanto para si mesmos, como para seus descendentes, com os jejuns e as lamentações.
32. Desse modo, a ordem de Ester confirmou a instituição dos Purim, e tudo isso foi consignado num livro.

 
Capítulo 10

1. O rei Assuero impôs um tributo sobre o continente e sobre as ilhas do mar.
2. Tudo o que concerne a seu poder e suas façanhas e os detalhes sobre a elevação de Mardoqueu pelo rei estão escritos no livro das Crônicas dos reis dos medos e dos persas.
3. Porque o judeu Mardoqueu era o primeiro depois do rei Assuero. Ele gozava de grande consideração entre os judeus e era amado pela multidão de seus irmãos. Procurava o bem de seu povo e falava a favor da felicidade de toda a sua nação.
4. E Mardoqueu disse: De Deus veio tudo isso.
5. Lembro-me de um sonho que tive a esse respeito. Nada foi omitido:
6. a pequena fonte tornada um rio, a luz, o sol, a massa de água. O rio é Ester que o rei tomou por esposa e a quem tornou rainha.
7. Amã e eu, eis as duas serpentes.
8. Os povos são aqueles que se reuniram para destruir o nome dos judeus.
9. Minha nação é Israel que invocou o Senhor e que foi salva; porque o Senhor salvou seu povo e nos livrou de todos esses males. Deus fez prodígios e maravilhas, como não fez semelhantes entre todas as nações.
10. Porque Deus preparou dois destinos: um para seu povo e outro para todas as nações.
11. E esses dois destinos se cumpriram na hora, no tempo e no dia marcados por Deus para todas as nações.
12. Então o Senhor lembrou-se dos seus e fez justiça à sua herança.
13. E esses dias do mês de Adar, o catorze e o quinze, serão celebrados em comum, no povo de Israel, com gozo e alegria diante de Deus, em todas as gerações, para sempre.

 
Capítulo 11

1. No quarto ano do reino de Ptolomeu e de Cleópatra, Dositeu que se dizia sacerdote e levita, e igualmente seu filho, Ptolomeu, trouxeram a presente carta concernente aos Purim, dizendo que ela tinha sido traduzida por Lisímaco, filho de Ptolomeu, em Jerusalém.
2. No segundo ano do reino de Assuero, o grande rei, no primeiro dia do mês de Nisã, Mardoqueu, filho de Jair, filho de Semei, filho de Cis, da tribo de Benjamim, teve um sonho.
3. Havia um judeu, estabelecido em Susa, grande personagem, adido à corte do rei.
4. Era do número dos cativos que Nabucodonosor, rei de Babilônia, tinha deportado de Jerusalém com o rei Jeconias, de Judá.
5. Esta foi sua visão: clamores repentinos, tumultos, trovões, um tremor de terra, o terror por toda a terra.
6. Em seguida, repentinamente, avançaram dois grandes dragões, dispostos para acometer um ao outro.
7. Ao grito que lançaram, as nações se comoveram para combater contra a nação dos justos.
8. Foi um dia de escuridão e trevas: tribulação, angústia, perigo e terror sobre toda a terra.
9. O povo inteiro dos justos, cheio de terror, temendo todos os males, julgou-se a ponto de perecer,
10. e clamou a Deus. Enquanto levantavam clamores, eis que uma pequenina fonte toma proporções de um grande rio, uma massa de água.
11. A luz apareceu com o sol; os que estavam na humilhação foram exaltados e devoraram os nobres.
12. Depois de ter visto esse sonho e o que Deus queria fazer, Mardoqueu se levantou. Até a noite conservou esse sonho gravado no seu espírito, procurando conhecer o seu sentido.

 
Capítulo 12

1. Morava então Mardoqueu na corte com Bigtã e Tares, dois eunucos do rei, porteiros do palácio.
2. Teve conhecimento de seus projetos e penetrou em seus desígnios; descobriu que eles se propunham a levantar a mão contra o rei Assuero e os denunciou.
3. O rei fez o inquérito. Eles confessaram e foram conduzidos ao suplício.
4. O rei mandou registrar esses acontecimentos na Crônica e Mardoqueu tomou também nota disso.
5. O rei lhe assinou uma função no seu palácio e em prêmio de seus serviços lhe fez presentes.
6. Mas Amã, filho de Amedata, o agagita, que gozava da consideração do rei, odiava Mardoqueu e seu povo por causa dos dois eunucos reais que tinham sido condenados à morte.

 
Capítulo 13

1. Assuero, o grande rei, a seus vassalos, os sátrapas e os governadores das cento e vinte e sete províncias, da Índia até a Etiópia, manda o que se segue:
2. Embora eu seja o chefe de numerosas nações e tenha submetido o mundo inteiro, não quero de modo algum abusar da grandeza de meu poder. Quero, por um governo de clemência e de doçura, oferecer a meus súditos uma existência de tranqüilidade perpétua; e, procurando para meu reino, até seus confins, a calma e a segurança, garantir a paz, cara a todos os mortais.
3. Tenho, pois, perguntado a meus conselheiros como isso se podia realizar, e um deles, chamado Amã, superior a todos por sua sabedoria e fidelidade, que ocupa o primeiro lugar depois do rei,
4. me fez conhecer que há um povo mal-intencionado, disperso entre os outros povos do mundo, de costumes contrários aos dos outros, que despreza continuamente as ordens dos reis, a ponto de ameaçar a concórdia que reina em nosso império.
5. Tendo, portanto, sabido que essa única nação, em oposição perpétua com o resto do gênero humano, destruindo os costumes por leis estranhas, malévola para com tudo o que nos diz respeito, comete as piores desordens e compromete assim a ordem pública do reino;
6. por essas razões, ordenamos que todos aqueles que vos são indicados pelas cartas de Amã (o homem que está à frente de nossos interesses e que nos é um segundo pai), sejam todos radicalmente exterminados, mesmo mulheres e crianças, pela espada de seus inimigos, sem nenhuma compaixão, nem clemência, no dia catorze do duodécimo mês, chamado de Adar, do presente ano.
7. Desse modo, esse povo, nosso inimigo de outrora e de agora, lançado violentamente, num mesmo dia, na região dos mortos, deixará para o futuro prosperarem em paz nossos negócios.
8. Então Mardoqueu orou ao Senhor, recordando tudo o que havia feito:
9. Senhor, disse, Senhor, rei todo-poderoso, tudo está realmente no vosso poder, e ninguém pode resistir à vossa vontade, se tendes resolvido salvar Israel.
10. Fizestes o céu e a terra e todas as maravilhas que se acham sob a abóbada celeste.
11. Sois o Senhor universal e ninguém poderia opor-se a vós, o Senhor.
12. Conheceis tudo e sabeis que não foi nem por espírito de soberba, nem por presunção, nem por vanglória que recusei prostrar-me diante do orgulhoso Amã.
13. Voluntariamente para salvar Israel, eu beijaria os vestígios de seus pés.
14. Mas procedi assim por temor de colocar a honra de um homem acima da honra de Deus; não adorarei jamais a ninguém senão vós. E, contudo, não farei isso por orgulho.
15. E agora, Senhor, que sois meu Deus e meu rei, Deus de Abraão, poupai vosso povo, pois nossos inimigos nos querem arruinar e destruir vossa antiga herança.
16. Não desprezeis a vossa porção, que vós resgatastes do Egito.
17. Ouvi minha oração! Sede propício para com a partilha de vossa herança, e mudai em gozo nossa dor, a fim de vivermos para celebrar vosso nome, Senhor, e não fecheis a boca daqueles que vos louvam, ó Senhor!
18. Todo o Israel clamava também ao Senhor, com grandes vozes, porque tinham a morte diante dos olhos.

 
Capítulo 14

1. Por sua parte, a rainha Ester, tomada de uma angústia mortal, recorreu ao Senhor.
2. Depôs suas vestes suntuosas e vestiu roupas de aflição e de pesar. Em lugar de essências preciosas, cobriu a cabeça de cinza e de lama; afligiu duramente seu corpo e por todos os lugares onde costumava alegrar-se espalhou os cabelos que se arrancava.
3. Dirigiu esta prece ao Senhor, Deus de Israel: Meu Senhor, nosso único rei, assisti-me no meu desamparo, porque não tenho outro socorro senão vós,
4. e o perigo que me ameaça eu o toco já com as mãos.
5. Ouvi desde criança, no seio da minha família, que vós, Senhor, tendes escolhido Israel entre todas as nações, e nossos pais, entre todos os seus antepassados, para deles fazer vossa herança perpétua e que tendes executado todas as vossas promessas.
6. Agora pecamos na vossa presença e nos tendes entregado nas mãos de nossos inimigos,
7. por termos adorado seus deuses. Vós sois justo, Senhor.
8. Ora, presentemente não lhes basta a amargura de nossa escravidão, mas colocaram suas mãos sobre as mãos dos ídolos,
9. em sinal de que querem abolir o que vossos lábios decretaram, aniquilar vossa herança, fechar a boca daqueles que vos louvam, extinguir a glória de vosso templo e de vosso altar,
10. a fim de proclamar pela boca dos povos pagãos o poder de seus ídolos e de magnificar eternamente um rei de carne.
11. Ó Senhor, não entregueis vosso cetro aos povos que são nada! Que não se riam de nossa ruína! Fazei cair sobre eles o seu projeto e tornai um escarmento para todo aquele que por primeiro nos atacou.
12. Lembrai-vos de nós, Senhor! Manifestai-vos no dia da tribulação! Dai-nos coragem, Senhor, rei dos deuses e dominador de todo principado!
13. Colocai em seus lábios palavras prudentes na presença do leão e fazei passar seu coração para o ódio daquele que nos é hostil, a fim de que ele pereça, ele e todos os seus parceiros.
14. E a nós, que a vossa mão nos livre! Assisti-me no meu abandono, a mim que não tenho senão a vós, Senhor. Conheceis tudo:
15. sabeis que detesto a glória dos ímpios e que tenho horror ao leito dos incircuncisos e estrangeiros.
16. Conheceis a necessidade a que estou reduzida e como abomino a insígnia da dignidade que está sobre minha cabeça nos dias em que devo aparecer em público. Sim, eu a abomino como um pano manchado e não a levo nos dias de meu retiro.
17. Vossa serva não comeu à mesa de Amã, nem honrou com sua presença os banquetes do rei, nem bebeu o vinho das libações.
18. Jamais, desde o dia de sua elevação até hoje, vossa serva não experimentou alegria a não ser em vós, Senhor, Deus de Abraão.
19. Ó Deus, que sois poderoso sobre todas as coisas, ouvi a voz daqueles que não têm outra esperança; livrai-nos das mãos dos malvados, e livrai-me de minha angústia.

 
Capítulo 15

1. Mardoqueu mandou pedir a Ester que fosse ter com o rei para lhe pedir graça e suplicar em favor de sua pátria.
2. Recorda-te, lhe mandou dizer, do tempo de tua humilhação, como eras alimentada por minhas mãos. Amã, o primeiro dignitário após o rei, falou contra nós para nossa ruína.
3. Roga, pois, ao Senhor e fala ao rei por nós; salva-nos da morte!
4. No terceiro dia, terminando sua prece, Ester despiu suas vestes de dor e revestiu suas vestiduras de cerimônia.
5. Assim adornada, depois de ter invocado a Deus, árbitro e salvador universal, tomou consigo suas duas servas.
6. Apoiava-se sobre uma, como uma pessoa delicada,
7. ao passo que a outra a seguia, levando a cauda de seu vestido.
8. Estava rosada como uma flor de beleza, de rosto alegre e atraente, mas com o coração angustiado pelo temor.
9. Passou, pois, todas as portas e se apresentou diante do rei. Assuero estava assentado em seu trono, revestido de todos os ornamentos de sua majestade, coberto de ouro e de pedrarias e seu aspecto era imponente.
10. Logo que o rei levantou a cabeça radiante de esplendor e dirigiu seu olhar cheio de cólera, a rainha, mudando de cor, desfaleceu e se deixou cair sobre os ombros da criada que a acompanhava.
11. Deus mudou, então, em doçura a cólera do rei. Todo perturbado, levantou-se precipitadamente de seu trono e a tomou nos braços até que ela voltou a si, procurando acalmar seu temor com doces palavras:
12. Que tens, Ester, lhe disse. Sou teu irmão. Não temas:
13. não morrerás, porque nossa ordem não concerne senão ao comum do povo.
14. Vem.
15. Levantou o cetro de ouro e o aproximou de seu pescoço e a beijou, dizendo: Fala-me.
16. Meu Senhor, eu te vi como um anjo de Deus e o temor de tua majestade pôs no avesso meu coração.
17. Porque és maravilhoso, Senhor, e teu rosto está cheio de graça.
18. Dizendo essas palavras, desfaleceu de novo sem sentidos,
19. o que encheu o rei de consternação, enquanto todos os seus servos procuravam reanimá-la.

 
Capítulo 16

1. Eis a cópia da carta: Assuero, o grande rei, aos cento e vinte e sete sátrapas, aos governadores das províncias, desde a Índia até a Etiópia, e a todos os que dirigem nossos negócios, saudação.
2. Há muitos que, cumulados de honras pela grande bondade de seus benfeitores, tornaram-se arrogantes.
3. Não somente se deram a oprimir nossos súditos, mas, incapazes de se contentar com as honras recebidas, urdiram maquinações contra aqueles que os tinham beneficiado.
4. E não contentes de banir do meio dos homens o sentimento de gratidão, chegam até a imaginar, na inchação faustosa de uma sorte inesperada, poder escapar à justa vingança do Deus que tudo vê.
5. Muitas vezes, as insinuações dos encarregados de administrar os interesses de seus amigos arrastaram a calamidades irremediáveis os que detêm o poder e os tornaram cúmplices da morte de inocentes,
6. abusando, por uma mentirosa malícia, da simplicidade e da probidade dos príncipes.
7. Isso é o que se pode verificar, não tanto pelas relações passadas que chegaram até nós, como acabamos de recordar, quando examinamos os fatos criminosos, de vós conhecidos, perpetrados por essa calamidade de homens indignamente revestidos de autoridade.
8. Em conseqüência disso, é necessário vigiar para assegurar no futuro, para todos, a tranqüilidade e a paz do reino,
9. realizando mudanças e julgando prudentemente os acontecimentos que se apresentam, para enfrentá-los sempre com eqüidade.
10. Ora, pois, é assim que o macedônio Amã, filho de Amedata, homem verdadeiramente estranho ao sangue dos persas e muito alheio à nossa bondade – embora gozasse de nossa hospitalidade e
11. fosse favorecido de nossa universal benevolência a ponto de ser chamado nosso pai e de ver todos se curvarem diante dele até a terra, como quem ocupa o lugar da segunda pessoa depois do trono real -
12. não soube conter sua presunção e intentou privar-nos tanto do poder como da vida.
13. Por insinuações cautelosas e sutis, procurou a morte de nosso salvador e grande benfeitor Mardoqueu, como também a de Ester, a irrepreensível companheira de nosso reino e de toda a sua nação.
14. Pensava surpreender-nos assim, isolados, para transferir o império dos persas aos macedônios.
15. Mas esses judeus que o criminoso votava à morte, verificamos que não eram de modo algum malfazejos, mas pelo contrário dirigidos por leis muito cheias de eqüidade,
16. e que eles são os filhos do Altíssimo Deus vivo, o qual nos conserva a nós, como a nossos antepassados, este reino em grande prosperidade.
17. Fareis, portanto, bem, não levando em conta as cartas enviadas por Amã, filho de Amedata,
18. visto que o autor desse crime foi suspenso numa forca diante das portas de Susa, com toda a sua família, tendo-lhe Deus, o Senhor universal, infligido prontamente o castigo que merecia.
19. Que uma cópia deste presente edito seja afixada por toda parte: deixai os judeus observar suas leis com toda a liberdade
20. e prestai-lhes assistência para que se possam defender contra todos os que os ataquem no dia marcado para a ruína deles, isto é, no dia treze do duodécimo mês, chamado Adar.
21. Porque esse dia, marcado para a perda da raça escolhida, Deus, o Senhor universal, o trocou em dia de alegria.
22. Por conseguinte, celebrareis esse dia memorável com grande alegria, como uma de vossas solenidades,
23. a fim de que agora e daqui em diante seja um dia de salvação para nós e para os persas de boa vontade e uma recordação da ruína dos que maquinaram contra nós.
24. Toda cidade e toda província que não observar estas ordens será entregue à furiosa devastação do ferro e do fogo; desse modo se tornará não somente inacessível aos homens, mas ainda horror perpétuo para os animais selvagens e para as aves.

 

I Livro dos Macabeus

I Livro dos Macabeus

 Capítulo 1

1. Ora, aconteceu que, já senhor da Grécia, Alexandre, filho de Filipe da Macedônia, oriundo da terra de Cetim, derrotou também Dario, rei dos persas e dos medos e reinou em seu lugar.
2. Empreendeu inúmeras guerras, apoderou-se de muitas cidades e matou muitos reis.
3. Avançou até os confins da terra e apoderou-se das riquezas de vários povos, e diante dele silenciou a terra. Tornando-se altivo, seu coração ensoberbeceu-se.
4. Reuniu um imenso exército,
5. impôs seu poderio aos países, às nações e reis, e todos se tornaram seus tributários.
6. Enfim, adoeceu e viu que a morte se aproximava.
7. Convocou então os mais considerados dentre os seus cortesãos, companheiros desde sua juventude, e, ainda em vida, repartiu entre eles o império.
8. Alexandre havia reinado doze anos ao morrer.
9. Seus familiares receberam cada qual seu próprio reino.
10. Puseram todos o diadema depois de sua morte, e, após eles, seus filhos durante muitos anos; e males em quantidade multiplicaram-se sobre a terra.
11. Desses reis originou-se uma raiz de pecado: Antíoco Epífanes, filho do rei Antíoco, que havia estado em Roma, como refém, e que reinou no ano cento e trinta e sete do reino dos gregos.
12. Nessa época saíram também de Israel uns filhos perversos que seduziram a muitos outros, dizendo: Vamos e façamos alianças com os povos que nos cercam, porque, desde que nós nos separamos deles, caímos em infortúnios sem conta.
13. Semelhante linguagem pareceu-lhes boa,
14. e houve entre o povo quem se apressasse a ir ter com o rei, o qual concedeu a licença de adotarem os costumes pagãos.
15. Edificaram em Jerusalém um ginásio como os gentios, dissimularam os sinais da circuncisão, afastaram-se da aliança com Deus, para se unirem aos estrangeiros e venderam-se ao pecado.
16. Quando seu reino lhe pareceu bem consolidado, concebeu Antíoco o desejo de possuir o Egito, a fim de reinar sobre dois reinos.
17. Entrou, pois, no Egito com um poderoso exército, com carros, elefantes, cavalos e uma numerosa esquadra.
18. Investiu contra Ptolomeu, rei do Egito, o qual, tomado de pânico, fugiu. Foram muitos os que sucumbiram sob seus golpes.
19. Tornou-se ele senhor das fortalezas do Egito, e apoderou-se das riquezas do país.
20. Após ter derrotado o Egito, pelo ano cento e quarenta e três, regressou Antíoco e atacou Israel, subindo a Jerusalém com um forte exército.
21. Penetrou cheio de orgulho no santuário, tomou o altar de ouro, o candelabro das luzes com todos os seus pertences,
22. a mesa da proposição, os vasos, as alfaias, os turíbulos de ouro, o véu, as coroas, os ornamentos de ouro da fachada, e arrancou as embutiduras.
23. Tomou a prata, o ouro, os vasos preciosos e os tesouros ocultos que encontrou.
24. Arrebatando tudo consigo, regressou à sua terra, após massacrar muitos judeus e pronunciar palavras injuriosas
25. Foi isso um motivo de desolação em extremo para todo o Israel.
26. Príncipes e anciãos gemeram, jovens e moças perderam sua alegria e a beleza das mulheres empanou-se.
27. O recém-casado lamentava-se, e a esposa chorava no leito nupcial.
28. A própria terra tremia por todos os seus habitantes e a casa de Jacó cobriu-se de vergonha.
29. Dois anos após, Antíoco enviou um oficial a cobrar o tributo nas cidades de Judá. Chegou ele a Jerusalém com uma numerosa tropa;
30. dirigiu-se aos habitantes com palavras pacíficas, mas astuciosas, nas quais acreditaram; em seguida lançou-se de improviso sobre a cidade, pilhou-a seriamente e matou muita gente.
31. Saqueou-a, incendiou-a, destruiu as casas e os muros em derredor.
32. Seus soldados conduziram ao cativeiro as mulheres e as crianças e apoderaram-se dos rebanhos.
33. Cercaram a Cidade de Davi com uma grande e sólida muralha, com possantes torres, tornando-se assim ela sua fortaleza.
34. Instalaram ali uma guarnição brutal de gente sem leis, fortificaram-se aí;
35. e ajuntaram armas e provisões. Reunindo todos os espólios do saque de Jerusalém, ali os acumularam. Constituíram desse modo uma grande ameaça.
36. Serviram de cilada para o templo, e um inimigo constantemente incitado contra o povo de Israel,
37. derramando sangue inocente ao redor do templo e profanando o santuário.
38. Por causa deles, os habitantes de Jerusalém fugiram, e só ficaram lá os estrangeiros. Jerusalém tornou-se estranha a seus próprios filhos e estes a abandonaram.
39. Seu templo ficou desolado como um deserto, seus dias de festa se transformaram em dias de luto, seus sábados, em dias de vergonha, e sua glória em desonra.
40. Quanto fora ela honrada, agora foi desprezada, e sua exaltação converteu-se em tormento.
41. Então o rei Antíoco publicou para todo o reino um edito, prescrevendo que todos os povos formassem um único povo e
42. que abandonassem suas leis particulares. Todos os gentios se conformaram com essa ordem do rei, e
43. muitos de Israel adotaram a sua religião, sacrificando aos ídolos e violando o sábado.
44. Por intermédio de mensageiros, o rei enviou, a Jerusalém e às cidades de Judá, cartas prescrevendo que aceitassem os costumes dos outros povos da terra,
45. suspendessem os holocaustos, os sacrifícios e as libações no templo, violassem os sábados e as festas,
46. profanassem o santuário e os santos,
47. erigissem altares, templos e ídolos, sacrificassem porcos e animais imundos,
48. deixassem seus filhos incircuncidados e maculassem suas almas com toda sorte de impurezas e abominações, de maneira
49. a obrigarem-nos a esquecer a lei e a transgredir as prescrições.
50. Todo aquele que não obedecesse à ordem do rei seria morto.
51. Foi nesse teor que o rei escreveu a todo o seu reino; nomeou comissários para vigiarem o cumprimento de sua vontade pelo povo e coagirem as cidades de Judá, uma por uma, a sacrificar.
52. Houve muitos dentre o povo que colaboraram com eles e abandonaram a lei. Fizeram muito mal no país, e
53. constrangeram os israelitas a se refugiarem em asilos e refúgios ocultos.
54. No dia quinze do mês de Casleu, do ano cento e quarenta e cinco, edificaram a abominação da desolação por sobre o altar e construíram altares em todas as cidades circunvizinhas de Judá.
55. Ofereciam sacrifícios diante das portas das casas e nas praças públicas,
56. rasgavam e queimavam todos os livros da lei que achavam;
57. em toda parte, todo aquele em poder do qual se achava um livro do testamento, ou todo aquele que mostrasse gosto pela lei, morreria por ordem do rei.
58. Com esse poder que tinham, tratavam assim, cada mês, os judeus que eles encontravam nas cidades
59. e, no dia vinte e cinco do mês, sacrificavam no altar, que sobressaía ao altar do templo.
60. As mulheres, que levavam seus filhos a circuncidar, eram mortas conforme a ordem do rei,
61. com os filhos suspensos aos seus pescoços. Massacravam-se também seus próximos e os que tinham feito a circuncisão.
62. Numerosos foram os israelitas que tomaram a firme resolução de não comer nada que fosse impuro, e preferiram a morte antes que se manchar com alimentos;
63. não quiseram violar a santa lei e foram trucidados.
64. Caiu assim sobre Israel uma imensa cólera.

 
Capítulo 2

1. Foi nessa época que se levantou Matatias, filho de João, filho de Simeão, sacerdote da família de Joarib, que veio de Jerusalém se estabelecer em Modin.
2. Tinha ele cinco filhos: João, apelidado Gadis,
3. Simão, alcunhado Tasi,
4. Judas, chamado Macabeu,
5. Eleazar, cognominado Avarã, e Jônatas, chamado Afos.
6. Vendo as abominações praticadas em Judá e em Jerusalém, exclamou: Ai de mim, por que nasci eu, para ver a ruína de meu povo e da cidade santa,
7. e ficar sem fazer nada, enquanto ela é entregue ao poder de seus inimigos
8. e seu centro religioso abandonado aos estrangeiros? Seu templo tornou-se como um homem desonrado
9. e os vasos sagrados, que eram o motivo de seu orgulho, levados como para um cativeiro; seus filhos foram trucidados nas ruas e os seus jovens sucumbiram ao gládio do inimigo.
10. Que povo há que não tenha herdado de seus atributos reais, que não se tenha apoderado dos seus despojos?
11. Toda a sua glória desapareceu e, de livre que era, tornou-se escrava.
12. Eis que tudo o que tínhamos de sagrado, de belo, de glorioso, foi assolado e profanado pelas nações.
13. Por que viver ainda?
14. Matatias e seus filhos rasgaram suas vestes, cobriram-se de sacos, e choravam amargamente.
15. Sobrevieram enviados do rei a Modin, para impor a apostasia e obrigar a sacrificar.
16. Muitos dos israelitas uniram-se a eles, mas Matatias e seus filhos permaneceram firmes.
17. Em resposta disseram-lhe os que vinham da parte do rei: Possuis nesta cidade notável influência e consideração, teus irmãos e teus filhos te dão autoridade.
18. Vem, pois, como primeiro, executar a ordem do rei, como o fizeram todas as nações, os habitantes de Judá e os que ficaram em Jerusalém. Serás contado, tu e teus filhos, entre os amigos do rei; a ti e aos teus filhos o rei vos honrará, cumulando-vos de prata, de ouro e de presentes.
19. Matatias respondeu-lhes: Ainda mesmo que todas as nações que se acham no reino do rei o escutassem, de modo que todos renegassem a fé de seus pais e aquiescessem às suas ordens,
20. eu, meus filhos e meus irmãos, perseveraremos na Aliança concluída por nossos antepassados.
21. Que Deus nos preserve de abandonar a lei e os mandamentos!
22. Não obedeceremos a essas ordens do rei e não nos desviaremos de nossa religião, nem para a direita, nem para a esquerda.
23. Mal acabara de falar, eis que um judeu se adiantou para sacrificar no altar de Modin, à vista de todos, conforme as ordens do rei.
24. Viu-o Matatias e, no ardor de seu zelo, sentiu estremecerem-se suas entranhas. Num ímpeto de justa cólera arrojou-se e matou o homem no altar.
25. Matou ao mesmo tempo o oficial incumbido da ordem de sacrificar e demoliu o altar.
26. Com semelhante gesto mostrou ele seu amor pela lei, como agiu Finéias a respeito de Zamri, filho de Salum.
27. Em altos brados Matatias elevou a voz então na cidade: Quem for fiel à lei e permanecer firme na Aliança, saia e siga-me.
28. Assim, com seus filhos, fugiu em direção às montanhas, abandonando todos os seus bens na cidade.
29. Então, uma grande parte dos que procuravam a lei e a justiça, encaminhou-se para o deserto.
30. Ali refugiaram-se, com seus filhos, suas mulheres e seus rebanhos, porque a perseguição se encarniçava contra eles.
31. Contaram aos oficiais do rei e às forças acantonadas em Jerusalém, na cidadela de Davi, que certo número de judeus, culpáveis de terem transgredido a ordem real, havia descido ao deserto, para ali se ocultar e que muitos se haviam precipitado em seu seguimento.
32. Os sírios arremessaram-se ao encalço deles e os alcançaram, depois se prepararam para agredi-los no dia de sábado.
33. Isso basta, agora, gritaram-lhes eles, saí, obedecei à ordem do rei, e vivereis.
34. Não sairemos, replicaram os judeus, e nem obedeceremos ao rei, com a profanação do dia de sábado.
35. Instantaneamente os sírios travaram combate contra eles;
36. mas eles não responderam, não atiraram uma pedra e não barricaram seu refúgio.
37. Que morramos todos inocentes! O céu e a terra nos servirão de testemunha, de que nos matais injustamente.
38. E foi assim que os inimigos se lançaram sobre eles em dia de sábado, morrendo eles, suas mulheres e seus filhos, com seu gado, em número de mil.
39. Matatias e seus amigos o souberam e comoveram-se muito;
40. mas disseram uns aos outros: Se todos nós agirmos como nossos irmãos, e se não pelejarmos contra os estrangeiros para pormos a salvo nossas vidas e nossas leis, exterminar-nos-ão bem depressa da terra.
41. Tomaram, pois, naquele dia a seguinte resolução: Mesmo que nos ataquem em dia de sábado, pugnaremos contra eles e não nos deixaremos matar a todos nós, como o fizeram nossos irmãos no seu esconderijo.
42. Então se ajuntou a eles o grupo dos judeus assideus, particularmente valentes em Israel, apegados todos à lei;
43. e todos os que fugiam das perseguições se ajuntaram do mesmo modo a eles e os reforçaram.
44. Formaram, pois, um exército e na sua ira e indignação massacraram certo número de prevaricadores e de traidores da lei; os outros procuraram refúgio junto aos estrangeiros.
45. Assim Matatias e seus amigos percorreram o país, destruíram os altares e
46. circuncidaram à força as crianças, ainda incircuncisas nas fronteiras de Israel,
47. e perseguiram os sírios orgulhosos. Sua empresa alcançou bom êxito.
48. Arrancaram a lei do poder dos gentios e dos reis, e não permitiram que prevalecesse o mal.
49. Ora, chegou para Matatias o dia de sua morte e ele disse a seus filhos: O que domina até este momento é o orgulho, o ódio, a desordem e a cólera.
50. Sede, pois, agora, meus filhos, os defensores da lei e dai vossa vida pela Aliança de vossos pais.
51. Recordai-vos dos feitos de vossos maiores em seu tempo, e merecereis uma grande glória e um nome eterno.
52. Porventura, não foi na prova que Abraão foi achado fiel? E não lhe foi isso imputado em justiça?
53. José observou os mandamentos na sua desgraça e veio a ser o senhor do Egito.
54. Finéias, nosso antepassado, por ter sido inflamado de zelo, recebeu a promessa de um perpétuo sacerdócio.
55. Josué, cumprindo a palavra de Deus, veio a ser juiz em Israel.
56. Caleb deu testemunho na assembléia e herdou a terra.
57. Por todos os séculos, em vista de sua piedade, mereceu Davi o trono real.
58. Porque ardia em zelo pela lei, Elias foi arrebatado ao céu.
59. Ananias, Azarias e Mizael foram salvos das chamas por terem tido fé.
60. Daniel, na sua retidão, foi livre da boca dos leões.
61. Recordai-vos assim, de geração em geração, de que todos os que esperam em Deus não desfalecem.
62. Não receeis as ameaças do pecador, porque sua glória chega à lama e aos vermes:
63. hoje ele se eleva e amanhã desaparece, porque tornará ao pó, e seus planos são frustrados.
64. Quanto a vós, meus filhos, sede corajosos e destemidos em observar a lei, porque por ela chegareis à glória.
65. Aqui tendes Simão, irmão vosso, eu sei que ele é homem de conselho, ouvi-o sempre e será para vós um pai.
66. Judas Macabeu, bravo desde a juventude: será o general do exército e dirigirá a guerra contra os gentios.
67. Atraireis a vós todos os que observam a lei e vingareis vosso povo.
68. Pagai aos gentios o que nos fizeram e atendei aos preceitos da lei.
69. Depois disso abençoou-os e foi unir-se aos seus pais.
70. Morreu no ano cento e quarenta e seis. Seus filhos sepultaram-no em Modin, entre as sepulturas de seus antepassados, e todo o Israel o chorou dolorosamente.

 
Capítulo 3

1. Seu filho Judas, cognominado Macabeu, ficou em seu lugar.
2. Todos os seus irmãos o auxiliaram, bem como todos os que se tinham unido a seu pai, aceitando generosamente a promessa de combater por Israel.
3. Dilatou a glória do povo; revestiu-se com a couraça como um gigante, cingiu-se com as armas de guerra, e empenhava-se nos combates, protegendo seu exército com sua espada.
4. Assemelhava-se nas ações a um leão, e parecia um leãozinho que ruge na caçada.
5. Perseguia e rebuscava com cuidado os traidores e lançava ao fogo os que perseguiam seu povo.
6. Os maus recuavam diante dele transidos de medo, tremiam os que praticavam o mal e a salvação do povo firmava-se em suas mãos.
7. Seus feitos exasperavam os reis, mas alegravam Jacó, e sua memória permaneceu eternamente bendita.
8. Percorreu as cidades expulsando de Judá os ímpios, desviando assim de Israel a cólera divina.
9. Seu nome foi pronunciado até as extremidades da terra, e ele conseguiu a adesão daqueles que estavam a ponto de perecer.
10. Aconteceu que Apolônio convocou os gentios e, de Samaria, partiu com um grande exército para pelejar contra Israel.
11. Soube-o Judas, saiu-lhe ao encontro, venceu-o e o matou; muitos caíram aos seus golpes e os restantes puseram-se em fuga.
12. Apoderou-se dos espólios, tomou a espada de Apolônio, e desde então usava-a sempre nos combates.
13. Seron, general do exército sírio, veio a saber que Judas cercara-se de soldados fiéis convocados e que ele os levara ao combate.
14. Tornar-me-ei célebre, disse ele, e cobrir-me-ei de glória no reino, vencerei Judas com seus correligionários, que se opõem às ordens reais.
15. Armou-se ele para a guerra. Um poderoso exército de ímpios marchou com ele, para reforçar e tomar vingança dos filhos de Israel.
16. Avançaram até a muralha de Betoron e Judas, seguido de poucos homens, foi-lhe ao encontro.
17. Mas à vista do exército que vinha contra eles, os companheiros de Judas disseram-lhe: Como poderemos enfrentar tamanho exército, se somos tão poucos, tanto mais que nos sentimos fracos, porque hoje nada temos comido?
18. É fácil, respondeu Judas, a um punhado de gente fazer-se respeitar por muitos; para o Deus do céu não há diferença entre a salvação de uma multidão e de um punhado de homens,
19. porque a vitória no combate não depende do número, mas da força que desce do céu.
20. Esta gente vem contra nós, com insolência e orgulho, para nos aniquilar, juntamente com nossas mulheres e nossos filhos, e para nos despojar;
21. nós, porém, lutamos por nossas vidas e nossas leis.
22. O próprio Deus os esmagará aos nossos olhos. Não os temais.
23. E logo que cessara de falar, arrojou-se Judas com rapidez sobre os inimigos, e Seron diante dele foi derrotado com seu exército;
24. e Judas o perseguiu na descida de Betoron até a planície. Morreram cerca de oitocentos sírios e os restantes fugiram para a terra dos filisteus.
25. E foi assim que se espalhou o terror de Judas e dos seus irmãos e todos os povos das vizinhanças encheram-se de consternação.
26. Seu nome chegou aos ouvidos do rei, e todas as nações comentaram os feitos heróicos de Judas.
27. Quando o rei Antíoco soube dessas novas, encolerizou-se terrivelmente, reuniu todas as forças do reino, de que formou um exército poderosíssimo.
28. Abriu seu tesouro, e deu ao exército o soldo de um ano com a ordem de estarem prontos para qualquer eventualidade.
29. No entanto viu que lhe faltava dinheiro no tesouro e que os tributos do território eram deficientes em vista das perturbações e da maldade que havia provocado, suprimindo em toda a parte as instituições em vigor, desde outrora.
30. Receou, portanto, não poder pagar as despesas, como fizera já uma ou duas vezes, e outorgar as liberalidades, que distribuía em certo tempo com mão generosa, porque excedia em liberalidade a todos os reis, seus predecessores.
31. Profundamente consternado, resolveu ir à Pérsia cobrar os tributos dessas regiões e ajuntar muito dinheiro.
32. Deixou Lísias, pessoa de relevo, de linhagem real, para dirigir os negócios do reino, do Eufrates às fronteiras do Egito,
33. e ocupar-se, até sua volta, de seu filho Antíoco.
34. Deixou-lhe a metade do exército do reino, com os elefantes, e deu-lhe as instruções referentes à execução de suas vontades, especialmente o que dizia respeito aos habitantes da Judéia e de Jerusalém:
35. ele devia enviar um exército contra eles, para destruir e aniquilar o poderio de Israel e o que restava de Jerusalém, e apagar desses lugares até a sua lembrança
36. e estabelecer em todos os seus confins estrangeiros, aos quais distribuiria por meio de sorte as terras.
37. O rei tomou a outra metade do exército, partiu de Antioquia, capital de seu reino, pelo ano cento e quarenta e sete, passou o Eufrates e atravessou as terras superiores.
38. Lísias escolheu Ptolomeu, filho de Dorímino, Nicanor e Górgias, valorosos generais e familiares do rei;
39. enviou com estes quarenta mil homens e sete mil cavaleiros para invadir e devastar o país de Judá, conforme a ordem do rei.
40. Postos a caminho com todas essas tropas, chegaram à planície de Emaús e penetraram nela.
41. Quando os mercadores ouviram falar deles, tomaram muita prata e ouro e se dirigiram com peias ao campo para comprar os filhos de Israel como escravos. Exércitos da Síria, bem como do estrangeiro, vieram juntar-se a eles.
42. Judas e seus irmãos viram que a situação era grave e que as forças inimigas acampavam dentro de suas fronteiras. Sabendo também como o rei havia ordenado de tratar o povo para destruí-lo e exterminá-lo,
43. disseram uns aos outros: Levantemos nossa pátria de seu abatimento e lutemos por nosso povo e nossa religião.
44. Convocaram então toda a gente, a fim de se prepararem para a luta, de rezarem, de implorarem piedade e misericórdia de Deus.
45. Porquanto Jerusalém estava desabitada e deserta: não havia um só de seus filhos que nela entrasse ou dela saísse. Seu santuário estava profanado, soldados estrangeiros ocupavam a cidadela, gentios faziam ali sua habitação. Toda a alegria havia desaparecido de Jacó; a flauta e a harpa estavam caladas.
46. Os israelitas se ajuntaram, pois, e se dirigiram a Masfa, defronte de Jerusalém, porque tinham tido outrora, em Masfa, um lugar de oração.
47. Jejuaram aquele dia, vestiram-se com sacos, cobriram a cabeça com cinza e rasgaram suas vestes.
48. Abriram um dos livros da Lei, para ler nele o que os gentios perguntavam às representações de seus falsos deuses;
49. trouxeram os ornamentos sacerdotais, as primícias e os dízimos e mandaram vir os nazarenos que haviam cumprido o tempo de seu voto;
50. em seguida sua voz se elevou com força ao céu: Que havemos nós de fazer destas ofertas e para onde vamos nós levá-las?
51. Vosso santuário está profanado e manchado, vossos sacerdotes estão em luto e na humilhação,
52. as nações se coligaram para nos aniquilar e vós sabeis o que elas tramam contra nós.
53. Como resistir diante deles, se vós não vierdes em nosso auxílio?
54. Então eles soaram a trombeta e fizeram um grande clamor.
55. Depois disso Judas nomeou chefes para grupos de mil, cem, cinqüenta e dez homens,
56. e disse aos que acabavam de construir uma casa, de tomar mulher, plantar uma vinha, ou que tinham medo, que voltassem cada qual para sua casa, conforme a lei.
57. Os israelitas se puseram então a caminho e vieram acampar ao sul de Emaús.
58. Preparai-vos, disse-lhes Judas, sede corajosos e estai prontos desde a manhã para o combate a essas nações que estão unidas para nos arruinar, a nós e tudo o que possuímos de sagrado;
59. porquanto é preferível morrer no combate, que ver nosso povo perseguido e profanado nosso santuário.
60. Que se faça somente a vontade de Deus!

 
Capítulo 4

1. Tomando consigo cinco mil homens e mil cavaleiros de elite, Górgias se pôs a caminho à noite
2. para surpreender o acampamento dos judeus e atacá-lo de improviso. A gente da cidadela servia-lhe de guia.
3. Mas Judas o soube, e com seus destemidos companheiros saiu para esmagar aquelas forças do rei que tinham ficado perto de Emaús,
4. enquanto as tropas estavam espalhadas na planície.
5. Chegou Górgias à noite ao acampamento de Judas, mas não encontrou ninguém; pôs-se então à sua procura nas montanhas, dizendo: Fugiram diante de nós.
6. Todavia Judas apareceu na planície ao despertar do dia com três mil homens, que, excetuando espadas e escudos, não estavam armados como o teriam querido;
7. entrementes viram eles o campo dos gentios poderoso, fortificado de cavalaria e os próprios inimigos prontos para o combate.
8. Não temais seu número, disse Judas a seus companheiros, e nem receeis seu choque.
9. Lembrai-vos como nossos pais foram salvos no mar Vermelho, quando o faraó os perseguia com seu exército.
10. Gritemos agora para o céu para que ele se apiade de nós, que se lembre da Aliança com nossos antepassados e queira hoje esmagar esse exército aos nossos olhos.
11. Todas as nações saberão que Israel possui um libertador e um salvador.
12. Erguendo os olhos, os gentios viram-nos avançar contra eles
13. e saíram do acampamento para a luta, enquanto os homens de Judas soavam a trombeta.
14. Travou-se a batalha, mas os inimigos, derrotados, puseram-se em fuga através da planície.
15. Os últimos tombaram todos sob a espada, enquanto eram perseguidos até Gazara e as planícies de Iduméia, de Azot e de Jânia. E sucumbiram cerca de três mil.
16. Então Judas parou de persegui-los, voltou atrás com suas tropas pelo mesmo caminho,
17. e disse: Não penseis nos despojos, porque outro combate nos aguarda:
18. Górgias está perto de nós na montanha, com suas forças. No momento, enfrentai o inimigo e combatei; após isto, podereis apoderar-vos de seus despojos, com toda a segurança.
19. Ainda Judas falava, quando alguns homens apareceram e olharam de cima da montanha.
20. Viram que o exército tinha sido posto em fuga e que o acampamento se queimava porque a fumaça que se percebia indicava o que se passara.
21. À vista disso todos foram tomados de grande espanto e, certificando-se de que o exército de Judas se achava na planície, pronto para o combate,
22. fugiram todos para terra estrangeira.
23. Judas voltou para pilhar o acampamento, e seus homens apoderaram-se de muito ouro, prata, jacinto, púrpura marinha, e de grandes riquezas.
24. Ao voltarem, cantavam hinos e elevavam ao céu os louvores do Senhor, porque ele é bom e sua misericórdia é eterna.
25. Israel foi, com efeito, naquele dia salvo de um grande perigo.
26. Os gentios que escaparam vieram contar a Lísias os acontecimentos,
27. o qual ficou consternado e abatido ouvindo-os, porque Israel não tinha sido tratado como ele quis, e porque as ordens do rei não tinham sido cumpridas.
28. Por isso, no ano seguinte, reuniu Lísias sessenta mil infantes escolhidos e cinco mil cavaleiros para acabar com os judeus.
29. Esse exército veio da Iduméia acampar em Betsur. Judas foi-lhe ao encontro com dez mil homens.
30. Tendo ante os olhos esse poderoso exército, rezou nestes termos: Sede bendito, Salvador de Israel, vós que quebrastes a força do poderoso pela mão do vosso servo Davi e entregastes os exércitos estrangeiros nas mãos de Jônatas e do seu escudeiro.
31. Entregai esse exército ao poder do povo de Israel e confundi nossos inimigos com suas tropas e sua cavalaria.
32. Inspirai-lhes o terror, fazei derreter seu orgulho audaz. Que eles sejam sacudidos e pisados.
33. Derribai-os sob a espada dos que vos amam e que todos aqueles que conhecem vosso nome cantem vossos louvores.
34. Travou-se então o combate, e do exército de Lísias tombaram cinco mil homens, que sucumbiram diante deles.
35. Vendo seu exército posto em fuga e os judeus cheios de bravura, prontos a viver ou a morrer valentemente, voltou Lísias a Antioquia para arregimentar tropas de mercenários, com o intuito de reaparecer na Judéia com um exército mais forte.
36. Judas e seus irmãos disseram então: Eis que nossos inimigos estão aniquilados; subamos agora a purificar e consagrar de novo os lugares santos.
37. Reunido todo o exército, subiram à montanha de Sião.
38. Contemplaram a desolação dos lugares santos, o altar profanado, as portas queimadas, os átrios cheios de arbustos que tinham nascido como num bosque ou sobre as colinas, os aposentos demolidos.
39. Rasgando suas vestes, eles se lamentaram muito e cobriram as cabeças com cinza,
40. prostraram-se com o rosto por terra, tocaram as trombetas e ergueram clamores ao céu.
41. Então Judas encarregou alguns homens de combater os soldados da cidadela, enquanto purificavam o templo.
42. Escolheu sacerdotes sem mancha e zelosos pela lei,
43. os quais purificaram o templo, transportando para um lugar impuro as pedras contaminadas.
44. Consultaram-se entre si, o que se deveria fazer do altar dos holocaustos, que havia sido profanado,
45. e tomaram a excelente resolução de demoli-lo, para que não recaísse sobre eles o opróbrio vindo da mancha dos gentios. Destruíram-no, portanto,
46. e transportaram suas pedras a um lugar conveniente sobre a montanha do templo, aguardando a decisão de algum profeta a esse respeito.
47. Tomaram pedras intactas, segundo a lei, e construíram um novo altar, semelhante ao primeiro.
48. Restauraram também o templo e o interior do templo e purificaram os átrios.
49. Fizeram novos vasos sagrados e transportaram ao santuário o candeeiro, o altar dos perfumes, e a mesa.
50. Queimaram incenso no altar, acenderam as lâmpadas do candeeiro, para alumiarem o templo,
51. colocaram pães sobre a mesa e suspenderam os véus, terminando completamente seu trabalho.
52. No dia vinte e cinco do nono mês, isto é, do mês de Casleu, do ano cento e quarenta e oito, eles se levantaram muito cedo,
53. e ofereceram um sacrifício legal sobre o novo altar dos holocautos, que haviam construído.
54. Foi no mesmo dia e na mesma data em que os gentios o haviam profanado, que o altar foi de novo consagrado ao som de cânticos, das harpas, das liras e dos címbalos.
55. Todo o povo se prostrou com o rosto em terra para adorar e bendizer no céu aquele que os havia conduzido ao triunfo.
56. Prolongaram por oito dias a dedicação do altar, oferecendo com alegria holocaustos e sacrifícios de ações de graças e de louvores.
57. Adornaram a fachada do templo com coroas de ouro e com pequenos escudos, consagraram as entradas do templo e os quartos, nos quais colocaram portas.
58. Reinou uma alegria imensa entre o povo e o opróbrio das nações foi afastado.
59. Foi estabelecido por Judas e seus irmãos, e por toda a assembléia de Israel que os dias da dedicação do altar seriam celebrados cada ano em sua data própria, durante oito dias, a partir do dia vinte e cinco do mês de Casleu, e isto com alegria e regozijo.
60. Na mesma época cercaram a montanha de Sião com uma alta muralha com fortes torres, para que não fosse mais possível às nações pisá-la aos pés, como outrora.
61. Judas pôs ali tropas para guardá-la e fortificou também Betsur para protegê-la, a fim de que o povo tivesse uma muralha do lado da Iduméia.

 
Capítulo 5

1. Ora, ouvindo falar da reconstrução do altar e da restauração do templo, os povos circunvizinhos encolerizaram-se muito, e,
2. tomada a resolução de exterminar toda a raça de Jacó, que vivesse entre eles, puseram-se a matá-los e a persegui-los.
3. Por eles perseguirem desse modo Israel, Judas atacou os filhos de Esaú na Iduméia, junto de Acrabatan, infligiu-lhes uma grande derrota, esmagou-os e apoderou-se de seus despojos.
4. Lembrou-se igualmente da malícia dos filhos de Bean, armadilha e perigo para seu povo, por causa das emboscadas que eles armavam nos caminhos.
5. Foram rechaçados em suas torres, onde ele os sitiou e os exterminou, queimando as torres com todos os que ali se achavam.
6. Em seguida atacou os amonitas, entre os quais ele descobriu um forte exército e numeroso povo, sob a chefia de Timóteo.
7. Travou com eles numerosos combates; foram aniquilados aos seus olhos e despedaçou-os.
8. Apoderou-se da cidade de Jazer e de seus arrabaldes e voltou depois à Judéia.
9. No entanto, as nações de Galaad se coligaram contra os israelitas, que habitavam seu território, com a intenção de exterminá-los, mas estes se refugiaram no forte de Datema
10. e enviaram uma mensagem a Judas e a seus irmãos, nestes termos: As nações que nos cercam se uniram contra nós e querem exterminar-nos.
11. Preparam-se para vir tomar a fortaleza, em que nos achamos refugiados. Timóteo chefia suas tropas.
12. Vinde, pois, agora nos livrar de suas mãos, porque muitos dos nossos foram mortos.
13. Mataram todos os nossos irmãos que se achavam na região de Tob, levaram consigo suas mulheres, seus filhos e seus bens e mataram, lá perto de cem mil homens.
14. Quando ainda se estava lendo essa carta, eis que chegam outros da Galiléia, com as vestes em farrapos e portadores de notícias idênticas,
15. dizendo: Congregaram-se contra nós nações de Ptolemaida, de Tiro, de Sidônia, e de toda a Galiléia das Nações, para nos destruir inteiramente.
16. Logo que Judas e o povo souberam da situação, organizaram uma grande assembléia, para deliberar sobre o que se deveria fazer em favor dos irmãos atacados e provados.
17. Disse Judas a seu irmão Simão: Escolhe homens e põe-te a caminho para livrar teus irmãos da Galiléia; Jônatas, meu irmão, e eu dirigir-nos-emos à terra de Galaad.
18. Para guardar a Judéia deixou ali José, filho de Zacarias, e Azarias, chefe do povo, à frente do resto do exército,
19. com esta ordem: Governai este povo e, até nossa volta, evitai toda luta com os gentios.
20. A Simão foram dados três mil homens, para se dirigir à Galiléia, e a Judas oito mil, para ocupar a terra de Galaad.
21. Simão tomou, portanto, o caminho da Galiléia e sustentou muitos combates, esmagando diante dele as nações,
22. as quais perseguiu até as portas de Ptolemaida. Perto de três mil gentios caíram e ele se apoderou de seus despojos.
23. Com grandes manifestações de regozijo, conduziu à Judéia os judeus que se achavam na Galiléia e em Arbates, bem como suas mulheres, seus filhos e tudo o que eles possuíam.
24. Por seu lado, Judas Macabeu e seu irmão Jônatas atravessaram o Jordão e andaram três dias pelo deserto.
25. Encontraram os nabateus, os quais se aproximaram deles pacificamente e lhes contaram tudo aquilo que tinha acontecido a seus irmãos em Galaad,
26. dizendo que muitos dentre eles haviam sido encerrados em Bosra e Bosor, em Alema, em Casfor, em Maked, e em Carnaim, todas elas cidades grandes e fortificadas.
27. Eles estão também reunidos, acrescentaram eles, nas outras cidades de Galaad. Seus inimigos se preparam para atacar amanhã suas fortificações, apoderar-se deles e exterminá-los num só dia.
28. Judas mudou de caminho e atravessou o deserto para alcançar Bosor de improviso. Tomou a cidade, mandou passar a fio de espada todos os homens, apoderou-se dos espólios e incendiou a cidade.
29. Na mesma noite partiu e atacou a fortaleza.
30. No entanto, ao romper do dia, seus homens, erguendo os olhos, viram uma multidão incalculável carregando escadas e máquinas para escalar de assalto a fortaleza, e começando já o ataque.
31. Enquanto a cidade erguia um clamor, misturado ao som da trombeta e um ruído formidável, viu Judas que o ataque estava começado
32. e disse a seus homens: Pelejai hoje por vossos irmãos.
33. Separou-os em três batalhões e apareceu na retaguarda do inimigo, tocando a trombeta e erguendo preces em alta voz.
34. O exército de Timóteo conheceu que era Macabeu e fugiu diante dele. Sofreu uma grande derrota e tombaram nesse dia oito mil homens.
35. Judas voltou-se em seguida para Alema; atacou-a e conquistou-a de assalto. Matou todos os homens, tomou seus despojos e incendiou-a.
36. Dali continuou e apoderou-se de Casfor, de Maked, de Bosor e das outras cidades de Galaad.
37. Depois de tudo o que temos acabado de dizer, Timóteo reuniu um novo exército, acampou do outro lado da corrente, defronte de Rafon.
38. Imediatamente Judas mandou alguém espionar sua posição, e vieram-lhe dizer: Todas as nações circunvizinhas se uniram contra nós formando um poderoso exército.
39. Tomaram em seu auxílio mercenários árabes, e se estabeleceram do outro lado do rio, prontos a atravessá-lo, para vir atacar-te. Judas foi então contra ele.
40. Ao chegar Judas com suas tropas à torrente, disse Timóteo, por sua vez, aos oficiais de seu exército: Se ele atravessar primeiro a torrente contra nós, nós não lhe poderemos resistir, porque terá vantagem sobre nós;
41. mas se ele temer passar e acampar do outro lado do rio, nós atravessaremos e teremos vantagem sobre ele.
42. Ora, logo que chegaram à torrente, Judas pôs ao longo do rio os escribas do povo, com a seguinte ordem: Não deixeis ninguém se instalar aqui, mas venham todos ao combate.
43. E foi ele o primeiro a se arrojar, e todo o povo o seguiu. Os gentios foram derrotados aos seus olhares, lançaram suas armas e fugiram para o templo de Carnaim.
44. Os judeus, porém, apoderaram-se da cidade e incendiaram o templo, com todos aqueles que ali se achavam. Carnaim foi assolada e não pôde mais resistir a Judas.
45. Este reuniu todos os judeus da terra de Galaad, do menor ao maior, as mulheres, as crianças e seus haveres, uma multidão enorme que ele resolveu conduzir à terra de Judá.
46. Caminharam até Efron, cidade muito grande e bem fortificada, que se achava no caminho da volta. Não se podia contorná-la nem pela direita, nem pela esquerda, mas era preciso atravessá-la.
47. Os habitantes fecharam as portas e se entrincheiraram com pedras. Judas, todavia, enviou-lhes mensageiros com palavras de paz:
48. Atravessaremos vossa terra, para irmos à nossa, e ninguém vos molestará, apenas passaremos. Mas eles não lhes quiseram abrir o acesso.
49. Então Judas ordenou que cada um em seu posto se dispusesse para a luta.
50. Todos os homens do exército se prepararam, pois. Durante todo o dia e toda a noite assaltaram a cidade, e esta caiu em suas mãos.
51. Passaram a fio da espada todos os homens, destruíram completamente a cidade, apoderaram-se dos espólios e atravessaram por cima dos seus cadáveres.
52. Depois a caravana passou o Jordão, para chegar à grande planície, em frente a Betsã.
53. Em caminho, Judas não cessava de ajuntar os retardatários e de encorajar a multidão até que chegassem à terra de Judá.
54. Escalaram a montanha de Sião com alegria e regozijo e ofereceram holocaustos, por terem voltado em paz, sem que ninguém dentre eles tivesse sucumbido.
55. Ora, enquanto Judas se achava em Galaad com Jônatas, e seu irmão Simão na Galiléia diante de Ptolemaida,
56. José, filho de Zacarias, e Azarias, à frente de suas tropas, souberam de seus feitos heróicos e de suas proezas.
57. Façamos também nós célebre o nosso nome, disse um para o outro, e vamos combater nações vizinhas.
58. Transmitiram ordens às forças, que eles tinham consigo, e foram contra Jânia.
59. Mas Górgias saiu com seus homens para opor-se à sua investida.
60. José e Azarias foram postos em fuga e perseguidos até as fronteiras da Judéia. Pereceram nesse dia cerca de dois mil homens de Israel, e foi grande a derrota do povo,
61. isso porque não haviam escutado Judas, supondo que mostrariam seu valor,
62. mas não pertenciam à raça desses homens, a quem era dado salvar Israel.
63. O valoroso Judas e seus irmãos foram de modo particular honrados por todo o povo de Israel e por todas as nações onde penetrava seu nome.
64. Vinham em grande número para aclamá-los.
65. Entrementes, Judas e seus irmãos partiram para combater os filhos de Esaú, que habitavam no sul. Abateu Hebron e seus arrabaldes, destruiu as fortificações e queimou todas as torres dos arredores.
66. Partiu ainda para atingir a terra dos estrangeiros e atravessou Marisa.
67. Naquele dia pereceram alguns sacerdotes no combate, por terem querido mostrar sua valentia, saindo imprudentemente para travarem combate.
68. Judas voltou para Azot, na terra dos estrangeiros, derrubou seus altares, queimou seus ídolos, sujeitou suas cidades à pilhagem e em seguida voltou para a terra de Judá.

 
Capítulo 6

1. Enquanto percorria as províncias superiores, soube o rei Antíoco que na Pérsia, em Elimaida, havia uma cidade famosa por suas riquezas, sua prata e ouro.
2. Seu templo, extremamente rico, possuía véus de ouro, escudos, couraças e armas, abandonados ali por Alexandre, filho de Filipe, rei da Macedônia, que foi o primeiro a reinar sobre a Grécia.
3. Dirigiu-se ele para essa cidade, com a finalidade de tomá-la e pilhá-la, mas foi em vão, porque os habitantes haviam sido prevenidos.
4. Eles se aprontaram para lhe resistir e ele teve que voltar de lá, para alcançar Babilônia com grande humilhação.
5. E eis que, na Pérsia, um mensageiro veio dizer-lhe que as tropas enviadas à Judéia tinham sido derrotadas,
6. e que Lísias, tendo partido a princípio com um poderoso exército, havia fugido na presença dos judeus, os quais haviam aumentado ainda suas forças com armas e tropas e se tinham enriquecido com todo o material raptado de seus campos devastados.
7. Eles tinham também destruído a abominação edificada por ele sobre o altar, em Jerusalém, e haviam cercado o templo com altas muralhas, como outrora, assim como a cidade de Betsur.
8. Ouvindo essas novas, o rei ficou irado e profundamente perturbado. Atirou-se à cama e caiu doente de tristeza, porque os acontecimentos não tinham correspondido à sua expectativa.
9. Passou assim muitos dias, porque sua mágoa se renovava sem cessar, e pensava na morte.
10. Mandou chamar todos os seus amigos e lhes disse: O sono fugiu dos meus olhos e meu coração desfalece de tristeza.
11. Eu repito para mim mesmo: Em que aflição fui eu cair e a que desolação fui eu reduzido até o presente, eu que era bom e querido no tempo de meu poder?
12. Mas agora eu me lembro dos males que causei em Jerusalém, de todos os objetos de ouro e de prata que saqueei, e de todos os habitantes da Judéia que exterminei sem motivo.
13. Reconheço que foi por causa disso que todos esses males me fulminaram, e agora morro de tristeza numa terra estrangeira.
14. Ele chamou Filipe, um de seus amigos, e constituiu-o regente de todo o seu reino.
15. Entregou-lhe seu diadema, seu manto, e seu anel, com a responsabilidade de guiar seu filho Antíoco e de educá-lo para sua realeza.
16. O rei Antíoco morreu ali no ano cento e quarenta e nove.
17. Por sua vez soube Lísias que o rei havia morrido e elevou ao trono seu filho Antíoco que ele havia educado desde a infância, e a quem ele dera o nome de Eupator.
18. Nesse ínterim, os ocupantes da cidadela importunavam os judeus que se dirigiam ao templo, procuravam constantemente causar-lhes dano, para apoiar os gentios.
19. Judas resolveu arrancar-lhes das mãos a cidadela e convocou todo o povo para sitiá-los.
20. Reuniram-se, portanto, para começar o cerco no ano cento e cinqüenta, e construíram balistas e máquinas.
21. Mas alguns dos sitiados, aos quais se juntaram alguns israelitas perversos, fugiram
22. e correram ao rei para lhe dizer: Até quando deixarás de fazer justiça e vingar nossos irmãos?
23. Julgamos bom servir a teu pai, obedecer suas ordens e seguir suas leis;
24. e os filhos de nosso povo se afastaram de nós como dos estrangeiros. Eles cercam a cidadela; mal capturam um dos nossos, matam-no e pilham os nossos bens.
25. E não é somente sobre nós que eles estendem a mão, mas ainda contra os povos vizinhos.
26. Eis que hoje eles se empossaram da cidadela, para serem senhores do templo e da cidade, e fortificaram Betsur.
27. Se tu não os prevenires, farão ainda piores males e tu não poderás mais detê-los.
28. A estas palavras o rei se encolerizou e convocou todos os seus amigos, os generais de seus exércitos e os chefes de sua cavalaria.
29. E ajuntaram-se a ele outros reinos e ilhas marítimas, tropas de mercenários;
30. e seu exército atingiu a cem mil infantes, vinte mil cavaleiros e trinta e dois elefantes, prontos para a guerra.
31. Atravessaram eles a Iduméia e acamparam defronte a Betsur, onde combateram por muito tempo; construíram máquinas, mas os sitiados saíram e lançaram fogo, lutando com coragem.
32. Abandonando a cidadela, veio Judas estabelecer-se em Betzacara, defronte do campo de luta do rei.
33. Ao amanhecer, levantou-se o rei e dirigiu impetuosamente suas tropas em direção a Betzacara: as forças se prepararam para o combate, e soaram as trombetas.
34. Mostraram aos elefantes suco de uvas e de amoras para incitá-los ao combate.
35. Foram repartidos nas falanges, pondo-se em volta de cada elefante mil homens armados de cotas de malhas e de capacetes de bronze para a cabeça, e quinhentos cavaleiros escolhidos estavam igualmente ao redor de cada animal.
36. Esses cavaleiros tinham o costume de estar com o animal onde quer que ele estivesse e de ir aonde ele ia sem jamais se afastarem dele.
37. Sobre cada um havia também fortes torres de madeira, muito firmes e defendidas pelas máquinas. Sobre cada um achavam-se também valentes guerreiros, que combatiam lá em cima, e, finalmente, seu condutor indiano.
38. O restante da cavalaria, colocada de um lado e de outro, nas duas alas, manobrava cobrindo as falanges.
39. Quando o sol brilhou sobre os escudos de ouro e bronze, a montanha resplandeceu, como que iluminada por outras tantas lâmpadas.
40. Uma parte das tropas do rei se espalhou sobre as colinas e outra na planície, caminhando com precaução e em boa ordem.
41. O ruído de seu número, de sua marcha, da colisão de suas armas era pavoroso, porque era um exército extremamente numeroso e possante.
42. Judas, no entanto, avançou com os seus para travar a batalha, e seiscentos homens do exército do rei foram aniquilados.
43. Eleazar, cognominado Avarã, viu que um dos elefantes estava armado com um couraçado real e ultrapassava todos os outros; ele julgou que o rei o montasse.
44. Projetou então salvar todo o povo e conquistar um nome eterno.
45. Precipitou-se audaciosamente nessa direção, para o meio da falange, matando à direita e à esquerda e separando o inimigo de lado a lado.
46. Meteu-se debaixo do elefante e, tomando posição abaixo dele, matou-o. O animal rolou sobre ele, e ele morreu ali.
47. No entanto, averiguando o poder do exército real e a impetuosidade de suas tropas, retiraram-se os judeus.
48. Mas os soldados do rei subiram-lhe ao encontro até Jerusalém, dirigindo-se então o rei à Judéia e ao monte Sião.
49. Fez igualmente a paz com os habitantes de Betsur, porquanto estes saíram da cidade, porque já não tinham víveres para continuarem ali, pois era o ano sabático.
50. Assim o rei apoderou-se da cidade e pôs nela uma guarnição.
51. Por muitos dias cercou a cidade santa, construiu máquinas, guindastes para lançar fogo ou pedras, escorpiões para lançar flechas e fundas.
52. De seu lado, os sitiados construíram também máquinas, para se oporem aos seus inimigos, e combateram por muito tempo.
53. Todavia faltavam víveres nos celeiros, por ser o sétimo ano e todos os que se achavam refugiados na Judéia, para fugir dos gentios, haviam esgotado o resto da reserva.
54. Restavam afinal poucos homens para a defesa do templo, atingidos como estavam pela fome e por dispersarem-se cada um para sua casa.
55. Filipe, que antes de morrer o rei Antíoco fora designado para educar seu filho Antíoco para a realeza,
56. tinha chegado da Pérsia e da Média com o exército do rei e procurava apoderar-se do governo.
57. Soube-o Lísias e apressou a partida dizendo ao rei, aos oficiais e aos homens: Nós nos vamos enfraquecendo aqui dia por dia, temos poucos víveres, e o lugar que sitiamos é forte, enquanto nos devemos ocupar com os negócios do reino.
58. Estendamos a mão a esses homens e façamos paz com eles e com toda a sua raça.
59. Deixemo-los viver como outrora segundo as suas próprias leis, porque foi por causa dessas leis que nós abolimos, que eles se revoltaram e fizeram tudo isso.
60. Essa proposta agradou ao rei e aos generais. Enviou, pois, alguém para tratar da paz com os sitiados, que a aceitaram.
61. Sob a palavra do juramento feito pelo rei e os generais, abandonaram a fortaleza.
62. O rei subiu o monte Sião e visitou as fortificações, mas quebrou a palavra dada e ordenou a destruição da muralha.
63. Em seguida, partiu a toda a pressa, recuperou Antioquia, onde achou Filipe como senhor da cidade. Atacou-a e tomou a cidade à força.

 
Capítulo 7

1. No ano cento e cinqüenta e um, Demétrio, filho de Seleuco, escapou de Roma e, com alguns companheiros, alcançou uma cidade marítima onde se proclamou rei.
2. Quando ele entrou no palácio real de seus pais, o exército se apoderou de Antíoco e de Lísias para conduzi-los a ele.
3. Soube-o o rei e disse: Não me mostreis a sua face.
4. E o exército os matou, e Demétrio sentou-se no trono que lhe cabia.
5. Todos os traidores e os ímpios de Israel achegaram-se dele sob a chefia de Alcimo, que aspirava tornar-se sumo sacerdote.
6. Acusaram o povo nestes termos: Judas e seus irmãos mataram todos os teus amigos e nos expulsaram de nosso país.
7. Envia portanto, agora, um homem que possua tua confiança e que venha ver em que triste situação nos puseram, a nós e ao país que pertence ao rei, para castigar a eles e a todos os seus partidários.
8. O rei escolheu Báquides, um de seus amigos, então governador além do rio, um dos grandes do reino e fiel ao rei. Enviou-o
9. com o ímpio Alcimo, a quem destinou o cargo de sumo sacerdote, e deu-lhe ordem de tomar vingança dos filhos de Israel.
10. Partiram, pois, e tomaram o caminho do país de Judá com um forte exército, enviando a Judas e seus irmãos palavras de paz capciosas.
11. Vendo-os chegar com numerosas tropas, estes não lhes deram ouvido.
12. Houve todavia um grupo de escribas que foi ter com Alcimo e Báquides, com palavras de justas reivindicações.
13. Estes assideus, que eram os mais benquistos em Israel, pediam-lhes a paz.
14. Diziam entre si: É um sacerdote da raça de Aarão que vem a nós com exército, ele não nos fará mal algum.
15. Alcimo trocou com eles palavras de paz e lhes jurou: Não faremos mal nem a vós, nem a vossos amigos.
16. Acreditaram neles, mas ele apoderou-se de sessenta deles e mandou-os matar no mesmo dia, conforme estava escrito:
17. Espalharam a carne e o sangue dos teus santos ao redor de Jerusalém, e não havia ninguém para sepultá-los (Sl 78,3).
18. O assombro e o terror apoderou-se do povo, porque se dizia: Não há entre eles nem verdade nem justiça, depois que violaram o pacto e o juramento, que haviam confirmado.
19. Báquides afastou-se de Jerusalém e instalou seu acampamento em Bezet, onde prendeu e lançou numa grande cisterna muitos desertores de seu exército e algumas pessoas do país.
20. Confiou a terra nas mãos de Alcimo e, deixando-lhe um exército para socorrê-lo, regressou para junto do rei.
21. Entretanto, Alcimo teve que lutar para se impor como sumo sacerdote.
22. Agrupavam-se ao redor dele todos os perturbadores do povo com os quais ele se tornara senhor da terra de Judá e foi um tempo doloroso para Israel.
23. Judas viu que o mal que Alcimo e seus cúmplices faziam aos filhos de Israel era pior ainda que o mal praticado pelos gentios.
24. Por isso percorreu ele toda a terra da Judéia, até as fronteiras, vingando-se dos traidores e impedindo-lhes a volta ao país.
25. Vendo Alcimo que Judas com os seus eram mais fortes e reconhecendo sua impotência em lhes resistir, refugiou-se junto do rei e acusou-os dos piores crimes.
26. O rei enviou Nicanor, general eminente, que detestava e odiava Israel, com a ordem de exterminar esse povo.
27. Nicanor partiu para Jerusalém com um numeroso exército e mandou levar a Judas e a seus irmãos falsas palavras de paz:
28. Que não haja guerra entre vós e mim. Chegarei somente com um punhado de homens para te ver, como amigo.
29. Com efeito, ele chegou e saudaram-se pacificamente, mas seus soldados se achavam prontos para se lançarem sobre Judas.
30. Todavia, Judas estava a par dos desígnios pérfidos de Nicanor a afastou-se dele, recusando vê-lo de novo.
31. Reconheceu Nicanor que seu projeto fora descoberto e propôs a Judas uma batalha perto de Cafarsalama.
32. Foram mortos do seu exército quinhentos homens e o resto fugiu para a cidade de Davi.
33. Após o combate, subiu Nicanor a colina de Sião, e sacerdotes saíram do templo com anciãos do povo, para saudá-lo em espírito de paz, e mostrar-lhe o holocausto que se oferecia pelo rei,
34. mas ele escarnecia deles, dirigia-lhes mofas, desprezava-os e falava-lhes com desdém,
35. jurando em sua ira: Se Judas não me for entregue imediatamente com seu exército, afirmo, logo que estabelecer a paz, retornarei e lançarei fogo a esta casa. Partiu depois todo enfurecido.
36. Então os sacerdotes entraram, e, em pé diante do altar e do templo, choraram dizendo:
37. Fostes vós que escolhestes esta casa, para que se invoque nela vosso nome e para que ela seja uma casa de súplicas, de orações pelo vosso povo.
38. Tomai vingança desse homem e de seu exército, e que eles caiam sob o golpe da espada. Lembrai-vos de suas blasfêmias e não permitais que eles vivam.
39. Saiu Nicanor de Jerusalém e acampou em Beteron, onde um exército sírio se lhe ajuntou.
40. Judas acampou em Adasa com três mil homens e começou a rezar nestes termos:
41. Quando os soldados enviados pelo rei da Síria vos blasfemaram, apareceu vosso anjo e matou cento e oitenta e cinco mil homens dentre eles.
42. Do mesmo modo exterminai hoje este exército aos nossos olhos, para que os outros saibam que Nicanor insultou vosso templo, e julgai-o segundo sua perfídia.
43. Chocaram-se os exércitos no dia treze do mês de Adar; o de Nicanor foi vencido e ele foi o primeiro a tombar na luta.
44. Assim que as tropas de Nicanor viram que ele fora morto, largaram as armas e fugiram.
45. Os judeus perseguiram-nos todo o dia desde Adasa até Gazara e fizeram soar as trombetas dos sinais.
46. E saíram então os habitantes de todas as aldeias da Judéia e dos arredores, para cercar os fugitivos. Estes voltaram de encontro a eles e caíram todos sob a espada. E não sobrou nem mesmo um dentre eles.
47. Os judeus apoderaram-se de seus despojos e haveres. Cortaram a cabeça de Nicanor e a mão direita que ele orgulhosamente estendera, e suspenderam-nas à vista de Jerusalém.
48. Alegrou-se muito o povo que passou aquele dia em grande regozijo.
49. Decidiu-se que esse dia seria celebrado a cada ano no dia treze do mês de Adar.
50. Após isso, a terra de Judá esteve tranqüila durante algum tempo.

 
Capítulo 8

1. Pela voz da fama soube Judas que os romanos eram extremamente poderosos, que se mostravam benevolentes para com seus aliados, e que a todos os que recorriam a eles ofereciam sua amizade, porque eram verdadeiramente potentes.
2. Contaram-lhe também seus combates, suas façanhas junto aos gauleses, aos quais haviam vencido e subjugado;
3. como haviam chegado à Espanha para se apoderar das minas de prata e de ouro que ali existem e, como, por sua sabedoria e longanimidade, eles haviam conciliado todo o país,
4. por mais que ele fosse afastado deles; como haviam derrotado reis que haviam surgido contra eles das extremidades da terra, e os haviam aniquilado devidamente, enquanto outros lhes pagavam o tributo anual.
5. Filipe Perseu, rei dos ceteus, e outros se haviam insurgido contra eles, mas tinham sido derrotados e subjugados.
6. Antíoco, o Grande, rei da Ásia, lhes tinha movido guerra com cento e vinte elefantes, cavalaria, carros e um numeroso exército, mas havia sido aniquilado por eles.
7. Eles o haviam tomado vivo e haviam imposto a ele e aos seus sucessores um grande tributo, a entrega de reféns e a cessão de um território,
8. arrebatando-lhe a Índia, a Média, a Lídia e suas melhores regiões que eles deram ao rei Eumenes.
9. Os gregos haviam querido atacá-los para exterminá-los, mas eles o souberam
10. e enviaram um general que os atacou, levando a perecer um grande número, arrastou ao cativeiro suas mulheres e seus filhos, saqueou e tornou-se senhor do país, destruiu suas praças fortes e os reduziu à servidão, que ainda durava.
11. Haviam eles igualmente arruinado e subjugado ao seu domínio os outros reinos e as ilhas, que lhes haviam resistido.
12. Por outro lado, conservavam sua proteção a seus amigos e aliados, estendiam seu poder sobre os reinos vizinhos ou distantes e todos os que ouviam pronunciar seu nome, temiam-nos.
13. Aqueles que eles queriam auxiliar e ver reinar, reinavam com efeito, mas os que eles não queriam, eram exilados. Engrandeciam-nos muito.
14. Apesar de tudo isso, ninguém deles trazia diadema, nem se envolvia com púrpura, para se engrandecer.
15. Eles tinham estabelecido entre si um conselho supremo onde, cada dia, trezentos e vinte conselheiros discutiam assuntos do povo, para governá-lo bem.
16. Cada ano confiavam a autoridade suprema a um só homem, que comandava em todo o território e todos obedeciam a um só, sem haver ali entre eles nem inveja nem ciúme.
17. Escolheu Judas a Eupolemo, filho de João, filho de Acos, e Jasão, filho de Eleazar, e enviou-os a Roma, para estabelecer amizade e aliança com eles,
18. pedindo-lhes que os libertasse do jugo que os gregos, como estavam vendo, faziam pesar sobre Israel, reduzindo-o à escravidão.
19. Dirigiram-se eles a Roma, apesar da duração da viagem, e entraram no Senado, onde disseram:
20. Judas Macabeu, seus irmãos e todo o povo de Israel nos enviaram a vós, para concluir aliança e paz, e para que nos conteis entre vossos amigos e aliados.
21. Essa linguagem agradou aos romanos e
22. eis a cópia da carta que os romanos mandaram gravar sobre tabuletas de bronze e enviaram a Jerusalém, para ali ficar como memorial da paz e da amizade de sua parte:
23. Felicidade para sempre aos romanos e ao povo judeu, por terra e por mar! Longe deles esteja a espada e o inimigo!
24. Se sobrevier uma guerra contra os romanos ou contra um de seus aliados em todo império,
25. o povo judeu tome as armas por sua vez, conforme o permitirem as circunstâncias e isso de boa vontade.
26. Não fornecerão aos adversários nem trigo, nem armas, nem dinheiro, nem navios, segundo a vontade dos romanos. Os judeus observarão esses contratos sem receber nada.
27. Por outro lado, se for o povo judeu o atacado, os romanos tomarão armas voluntariamente por eles conforme as circunstâncias o indicarem.
28. E não será fornecido aos combatentes nem trigo, nem armas, nem dinheiro, nem navios, conforme a vontade de Roma, e esses contratos serão observados sem fraude.
29. Por essas palavras os romanos aliaram-se com os judeus.
30. Se uns ou outros contratantes quiserem ajuntar ou subtrair e essas cláusulas, farão a proposta, e o que for acrescentado ou tirado será ratificado.
31. Pelo que toca aos danos causados pelo rei Demétrio, eis o que nós lhe escrevemos: Por que fizestes pesar vosso jugo sobre os judeus, nossos amigos e aliados?
32. Se, pois, eles vierem a nós outra vez contra vós, nós lhes faremos justiça e vos combateremos, por terra e mar.

 
Capítulo 9

1. Soube logo Demétrio do fim de Nicanor e da aniquilação de seu exército e resolveu enviar pela segunda vez Báquides e Alcimo à terra de Judá, com a ala direita de suas tropas.
2. Estes tomaram o caminho que leva a Gálgala, e acamparam em frente de Mezalot, no distrito de Arbelas; apoderaram-se da cidade e mataram um grande número de habitantes.
3. No primeiro mês do ano cento e cinqüenta e dois colocaram cerco diante de Jerusalém,
4. depois eles se apartaram e foram a Berzet com cento e vinte mil homens e dois mil cavaleiros.
5. Judas estava acampado em Elasa, e três mil homens de escol estavam com ele.
6. Todavia, ante o número considerável de seus adversários, ficaram tomados de pânico; muitos se retiraram do acampamento e, por fim, ali ficaram não mais que oitocentos homens.
7. Verificando Judas a dispersão de seu exército e a iminência do combate, sentiu seu coração angustiado, porque já não tinha tempo de reunir os fugitivos.
8. Consternado, disse aos que tinham ficado: Vamos, e ataquemos o inimigo, talvez possamos combatê-lo!
9. Mas eles o desviavam disso, dizendo: Nós não poderemos. Salvemos antes nossas vidas agora; voltaremos depois com nossos irmãos e travaremos a batalha; mas neste momento somos muito poucos.
10. Livre-nos Deus, disse Judas, que proceda desse modo e que eu me salve diante deles. Se chegou a nossa hora, morramos corajosamente por nossos irmãos e não deixemos uma nódoa sequer em nossa memória.
11. O exército do inimigo saiu do acampamento e tomou posição diante deles: a cavalaria se dividiu em dois batalhões, os fundibulários e os flecheiros se colocaram à frente e todos os mais valentes postaram-se na primeira fileira.
12. Báquides achava-se na ala direita e, ao som das trombetas, a falange avançou dos dois lados.
13. Os soldados de Judas tocaram também as trombetas e a terra foi abalada pelo tumulto das armas. O combate se prolongou desde a manhã até à tarde.
14. Viu Judas que Báquides se encontrava à direita com a mais forte porção de seu exército, e cercado dos mais corajosos dos seus.
15. Rompeu ele essa ala direita e a perseguiu até o sopé da montanha.
16. Mas a ala esquerda, vendo derrotada a direita, lançou-se atrás nas pegadas de Judas e dos seus soldados.
17. O combate tornou-se mais encarniçado, e, tanto de um como de outro lado, caíram muitos feridos.
18. Judas mesmo caiu morto, e então todos os outros fugiram.
19. Jônatas e Simão levaram Judas, seu irmão, e enterraram-no no sepulcro de seus pais em Modin.
20. Todo o povo de Israel caiu na desolação e o chorou longamente, guardando o luto por vários dias, dizendo:
21. Como sucumbiu o valente salvador de Israel?
22. O resto das façanha de Judas, de seus combates, de seus feitos heróicos e atos gloriosos não foram escritos: eles são, com efeito, por demais numerosos.
23. Ora, após a morte de Judas, aconteceu que os perversos reapareceram em todas as fronteiras de Israel e todos os que praticavam o mal deram-se a conhecer.
24. Naqueles dias dominou também uma grande fome, e todo o país passou para o inimigo com eles.
25. Báquides escolheu homens ímpios, para colocá-los nos postos de comando.
26. Estes procuravam com empenho os amigos de Judas e os conduziam a Báquides, que se vingava deles e os escarnecia.
27. A opressão que caiu sobre Israel foi tal, que não houve igual desde o dia em que tinham desaparecido os profetas.
28. Reuniram-se todos os amigos de Judas e disseram a Jônatas:
29. Após a morte de Judas, teu irmão, não há mais ninguém como ele, para opor-se a nossos inimigos, a Báquides e aos que odeiam nossa raça.
30. Por isso, nós te escolhemos hoje por chefe, para nos conduzires ao combate.
31. A partir dessa hora, Jônatas tomou o comando e assumiu o lugar de seu irmão Judas.
32. Tendo Báquides conhecimento disso, procurava matá-lo,
33. mas, advertidos, Jônatas, seu irmão Simão e todos os seus companheiros fugiram ao deserto de Técua, onde acamparam junto às águas da cisterna de Asfar.
34. Soube-o Báquides no dia de sábado e atravessou o Jordão com todo o seu exército.
35. Nesse ínterim, Jônatas havia enviado seu irmão, chefe do povo, aos nabateus, seus amigos, rogando-lhes se podiam guardar as suas bagagens, que eram numerosas.
36. Mas os filhos de Jambri saíram de Medaba, apoderaram-se de João e de tudo o que ele tinha e o levaram.
37. Logo em seguida disseram a Jônatas e a seu irmão Simão que os filhos de Jambri celebravam um grande casamento, e traziam de Nadabá, com grande pompa, a jovem esposa, filha de um dos maiores príncipes de Canaã.
38. Lembraram-se do sangue de seu irmão João, e retiraram-se para a montanha, onde se ocultaram.
39. Erguendo os olhos, eles se puseram de espreita, e eis que em grande tumulto e com grande aparato, o esposo saía com seus amigos e seus irmãos na direção dessa, com tambores, instrumentos de música e uma considerável equipagem.
40. Os companheiros de Jônatas saíram então de seu esconderijo, e lançaram-se sobre eles, para massacrá-los. Muitos caíram aos seus golpes e os restantes fugiram para a montanha, enquanto os agressores apoderavam-se de seus despojos.
41. Assim a boda transformou-se em luto e os sons de música, em lamentações.
42. Dessa maneira os judeus vingaram-se do sangue de seu irmão, e voltaram à margem do Jordão.
43. Soube-o Báquides e, no dia de sábado, avançou com um poderoso exército até a margem do Jordão.
44. Dirigindo-se então a seus companheiros, disse-lhes Jônatas: Vamos, pelejemos agora por nossa vida, porque hoje não é como ontem e anteontem.
45. Eis a batalha diante e atrás de nós; de um lado e de outro do rio Jordão,
um pântano, um bosque: não há meio de escapar.
46. Clamai, pois, agora ao céu, para nos livrar de nossos inimigos. E travou-se o combate.
47. Jônatas estendeu a mão para ferir Báquides, mas este se afastou e o evitou.
48. Então Jônatas e seus companheiros atiraram-se ao Jordão e passaram, a nado, para a outra margem, sem que o inimigo atravessasse atrás dele.
49. Naquele dia caíram cerca de mil homens da parte de Báquides. Este voltou a Jerusalém;
50. edificou fortalezas na Judéia, e consolidou com densos muros, portas e fechaduras, as fortificações de Jericó, Emaús, Betoron, Betel, Tanata, Faraton, e de Tefon.
51. E colocou nelas guarnições para importunar Israel.
52. Fortificou igualmente Betsur, Gasara e a cidadela, onde ele deixou tropas e depósitos de víveres.
53. Tomou como reféns os filhos dos importantes do país, e os mandou guardar na cidadela de Jerusalém.
54. No segundo mês do ano cento e cinqüenta e três, ordenou Alcimo a destruição do muro do pátio interior do santuário e, deitando a mão sobre a obra dos profetas, começou por destruí-la.
55. Neste instante, porém, Alcimo foi ferido por Deus e seu plano foi suspenso. Ficou ele com a boca fechada pela paralisia e não pôde mais dizer uma palavra, nem dar ordens relativamente à sua casa;
56. morreu depois atormentado por grandes sofrimentos.
57. Vendo Báquides essa morte, retirou-se para perto do rei, e a terra de Judá permaneceu em paz durante dois anos.
58. Mas, entre os judeus, os maus conspiravam, dizendo: Eis que Jônatas e os seus vivem em paz e descuidados aproveitemos para chamar Báquides, que os exterminará numa só noite.
59. Foram eles, pois, aconselhá-lo
60. e ele se pôs a caminho com um grande exército. Secretamente enviou mensageiros aos partidários que ele possuía junto aos judeus, para que eles lançassem mão sobre Jônatas e seus companheiros; mas eles não conseguiram, porque seu plano tinha sido descoberto.
61. Pelo contrário, cinqüenta dos principais cabeças da conjuração foram presos e mortos.
62. Quanto a Jônatas, fugiu com Simão e seus partidários até Betbasi, no deserto, ergueram as suas ruínas, e fortificaram-se nelas.
63. Logo que Báquides o soube, reuniu todo o seu exército e foi avisar seus amigos da Judéia.
64. Veio acampar defronte a Betbasi, que ele sitiou por muito tempo, construindo máquinas.
65. Jônatas, deixando na cidade seu irmão Simão, ganhou o campo com um pequeno número de homens.
66. Matou Odomera e seus irmãos na sua própria tenda, bem como os filhos de Fasiron, e começou a dar combates e aumentar em número.
67. Do outro lado, Simão e seus homens saíram da cidade e incendiaram as máquinas.
68. Travaram combate com Báquides que foi derrotado por eles e ficou muito entristecido pela presunção e insucesso de sua tentativa.
69. Por isso mostrou-se irritadíssimo contra os maus judeus que o haviam aconselhado a vir à sua terra; mandou matar a muitos e decidiu voltar a seu país.
70. Sabendo disso, enviou-lhe Jônatas mensageiros para propor-lhe a paz e a devolução dos prisioneiros.
71. Ele os recebeu, aceitou a proposta e jurou nunca mais tentar nada de mal contra eles, por todos os dias de sua vida.
72. Restituiu os prisioneiros que havia feito anteriormente na Judéia e voltou a seu país, para nunca mais tentar reaparecer junto aos judeus.
73. A espada repousou em Israel e Jônatas fixou residência em Macmas; ali começou a julgar o povo e exterminou os ímpios de Israel.

 
Capítulo 10

1. No ano cento e sessenta, Alexandre Epífanes, filho de Antíoco, embarcou e veio ocupar Ptolemaida, onde foi acolhido e proclamado rei.
2. Soube-o o rei Demétrio, que reuniu um numerosíssimo exército e atacou-o.
3. Enviou a Jônatas uma carta cheia de palavras de paz, para lisonjeá-lo,
4. dizendo consigo mesmo: Apressemo-nos em fazer a paz com os judeus, antes que eles a façam com Alexandre contra nós,
5. porque certamente eles se lembram do mal que lhes fizemos, a eles, a seus irmãos e à sua raça.
6. Concedeu-lhe a liberdade de reunir tropas, de fabricar armas e de ser seu aliado e mandou-lhe entregar os reféns aprisionados na cidadela.
7. Jônatas veio então a Jerusalém e leu a mensagem diante do povo todo e diante das tropas que ocupavam a cidadela.
8. Estes ficaram tomados de um grande medo, quando souberam que o rei lhe havia permitido levantar um exército;
9. os guardas lhe entregaram os reféns e ele os entregou a seus pais.
10. Ficou habitando em Jerusalém e começou a edificar e a restaurar a cidade.
11. Ordenou aos que executavam os trabalhos, que construíssem ao redor do monte Sião um muro de pedras de cantaria para sua fortificação, e isso foi feito.
12. Os estrangeiros que se achavam nas fortalezas edificadas por Báquides fugiram;
13. cada qual deixou seu posto para se refugiar no seu país.
14. Sobraram somente em Betsur alguns dos desertores da lei e dos preceitos, porque achavam ali um refúgio seguro.
15. Entretanto, soube o rei Alexandre da carta que Demétrio havia enviado a Jônatas, e contaram-lhe as batalhas e feitos deste e de seus irmãos, como também os trabalhos que tinham suportado.
16. Poderíamos nós achar, disse ele, um homem semelhante a este? Procuremos imediatamente fazê-lo nosso amigo e nosso aliado.
17. Escreveu-lhe então e mandou-lhe uma carta lavrada nestes termos:
18. O rei Alexandre a seu irmão Jônatas, saúde!
19. Ouvimos dizer de ti, que tu és um homem ponderoso e forte e que mereces a nossa amizade.
20. Por isso nós te constituímos desde agora sumo sacerdote de teu povo, outorgamos-te o título de amigo do rei – mandou-lhe uma toga de púrpura e uma coroa de ouro – e pedimos-te escolher nosso partido e conservar-nos tua amizade.
21. No sétimo mês do ano cento e sessenta, pela festa dos Tabernáculos, revestiu-se Jônatas com a túnica sagrada; organizou um exército e ajuntou armas em quantidade.
22. Demétrio foi informado de tudo isso e inquietou-se:
23. Como fomos nós deixar que Alexandre nos precedesse, travando com os judeus uma amizade, que o fortifica?
24. Eu também enviar-lhe-ei belas palavras, títulos e presentes, para que eles passem ao meu lado e venham em meu auxílio.
25. E ele mandou-lhes levar uma mensagem nestes termos: O rei Demétrio ao povo dos judeus, saúde!
26. Vós observastes nossos acordos, permanecestes fiéis à nossa amizade, e não fizestes convenções com nossos inimigos; nós o sabemos e regozijamo-nos com isso.
27. Ainda agora continuai a nos conservar a mesma fidelidade e vos recompensaremos do que fazeis por nós:
28. isentar-vos-emos dos muitos impostos e vos cumularemos de presentes.
29. Desde agora concedemo-vos a todos os judeus dispensa dos impostos, da taxa do sal e das coroas.
30. Ao terço dos produtos do solo e à metade dos frutos das árvores, que me pertencem, eu renuncio, a partir deste dia, a cobrar na terra de Judá e dos três distritos de Samaria e da Galiléia, que lhe estão anexos; isso desde agora e para sempre.
31. Que Jerusalém seja sagrada e isenta, com seu território, dos dízimos e dos impostos.
32. Abandono também todo poder sobre a cidadela de Jerusalém e a entrego ao sumo sacerdote, para que ele coloque ali como guardas os homens que ele quiser.
33. Concedo gratuitamente a liberdade a todo cidadão judeu, em cativeiro no meu reino e todos serão isentos de impostos, mesmo sobre seus rebanhos.
34. Todos os dias solenes, os sábados, as neomênias, as festas prescritas, os três dias anteriores às solenidades e os três dias posteriores, serão dias de imunidade e de isenção para todos os judeus que se acham no meu reino,
35. e ninguém poderá perseguir ou molestar quem quer que seja dentre eles, por motivo algum.
36. Que se alistem no exército do rei até trinta mil judeus e que lhes sejam dados os mesmos direitos que às tropas reais.
37. Colocar-se-á uma parte nas grandes fortalezas do rei, tomar-se-ão alguns para postos de confiança do reino. Seus chefes e seus oficiais serão escolhidos entre eles, seguirão suas próprias leis, como o exige o rei para a Judéia.
38. Os três distritos de Samaria que foram anexados à Judéia lhe serão incorporados de maneira que sejam considerados como sendo um só com ela, e não obedeçam a nenhuma outra autoridade a não ser a do sumo sacerdote.
39. Faço de Ptolemaida e de seu território doação ao templo de Jerusalém, para prover seu sustento.
40. Darei também cada ano quinze mil siclos de prata das rendas do rei, provenientes dos seus domínios.
41. Todo o dinheiro que os administradores dos negócios não tiveram despendido, e que lhes sobrar, como nos anos passados, será destinado à construção do templo.
42. Além disso será feita a entrega dos cinqüenta mil siclos de prata cobrados cada ano das rendas do templo, porque essa soma pertence aos sacerdotes que exercem o serviço do culto.
43. Todo aquele que se refugiar no templo de Jerusalém ou no seu recinto, por motivo de dívida ao fisco, ou por qualquer coisa que seja, será poupado, bem como tudo o que ele possui no meu reino.
44. As despesas para os trabalhos de construção e de restauração do templo serão postas na conta do rei.
45. Do mesmo modo as despesas para a construção dos muros e do recinto da cidade ficarão a cargo das rendas do rei, bem como os gastos da construção das outras fortificações na Judéia.
46. Quando Jônatas e o povo ouviram essas propostas, não acreditaram e não quiseram aceitá-las, lembrando-se de todo o mal que Demétrio fizera a Israel e do quanto ele os havia oprimido.
47. Escolheram então o partido de Alexandre, porque ele tinha sido o primeiro a lhes falar de paz, e foram sempre seus auxiliares.
48. Alexandre reuniu um grande exército e veio ao encontro de Demétrio.
49. Os dois reis travaram o combate, mas o exército de Demétrio fugiu. Perseguiu-o Alexandre, obtendo pleno êxito.
50. Combateu com ardor até o pôr-do-sol e Demétrio sucumbiu nesse mesmo dia.
51. Então Alexandre enviou embaixadores a Ptolomeu o rei do Egito, com a missão de lhe dizer:
52. Eis-me de volta ao solo do meu reino e assentado no trono de meus pais; recobrei o poder, derrotei Demétrio e entrei na posse de meu país.
53. Travei batalha com ele, venci-o com seu exército e subi ao trono onde ele reinava.
54. Façamos agora laços de amizade, dá-me tua filha por esposa e serei teu genro, e vos cumularei, a ti e a ela, com presentes dignos de vós.
55. O rei Ptolomeu respondeu: Venturoso o dia em que entraste na terra de teus pais e te assentaste no trono de seu reino!
56. Por isso dar-te-ei o que me pedes, mas vem ter comigo em Ptolemaida, para que nos vejamos, e farei de ti o meu genro como desejas.
57. Saiu Ptolomeu do Egito com sua filha Cleópatra, e foi a Ptolemaida no ano cento e sessenta e dois.
58. Deu-a em casamento a Alexandre que lhe veio ao encontro e celebrou as bodas com real magnificência.
59. O rei Alexandre escreveu também a Jônatas, para que viesse procurá-lo,
60. e este se dirigiu a Ptolemaida, com pompa, onde encontrou os dois reis. Ofereceu-lhes, como também a seus amigos, prata, ouro e numerosos presentes e conquistou sua confiança inteiramente.
61. Todavia, alguns perversos de Israel reuniram-se contra ele e esses ímpios quiseram acusá-lo, mas o rei não lhes deu atenção alguma.
62. Ordenou até mesmo que se tirassem as vestes de Jônatas, para revesti-lo de púrpura, o que foi feito; e o rei fê-lo assentar-se junto de si.
63. Disse também aos grandes de sua corte: Saí com ele para o meio da cidade, e proclamai que ninguém o acuse por qualquer coisa que seja e que ninguém o moleste de maneira alguma.
64. Quando seus acusadores o viram assim exaltado publicamente e revestido de púrpura, fugiram.
65. Honrou-o o rei, inscreveu-o entre seus primeiros amigos e deu-lhe o título de chefe do exército e de governador.
66. Após isto, regressou Jônatas a Jerusalém, tranqüilo e alegre.
67. No ano cento e sessenta e cinco, Demétrio, filho de Demétrio, voltou de Creta à terra de seus pais.
68. Com essa notícia, Alexandre, muito contristado, partiu para Antioquia.
69. Demétrio constituiu Apolônio como governador da Celesíria. Este levantou um poderoso exército, que ele reuniu em Jânia, e mandou avisar ao sumo sacerdote Jônatas:
70. Só tu nos resistes e, por causa de ti, eu me tornei objeto de zombaria e de opróbrio. Por que te fazes de arrogante diante de nós, em tuas montanhas?
71. Se tens ainda confiança em tuas tropas, desce agora das montanhas a nós na planície, onde nos poderemos medir, porque tenho comigo a força das cidades.
72. Informa-te e saberás quem sou eu e quais são os meus aliados. Estes também dizem que não podereis manter-vos de pé diante de nós, porque já duas vezes teus pais foram afugentados em sua própria terra.
73. Hoje não poderás mais resistir à nossa cavalaria e a um tal exército, nesta planície, onde não há nem pedra nem rochedo nem esconderijo algum para se refugiar.
74. Ouvindo estas palavras de Apolônio, indignou-se Jônatas; e, tomando consigo dez mil homens, saiu de Jerusalém. Seu irmão Simão trouxe-lhe reforço.
75. Veio acampar defronte de Jope que, possuindo uma guarnição de Apolônio, fechou-lhe suas portas. Jônatas atacou-a.
76. Os habitantes, espantados, abriram-lhe as portas e assim Jônatas conquistou Jope.
77. Sabendo Apolônio, pôs a caminho três mil cavaleiros e um poderoso exército
78. e de lá dirigiu-se para Azot, como se fosse atravessá-la ao mesmo tempo, ganhou a planície, porque possuía uma numerosa cavalaria, na qual se fiava: Jônatas perseguiu-o até Azot e os dois exércitos chocaram-se.
79. Apolônio havia deixado escondidos mil cavaleiros, para pegar os judeus de emboscada.
80. Mas Jônatas foi informado da emboscada dirigida contra ele. Os inimigos cercavam sua formação e, desde a manhã até o pôr-do-sol, atacaram seus homens;
81. o povo permanecia firme em suas fileiras como Jônatas havia ordenado, enquanto que os cavaleiros do inimigo se fatigavam.
82. Em seguida, Simão avançou com sua tropa e travou uma batalha contra a falange, quando a cavalaria já estava enfraquecida; o inimigo, aniquilado, foi posto em fuga.
83. Os cavaleiros se dispersaram pela planície, e os fugitivos alcançaram Azot, onde se refugiaram no templo de Dagon, seu ídolo, para ali se porem em segurança.
84. Jônatas incendiou Azot e todos os povoados das circunvizinhanças depois de tê-los pilhado. Queimou o templo de Dagon com todos os que estavam ali refugiados.
85. O número dos que pereceram pela espada ou pelo fogo foi cerca de oito mil.
86. Jônatas partiu de lá e veio acampar diante de Ascalon, cujos habitantes saíram-lhe ao encontro, rendendo-lhe grandes honras.
87. Em seguida, alcançou Jerusalém com seus companheiros, carregados de espólios.
88. Quando o rei Alexandre soube desses acontecimentos, quis honrar ainda mais Jônatas:
89. mandou-lhe uma fivela de ouro, como se concedia aos pais dos reis, e deu-lhe como propriedade pessoal Acaron e seu território.

 
Capítulo 11

1. Ora, o rei do Egito reuniu um exército tão numeroso como a areia que cobre a praia do mar, bem como uma considerável frota, e por astúcia procurou apoderar-se do reino de Alexandre, para anexá-lo ao seu.
2. Chegou à Síria com palavras de paz; por isso os habitantes das cidades lhe abriam suas portas e lhe vinham ao encontro, porque o rei Alexandre havia mandado acolhê-lo, já que era seu sogro.
3. Mas Ptolomeu, logo que entrava numa cidade, deixava ali tropas para assegurar-se dela.
4. Quando se aproximou de Azot, mostraram-lhe o templo de Dagon destruído pelo fogo, Azot e os arrabaldes da cidade em ruínas, os cadáveres jacentes por terra, e os restos calcinados daqueles que haviam sido queimados na guerra, postos em montes sobre seu caminho.
5. Acusaram igualmente Jônatas, contando ao rei tudo o que ele havia feito, mas o rei guardou silêncio.
6. Jônatas veio-lhe ao encontro com pompa até Jope, onde se saudaram mutuamente e passaram a noite.
7. Em seguida, Jônatas acompanhou o rei até o rio, chamado Eleutério, e voltou a Jerusalém.
8. O rei Ptolomeu estabeleceu assim seu poderio sobre todas as cidades, da costa até a cidade marítima de Selêucia, forjando maus desígnios contra Alexandre.
9. Mandou dizer ao rei Demétrio: Vem, façamos juntos uma aliança e dar-te-ei minha filha, a mulher de Alexandre, e tu reinarás sobre o reino de teus pais.
10. Lamento com razão ter-lhe dado minha filha, porque ele procurou matar-me.
11. E acusava-o assim porque cobiçava seu reino.
12. Retomou-lhe sua filha para dá-la a Demétrio, separando-se dele e manifestando-lhe assim sua inimizade pública.
13. Ptolomeu entrou em Antioquia e cingiu-se com um duplo diadema: o do Egito e o da Ásia.
14. Nesse ínterim, o rei Alexandre achava-se na Cilícia, cujos habitantes se haviam revoltado;
15. mas, logo avisado, veio para travar o combate. Ptolomeu fez sair seu exército, avançou com forças imponentes e o pôs em fuga.
16. Enquanto o rei Ptolomeu triunfava, Alexandre chegou à Arábia, para procurar ali um asilo,
17. mas o árabe Zabdiel mandou cortar-lhe a cabeça e enviou-a ao rei do Egito.
18. Ptolomeu morreu três dias depois, e as guarnições que ele havia posto nas fortalezas foram massacradas pelos habitantes das cidades vizinhas.
19. Demétrio começou a reinar pelo ano cento e sessenta e sete.
20. Nessa época, Jônatas convocou os homens da Judéia para apoderar-se da cidadela de Jerusalém e construiu, com esse intuito, numerosas máquinas.
21. Imediatamente alguns ímpios, animados de ódio para com sua própria nação, dirigiram-se ao rei e lhe contaram que Jônatas sitiava a cidadela.
22. Com essa notícia, ele se irritou e, pondo-se logo a caminho, alcançou Ptolemaida. De lá escreveu a Jônatas que não atacasse a cidadela e que viesse ter com ele o mais depressa possível, para conferenciar com ele;
23. mas Jônatas, logo que recebeu a mensagem, deu ordem para continuar o cerco e, escolhendo alguns dos mais antigos de Israel e alguns sacerdotes, entregou-se ao perigo.
24. Levou consigo ouro, prata, vestes e inúmeros outros presentes e foi a Ptolemaida encontrar-se com o rei, ante o qual encontrou graça.
25. Com efeito, ainda que alguns renegados de sua nação o combatessem,
26. o rei tratou-o como o haviam feito seus predecessores, e o exaltou à vista de seus cortesãos.
27. Confirmou-o no sumo sacerdócio e em todos os títulos que ele possuía anteriormente, e o considerou como um de seus primeiros amigos.
28. Jônatas pediu ao rei que lhe concedesse imunidade de impostos na Judéia e nos três distritos da Samaria, prometendo-lhe em troca trezentos talentos.
29. Consentiu o rei e escreveu a Jônatas sobre esse assunto uma carta assim lavrada:
30. O rei Demétrio a seu irmão Jônatas e ao povo judeu, saúde!
31. Para vossa informação, enviamos também a vós uma cópia da carta que escrevemos a vosso respeito a Lástenes, nosso parente:
32. O rei Demétrio a seu pai Lástenes, saúde!
33. Resolvemos fazer bem à nação dos judeus, nossos leais amigos, em vista de seus bons sentimentos a nosso respeito.
34. Confirmamos-lhes, pois, a posse dos territórios da Judéia e dos três distritos de Aferema, de Lida e Ramata, arrebatados da Samaria, para serem anexados à Judéia; e todos os seus lucros pertencerão aos que sacrificam em Jerusalém, em lugar do tributo que a cada ano o rei cobrava dos frutos da terra e das árvores.
35. Desde agora, deixamos-lhes liberalmente tudo o que nos cabe do dízimo e do imposto, a taxa das salinas e as coroas que nos eram dadas.
36. Destas vontades nada será anulado, nem agora nem nunca.
37. Cuidai, pois, agora, de fazer uma cópia e entregai-a a Jônatas, para que ela seja gravada e colocada na santa montanha.
38. Viu Demétrio que a terra estava silenciosa diante dele e que nada lhe resistia; foi por isso que ele licenciou seu exército e mandou seus soldados cada um para sua casa, com exceção das forças mercenárias que ele havia recrutado nas ilhas estrangeiras. Com esta decisão, ele desagradou todas as tropas de seus pais.
39. Todavia, Trifon, um antigo partidário de Alexandre, verificando que todo o exército murmurava contra Demétrio, foi procurar Imalcué, o árabe que educava Antíoco, o jovem filho de Alexandre.
40. Instou para que o entregasse, a fim de fazê-lo reinar em lugar de seu pai, contando-lhe tudo o que fizera Demétrio e a hostilidade que seu exército nutria contra ele. E lá se demorou muitos dias.
41. Nesse meio tempo, Jônatas mandou pedir ao rei Demétrio que tirasse as tropas que se achavam na cidadela e nas fortalezas, porque elas guerreavam contra Israel.
42. Demétrio mandou a Jônatas esta resposta: Não só farei isso por ti e por teu povo, mas cumular-vos-ei de honra, a ti e a tua nação, assim que tiver ocasião.
43. Agora farias bem em me enviar homens em meu socorro, porque meus soldados me abandonaram.
44. No mesmo instante enviou Jônatas a Antioquia três mil homens valorosos, que se ajuntaram ao rei, e este sentiu-se muito feliz com sua chegada.
45. Com efeito, os habitantes da cidade se uniram, em número de aproximadamente cento e vinte mil, com o intuito de matarem o rei.
46. Este refugiou-se no seu palácio e o povo, ocupando as ruas da cidade, começou o assalto.
47. Então o rei chamou os judeus em seu auxílio, e todos se agruparam ao redor dele; depois, espalharam-se pela cidade, matando nesse dia cerca de cem mil homens.
48. Incendiaram a cidade, apoderaram-se nesse mesmo dia de um numeroso espólio e salvaram o rei.
49. Os habitantes viram que os judeus faziam da cidade o que eles queriam e perderam a coragem. Por isso ergueram deprecações ao rei:
50. Dai-nos a mão e que os judeus parem de combater, a nós e à cidade.
51. Lançaram, pois, suas armas e concluíram a paz, enquanto os judeus, cobertos de glória diante do rei e dos súditos, voltaram a Jerusalém com abundantes despojos.
52. Demétrio conservou seu trono e todo o país ficou tranqüilo diante dele.
53. Todavia, ele desmentiu sua palavra, separou-se de Jônatas e não lhe pagou mais benevolência com benevolência; ao contrário, tratou-o muito mal.
54. Foi após esses acontecimentos que Trifon chegou com Antíoco, que, apesar de jovem ainda, tomou o título de rei e cingiu-se com o diadema.
55. Todas as forças que Demétrio havia despedido agruparam-se ao redor dele, para combater este último que virou as costas e fugiu.
56. Trifon apoderou-se dos elefantes e conquistou Antioquia.
57. O jovem Antíoco escreveu a Jônatas: Eu te confirmo no sumo pontificado. Mantenho-te à frente dos quatro distritos e quero que estejas entre os amigos do rei.
58. Mandou-lhe também vasos de ouro, utensílios, e concedeu-lhe autorização de beber em copos de ouro, de vestir-se com púrpura, de trazer uma fivela de ouro.
59. Constituiu também seu irmão Simão governador da região que se estende da Escada de Tiro à fronteira do Egito.
60. Então Jônatas pôs-se em campanha, atravessou o país ao longo do rio e percorreu as aldeias. As tropas sírias juntaram-se a ele para lutar a seu lado, e chegou assim a Ascalon, cujos habitantes saíram todos diante dele com sinais de honra.
61. De lá seguiu para Gaza, que lhe fechou suas portas; investiu contra ela e pôs fogo aos arredores que pilhou.
62. Os habitantes de Gaza imploraram então a Jônatas, que lhes estendeu a mão, mas tomou como reféns os filhos dos nobres e os enviou a Jerusalém; em seguida atravessou o país até Damasco.
63. Soube Jônatas que os generais de Demétrio tinham chegado a Cades, na Galiléia, com um forte exército, com a intenção de pôr fim à sua atividade.
64. Foi contra eles e deixou na terra seu irmão Simão.
65. Este acampou ante Betsur, combateu por muito tempo e a sitiou.
66. Por fim, os habitantes pediram-lhe a paz. Ele concedeu-lha, mas os expulsou da cidade, da qual se apoderou, para pôr ali uma guarnição.
67. Jônatas acampou com seu exército perto do lago de Genesar e, pela manhã, muito cedo, penetrou na planície de Azor.
68. Logo o exército estrangeiro avançou contra ele na planície e pôs emboscadas nas montanhas. Enquanto o exército marchava reto, para a frente,
69. as tropas de emboscada saíram de seu esconderijo e travaram a luta.
70. Todos os homens de Jônatas fugiram e não ficou nenhum com exceção de Matatias, filho de Absalão, e de Judas, filho de Calfi, chefe da milícia.
71. Jônatas rasgou suas vestes, cobriu a cabeça com pó, e rezou;
72. em seguida, retornou à luta e fez recuar e fugir o adversário.
73. Os seus que fugiam perceberam-no e, retornando para junto dele, perseguiram com ele os inimigos até Cades e seu acampamento. Ali se estabeleceram.
74. Naquele dia morreram cerca de três mil estrangeiros, e Jônatas voltou a Jerusalém.

 
Capítulo 12

1. Jônatas aproveitou-se das circunstâncias favoráveis e escolheu alguns homens, que enviou a confirmar e renovar a amizade com os romanos.
2. Com este mesmo objetivo enviou cartas também aos espartanos e a outros países.
3. Os embaixadores chegaram a Roma e dirigiram-se ao Senado, onde disseram: O sumo sacerdote Jônatas e o povo judeu enviaram-nos a vós para a renovação da amizade e da aliança com eles como outrora.
4. E deram-lhes, para as autoridades locais, um salvo-conduto, recomendando que os deixassem voltar sãos e salvos à Judéia.
5. Eis a cópia da carta que Jônatas escreveu aos espartanos:
6. Jônatas, sumo sacerdote, o conselho da nação, os sacerdotes e todo o povo judeu, a seus irmãos espartanos, saúde!
7. Outrora, Onias, sumo sacerdote, recebeu de Areu, vosso rei, uma mensagem em que se dizia que éreis nossos irmãos, como o comprova a cópia, aqui anexa.
8. Onias acolheu o enviado com honra e aceitou a carta, na qual havia referências à aliança e à amizade.
9. Por nosso lado, embora não tenhamos necessidade dessas vantagens, tendo para nossa consolação os livros santos, que estão em nossas mãos,
10. resolvemos renovar os laços de fraternidade e de amizade convosco, com receio de que nos tornássemos estranhos a vós, porque já decorreu muito tempo após vossa passagem junto a nós.
11. Sem cessar, em toda ocasião, nas grandes festas e em outros dias solenes, nós nos lembramos de vós, nos sacrifícios que oferecemos e nas nossas preces, como é justo e conveniente pensar nos irmãos.
12. Alegramo-nos com o que ouvimos dizer de vós.
13. Quanto a nós, vivemos entre tribulações e guerras incontáveis: todos os reis que nos cercam nos têm combatido.
14. Em todas essas guerras não quisemos, todavia, ser pesados, nem a vós, nem aos outros aliados e amigos,
15. porque temos por auxílio o socorro do céu; com isso pudemos escapar aos nossos inimigos, os quais foram humilhados.
16. Escolhemos, pois, a Numênio, filho de Antíoco, e Antípatro, filho de Jasão, e nós os enviamos a renovar, com os romanos, a amizade e a aliança de outrora.
17. Do mesmo modo encarregamo-los de ir-vos saudar e de entregar-vos, de nossa parte, esta carta, que visa a reavivar nossa fraternidade.
18. Teríamos muito prazer em receber uma resposta vossa sobre esse assunto.
19. Eis a cópia da carta enviada outrora:
20. Areu, rei dos espartanos, ao sumo sacerdote Onias, saúde!
21. Achou-se, num escrito sobre os espartanos e os judeus, que estes povos são irmãos e descendem de Abraão.
22. Agora que sabemos isto, faríeis bem em nos escrever, se gozais de paz;
23. nós também escrever-vos-emos. Vossos rebanhos e vossos haveres são nossos e os nossos são vossos. Enviamo-vos esta mensagem para que sejais informados disso.
24. Soube Jônatas que os generais de Demétrio haviam voltado com tropas muito mais numerosas que anteriormente, para guerreá-lo.
25. Saiu, pois, ele de Jerusalém e foi ao seu encontro no país de Amatis, sem lhes deixar tempo para invadir seu próprio país.
26. Mandou espiões ao acampamento dos inimigos; esses regressaram e lhe contaram que os inimigos se preparavam para lançar-se sobre eles durante a noite.
27. Ao pôr-do-sol, ordenou Jônatas aos seus que velassem e empunhassem as armas, prontos para o combate, durante toda a noite, enquanto ele postava sentinelas ao redor de todo o acampamento.
28. Ouvindo falar que Jônatas e seus soldados estavam prontos para o combate, os inimigos ficaram tomados de sobressalto e de pavor, e retiraram-se, acendendo fogueiras em seu acampamento.
29. Jônatas e seus companheiros viram queimar os fogos, e não perceberam nada até de manhã;
30. puseram-se então a persegui-los, mas não os apanharam, porque eles haviam atravessado o rio Eleutério.
31. Voltou-se então Jônatas contra os árabes, chamados zabadeus, abateu-os e carregou seus despojos.
32. Em seguida, reuniu seu exército, alcançou Damasco e percorreu toda aquela região.
33. Por seu lado, Simão investiu até Ascalon, e até as fortalezas vizinhas. De lá dirigiu-se a Jope e ocupou-a,
34. porque ouvira falar que os habitantes tinham a intenção de entregar a cidadela às tropas de Demétrio. Ele colocou, pois, ali, uma guarnição para defendê-la.
35. De volta a Jerusalém, Jônatas convocou os anciãos do povo e tomou com eles a decisão de edificar fortalezas na Judéia,
36. de erguer muralhas em Jerusalém, e de construir um muro elevado entre a cidadela e a cidade, para separá-la desta, isolá-la completamente e impedir que ali se vendesse ou comprasse alguma coisa.
37. Formaram-se grupos para reconstruir a cidade, os quais ergueram de novo o muro da torrente do lado leste, e restauraram a parte cognominada Cafenata.
38. Simão edificou Adida, em Sefela, e a muniu de portas e ferrolhos.
39. No entanto, Trifon planejava reinar sobre a Ásia, tomar o diadema, e levantar a mão contra o rei Antíoco.
40. Mas receava que Jônatas não o permitisse e combatesse seus esforços; por isso, procurou apoderar-se dele, para dar-lhe um fim. Partiu, pois, para Betsã.
41. Jônatas saiu ao seu encontro e atacou Betsã com um exército de quarenta mil homens de escol.
42. Vendo que ele se aproximava com um numeroso exército, Trifon, receou lançar-lhe a mão.
43. Recebeu-o com grande honra, apresentou-o a todos os seus amigos, ofereceu-lhe presentes, e ordenou às suas tropas que lhe obedecessem, como a ele mesmo.
44. Depois disse a Jônatas: Por que fatigaste todo este povo, uma vez que não estamos em guerra?
45. Envia-os de volta a suas casas e escolhe alguns para ficarem contigo. Após isso, acompanhar-me-ás a Ptolemaida e entregarte-ei a cidade, todas as outras fortalezas, as outras tropas e todos os funcionários; feito isto, retirar-me-ei, porque foi para isso que vim.
46. Jônatas confiou, fez o que ele dizia, e reenviou as tropas, que regressaram à terra de Judá.
47. Reteve todavia três mil homens, dos quais enviou dois mil à Galiléia e conservou consigo mil.
48. Mal penetrara Jônatas em Ptolemaida, os habitantes fecharam as portas, prenderam-no, e passaram a fio da espada todos os que estavam com ele.
49. Por sua vez, Trifon enviou à Galiléia e à grande planície um exército e cavaleiros, para esmagar os que Jônatas para lá enviara.
50. Mas estes, ouvindo dizer que Jônatas fora morto com todos os seus companheiros, encorajaram-se mutuamente e marcharam em boa ordem, prontos para o combate.
51. Seus perseguidores viram que eles queriam defender sua vida, e regressaram,
52. enquanto os judeus entravam de novo, sãos e salvos, na terra de Judá. Choraram Jônatas e os seus e foram tomados de grande inquietude, e todo o povo caiu na desolação.
53. Todos os povos circunvizinhos procuraram oprimi-los, dizendo entre si:
54. Eles não têm ninguém para comandá-los nem para socorrê-los: é o momento de atacá-los e destruir sua lembrança dentre os homens.

 
Capítulo 13

1. Simão foi informado de que Trifon havia organizado um poderoso exército para vir à Judéia e devastá-la.
2. Vendo o povo amedrontado e espavorido, subiu a Jerusalém, convocou a população
3. e dirigiu-lhe a palavra nestes termos: Vós mesmos sabeis bem o que eu, meus irmãos e a casa de meu pai temos feito pelas leis e pelo santuário, as guerras e as dificuldades que temos conhecido.
4. Foi assim que meus irmãos foram mortos pela causa de Israel e que fiquei eu só.
5. Deus me guarde agora de poupar minha vida, quando o inimigo nos oprime, porque não sou melhor que meus irmãos!
6. Por isso tirarei vingança de meu povo, do santuário, de vossas mulheres e filhos, uma vez que todas as nações, por seu ódio, estão coligadas para nos destruir.
7. A estas palavras, os ânimos inflamaram-se
8. e todos responderam, gritando: Tu és nosso chefe em lugar de Judas e de Jônatas, teu irmão;
9. combate por nós e nós faremos tudo o que disseres.
10. Então Simão reuniu todos os que podiam lutar, apressou-se em terminar os muros de Jerusalém e fortificou o recinto.
11. Enviou Jônatas, filho de Absalão, com consideráveis tropas a Jope. Jônatas expulsou seus habitantes e instalou-se em seu lugar.
12. Todavia, Trifon saiu de Ptolemaida com um numeroso exército e se dirigiu à Judéia. Trouxe consigo Jônatas, prisioneiro.
13. Simão acampou em Adida, defronte à planície.
14. Informado de que Simão havia ocupado o lugar de seu irmão Jônatas e se aprontava para combatê-lo, Trifon enviou-lhe mensageiros, para dizer-lhe:
15. Guardamos teu irmão por causa do dinheiro que ele deve ao tesouro real em vista das funções que exercia.
16. Envia, pois, agora, cem talentos e, para que, uma vez livre, não abandone nossa causa, manda também dois de seus filhos como reféns, e nós o deixaremos ir.
17. Simão percebeu que essas palavras eram falazes, mas mandou buscar o dinheiro e os filhos, com receio de cair na hostilidade do povo, que poderia dizer:
18. Foi porque eu não mandei o dinheiro e os filhos, que o mataram.
19. Remeteu, pois, o dinheiro e os filhos, mas Trifon quebrou a palavra e não libertou Jônatas.
20. Depois, pôs-se ele a caminho para entrar na Judéia e devastá-la, fazendo um rodeio pelo caminho que conduz a Adora, mas Simão se apresentava diante dele por toda parte aonde ele ia.
21. Por seu lado, os ocupantes da cidadela enviaram a Trifon mensageiro pedindo-lhe que se apressasse a ir ter com eles pelo deserto e lhes fornecesse víveres.
22. Trifon aprontou sua cavalaria para partir naquela mesma noite, mas havia ali muita neve e ele não pôde encetar o caminho. Partiu, todavia, e foi à região de Galaad.
23. Quando chegou perto de Bascama matou Jônatas e o sepultou;
24. em seguida, retrocedeu e voltou à sua terra.
25. Simão mandou recolher os restos de seu irmão Jônatas e os sepultou em Modin, cidade de seus pais.
26. E todo o Israel chorou abundantemente e conservou o luto durante muitos dias.
27. Sobre o túmulo de seu pai e de seus irmãos, Simão edificou um monumento grandioso com pedras polidas, na frente e por trás.
28. Ergueu ali sete pirâmides uma diante da outra, para seu pai, sua mãe e seus quatro irmãos.
29. Colocou nelas ornamentos e cercou-as com altas colunas, sobre as quais, para eterna lembrança, colocou muitas armas e, junto a estas, navios esculpidos, que podiam ser vistos por todos os que se achavam no mar.
30. Tal foi a sepultura que ele construiu em Modin e que existe ainda hoje.
31. Trifon, que servia o jovem rei Antíoco, com duplicidade, mandou assassiná-lo,
32. reinou em seu lugar e usurpou o diadema da Ásia. Ele causou muito mal ao país.
33. Simão reergueu as praças fortes da Judéia, muniu-as com torres elevadas, com grandes muros, portas, ferrolhos, e as abarrotou de víveres.
34. Escolheu mensageiros e enviou-os ao rei Demétrio, pedindo-lhe que restabelecesse o país porque Trifon o havia submetido inteiramente à pilhagem.
35. O rei Demétrio mandou-lhe sua resposta e escreveu-lhe nestes termos:
36. O rei Demétrio a Simão, sumo sacerdote e amigo dos reis, aos anciãos e ao povo judeu, saúde!
37. Recebemos a coroa de ouro e a palma que nos enviastes e estamos dispostos a concluir convosco uma paz sólida, bem como a escrever aos funcionários que vos dispensem dos impostos.
38. Tudo o que foi decidido em vosso favor está confirmado, e as fortalezas que construístes são vossas.
39. Nós vos perdoamos todos os erros e as faltas cometidas até o dia de hoje. Renunciamos à coroa que nos devíeis e, se existem ainda em Jerusalém outras dívidas a pagar, não se paguem mais.
40. Finalmente, se existem entre vós alguns que sejam aptos a se alistarem em nossa guarda, que eles o sejam e que a paz reine entre nós.
41. Foi no ano cento e setenta que o jugo dos gentios foi afastado de Israel,
42. e que o povo começou a datar os atos e os contratos do primeiro ano de Simão, sumo sacerdote, chefe do exército e governador dos judeus.
43. Nessa época, Simão veio acampar diante de Gazara, a qual cercou. Construiu uma máquina, levou-a contra a cidade, atacou uma torre e apoderou-se dela.
44. Da máquina os soldados lançaram-se na cidade, causando ali uma grande confusão,
45. de modo que os habitantes, com suas mulheres e seus filhos, apareceram sobre os muros, rasgaram suas vestes e pediram com altos brados a Simão que os poupasse.
46. Não nos trates conforme nossas maldades, diziam eles, mas segundo a tua misericórdia.
47. Simão perdoou-os e não prosseguiu o combate. Não obstante expulsou-os da cidade e mandou purificar todas as habitações onde se achavam os ídolos; em seguida, fez sua entrada ao som de hinos e de cânticos de louvor.
48. Fez desaparecer dali toda impureza e trouxe de volta os habitantes fiéis à lei; fortificou-a e construiu para si mesmo uma morada.
49. Os ocupantes da cidadela de Jerusalém que não podiam sair para ir à cidade comprar e vender, achavam-se numa grande miséria e um bom número deles morreu de fome.
50. Suplicaram a Simão para que ele lhes estendesse a mão. Ele lhes deu a mão, mas os expulsou de lá e purificou a cidadela de todas as suas contaminações.
51. E entrou nela no dia vinte e três do segundo mês, no ano cento e setenta e um, com cânticos e palmas, harpas, címbalos, liras, hinos e louvores, porque um grande inimigo de Israel tinha sido aniquilado.
52. Ordenou também que esse dia fosse celebrado a cada ano com regozijo.
53. Fortificou a montanha do templo do lado da cidadela e habitou ali com os seus.
54. Em seguida, verificando que seu filho João se havia tornado um homem, confiou-lhe o comando de todas as tropas e este residiu em Gazara.

 
Capítulo 14

1. Pelo ano cento e setenta e dois, o rei Demétrio reuniu suas tropas e penetrou na Média, para aí organizar um exército de socorro na sua luta contra Trifon.
2. Mas Arsaces, rei da Pérsia e da Média, informado de que Demétrio havia entrado no seu território, enviou um de seus generais para pegá-lo vivo.
3. Partiu, pois, este, desbaratou o exército de Demétrio e apoderou-se de sua pessoa. Enviou-o a Arsaces, e este o encarcerou.
4. Na Judéia reinou a paz, enquanto viveu Simão. Procurou o bem-estar de seu povo, e este se agradou do seu poder e reputação.
5. Com toda a glória que adquiriu, tomou Jope como porto e construiu um acesso para as ilhas do mar.
6. Alargou as fronteiras de seu povo e estendeu sua autoridade sobre todo o país.
7. Repatriou muitos dos judeus prisioneiros do estrangeiro, apoderou-se de Gazara, de Betsur e da cidadela de Jerusalém, que purificou de suas manchas, e ninguém ousava opor-lhe resistência.
8. Os que cultivavam a terra trabalhavam em paz; o solo dava suas colheitas e as árvores dos campos, seus frutos.
9. Os velhos assentavam-se nas praças públicas e entretinham-se com o bem comum; os jovens revestiam-se com troféus e com equipamentos de guerra.
10. Simão forneceu víveres às cidades e tomou resoluções para edificar praças fortes, de modo que em toda parte, até as extremidades da terra, celebrava-se seu nome.
11. Estabeleceu a paz em seu país, e todo o Israel exultava de alegria.
12. Cada um podia assentar-se sob sua parreira ou figueira sem recear o inimigo.
13. Não houve ninguém para atacá-los, e os reis, nessa época, foram abatidos.
14. Protegeu os humildes entre seu povo, zelou pela lei e exterminou os ímpios e os perversos.
15. Contribuiu para o esplendor do templo e enriqueceu o tesouro.
16. A morte de Jônatas foi bem depressa conhecida em Roma e até em Esparta, provocando grandes pesares.
17. Mas, logo que os romanos e os espartanos souberam que seu irmão Simão se tinha tornado sumo sacerdote em seu lugar e governava o país com as cidades que ali se achavam,
18. escreveram-lhe em tabuletas de bronze para renovar a amizade e a aliança, outrora concluída com seus irmãos Judas e Jônatas.
19. Essas mensagens foram lidas diante da assembléia em Jerusalém e eis a cópia daquela que enviaram os espartanos:
20. Os arcontes da cidade de Esparta ao sumo sacerdote Simão, aos anciãos, aos sacerdotes e ao povo judeu, seu irmão, saúde!
21. Os mensageiros que enviastes ao nosso povo contaram-nos vossa celebridade e glória, e nós nos regozijamos com sua chegada.
22. Nós consignamos, como segue, a proposta que eles fizeram às deliberações do povo: Numênio, filho de Antíoco, e Antípatro, filho de Jasão, vieram a nós, da parte dos judeus, para renovar sua amizade conosco.
23. Pareceu bem ao povo recebê-los com honra e depositar uma cópia de suas palavras nos arquivos públicos, para que ficasse na memória do povo de Esparta; e sobre isso enviamos um cópia a Simão, sumo sacerdote.
24. Em seguida, Simão enviou Numênio a Roma, com um grande escudo de ouro, que pesava mil minas, para confirmação da aliança com os romanos.
25. Quando o povo foi informado disso tudo, disse: Que sinal de reconhecimento daremos a Simão e a seus filhos?
26. Ele mesmo, seus irmãos e a casa de seu pai mostraram-se valorosos, venceram os inimigos de Israel e asseguraram-lhe a liberdade. Gravaram, pois, uma inscrição em tábuas de bronze e colocaram-nas entre as estelas conservadas no monte Sião.
27. Eis a cópia dessa inscrição: No dia dezoito do mês de Elul, do ano cento e setenta e dois, o terceiro ano do pontificado de Simão, em Asaramel,
28. na grande assembléia dos sacerdotes, do povo, dos chefes da nação e dos anciãos do país, foi declarado isto: No momento em que as guerras renasciam sem cessar no país,
29. Simão filho de Matatias, descendente de Jarib, e seus irmãos, expuseram-se ao perigo e resistiram aos inimigos de sua raça, para salvar o templo e a lei, levando seu povo a uma grande glória.
30. Jônatas reuniu seu povo e tornou-se o sumo sacerdote; depois foi juntar-se aos seus mortos.
31. Os inimigos quiseram invadir o país para devastá-lo e lançar a mão sobre os lugares santos,
32. mas então se levantou Simão. Combateu por sua nação, distribuiu uma grande parte de seus bens para armar os homens de seu exército e pagar seu soldo.
33. Fortificou as cidades da Judéia: Betsur, que se acha na fronteira, outrora arsenal do inimigo, onde ele estabeleceu uma guarnição judia;
34. Jope, que se acha na costa; Gazara, na região de Azot, outrora povoada de inimigos, que ele substituiu por judeus. E muniu todas estas cidades com o que era necessário para sua defesa.
35. O povo viu o procedimento de Simão e a glória que ele queria adquirir para a sua raça; escolheu-o para chefe e sumo sacerdote, por causa de tudo o que ele havia efetuado, pela justiça e fidelidade que guardou à sua pátria e porque procurava de todo modo exaltá-la.
36. Sob sua autoridade o povo tinha chegado a rechaçar os gentios de seu território e a expulsar os ocupantes da cidade de Davi em Jerusalém, lugar no qual haviam estabelecido uma cidadela e da qual saíam para manchar os acessos do templo e profanar gravemente a santidade.
37. Simão colocou ali uma guarnição judia, fortificou-a para proteger o país e a cidade, e ergueu os muros de Jerusalém.
38. Depois disso o rei Demétrio confirmou Simão no cargo de sumo sacerdote,
39. contou-o no número de seus amigos e demonstrou-lhe uma grande consideração.
40. Com efeito, ele soube que os romanos davam aos judeus o nome de irmãos, de amigos e de aliados e que haviam recebido com honras os enviados de Simão.
41. Soube também que os judeus e seus sacerdotes haviam consentido que Simão se tornasse seu chefe e sumo sacerdote, perpetuamente, até a vinda de um profeta fiel,
42. que tomasse o comando do exército, cuidasse do culto, designasse superintendentes para os trabalhos, as regiões, os armamentos e as fortificações;
43. que se ocupasse do culto e fosse obedecido por todos; que, no país, todos os atos fossem escritos em seu nome; e que andasse vestido de púrpura e trouxesse fivelas de ouro.
44. Não seria permitido a ninguém do povo ou dos sacerdotes rejeitar uma só de suas disposições, contradizer suas ordens, convocar uma assembléia no país sem o seu assentimento, vestir-se com púrpura ou usar uma fivela de ouro.
45. Quem quer que agisse contra essas decisões ou violasse uma, seria culpado.
46. Aprouve ao povo permitir a Simão agir conforme essas disposições.
47. Simão aceitou. Prontificou-se a ser sumo pontífice, chefe do exército, governador dos judeus e dos sacerdotes e exercer autoridade sobre todos.
48. Foi ordenado que essa inscrição fosse gravada em tábuas de bronze e colocada num lugar visível da galeria do templo,
49. ao passo que uma cópia seria depositada na sala do tesouro, à disposição de Simão e de seus filhos.

 
Capítulo 15

1. Antíoco, filho de Demétrio, escreveu das ilhas do mar a Simão, sacerdote e chefe dos judeus, e a todo o povo.
2. Dizia assim sua carta: O rei Antíoco a Simão, sumo sacerdote e príncipe, e ao povo judeu, saúde!
3. Perversos apoderaram-se do reino de meus pais, mas quero recobrá-lo e restabelecê-lo como foi outrora: organizei, pois, um poderoso exército e aluguei navios de guerra,
4. e pretendo penetrar no país, para vingar-me daqueles que o devastaram e assolaram inúmeras cidades.
5. Pela presente carta, confirmo-te todas as imunidades conferidas por meus reais predecessores, e todas as dádivas que eles te fizeram.
6. Dou-te a permissão de cunhar uma moeda especial para teu país.
7. Que Jerusalém e os lugares santos gozem de liberdade! Todos os armamentos que mandaste fazer e todas as fortalezas que construíste e que estão em teu poder, podes guardá-las.
8. Que te sejam perdoadas, desde agora e para sempre, as dívidas que deves ou deverás ao tesouro real.
9. Quando nós tivermos entrado na posse do nosso reino, cumular-te-emos com grandes honras, a ti, a teu povo, e ao templo, de maneira que vossa reputação fique célebre em toda a terra.
10. No ano cento e setenta e quatro, entrou Antíoco no reino de seus pais, e todas as tropas se ajuntaram a ele, de modo que foram poucos os que ficaram com Trifon.
11. Este, perseguido por Antíoco, foi refugiar-se em Dora, porto da costa,
12. porque sabia que o mal o ia atingindo e que seu exército o abandonava.
13. Antíoco cercou Dora com cento e vinte mil homens e oito mil cavaleiros.
14. Cercou a cidade e seus navios aproximaram-se, formando assim o bloqueio por terra e por mar sem deixar ninguém sair ou entrar.
15. Nessa ocasião, Numênio e seus companheiros voltaram de Roma com cartas dirigidas aos reis e aos povos. Eis o conteúdo:
16. Lúcio, cônsul romano ao rei Ptolomeu, saúde!
17. Os embaixadores enviados por Simão, sumo sacerdote, e pelo povo judeu, como amigos e aliados vieram a nós para renovar a amizade e a aliança de outrora.
18. Trouxeram eles um escudo de ouro de mil minas.
19. Nós resolvemos então pedir aos reis e aos países, que não lhes causem mal, nem lhes façam guerra, a eles, às suas cidades, e aos seus campos, e nem se aliem a seus inimigos.
20. Aprouve-nos aceitar seu escudo.
21. Se judeus apóstatas se refugiaram junto a vós, entregai-os ao sumo sacerdote Simão, para que ele os castigue segundo sua lei.
22. A mesma carta foi enviada ao rei Demétrio, a Átalo, a Ariarates, a Arsaces
23. e a todos os países: a Sampsamo, aos espartanos, a Delos, a Mindo, à Siciônia, à Cária, a Samos, à Panfília, à Lícia, a Halicarnasso, a Rodes, a Fasélides, a Cós, a Siden, a Arado, a Gortine, a Gnido, a Chipre e a Cirene.
24. A cópia dela foi enviada ao sumo sacerdote, Simão.
25. O rei Antíoco continuava o cerco de Dora, oprimindo-a de todos os lados, construindo máquinas, e encerrando Trifon, de maneira que ele não pudesse mais sair nem entrar.
26. Por sua vez, enviou Simão dez mil homens de escol para combater ao lado dele, além de prata, ouro e muitos equipamentos.
27. Mas o rei não quis aceitá-los; retirou o que lhe havia concedido a princípio e tornou-se-lhe hostil.
28. Enviou-lhe um de seus amigos, Atenóbio, para comunicar-lhe isso:Vós ocupastes Jope e Gazara, cidades de meu reino, como também a cidadela de Jerusalém.
29. Assolastes o território, devastastes gravemente o país e vos apoderastes de numerosas localidades de meu reino.
30. Entregai agora as cidades das quais vos haveis apoderado e os tributos das regiões que conquistastes fora das fronteiras da Judéia;
31. senão, retribuí em troca quinhentos talentos de prata e quinhentos outros talentos pelas perdas causadas e pelas rendas das cidades; do contrário, iremos guerrear-vos.
32. Atenóbio, amigo do rei, chegou então a Jerusalém; viu as honras prestadas a Simão, o armário com as taças de ouro e prata, sua habitação faustosa, e ficou maravilhado. Referiu, todavia, as palavras do rei,
33. e Simão respondeu: Não foi uma terra estrangeira que conquistamos, nem a propriedade de outrem que conservamos, mas somente a herança de nossos pais, injustamente usurpada, durante algum tempo, por nossos inimigos.
34. Chegou a hora para nós de a reivindicarmos.
35. Pelo que toca a Jope e a Gazara, que tu reclamas, e que fizeram tanto mal ao nosso povo, devastando o país, nós te concedemos cem talentos. Atenóbio nada respondeu,
36. mas voltou cheio de ira para junto do rei, repetindo-lhe essa resposta e contando-lhe o fausto de Simão, bem como tudo o que vira, e isso levou o rei a uma grande ira.
37. Por esse tempo, Trifon fugia em navio para Ortósia.
38. O rei nomeou então Cendebeu comandante da costa, e entregou-lhe tropas de infantaria e cavalaria;
39. encarregou-o de atacar a Judéia, deu-lhe ordens de reconstruir Cedron, de fortificar os acessos e de atacar o povo judeu, enquanto ele mesmo perseguiria Trifon.
40. Chegado a Jânia, Cendebeu começou a importunar o povo judeu, a realizar incursões na Judéia, a fazer um grande número de prisioneiros e a massacrar os habitantes. Construiu Cedron
41. e colocou ali infantes e cavaleiros com a ordem de realizar investidas e de infestar os caminhos da Judéia, como lhe ordenara o rei.

 
Capítulo 16

1. Subindo de Gazara a Jerusalém, veio João anunciar a seu pai os atos de Cendebeu;
2. mandou então Simão vir seus dois filhos mais velhos, João e Judas, e lhes disse: Eu, meus irmãos e a casa de meu pai temos resistido aos inimigos de Israel desde nossa juventude até o dia de hoje, e, muitas vezes, conseguimos libertar a nação.
3. Mas já estou velho, enquanto que vós, graças a Deus, tendes a idade necessária. Tomai, pois, o meu lugar e o de meu irmão; ide combater por nossa raça, e que o socorro do céu esteja convosco.
4. João recrutou no país vinte mil combatentes e cavaleiros. Foram eles contra Cendebeu e acamparam em Modin.
5. Levantaram-se ao romper da aurora, avançaram pela planície, e eis que um exército numeroso de infantes e de cavaleiros apareceu diante deles, estando separado apenas por uma torrente.
6. João dispôs seus homens diante do inimigo, mas, verificando que eles temiam passar a torrente, atravessou-a por primeiro e, a exemplo dele, todos atravessaram em seguida.
7. Dividiu seu exército e colocou os cavaleiros entre os infantes, porque a cavalaria inimiga era numerosa.
8. Fizeram soar as trombetas sagradas. Cendebeu e seu exército foram derrotados; muitos dentre os seus caíram sob os golpes e o restante fugiu para a fortaleza.
9. Judas, irmão de João foi ferido, mas João perseguiu o inimigo até Cedron, construída por ele.
10. Muitos fugiram para as torres construídas no campo de Azot, mas ele incendiou-as e pereceram cerca de dois mil homens. Após isso, João voltou em paz para a Judéia.
11. Ptolomeu, filho de Abub, havia sido nomeado comandante da planície de Jericó. Possuía muito ouro e prata,
12. porque era genro do sumo sacerdote.
13. Seu coração ensoberbeceu-se, e ele resolveu tornar-se senhor do país; maquinou pois uma traição contra Simão e seus filhos, para livrar-se deles.
14. Ora, no undécimo mês, isto é, no mês de Sabat do ano cento e setenta e sete, quando ele percorria as cidades do país, para cuidar de seus interesses, Simão desceu a Jericó com seus filhos Matatias e Judas.
15. O filho de Abub recebeu-o dolosamente no forte de Doc, que tinha construído, e onde ele havia ocultado seus homens. Deu um grande banquete
16. e, quando Simão e seus filhos ficaram ébrios, Ptolomeu e seus companheiros ergueram-se, tomaram suas armas e lançaram-se sobre Simão, na sala do banquete. Mataram-no como também seus dois filhos e alguns dos seus servidores.
l7 Isso foi uma grande perfídia cometida em Israel: e pagou-se o bem com o mal.
18. Ptolomeu escreveu ao rei para informá-lo, pedindo-lhe que lhe enviasse tropas de socorro e lhe cedesse a região e as cidades.
19. Mandou outros a Gazara, com a missão de matar João; convocou através de cartas os chefes do exército, para entregar-lhes prata, ouro e presentes;
20. e enviou outros emissários a conquistar Jerusalém e a montanha santa.
21. Mas, antecipando-os, alguém veio a Gazara avisar João de que seu pai e seus irmãos haviam perecido e que haviam enviado assassinos para matá-lo.
22. Com essa notícia ficou espavorido, mas mandou prender aqueles que vinham matá-lo, e os exterminou, sabendo perfeitamente que tinham a intenção de assassiná-lo.
23. As outras palavras de João, suas guerras e os seus feitos que realizou com valentia, como construiu as muralhas,
24. tudo isso está narrado nos anais de seu pontificado, desde o momento em que ele se tornou sumo sacerdote depois de seu pai.

 

II Livro dos Macabeus

II Livro dos Macabeus

 Capítulo 1

1. Saúde aos nossos irmãos judeus que estão no Egito. Seus irmãos, os judeus residentes em Jerusalém e no país de Judá, auguram-lhes uma paz venturosa.
2. Deus vos acumule de bens, e que ele se lembre de sua aliança com Abraão, Isaac e Jacó, seus fiéis servidores.
3. Que ele disponha vossa alma à piedade e à observância dos seus mandamentos com um coração generoso e uma fervente submissão!
4. Que ele abra vosso coração à sua lei e aos seus preceitos e que vos estabeleça na paz!
5. Que ele ouça vossas súplicas, vos seja misericordioso e não vos abandone nas provações!
6. Nós daqui rezamos por vós.
7. Sob o reinado de Demétrio, pelo ano cento e sessenta e nove, nós, judeus, vos escrevemos na tribulação e na aflição em que nos achávamos nessa época, desde o dia em que Jasão e seus companheiros abandonaram a terra santa e o reino.
8. A porta do templo foi incendiada e derramado o sangue inocente; mas nós suplicamos ao Senhor, e ele nos ouviu: oferecemos o sacrifício e a flor da farinha, acendemos as lâmpadas e expusemos os pães.
9. Celebrai, portanto, agora, a festa da cenopégia no mês de Casleu.
10. No ano cento e oitenta e oito. Os habitantes de Jerusalém e da Judéia, o senado e Judas, a Aristóbulo, conselheiro do rei Ptolomeu, da linhagem dos sacerdotes consagrados, como também aos judeus do Egito, saúde e prosperidade!
11. Libertados por Deus de inauditos perigos, nós lhe rendemos grandes ações de graças, porque tivemos um rei a combater.
12. Mas Deus rejeitou aqueles que haviam atacado a cidade santa.
13. Seu chefe, chegado à Pérsia com um exército aparentemente irresistível, pereceu no templo de Manéia, vítima de um ardil dos sacerdotes da deusa.
14. Com razão, sob o pretexto de esposar aquela, chegou com seus amigos para apoderar-se de suas riquezas, a título de dote.
15. Os sacerdotes expuseram o tesouro, e ele mesmo, com alguns dos seus, penetrou no recinto sagrado, enquanto eles fechavam as portas;
16. mas, quando Antíoco entrou no interior, abriram uma porta secreta na abóbada e esmagaram o príncipe sob uma saraivada de pedras. Esquartejaram, em seguida, os corpos e degolaram as cabeças, lançando-as aos que estavam do lado de fora.
17. Louvado seja nosso Deus em todas as coisas, porque entregou os ímpios à morte.
18. Em vésperas de celebrarmos, dia vinte e cinco de Casleu, a purificação do templo, julgamos oportuno certificar-vos disso, a fim de que vós também celebreis a festa da cenopégia e a comemoração do fogo que apareceu quando Neemias ofereceu o sacrifício, após ter reconstruído o templo e o altar.
19. Na verdade, quando nossos pais foram levados à Pérsia, os sacerdotes de então, inflamados de piedade, tomaram secretamente o fogo sagrado do altar e o esconderam no fundo de um poço seco, onde eles o ocultaram tão cuidadosamente, que o lugar permaneceu desconhecido de todos.
20. Decorreram muitos anos e, quando aprouve a Deus, Neemias, salvo pelo rei da Pérsia, enviou, para retomar o fogo, os descendentes dos próprios sacerdotes que o haviam ocultado. Ora, segundo a explicação que eles nos deram, não encontraram o fogo, mas um líquido espesso.
21. Neemias ordenou-lhes que o tirassem e o trouxessem. Uma vez preparada a matéria do sacrifício, disse Neemias aos sacerdotes que derramassem a água sobre a madeira e sobre o que estava ali colocado.
22. A ordem foi executada, e veio o momento em que o sol, a princípio encondido, pôs-se a brilhar, então um grande fogo se acendeu e maravilhou todos os espectadores.
23. Enquanto se consumiu o sacrifício, os sacerdotes puseram-se a rezar, e todos rezavam com eles; Jônatas entoava, e os outros, como Neemias, juntavam sua voz à dele.
24. Eis a oração: Senhor, Senhor, Deus, criador de todas as coisas, terrível e forte, justo e misericordioso, que sois o rei único e bom,
25. o único generoso, o único justo, todo-poderoso e eterno, vós que livrastes Israel de todo o mal, que fizestes de nossos pais vossos escolhidos e os santificastes,
26. aceitai este sacrifício, oferecido por todo o vosso povo de Israel, guardai vossa parte de eleição e santificai-a.
27. Congregai nossos irmãos dispersos, devolvei a liberdade aos que são escravos entre os pagãos, deitai vosso olhar sobre os que são desprezados e abominados, e que as nações saibam que sois nosso Deus.
28. Castigai os que nos oprimem e nos ultrajam com seu orgulho.
29. Plantai, como disse Moisés, vosso povo na vossa terra santa.
30. Os sacerdotes então cantaram os hinos.
31. Quando foi consumido o sacrifício, Neemias mandou que se espalhasse o líquido restante sobre grandes pedras.
32. Depois de feito isso, uma chama cintilou, mas se consumiu, enquanto o fogo que se erguia no altar continuava a brilhar.
33. O acontecimento foi logo divulgado, e contaram ao rei da Pérsia que era no lugar onde os sacerdotes levados ao cativeiro tinham ocultado o fogo sagrado, que havia aparecido a água com a qual Neemias e seus companheiros obtiveram o fogo purificador das oferendas.
34. Ordenou o rei que se murasse o lugar e o considerassem como sagrado, após ter-se certificado da exatidão do acontecido.
35. O rei tinha por hábito tomar posse de muitas coisas, das quais dava uma parte a quem ele queria ser agradável.
36. Os companheiros de Neemias chamaram isso de Neftar, que quer dizer purificação, mas a maioria o chama de Neftaí.

 
Capítulo 2

1. Acha-se escrito nos documentos relativos ao profeta Jeremias, que foi ele quem ordenou aos cativos tomar o fogo, como se acaba de contar,
2. e que o profeta, dando-lhes um exemplar da lei, lhes recomendou não esquecerem os mandamentos do Senhor e não se deixarem seduzir à vista dos ídolos de ouro e prata, ou dos ornamentos dos quais estavam ornados.
3. Conjurou-os, entre outros avisos, a não afastarem a lei de seu coração.
4. O escrito mencionava também como o profeta, pela fé da revelação, havia desejado fazer-se acompanhar pela arca e pelo tabernáculo, quando subisse a montanha que subiu Moisés para contemplar a herança de Deus.
5. No momento em que chegou, descobriu uma vasta caverna, na qual mandou depositar a arca, o tabernáculo e o altar dos perfumes; em seguida, tapou a entrada.
6. Alguns daqueles que o haviam acompanhado voltaram para marcar o caminho com sinais, mas não puderam achá-lo.
7. Quando Jeremias soube, repreendeu-os e disse-lhes que esse lugar ficaria desconhecido, até que Deus reunisse seu povo e usasse com ele de misericórdia.
8. Então revelará o Senhor o que ele encerra e aparecerá a glória do Senhor como uma densa nuvem, semelhante à que apareceu sobre Moisés e quando Salomão rezou para que o templo recebesse uma consagração magnífica.
9. Estava também relatado como esse sábio ofereceu o sacrifício da dedicação e da conclusão do santuário,
10. como também, à semelhança de Moisés que orou ao Senhor e obteve que o fogo do céu descesse e consumisse as ofertas, Salomão pôs-se a rezar e o fogo desceu do alto para queimar os holocaustos.
11. Moisés disse: Por não ter sido comido, o sacrifício pelo pecado foi consumido.
12. Também Salomão prolongou por oito dias a dedicação.
13. Nas relações e nas memórias do tempo de Neemias, contavam-se os mesmos feitos e como também ele formou uma biblioteca, reunindo tudo o que se referia aos reis e aos profetas, as obras de Davi e as cartas dos reis a respeito das ofertas.
14. Do mesmo modo, Judas reuniu todos os livros espalhados pelas guerras que nos sobrevieram, e essa coleção se encontra em nosso poder.
15. Por conseguinte, se tendes necessidade de um desses livros, enviai-nos mensageiros que vo-los levarão.
16. Nós vamos, pois, celebrar a purificação do templo e é por isso que vos escrevemos: seria bom que também celebrásseis essas festas.
17. Foi Deus quem salvou todo o seu povo, e quem deu a todos a herança, o reino, o sacerdócio e a santificação,
18. como havia prometido pela lei. Este Deus, em quem esperamos, sem dúvida terá logo piedade de nós e de toda a terra, reunir-nos-á no solo sagrado: porque já nos livrou de grandes males e purificou o templo.
19. Os acontecimentos efetuados no tempo de Judas Macabeu e de seus irmãos, a purificação do augusto templo e a dedicação do altar,
20. como também as guerras sustentadas contra Antíoco Epífanes e contra seu filho Eupator,
21. as manifestações celestes sobrevindas em favor dos bravos, que pelejaram corajosamente pelo judaísmo e que, apesar de seu número reduzido, se tornaram senhores de todo o país, puseram em fuga as hordas bárbaras,
22. recobraram a posse do templo famoso em todo o universo, livraram a cidade e restabeleceram as leis em vias de abolição, tudo isso, graças ao Senhor que lhes foi misericordioso:
23. eis o que Jasão de Cirene narra em cinco livros que vamos tentar resumir em um só.
24. Considerando a multidão das letras e a dificuldade que em vista da abundância dos assuntos experimentam aqueles que desejam penetrar no estudo das narrativas históricas,
25. temo-nos preocupado em agradar aos que apenas desejam lê-las, em facilitar aos que procuram retê-las e em ser úteis a todos em geral.
26. Para nós que empreendemos este trabalho de resumir, não é coisa fácil, mas uma questão de suores e vigílias.
27. No entanto, como aquele que prepara um festim, procurando satisfazer aos outros, assume uma tarefa penosa, assim nós, de boa vontade, tomamos a nós este trabalho, para obter a gratidão de muitos.
28. E deixando para o autor o cuidado de tratar cada assunto em seus detalhes, nós nos esforçamos em expô-los com auxílio de fórmulas resumidas.
29. Assim como para uma casa nova cabe ao arquiteto preocupar-se com o conjunto da construção, enquanto aquele que está encarregado dos afrescos e das pinturas só se ocupa com a decoração, assim, me parece, é o que cabe a nós.
30. Ao autor de uma história toca aprofundar tudo, dissertar sobre tudo, procurar todos os detalhes,
31. mas o que resume deve, ao contrário, procurar condensar a narrativa e evitar a minúcia na exposição dos fatos.
32. Agora, após tão longos prolegômenos, comecemos nossa relação, porque seria absurdo ser prolixo antes da história, e breve na própria história.

 
Capítulo 3

1. Enquanto os habitantes de Jerusalém gozavam de uma paz perfeita, por causa da piedade e retidão do sumo sacerdote Onias, na exata observância das leis,
2. o templo era respeitado, mesmo pelos reis estrangeiros. Estes honravam o santuário com os mais ricos presentes,
3. a tal ponto que Seleuco, rei da Ásia, subministrava com suas rendas pessoais toda a despesa necessária à liturgia dos sacrifícios.
4. Todavia, certo Simão, da tribo de Belga, nomeado prefeito do templo, entrou em desacordo com o sumo sacerdote quanto à inspeção do mercado público.
5. Como não pudesse vencer Onias, foi procurar Apolônio de Társis, então governador militar da Celesíria e da Fenícia.
6. Declarou-lhe que o tesouro do templo transbordava de indizíveis riquezas, a não poder enumerá-las; que nada tinham a ver com os sacrifícios, e que ele daria um jeito de fazê-las passar ao erário real.
7. Tendo uma audiência com o rei, Apolônio o advertiu sobre as riquezas que lhe haviam sido declaradas, e este, tomando uma decisão, enviou seu intendente Heliodoro com a ordem de trazer as ditas riquezas.
8. Imediatamente, Heliodoro pôs-se a caminho, simulando visitas às cidades da Celesíria e da Fenícia; na realidade, porém, era para executar a ordem do rei.
9. Tendo chegado a Jerusalém e sendo recebido pelo sumo sacerdote da cidade com amabilidade, transmitiu-lhe as revelações recebidas e comunicou-lhe o sentido de sua visita; contudo, indagou se tudo isso correspondia à realidade.
10. O sumo sacerdote fez-lhe ver que se tratava do depósito das viúvas e dos órfãos;
11. que somente um dos depósitos pertencia a Hircano, filho de Tobias, varão muito eminente; que não era como o pretendiam as calúnias do ímpio Simão, mas que tudo se reduzia a uma soma de quatrocentos talentos de prata e duzentos talentos de ouro.
12. Era completamente impossível defraudar os que haviam depositado confiança na santidade do lugar e no caráter sagrado e inviolável do templo venerado no mundo inteiro.
13. Firme nas ordens do rei, Heliodoro respondeu que essas riquezas deveriam ser transportadas absolutamente para o tesouro real
14. e, num dia por ele fixado, entrou com a intenção de organizar o inventário. A partir dessa hora, uma grande inquietude se espalhou pela cidade toda.
15. Revestidos de suas vestes sacerdotais e prostrados diante do altar, os sacerdotes suplicavam ao céu e imploravam ao Autor da lei acerca dos depósitos, rogando-lhe que os conservasse intactos para aqueles que lhos tinham confiado.
16. Já o aspecto do sumo sacerdote causava pena ver, do mesmo modo seu semblante; e a alteração de seus traços manifestava sua angústia interior.
17. O susto que o havia tolhido agitava seu corpo com um tremor, que mostrava o sofrimento íntimo de sua alma.
18. Diante da profanação que ameaçava o templo, o povo se precipitava em multidão para fora das casas, a fim de se ajuntarem à prece comum.
19. As mulheres cingidas com sacos pela altura dos seios enchiam as ruas, e quanto às jovens, retidas nas casas, corriam umas para as portas, outras para as muralhas, outras ainda se debruçavam nas janelas;
20. todas erguiam as mãos para o céu com gritos de súplica.
21. Causava dó observar toda a confusão desse povo abatido e a angústia em que jazia o sumo sacerdote.
22. Enquanto suplicavam assim a proteção do todo-poderoso para que conservasse invioláveis os depósitos que lhes haviam sido confiados,
23. Heliodoro executava o seu intento.
24. Já se achava ali, com seus homens armados, quando o Senhor dos espíritos e soberano detentor de todo o poder suscitou uma tal aparição que todos os que haviam ousado vir ali desfaleceram de espanto, atingidos de pavor ante a majestade de Deus.
25. Viram eles, montado num cavalo ricamente ajaezado e guiado furiosamente, um cavaleiro de terrível aspecto, que lançava em Heliodoro as patas dianteiras do cavalo. O que vinha nele montado parecia ter uma armadura de ouro.
26. Ao mesmo tempo, apareceram-lhe outros dois jovens, cheios de força extraordinária, fulgurantes de luz, ricamente vestidos; colocando-se dos dois lados, puseram-se eles a açoitá-lo sem interrupção e descarregaram sobre ele uma saraivada de golpes.
27. Atirado logo por terra, Heliodoro foi envolvido por espessas trevas; seus companheiros ergueram-no e depositaram-no numa liteira.
28. E ele, que vinha para penetrar no mencionado tesouro com uma escolta numerosa e guardas pessoais, incapaz de se ajudar a si mesmo, foi levado por pessoas que reconheciam o manifesto poder de Deus.
29. Enquanto ele se achava estendido e ferido pela força de Deus, sem fala e sem esperança alguma de salvação,
30. os habitantes de Jerusalém bendiziam o Senhor que havia glorificado seu templo. O santuário, que pouco antes estava cheio de confusão e de tumulto, logo que o Senhor manifestou sua onipotência encheu-se de regozijo e de alegria.
31. Todavia, alguns dos companheiros de Heliodoro suplicavam logo a Onias que rezasse ao todo-poderoso, para restituir-lhe a vida, prestes, na verdade, a apagar-se.
32. Receando que o rei suspeitasse de que os judeus houvessem organizado um atentado contra Heliodoro, o sumo sacerdote ofereceu um sacrifício por ele.
33. Ora, enquanto o pontífice executava a cerimônia expiatória, os mesmos jovens apareceram a Heliodoro, revestidos das mesmas vestes. Achegaram-se a ele e disseram-lhe: Sê reconhecido ao sumo sacerdote, porque é por causa dele que Deus te dá a vida.
34. Proclama diante de todos seu grande poder, tu que foste açoitado por Deus. Ditas estas palavras, desapareceram.
35. Após ter oferecido um sacrifício ao Senhor, erguido abundantes preces ao que lhe havia poupado a vida, e agradecido a Onias, Heliodoro regressou com suas tropas para junto do rei.
36. Testemunhava, diante de todos, os prodígios operados pelo Grande Deus, aos seus olhos
37. e, como o rei lhe perguntasse que homem julgava ele que pudesse enviar ainda uma vez a Jerusalém, respondeu:
38. Se tens algum inimigo, ou alguém que maquina contra ti, envia-o para lá, e encontrá-lo-ás ferido, se ainda viver, porque há verdadeiramente, naquele lugar, uma força divina.
39. O que habita no céu zela por aquele templo. Protege-o e arruína mortalmente os que aí vêm com más intenções.
40. Foi assim que se passaram estas coisas a respeito de Heliodoro e do tesouro sagrado que foi protegido.

 
Capítulo 4

1. O dito Simão, delator do tesouro e de sua pátria, caluniava Onias, dizendo que era ele quem se tinha lançado sobre Heliodoro e que era ele o autor de seus males:
2. ousava chamar de inimigo do Estado o benfeitor da cidade, o defensor de seus concidadãos, o ardoroso observante das leis.
3. Este ódio foi tão longe que um dos partidários de Simão cometeu até mesmo assassinatos.
4. Considerando o lado lamentável dessa questão e vendo o governador da Celesíria, Apolônio, filho de Menesteu, excitar a malícia de Simão,
5. dirigiu-se Onias para junto do rei, não que ele tivesse a intenção de acusar seus concidadãos, mas para advertir acerca dos interesses públicos e privados de todo o seu povo.
6. Via muito bem que, sem uma intervenção do rei, seria impossível restabelecer a paz e pôr termo aos desatinos de Simão.
7. Após a morte de Seleuco e tendo subido ao trono Antíoco Epífanes, Jasão, irmão de Onias, usurpou fraudulentamente o cargo de sumo sacerdote.
8. Numa entrevista com o rei, ele lhe prometeu trezentos e sessenta talentos de prata e oitenta talentos excedentes.
9. Prometia-lhe, além disso, pagar outros cento e cinqüenta talentos, se lhe fosse dado o poder de fundar um ginásio e uma efebia e de receber as inscrições dos antioquenos de Jerusalém.
10. O rei consentiu. Logo que subiu ao poder, Jasão arrastou seus concidadãos para o helenismo.
11. Apesar dos privilégios obtidos do poder real por João, o pai de Eupolemo, que foi enviado aos romanos para concluir um pacto de aliança e de amizade, ele introduziu ímpios costumes, desdenhando as leis nacionais.
12. Foi com alegria que fundou um ginásio ao pé da própria acrópole, alistou os mais nobres jovens e os educou ao pétaso.
13. Por causa da perversidade inaudita do ímpio Jasão, que não era de modo algum pontífice, obteve o helenismo tal êxito e os costumes pagãos uma atualidade tão crescente,
14. que os sacerdotes descuidavam o serviço do altar, menosprezavam o templo, negligenciavam os sacrifícios, corriam, fascinados pelo disco, a tomar parte na palestra e nos jogos proibidos.
15. Não faziam caso das honras da pátria e amavam muito mais os títulos helênicos.
16. Foi por essa razão que logo uma atmosfera penosa os cercou, porque naqueles mesmos, cuja forma de vida invejavam e a quem ambicionavam igualar-se em tudo, encontraram inimigos e os instrumentos para seu castigo.
17. O seguinte fato mostrará que não foi fácil violar as leis divinas.
18. Como em Tiro se celebrassem os jogos qüinqüenais, em presença do rei,
19. o ímpio Jasão mandou um grupo de antioquenos de Jerusalém levar trezentas dracmas de prata para o sacrifício de Hércules, mas os próprios portadores acharam a coisa inconveniente e julgaram melhor empregá-las em outras despesas.
20. A vontade de Jasão era de que elas fossem destinadas ao sacrifício de Hércules mas, por causa dos que as levavam, foram destinadas à construção das galeras.
21. Tendo sido enviado ao Egito Apolônio, filho de Menesteu, por ocasião da posse do rei Filometor, soube Antíoco que este rei se lhe tornara hostil e procurou pôr-se em segurança. Veio, pois, a Jope e de lá dirigiu-se a Jerusalém.
22. Recebido magnificamente por Jasão e por toda a cidade, fez sua entrada à luz de fachos, entre aclamações. Depois disso transportou o seu acampamento para a Fenícia.
23. Três anos mais tarde, Jasão enviou Menelau, irmão de Simão, acima mencionado, para levar o dinheiro ao rei e lembrar-lhe os negócios urgentes;
24. mas, uma vez admitido à presença do rei, cumulou-o de encômios sobre a extensão do seu poder e, oferecendo trezentos talentos a mais que Jasão, obteve para si mesmo o pontificado.
25. Recebidas as ordens do rei, voltou, nada tendo em si que fosse digno do pontificado, mas excitado por sentimentos de um desumano tirano e de uma besta feroz.
26. Desse modo Jasão, que havia suplantado seu próprio irmão, suplantado por sua vez, viu-se forçado a exilar-se no país dos amonitas.
27. Quanto a Menelau, achava-se bem na posse da dignidade, mas não entregava de modo algum ao rei o dinheiro prometido,
28. se bem que ele lhe fosse reclamado por Sóstrato, governador da Acrópole, encarregado das cobranças dos impostos; por esse motivo ambos foram chamados a comparecer diante do rei.
29. Menelau designou para substituí-lo como sumo sacerdote seu irmão Lisímaco; Sóstrato deixou Cratos, comandante dos cipriotas.
30. Entrementes, os habitantes de Tarso e de Malos se revoltaram, porque sua cidade havia sido entregue a Antioquides, concubina do rei.
31. Partiu pois este a toda a pressa, para restabelecer a calma, deixando como seu lugar-tenente Andrônico, um de seus dignitários.
32. Menelau viu que a circunstância lhe era favorável e se reconciliou com Andrônico por meio de objetos de ouro roubados ao templo; chegou igualmente a vendê-los em Tiro e nas cidades vizinhas.
33. Quando soube disso com clareza, Onias repreendeu-o, conservando-se retirado no território inviolável de Dafné, perto de Antioquia.
34. Por causa disso, Menelau tomou à parte Andrônico, e induziu-o a matar Onias. Andrônico dirigiu-se, pois, para junto dele, enganou-o com astúcia, deu-lhe garantias, que confirmou por juramento, levou-o a deixar seu esconderijo e matou-o no mesmo instante, sem nenhuma atenção à justiça.
35. Não só os judeus, mas também muitos estrangeiros ficaram indignados e consternados com esse assassínio iníquo
36. e, quando o rei entrou nas cidades de Cilícia, tanto os judeus da cidade, como também os gregos contrários à violência, vieram perquirir o motivo do assassinato inescusável de Onias.
37. Antíoco ficou profundamente abatido e, tocado de compaixão, chorou ao lembrar-se da sabedoria e da grande moderação do finado.
38. Excitado assim por uma cólera violenta, despojou imediatamente Andrônico de suas púrpuras, rasgou-lhe as vestes, mandou que levassem através de toda a cidade, até o lugar onde havia lançado a mão sacrílega sobre Onias, e ali acabou com a vida do homicida. Assim o Senhor deu-lhe o merecido castigo.
39. Ora, em Jerusalém, Lisímaco, de acordo com Menelau, multiplicou os roubos sacrílegos e, divulgado o rumor, o povo acabou por amotinar-se contra ele, porque muitos objetos de ouro haviam sido levados.
40. Como a multidão se houvesse sublevado em cólera, Lisímaco equipou perto de três mil homens e deu o sinal para uma injusta repressão, sob a chefia de certo Auranos, homem avançado em idade e não menos em loucura.
41. Todavia, o povo tomou conhecimento da trama de Lisímaco: uns se armaram com pedras, outros com paus, alguns ajuntaram o pó da terra e se arremessaram contra os homens de Lisímaco.
42. Desse modo, muitos foram os feridos, alguns mortos e os restantes postos em fuga; quanto ao próprio sacrílego, mataram-no junto ao tesouro.
43. Por todas essas desordens, foi instaurado um processo contra Menelau.
44. Quando o rei veio a Tiro, três enviados da assembléia dos anciãos sustentaram a acusação diante dele.
45. Mas Menelau, que se julgava já derrotado, prometeu grande soma de dinheiro a Ptolomeu, filho de Diomedes, para que ele lhe granjeasse o favor do rei.
46. Ptolomeu conduziu pois o rei para debaixo de um peristilo, como se fosse para tomar ar fresco, e fê-lo mudar de sentimento,
47. de modo que Menelau, posto que responsável por todo o mal, foi considerado pelo rei inocente de todas as acusações que pesavam sobre ele, e condenou à morte os infelizes que teriam sido julgados inocentes, mesmo se tivessem pleiteado diante dos citas.
48. Assim, os que só tinham tomado a palavra para defender os interesses da cidade, do povo e dos objetos sagrados sofreram essa pena injusta.
49. Por isso, os próprios tírios ficaram de tal maneira encolerizados com esse crime, que subvencionaram magnificamente os gastos de suas sepulturas.
50. Quanto a Menelau, por causa da cobiça dos poderosos, conservou seu cargo, mas cresceu em malícia e tornou-se o verdadeiro inimigo de seus concidadãos.

 
Capítulo 5

1. Por essa ocasião, Antíoco organizou sua segunda expedição ao Egito.
2. Aconteceu que em toda a cidade e por mais de quarenta dias apareceram, correndo pelos ares, cavaleiros vestidos de ouro e armados com lanças, coortes armadas, espadas desembainhadas,
3. esquadrões alinhados para a batalha, perseguições e choques de um lado e de outro, movimentos de escudos, florestas de lanças, tiros de dardos, armaduras de ouro resplandecentes e couraças de todo o gênero.
4. Por isso, todos rezavam para que tais aparições produzissem felizes resultados.
5. Espalhando-se a notícia, aliás falsa, da morte de Antíoco, Jasão tomou consigo ao menos mil homens e atacou a cidade de improviso. Travou-se o combate sobre os muros e a cidade estava já tomada, quando Menelau fugiu para a Acrópole.
6. Jasão massacrou sem piedade seus próprios concidadãos, esquecendo-se de que uma vitória ganha sobre compatriotas é a maior das desgraças, e agiu como se alcançasse um troféu dos seus inimigos e não dos seus congêneres.
7. Todavia, não lhe foi possível conquistar o poder, e só recolhendo de sua maquinação a vergonha, fugiu de novo para a terra dos amonitas.
8. Pereceu, enfim, miseravelmente, porque, acusado junto de Aretas, rei dos árabes, fugiu de cidade em cidade e, perseguido por todos, detestado como violador de leis, desprezado como carrasco de sua pátria e de seus concidadãos, foi levado para o Egito.
9. Aquele que tinha lançado fora de sua pátria tanta gente pereceu numa terra estrangeira, tendo ido para junto dos espartanos, com a esperança de ali encontrar refúgio, por causa de uma origem comum
10. e, após ter lançado por terra tantos homens, sem sepultá-los, não foi chorado por ninguém, não recebeu as honras dos funerais e nem um lugar no túmulo de seus pais.
11. Quando a notícia desses acontecimentos chegou aos ouvidos do rei, ele concluiu que a Judéia queria desertar. Trazendo seu exército do Egito, com o ânimo enfurecido, conquistou a cidade de assalto,
12. e ordenou aos soldados que matassem sem compaixão aqueles que caíssem em suas mãos e que degolassem os que se refugiassem nas casas.
13. Houve, pois, mortandade de jovens e de velhos, carnificina de homens, de mulheres e de crianças, massacre de donzelas e de meninos.
14. Em três dias houve oitenta mil vítimas, das quais quarenta mil foram mortas e outras tantas vendidas como escravas.
15. Não satisfeito com isso, o rei ousou penetrar no templo, o mais santo de toda a terra, conduzido por Menelau, que foi infiel às leis e à pátria.
16. Tomou com as mãos profanas os vasos sagrados e com mãos impuras apoderou-se das oferendas feitas pelos reis anteriores, para proveito, honra e glória do templo.
17. Antíoco enchia-se de orgulho, mas não percebia que o Senhor momentaneamente se havia irritado por causa dos pecados dos habitantes da cidade: daí essa indiferença pelo templo,
18. porque, se os judeus não fossem por demais culpáveis, a exemplo de Heliodoro, enviado pelo rei Seleuco para inspecionar o tesouro, ele teria sido flagelado logo que chegou, e dissuadido de sua audácia.
19. Na verdade, Deus não escolheu o povo por causa do templo, mas escolheu o templo por causa do povo;
20. foi por isso que aquele, depois de ter participado dos males do povo, teve em seguida parte com ele nos favores divinos e, desamparado no tempo da cólera, foi restaurado com toda a sua glória por ocasião da reconciliação com o soberano Senhor.
21. Tendo Antíoco roubado ao templo mil e oitocentos talentos, voltou sem demora para Antioquia. Com o espírito exaltado, ele cria, em sua soberba, poder navegar sobre a terra e caminhar sobre o mar.
22. Contudo, por motivo de seu ódio para com os judeus, deixou atrás de si oficiais com a incumbência de molestar o povo: em Jerusalém, Filipe, da Frígia, mais bárbaro ainda que seu senhor;
23. no monte Garizim, Andrônico e, adjunto a estes, Menelau, que se encarniçava contra seus concidadãos de modo mais terrível que os outros.
24. Enviou também o misarca Apolônio à frente de um poderoso exército de vinte e dois mil homens, com a ordem de matar todos os adultos e de vender as mulheres e as crianças.
25. Chegou pois este a Jerusalém, fingindo intenções pacíficas; esperou até o dia santo de sábado e, apanhando os judeus desocupados, ordenou às suas tropas pegarem em armas.
26. Todos os que saíram para ver o espetáculo foram massacrados e, percorrendo a cidade com seus soldados, matou um grande número de pessoas.
27. Judas Macabeu retirou-se com um grupo de outros homens para o deserto, vivendo com os seus companheiros nas montanhas como animais selvagens e alimentando-se de plantas para não se contaminarem.

 
Capítulo 6

1. Pouco tempo depois, um velho ateniense foi enviado pelo rei para forçar os judeus a abandonar os costumes dos antepassados, banir as leis de Deus da cidade,
2. macular o templo de Jerusalém, dedicá-lo a Júpiter Olímpico e consagrar o do monte Garizim, segundo o caráter dos habitantes do lugar, a Júpiter Hospitaleiro.
3. Dura e penosa foi para todos essa avalanche de mal.
4. O templo encheu-se de lascívias e das orgias dos gentios que se divertiam com meretrizes, unindo-se às mulheres nos átrios sagrados e introduzindo coisas ilegais.
5. O altar estava coberto de vítimas impuras, interditas pelas leis.
6. Não se permitia mais a observância do sábado, a celebração das antigas festas, nem mesmo confessar-se judeu.
7. Em cada mês, no dia natalício do rei, realizava-se um sacrifício; os judeus eram odiosamente forçados a tomar parte no banquete ritual e, por ocasião das festas em honra de Dionísio, deviam forçosamente acompanhar o cortejo de Baco, coroados com hera.
8. Por instigação dos ptolomeus, foi publicado um decreto que obrigava as cidades helênicas dos arredores a tratar os judeus do mesmo modo e levá-los à participação nos banquetes rituais, com a ordem de matar os que se recusassem a adotar os costumes helênicos.
9. Podiam-se, pois, prever as aflições que os aguardavam.
10. Assim, duas mulheres foram acusadas de circuncidarem suas crianças: foram arrastadas publicamente pela cidade, com seus filhinhos pendurados aos peitos e precipitadas do alto das muralhas.
11. Outros se haviam retirado às cavernas vizinhas para aí celebrarem secretamente o dia de sábado. Denunciados a Filipe, foram todos queimados, pois não ousaram defender-se, por respeito à santidade do dia.
12. Suplico aos que lerem este livro, que não se deixem abater por esses tristes acontecimentos, mas que considerem que esses castigos tiveram em mira não a ruína, mas a correção de nossa raça;
13. porque é sinal de uma grande benevolência a seu respeito o fato de não suportar por muito tempo os maus e de, ao contrário, castigá-los sem tardança.
14. Quanto às outras nações, o Senhor espera pacientemente, antes de puni-las, que tenham enchido a medida de suas iniqüidades; a nós, porém, ele prefere não nos tratar assim,
15. com receio de ter que nos punir mais tarde, quando tivermos pecado demasiadamente.
16. Assim, não nos retire ele jamais a sua misericórdia e não abandone seu povo, no momento em que o corrige pela adversidade!
17. Mas que tudo isso seja dito apenas a título de lembrança, e, com estas palavras, voltemos à narração.
18. Havia certo homem já de idade avançada e de bela aparência, Eleazar, que se sentava no primeiro lugar entre os doutores da lei. Queriam coagi-lo a comer carne de porco, abrindo-lhe a boca à força.
19. Mas ele, cuspindo e preferindo morrer com honra a viver na infâmia,
20. caminhou voluntariamente para o instrumento de tortura, como devem caminhar os que têm a coragem de rejeitar o que não é permitido comer por amor à vida.
21. Ora, os encarregados desse ímpio banquete ritual, já desde muito tempo possuíam relações de amizade com Eleazar. Tomaram-no à parte e rogaram-lhe que fizesse trazer as carnes permitidas, que ele mesmo tivesse preparado, para comê-las como se fossem carnes do sacrifício, conforme ordenara o rei.
22. Desse modo, ele seria preservado da morte, e granjearia sua benevolência em vista da antiga amizade.
23. Mas Eleazar, tomando uma bela resolução, digna de sua idade, da autoridade que lhe conferia sua velhice, do prestígio que lhe outorgavam seus cabelos brancos, da vida íntegra conservada desde a infância, digna sobretudo das sagradas leis estabelecidas por Deus, preferiu ser conduzido à morte.
24. Não é próprio da nossa idade, respondeu ele, usar de tal fingimento, para não acontecer que muitos jovens suspeitem de que Eleazar, aos noventa anos, tenha passado aos costumes estrangeiros.
25. Eles mesmos, após o meu gesto hipócrita, e por um pouco de vida, se deixariam arrastar por causa de mim, e isso seria para a minha velhice a desonra e a vergonha.
26. E mesmo se eu me livrasse agora dos castigos dos homens, não poderia escapar, nem vivo nem morto, das mãos do Todo-poderoso.
27. Sendo assim, se eu morrer agora corajosamente, mostrar-me-ei digno de minha velhice, e terei deixado aos jovens um nobre exemplo de zelo generoso, segundo o qual é preciso dar a vida pelas santas e veneráveis leis.
28. Ditas estas palavras, ele dirigiu-se ao suplício.
29. Aqueles que o levavam transformaram em dureza a benevolência, que pouco antes haviam tido para com ele, julgando insensatas suas palavras.
30. E quando ele estava prestes a morrer sob os golpes, exclamou entre suspiros: O Senhor que possui a ciência santíssima o vê: podendo eu livrar-me da morte, sofro em meu corpo os tormentos cruéis dos açoites, mas os suporto com alma alegre porque é a ele que temo.
31. Dessa maneira passou à outra vida, deixando com sua morte não somente aos jovens, mas também a toda a sua gente, um exemplo de coragem e um memorial de virtude.

 
Capítulo 7

1. Havia também sete irmãos que foram um dia presos com sua mãe, e que o rei por meio de golpes de azorrage e de nervos de boi, quis coagir a comerem a proibida carne de porco.
2. Um dentre eles tomou a palavra e falou assim em nome de todos. Que nos pretendes perguntar e saber de nós? Estamos prontos a morrer antes de violar as leis de nossos pais.
3. O rei, fora de si, ordenou que aquecessem até a brasa sertãs e caldeirões.
4. Logo que ficaram em brasa ordenou que cortassem a língua do que falara (por) primeiro e, depois que lhe arrancassem a pele da cabeça, que lhe cortassem também as extremidades, tudo isso à vista de seus irmãos e de sua mãe.
5. Em seguida, mandou conduzi-lo ao fogo inerte e mal respirando, para assá-lo na sertã. Enquanto o vapor da panela se espalhava em profusão, os outros com sua mãe, exortavam-se mutuamente a morrer com coragem.
6. O Senhor nos vê, diziam, e certamente terá compaixão de nós, como o diz claramente Moisés no seu cântico de admoestações: Ele terá compaixão de seus servos.
7. Morto desse modo o primeiro, conduziram o segundo ao suplício. Arrancaram-lhe a pele da cabeça com os cabelos e perguntaram-lhe depois: Comerás carne de porco, ou preferes que teu corpo seja torturado membro por membro?
8. Ele respondeu: Não, no idioma de seu país, e padeceu então os mesmos tormentos do primeiro.
9. Prestes a dar o último suspiro, disse ele: Maldito, tu nos arrebatas a vida presente, mas o Rei do universo nos ressuscitará para a vida eterna, se morrermos por fidelidade às suas leis.
10. Após este, torturaram o terceiro. Reclamada a língua, ele a apresentou logo, e estendeu as mãos corajosamente.
11. Pronunciou em seguida estas nobres palavras: Do céu recebi estes membros, mas eu os desprezo por amor às suas leis, e dele espero recebê-los um dia de novo.
12. O próprio rei e os que o rodeavam ficaram admirados com o heroísmo desse jovem, que reputava por nada os sofrimentos.
13. Morto este, aplicaram os mesmos suplícios ao quarto,
14. e este disse, quando estava a ponto de expirar: É uma sorte desejável perecer pela mão humana com a esperança de que Deus nos ressuscite; mas, para ti, certamente não haverá ressurreição para a vida.
15. Arrastaram em seguida o quinto e torturaram-no;
16. mas ele, encarando o rei, lhe disse: Ainda que mortal, tens poder sobre os homens, e fazes o que queres. Não penses, todavia, que nosso povo é abandonado por Deus!
17. Espera, verás quão grande é a sua potência e como ele te castigará a ti e à tua raça.
18. Após este, fizeram achegar-se o sexto, que disse antes de morrer: Não te iludas; nós mesmos merecemos estes sofrimentos, porque pecamos contra nosso Deus, e em conseqüência recebemos estes flagelos surpreendentes.
19. Mas não creias tu que ficarás impune, após haveres ousado combater contra Deus.
20. Particularmente admirável e digna de elogios foi a mãe que viu perecer seus sete filhos no espaço de um só dia e o suportou com heroísmo, porque sua esperança repousava no Senhor.
21. Ela exortava a cada um no seu idioma materno e, cheia de nobres sentimentos, com uma coragem varonil, ela realçava seu temperamento de mulher.
22. Ignoro, dizia-lhes ela, como crescestes em meu seio, porque não fui eu quem vos deu nem a alma, nem a vida, e nem fui eu mesma quem ajuntou vossos membros.
23. Mas o criador do mundo, que formou o homem na sua origem e deu existência a todas as coisas, vos restituirá, em sua misericórdia, tanto o espírito como a vida, se agora fizerdes pouco caso de vós mesmos por amor às suas leis.
24. Receando, todavia, o desprezo e temendo o insulto, Antíoco solicitou em termos insistentes o mais jovem, que ainda restava, prometendo-lhe com juramento torná-lo rico e feliz, se abandonasse as tradições de seus antepassados, tratá-lo como amigo, e confiar-lhe cargos.
25. Como o jovem não deu importância alguma, o rei mandou que a mãe se aproximasse e o exortasse com seus conselhos, para que o adolescente salvasse sua vida;
26. como ele insistiu por muito tempo, ela consentiu em persuadir o filho.
27. Inclinou-se sobre ele e, zombando do cruel tirano, disse-lhe na língua materna: Meu filho, compadece-te de tua mãe, que te trouxe nove meses no seio, que te amamentou durante três anos, que te nutriu, te conduziu e te educou até esta idade.
28. Eu te suplico, meu filho, contempla o céu e a terra; reflete bem: tudo o que vês, Deus criou do nada, assim como todos os homens.
29. Não temas, pois, este algoz, mas sê digno de teus irmãos e aceita a morte, para que no dia da misericórdia eu te encontre no meio deles.
30. Logo que ela acabou de falar, o jovem disse: Que estais a esperar? Não atenderei às ordens do rei; eu obedeço àquele que deu a lei a nossos pais por intermédio de Moisés.
31. Mas tu, que és o inventor dessa perseguição contra os judeus, não escaparás à mão de Deus.
32. Quanto a nós é por causa de nossos pecados que sofremos
33. e se, para nos punir e corrigir, o Deus vivo e Senhor nosso se irou por pouco tempo contra nós, ele há de se reconciliar de novo com seus servos.
34. Ímpio, não te exaltes sem razão, embalando-te em vãs esperanças, enquanto levantas a mão sobre os servos do céu;
35. tu ainda não escapaste ao julgamento do Deus todo-poderoso que tudo vê!
36. Enquanto meus irmãos participam agora da vida eterna, em virtude do sinal da Aliança, após terem padecido um instante, tu sofrerás o justo castigo de teu orgulho, pelo julgamento de Deus.
37. A exemplo de meus irmãos, entrego meu corpo e minha vida em defesa às leis de nossos pais e suplico a Deus que ele não se demore em apiedar-se de seu povo; oxalá tu, em meio aos sofrimentos e provações, reconheças nele o Deus único;
38. enfim, que se detenha em mim e em meus irmãos a cólera do Todo-poderoso que se desencadeou sobre toda a nossa raça.
39. Abrasado de ira e enraivecido pela zombaria, o rei maltratou este com maior crueldade do que os outros.
40. Morreu, pois, o jovem purificado de toda mancha e completamente entregue ao Senhor.
41. Seguindo as pegadas de todos os seus filhos, a mãe pereceu por último.
42. Terminamos aqui nossa narração concernente aos banquetes rituais e a estas atrozes perseguições.

 
Capítulo 8

1. Judas, apelidado Macabeu, e seus companheiros penetravam secretamente nas aldeias e convocavam seus parentes: arrastando consigo todos os que se haviam mantido fiéis ao judaísmo, formaram um grupo de aproximadamente seis mil homens.
2. Suplicavam ao Senhor que olhasse para o povo desdenhado por todos, que se compadecesse do templo profanado pelos ímpios;
3. que tivesse compaixão da cidade devastada, perto de ser reduzida ao nível do solo; que escutasse a voz do sangue derramado que a ele clamava;
4. que se lembrasse da desumana carnificina de meninos inocentes e que vingasse também as blasfêmias proferidas contra seu nome.
5. Judas tornou-se o chefe da tropa e os gentios viram-se incapazes de resistir-lhe porque a cólera de Deus tinha-se convertido em misericórdia.
6. Atacava de improviso as cidades e aldeias e as incendiava; ocupava as posições favoráveis, de onde afugentava não poucos de seus inimigos.
7. Era principalmente à noite que ele empreendia essas expedições, e a fama de seu valor espalhava-se por toda parte.
8. Vendo Judas progredir dia a dia e alcançar sempre freqüentes vitórias, Filipe escreveu ao governador da Celesíria e da Fenícia, Ptolomeu, e pediu-lhe auxílio para defender os interesses do rei.
9. Imediatamente, este designou Nicanor, um dos primeiros amigos do rei e filho de Pátroclo, e o enviou à frente de uns vinte mil homens de todas as nações para exterminar toda a raça judia. Agregou a ele Górgias, general perito em assuntos de guerra.
10. Nicanor esperava obter, com a venda dos judeus que fossem aprisionados, os dois mil talentos que o rei devia como tributo aos romanos.
11. Enviou sem perda de tempo, às cidades da costa, o convite para que viessem comprar judeus, prometendo entregar noventa escravos por um talento. Mas não suspeitava então de que o castigo do Todo-poderoso iria cair sobre ele.
12. A notícia do avanço de Nicanor chegou a Judas, o qual informou aos seus da chegada dos inimigos.
13. Num relance, os que tinham medo ou não tinham confiança na justiça de Deus, fugiram e dispersaram-se;
14. outros venderam seus pertences, suplicando ao Senhor que os livrasse do ímpio Nicanor, que os havia vendido antes mesmo de tê-los em mãos.
15. Se não por eles, que o fizesse ao menos em consideração às alianças estabelecidas com seus pais e porque seu santo e sublime nome tinha sido invocado sobre eles.
16. Macabeu reuniu então ao redor de si seus homens, em número de seis mil, exortou-os a não se deixarem intimidar pelos inimigos, nem temerem essa massa de gentios que vinha injustamente contra eles, e que combatessem com valentia;
17. que pensassem na indigna profanação infligida por eles ao templo, na humilhação imposta à cidade devastada e na ruína das tradições de seus antepassados.
18. Eles confiam, dizia ele, nas suas armas e na sua audácia, mas nós colocamos nossa segurança no Deus todo-poderoso, que pode, com um só leve aceno, desbaratar tanto os que nos atacam como o universo inteiro.
19. Lembrou-lhes no passado o caso da proteção divina: como, por exemplo, do exército de Senaquerib, haviam perecido cento e oitenta mil homens;
20. e, na batalha contra os gálatas em Babilônia, oito mil judeus tiveram de lutar ao lado de quatro mil macedônios; como estes se achavam numa situação crítica, os oito mil judeus massacraram cento e vinte mil inimigos, por causa do socorro que lhes foi dado do céu, e alcançaram um vasto despojo.
21. Após ter reconfortado seus companheiros e tê-los preparado a morrer pelas leis e pela pátria, dividiu o exército um quatro corpos
22. colocando à frente destes seus irmãos Simão, José e Jônatas, como também Eleazar, cada qual chefiando mil e quinhentos homens.
23. Apenas terminada a leitura do livro santo e dada a senha: Socorro de Deus, ele mesmo pôs-se à frente do primeiro corpo e travou a batalha contra Nicanor.
24. O Todo-poderoso combatia com eles: massacraram mais de nove mil inimigos, feriram e mutilaram a maior parte dos soldados de Nicanor, e os puseram em fuga.
25. Apoderaram-se também do dinheiro dos que tinham vindo para comprá-los, e perseguiram por muito tempo os vencidos, mas tiveram que desistir, impedidos pelo tempo,
26. porque era véspera de sábado, e isso os impedia de prosseguir.
27. Recolheram as armas, arrebataram os despojos dos inimigos e chegaram assim ao sábado, bendizendo o Senhor à porfia, e glorificando-o por havê-los livrado nesse dia, prenunciando a alvorada de sua misericórdia.
28. Passado o sábado, eles reservaram uma parte dos espólios para os que haviam sofrido com a perseguição, as viúvas e os órfãos, e dividiram o resto entre eles e seus filhos.
29. Feito isto, rezaram ao Senhor em comum, suplicando misericórdia e reconciliação completa com seus servos.
30. Nos diferentes combates com os soldados de Timóteo e de Báquides, eles mataram mais de vinte mil e tornaram-se senhores absolutos de várias praças fortes. A abundante presa dividiram-na em duas partes iguais: uma para si mesmos, outra para os perseguidos, as mulheres, os órfãos e mesmo os anciãos.
31. As armas que eles haviam recolhido foram colocadas diligentemente em lugares seguros e levaram a Jerusalém os demais despojos.
32. Mataram o chefe dos guardas de Timóteo, um dos homens mais perversos, que havia feito muito mal aos judeus.
33. Quando celebraram a festa da vitória em Jerusalém, queimaram, dentro de uma pequena casa onde se haviam refugiado, Calístenes e os que haviam incendiado as portas do templo, infligindo-lhes assim o justo castigo de seu sacrilégio.
34. O tríplice celerado Nicanor – que fizera vir mil negociantes, para vender-lhes os judeus -
35. humilhado, graças a Deus, por aqueles que ele desprezava profundamente, despojou-se da vestidura de honra, e, atravessando o interior do país sozinho, como um fugitivo, chegou a Antioquia, feliz por ainda ter podido escapar ao desastre de seu exército.
36. E ele, que tinha prometido pagar o tributo aos romanos com o dinheiro que tiraria da venda dos cativos de Jerusalém, publicou que os judeus possuíam um protetor e que se tornavam invulneráveis quando observavam as leis estabelecidas por ele.

 
Capítulo 9

1. Por essa mesma ocasião, voltava Antíoco da Pérsia, coberto de vergonha.
2. Pois, entrando na cidade que se chamava Persépolis, ele havia tentado saquear o templo e ocupar a cidade, mas o povo se revoltou e pegou em armas, para defender-se; com isso, Antíoco viu-se forçado pelos habitantes dessa região a começar uma retirada humilhante.
3. Achando-se perto de Ecbátana, soube da derrota de Nicanor e do exército de Timóteo.
4. Num arroubo de cólera, resolveu desforrar imediatamente nos judeus o mal que lhe haviam feito os que o tinham obrigado a fugir, e deu ordem ao condutor de seu carro de prosseguir sem parar, a fim de conseguir o mais depressa possível seu intento: na realidade, a sentença do céu já havia caído sobre ele. Exclamava com presunção: Assim que chegar, farei de Jerusalém o sepulcro dos judeus.
5. Mas o Senhor Deus de Israel, que tudo vê, feriu-o com um mal implacável e misterioso. Mal acabara de pronunciar essas palavras, aconteceu que ele foi assaltado por atrozes dores nas entranhas e agudos tormentos no interior;
6. e era muito justo, pois ele mesmo havia rasgado as entranhas aos outros por inauditos tormentos!
7. Todavia, em nada desistiu da sua arrogância; pelo contrário, sempre cheio de soberba, exalava contra os judeus o fogo de sua cólera e ordenava que se apressasse a caminhada, quando repentinamente caiu da carroça, arrancado pela violência da corrida e, na queda fatal, quebrou todos os membros.
8. O homem que, pouco antes, julgando-se acima da natureza humana, pensava poder dominar as frotas do mar e pesar as montanhas nos pratos de sua balança, ei-lo agora estendido sobre a terra, em seguida levado numa liteira, provando assim aos olhos de todos a manifesta potência de Deus.
9. Chegou a tal ponto que o corpo vivo do ímpio fervilhava de vermes e as carnes se soltavam em pedaços entre atrozes dores: o mau cheiro da podridão, que enchia o ar, empestava todo o campo.
10. Aquele que até há pouco tempo sonhava tocar os astros do céu, agora ninguém podia suportá-lo por causa do mau cheiro que dele saía!
11. Foi então que, derribado, ele começou a perder o orgulho excessivo e a compreender melhor, torturado sob os castigos de Deus pelos constantes sofrimentos.
12. Incapaz de suportar sua própria infecção: É justo, dizia ele, submeter-se a Deus, e, como simples mortal, não se querer igualar a ele.
13. O celerado rezava ao Senhor, de quem não haveria de receber compaixão,
14. e prometia dar a liberdade à cidade santa, para a qual ele se encaminhava, a fim de arrasá-la e fazer dela um sepulcro.
15. Dizia ele que tornaria iguais aos atenienses todos os judeus que havia julgado indignos de sepultura e bons para serem atirados com seus filhos às aves do céu e aos animais selvagens como pasto.
16. Ornaria com ricas prendas aquele templo que havia despojado antes, devolver-lhe-ia multiplicados os vasos sagrados, proveria com suas próprias rendas todas as despesas necessárias para os sacrifícios.
17. Além disso, ele mesmo se tornaria judeu e percorreria todos os lugares habitados, proclamando o poder de Deus!
18. Mas suas dores não se atenuavam porque o justo castigo de Deus pesava sobre ele. Então, desesperado em vista de seu estado, escreveu aos judeus a seguinte carta, verdadeira súplica, assim exarada:
19. Aos dedicados súditos judeus, saúde, bem-estar e felicidade, da parte de Antíoco, rei e chefe do exército.
20. Se vós e vossos filhos passais bem e se vos sucedem todas as coisas como desejais, agradeço a Deus, em quem ponho minha esperança;
21. pois quanto a mim, estou prostrado pela doença, mas me lembro com prazer dos vossos sentimentos de respeito e da benevolência para comigo. Ao voltar da Pérsia, surpreendido por um mal cruel, julguei necessário providenciar a segurança de todos.
22. Não que me desespere de meu estado, ao contrário, tenho a firme esperança de escapar dessa doença -
23. mas me lembro de que meu pai designava seu sucessor cada vez que partia em expedição às províncias superiores.
24. Ele queria que no caso de uma desgraça ou má notícia os habitantes do país não se perturbassem, uma vez que soubessem a quem confiar os negócios.
25. Eu sei, ademais, que os príncipes que me rodeiam e os vizinhos do meu reino estão de atalaia e espreitam os acontecimentos; por isso, já designei meu filho Antíoco para rei, a quem, em outras ocasiões, confiei e recomendei a maior parte de vós, quando partia para outras terras. A ele escrevi a carta abaixo:
26. Rogo-vos, portanto, e peço que, em memória de meus benefícios para convosco, tanto gerais, como particulares, tenhais para com meu filho a mesma benevolência que para comigo,
27. pois estou convencido de que ele seguirá minhas intenções e agirá convosco com moderação e humanidade.
28. Assim esse carrasco e blasfemador pereceu miseravelmente, distante, nas montanhas, em meio àqueles sofrimentos que ele mesmo havia infligido aos outros.
29. Filipe, seu amigo de infância, levou seu corpo, e em seguida partiu para o Egito, para junto de Ptolomeu Filometor, para escapar ao filho de Antíoco.

 
Capítulo 10

1. Sob a proteção do Senhor, Macabeu e seus companheiros retomaram o templo e a cidade.
2. Destruíram os altares que os estrangeiros haviam edificado na praça pública, como também os troncos sagrados.
3. Após terem purificado o templo, erigiram um outro altar dos perfumes; utilizaram uma pedra para tirar faíscas das quais eles se serviram para oferecer os sacrifícios, após dois anos de interrupção; queimaram o incenso, acenderam as lâmpadas e recolocaram os pães da proposição.
4. Feitas estas coisas, prostraram-se por terra e pediram ao Senhor que não mais os entregasse a semelhantes calamidades, mas, se recaíssem nas ofensas, que corrigisse com brandura, sem entregá-los às mãos das nações ímpias e bárbaras.
5. Foi no dia do aniversário da profanação do templo pelos estrangeiros, isto é, no dia vinte e cinco do mês de Casleu, que eles o purificaram.
6. Prolongaram as cerimônias e os festejos por oito dias, como na ocasião da festa dos tabernáculos, recordando-se de que, pouco antes, na ocasião dessa festa, habitavam nas montanhas e nas cavernas como animais selvagens.
7. Foi assim que, levando tirsos, ramos verdejantes e palmas, cantaram hinos àquele que lhes havia concedido a dita de purificar o seu templo.
8. Decretaram por um edito público a toda a nação judia, que esses mesmos dias fossem solenizados em cada ano.
9. Acabamos de narrar as circunstâncias da morte de Antíoco, cognominado Epífanes.
10. Vamos agora proceder à narrativa dos acontecimentos sucedidos sob Antíoco Eupator, filho desse sacrílego, resumindo o que se refere aos males da guerra.
11. Assim que subiu ao trono, este príncipe pôs à frente dos negócios do reino um certo Lísias, ao qual nomeou também governador militar e chefe da Celesíria e da Fenícia,
12. porque Ptolomeu, apelidado Macron, tomando a iniciativa de se mostrar justo para com os judeus, em vista da perseguição movida contra eles, procurou governá-los na paz;
13. mas, pelos favoritos do rei, ele havia sido denunciado a Eupator. Por outro lado, tachado muitas vezes de traidor, por ter deixado Chipre que lhe havia entregue Filometor e se ter posto a serviço de Antíoco Epífanes, e, em conseqüência, não podendo exercer com honra seu alto posto, envenenou-se e morreu.
14. Mas Górgias, tornado comandante do exército nessas paragens, tomava consigo tropas estrangeiras e aproveitava-se de todas as ocasiões para importunar os judeus.
15. Os idumeus, senhores de várias fortalezas importantes, em combinação com ele, molestavam os judeus, acolhiam os exilados de Jerusalém, e mantinham um estado de guerra contínuo.
16. Então Macabeu com seus companheiros atacaram as fortalezas da Iduméia, após haver rezado e invocado o auxílio de Deus.
17. Atacaram-nas com vigorosos esforços, apoderaram-se de todas, repeliram os que combatiam sobre as muralhas, mataram os que caíam em suas mãos e trucidaram não menos de vinte mil homens.
18. Nove mil fugitivos pelo menos haviam procurado abrigo em duas fortalezas, equipadas com o necessário para agüentar um cerco.
19. Macabeu deixou Simão e José com Zaqueu e muitos homens, para expugná-los e dirigiu-se para onde se exigia mais a sua presença.
20. Todavia, os companheiros de Simão, seduzidos pelo dinheiro, deixaram-se corromper por alguns dos que se achavam nas torres da cidadela, e, mediante a soma de setenta mil dracmas, deixaram escapar muitos deles.
21. Ouvindo essas notícias, Macabeu acusou-os diante da assembléia dos chefes de terem vendido seus irmãos a troco de dinheiro, entregando os inimigos à liberdade.
22. Comprovada a sua traição, mandou executá-los e, em seguida, tomou conta das duas cidadelas.
23. Coroadas de êxito as lutas de ambos os lados, ele matou mais de vinte mil homens nas duas fortalezas.
24. Anteriormente vencido pelos judeus, Timóteo coligou copiosas tropas estrangeiras e reuniu na Ásia uma numerosa cavalaria, indo em direção à Judéia com a intenção de conquistá-la pelas armas.
25. Com a sua chegada, Macabeu e seus companheiros cobriram a cabeça com terra e cingiram os rins com sacos, em sinal de prece;
26. em seguida, prostrados aos pés do altar, rogaram a Deus piedade para com eles, pedindo que se declarasse inimigo de seus inimigos e adversário de seus adversários, conforme a promessa formal da lei.
27. Terminada a oração, empunharam as armas, retiraram-se para bem longe da cidade e fizeram alto diante do inimigo.
28. Ao despontar a aurora, travaram combate os dois lados, contando uns com o êxito e a vitória, por causa de sua valentia e do socorro do Senhor, e os outros entregando-se ao combate, apoiados no próprio furor.
29. No auge do combate, viram os inimigos aparecer no céu cinco magníficos guerreiros, montados em cavalos ajaezados com freios de ouro, que se colocaram à frente dos judeus.
30. Postando Macabeu no meio deles e protegendo-o com suas armas, tornavam-no invulnerável. Ao mesmo tempo lançavam dardos e raios sobre os inimigos, cegando-os, gerando entre eles a confusão, pondo-os em desordem.
31. Foram, pois, mortos vinte mil e quinhentos infantes e seiscentos cavaleiros.
32. Timóteo fugiu para uma praça muito forte, chamada Gazara, cujo comandante era Queréias.
33. Macabeu e os que se achavam com ele assediaram-na com ardor durante quatro dias,
34. enquanto os que se encontravam nela não cessavam de blasfemar e injuriar, confiados em seus muros.
35. Amanhecendo, porém, o quinto dia, um grupo de vinte jovens do exército de Macabeu, inflamado de cólera por causa dessas blasfêmias, atirou-se corajosamente à muralha e massacrou tudo o que encontrou.
36. Outros subiram do mesmo modo o muro, atearam fogo às torres, acenderam fogueiras, nas quais queimaram vivos os blasfemadores; outros ainda arrombaram as portas, fizeram entrar o restante do exército e ocuparam a cidade.
37. Mataram Timóteo, oculto numa cisterna, seu irmão Queréias e Apolofanes.
38. Após essa façanha, cantaram hinos e cânticos ao Senhor, que havia operado grandes prodígios em favor de Israel, concedendo-lhe a vitória.

 
Capítulo 11

1. Decorrido algum tempo, Lísias, tutor e parente do rei, regente do reino, sentindo muito pesar pelo que tinha acontecido,
2. reuniu aproximadamente oitenta mil homens com toda a cavalaria e se pôs a caminho contra os judeus. Estava resolvido a transformar Jerusalém numa cidade grega,
3. submeter o templo a um imposto semelhante aos dos templos pagãos e oferecer em leilão, a cada ano, a dignidade de sumo sacerdote.
4. Sem refletir no poder de Deus, ensoberbecia-se com a multidão de sua infantaria, seus milhares de cavaleiros e oitenta elefantes.
5. Penetrando, pois, na Judéia, aproximou-se de Betsur, que é uma praça forte, a cerca de cinco esquenos das vizinhanças de Jerusalém, e expugnou-a.
6. Logo, porém, que Macabeu e os que estavam com ele souberam que Lísias sitiava suas fortalezas, rogaram ao Senhor, juntamente com o povo, entre gemidos e lágrimas, para que ele se dignasse enviar um bom anjo para salvar Israel.
7. O próprio Macabeu foi o primeiro a pegar em armas, encorajando os demais a se exporem ao perigo com ele, para socorrer seus irmãos: atacaram todos com ânimo resoluto.
8. Ainda não se haviam afastado de Jerusalém, quando apareceu diante deles um cavaleiro vestido de branco, empunhando armas de ouro.
9. Então bendisseram todos juntos ao Senhor, e, repletos de coragem, sentiram-se prontos a transpassar não só os homens, mas os mais ferozes animais e até muralhas de ferro.
10. Avançaram, pois, em ordem de batalha, com esse auxiliar enviado do céu pelo Senhor misericordioso.
11. Como leões, atiraram-se sobre os inimigos, trucidaram onze mil infantes e seiscentos cavaleiros, e forçaram os demais a fugir.
12. A maior parte destes, feridos, sem armas, pôs-se a salvo. O próprio Lísias salvou-se, fugindo vergonhosamente.
13. Mas Lísias era inteligente. Refletiu, pois, na derrota e concluiu que os hebreus eram invencíveis porque o Deus poderoso combatia com eles.
14. Enviou-lhes uma proposta em condições justas, prometendo-lhes persuadir o rei a tornar-se amigo deles.
15. Macabeu aceitou todas as propostas de Lísias, vendo nisso apenas utilidade, porque tudo o que ele mesmo pedira por carta a Lísias em favor dos judeus, o rei concedera.
16. Eis em que termos Lísias escreveu aos judeus:
17. Lísias ao povo judeu, saúde. João e Absalão, vossos mensageiros, entregaram-me vossas propostas e rogaram-me que as cumprisse.
18. Expus, portanto, ao rei tudo o que devia comunicar-lhe, e ele anuiu a tudo o que era possível.
19. Se vós, pois, permanecerdes nessas boas disposições para com o Estado, continuarei doravante a obter-vos favores.
20. Eu incumbi vossos mensageiros e os meus de tratarem convosco as cláusulas da proposta e os pormenores.
21. Passai bem. Ano cento e quarenta e oito, aos vinte e quatro do mês de Dióscoro.
22. Era este o conteúdo da carta do rei: O rei Antíoco a seu irmão Lísias, saúde!
23. Tendo partido nosso pai para junto dos deuses, desejamos que os povos que pertencem ao nosso reino possam dedicar-se tranqüilamente aos seus negócios.
24. Soubemos, no entanto, que os judeus resistem em adotar os costumes helênicos, conforme a decisão de nosso pai; preferem conservar suas tradições e pedem que lhes deixemos seus costumes.
25. Querendo, pois, que esse povo viva igualmente em paz, decretamos que o templo lhes seja restituído e que possam viver segundo as leis de seus antepassados.
26. Farás bem em lhes mandar mensageiros, para concluir a paz com eles, de modo que, conhecendo nossas intenções, fiquem tranqüilos e voltem sem receio a seus afazeres.
27. Eis a carta do rei ao povo judeu: O rei Antíoco ao conselho dos anciãos e aos demais judeus, saúde!
28. Fazemos votos de que estejais passando bem; nós estamos com boa saúde!
29. Contou-nos Menelau que desejais retornar aos vossos negócios.
30. A todos os que vierem para o meio deles até o dia trinta do mês de Xântico, eu estenderei a mão.
31. Permito também aos judeus que usem dos seus alimentos e dos seus costumes, como outrora; e ninguém dentre eles será molestado por transgressões passadas.
32. Incumbi Menelau de ir tranqüilizar-vos.
33. Passai bem. Ano cento e quarenta e oito no dia quinze do mês de Xântico.
34. Do mesmo modo, os romanos enviaram aos judeus uma carta nestes termos: Quinto Mênio, Tito Mânio, legados romanos, ao povo judeu, saúde!
35. Damos nosso assentimento a tudo o que Lísias, parente do rei, vos outorgou.
36. Quanto ao que ele julgou necessário submeter ao rei, enviai-nos alguém sem demora, a fim de que, após um exame, possamos falar-lhe de modo mais vantajoso para vós, porque vamos para Antioquia.
37. Apressai-vos, pois, em nos enviar mensageiros, para que saibamos bem quais são vossos desejos.
38. Passai bem! Ano cento e quarenta e oito no dia quinze do mês de Xântico.

 
Capítulo 12

1. Concluídos esses tratados, voltou Lísias para junto do rei, e os judeus voltaram aos trabalhos dos campos.
2. No entanto, chefes militares locais, como Timóteo, Apolônio, filho de Jeneu, Jerônimo e Demofonte, e além destes, o cipriarca Nicanor, não lhes davam trégua, nem os deixavam viver em repouso.
3. Por outro lado, os habitantes de Jope praticaram a seguinte infâmia: convidaram os judeus que habitavam entre eles a subir com suas mulheres e filhos para barcas que eles haviam preparado. Não davam a entender intenção malvada alguma a seu respeito,
4. mas pareciam proceder, seguindo uma decisão votada pela cidade. Os judeus, pacíficos e sem suspeitarem, anuíram, mas quando chegaram ao alto-mar foram afogados em número de duzentos pelo menos.
5. Mal soube Judas do crime praticado contra a gente de sua nação, convocou seus homens.
6. Depois de ter invocado a Deus, justo juiz, foi contra os carrascos de seus irmãos e, de noite, ateou fogo ao porto, incendiou as embarcações e passou a fio de espada os que ali se haviam refugiado.
7. Como a cidade mesma estivesse fechada, afastou-se, mas com a intenção de voltar e exterminar todos os habitantes de Jope.
8. Por outro lado, advertido de que os habitantes de Jânia queriam tratar do mesmo modo os judeus que viviam com eles,
9. atacou-os naquela mesma noite e incendiou o porto com a esquadra. De Jerusalém, que dista duzentos e quarenta estádios, podia-se observar o clarão do fogo.
10. Percorridos já nove estádios, no seu avanço contra Timóteo, lançaram-se sobre eles os árabes em número de pelo menos cinco mil a pé e quinhentos a cavalo.
11. Travou-se um combate violento, mas, com a ajuda de Deus, os soldados de Judas venceram-nos, e, vencidos, os árabes lhe pediram paz: prometiam dar gado aos judeus e os auxiliariam de outras maneiras.
12. Crendo que, na verdade, eles lhe poderiam ser úteis, Judas aceitou a paz com eles, e, concluída esta, regressaram às suas tendas.
13. Em seguida, atacou Judas uma cidade forte, chamada Caspim, cercada de muralhas, habitada por uma mistura de povos.
14. Confiados na firmeza de seus muros e na abundância de suas provisões, os sitiados mostraram-se excessivamente grosseiros contra as tropas de Judas, lançando-lhes injúrias, blasfêmias e palavras ímpias.
15. Judas juntamente com os seus invocaram o grande Senhor do mundo, que, no tempo de Josué, derribou os muros de Jericó sem aríetes nem máquinas de guerra; depois, investiram furiosamente contra a muralha.
16. Uma vez senhores da cidade pela vontade de Deus, praticaram uma horrorosa carnificina, a ponto de um tanque vizinho, com a largura de dois estádios, parecer cheio de sangue que ali se derramou.
17. Dali, após uma marcha de setecentos e cinqüenta estádios, alcançaram o acampamento fortificado onde habitavam os judeus, chamados tubianeus.
18. Não acharam ali, todavia, Timóteo: ele havia deixado os lugares sem ter conseguido nada, mas deixara num posto uma guarnição muito forte.
19. Dositeu e Sosípatro, que comandavam tropas de Macabeu, foram atacar esse posto fortificado e mataram todos os homens que Timóteo ali havia colocado, isto é, mais de dez mil.
20. Macabeu dividiu então seu exército e confiou a cada um deles uma parte; em seguida foi contra Timóteo, acompanhado de cento e vinte mil infantes e dois mil e quinhentos cavaleiros.
21. Logo que teve conhecimento da chegada de Judas, Timóteo conduziu as mulheres, as crianças e as bagagens para um lugar chamado Carnion, porque era um lugar tornado inexpugnável pelos desfiladeiros e de acesso muito difícil.
22. Quando apareceu o primeiro exército de Judas, o terror apoderou-se logo dos inimigos, porque aquele que vê todas as coisas manifestou-se a seus olhos; e fugiram em todas as direções, ferindo-se constantemente uns aos outros e transpassando-se com as suas próprias espadas.
23. Judas perseguiu encarniçadamente esses malfeitores, matando e massacrando até trinta mil homens.
24. O próprio Timóteo caiu nas mãos dos homens de Dositeu e de Sosípatro, aos quais pediu com grandes instâncias deixá-lo partir são e salvo, porque tinha em seu poder os pais e mesmo os irmãos da maior parte deles, que poderiam ser maltratados.
25. Dava-lhes numerosas garantias e prometia libertar seus prisioneiros sem fazer-lhes mal; e com isso soltaram-no, para salvar seus irmãos.
26. Em seguida, Judas atacou Carnion e o templo de Atargatis e massacrou vinte e cinco mil homens.
27. Depois dessa perseguição e matança, conduziu suas tropas diante de Efron, cidade forte, onde habitava Lísias e gente de todas as nações. Jovens robustos, colocados em frente à muralha, defendiam-na valentemente: dentro havia grande provisão de máquinas e projéteis.
28. Os judeus invocaram o Soberano que tem o poder de aniquilar as forças dos inimigos, tornaram-se senhores da cidade e mataram ali vinte e cinco mil homens.
29. Dali partiram eles para alcançar a cidade de Citópolis, a seiscentos estádios de Jerusalém.
30. Todavia, os judeus que habitavam ali atestaram que os citopolitanos haviam usado de benevolência para com eles e os haviam tratado com deferência no tempo da perseguição.
31. Judas e os seus agradeceram, pois, a estes e os exortaram a perseverar nessas disposições para com os de sua raça; em seguida entraram em Jerusalém, porque a festa das Semanas se aproximava.
32. Passada a festa de Pentecostes, foram contra Górgias, chefe militar da Iduméia;
33. esse saiu-lhes ao encontro com três mil infantes e quatrocentos cavaleiros;
34. e travou-se uma batalha na qual pereceram alguns judeus.
35. Dositeu, um dos cavaleiros de Baquenor, muito corajoso, apoderou-se de Górgias; retendo-o pela clâmide, arrastava-o à força, a fim de capturar vivo o maldito, quando se precipitou sobre ele um cavaleiro da Trácia, que lhe decepou um ombro, e Górgias fugiu para Marisa.
36. No entanto, as tropas de Esdrin, que combatiam há muito tempo, achavam-se fatigadas; então Judas suplicou ao Senhor que se mostrasse seu aliado e os guiasse no combate.
37. E, começando a entoar cantos na língua pátria e lançando o grito de guerra, atirou-se inopinadamente sobre os soldados de Górgias e os pôs em fuga.
38. Quando havia reunido seu exército, Judas alcançou a cidade de Odolão e, chegando o sétimo dia da semana, purificaram-se segundo o costume e celebraram ali o sábado.
39. No dia seguinte, Judas e seus companheiros foram tirar os corpos dos mortos, como era necessário, para depô-los na sepultura ao lado de seus pais.
40. Ora, sob a túnica de cada um encontraram objetos consagrados aos ídolos de Jânia, proibidos aos judeus pela lei: todos, pois, reconheceram que fora esta a causa de sua morte.
41. Bendisseram, pois, a mão do justo juiz, o Senhor, que faz aparecer as coisas ocultas,
42. e puseram-se em oração, para implorar-lhe o perdão completo do pecado cometido. O nobre Judas falou à multidão, exortando-a a evitar qualquer transgressão, ao ver diante dos olhos o mal que havia sucedido aos que foram mortos por causa dos pecados.
43. Em seguida, fez uma coleta, enviando a Jerusalém cerca de dez mil dracmas, para que se oferecesse um sacrifício pelos pecados: belo e santo modo de agir, decorrente de sua crença na ressurreição,
44. porque, se ele não julgasse que os mortos ressuscitariam, teria sido vão e supérfluo rezar por eles.
45. Mas, se ele acreditava que uma bela recompensa aguarda os que morrem piedosamente,
46. era esse um bom e religioso pensamento; eis por que ele pediu um sacrifício expiatório para que os mortos fossem livres de suas faltas.

 
Capítulo 13

1. No ano cento e quarenta e nove, os partidários de Judas souberam que Antíoco vinha contra a Judéia, com um considerável exército.
2. Lísias, seu tutor e ministro, acompanhava-o; eles comandavam as tropas gregas, elevando-se a cento e dez mil infantes, cinco mil e trezentos cavaleiros, vinte e dois elefantes e trezentos carros armados de foices.
3. Menelau havia se ajuntado a eles e intervinha perfidamente junto ao rei, não a favor de sua pátria, mas tendo em mira a confirmação de sua dignidade.
4. Todavia, o Rei dos reis excitou contra esse celerado a cólera de Antíoco e, tendo-o Lísias acusado de ser a causa de todos esses males, mandou o rei conduzi-lo a Beréia, para que fosse morto segundo o costume do país.
5. Ora, havia ali uma torre de cinqüenta côvados, cheia de cinza e munida de um instrumento giratório que, de todos os lados, precipitava essa cinza.
6. Era lá que qualquer culpado de roubo sacrílego, ou de algum outro crime particularmente grave, era lançado à morte pela multidão.
7. Foi nesse suplício que morreu Menelau, o prevaricador, que não recebeu assim sepultura alguma.
8. E isso foi justo, porque ele havia pecado bastante contra o altar que sustenta o fogo puro e a cinza, e foi na cinza que ele encontrou a morte.
9. Nesse meio tempo, o rei avançava, imaginando os mais bárbaros planos, decidido a empregar contra os judeus os piores castigos imaginados por seu pai.
10. Sabendo disso, Judas mandou que o povo invocasse o Senhor, noite e dia, para que nessa circunstância, mais do que nunca, ele viesse em socorro daqueles que estavam ameaçados de perder a lei, a pátria e o templo.
11. Que ele não permitisse que o povo, apenas um pouco aliviado, recaísse sob os golpes das nações perversas.
12. Rezaram todos juntos e invocaram o Senhor misericordioso, entre lágrimas, jejuns, prostrados três dias consecutivos; Judas exortou-os e disse-lhes que estivessem preparados;
13. entrevistou-se ele com os anciãos, e decidiu não esperar que o exército do rei penetrasse na Judéia e se assenhoreasse da cidade, mas sair logo e travar uma batalha decisiva com o auxílio de Deus.
14. Entregou, pois, a sorte das armas ao Criador do mundo e encorajou seus companheiros a combater valentemente até a morte em defesa das leis, do templo, da cidade, da pátria e da nação. Em seguida, levou seu exército até Modin.
15. Depois de ter entregue a seus homens a senha Vitória de Deus, tomou consigo os mais corajosos entre os jovens, e partiu de noite, a fim de atacar o acampamento que abrigava o rei. Mataram cerca de dois mil homens, massacraram o principal elefante e seu condutor e
16. por fim espalharam pelo campo o terror e a confusão; e obtido esse êxito, retiraram-se.
17. Despontava o dia, quando cessou este ataque, graças à proteção de Deus.
18. Provando a audácia dos judeus, tentou o rei apoderar-se das fortificações por estratagemas.
19. Partiu, a fim de colocar cerco diante de Betsur, praça forte dos judeus; foi porém rechaçado, sofrendo revés, e vencido,
20. enquanto Judas reabastecia os sitiados.
21. Rodoco, combatente do exército dos judeus, revelou os segredos dos seus aos inimigos, mas após inquérito foi apanhado e metido no cárcere.
22. Pela segunda vez o rei parlamentou com os habitantes de Betsur, apresentou-lhes a mão, recebeu a deles, partiu para atacar o exército de Judas e foi vencido.
23. Soube então que Filipe, a quem tinha deixado em Antioquia para a direção dos negócios, se revoltara, e ficou muito consternado. Fez propostas aos judeus, aceitou as condições deles e jurou tudo o que lhe pareceu justo. Reconciliados, ofereceu um sacrifício, presenteou o templo e mostrou-se benévolo para com a cidade.
24. Acolheu com agrado Macabeu e deixou como governador na região Hegemônides, desde Ptolemaida até a terra dos gerrênios.
25. Dirigiu-se a Ptolemaida, porque os habitantes estavam descontentes com esse tratado e indignados com os decretos promulgados.
26. Lísias subiu à tribuna, defendeu-o como pôde, persuadiu e apaziguou o povo, levando-o a benévolos sentimentos, e voltou depois a Antioquia. Assim decorreram a ofensiva e a retirada do rei.

 
Capítulo 14

1. Três anos mais tarde, Judas e seus amigos souberam que Demétrio, filho de Seleuco, tinha chegado pelo porto de Trípoli com um poderoso exército e uma grande esquadra;
2. soube também que o país caíra em suas mãos e que havia causado a perda de Antíoco e de seu tutor Lísias.
3. Ora, certo Alcimo, outrora sumo sacerdote, mas voluntariamente comprometido por ocasião da introdução dos costumes pagãos, vendo que de nenhum lado lhe restava esperança de salvação, nem possibilidade de achegar-se ainda ao altar,
4. veio ter com o rei Demétrio. Isso foi pelo ano cento e cinqüenta e um. Ofereceu-lhe uma coroa de ouro, uma palma e, além disso, alguns ramos de oliveira, dos que se oferecem no templo. Naquele dia, contudo, não disse nada.
5. Mas achou uma ocasião oportuna para executar sua maldade, quando foi chamado ao conselho por Demétrio e interrogado sobre as disposições e intentos dos judeus.
6. Respondeu ele: Aqueles judeus, que se chamam assideus, em cuja frente se encontra Judas Macabeu, fomentam a guerra e a sedição, e impedem que o reino goze de paz.
7. Eis por que, despojado de minha dignidade hereditária, quero dizer do sumo sacerdócio: vim aqui
8. primeiro porque tenho realmente cuidado dos interesses do rei; depois, em consideração aos meus compatriotas, porque a irreflexão dos que citei mergulha toda a nossa raça num grande mal.
9. Reconhecido isso, ó rei, pela benevolência que testemunhas a todos, toma as medidas necessárias para a salvação de nosso país e de nossa raça ameaçada,
10. porque, enquanto Judas estiver vivo, é impossível que haja paz.
11. Mal acabara ele de falar, os demais amigos do rei, hostis à causa de Judas, puseram-se a excitar Demétrio.
12. Este designou imediatamente Nicanor, ex-comandante do corpo de elefantes, e promoveu-o a general da Judéia, ordenando-lhe
13. que partisse a fim de matar Judas, dispersar suas tropas e restabelecer Alcimo como sacerdote do grande templo.
14. Aqueles que na Judéia haviam fugido de Judas colocaram-se ao lado dos gentios sob a chefia de Nicanor, como se os infortúnios e males dos judeus lhes devessem redundar em outros tantos êxitos.
15. Os judeus, ao ouvirem falar da expedição de Nicanor e do ataque dos gentios, cobriram a cabeça com pó e imploraram àquele que estabelecera seu povo para sempre e que continuamente, de modo visível, defendia sua parte escolhida.
16. À ordem do chefe, partiu logo o exército e encontrou o inimigo perto da aldeia de Dessau.
17. Embora Simão, irmão de Judas, estivesse em presença de Nicanor, adiou o ataque em vista do súbito terror produzido aos seus pelo inimigo.
18. De seu lado, Nicanor, conhecendo a coragem dos homens de Judas e a grandeza de ânimo com que eles se atiravam ao combate pela pátria, temeu expor-se a uma decisão pelo sangue.
19. Enviou, pois, Possidônio, Teódoto e Matatias, para oferecer a mão aos judeus e receber a deles.
20. As propostas de paz foram por muito tempo examinadas; o chefe as comunicou às tropas e unanimemente foram aceitas.
21. Foi fixado um dia para uma conferência dos chefes sobre esse assunto. De um lado e de outro avançou um carro e colocaram cadeiras de honra.
22. Judas postou homens armados em lugares estratégicos, prontos para qualquer eventualidade, se os adversários os viessem trair. A conferência dos chefes foi satisfatória.
23. Nicanor passou a residir em Jerusalém, sem fazer ali mal algum; despediu até mesmo a multidão das tropas que ele havia trazido consigo.
24. Estava constantemente em companhia de Judas, sentindo amizade para com ele.
25. Instou para que ele se casasse e que tivesse filhos. Judas casou-se, gozou de tranqüilidade, e desfrutou a vida
26. Verificando Alcimo os sentimentos recíprocos de ambos os chefes, investigou as cláusulas do tratado e dirigiu-se a Demétrio, acusando Nicanor de conjurar contra o Estado, porque havia designado para seu lugar-tenente Judas, o próprio inimigo do reino.
27. Exasperado e excitado pelas calúnias desse bandido, escreveu o rei a Nicanor, dizendo-lhe que estava descontente com os tratados realizados e ordenava-lhe que lhe enviasse preso Macabeu o mais depressa possível, para Antioquia.
28. Recebendo essa carta, Nicanor ficou consternado e triste por ter de romper seus contratos sem que Judas tivesse agido mal.
29. Mas, como ele não podia contrariar as ordens do rei, procurava uma ocasião para executar essa ordem por algum ardil.
30. Reparando Macabeu que Nicanor se mostrava mais rude para com sua pessoa e com uma atitude mais indiferente, achou que esse procedimento nada indicava de bom; reunindo, pois, um grupo dos seus partidários, ocultou-se de Nicanor.
31. Quando o outro compreendeu que havia sido logrado, dirigiu-se ao grande e sublime templo no momento em que os sacerdotes ofereciam o sacrifício e deu-lhes ordem de entregarem esse homem;
32. os sacerdotes, porém, juraram-lhe que não sabiam onde se achava o que ele procurava.
33. Então, estendendo a mão para o templo, jurou: Se não me entregardes Judas preso, arrasarei até o solo este santuário de Deus, derribarei o altar, e no mesmo lugar edificarei um magnífico templo a Dionisos.
34. Ditas estas coisas, ele se retirou. Os sacerdotes, então, ergueram as mãos para o céu e invocaram aquele que sempre pelejou pelo nosso povo:
35. Senhor do universo, exclamaram eles, vós, que bastais a vós mesmo, quisestes possuir entre nós um templo por habitação;
36. ó fonte santa de toda santidade, conservai, pois, sempre livre de toda profanação esta casa que há pouco foi purificada.
37. Aconteceu também que Razis, um dos anciãos de Jerusalém, foi denunciado a Nicanor. Era um homem dedicado aos seus concidadãos, de grande reputação, e cognominado pai dos Judeus, por causa de sua benevolência.
38. Anteriormente, por ocasião da resistência ao paganismo, havia sido acusado de judaísmo e pelo judaísmo ele se havia exposto de corpo e alma com um zelo extremo.
39. Nicanor, que pretendia dar uma prova de sua hostilidade para com os judeus, enviou mais de quinhentos homens para apoderar-se dele,
40. supondo que, prendendo-o, causaria aos judeus um golpe penoso.
41. Como essa tropa foi apoderar-se da torre e forçar a entrada, uma vez que havia sido dada a ordem de atear fogo e incendiar as portas, Razis, quando ia ser preso, transpassou-se com a própria espada,
42. preferindo morrer nobremente antes que cair nas mãos dos ímpios e padecer ultrajes indignos de seu nascimento.
43. Na precipitação, porém, dirigiu mal o golpe e, enquanto os soldados forçavam do lado de fora contra as portas, ele correu animosamente para cima do muro e, com coragem, precipitou-se de modo a cair sobre eles;
44. estes afastaram-se com rapidez, e Razis esmagou-se no espaço deixado vazio.
45. Todavia, ainda respirando, cheio de ardor, ergueu-se e, embora o sangue lhe jorrasse como uma fonte de suas horríveis feridas, atravessou a multidão numa carreira; em seguida, de pé sobre uma rocha escarpada
46. e já inteiramente exangue, arrancou com as próprias mãos as entranhas que saíam, e lançou-as sobre os inimigos. Foi assim seu fim, pedindo ao Senhor da vida e do sopro que lhos restituísse um dia.

 
Capítulo 15

1. Ouvindo falar que Judas e seus aliados se achavam nas fronteiras da Samaria, resolveu Nicanor atacá-los com toda a segurança no dia do repouso sabático.
2. Os judeus, obrigados por ele a segui-lo, disseram-lhe: Não faças um massacre tão selvagem e tão bárbaro, mas respeita por teu lado o dia escolhido e especialmente santificado por aquele que tudo vê.
3. Mas este tríplice celerado perguntou se existia no céu um soberano que houvesse prescrito observar o dia de sábado.
4. Como eles respondessem: Foi o mesmo Senhor vivo, Todo-poderoso no céu, quem ordenou a celebração do sétimo dia,
5. o outro replicou: Também eu sou poderoso na terra e ordeno que se tomem as armas e se executem as ordens do rei. Todavia não pôde executar seu desígnio criminoso.
6. Enquanto Nicanor, no auge de seu orgulho, decidia erigir um troféu com os despojos de Judas e seus companheiros,
7. Macabeu, ao contrário, deixava-se levar por uma inteira confiança de que haveria de obter auxílio do Senhor.
8. Exortava os seus companheiros a que não temessem o ataque dos gentios, a que se lembrassem dos auxílios já obtidos do céu e a que esperassem, pois também agora o Todo-poderoso lhes concederia a vitória.
9. Encorajou-os citando a lei e os profetas, lembrou-lhes os combates outrora sustentados e inflamou-os desse modo com um novo ardor.
10. Após haver-lhes reanimado o espírito, estimulou-os ainda, apresentando aos seus olhos a perfídia dos gentios e o desprezo da palavra dada.
11. Assim armou a todos não com a segurança que vem das lanças e dos escudos, mas com a coragem que suscitam as boas palavras. Narrou-lhes ainda uma visão digna de fé uma espécie de visão que os cumulou de alegria.
12. Eis o que vira: Onias, que foi sumo sacerdote, homem nobre e bom, modesto em seu aspecto, de caráter ameno, distinto em sua linguagem e exercitado desde menino na prática de todas as virtudes, com as mãos levantadas, orava por todo o povo judeu.
13. Em seguida havia aparecido do mesmo modo um homem com os cabelos todos brancos, de aparência muito venerável, e nimbado por uma admirável e magnífica majestade.
14. Então, tomando a palavra, disse-lhe Onias: Eis o amigo de seus irmãos, aquele que reza muito pelo povo e pela cidade santa, Jeremias, o profeta de Deus.
15. E Jeremias, estendendo a mão, entregou a Judas uma espada de ouro, e, ao dar-lha, disse:
16. Toma esta santa espada que Deus te concede e com a qual esmagarás os inimigos.
17. Entusiasmados por estas palavras de Judas, tão nobres e tão capazes de excitar a coragem e robustecer as almas dos jovens, decidiram os judeus não acampar, mas arrojar-se para a frente, travar com valor a batalha e obter assim uma decisão, porque a cidade, a religião e o templo estavam em perigo.
18. Não lhes causavam tanta preocupação as mulheres, as crianças, seus irmãos e seus parentes: a primeira e principal inquietação que tinham era a purificação do templo.
19. Não era menor a angústia dos que haviam ficado na cidade, ansiosos pela luta que ia ser travada fora, na planície.
20. Todos já aguardavam a batalha decisiva, prestes a se iniciar; os inimigos também já se tinham reunido para o combate, os elefantes estavam postados no lugar conveniente, a cavalaria disposta nas alas;
21. Macabeu, à vista dessa multidão imensa, do aparato de armas tão diversas e do aspecto temível dos elefantes, estendeu as mãos para o céu e invocou o Senhor que opera prodígios. Sabia muito bem que não é o poderio das armas que obtém a vitória, senão que Deus a decide, outorgando-a aos que ele julga dignos dela.
22. Eis como foi sua oração: Senhor, vós, que no tempo de Ezequias, rei da Judéia, enviastes vosso anjo e fizestes perecer cento e oitenta e cinco mil homens do exército de Senaquerib,
23. enviai, pois, ainda agora, ó soberano dos céus, um bom anjo que nos preceda, infundindo temor e espanto.
24. Que vosso braço se estenda e extermine aqueles que, blasfemando, vieram atacar vosso povo santo. E com essas palavras terminou.
25. De um lado, as tropas de Nicanor avançavam ao som das trombetas e dos hinos guerreiros;
26. do outro lado, os de Judas travavam a batalha entre invocações e orações.
27. Enquanto pelejavam com as mãos, oravam ao Senhor no coração, e assim derribaram por terra nada menos que trinta e cinco mil homens; e sentiram-se cheios de alegria por ver Deus manifestar-se desse modo.
28. Concluída a batalha, dispersaram-se felizes, quando reconheceram Nicanor prostrado com a sua armadura.
29. Então, entre gritos e alvoroço, louvaram o Senhor na língua paterna.
30. Aquele que se consagrara de corpo e alma ao serviço de seus concidadãos, e conservara para com seus compatriotas o amor de sua juventude, ordenou que degolassem a cabeça de Nicanor, como também a mão e o braço, e os levassem a Jerusalém.
31. Chegado à cidade, convocou seus compatriotas, dispôs os sacerdotes diante do altar e mandou aproximarem-se também os que se achavam na cidadela.
32. Apresentou-lhes a cabeça do impuro Nicanor e a mão, que este maldito havia insolentemente estendido contra a morada do Todo-poderoso.
33. Depois mandou cortar a língua do ímpio para lançá-la em pedaços aos pássaros e mandou suspender diante do templo o braço decepado, como castigo de sua insensatez.
34. E todos puseram-se a louvar nestes termos o Senhor, que se tinha manifestado: Bendito seja aquele que preservou sua morada de toda a impureza.
35. Judas suspendeu do mesmo modo a cabeça de Nicanor, na parte exterior da cidadela, como sinal palpável e evidente da proteção do Senhor.
36. De comum acordo, foi estabelecido que, doravante, não se deixaria passar esse dia sem festejá-lo, e que seria celebrada no dia treze do duodécimo mês, chamado Adar em língua siríaca, a vigília do dia de Mardoqueu.
37. Assim se desenrolaram os acontecimentos relativos a Nicanor, e já que a partir dessa época Jerusalém permaneceu em poder dos hebreus, finalizarei aqui minha narração.
38. Se ela está felizmente concebida e ordenada, era este o meu desejo; se ela está imperfeita e medíocre, é que não pude fazer melhor.
39. Assim como é nocivo beber somente o vinho ou somente a água, mas agradável e verdadeiramente proveitoso beber a água e o vinho misturados, assim também a disposição agradável do relato é o que causa prazer aos ouvidos do leitor. Aqui, pois, termino.

 

Livro de Jó

Livro de Jó

 Capítulo 1

1. Havia, na terra de Hus, um homem chamado Jó, íntegro, reto, que temia a Deus e fugia do mal.
2. Nasceram-lhe sete filhos e três filhas.
3. Possuía sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de bois, quinhentas jumentas e uma grande quantidade de escravos. Este homem era o mais considerado entre todos os homens do Oriente.
4. Seus filhos tinham o costume de ir à casa uns dos outros, alternadamente, para se banquetearem e convidavam suas três irmãs para comerem e beberem com eles.
5. Quando acabava a série dos dias de banquetes, Jó mandava chamar seus filhos para purificá-los e, na manhã do dia seguinte, oferecia um holocausto por intenção de cada um deles: porque, dizia ele, talvez meus filhos tenham pecado e amaldiçoado Deus nos seus corações. Assim fazia Jó cada vez.
6. Um dia em que os filhos de Deus se apresentaram diante do Senhor, veio também Satanás entre eles.
7. O Senhor disse-lhe: De onde vens tu? Andei dando volta pelo mundo, disse Satanás, e passeando por ele.
8. O Senhor disse-lhe: Notaste o meu servo Jó? Não há ninguém igual a ele na terra: íntegro, reto, temente a Deus, afastado do mal.
9. Mas Satanás respondeu ao Senhor: É a troco de nada que Jó teme a Deus?
10. Não cercaste como de uma muralha a sua pessoa, a sua casa e todos os seus bens? Abençoas tudo quanto ele faz e seus rebanhos cobrem toda a região.
11. Mas estende a tua mão e toca em tudo o que ele possui; juro-te que te amaldiçoará na tua face.
12. Pois bem!, respondeu o Senhor. Tudo o que ele tem está em teu poder; mas não estendas a tua mão contra a sua pessoa. E Satanás saiu da presença do Senhor.
13. Ora, um dia em que os filhos e filhas de Jó estavam à mesa e bebiam vinho em casa do seu irmão mais velho,
14. um mensageiro veio dizer a Jó: Os bois lavravam e as jumentas pastavam perto deles.
15. De repente, apareceram os sabeus e levaram tudo; e passaram à espada os escravos. Só eu consegui escapar para te trazer a notícia.
16. Estando ele ainda a falar, veio outro e disse: O fogo de Deus caiu do céu; queimou, consumiu as ovelhas e os escravos. Só eu consegui escapar para te trazer a notícia.
17. Ainda este falava, e eis que chegou outro e disse: Os caldeus, divididos em três bandos, lançaram-se sobre os camelos e os levaram. Passaram a fio de espada os escravos. Só eu consegui escapar para te trazer a notícia!
18. Ainda este estava falando e eis que entrou outro, e disse: Teus filhos e filhas estavam comendo e bebendo vinho em casa do irmão mais velho,
19. quando um furacão se levantou de repente do deserto, abalou os quatro cantos da casa e esta desabou sobre os jovens. Morreram todos. Só eu consegui escapar para te trazer a notícia.
20. Jó então se levantou, rasgou o manto e rapou a cabeça. Depois, caindo prosternado por terra,
21. disse: Nu saí do ventre de minha mãe, nu voltarei. O Senhor deu, o Senhor tirou: bendito seja o nome do Senhor!
22. Em tudo isso, Jó não cometeu pecado algum, nem proferiu contra Deus blasfêmia alguma.

 
Capítulo 2

1. Ora, um dia em que os filhos de Deus se apresentaram diante do Senhor, Satanás apareceu também no meio deles na presença do Senhor.
2. O Senhor disse-lhe: De onde vens tu? Andei dando volta pelo mundo, respondeu Satanás, e passeando por ele.
3. O Senhor disse-lhe: Notaste o meu servo Jó? Não há ninguém igual a ele na terra, íntegro, reto, temente a Deus e afastado do mal. Persevera sempre em sua integridade; foi em vão que me incitaste a perdê-lo.
4. Pele por pele!, respondeu Satanás. O homem dá tudo o que tem para salvar a própria vida.
5. Mas estende a tua mão, toca-lhe nos ossos, na carne; juro que te renegará em tua face.
6. O Senhor disse a Satanás: Pois bem, ele está em teu poder, poupa-lhe apenas a vida.
7. Satanás retirou-se da presença do Senhor e feriu Jó com uma lepra maligna, desde a planta dos pés até o alto da cabeça.
8. E Jó tomou um caco de telha para se coçar, e assentou-se sobre a cinza.
9. Sua mulher disse-lhe: Persistes ainda em tua integridade? Amaldiçoa a Deus, e morre!
10. Falas, respondeu-lhe ele, como uma insensata. Aceitamos a felicidade da mão de Deus; não devemos também aceitar a infelicidade? Em tudo isso, Jó não pecou por palavras.
11. Três amigos de Jó, Elifaz de Temã, Bildad de Chua e Sofar de Naama, tendo ouvido todo o mal que lhe tinha sucedido, vieram cada um de sua terra e combinaram ir juntos exprimir sua simpatia e suas consolações.
12. Tendo de longe levantado os olhos, não o reconheceram; e puseram-se então a chorar, rasgaram as vestes, e lançaram para o céu poeira, que recaía sobre suas cabeças.
13. Ficaram sentados no chão ao lado dele sete dias e sete noites, sem que nenhum lhe dirigisse a palavra, tão grande era a dor em que o viam mergulhado.

 
Capítulo 3

1. Então Jó abriu a boca e amaldiçoou o dia de seu nascimento.
2. Jó falou nestes termos:
3. Pereça o dia em que nasci e a noite em que foi dito: uma criança masculina foi concebida!
4. Que esse dia se mude em trevas! Que Deus, lá do alto, não se incomode com ele; que a luz não brilhe sobre ele!
5. Que trevas e obscuridade se apoderem dele, que nuvens o envolvam, que eclipses o apavorem,
6. que a sombra o domine; esse dia, que não seja contado entre os dias do ano, nem seja computado entre os meses!
7. Que seja estéril essa noite, que nenhum grito de alegria se faça ouvir nela.
8. Amaldiçoem-na aqueles que amaldiçoaram os dias, aqueles que são hábeis para evocar Leviatã!
9. Que as estrelas de sua madrugada se obscureçam, e em vão espere a luz, e não veja abrirem-se as pálpebras da aurora,
10. já que não fechou o ventre que me carregou para me poupar a vista do mal!
11. Por que não morri no seio materno, por que não pereci saindo de suas entranhas?
12. Por que dois joelhos para me acolherem, por que dois seios para me amamentarem?
13. Estaria agora deitado e em paz, dormiria e teria o repouso
14. com os reis, árbitros da terra, que constroem para si mausoléus;
15. com os príncipes que possuíam o ouro, e enchiam de dinheiro as suas casas.
16. Ou então, como o aborto escondido, eu não teria existido, como as crianças que não viram o dia.
17. Ali, os maus cessam os seus furores, ali, repousam os exaustos de forças,
18. ali, os prisioneiros estão tranqüilos, já não mais ouvem a voz do exator.
19. Ali, juntos, os pequenos e os grandes se encontram, o escravo ali está livre do jugo do seu senhor.
20. Por que conceder a luz aos infelizes, e a vida àqueles cuja alma está desconsolada,
21. que esperam a morte, sem que ela venha, e a procuram mais ardentemente do que um tesouro,
22. que são felizes até ficarem transportados de alegria, quando encontrarem o sepulcro?
23. Ao homem cujo caminho é escondido e que Deus cerca de todos os lados?
24. Em lugar do pão tenho meus suspiros, e os meus gemidos se espalham como a água.
25. Todos os meus temores se realizam, e aquilo que me dá medo vem atingir-me.
26. Não tenho paz, nem descanso, nem repouso; só tenho agitação.

 
Capítulo 4

1. Elifaz de Temã tomou a palavra nestes termos:
2. Se arriscarmos uma palavra, talvez ficarás aflito, mas quem poderá impedir-me de falar?
3. Eis: exortaste muita gente, deste força a mãos débeis,
4. tuas palavras levantavam aqueles que caíam, fortificaste os joelhos vacilantes.
5. Agora que é a tua vez, enfraqueces; quando és atingido, te perturbas.
6. Não é tua piedade a tua esperança, e a integridade de tua vida, a tua segurança?
7. Lembra-te: qual o inocente que pereceu? Ou quando foram destruídos os justos?
8. Tanto quanto eu saiba, os que praticam a iniqüidades e os que semeiam sofrimento, também os colhem.
9. Ao sopro de Deus eles perecem, e são aniquilados pelo vento de seu furor.
10. Urra o leão, e seu rugido é abafado; os dentes dos leõezinhos são quebrados.
11. A fera morreu porque não tinha presa, e os filhotes da leoa são dispersados.
12. Uma palavra chegou a mim furtivamente, meu ouvido percebeu o murmúrio,
13. na confusão das visões da noite, na hora em que o sono se apodera dos humanos.
14. Assaltaram-me o medo e o terror, e sacudiram todos os meus ossos;
15. um sopro perpassou pelo meu rosto, e fez arrepiar o pêlo de minha pele.
16. Lá estava um ser – não lhe vi o rosto – como um espectro sob meus olhos.
17. Ouvi uma débil voz: Pode um homem ser justo na presença de Deus, pode um mortal ser puro diante de seu Criador?
18. Ele não confia nem em seus próprios servos; até mesmo em seus anjos encontra defeitos,
19. quanto mais em seus hóspedes das casas de argila que têm o pó por fundamento! São esmagados como uma traça;
20. entre a noite e a manhã são aniquilados; sem que neles se preste atenção, morrem para sempre.
21. Não foi arrancada a estaca da tenda deles? Morrem por não terem conhecido a sabedoria.

 
Capítulo 5

1. Chama para ver se te respondem; a qual dos santos te dirigirás?
2. O arrebatamento mata o insensato, a inveja leva o tolo à morte.
3. Vi o insensato deitar raiz, e de repente sua morada apodreceu.
4. Seus filhos são privados de qualquer socorro, são pisados à porta, ninguém os defende.
5. O faminto come sua colheita e a leva embora, por detrás da cerca de espinhos, e os sequiosos engolem seus bens.
6. Pois o mal não sai do pó, e o sofrimento não brota da terra:
7. é o homem quem causa o sofrimento como as faíscas voam no ar.
8. Por isso, eu rogarei a Deus, apresentarei minha súplica ao Senhor.
9. Ele faz coisas grandes e insondáveis, maravilhas incalculáveis;
10. espalha a chuva sobre a terra, e derrama as águas sobre os campos;
11. exalta os humildes, e dá nova alegria aos que estão de luto;
12. frustra os projetos dos maus, cujas mãos não podem executar os planos;
13. apanha os jeitosos em suas próprias manhas, e os projetos dos astutos se tornam prematuros;
14. em pleno dia encontram as trevas, e andam às apalpadelas ao meio-dia como se fosse noite.
15. Salva o fraco da espada da língua deles, e o pobre da mão do poderoso;
16. volta a esperança ao infeliz, e é fechada a boca da iniqüidade.
17. Bem-aventurado o homem a quem Deus corrige! Não desprezes a lição do Todo-poderoso,
18. pois ele fere e cuida; se golpeia, sua mão cura.
19. Seis vezes te salvará da angústia, e, na sétima, o mal não te atingirá.
20. No tempo de fome, te preservará da morte, e, no combate, do gume da espada;
21. estarás a coberto do açoite da língua, não terás medo quando vires a ruína;
22. rirás das calamidades e da fome, não temerás as feras selvagens.
23. Farás um pacto com as pedras do chão, e os animais dos campos estarão em paz contigo.
24. Dentro de tua tenda conhecerás a paz, visitarás tuas terras, onde nada faltará;
25. verás tua posteridade multiplicar-se, e teus descendentes crescerem como a erva dos campos.
26. Entrarás maduro no sepulcro, como um feixe de trigo que se recolhe a seu tempo.
27. Eis o que observamos; é assim; eis o que aprendemos; tira proveito disso.

 
Capítulo 6

1. Jó tomou a palavra nestes termos:
2. Ah! se pudessem pesar minha aflição, e pôr na balança com ela meu infortúnio!
3. esta aqui apareceria mais pesada do que a areia dos mares: eis por que minhas palavras são desvairadas.
4. As setas do Todo-poderoso estão cravadas em mim, e meu espírito bebe o veneno delas; os terrores de Deus me assediam
5. Porventura orneja o asno montês, quando tem erva? Muge o touro junto de sua forragem?
6. Come-se uma coisa insípida sem sal? Pode alguém saborear aquilo que não tem gosto algum?
7. Minha alma recusa-se a tocar nisso, meu coração está desgostoso.
8. Quem me dera que meu voto se cumpra, e que Deus realize minha esperança!
9. Que Deus consinta em esmagar-me, que deixe suas mãos cortarem meus dias!
10. Teria pelo menos um consolo, e exultaria em seu impiedoso tormento, por não ter renegado as palavras do Santo.
11. Pois, que é minha força para que eu espere, qual é meu fim, para me portar com paciência?
12. Será que tenho a fortaleza das pedras, e será de bronze minha carne?
13. Não encontro socorro algum, qualquer esperança de salvação me foi tirada.
14. Recusar a piedade a um amigo é abandonar o temor ao Todo-poderoso.
15. Meus irmãos são traiçoeiros como a torrente, como as águas das torrentes que somem.
16. Rolam agitadas pelo gelo, empoçam-se com a neve derretida.
17. No tempo da seca, elas se esgotam, e ao vir o calor, seu leito seca.
18. as caravanas se desviam das veredas, penetram no deserto e perecem;
19. As caravanas de Tema espreitavam, os comboios de Sabá contavam com elas;
20. ficaram transtornados nas suas suposições: ao chegarem ao lugar, ficaram confusos.
21. É assim que falhais em cumprir o que de vós se esperava nesta hora; a vista de meu infortúnio vos aterroriza.
22. Porventura, disse-vos eu: Dai-me qualquer coisa de vossos bens, dai-me presentes,
23. livrai-me da mão do inimigo, e tirai-me do poder dos violentos?
24. Ensinai-me e eu me calarei, mostrai-me em que falhei.
25. Como são eficazes as expressões conforme a eqüidade! Mas em que podereis surpreender-me?
26. Pretendeis censurar palavras? Palavras desesperadas, leva-as o vento.
27. Seríeis capazes de pôr em leilão até mesmo um órfão, de traficar o vosso amigo!
28. Vamos, peço-vos, olhai para mim face a face, não mentirei.
29. Vinde de novo; não sejais injustos; vinde: estou inocente nessa questão.
30. Haverá iniqüidade em minha língua? Meu paladar não sabe discernir o mal?

 
Capítulo 7

1. A vida do homem sobre a terra é uma luta, seus dias são como os dias de um mercenário.
2. Como um escravo que suspira pela sombra, e o assalariado que espera seu soldo,
3. assim também eu tive por sorte meses de sofrimento, e noites de dor me couberam por partilha.
4. Apenas me deito, digo: Quando chegará o dia? Logo que me levanto: Quando chegará a noite? E até a noite me farto de angústias.
5. Minha carne se cobre de podridão e de imundície, minha pele racha e supura.
6. Meus dias passam mais depressa do que a lançadeira, e se desvanecem sem deixar esperança.
7. Lembra-te de que minha vida nada mais é do que um sopro, de que meus olhos não mais verão a felicidade;
8. o olho que me via não mais me verá, o teu me procurará, e já não existirei.
9. A nuvem se dissipa e passa: assim, quem desce à região dos mortos não subirá de novo;
10. não voltará mais à sua casa, sua morada não mais o reconhecerá.
11. E por isso não reprimirei minha língua, falarei na angústia do meu espírito, queixar-me-ei na tristeza de minha alma:
12. Porventura, sou eu o mar ou um monstro marinho, para me teres posto um guarda contra mim?
13. Se eu disser: Consolar-me-á o meu leito, e a minha cama me aliviará,
14. tu me aterrarás com sonhos, e me horrorizarás com visões.
15. Preferiria ser estrangulado; antes a morte do que meus tormentos!
16. Sucumbo, deixo de viver para sempre; deixa-me; pois meus dias são apenas um sopro.
17. O que é um homem para fazeres tanto caso dele, para te dignares ocupar-te dele,
18. para visitá-lo todas as manhãs, e prová-lo a cada instante?
19. Quando cessarás de olhar para mim, e deixarás que eu engula minha saliva?
20. Se pequei, que mal te fiz, ó guarda dos homens? Por que me tomas por alvo, e me tornei pesado a ti?
21. Por que não toleras meu pecado e não apagas minha culpa? Eis que vou logo me deitar por terra; tu me procurarás, e já não existirei.

 
Capítulo 8

1. Bildad de Chua tomou a palavra e disse:
2. Até quando dirás semelhantes coisas, e tuas palavras serão como um furacão?
3. Porventura Deus fará curvar o que é reto, e o Todo-poderoso subverterá a justiça?
4. Se teus filhos o ofenderam, ele os entregou às conseqüências de suas culpas.
5. Se recorreres a Deus, e implorares ao Todo-poderoso,
6. se fores puro e reto, ele atenderá a tua oração e restaurará a morada de tua justiça;
7. teu começo parecerá pouca coisa diante da grandeza do que se seguirá.
8. Interroga as gerações passadas, e examina com cuidado a experiência dos antepassados;
9. – porque somos uns ignorantes das (coisas) de ontem, nossos dias sobre a terra passam como a sombra -:
10. elas podem instruir-te, falar-te e de seu coração tirar este discurso:
11. Pode o papiro crescer fora do brejo, o junco germinar sem água?
12. Verde ainda, sem ser cortado, ele seca antes que as outras ervas;
13. assim acabam todos os que esquecem Deus, assim perece a esperança do ímpio;
14. sua confiança é como filandras, sua segurança, uma teia de aranha.
15. Ele se apóia sobre uma casa que não se sustenta, atém-se a uma morada que não se mantém de pé.
16. Cheio de vigor, ao sol, faz brotar suas hastes em seu jardim;
17. suas raízes se entrelaçam sobre a pedra, apóiam-se entre rochas;
18. mas se é arrancado de seu lugar, este o renega: nunca te vi.
19. Eis onde termina seu destino, e outros germinarão do solo.
20. Não; Deus não rejeita o homem íntegro, nem dá a mão aos malvados.
21. Ele porá de novo o riso em tua boca, e em teus lábios, gritos de alegria;
22. teus inimigos serão cobertos de vergonha, a tenda dos maus desaparecerá.

 
Capítulo 9

1. Jó tomou a palavra nestes termos:
2. Sim; bem sei que é assim; como poderia o homem ter razão contra Deus?
3. Se quisesse disputar com ele, não lhe responderia uma vez entre mil.
4. Deus é sábio em seu coração e poderoso, quem pode afrontá-lo impunemente?
5. Ele transporta os montes sem que estes percebam, ele os desmorona em sua cólera.
6. Sacode a terra em sua base, e suas colunas são abaladas.
7. Dá uma ordem ao sol que não se levante, põe um selo nas estrelas.
8. Ele sozinho formou a extensão dos céus, e caminha sobre as alturas do mar.
9. Ele criou a Grande Ursa, Órion, as Plêiades, e as câmaras austrais.
10. Fez maravilhas insondáveis, prodígios incalculáveis.
11. Ele passa despercebido perto de mim, toca levemente em mim sem que eu tenha percebido.
12. Quem poderá impedi-lo de arrebatar uma presa? Quem lhe dirá: Por que fazes isso?
13. De sua cólera Deus não volta atrás; diante dele jazem prosternados os auxiliares de Raab.
14. Quem sou eu para replicar-lhe, para escolher argumentos contra ele?
15. Ainda que eu tivesse razão, não responderia; pediria clemência a meu juiz.
16. Se eu o chamasse, e ele não me respondesse, não acreditaria que tivesse ouvido a minha voz;
17. ele, que me desfaz como um redemoinho, que multiplica minhas feridas sem manifestar o motivo,
18. que não me deixa tomar fôlego, mas me enche de amarguras.
19. Se se busca fortaleza, é ele o forte; se se busca o direito, quem o determinará?
20. Se eu pretendesse ser justo, minha boca me condenaria; se fosse inocente, ela me declararia perverso.
21. Inocente! Sim, eu o sou; pouco me importa a vida, desprezo a existência.
22. Pouco importa; é por isso que eu disse que ele faz perecer o inocente como o ímpio.
23. Se um flagelo causa de repente a morte, ele ri-se do desespero dos inocentes.
24. A terra está entregue nas mãos dos maus, e ele cobre com um véu os olhos de seus juízes; se não é ele, quem é pois (que faz isso)?
25. Os dias de minha vida são mais rápidos do que um corcel, fogem sem ter visto a felicidade
26. passam como as barcas de junco, como a águia que se precipita sobre a presa
27. Se decido esquecer minha queixa, abandonar meu ar triste e voltar a ser alegre,
28. temo por todos os meus tormentos, sabendo que não me absolverás.
29. Tenho certeza de ser condenado: o que me adianta cansar-me em vão?
30. Por mais que me lavasse na neve, que limpasse minhas mãos na lixívia,
31. tu me atirarias na imundície, e as minhas próprias vestes teriam horror de mim.
32. (Deus) não é um homem como eu a quem possa responder, com quem eu possa comparecer na justiça,
33. pois que não há entre nós árbitro que ponha sua mão sobre nós dois.
34. Que (Deus) retire sua vara de cima de mim, para pôr um termo a seus medonhos terrores;
35. então lhe falarei sem medo; pois, estou só comigo mesmo.

 
Capítulo 10

1. A minha alma está desgostosa da vida, dou livre curso ao meu lamento; falarei na amargura de meu coração.
2. Em lugar de me condenar, direi a Deus: Mostra-me por que razão me tratas assim.
3. Encontras prazer em oprimir, em renegar a obra de tuas mãos, em favorecer os planos dos maus?
4. Terás olhos de carne, ou vês as coisas como as vêem os homens?
5. Serão os teus dias como os dias de um mortal, e teus anos, como os dos humanos,
6. para que procures a minha culpa e persigas o meu pecado,
7. quando sabes que não sou culpado e que ninguém me pode salvar de tuas mãos?
8. Tuas mãos formaram-me e fizeram-me; mudando de idéia, me destruirás!
9. Lembra-te de que me formaste como o barro; far-me-ás agora voltar à terra?
10. Não me ordenhaste como leite e coalhaste como queijo?
11. De pele e carne me revestiste, de ossos e nervos me teceste:
12. concedeste-me vida e misericórdia; tua providência conservou o meu espírito.
13. Mas eis o que escondias em teu coração, vejo bem o que meditavas.
14. Se peco, me observas, não perdoarás o meu pecado.
15. Se eu for culpado, ai de mim! Se for inocente, não ousarei levantar a cabeça, farto de vergonha e consciente de minha miséria.
16. Esgotado, me caças como um leão. Não cessas de desfraldar contra mim teu estranho poder;
17. redobras contra mim teus assaltos, teu furor cresce contra mim, e vigorosas tropas vêm-me cercar.
18. Por que me tiraste do ventre? Teria morrido; nenhum olho me teria visto.
19. Teria sido como se nunca tivesse existido: do ventre, me teriam levado ao túmulo.
20. Não são bem curtos os dias de minha vida? Que ele me deixe respirar um instante,
21. antes que eu parta, para não mais voltar, ao tenebroso país das sombras da morte,
22. opaca e sombria região, reino de sombra e de caos, onde a noite faz as vezes de claridade.

 
Capítulo 11

1. Então Sofar de Naama tomou a palavra nestes termos:
2. Ficará sem resposta o que fala muito, dar-se-á razão ao grande falador?
3. Tua loquacidade fará calar a gente; zombarás sem que ninguém te repreenda?
4. Dizes: Minha opinião é a verdadeira, sou puro a teus olhos.
5. Oh! Se Deus pudesse falar, e abrir seus lábios para te responder,
6. revelar-te os mistérios da sabedoria que são ambíguos para o espírito, saberias então que Deus esquece uma parte de tua iniqüidade.
7. Pretendes sondar as profundezas divinas, atingir a perfeição do Todo-poderoso?
8. Ela é mais alta do que o céu: que farás? É mais profunda que os infernos: como a conhecerás?
9. É mais longa que a terra, mais larga que o mar.
10. Se ele surge para aprisionar, se apela à justiça, quem o impedirá?
11. Pois ele conhece os malfeitores, descobre a iniqüidade, presta atenção.
12. Diante disso, uma cabeça oca poderia compreender, um asno tornar-se-ia razoável.
13. Se voltares teu coração para Deus, e para ele estenderes os braços;
14. se afastares de tuas mãos o mal, e não abrigares a iniqüidade debaixo de tua tenda,
15. então poderás erguer a fronte sem mancha; serás estável, sem mais nenhum temor.
16. Esquecerás daí por diante as tuas penas: como águas que passaram, serão apenas uma lembrança;
17. o futuro te será mais brilhante do que o meio-dia, as trevas se mudarão em aurora;
18. terás confiança e ficarás cheio de esperança: olhando em volta de ti, dormirás tranqüilo;
19. repousarás sem que ninguém te inquiete muitos acariciarão teu rosto,
20. mas os olhos dos maus serão consumidos; para eles, nenhum refúgio; não terão outra esperança senão em seu último suspiro.

 
Capítulo 12

1. Jó tomou a palavra nestes termos:
2. Sois mesmo gente muito hábil, e convosco morrerá a sabedoria.
3. Tenho também o espírito como o vosso (não vos sou inferior): quem, pois, ignoraria o que sabeis?
4. Os amigos escarnecem daquele que invoca Deus para que ele lhe responda,
e zombam do justo e do inocente.
5. Vergonha para a infelicidade! É o modo de pensar do infeliz; só há desprezo para aquele cujo pé fraqueja.
6. As tendas dos bandidos gozam de paz; segurança para aqueles que provocam Deus, que não têm outro Deus senão o próprio braço.
7. Pergunta, pois, aos animais e eles te ensinarão; às aves do céu e elas te instruirão.
8. Fala (aos répteis) da terra, e eles te responderão, e aos peixes do mar, e eles te darão lições.
9. Entre todos esses seres quem não sabe que a mão de Deus fez tudo isso,
10. ele que tem em mãos a alma de tudo o que vive, e o sopro de vida de todos os humanos?
11. Não discerne o ouvido as palavras como o paladar discerne o sabor das iguarias?
12. A sabedoria pertence aos cabelos brancos, a longa vida confere a inteligência.
13. Em (Deus) residem sabedoria e poder; ele possui o conselho e a inteligência.
14. O que ele destrói não será reconstruído; se aprisionar um homem, ninguém há que o solte.
15. Quando faz as águas pararem, há seca; se as soltar, submergirão a terra.
16. Nele há força e prudência; ele conhece o que engana e o enganado;
17. faz os árbitros andarem descalços, torna os juízes estúpidos;
18. desata a cinta dos reis e cinge-lhes os rins com uma corda;
19. faz os sacerdotes andarem descalços, e abate os poderosos;
20. tira a palavra aos mais seguros de si mesmos e retira a sabedoria dos velhos;
21. derrama o desprezo sobre os nobres, afrouxa a cinta dos fortes,
22. põe a claro os segredos das trevas, e traz à luz a sombra da morte.
23. Torna grandes as nações, e as destrói; multiplica os povos, depois os suprime.
24. Tira a razão dos chefes da terra e os deixa perdidos num deserto sem pista;
25. andam às apalpadelas nas trevas, sem luz; tropeçam como um embriagado.

 
Capítulo 13

1. Meus olhos viram todas essas coisas, meus ouvidos as ouviram e as guardaram;
2. aquilo que vós sabeis, eu também o sei, não vos sou inferior em nada.
3. Mas é com o Todo-poderoso que eu desejaria falar, é com Deus que eu desejaria discutir,
4. pois vós não sois mais que impostores, não sois senão médicos que não prestam para nada.
5. Se pudésseis guardar silêncio, tomar-vos-iam por sábios.
6. Escutai, pois, minha defesa, atendei aos quesitos que vou anunciar.
7. Para defender Deus, ireis dizer mentiras. Será preciso enganardes em seu favor?
8. Tereis, para com ele, juízos preconcebidos, e vos arvorais em ser seus advogados?
9. Seria, porventura, bom que ele vos examinasse? Iríeis enganá-lo como se engana um homem?
10. Ele não deixará de vos castigar, se tomardes seu partido ocultamente.
11. Sua majestade não vos atemorizará? Seus terrores não vos esmagarão?
12. Vossos argumentos são razões de poeira, vossas dilapidações são obras de barro.
13. Calai-vos! Deixai-me! Quero falar: aconteça depois o que acontecer!
14. Lacero a minha carne com os meus dentes, ponho minha vida em minha mão.
15. Se ele me mata, nada mais tenho a esperar, e assim mesmo defenderei minha causa diante dele.
16. Isso já será minha salvação, que o ímpio não seja admitido em sua presença.
17. Escutai, pois, meu discurso, dai ouvido às minhas explicações;
18. estou pronto para defender minha causa, sei que sou eu quem tem razão.
19. Se alguém quiser demandar contra mim no mesmo instante desejarei calar e morrer.
20. Poupai-me apenas duas coisas! E não me esconderei de tua face:
21. afasta de sobre mim a tua mão, põe um termo ao medo de teus terrores.
22. Chama por mim, e eu te responderei; ou então, falarei eu, e tu terás a réplica.
23. Quantas faltas e pecados cometi eu? Dá-me a conhecer minhas faltas e minhas ofensas.
24. Por que escondes de mim a tua face, e por que me consideras como um inimigo?
25. Queres, então, assustar uma folha levada pelo vento, ou perseguir uma folha ressequida?
26. Pois queres ditar contra mim amargas sentenças, e queres que me sejam imputadas as faltas de minha mocidade,
27. queres enfiar os meus pés no cepo, espiar todos os meus passos, e contar os rastos de meus pés?
28. (E ele se gasta como um pau bichado, como um tecido devorado pela traça).

 
Capítulo 14

1. O homem nascido da mulher vive pouco tempo e é cheio de muitas misérias;
2. é como uma flor que germina e logo fenece, uma sombra que foge sem parar.
3. E é sobre ele que abres os olhos, e o chamas a juízo contigo.
4. Quem fará sair o puro do impuro? Ninguém.
5. Se seus dias estão contados, se em teu poder está o número dos seus meses, e fixado um limite que ele não ultrapassará,
6. afasta dele os teus olhos; deixa-o até que acabe o seu dia como um trabalhador.
7. Para uma árvore, há esperança; cortada, pode reverdecer, e os seus ramos brotam.
8. Quando sua raiz tiver envelhecido na terra, e seu tronco estiver morto no solo,
9. ao contato com a água, tornar-se-á verde de novo, e distenderá ramos como uma jovem planta.
10. Mas quando o homem morre, fica estendido; o mortal expira; onde está ele?
11. As águas correm do lago, o rio se esgota e seca;
12. assim o homem se deita para não mais levantar. Durante toda a duração dos céus, ele não despertará; jamais sairá de seu sono.
13. Se, pelo menos, me escondesses na região dos mortos, ao abrigo, até que tua cólera tivesse passado, se me fixasses um limite em que te lembrasses de mim!
14. Se um homem, uma vez morto, pudesse reviver! Todo o tempo de meu combate eu esperaria até que me viessem soerguer,
15. tu me chamarias e eu te responderia; estenderias a tua destra para a obra de tuas mãos.
16. Mas agora contas os meus passos, e observas todos os meus pecados;
17. tu selaste como num saco os meus crimes, puseste um sinal sobre minhas iniqüidades.
18. Mas a montanha acaba por cair, e o rochedo desmorona longe de seu lugar;
19. as águas escavam a pedra, o aluvião leva a terra móvel; assim aniquilas a esperança do homem.
20. Tu o pões por terra; ele se vai embora para sempre; tu o desfiguras e o mandas embora.
21. Estejam os seus filhos honrados, ele o ignora; sejam eles humilhados, não faz caso.
22. É somente por ele que sua carne sofre; sua alma só se lamenta por ele.

 
Capítulo 15

1. Elifaz de Temã tomou a palavra nestes termos:
2. Porventura, responde o sábio como se falasse ao vento e enche de ar o seu ventre?
3. Defende-se ele com fúteis argumentos, e com palavras que não servem para nada?
4. Acabarás destruindo a piedade, reduzes a nada o respeito devido a Deus;
5. pois é a iniqüidade que inspira teus discursos e adotas a linguagem dos impostores.
6. É a tua boca que te condena, e não eu; são teus lábios que dão testemunho contra ti mesmo.
7. És, porventura, o primeiro homem que nasceu, e foste tu gerado antes das colinas?
8. Assististe, porventura, ao conselho de Deus, monopolizaste a sabedoria?
9. Que sabes tu que nós ignoremos, que aprendeste que não nos seja familiar?
10. Há entre nós também velhos de cabelos brancos, muito mais avançados em dias do que teu pai.
11. Fazes pouco caso das consolações divinas, e das doces palavras que te são dirigidas?
12. Por que te deixas levar pelo impulso de teu coração, e o que significam esses maus olhares?
13. É contra Deus que ousas encolerizar-te, e que tua boca profere tais discursos!
14. Que é o homem para que seja puro e o filho da mulher, para que seja justo?
15. Nem mesmo de seus santos Deus se fia, e os céus não são puros a seus olhos;
16. quanto mais do ser abominável e corrompido, o homem, que bebe a iniqüidade como a água?
17. Ouve-me; vou instruir-te: eu te contarei o que vi,
18. aquilo que os sábios ensinam, aquilo que seus pais não lhes ocultaram,
19. (aos quais, somente, foi dada esta terra, e no meio dos quais não tinha penetrado estrangeiro algum).
20. Em todos os dias de sua vida o mau está angustiado, os anos do opressor são em número restrito,
21. ruídos terrificantes ressoam-lhe aos ouvidos, no seio da paz, lhe sobrevém o destruidor.
22. Ele não espera escapar das trevas, está destinado ao gume da espada.
23. Anda às tontas à procura de seu pão, sabe que o dia das trevas está a seu lado.
24. A tribulação e a angústia vêm sobre ele como um rei que vai para o combate,
25. porque levantou a mão contra Deus, e desafiou o Todo-poderoso,
26. correndo contra ele com a cabeça levantada, por detrás da grossura de seus escudos;
27. porque cobriu de gordura o seu rosto, e deixou a gordura ajuntar-se sobre seus rins,
28. habitando em cidades desoladas, em casas que foram abandonadas, destinadas a se tornarem montões de pedras;
29. não se enriquecerá, nem os seus bens resistirão, não mais estenderá sua sombra sobre a terra,
30. não escapará às trevas; o fogo queimará seus ramos, e sua flor será levada pelo vento.
31. (Que não se fie na mentira: ficará prisioneiro dela; a mentira será a sua recompensa).
32. Suas ramagens secarão antes da hora, seus sarmentos não ficarão verdes;
33. como a vinha, sacudirá seus frutos verdes, como a oliveira, deixará cair a flor.
34. Pois a raça dos ímpios é estéril, e o fogo devora as tendas do suborno.
35. Quem concebe o mal, gera a infelicidade: é o engano que amadurece em seu seio.

 
Capítulo 16

1. Jó respondeu então nestes termos:
2. Já ouvi muitas vezes discursos semelhantes, sois todos uns consoladores importunos.
3. Quando terão fim essas palavras atiradas ao ar? Que é que te excitava a falar?
4. Eu também podia falar como vós, se estivésseis em meu lugar. Arranjaria discursos a vosso respeito, e sacudiria a cabeça acerca de vós;
5. eu vos encorajaria verbalmente, e moveria os meus lábios sem nenhuma avareza.
6. Se falo, nem por isso se aplaca a minha dor; se calo, estará ela consolada?
7. Mas Deus me extenuou; estou aniquilado; toda a sua tropa me pegou.
8. Minha magreza tornou-se testemunho contra mim, ela depõe contra mim.
9. Sua cólera me fere e me persegue, ele range os dentes contra mim. Meus inimigos dardejam os olhos sobre mim.
10. Abrem a boca para me devorar; batem-me na face para me ultrajar, rebelam-se todos contra mim.
11. Deus me entrega aos perversos, joga-me nas mãos dos malvados.
12. Eu estava em paz, ele ma tirou, segurou-me pela nuca e me pôs em pedaços. Tomou-me como alvo.
13. Suas setas voam em volta de mim. Ele rasga meus rins sem piedade, espalha meu fel por terra.
14. Abre em mim brecha sobre brecha, ataca-me como um guerreiro.
15. Cosi um saco sobre minha pele, rolei minha fronte no pó.
16. Meu rosto está vermelho de lágrimas, a sombra da morte estende-se sobre minhas pálpebras.
17. Entretanto, não há violência em minhas mãos e minha oração é pura.
18. Ó terra, não cubras o meu sangue, e que seu grito não seja sufocado pela tumba.
19. Tenho desde já uma testemunha no céu, um defensor na alturas.
20. Minha oração subiu até Deus, meus olhos choram diante dele.
21. Que ele mesmo julgue entre o homem e Deus, entre o homem e seu semelhante!
22. Pois meus anos contados se esgotam, entro numa vereda por onde não passarei de novo.

 
Capítulo 17

1. O sopro de minha vida vai-se consumindo, os meus dias se apagam, só me resta o sepulcro.
2. Estou cercado por zombadores, meu olho vela por causa de seus ultrajes.
3. Sê tu mesmo a minha caução junto de ti, e quem ousará bater em minha mão?
4. Pois fechaste o seu coração à inteligência, por isto não os deixarás triunfar.
5. Há quem convide seus amigos à partilha, quando desfalecem os olhos de seus filhos.
6. Ele me reduziu a ser a fábula dos povos, e me cospem no rosto.
7. Meus olhos estão atingidos pela tristeza, todo o meu corpo não é mais que uma sombra.
8. As pessoas retas estão estupefactas, e o inocente se irrita contra o ímpio;
9. o justo, entretanto, persiste no seu caminho, o homem de mãos puras redobra de coragem.
10. Mas vós todos voltai, vinde, pois não acharei entre vós nenhum sábio?
11. Meus dias se esgotam, meus projetos estão aniquilados, frustraram-se os projetos do meu coração.
12. Fazem da noite, dia, a luz da manhã é para mim como trevas.
l3 Deverei esperar? A região dos mortos é a minha morada, preparo meu leito no local tenebroso.
l4 Disse ao sepulcro: És meu pai, e aos vermes: Vós sois minha mãe e minha irmã.
l5 Onde está, pois, minha esperança? E minha felicidade, quem a entrevê?
l6 Descerão elas comigo à região dos mortos, e nos afundaremos juntos na terra?

 
Capítulo 18

1. Bildad de Chua falou então nestes termos:
2. Quando acabarás de falar, e terás a sabedoria de nos deixar dizer?
3. Por que nos consideras como animais, e por que passamos por estúpidos a teus olhos?
4. Tu que te rasgas em teu furor, é preciso que por tua causa a terra seja abandonada, e que os rochedos mudem de lugar?
5. Sim, a luz do mau se apagará, e a flama de seu fogo cessará de alumiar.
6. A luz obscurece em sua tenda, e sua lâmpada sobre ele se apagará;
7. seus passos firmes serão cortados, seus próprios desígnios os farão tropeçar.
8. Seus pés se prendem numa rede, e ele anda sobre malhas.
9. A armadilha o segura pelo calcanhar, um laço o aperta.
10. Uma corda se esconde sob a terra para pegá-lo, uma armadilha, ao longo da vereda.
11. De todas as partes temores o amedrontam, e perseguem-no passo a passo.
12. A calamidade vem faminta sobre ele, a infelicidade está postada a seu lado.
13. A pele de seu corpo é devorada, o filho mais velho da morte devora-lhe os membros;
14. é arrancado da tenda, onde se sentia seguro, levam-no ao rei dos terrores.
15. Podes estabelecer-te em sua tenda: ele não existe mais; o enxofre é espalhado em seu domínio.
16. Por baixo suas raízes secam, e por cima seus ramos definham.
17. Sua memória apaga-se da terra, nada mais lembra o seu nome na região.
18. É arrojado da luz para as trevas, é desterrado do mundo.
19. Não tem descendente nem posteridade em sua tribo, nem sobrevivente algum em sua morada.
20. O Ocidente está estupefacto com sua sorte, o Oriente treme diante dela.
2l Eis o que acontece com as tendas dos ímpios, os lugares habitados pelo homem que não conhece Deus.

 
Capítulo 19

1. Jó respondeu então nestes termos:
2. Até quando afligireis a minha alma e me atormentareis com vossos discursos?
3. Eis que já por dez vezes me ultrajastes, e não vos envergonhais de me insultar.
4. Mesmo que eu tivesse verdadeiramente pecado, minha culpa só diria respeito a mim mesmo.
5. Se vos quiserdes levantar contra mim, e convencer-me de ignomínia,
6. sabei que foi Deus quem me afligiu e me cercou com suas redes.
7. Clamo contra a violência, e ninguém me responde; levanto minha voz, e não há quem me faça justiça.
8. Fechou meu caminho para que eu não possa passar, e espalha trevas pelo meu caminho;
9. despojou-me de minha glória, e tirou-me a coroa da cabeça.
10. Demoliu-me por inteiro, e pereço, desenraizou minha esperança como uma árvore,
11. acendeu a sua cólera contra mim, tratou-me como um inimigo.
12. Suas milícias se concentraram, construíram aterros para me assaltarem, acamparam em volta de minha tenda.
13. Meus irmãos foram para longe de mim, meus amigos de mim se afastaram.
14. Meus parentes e meus íntimos desapareceram, os hóspedes de minha casa esqueceram-se de mim.
15. Minhas servas olham-me como um estranho, sou um desconhecido para elas.
16. Chamo meu escravo, ele não responde, preciso suplicar-lhe com a boca.
17. Minha mulher tem horror de meu hálito, sou pesado aos meus próprios filhos.
18. Até as crianças caçoam de mim; quando me levanto, troçam de mim.
19. Meus íntimos me abominam, aqueles que eu amava voltam-se contra mim.
20. Meus ossos estão colados à minha pele, à minha carne, e fujo com a pele de meus dentes.
21. Compadecei-vos de mim, compadecei-vos de mim, ao menos vós, que sois meus amigos, pois a mão de Deus me feriu.
22. Por que me perseguis como Deus, e vos mostrais insaciáveis de minha carne?
23. Oh!, se minhas palavras pudessem ser escritas, consignadas num livro,
24. gravadas por estilete de ferro em chumbo, esculpidas para sempre numa rocha!
25. Eu o sei: meu vingador está vivo, e aparecerá, finalmente, sobre a terra.
26. Por detrás de minha pele, que envolverá isso, na minha própria carne, verei Deus.
27. Eu mesmo o contemplarei, meus olhos o verão, e não os olhos de outro; meus rins se consomem dentro de mim.
28. Pois, se dizes: Por que o perseguimos, e como encontraremos nele uma razão para condená-lo?
29. Temei o gume da espada, pois a cólera de Deus persegue os maus, e sabereis que há uma justiça.

 
Capítulo 20

1. Sofar de Naama falou nestes termos:
2. É por isso que meus pensamentos me sugerem uma resposta, e estou impaciente por falar.
3. Ouvi queixas injuriosas, foram palavras vãs que responderam a meu espírito.
4. Não sabes bem que, em todos os tempos, desde que o homem foi posto na terra,
5. o triunfo dos maus é breve, e a alegria do ímpio só dura um instante?
6. Ainda mesmo que sua estatura chegasse até o céu e sua cabeça tocasse a nuvem,
7. como o seu próprio esterco, ele perece para sempre, e aqueles que o viam, indagam onde ele está.
8. Como um sonho, ele voa, ninguém mais o encontra, desaparece como uma visão noturna.
9. O olho que o viu, já não mais o vê, nem o verá mais a sua morada.
10. Seus filhos aplacarão os pobres, suas mãos restituirão suas riquezas.
11. Seus ossos estavam cheios de vigor juvenil, sua mocidade deita-se com ele no pó.
12. Se o mal lhe foi doce na boca, se o ocultou debaixo da língua,
13. se o reteve e não o abandonou, se o saboreou com seu paladar,
14. esse alimento se transformará em suas entranhas, e se converterá interiormente em fel de áspides.
15. Vomitará as riquezas que engoliu; Deus as fará sair-lhe do ventre.
16. Sugava o veneno de áspides, a língua da víbora o matará.
17. Não verá correr os riachos de óleo, as torrentes de mel e de leite.
18. Vomitará seu ganho, sem poder engoli-lo, não gozará o fruto de seu tráfico.
19. Porque maltratou, desamparou os pobres, roubou uma casa que não tinha construído,
20. porque sua avidez é insaciável, não salvará o que lhe era mais caro.
21. Nada escapava à sua voracidade: é por isso que sua felicidade não há de durar.
22. Em plena abundância, sentirá escassez; todos os golpes da infelicidade caem sobre ele.
23. Para encher-lhe o ventre (Deus) desencadeia o fogo de sua cólera, e fará chover a dor sobre ele.
24. Se foge diante da arma de ferro, o arco de bronze o traspassa,
25. um dardo sai-lhe das costas, um aço fulgurante sai-lhe do fígado. O terror desaba sobre ele,
26. e ser-lhe-ão reservadas as trevas. Um fogo, que o homem não acendeu, o devora e consome o que sobra em sua tenda.
27. Os céus revelam seu crime, a terra levanta-se contra ele,
28. uma torrente joga-se contra sua casa, que é levada no dia da cólera divina.
29. Tal é a sorte que Deus reserva ao mau, e a herança que Deus lhe destina.

 
Capítulo 21

1. Jó tomou então a palavra nestes termos:
2. Ouvi, ouvi minhas palavras, que eu tenha pelo menos esse consolo de vossa parte.
3. Permiti que eu fale; quando tiver falado, zombai à vontade.
4. É de um homem que me queixo? E como não hei de perder a paciência?
5. Olhai para mim; ireis ficar estupefactos, e poreis a mão sobre a boca.
6. Quando penso nisso, fico estarrecido, e todo o meu corpo treme.
7. Como é que os maus vivem, envelhecem, e cresce o seu vigor?
8. Sua posteridade prospera diante deles, e seus descendentes sob seus olhos;
9. sua casa é tranqüila, sem alarmes, a vara de Deus não os atinge.
10. Seu touro é cada vez mais fecundo, sua vaca dá cria sem nunca abortar.
11. Deixam os filhos correr como carneiros, e os seus pequenos saltam e brincam.
12. Cantam ao som do pandeiro e da cítara, divertem-se ao som da flauta.
13. Passam os dias na alegria, e descem tranqüilamente à região dos mortos.
14. Ora, dizem a Deus: Afasta-te de nós, não queremos conhecer os teus caminhos;
15. quem é o Todo-poderoso para que o sirvamos? Que vantagem temos em lhe fazer orações?
16. A felicidade não está em suas mãos? Contudo, longe de mim esteja o modo de pensar dos ímpios!
17. Quantas vezes vemos apagar-se a lâmpada dos ímpios, e a ruína desabar sobre eles?
18. São eles como a palha ao sopro do vento, como a cinza tragada pelo turbilhão?
19. Deus (assim dizem), reserva para os filhos o castigo do pai. Que ele mesmo o puna, para que o sinta!
20. Que veja com os próprios olhos a sua ruína, e ele mesmo beba da cólera do Todo-poderoso!
21. Que se lhe dá do que será feito de sua casa depois dele, se o número de seus meses já está contado?
22. É a Deus, que se irá ensinar a sabedoria, a ele, que julga os seres superiores?
23. Um morre no seio da prosperidade, plenamente feliz e tranqüilo,
24. os flancos cobertos de gordura, e a medula dos ossos cheia de seiva;
25. o outro morre com a amargura na alma, sem ter gozado a felicidade;
26. juntos se deitam na terra, e os vermes recobrem a ambos.
27. Ah! conheço vossos pensamentos, os julgamentos iníquos que fazeis de mim.
28. Dizeis: Onde está a casa do tirano, onde está a tenda em que habitavam os ímpios?
29. Não interrogastes os viajantes? Contestaríeis seus testemunhos?
30. No dia da infelicidade o ímpio é poupado, no dia da cólera ele escapa.
31. Quem reprova diante dele o seu proceder, e lhe pede contas de seus atos?
32. Levam-no ao sepulcro, ficarão de vigília em sua câmara funerária.
33. Os torrões do vale são-lhe leves; todos os homens irão em sua companhia, e foram inumeráveis seus predecessores.
34. Que significam, pois, essas vãs consolações? Todas as vossas respostas são apenas perfídia.

 
Capítulo 22

1. Elifaz de Temã tomou a palavra nestes termos:
2. Pode o homem ser útil a Deus? O sábio só é útil a si mesmo.
3. De que serve ao Todo-poderoso que tu sejas justo? Tem ele interesse que teu proceder seja íntegro?
4. É por causa de tua piedade que ele te pune, e entra contigo em juízo?
5. Não é enorme a tua malícia, e não são inumeráveis as tuas iniqüidades?
6. Sem causa tomaste penhores a teus irmãos, despojaste de suas vestes os miseráveis;
7. não davas água ao sedento, recusavas o pão ao esfomeado.
8. A terra era do mais forte, e o protegido é que nela se estabelecia.
9. Despedias as viúvas com as mãos vazias, quebravas os braços dos órfãos.
10. Eis por que estás cercado de laços, e os terrores súbitos te amedrontam.
11. A luz obscureceu-se; já não vês nada; e o dilúvio águas te engole.
12. Não está Deus nas alturas dos céus? Vê a cabeça das estrelas como está alta!
13. E dizes: Que sabe Deus? Pode ele julgar através da nuvem opaca?
14. As nuvens formam um véu que o impede de ver; ele passeia pela abóbada do céu.
15. Segues, pois, rotas antigas por onde andavam os homens iníquos
16. que foram arrebatados antes do tempo, e cujos fundamentos foram arrastados com as águas,
17. e que diziam a Deus: Retira-te de nós, que poderia fazer-nos o Todo-poderoso?
18. Foi ele, entretanto, que lhes cumulou de bens as casas; – longe de mim os conselhos dos maus! -
19. Vendo-os, os justos se alegram, e o inocente zomba deles:
20. Nossos inimigos estão aniquilados, e o fogo devorou-lhes as riquezas!
21. Reconcilia-te, pois, com (Deus) e faz as pazes com ele, é assim que te será de novo dada a felicidade;
22. aceita a instrução de sua boca, e põe suas palavras em teu coração.
23. Se te voltares humildemente para o Todo-poderoso, se afastares a iniqüidade de tua tenda,
24. se atirares as barras de ouro ao pó, e o ouro de Ofir entre os pedregulhos da torrente,
25. o Todo-poderoso será teu ouro e um monte de prata para ti.
26. Então farás do Todo-poderoso as tuas delícias, e levantarás teu rosto a Deus.
27. Tu lhe rogarás, e ele te ouvirá, e cumprirás os teus votos:
28. formarás os teus projetos, que terão feliz êxito, e a luz brilhará em tuas veredas.
29. Pois Deus abaixa o altivo e o orgulhoso, mas socorre aquele que abaixa os olhos.
30. Salva o inocente, o qual é libertado pela pureza de suas mãos.

 
Capítulo 23

1. Jó tomou a palavra nestes termos:
2. Sim, hoje minha queixa é uma revolta; sua mão pesa sobre meus suspiros.
3. Ah! se pudesse encontrá-lo, e chegar até seu trono!
4. Exporia diante dele minha causa, encheria minha boca de argumentos,
5. saberia o que ele iria responder-me, e veria o que ele teria para me dizer.
6. Oporia ele contra mim a sua onipotência? Bastaria que lançasse os olhos em mim;
7. seria então um justo a discutir com ele, e eu iria embora definitivamente absolvido pelo meu juiz.
8. Mas se eu for ao oriente, lá ele não está; ao ocidente, não o encontrarei;
9. se o procuro ao norte, não o vejo; se me volto para o sul, não o descubro.
10. Mas ele conhece o meu caminho; e se me põe à prova, dela sairei puro como o ouro.
11. Meu pé seguiu os seus traços, guardei o seu caminho sem me desviar.
12. Não me afastei dos preceitos de seus lábios, guardei no meu íntimo as palavras de sua boca.
13. Mas ele decidiu alguma coisa; quem o fará voltar atrás? Ele faz o que bem lhe agrada.
14. Realizará seu desígnio a meu respeito, e tem muitos projetos iguais a este.
15. Eis por que sua presença me atemoriza: basta o seu pensamento para me fazer tremer.
16. Deus fundiu o meu coração, o Todo-poderoso me enche de terror.
17. Sucumbo diante das trevas, as trevas cobriram-me o rosto.

 
Capítulo 24

1. Por que não reserva tempos para si o Todo-poderoso? E por que ignoram seus dias os que lhe são fiéis?
2. Os maus mudam as divisas das terras, e fazem pastar o rebanho que roubaram.
3. Empurram diante de si o jumento do órfão, e tomam em penhor o boi da viúva.
4. Afastam os pobres do caminho, todos os miseráveis da região precisam esconder-se.
5. Como os asnos no deserto, saem para o trabalho, à procura do que comer, à procura do pão para seus filhos.
6. Ceifam a forragem num campo, vindimam a vinha do ímpio.
7. Passam a noite nus, sem roupa, sem cobertor contra o frio.
8. São banhados pelas chuvas da montanha; sem abrigo, abraçam-se com as rochas.
9. Arrancam o órfão do seio materno, tomam em penhor as crianças do pobre.
10. Andam nus, despidos, esfomeados, carregam feixes.
11. Espremem o óleo nos celeiros, pisam os lagares, morrendo de sede.
12. Sobe da cidade o estertor dos moribundos, a alma dos feridos grita: Deus não ouve suas súplicas.
13. Outros são rebeldes à luz, não conhecem seus caminhos, não habitam em suas veredas.
14. O homicida levanta-se quando cai o dia, para matar o pobre e o indigente; o ladrão vagueia durante a noite.
15. O adúltero espreita o crepúsculo: Ninguém me verá, diz ele, e põe um véu no rosto.
16. Nas trevas, forçam as casas; escondem-se durante o dia; não conhecem a luz.
17. Para eles, com efeito, a manhã é uma sombra espessa, pois estão acostumados aos terrores da noite.
18. Correm rapidamente à superfície das águas, sua herança é maldita na terra; já não tomarão o caminho das vinhas.
19. Como a seca e o calor absorvem a água das neves, assim a região dos mortos engole os pecadores.
20. O ventre que o gerou, esquece-o, os vermes fazem dele as suas delícias; ninguém mais se lembra dele.
21. A iniqüidade é quebrada como uma árvore. Maltratava a mulher estéril e sem filhos, não fazia o bem à viúva;
22. punha sua força a serviço dos poderosos. Levanta-se e já não pode mais contar com a vida.
23. Ele lhes dá segurança e apoio, mas seus olhos vigiam seus caminhos.
24. Levantam-se, subitamente já não existem; caem; como os outros, são arrebatados, são ceifados como cabeças de espigas.
25. Se assim não é, quem me desmentirá, quem reduzirá a nada as minhas palavras?

 
Capítulo 25

1. Bildad de Chua tomou então a palavra nestes termos:
2. A ele, o poder e a majestade, em sua alta morada faz reinar a paz.
3. Podem ser contadas as suas legiões? Sobre quem não se levanta a sua luz?
4. Como seria justo o homem diante de Deus, como seria puro o filho da mulher?
5. Até mesmo a luz não brilha, e as estrelas não são puras a seus olhos;
6. quanto menos o homem, esse verme, e o filho do homem, esse vermezinho.

 
Capítulo 26

1. Jó tomou então a palavra nestes termos:
2. Como sabes sustentar bem o fraco, e socorrer um braço sem vigor!
3. Como sabes aconselhar o ignorante, e dar mostras de abundante sabedoria!
4. A quem diriges este discurso? Sob a inspiração de quem falas tu?
5. As sombras agitam-se embaixo (da terra), as águas e seus habitantes (estão temerosos).
6. A região dos mortos está aberta diante dele, os infernos não têm véu.
7. Estende o setentrião sobre o vácuo, suspende a terra acima do nada.
8. Prende as águas em suas nuvens, e as nuvens não se rasgam sob seu peso.
9. Vela a face da lua, estendendo sobre ela uma nuvem.
10. Traçou um círculo à superfície das águas, onde a luz confina com as trevas.
11. As colunas do céu estremecem e assustam-se com a sua ameaça.
12. Com seu poder levanta o mar, com sua sabedoria destruiu Raab.
13. Seu sopro varreu os céus, e sua mão feriu a serpente fugitiva.
14. Eis que tudo isso não é mais que o contorno de suas obras, e se apenas percebemos um fraco eco dessas obras, quem compreenderá o trovão de seu poder?

 
Capítulo 27

1. Jó continuou seu discurso nestes termos:
2. Pela vida de Deus que me recusa justiça, pela vida do Todo-poderoso que enche minha alma de amargura,
3. enquanto em mim houver alento, e o sopro de Deus passar por minhas narinas,
4. meus lábios nada pronunciarão de perverso e minha língua não proferirá mentira.
5. Longe de mim vos dar razão! Até o último suspiro defenderei minha inocência,
6. mantenho minha justiça, não a abandonarei; minha consciência não acusa nenhum de meus dias.
7. Que meu inimigo seja tratado como culpado, e meu adversário como um mentiroso!
8. Que pode esperar o ímpio de sua oração, quando eleva para Deus a sua alma?
9. Deus escutará seu clamor quando a angústia cair sobre ele?
10. Encontra ele suas delícias no Todo-poderoso, invoca ele Deus em todo o tempo?
11. Eu vos ensinarei o proceder de Deus, não vos ocultarei os desígnios do Todo-poderoso.
12. Mas todos vós já o sabeis; e por que proferis palavras vãs?
13. Eis a sorte que Deus reserva aos maus, e a parte reservada ao violento pelo Todo-poderoso.
14. Se seus filhos se multiplicam, é para a espada, e seus descendentes não terão o que comer.
15. Seus sobreviventes serão sepultados na morte, e suas viúvas não os chorarão.
16. Se amontoa prata como poeira, se ajunta vestimentas como argila,
17. ele amontoa, mas é o justo quem os veste, é um homem honesto quem herda a prata.
18. Constrói sua casa como a casa da aranha, como a choupana que o vigia constrói.
19. Deita-se rico: é pela última vez. Quando abre os olhos, já deixou de sê-lo.
20. O terror o invade como um dilúvio, um redemoinho o arrebata durante a noite.
21. O vento de leste o levanta e o faz desaparecer: varre-o violentamente de seu lugar.
22. Precipitam-se sobre ele sem poupá-lo, é arrastado numa fuga desvairada.
23. Sua ruína é aplaudida; de sua própria casa assobiarão sobre ele.

 
Capítulo 28

1. Há lugares de onde se tira a prata, lugares onde o ouro é apurado;
2. o ferro é extraído do solo, o cobre é extraído de uma pedra fundida.
3. Foi posto um fim às trevas, escavaram-se as últimas profundidades da rocha obscura e sombria.
4. Longe dos lugares habitados (o mineiro) abre galerias que são ignoradas pelos pés dos transeuntes; suspenso, vacila longe dos humanos.
5. A terra, que produz o pão, é sacudida em suas entranhas como se fosse pelo fogo.
6. As rochas encerram a safira, assim como o pó do ouro.
7. A águia não conhece a vereda, o olho do abutre não a viu;
8. os altivos animais não a pisaram, o leão não passou por ela.
9. O homem põe a mão no sílex, derruba as montanhas pela base;
10. fura galerias nos rochedos, o olho pode ver nelas todos os tesouros.
11. Explora as nascentes dos rios, e põe a descoberto o que estava escondido.
12. Mas a sabedoria, de onde sai ela? Onde está o jazigo da inteligência?
13. O homem ignora o caminho dela, ninguém a encontra na terra dos vivos.
14. O abismo diz: Ela não está em mim. Não está comigo, diz o mar.
15. Não pode ser adquirida com ouro maciço, não pode ser comprada a peso de prata.
16. Não pode ser posta em balança com o ouro de Ofir, com o ônix precioso ou a safira.
17. Não pode ser comparada nem ao ouro nem ao vidro, ninguém a troca por vaso de ouro fino.
18. Quanto ao coral e ao cristal, nem se fala, a sabedoria vale mais do que as pérolas.
19. Não pode ser igualada ao topázio da Etiópia, não pode ser equiparada ao mais puro ouro.
20. De onde vem, pois, a sabedoria? Onde está o jazigo da inteligência?
21. Um véu a oculta de todos os viventes, até das aves do céu ela se esconde.
22. Dizem o inferno e a morte: Apenas ouvimos falar dela.
23. Deus conhece o caminho para encontrá-la, é ele quem sabe o seu lugar,
24. porque ele vê até os confins da terra, e enxerga tudo o que há debaixo do céu.
25. Quando ele se ocupava em pesar os ventos, e em regular a medida das águas,
26. quando fixava as leis da chuva, e traçava uma rota aos relâmpagos,
27. então a viu e a descreveu, penetrou-a e escrutou-a.
28. Depois disse ao homem: O temor do Senhor, eis a sabedoria; fugir do mal, eis a inteligência.

 
Capítulo 29

1. Jó continuou seu discurso nestes termos:
2. Quem me tornará tal como antes, nos dias em que Deus me protegia,
3. quando a sua lâmpada luzia sobre a minha cabeça, e a sua luz me guiava nas trevas?
4. Tal como eu era nos dias de meu outono, quando Deus velava como um amigo sobre minha tenda,
5. quando o Todo-poderoso estava ainda comigo, e meus filhos em volta de mim;
6. quando os meus pés se banhavam no creme, e o rochedo em mim derramava ondas de óleo;
7. quando eu saía para ir à porta da cidade, e me assentava na praça pública?
8. Viam-me os jovens e se escondiam, os velhos levantavam-se e ficavam de pé;
9. os chefes interrompiam suas conversas, e punham a mão sobre a boca;
10. calava-se a voz dos príncipes, a língua colava-se-lhes no céu da boca.
11. Quem me ouvia felicitava-me, quem me via dava testemunho de mim.
12. Livrava o pobre que pedia socorro, e o órfão que não tinha apoio.
13. A bênção do que estava a perecer vinha sobre mim, e eu dava alegria ao coração da viúva.
14. Revestia-me de justiça, e a eqüidade era para mim como uma roupa e um turbante.
15. Era os olhos do cego e os pés daquele que manca;
16. era um pai para os pobres, examinava a fundo a causa dos desconhecidos.
17. Quebrava o queixo do perverso, e arrancava-lhe a presa de entre os dentes.
18. Eu dizia: Morrerei em meu ninho, meus dias serão tão numerosos quanto os da fênix.
19. Minha raiz atinge as águas, o orvalho ficará durante a noite sobre meus ramos.
20. Minha glória será sempre jovem, e meu arco sempre forte em minha mão.
21. Escutavam-me, esperavam, recolhiam em silêncio meu conselho;
22. quando acabava de falar, não acrescentavam nada, minhas palavras eram recebidas como orvalho.
23. Esperavam-me como a chuva e abriam a boca como se fosse para as águas da primavera.
24. Sorria para aqueles que perdiam coragem; ante o meu ar benevolente, deixavam de estar abatidos.
25. Quando eu ia ter com eles, tinha o primeiro lugar, era importante como um rei no meio de suas tropas, como o consolador dos aflitos.

 
Capítulo 30

1. Agora zombam de mim os mais jovens do que eu, aqueles cujos pais eu desdenharia de colocar com os cães de meu rebanho.
2. Que faria eu com o vigor de seus braços? Não atingirão a idade madura.
3. Reduzidos a nada pela miséria e a fome, roem um solo árido e desolado.
4. Colhem ervas e cascas dos arbustos, por pão têm somente a raiz das giestas.
5. São postos para fora do povo, gritam com eles como se fossem ladrões,
6. moram em barrancos medonhos, em buracos de terra e de rochedos.
7. Ouvem-se seus gritos entre os arbustos, amontoam-se debaixo das urtigas,
8. filhos de infames e de gente sem nome que são expulsos da terra!
9. Agora sou o assunto de suas canções, o tema de seus escárnios;
10. afastam-se de mim com horror, não receiam cuspir-me no rosto.
11. Desamarraram a corda para humilhar-me, sacudiram de si todo o freio diante de mim.
12. À minha direita levanta-se a raça deles, tentam atrapalhar meus pés, abrem diante de mim o caminho da sua desgraça.
13. Cortam minha vereda para me perder, trabalham para minha ruína.
14. Penetram como por uma grande brecha, irrompem entre escombros.
15. O pavor me invade. Minha esperança é varrida como se fosse pelo vento, minha felicidade passa como uma nuvem.
16. Agora minha alma se dissolve, os dias de aflição me dominaram.
17. A noite traspassa meus ossos, consome-os; os males que me roem não dormem.
18. Com violência segura a minha veste, aperta-me como o colarinho de minha túnica.
19. Deus jogou-me no lodo, tenho o aspecto da poeira e da cinza.
20. Clamo a ti, e não me respondes; ponho-me diante de ti, e não olhas para mim.
21. Tornaste-te cruel para comigo, atacas-me com toda a força de tua mão.
22. Arrebatas-me, fazes-me cavalgar o tufão, aniquilas-me na tempestade.
23. Eu bem sei, levas-me à morte, ao lugar onde se encontram todos os viventes.
24. Mas poderá aquele que cai não estender a mão, poderá não pedir socorro aquele que perece?
25. Não chorei com os oprimidos? Não teve minha alma piedade dos pobres?
26. Esperava a felicidade e veio a desgraça, esperava a luz e vieram as trevas.
27. Minhas entranhas abrasam-se sem nenhum descanso, assaltaram-me os dias de aflição.
28. Caminho no luto, sem sol; levanto-me numa multidão de gritos,
29. tornei-me irmão dos chacais e companheiro dos avestruzes.
30. Minha pele enegrece-se e cai, e meus ossos são consumidos pela febre.
31. Minha cítara só dá acordes lúgubres, e minha flauta sons queixosos.

 
Capítulo 31

1. Eu havia feito um pacto com meus olhos: não desejaria olhar nunca para uma virgem.
2. Que parte me daria Deus lá do alto, que sorte o Todo-poderoso me enviaria dos céus?
3. A infelicidade não está reservada ao injusto, e o infortúnio ao iníquo?
4. Não conhece Deus os meus caminhos, e não conta todos os meus passos?
5. Se caminhei com a mentira, se meu pé correu atrás da fraude,
6. que Deus me pese em justas balanças e reconhecerá minha integridade.
7. Se meus passos se desviaram do caminho, se meu coração seguiu meus olhos, se às minhas mãos se apegou qualquer mácula,
8. semeie eu e outro o coma, e que minhas plantações sejam desenraizadas!
9. Se meu coração foi seduzido por uma mulher, se fiquei à espreita à porta de meu vizinho,
10. que minha mulher gire a mó para outro e que estranhos a possuam!
11. Pois isso teria sido um crime, um delito dependente da justiça,
12. um fogo que devoraria até o abismo, e que teria arruinado todos os meus bens.
13. Nunca violei o direito de meus escravos, ou de minha serva, em suas discussões comigo.
14. Que farei eu quando Deus se levantar? Quando me interrogar, que lhe responderei?
15. Aquele que me criou no ventre, não o criou também a ele? Um mesmo criador não nos formou no seio da nossa mãe?
16. Não recusei aos pobres aquilo que desejavam, não fiz desfalecer os olhos da viúva,
17. não comi sozinho meu pedaço de pão, sem que o órfão tivesse a sua parte;
18. desde minha infância cuidei deste como um pai, desde o ventre de minha mãe fui o guia da viúva.
19. Se vi perecer um homem por falta de roupas, e o pobre que não tinha com que cobrir-se,
20. sem que seus rins me tenham abençoado, aquecido como estava com a lã de minhas ovelhas;
21. se levantei a mão contra o órfão, quando me via apoiado pelos juízes,
22. que meu ombro caia de minhas costas, que meu braço seja arrancado de seu cotovelo!
23. Pois o temor de Deus me invadiu, e diante de sua majestade não posso subsistir.
24. Nunca pus no ouro minha segurança, nem jamais disse ao ouro puro: És minha esperança.
25. Nunca me rejubilei por ser grande a minha riqueza, nem pelo fato de minha mão ter ajuntado muito.
26. Quando eu via o sol brilhar, e a lua levantar-se em seu esplendor,
27. jamais meu coração deixou-se seduzir em segredo, e minha mão não foi levada à boca para um beijo.
28. Isto seria um crime digno de castigo, pois eu teria renegado o Deus do alto.
29. Nunca me alegrei com a ruína de meu inimigo, e nem exultei quando a infelicidade o feriu.
30. Não permiti que minha língua pecasse, reclamando sua morte por uma imprecação.
31. Jamais as pessoas de minha tenda me disseram: Há alguém que não saiu satisfeito.
32. O estrangeiro não passava a noite fora, eu abria a minha porta ao viajante.
33. Nunca dissimulei minha culpa aos homens, escondendo em meu peito minha iniqüidade,
34. como se temesse a multidão e receasse o desprezo das famílias, a ponto de me manter quieto sem pôr o pé fora da porta.
35. Oh, se eu tivesse alguém para me ouvir! Eis a minha assinatura: que o Todo-poderoso me responda! Que o meu adversário escreva também um memorial.
36. Será que eu não o poria sobre meus ombros, e não cingiria minha fronte com ele como de uma coroa?
37. Dar-lhe-ia conta de todos os meus passos, e me apresentaria diante dele altivo como um príncipe.
38. Se minha terra clamou contra mim, e seus sulcos derramaram lágrimas,
39. se comi seus frutos sem pagar, se afligi a alma de seu possuidor,
40. que em vez de trigo produza espinhos, e joio em vez de cevada! Aqui terminam os discursos de Jó.

 
Capítulo 32

1. Como Jó persistisse em considerar-se como um justo, estes três homens cessaram de lhe responder.
2. Então se inflamou a cólera de Eliú, filho de Baraquel, de Buz, da família de Rão; sua cólera inflamou-se contra Jó, por este pretender justificar-se perante Deus.
3. Inflamou-se também contra seus três amigos, por não terem achado resposta conveniente, dando assim culpa a Deus.
4. Como fossem mais velhos do que ele, Eliú tinha se abstido de responder a Jó.
5. Mas, quando viu que não tinham mais nada para responder, encolerizou-se.
6. Então Eliú, filho de Baraquel, de Buz, tomou a palavra nestes termos: Sou jovem em anos, e vós sois velhos; é por isso que minha timidez me impediu de manifestar-vos o meu saber.
7. Dizia comigo: A idade vai falar; os muitos anos farão conhecer a sabedoria,
8. mas é o Espírito de Deus no homem, e um sopro do Todo-poderoso que torna inteligente.
9. Não são os mais velhos que são sábios, nem os anciãos que discernem o que é justo;
10. é por isso que digo: Escutai-me, vou mostrar-vos o que sei.
11. Esperei enquanto faláveis, prestei atenção em vossos raciocínios. Enquanto discutíeis,
12. segui-vos atentamente. Mas ninguém refutou Jó, ninguém respondeu aos seus argumentos.
13. Não digais: Encontramos a sabedoria; é Deus e não um homem quem nos instrui.
14. Não foi a mim que dirigiu seus discursos, mas encontrarei outras respostas diferentes das vossas.
15. Ei-los calados, já não dizem mais nada; faltam-lhes as palavras.
16. Esperei que se calassem, que parassem e cessassem de responder.
17. É a minha vez de responder: vou também mostrar o que sei.
18. Pois estou cheio de palavras, o espírito que está em meu peito me oprime.
19. Meu peito é como o vinho arrolhado, como um barril pronto para estourar.
20. Vou falar, isto me aliviará, abrirei meus lábios para responder.
21. Não farei acepção de ninguém, não adularei este ou aquele.
22. Pois não sei bajular; do contrário, meu Criador logo me levaria.

 
Capítulo 33

1. E agora, Jó, escuta minhas palavras, dá ouvidos a todos os meus discursos.
2. Eis que abro a boca, minha língua, sob o céu da boca, vai falar.
3. Minhas palavras brotam de um coração reto, meus lábios falarão francamente.
4. O Espírito de Deus me criou, e o sopro do Todo-poderoso me deu a vida.
5. Se puderes, responde-me; toma posição, fica firme diante de mim.
6. Em face de Deus sou teu igual: como tu mesmo, fui formado de barro.
7. Assim meu temor não te assustará e o peso de minhas palavras não te acabrunhará.
8. Ora, disseste aos meus ouvidos, e ouvi estas palavras:
9. Sou puro, sem pecado; sou limpo, não há culpa em mim.
10. É ele que inventa pretextos contra mim, considera-me seu inimigo.
11. Pôs meus pés no cepo, espiou todos os meus passos.
12. Responderei que nisto foste injusto, pois Deus é maior do que o homem.
13. Por que o acusas de não dar nenhuma resposta a teus discursos?
14. Pois Deus fala de uma maneira e de outra e não prestas atenção.
15. Por meio dos sonhos, das visões noturnas, quando um sono profundo pesa sobre os humanos, enquanto o homem está adormecido em seu leito,
16. então abre o ouvido do homem e o assusta com suas aparições,
17. a fim de desviá-lo do pecado e de preservá-lo do orgulho,
18. para salvar-lhe a alma do fosso, e sua vida, da seta mortífera.
19. Pela dor também é instruído o homem em seu leito, quando todos os seus membros são agitados,
20. quando recebe o alimento com desgosto, e já não pode suportar as iguarias mais deliciosas;
21. sua carne some aos olhares, seus membros emagrecidos se desvanecem;
22. sua alma aproxima-se da sepultura, e sua vida, daqueles que estão mortos.
23. Se perto dele se encontrar um anjo, um intercessor entre mil, para ensinar-lhe o que deve fazer,
24. ter piedade dele e dizer: Poupai-o de descer à sepultura, recebi o resgate de sua vida;
25. sua carne retomará o vigor da mocidade, retornará aos dias de sua adolescência.
26. Ele reza, e Deus lhe é propício, contempla-lhe a face com alegria. Anuncia (Deus) ao homem sua justiça;
27. canta diante dos homens, dizendo: Pequei, violei o direito, e Deus não me tratou conforme meus erros;
28. poupou minha alma de descer à sepultura, e minha alma bem viva goza a luz.
29. Eis o que Deus faz duas, três vezes para o homem,
30. a fim de tirar-lhe a alma da sepultura, para iluminá-la com a luz dos vivos.
31. Presta atenção, Jó, escuta-me; cala a boca para que eu fale.
32. Se tens alguma coisa para dizer, responde-me; fala, eu gostaria de te dar razão.
33. Se não, escuta-me, cala-te, e eu te ensinarei a sabedoria.

 
Capítulo 34

1. Eliú retomou a palavra nestes termos:
2. Sábios, ouvi meu discurso; eruditos, prestai atenção,
3. pois o ouvido discerne o valor das palavras, como o paladar aprecia as iguarias.
4. Procuremos discernir o que é justo, e conhecer entre nós o que é bom.
5. Jó disse: Eu sou inocente; é Deus que recusa fazer-me justiça.
6. A despeito de meu direito, passo por mentiroso, minha ferida é incurável, sem que eu tenha pecado.
7. Onde existe um homem como Jó, para beber a blasfêmia como quem bebe água,
8. para andar de par com os ímpios e caminhar com os perversos?
9. Pois ele disse: O homem não ganha nada em ser agradável a Deus.
10. Ouvi-me, pois, homens sensatos: longe de Deus a injustiça! Longe do Todo-poderoso a iniqüidade!
11. Ele trata o homem conforme seus atos, dá a cada um o que merece.
12. É claro! Deus não é injusto, e o Todo-poderoso não falseia o direito.
13. Quem lhe confiou a administração da terra? Quem lhe entregou o universo?
14. Se lhe retomasse o sopro, se lhe retirasse o alento,
15. toda carne expiraria no mesmo instante, o homem voltaria ao pó.
16. Se tens inteligência, escuta isto, dá ouvidos ao som de minhas palavras:
17. um inimigo do direito poderia governar? Pode o Justo, o Poderoso cometer a iniqüidade?
18. Ele que disse a um rei: Malvado! A príncipes: Celerados!
19. Ele não tem preferência pelos grandes, e não tem mais consideração pelos ricos do que pelos pobres, porque são todos obras de suas mãos.
20. Subitamente, perecem no meio da noite; os povos vacilam e passam, o poderoso desaparece, sem o socorro de mão alguma.
21. Pois Deus olha para o proceder do homem, vê todos os seus passos.
22. Não há obscuridade, nem trevas onde o iníquo possa esconder-se.
23. Não precisa olhar duas vezes para um homem para citá-lo em justiça consigo.
24. Abate os poderosos sem inquérito, e põe outros em lugar deles,
25. pois conhece suas ações; derruba-os à noite, são esmagados.
26. Fere-os como ímpios, num lugar onde são vistos,
27. porque se afastaram dele e não quiseram conhecer os seus caminhos,
28. fazendo chegar até ele o clamor do pobre e tornando-o atento ao grito do infeliz.
29. Se ele dá a paz, quem o censurará? Se oculta sua face, quem poderá contemplá-lo?
30. Assim trata ele o povo e o indivíduo de maneira que o ímpio não venha a reinar, e já não seja uma armadilha para o povo.
31. Tinha dito a Deus: Fui seduzido, não mais pecarei,
32. ensina-me o que ignoro; se fiz o mal, não recomeçarei mais.
33. Julgas, então, que ele deve punir, já que rejeitaste suas ordens? És tu quem deves escolher, não eu; dize, pois, o que sabes.
34. As pessoas sensatas me responderão, como qualquer homem sábio que me tiver ouvido:
35. Jó não falou conforme a razão, falta-lhe bom senso às palavras.
36. Pois bem! Que Jó seja provado até o fim, já que suas respostas são as de um ímpio.
37. Leva ao máximo o seu pecado (bate as mãos no meio de nós), multiplicando seus discursos contra Deus.

 
Capítulo 35

1. Eliú retomou ainda a palavra nestes termos:
2. Imaginas ter razão em pretender justificar-te contra Deus?
3. Quando dizes: Para que me serve isto, qual é minha vantagem em não pecar?
4. Pois vou responder-te, a ti e a teus amigos.
5. Considera os céus e olha: vê como são mais altas do que tu as nuvens!
6. Se pecas, que danos lhe causas? Se multiplicas tuas faltas, que mal lhe fazes?
7. Se és justo, que vantagem lhe dás, ou que recebe ele de tua mão?
8. Tua maldade só prejudica o homem, teu semelhante; tua justiça só diz respeito a um humano.
9. Sob o peso da opressão, geme-se, clama-se sob a mão dos poderosos.
10. Mas ninguém diz: Onde está Deus, meu criador, que inspira cantos de louvor em plena noite,
11. que nos instrui mais do que os animais selvagens e nos torna mais sábios do que as aves do céu?
12. Clamam, mas não são ouvidos, por causa do orgulho dos maus.
13. Deus não ouve as palavras frívolas, o Todo-poderoso não lhes presta atenção.
14. Quando dizes que ele não se ocupa de ti, que tua causa está diante dele, que esperas sua decisão,
15. que sua cólera não castiga e que ele ignora o pecado,
16. Jó abre a boca para palavras ociosas e derrama-se em discursos impertinentes.

 
Capítulo 36

1. Depois Eliú prosseguiu nestes termos:
2. Espera um pouco e te instruirei, tenho ainda palavras em defesa de Deus;
3. irei buscar longe a minha ciência, e justificarei meu Criador.
4. Minhas palavras não são certamente mentirosas, estás tratando com um homem de ciência sólida.
5. Deus é poderoso, mas não é arrogante, é poderoso por sua ciência:
6. não deixa viver o mau, faz justiça aos aflitos,
7. não afasta os olhos dos justos; e os faz assentar com os reis no trono, numa glória eterna.
8. Se vierem a cair presos, ou se forem atados com os laços da infelicidade,
9. ele lhes faz reconhecer as suas obras, e as faltas que cometeram por orgulho;
10. e abre-lhes os ouvidos para corrigi-los, e diz-lhes que renunciem à iniqüidade.
11. Se escutam e obedecem, terminam seus dias na felicidade, e seus anos na delícia;
12. se não, morrem de um golpe, expiram por falta de sabedoria.
13. Os corações ímpios são entregues à cólera; não clamam a Deus quando ele os aprisiona,
14. morrem em plena mocidade, a vida deles passa como a dos efeminados.
15. Mas Deus salvará o pobre pela sua miséria, e o instrui pelo sofrimento.
16. A ti também retirará das fauces da angústia, numa larga liberdade, e no repouso de uma mesa bem guarnecida.
17. E tu te comportas como um malvado, com o risco de incorrer em sentença e penalidade.
18. Toma cuidado para que a cólera não te inflija um castigo, e que o tamanho do resgate não te perca.
19. Levará ele em conta teu grito na aflição, e todos os esforços do vigor?
20. Não suspires pela noite, para que os povos voltem para seus lugares.
21. Guarda-te de declinar para a iniqüidade, e de preferir a injustiça ao sofrimento.
22. Vê, Deus é sublime em seu poder. Que senhor lhe é comparável?
23. Quem lhe fixou seu caminho? Quem pode dizer-lhe: Fizeste mal?
24. Antes pensa em glorificar sua obra, que os humanos celebram em seus cantos.
25. Todos os homens a contemplam; o mortal a considera de longe.
26. Deus é grande demais para que o possamos conhecer; o número de seus anos é incalculável.
27. Atrai as gotinhas de água para transformá-las em chuva no nevoeiro,
28. as nuvens as espalham, e as destilam sobre a multidão dos homens.
29. Quem pode compreender como se estendem as nuvens, e o estrépito de sua tenda?
30. Espalha em volta dele a sua luz, e cobre os cimos das montanhas.
31. É por esse meio que nutre os povos, e fornece-lhes abundância de alimentos.
32. Nas suas mãos estende o raio, fixa-lhe o alvo a atingir;
33. seu estrondo o anuncia, o rebanho também anuncia aquele que se aproxima.

 
Capítulo 37

1. Por isto se espantou o meu coração, e pulou fora de seu lugar.
2. Escutai, escutai o brado de sua voz, o estrondo que lhe sai da boca!
3. Enche dele toda a extensão dos céus, e seus relâmpagos vão atingir os confins da terra.
4. Logo depois ruge uma voz, troveja com sua voz majestosa. Não retém mais seus raios quando se faz ouvir.
5. Deus troveja com uma voz maravilhosa, faz prodígios que nos são incompreensíveis.
6. Diz à neve: Cai sobre a terra, às pancadas de chuva: Sede fortes.
7. Ele põe selos sobre as mãos dos homens, a fim de que todos os mortais reconheçam seu criador.
8. A fera também entra em seu covil, e encolhe-se em sua toca.
9. O furacão sai da câmara do sul, e do norte chega o frio.
10. Ao sopro de Deus forma-se a neve, e a superfície das águas se endurece.
11. Carrega as nuvens de vapor, as nuvens lançam por toda parte seus relâmpagos
12. que vão em todos os sentidos sob sua direção, para realizar tudo quanto ele ordena na face da terra.
13. Ora é o castigo que eles trazem, ora seus benefícios.
14. Escuta isto, Jó, pára e considera as maravilhas de Deus.
15. Sabes como ele as opera, e faz brilhar o relâmpago de sua nuvem?
16. Sabes a lei do equilíbrio das nuvens, e o milagre daquele cuja ciência é infinita?
17. Por que são quentes as tuas vestes, quando repousa a terra ao sopro do meio-dia?
18. Saberás, como ele, estender as nuvens, e torná-las sólidas como um espelho de metal fundido?
19. Dá-me a conhecer o que lhe diremos. Mergulhados em nossas trevas, só sabemos objetar.
20. Quem lhe repetirá o que digo? Acaso pedirá um homem a sua própria perdição?
21. Agora já não se vê a luz, o sol brilha através das nuvens; passe um golpe de vento, e ele as varrerá;
22. a luz vem do norte. Deus está envolto numa majestade temível;
23. não podemos atingir o Todo-poderoso: eminente em força, em eqüidade, em justiça, não tem a dar contas a ninguém.
24. Que os homens, pois, o reverenciem! Ele não olha aqueles que se julgam sábios.

 
Capítulo 38

1. Então, do seio da tempestade, o Senhor deu a Jó esta resposta:
2. Quem é aquele que obscurece assim a Providência com discursos sem inteligência?
3. Cinge os teus rins como um homem; vou interrogar-te e tu me responderás.
4. Onde estavas quando lancei os fundamentos da terra? Fala, se estiveres informado disso.
5. Quem lhe tomou as medidas, já que o sabes? Quem sobre ela estendeu o cordel?
6. Sobre que repousam suas bases? Quem colocou nela a pedra de ângulo,
7. sob os alegres concertos dos astros da manhã, sob as aclamações de todos os filhos de Deus?
8. Quem fechou com portas o mar, quando brotou do seio maternal,
9. quando lhe dei as nuvens por vestimenta, e o enfaixava com névoas tenebrosas;
10. quando lhe tracei limites, e lhe pus portas e ferrolhos,
11. dizendo: Chegarás até aqui, não irás mais longe; aqui se deterá o orgulho de tuas ondas?
12. Algum dia na vida deste ordens à manhã? Indicaste à aurora o seu lugar,
13. para que ela alcançasse as extremidades da terra, e dela sacudisse os maus,
14. para que ela tome forma como a argila de sinete e tome cor como um vestido,
15. para que seja recusada aos maus a sua luz, e sejam quebrados seus braços já erguidos?
16. Foste até as fontes do mar? Passaste até o fundo do abismo?
17. Apareceram-te, porventura, as portas da morte? Viste, por acaso, as portas da tenebrosa morada?
18. Abraçaste com o olhar a extensão da terra? Fala, se sabes tudo isso!
19. Qual é o caminho da morada luminosa? Onde é a residência das trevas?
20. Poderias alcançá-la em seu domínio, e reconhecer as veredas de sua morada?
21. Deverias sabê-lo, pois já tinhas nascido: são tão numerosos os teus dias!
22. Penetraste nos depósitos da neve? Visitaste os armazéns dos granizos,
23. que reservo para os tempos de tormento, para os dias de luta e de batalha?
24. Por que caminho se espalha o nevoeiro, e o vento do oriente se expande pela terra?
25. Quem abre um canal para os aguaceiros, e uma rota para o relâmpago,
26. para fazer chover sobre uma terra desabitada, sobre um deserto sem seres humanos,
27. para regar regiões vastas e desoladas, para nelas fazer germinar a erva verdejante?
28. Terá a chuva um pai? Quem gera as gotas do orvalho?
29. De que seio sai o gelo, quem engendra a geada do céu,
30. quando endurecem as águas como a pedra, e se torna sólida a superfície do abismo?
31. És tu que atas os laços das Plêiades, ou que desatas as correntes do Órion?
32. És tu que fazes sair a seu tempo as constelações, e conduzes a grande Ursa com seus filhinhos?
33. Conheces as leis do céu, regulas sua influência sobre a terra?
34. Levantarás a tua voz até as nuvens, e o dilúvio te obedecerá?
35. Tua ordem fará os relâmpagos surgirem, e dir-te-ão eles: Eis-nos aqui?
36. Quem pôs a sabedoria nas nuvens, e a inteligência no meteoro?
37. Quem pode enumerar as nuvens, e inclinar as urnas do céu,
38. para que a poeira se mova em massa compacta, e os seus torrões se aglomerem?
39. És tu que caças a presa para a leoa, e que satisfazes a fome dos leõezinhos
40. quando estão deitados em seus covis, ou quando se emboscam nas covas?
41. Quem prepara ao corvo o seu sustento, quando seus filhinhos gritam para Deus, quando andam de um lado para outro sem comida?

 
Capítulo 39

1. Conheces o tempo em que as cabras monteses dão à luz nos rochedos? Observaste o parto das corças?
2. Contaste os meses de sua gravidez, e sabes o tempo de seu parto?
3. Elas se abaixam e dão cria, e se livram de suas dores.
4. Seus filhos tornam-se fortes e crescem nos campos, apartam-se delas e não voltam mais.
5. Quem pôs o asno em liberdade, quem rompeu os laços do burro selvagem?
6. Dei-lhe o deserto por morada, a planície salgada como lugar de habitação;
7. ele ri-se do tumulto da cidade, não escuta os gritos do cocheiro,
8. explora as montanhas, sua pastagem, e nela anda buscando tudo o que está verde.
9. Quererá servir-te o boi selvagem, ou quererá passar a noite em teu estábulo?
10. Porás uma corda em seu pescoço, ou fenderá ele atrás de ti os teus sulcos?
11. Fiarás nele porque sua força é grande, e lhe deixarás o cuidado de teu trabalho?
12. Contarás com ele para que te traga para a casa o que semeaste, e que te encha a tua eira?
13. A asa da avestruz bate alegremente, não tem asas nem penas bondosas…
14. Ela abandona os seus ovos na terra, e os deixa aquecer no solo,
15. não pensando que um pé poderá pisá-los e que animais selvagens poderão quebrá-los.
16. É cruel com seus filhinhos, como se não fossem seus; não se incomoda de ter sofrido em vão,
17. pois Deus lhe negou a sabedoria e não lhe abriu a inteligência.
18. Mas quando alça o vôo, ri-se do cavalo e de seu cavaleiro.
19. És tu que dás o vigor ao cavalo, e foste tu que enfeitaste seu pescoço com uma crina ondulante?
20. Que o fazes saltar como um gafanhoto, relinchando terrivelmente?
21. Orgulhoso de sua força, escava a terra com a pata, atira-se à frente das armas.
22. Ri-se do medo, nada o assusta, não recua diante da espada.
23. Sobre ele ressoa a aljava, o ferro brilhante da lança e o dardo;
24. tremendo de impaciência, devora o espaço, o som da trombeta não o deixa no lugar.
25. Ao sinal do clarim, diz: Vamos! De longe fareja a batalha, a voz troante dos chefes e o alarido dos guerreiros.
26. É graças à tua sabedoria que o falcão alça o vôo, e desdobra as suas asas em direção ao meio-dia?
27. É por tua ordem que a águia levanta o vôo, e faz seu ninho nas alturas?
28. Ela habita o rochedo, e nele passa a noite, sobre a ponta rochosa e o cimo escarpado.
29. De lá espia sua presa, seus olhos penetram as distâncias.
30. Seus filhinhos se alimentam de sangue; onde quer que haja cadáveres, ali está ela.
31. O Senhor, dirigindo-se a Jó, lhe disse:
32. Aquele que disputa com o Todo-poderoso apresente suas críticas! Aquele que discute com Deus responda!
33. Jó respondeu ao Senhor nestes termos:
34. Leviano como sou, que posso responder-te? Ponho minha mão na boca;
35. falei uma vez, não repetirei, duas vezes… nada acrescentarei.

 
Capítulo 40

1. Então, do seio da tempestade, o Senhor deu a Jó esta resposta:
2. Cinge os teus rins como um homem; vou interrogar-te, tu me responderás.
3. Queres reduzir a nada a minha justiça, e condenar-me antes de ter razão?
4. Tens um braço semelhante ao de Deus, e uma voz troante como a dele?
5. Orna-te então de grandeza e majestade, reveste-te de esplendor e glória!
6. Espalha as ondas de tua cólera. Com um olhar, abaixa todo o orgulho;
7. com um olhar, humilha o soberbo, esmaga os maus no mesmo lugar em que eles estão.
8. Mete-os todos juntos debaixo da terra, amarra-lhes os rostos num lugar escondido.
9. Então eu também te louvarei por triunfares pela força de tua mão.
10. Vê Beemot, que criei contigo, nutre-se de erva como o boi.
11. Sua força reside nos rins, e seu vigor nos músculos do ventre.
12. Levanta sua cauda como (um ramo) de cedro, os nervos de suas coxas são entrelaçados.
13. Seus ossos são tubos de bronze, sua estrutura é feita de barras de ferro.
14. É obra-prima de Deus, foi criado como o soberano de seus companheiros.
15. As montanhas fornecem-lhe a pastagem, os animais dos campos divertem-se em volta dele.
16. Deita-se sob os lótus, no segredo dos caniços e dos brejos;
17. os lótus cobrem-no com sua sombra, os salgueiros da margem o cercam.
18. Quando o rio transborda, ele não se assusta; mesmo que o Jordão levantasse até a sua boca, ele ficaria tranqüilo.
19. Quem o seguraria pela frente, e lhe furaria as ventas para nelas passar cordas?
20. Poderás tu fisgar Leviatã com um anzol, e amarrar-lhe a língua com uma corda?
21. Serás capaz de passar um junco em suas ventas, ou de furar-lhe a mandíbula com um gancho?
22. Ele te fará muitos rogos, e te dirigirá palavras ternas?
23. Concluirá ele um pacto contigo, a fim de que faças dele sempre teu escravo?
24. Brincarás com ele como com um pássaro, ou atá-lo-ás para divertir teus filhos?
25. Será ele vendido por uma sociedade de pescadores, e dividido entre os negociantes?
26. Crivar-lhe-ás a pele de dardos, fincar-lhe-ás um arpão na cabeça?
27. Tenta pôr a mão nele, sempre te lembrarás disso, e não recomeçarás.
28. Tua esperança será lograda, bastaria seu aspecto para te arrasar.

 
Capítulo 41

1. Ninguém é bastante ousado para provocá-lo; quem lhe resistiria face a face?
2. Quem pôde afrontá-lo e sair com vida, debaixo de toda a extensão do céu?
3. Não quero calar (a glória) de seus membros, direi seu vigor incomparável.
4. Quem levantou a dianteira de sua couraça? Quem penetrou na dupla linha de sua dentadura?
5. Quem lhe abriu os dois batentes da goela, em que seus dentes fazem reinar o terror?
6. Sua costa é um aglomerado de escudos, cujas juntas são estreitamente ligadas;
7. uma toca a outra, o ar não passa por entre elas;
8. uma adere tão bem à outra, que são encaixadas sem se poderem desunir.
9. Seu espirro faz jorrar a luz, seus olhos são como as pálpebras da aurora.
10. De sua goela saem chamas, escapam centelhas ardentes.
11. De suas ventas sai uma fumaça, como de uma marmita que ferve entre chamas.
12. Seu hálito queima como brasa, a chama jorra de sua goela.
13. Em seu pescoço reside a força, diante dele salta o espanto.
14. As barbelas de sua carne são aderentes, esticadas sobre ele, inabaláveis.
15. Duro como a pedra é seu coração, sólido como a mó fixa de um moinho.
16. Quando se levanta, tremem as ondas, as vagas do mar se afastam.
17. Se uma espada o toca, ela não resiste, nem a lança, nem a azagaia, nem o dardo.
18. O ferro para ele é palha; o bronze, pau podre.
19. A flecha não o faz fugir, as pedras da funda são palhinhas para ele.
20. O martelo lhe parece um fiapo de palha; ri-se do assobio da azagaia.
21. Seu ventre é coberto de cacos de vidro pontudos, é uma grade de ferro que se estende sobre a lama.
22. Faz ferver o abismo como uma panela, faz do mar um queimador de perfumes.
23. Deixa atrás de si um sulco brilhante, como se o abismo tivesse cabelos brancos.
24. Não há nada igual a ele na terra, pois foi feito para não ter medo de nada;
25. afronta tudo o que é elevado, é o rei dos mais orgulhosos animais.

 
Capítulo 42

1. Jó respondeu ao Senhor nestes termos:
2. Sei que podes tudo, que nada te é muito difícil.
3. Quem é que obscurece assim a Providência com discursos ininteligíveis? É por isso que falei, sem compreendê-las, maravilhas que me superam e que não conheço.
4. Escuta-me, deixa-me falar: vou interrogar-te, tu me responderás.
5. Meus ouvidos tinham escutado falar de ti, mas agora meus olhos te viram.
6. É por isso que me retrato, e arrependo-me no pó e na cinza.
7. Depois que o Senhor acabou de dirigir essas palavras a Jó, disse a Elifaz de Temã: Estou irritado contra ti e contra teus amigos, porque não falastes corretamente de mim, como Jó, meu servo.
8. Procurai, pois, sete touros e sete carneiros, e vinde ter com meu servo Jó. Oferecei por vós este holocausto, e meu servo Jó intercederá por vós. É em consideração a ele que não vos infligirei ignomínias por não terdes falado bem de mim, como Jó, meu servo.
9. Elifaz de Temã, Baldad de Sué e Sofar de Naamã foram-se então para fazer como o Senhor lhes tinha ordenado, e o Senhor tomou em consideração as orações de Jó.
10. Enquanto Jó rezava por seus amigos, o Senhor o restabeleceu de novo em seu primeiro estado e lhe tornou em dobro tudo quanto tinha possuído.
11. Todos os seus irmãos, todas as suas irmãs, todos os seus amigos de antigamente vieram visitá-lo e sentaram-se com ele à mesa em sua casa. Tiveram muito dó dele e deram-lhe condolências a respeito de todas as infelicidades que o Senhor lhe enviara; e cada um deles ofereceu-lhe uma peça de prata e um anel de ouro.
12. O Senhor abençoou os últimos tempos de Jó mais do que os primeiros, e teve Jó quatorze mil ovelhas, seis mil camelos, mil juntas de bois e mil jumentas.
13. Teve também sete filhos e três filhas:
14. chamou a primeira Jêmina, a segunda Quetsia e a terceira Queren-Hapuc.
15. Em toda a terra não poderiam ser encontradas mulheres mais belas do que as filhas de Jó. E seu pai lhes destinou uma parte da herança entre seus irmãos.
16. Depois disso, Jó viveu ainda cento e quarenta anos, e conheceu até a quarta geração dos filhos de seus filhos.
17. Depois, velho e cheio de dias, morreu.

 

Livro dos Salmos

Livro dos Salmos

 Salmo 1

1. Feliz o homem que não procede conforme o conselho dos ímpios, não trilha o caminho dos pecadores, nem se assenta entre os escarnecedores.
2. Feliz aquele que se compraz no serviço do Senhor e medita sua lei dia e noite.
3. Ele é como a árvore plantada na margem das águas correntes: dá fruto na época própria, sua folhagem não murchará jamais. Tudo o que empreende, prospera.
4. Os ímpios não são assim! Mas são como a palha que o vento leva.
5. Por isso não suportarão o juízo, nem permanecerão os pecadores na assembléia dos justos.
6. Porque o Senhor vela pelo caminho dos justos, ao passo que o dos ímpios leva à perdição.

 
Salmo 2

1. Por que tumultuam as nações? Por que tramam os povos vãs conspirações?
2. Erguem-se, juntos, os reis da terra, e os príncipes se unem para conspirar contra o Senhor e contra seu Cristo.
3. Quebremos seu jugo, disseram eles, e sacudamos para longe de nós as suas cadeias!
4. Aquele, porém, que mora nos céus, se ri, o Senhor os reduz ao ridículo.
5. Dirigindo-se a eles em cólera, ele os aterra com o seu furor:
6. Sou eu, diz, quem me sagrei um rei em Sião, minha montanha santa.
7. Vou publicar o decreto do Senhor. Disse-me o Senhor: Tu és meu filho, eu hoje te gerei.
8. Pede-me; dar-te-ei por herança todas as nações; tu possuirás os confins do mundo.
9. Tu as governarás com cetro de ferro, tu as pulverizarás como um vaso de argila.
10. Agora, ó reis, compreendei isto; instruí-vos, ó juízes da terra.
11. Servi ao Senhor com respeito e exultai em sua presença; prestai-lhe homenagem com tremor, para que não se irrite e não pereçais quando, em breve, se acender sua cólera. Felizes, entretanto, todos os que nele confiam.

 
Salmo 3

1. Salmo de Davi, quando fugia de Absalão, seu filho.
2. Senhor, como são numerosos os meus perseguidores! É uma turba que se dirige contra mim.
3. Uma multidão inteira grita a meu respeito: Não, não há mais salvação para ele em seu Deus!
4. Mas vós sois, Senhor, para mim um escudo; vós sois minha glória, vós me levantais a cabeça.
5. Apenas elevei a voz para o Senhor, ele me responde de sua montanha santa.
6. Eu, que me tinha deitado e adormecido, levanto-me, porque o Senhor me sustenta.
7. Nada temo diante desta multidão de povo, que de todos os lados se dirige contra mim.
8. Levantai-vos, Senhor! Salvai-me, ó meu Deus! Feris no rosto todos os que me perseguem, quebrais os dentes dos pecadores.
9. Sim, Senhor, a salvação vem de vós. Desça a vossa bênção sobre vosso povo.

 
Salmo 4

1. Ao mestre de canto. Com instrumentos de corda. Salmo de Davi.
2. Quando vos invoco, respondei-me, ó Deus de minha justiça, vós que na hora da angústia me reconfortastes. Tende piedade de mim e ouvi minha oração.
3. Ó poderosos, até quando tereis o coração endurecido, no amor das vaidades e na busca da mentira?
4. O Senhor escolheu como eleito uma pessoa admirável, o Senhor me ouviu quando o invoquei.
5. Tremei, mas sem pecar; refleti em vossos corações, quando estiverdes em vossos leitos, e calai.
6. Oferecei vossos sacrifícios com sinceridade e esperai no Senhor.
7. Dizem muitos: Quem nos fará ver a felicidade? Fazei brilhar sobre nós, Senhor, a luz de vossa face.
8. Pusestes em meu coração mais alegria do que quando abundam o trigo e o vinho.
9. Apenas me deito, logo adormeço em paz, porque a segurança de meu repouso vem de vós só, Senhor.

 
Salmo 5

1. Ao mestre de canto. Com flautas. Salmo de Davi.
2. Senhor, ouvi minhas palavras, escutai meus gemidos.
3. Atendei à voz de minha prece, ó meu rei, ó meu Deus.
4. É a vós que eu invoco, Senhor, desde a manhã; escutai a minha voz, porque, desde o raiar do dia, vos apresento minha súplica e espero.
5. Pois vós não sois um Deus a quem agrade o mal, o mau não poderia morar junto de vós;
6. os ímpios não podem resistir ao vosso olhar. Detestais a todos os que praticam o mal,
7. fazeis perecer aqueles que mentem, o homem cruel e doloso vos é abominável, ó Senhor.
8. Mas eu, graças à vossa grande bondade, entrarei em vossa casa. Prostrar-me-ei em vosso santuário, com o respeito que vos é devido, Senhor.
9. Conduzi-me pelas sendas da justiça, por causa de meus inimigos; aplainai, para mim, vosso caminho.
10. Porque em seus lábios não há sinceridade, seus corações só urdem projetos ardilosos. A garganta deles é como um sepulcro escancarado, com a língua distribuem lisonjas.
11. Deixai-os, Senhor, prender-se nos seus erros, que suas maquinações malogrem! Por causa do número de seus crimes, rejeitai-os, pois é contra vós que se revoltaram.
12. Regozijam-se, pelo contrário, os que em vós confiam, permanecem para sempre na alegria. Protegei-os e triunfarão em vós os que amam vosso nome.
13. Pois, vós, Senhor, abençoais o justo; vossa benevolência, como um escudo, o cobrirá.

 
Salmo 6

1. Ao mestre de canto. Com instrumentos de corda. Em oitava. Salmo de Davi.
2. Senhor, em vossa cólera não me repreendais, em vosso furor não me castigueis.
3. Tende piedade de mim, Senhor, porque desfaleço; sarai-me, pois sinto abalados os meus ossos.
4. Minha alma está muito perturbada; vós, porém, Senhor, até quando?…
5. Voltai, Senhor, livrai minha alma; salvai-me, pela vossa bondade.
6. Porque no seio da morte não há quem de vós se lembre; quem vos glorificará na habitação dos mortos?
7. Eu me esgoto gemendo; todas as noites banho de pranto minha cama, com lágrimas inundo o meu leito.
8. De amargura meus olhos se turvam, esmorecem por causa dos que me oprimem.
9. Apartai-vos de mim, vós todos que praticais o mal, porque o Senhor atendeu às minhas lágrimas.
10. O Senhor escutou a minha oração, o Senhor acolheu a minha súplica.
11. Que todos os meus inimigos sejam envergonhados e aterrados; recuem imediatamente, cobertos de confusão!

 
Salmo 7

1. Lamentação de Davi, que cantou em honra do Senhor, por causa de Cus, o benjaminita.
2. Senhor, ó meu Deus, é em vós que eu busco meu refúgio; salvai-me de todos os que me perseguem e livrai-me,
3. para que o inimigo não me arrebate como um leão, e me dilacere sem que ninguém me livre.
4. Senhor, ó meu Deus, se acaso fiz isso, se minhas mãos cometeram a iniqüidade,
5. se fiz mal ao homem pacífico, se oprimi os que me perseguiam sem motivo,
6. que o inimigo me persiga e me apanhe, que ele me pise vivo ao solo e atire a minha honra ao pó.
7. Levantai-vos, Senhor, na vossa cólera; erguei-vos contra o furor dos que me oprimem, erguei-vos para me defender numa causa que tomastes a vós.
8. Que a assembléia das nações vos circunde, presidi-a de um trono elevado.
9. O Senhor é o juiz dos povos. Fazei-me justiça, Senhor, segundo o meu justo direito, conforme minha integridade.
10. Ponde fim à malícia dos ímpios e sustentai o direito, ó Deus de justiça, que sondais os corações e os rins.
11. O meu escudo é Deus, ele salva os que têm o coração reto.
12. Deus é um juiz íntegro, um Deus perpetuamente vingador.
13. Se eles não se corrigem, ele afiará a espada, entesará o arco e visará.
14. Contra os ímpios apresentará dardos mortíferos, lançará flechas inflamadas.
15. Eis que o mau está em dores de parto, concebe a malícia e dá à luz a mentira.
16. Abre um fosso profundo, mas cai no abismo por ele mesmo cavado.
17. Sua malícia recairá em sua própria cabeça, e sua violência se voltará contra a sua fronte.
18. Eu, porém, glorificarei o Senhor por sua justiça, e salmodiarei ao nome do Senhor, o Altíssimo.

 
Salmo 8

1. Ao mestre de canto. Com a gitiena. Salmo de Davi.
2. Ó Senhor, nosso Deus, como é glorioso vosso nome em toda a terra! Vossa majestade se estende, triunfante, por cima de todos os céus.
3. Da boca das crianças e dos pequeninos sai um louvor que confunde vossos adversários, e reduz ao silêncio vossos inimigos.
4. Quando contemplo o firmamento, obra de vossos dedos, a lua e as estrelas que lá fixastes:
5. Que é o homem, digo-me então, para pensardes nele? Que são os filhos de Adão, para que vos ocupeis com eles?
6. Entretanto, vós o fizestes quase igual aos anjos, de glória e honra o coroastes.
7. Destes-lhe poder sobre as obras de vossas mãos, vós lhe submetestes todo o universo.
8. Rebanhos e gados, e até os animais bravios,
9. pássaros do céu e peixes do mar, tudo o que se move nas águas do oceano.
10. Ó Senhor, nosso Deus, como é glorioso vosso nome em toda a terra!

 
Salmo 9

1. Ao mestre de canto. Segundo a melodia A morte para o filho. Salmo de Davi.
2. Eu vos louvarei, Senhor, de todo o coração, todas as vossas maravilhas narrarei.
3. Em vós eu estremeço de alegria, cantarei vosso nome, ó Altíssimo!
4. Porque meus inimigos recuaram, fraquejaram, pereceram ante a vossa face.
5. Pois tomastes a vós meu direito e minha causa, assentastes, ó justo Juiz, em vosso tribunal.
6. Com efeito, perseguistes as nações, destruístes o ímpio; apagastes, para sempre, o seu nome.
7. Meus inimigos pereceram, consumou-se sua ruína eterna; demolistes suas cidades, sua própria lembrança se acabou.
8. O Senhor, porém, domina eternamente; num trono sólido, ele pronuncia seus julgamentos.
9. Ele mesmo julgará o universo com justiça, com eqüidade pronunciará sentença sobre os povos.
10. O Senhor torna-se refúgio para o oprimido, uma defesa oportuna para os tempos de perigo.
11. Aqueles que conheceram vosso nome confiarão em vós, porque, Senhor, jamais abandonais quem vos procura.
12. Salmodiai ao Senhor, que habita em Sião; proclamai seus altos feitos entre os povos.
13. Porque, vingador do sangue derramado, ele se lembra deles e não esqueceu o clamor dos infelizes.
14. Tende piedade de mim, Senhor, vede a miséria a que me reduziram os inimigos; arrancai-me das portas da morte,
15. para que nas portas da filha de Sião eu publique vossos louvores, e me regozije de vosso auxílio.
16. Caíram as nações no fosso que cavaram; prenderam-se seus pés na armadilha que armaram.
17. O Senhor se manifestou e fez justiça, capturando o ímpio em suas próprias redes.
18. Que os pecadores caiam na região dos mortos, todos esses povos que olvidaram a Deus.
19. O pobre, porém, não ficará no eterno esquecimento; nem a esperança dos aflitos será frustrada para sempre.
20. Levantai-vos, Senhor! Não seja o homem quem tenha a última palavra! Que diante de vós sejam julgadas as nações.
21. Enchei-as de pavor, Senhor, para que saibam que não passam de simples homens.
22. (l) Senhor, por que ficais tão longe? Por que vos ocultais nas horas de angústia?
23. (2) Enquanto o ímpio se enche de orgulho, é vexado o infeliz com as tribulações que aquele tramou.
24. (3) O pecador se gloria até de sua cupidez, o cobiçoso blasfema e despreza a Deus.
25. (4) Em sua arrogância, o ímpio diz: Não há castigo, Deus não existe. É tudo e só o que ele pensa.
26. (5) Em todos os tempos, próspero é o curso de sua vida; vossos juízos estão acima de seu alcance; quanto a seus adversários, os despreza a todos.
27. (6) Diz no coração: Nada me abalará, jamais terei má sorte.
28. (7) De maledicência, astúcia e dolo sua boca está cheia; em sua língua só existem palavras injuriosas e ofensivas.
29. (8) Põe-se de emboscada na vizinhança dos povoados, mata o inocente em lugares ocultos; seus olhos vigiam o infeliz.
30. (9) Como um leão no covil, espreita, no escuro; arma ciladas para surpreender o infeliz, colhe-o, na sua rede, e o arrebata.
31. (10) Curva-se, agacha-se no chão, e os infortunados caem em suas garras.
32. (11) Depois diz em seu coração: Deus depressa se esquecerá, ele voltará a cabeça, nunca vê nada.
33. (12) Levantai-vos, Senhor! Estendei a mão, e não vos esqueçais dos pobres.
34. (13) Por que razão o ímpio despreza a Deus e diz em seu coração Não haverá castigo?
35. (14) Entretanto, vós vedes tudo: observais os que penam e sofrem, a fim de tomar a causa deles em vossas mãos. É a vós que se abandona o infortunado, sois vós o amparo do órfão.
36. (15) Esmagai, pois, o braço do pecador perverso; persegui sua malícia, para que não subsista.
37. (16) O Senhor é rei eterno, as nações pagãs desaparecerão de seu domínio.
38. (17) Senhor, ouvistes os desejos dos humildes, confortastes-lhes o coração e os atendestes.
39. (18) Para que justiça seja feita ao órfão e ao oprimido, nem mais incuta terror o homem tirado do pó.

 
Salmo 10

1. Ao mestre de canto. De Davi. É junto do Senhor que procuro refúgio. Por que dizer-me: Foge, velozmente, para a montanha, como um pássaro;
2. eis que os maus entesam seu arco, ajustam a flecha na corda, para ferir, de noite, os que têm o coração reto.
3. Quando os próprios fundamentos se abalam, que pode fazer ainda o justo?
4. Entretanto, o Senhor habita em seu templo, o Senhor tem seu trono no céu. Sua vista está atenta, seus olhares observam os filhos dos homens.
5. O Senhor sonda o justo como o ímpio, mas aquele que ama a injustiça, ele o aborrece.
6. Sobre os ímpios ele fará cair uma chuva de fogo e de enxofre; um vento abrasador de procela será o seu quinhão.
7. Porque o Senhor é justo, ele ama a justiça; e os homens retos contemplarão a sua face.

 
Salmo 11

1. Ao mestre de canto. Uma oitava abaixo. Salmo de Davi.
2. Salvai-nos, Senhor, pois desaparecem os homens piedosos, e a lealdade se extingue entre os homens.
3. Uns não têm para com os outros senão palavras mentirosas; adulação na boca, duplicidade no coração.
4. Que o Senhor extirpe os lábios hipócritas e a língua insolente.
5. Aqueles que dizem: Dominaremos pela nossa língua, nossos lábios trabalham para nós, quem nos será senhor?
6. Responde, porém, o Senhor: Por causa da aflição dos humildes e dos gemidos dos pobres, levantar-me-ei para lhes dar a salvação que desejam.
7. As palavras do Senhor são palavras sinceras, puras como a prata acrisolada, isenta de ganga, sete vezes depurada.
8. Vós, Senhor, haveis de nos guardar, defender-nos-eis sempre dessa raça maléfica,
9. porque os ímpios andam de todos os lados, enquanto a vileza se ergue entre os homens.

 
Salmo 12

1. Ao mestre de canto. Salmo de Davi.
2. Até quando, Senhor, de todo vos esquecereis de mim? Por quanto tempo ainda desviareis de mim os vossos olhares?
3. Até quando aninharei a angústia na minha alma, e, dia após dia, a tristeza no coração?
4. Até quando se levantará o meu inimigo contra mim? Olhai! Ouvi-me, Senhor, ó meu Deus!
5. Iluminai meus olhos com vossa luz, para eu não adormecer na morte, para que meu inimigo não venha a dizer: Venci-o;
6. e meus adversários não triunfem no momento de minha queda, eu que confiei em vossa misericórdia. Antes possa meu coração regozijar-se em vosso socorro! Então cantarei ao Senhor pelos benefícios que me concedeu.

 
Salmo 13

1. Ao mestre de canto. De Davi. Diz o insensato em seu coração: Não há Deus. Corromperam-se os homens, sua conduta é abominável, não há um só que faça o bem.
2. O Senhor, do alto do céu, observa os filhos dos homens, para ver se, acaso, existe alguém sensato que busque a Deus.
3. Mas todos eles se extraviaram e se perverteram; não há mais ninguém que faça o bem, nem um, nem mesmo um só.
4. Não se emendarão esses obreiros do mal, que devoram meu povo como quem come pão? Eles que não invocam o Senhor?
5. Mas irão tremer de pavor, porque Deus está com a raça dos justos;
6. pretendeis frustrar os planos do humilde, mas o Senhor é seu refúgio.
7. Ah, que venha de Sião a salvação de Israel! Quando o Senhor tiver mudado a sorte de seu povo, Jacó exultará e Israel se alegrará.

 
Salmo 14

1. Salmo de Davi. Senhor, quem há de morar em vosso tabernáculo? Quem habitará em vossa montanha santa?
2. O que vive na inocência e pratica a justiça, o que pensa o que é reto no seu coração,
3. cuja língua não calunia; o que não faz mal a seu próximo, e não ultraja seu semelhante.
4. O que tem por desprezível o malvado, mas sabe honrar os que temem a Deus; o que não retrata juramento mesmo com dano seu,
5. não empresta dinheiro com usura, nem recebe presente para condenar o inocente. Aquele que assim proceder jamais será abalado.

 
Salmo 15

1. Poema de Davi. Guardai-me, ó Deus, porque é em vós que procuro refúgio.
2. Digo a Deus: Sois o meu Senhor, fora de vós não há felicidade para mim.
3. Quão admirável tornou Deus o meu afeto para com os santos que estão em sua terra.
4. Numerosos são os sofrimentos que suportam aqueles que se entregam a estranhos deuses. Não hei de oferecer suas libações de sangue e meus lábios jamais pronunciarão o nome de seus ídolos.
5. Senhor, vós sois a minha parte de herança e meu cálice; vós tendes nas mãos o meu destino.
6. O cordel mediu para mim um lote aprazível, muito me agrada a minha herança.
7. Bendigo o Senhor porque me deu conselho, porque mesmo de noite o coração me exorta.
8. Ponho sempre o Senhor diante dos olhos, pois ele está à minha direita; não vacilarei.
9. Por isso meu coração se alegra e minha alma exulta, até meu corpo descansará seguro,
10. porque vós não abandonareis minha alma na habitação dos mortos, nem permitireis que vosso Santo conheça a corrupção.
11. Vós me ensinareis o caminho da vida, há abundância de alegria junto de vós, e delícias eternas à vossa direita.

 
Salmo 16

1. Súplica de Davi. Ouvi, Senhor, uma causa justa! Atendei meu clamor! Escutai minha prece, de lábios sem malícia.
2. Venha de vós o meu julgamento, e vossos olhos reconheçam que sou íntegro.
3. Podeis sondar meu coração, visitá-lo à noite, prová-lo pelo fogo, não encontrareis iniqüidade em mim.
4. Minha boca não pecou, como costumam os homens; conforme as palavras dos vossos lábios, segui os caminhos da lei.
5. Meus passos se mantiveram firmes nas vossas sendas, meus pés não titubearam.
6. Eu vos invoco, pois me atendereis, Senhor; inclinai vossos ouvidos para mim, escutai minha voz.
7. Mostrai a vossa admirável misericórdia, vós que salvais dos adversários os que se acolhem à vossa direita.
8. Guardai-me como a pupila dos olhos, escondei-me à sombra de vossas asas,
9. longe dos pecadores, que me querem fazer violência. Meus inimigos me rodeiam com furor.
10. Seu coração endurecido se fecha à piedade; só têm na boca palavras arrogantes.
11. Eis que agora me cercam, espreitam para me prostrar por terra;
12. qual leão que se atira ávido sobre a presa, e como o leãozinho no seu covil.
13. Levantai-vos, Senhor, correi-lhe ao encontro, derrubai-o; com vossa espada livrai-me do pecador,
14. com vossa mão livrai-me dos homens, desses cuja única felicidade está nesta vida, que têm o ventre repleto de bens, cujos filhos vivem na abundância e deixam ainda aos seus filhos o que lhes sobra.
15. Mas eu, confiado na vossa justiça, contemplarei a vossa face; ao despertar, saciar-me-ei com a visão de vosso ser.

 
Salmo 17

1. Ao mestre de canto. De Davi, servo do Senhor, que dirigiu as palavras deste cântico ao Senhor, no dia em que ficou livre de todos os seus inimigos e das mãos de Saul.
2. Disse: Eu vos amo, Senhor, minha força!
3. O Senhor é o meu rochedo, minha fortaleza e meu libertador. Meu Deus é a minha rocha, onde encontro o meu refúgio, meu escudo, força de minha salvação e minha cidadela.
4. Invoco o Senhor, digno de todo louvor, e fico livre dos meus inimigos.
5. Circundavam-me os vagalhões da morte, torrentes devastadoras me atemorizavam,
6. enlaçavam-se as cadeias da habitação dos mortos, a própria morte me prendia em suas redes.
7. Na minha angústia, invoquei o Senhor, gritei para meu Deus: do seu templo ele ouviu a minha voz, e o meu clamor em sua presença chegou aos seus ouvidos.
8. A terra vacilou e tremeu, os fundamentos das montanhas fremiram, abalaram-se, porque Deus se abrasou em cólera:
9. suas narinas exalavam fumaça; sua boca, fogo devorador, brasas incandescentes.
10. Ele inclinou os céus e desceu, calcando aos pés escuras nuvens.
11. Cavalgou sobre um querubim e voou, planando nas asas do vento.
12. Envolveu-se nas trevas como se fossem véu, fez para si uma tenda das águas tenebrosas, densas nuvens.
13. Do esplendor de sua presença suas nuvens avançaram: saraiva e centelhas de fogo.
14. Dos céus trovejou o Senhor, o Altíssimo fez ressoar a sua voz.
15. Lançou setas e dispersou os inimigos, fulminou relâmpagos e os desbaratou.
16. E apareceu descoberto o leito do mar, ficaram à vista os fundamentos da terra, ante a vossa ameaçadora voz, ó Senhor, ante o furacão de vossa cólera.
17. Do alto estendeu a sua mão e me pegou, e retirou-me das águas profundas,
18. livrou-me de inimigo poderoso, dos meus adversários mais fortes do que eu.
19. Investiram contra mim no dia do meu infortúnio, mas o Senhor foi o meu arrimo;
20. pôs-me a salvo e livrou-me, porque me ama.
21. O Senhor me tratou segundo a minha inocência, retribuiu-me segundo a pureza de minhas mãos,
22. porque guardei os caminhos do Senhor e não pequei separando-me do meu Deus.
23. Tenho diante dos olhos todos os seus preceitos e não me desvio de suas leis.
24. Ando irrepreensivelmente diante dele, guardando-me do meu pecado.
25. O Senhor retribuiu-me segundo a minha justiça, segundo a pureza de minhas mãos diante dos seus olhos.
26. Com quem é bondoso vos mostrais bondoso, com o homem íntegro vos mostrais íntegro;
27. puro com quem é puro; prudente com quem é astuto.
28. Os humildes salvais, os semblantes soberbos humilhais.
29. Senhor, sois vós que fazeis brilhar o meu farol, sois vós que dissipais as minhas trevas.
30. Convosco afrontarei batalhões, com meu Deus escalarei muralhas.
31. Os caminhos de Deus são perfeitos, a palavra do Senhor é pura. Ele é o escudo de todos os que nele se refugiam.
32. Pois quem é Deus senão o Senhor? Quem é o rochedo, senão o nosso Deus?
33. É Deus quem me cinge de coragem e aplana o meu caminho.
34. Torna os meus pés velozes como os das gazelas e me instala nas alturas.
35. Adestra minhas mãos para o combate e meus braços para o tiro de arco.
36. Vós me dais o escudo que me salva. Vossa destra me sustém, e vossa bondade me engrandece.
37. Alargais o caminho a meus passos, para meus pés não resvalarem.
38. Dou caça aos inimigos e os alcanço, e não volto sem que os tenha aniquilado.
39. De tal sorte os despedaço, que não mais poderão levantar-se: eles ficam caídos a meus pés.
40. Vós me cingis de coragem para a luta e ante mim dobrais os meus adversários.
41. Afugentais da minha presença os meus inimigos e reduzis ao silêncio os que me aborrecem.
42. Gritam por socorro, mas não há quem os salve; clamam ao Senhor, mas não responde…
43. Eu os disperso como o pó que o vento leva, e os esmago como o barro das estradas.
44. Vós me livrais das revoltas do povo e me colocais à frente das nações; povos que eu desconhecia se tornaram meus servos.
45. Gente estranha me serve abnegadamente e me obedece à primeira intimação.
46. Gente estranha desfalece e sai tremendo de seus esconderijos.
47. Viva o Senhor e bendito seja o meu rochedo! Exaltado seja Deus, que me salva!
48. Deus, que me proporciona a vingança e avassala nações a meus pés.
49. Sois vós que me libertais dos meus inimigos, me exaltais acima dos meus adversários e me salvais do homem violento.
50. Por isso vos louvarei, ó Senhor, entre as nações e celebrarei o vosso nome.
51. Ele prepara grandes vitórias a seu rei e faz misericórdia a seu ungido, a Davi e a sua descendência para sempre.

 
Salmo 18

1. Ao mestre de canto. Salmo de Davi.
2. Narram os céus a glória de Deus, e o firmamento anuncia a obra de suas mãos.
3. O dia ao outro transmite essa mensagem, e uma noite à outra a repete.
4. Não é uma língua nem são palavras, cujo sentido não se perceba,
5. porque por toda a terra se espalha o seu ruído, e até os confins do mundo a sua voz; aí armou Deus para o sol uma tenda.
6. E este, qual esposo que sai do seu tálamo, exulta, como um gigante, a percorrer seu caminho.
7. Sai de um extremo do céu, e no outro termina o seu curso; nada se furta ao seu calor.
8. A lei do Senhor é perfeita, reconforta a alma; a ordem do Senhor é segura, instrui o simples.
9. Os preceitos do Senhor são retos, deleitam o coração; o mandamento do Senhor é luminoso, esclarece os olhos.
10. O temor do Senhor é puro, subsiste eternamente; os juízos do Senhor são verdadeiros, todos igualmente justos.
11. Mais desejáveis que o ouro, que uma barra de ouro fino; mais doces que o mel, que o puro mel dos favos.
12. Ainda que vosso servo neles atente, guardando-os com todo o cuidado;
13. quem pode, entretanto, ver as próprias faltas? Purificai-me das que me são ocultas.
14. Preservai, também, vosso servo do orgulho; não domine ele sobre mim, então serei íntegro e limpo de falta grave.
15. Aceitai as palavras de meus lábios e os pensamentos de meu coração, na vossa presença, Senhor, minha rocha e meu redentor.

 
Salmo 19

1. Ao mestre de canto. Salmo de Davi.
2. Que o Senhor te escute no dia da provação, e te proteja o nome do Deus de Jacó.
3. Do seu santuário ele te socorra, e de Sião ele te sustente.
4. Lembre-se de tuas ofertas, e aceite os teus sacrifícios.
5. Conceda-te o que teu coração anela, e realize todos os teus desejos.
6. Possamos nós alegrar-nos com tua vitória e levantar as bandeiras em nome de nosso Deus. Sim, que o Senhor realize todos os teus pedidos.
7. Já sei que o Senhor reservou a vitória para seu ungido, e o ouviu do alto de seu santuário pelo poder de seu braço vencedor.
8. Uns põem sua força nos carros, outros nos cavalos. Nós, porém, a temos em nome do Senhor, nosso Deus.
9. Eles fraquejaram e foram vencidos, mas nós, de pé, continuamos firmes.
10. Senhor, dai a vitória ao rei, e ouvi-nos no dia em que vos invocamos.

 
Salmo 20

1. Ao mestre de canto. Salmo de Davi.
2. Senhor, alegra-se o rei com o vosso poder, e muito exulta com o vosso auxílio!
3. Realizastes os anseios de seu coração, não rejeitastes a prece de seus lábios.
4. Com preciosas bênçãos fostes-lhe ao encontro, pusestes-lhe na cabeça coroa de puríssimo ouro.
5. Ele vos pediu a vida, vós lha concedestes, uma vida cujos dias serão eternos.
6. Grande é a sua glória, devida à vossa proteção; vós o cobristes de majestade e esplendor.
7. Sim, fizestes dele o objeto de vossas eternas bênçãos, de alegria o cobristes com a vossa presença,
8. pois o rei confiou no Senhor. Graças ao Altíssimo não será abalado.
9. Que tua mão, ó rei, apanhe teus inimigos, que tua mão atinja os que te odeiam.
10. Tu os tornarás como fornalha ardente, quando apareceres diante deles. Que o Senhor em sua cólera os consuma, e que o fogo os devore.
11. Faze desaparecer da terra a posteridade deles e a sua descendência dentre os filhos dos homens.
12. Se intentarem fazer-te mal, tramando algum plano, não o conseguirão,
13. porque os porás em fuga, dirigindo teu arco contra a face deles.
14. Erguei-vos, Senhor, em vossa potência! Cantaremos e celebraremos o vosso poder.

 
Salmo 21

1. Ao mestre de canto. Segundo a melodia A corça da aurora. Salmo de Davi.
2. Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes? E permaneceis longe de minhas súplicas e de meus gemidos?
3. Meu Deus, clamo de dia e não me respondeis; imploro de noite e não me atendeis.
4. Entretanto, vós habitais em vosso santuário, vós que sois a glória de Israel.
5. Nossos pais puseram sua confiança em vós, esperaram em vós e os livrastes.
6. A vós clamaram e foram salvos; confiaram em vós e não foram confundidos.
7. Eu, porém, sou um verme, não sou homem, o opróbrio de todos e a abjeção da plebe.
8. Todos os que me vêem zombam de mim; dizem, meneando a cabeça:
9. Esperou no Senhor, pois que ele o livre, que o salve, se o ama.
10. Sim, fostes vós que me tirastes das entranhas de minha mãe e, seguro, me fizestes repousar em seu seio.
11. Eu vos fui entregue desde o meu nascer, desde o ventre de minha mãe vós sois o meu Deus.
12. Não fiqueis longe de mim, pois estou atribulado; vinde para perto de mim, porque não há quem me ajude.
13. Cercam-me touros numerosos, rodeiam-me touros de Basã;
14. contra mim eles abrem suas fauces, como o leão que ruge e arrebata.
15. Derramo-me como água, todos os meus ossos se desconjuntam; meu coração tornou-se como cera, e derrete-se nas minhas entranhas.
16. Minha garganta está seca qual barro cozido, pega-se no paladar a minha língua: vós me reduzistes ao pó da morte.
17. Sim, rodeia-me uma malta de cães, cerca-me um bando de malfeitores. Traspassaram minhas mãos e meus pés:
18. poderia contar todos os meus ossos. Eles me olham e me observam com alegria,
19. repartem entre si as minhas vestes, e lançam sorte sobre a minha túnica.
20. Porém, vós, Senhor, não vos afasteis de mim; ó meu auxílio, bem depressa me ajudai.
21. Livrai da espada a minha alma, e das garras dos cães a minha vida.
22. Salvai-me a mim, mísero, das fauces do leão e dos chifres dos búfalos.
23. Então, anunciarei vosso nome a meus irmãos, e vos louvarei no meio da assembléia.
24. Vós que temeis o Senhor, louvai-o; vós todos, descendentes de Jacó, aclamai-o; temei-o, todos vós, estirpe de Israel,
25. porque ele não rejeitou nem desprezou a miséria do infeliz, nem dele desviou a sua face, mas o ouviu, quando lhe suplicava.
26. De vós procede o meu louvor na grande assembléia, cumprirei meus votos na presença dos que vos temem.
27. Os pobres comerão e serão saciados; louvarão o Senhor aqueles que o procuram: Vivam para sempre os nossos corações.
28. Hão de se lembrar do Senhor e a ele se converter todos os povos da terra; e diante dele se prostrarão todas as famílias das nações,
29. porque a realeza pertence ao Senhor, e ele impera sobre as nações.
30. Todos os que dormem no seio da terra o adorarão; diante dele se prostrarão os que retornam ao pó.
31. Para ele viverá a minha alma, há de servi-lo minha descendência. Ela falará do Senhor às gerações futuras e proclamará sua justiça ao povo que vai nascer: Eis o que fez o Senhor.

 
Salmo 22

1. Salmo de Davi. O Senhor é meu pastor, nada me faltará.
2. Em verdes prados ele me faz repousar. Conduz-me junto às águas refrescantes,
3. restaura as forças de minha alma. Pelos caminhos retos ele me leva, por amor do seu nome.
4. Ainda que eu atravesse o vale escuro, nada temerei, pois estais comigo. Vosso bordão e vosso báculo são o meu amparo.
5. Preparais para mim a mesa à vista de meus inimigos. Derramais o perfume sobre minha cabeça, e transborda minha taça.
6. A vossa bondade e misericórdia hão de seguir-me por todos os dias de minha vida. E habitarei na casa do Senhor por longos dias.

 
Salmo 23

1. Salmo de Davi. Do Senhor é a terra e tudo o que ela contém, a órbita terrestre e todos os que nela habitam,
2. pois ele mesmo a assentou sobre as águas do mar e sobre as águas dos rios a consolidou.
3. Quem será digno de subir ao monte do Senhor? Ou de permanecer no seu lugar santo?
4. O que tem as mãos limpas e o coração puro, cujo espírito não busca as vaidades nem perjura para enganar seu próximo.
5. Este terá a bênção do Senhor, e a recompensa de Deus, seu Salvador.
6. Tal é a geração dos que o procuram, dos que buscam a face do Deus de Jacó.
7. Levantai, ó portas, os vossos dintéis! Levantai-vos, ó pórticos antigos, para que entre o Rei da glória!
8. Quem é este Rei da glória? É o Senhor forte e poderoso, o Senhor poderoso na batalha.
9. Levantai, ó portas, os vossos dintéis! Levantai-vos, ó pórticos antigos, para que entre o Rei da glória!
10. Quem é este Rei da glória? É o Senhor dos exércitos! É ele o Rei da glória.

 
Salmo 24

1. De Davi. Para vós, Senhor, elevo a minha alma.
2. Meu Deus, em vós confio: não seja eu decepcionado! Não escarneçam de mim meus inimigos!
3. Não, nenhum daqueles que esperam em vós será confundido, mas os pérfidos serão cobertos de vergonha.
4. Senhor, mostrai-me os vossos caminhos, e ensinai-me as vossas veredas.
5. Dirigi-me na vossa verdade e ensinai-me, porque sois o Deus de minha salvação e em vós eu espero sempre.
6. Lembrai-vos, Senhor, de vossas misericórdias e de vossas bondades, que são eternas.
7. Não vos lembreis dos pecados de minha juventude e dos meus delitos; em nome de vossa misericórdia, lembrai-vos de mim, por causa de vossa bondade, Senhor.
8. O Senhor é bom e reto, por isso reconduz os extraviados ao caminho reto.
9. Dirige os humildes na justiça, e lhes ensina a sua via.
10. Todos os caminhos do Senhor são graça e fidelidade, para aqueles que guardam sua aliança e seus preceitos.
11. Por amor de vosso nome, Senhor, perdoai meu pecado, por maior que seja.
12. Que advém ao homem que teme o Senhor? Deus lhe ensina o caminho que deve escolher.
13. Viverá na felicidade, e sua posteridade possuirá a terra.
14. O Senhor se torna íntimo dos que o temem, e lhes manifesta a sua aliança.
15. Meus olhos estão sempre fixos no Senhor, porque ele livrará do laço os meus pés.
16. Olhai-me e tende piedade de mim, porque estou só e na miséria.
17. Aliviai as angústias do meu coração, e livrai-me das aflições.
18. Vede minha miséria e meu sofrimento, e perdoai-me todas as faltas.
19. Vede meus inimigos, são muitos, e com ódio implacável me perseguem.
20. Defendei minha alma e livrai-me; não seja confundido eu que em vós me acolhi.
21. Protejam-me a inocência e a integridade, porque espero em vós, Senhor.
22. Ó Deus, livrai Israel de todas as suas angústias.

 
Salmo 25

1. De Davi. Fazei-me justiça, Senhor, pois tenho andado retamente e, confiando em vós, não vacilei.
2. Sondai-me, Senhor, e provai-me; escrutai meus rins e meu coração.
3. Tenho sempre diante dos olhos vossa bondade, e caminho na vossa verdade.
4. Entre os homens iníquos não me assento, nem me associo aos trapaceiros.
5. Detesto a companhia dos malfeitores, com os ímpios não me junto.
6. Na inocência lavo as minhas mãos, e conservo-me junto de vosso altar, Senhor,
7. para publicamente anunciar vossos louvores, e proclamar todas as vossas maravilhas.
8. Senhor, amo a habitação de vossa casa, e o tabernáculo onde reside a vossa glória.
9. Não leveis a minha alma com a dos pecadores, nem me tireis a vida com a dos sanguinários,
10. cujas mãos são criminosas, e cuja destra está cheia de subornos.
11. Eu, porém, procedo com retidão. Livrai-me e sede-me propício.
12. Meu pé está firme no caminho reto; nas assembléias, bendirei ao Senhor.

 
Salmo 26

1. De Davi. O Senhor é minha luz e minha salvação, a quem temerei? O Senhor é o protetor de minha vida, de quem terei medo?
2. Quando os malvados me atacam para me devorar vivo, são eles, meus adversários e inimigos, que resvalam e caem.
3. Se todo um exército se acampar contra mim, não temerá meu coração. Se se travar contra mim uma batalha, mesmo assim terei confiança.
4. Uma só coisa peço ao Senhor e a peço incessantemente: é habitar na casa do Senhor todos os dias de minha vida, para admirar aí a beleza do Senhor e contemplar o seu santuário.
5. Assim, no dia mau ele me esconderá na sua tenda, ocultar-me-á no recôndito de seu tabernáculo, sobre um rochedo me erguerá.
6. Mas desde agora ele levanta a minha cabeça acima dos inimigos que me cercam; e oferecerei no tabernáculo sacrifícios de regozijo, com cantos e louvores ao Senhor.
7. Escutai, Senhor, a voz de minha oração, tende piedade de mim e ouvi-me.
8. Fala-vos meu coração, minha face vos busca; a vossa face, ó Senhor, eu a procuro.
9. Não escondais de mim vosso semblante, não afasteis com ira o vosso servo. Vós sois o meu amparo, não me rejeiteis. Nem me abandoneis, ó Deus, meu Salvador.
10. Se meu pai e minha mãe me abandonarem, o Senhor me acolherá.
11. Ensinai-me, Senhor, vosso caminho; por causa dos adversários, guiai-me pela senda reta.
12. Não me abandoneis à mercê dos inimigos, contra mim se ergueram violentos e falsos testemunhos.
13. Sei que verei os benefícios do Senhor na terra dos vivos!
14. Espera no Senhor e sê forte! Fortifique-se o teu coração e espera no Senhor!

 
Salmo 27

1. De Davi. É para vós, Senhor, que ergo meu clamor. Ó meu apoio, não fiqueis surdo à minha voz; não suceda que, vós não me ouvindo, eu me vá unir aos que desceram para o túmulo.
2. Ouvi a voz de minha súplica quando clamo, quando levanto as mãos para o vosso templo santo.
3. Não me deixeis perecer com os pecadores e com os que praticam a iniqüidade, que dizem ao próximo palavras de paz, mas guardam a maldade no coração.
4. Tratai-os de acordo com as suas ações, e conforme a malícia de seus crimes. Retribuí-lhes segundo a obra de suas mãos; dai-lhes o que merecem,
5. pois não atendem às ações do Senhor nem às obras de suas mãos. Que Ele os abata e não os levante.
6. Bendito seja o Senhor, que ouviu a voz de minha súplica; nele confiou meu coração e fui socorrido.
7. O Senhor é a minha força e o meu escudo! Por isso meu coração exulta e o louvo com meu cântico.
8. O Senhor é a força do seu povo, uma fortaleza de salvação para o que lhe é consagrado.
9. Salvai, Senhor, vosso povo e abençoai a vossa herança; sede seu pastor, levai-o nos braços eternamente.

 
Salmo 28

1. Salmo de Davi. Tributai ao Senhor, ó filhos de Deus, tributai ao Senhor glória e poder!
2. Rendei-lhe a glória devida ao seu nome; adorai o Senhor com ornamentos sagrados.
3. Ouve-se a voz do Senhor sobre as águas! O Deus de grandeza atroou: o Senhor trovejou sobre as águas imensas!
4. A voz do Senhor faz-se ouvir com poder! A voz do Senhor faz-se ouvir com majestade!
5. Fendem-se os cedros à voz do Senhor, quebra o Senhor os cedros do Líbano.
6. Faz saltar o Líbano como um novilho, e o Sarion como um búfalo novo.
7. A voz do Senhor despede relâmpagos,
8. A voz do Senhor abala o deserto. O Senhor faz tremer o deserto de Cades.
9. A voz do Senhor retorce os carvalhos, desnuda as florestas. E em seu templo todos bradam: glória!
10. O Senhor preside ao dilúvio, o Senhor trona como rei para sempre.
11. O Senhor há de dar fortaleza ao seu povo! O Senhor abençoará o seu povo, dando-lhe a paz!

 
Salmo 29

1. Salmo. Cântico para a dedicação da casa de Deus. De Davi.
2. Eu vos exaltarei, Senhor, porque me livrastes, não permitistes que exultassem sobre mim meus inimigos.
3. Senhor, meu Deus, clamei a vós e fui curado.
4. Senhor, minha alma foi tirada por vós da habitação dos mortos; dentre os que descem para o túmulo, vós me salvastes.
5. Ó vós, fiéis do Senhor, cantai sua glória, dai graças ao seu santo nome.
6. Porque a sua indignação dura apenas um momento, enquanto sua benevolência é para toda a vida. Pela tarde, vem o pranto, mas, de manhã, volta a alegria.
7. Eu, porém, disse, seguro de mim: Não serei jamais abalado.
8. Senhor, foi por favor que me destes honra e poder, mas quando escondestes vossa face fiquei aterrado.
9. A vós, Senhor, eu clamo, e imploro a misericórdia de meu Deus.
10. Que proveito vos resultará de retomar-me a vida, de minha descida ao túmulo? Porventura vos louvará o meu pó? Apregoará ele a vossa fidelidade?
11. Ouvi-me, Senhor, e tende piedade de mim; Senhor, vinde em minha ajuda.
12. Vós convertestes o meu pranto em prazer, tirastes minhas vestes de penitência e me cingistes de alegria.
13. Assim, minha alma vos louvará sem calar jamais. Senhor, meu Deus, eu vos bendirei eternamente.

 
Salmo 30

1. Ao mestre de canto. Salmo de Davi.
2. Junto de vós, Senhor, me refugio. Não seja eu confundido para sempre; por vossa justiça, livrai-me!
3. Inclinai para mim vossos ouvidos, apressai-vos em me libertar. Sede para mim uma rocha de refúgio, uma fortaleza bem armada para me salvar.
4. Pois só vós sois minha rocha e fortaleza: haveis de me guiar e dirigir, por amor de vosso nome.
5. Vós me livrareis das ciladas que me armaram, porque sois minha defesa.
6. Em vossas mãos entrego meu espírito; livrai-me, ó Senhor, Deus fiel.
7. Detestais os que adoram ídolos vãos. Eu, porém, confio no Senhor.
8. Exultarei e me alegrarei pela vossa compaixão, porque olhastes para minha miséria e ajudastes minha alma angustiada.
9. Não me entregastes às mãos do inimigo, mas alargastes o caminho sob meus pés.
10. Tende piedade de mim, Senhor, porque vivo atribulado, de tristeza definham meus olhos, minha alma e minhas entranhas.
11. Realmente, minha vida se consome em amargura, e meus anos em gemidos. Minhas forças se esgotaram na aflição, mirraram-se os meus ossos.
12. Tornei-me objeto de opróbrio para todos os inimigos, ludíbrio dos vizinhos e pavor dos conhecidos. Fogem de mim os que me vêem na rua.
13. Fui esquecido dos corações como um morto, fiquei rejeitado como um vaso partido.
14. Sim, eu ouvi o vozerio da multidão; em toda parte, o terror! Conspirando contra mim, tramam como me tirar a vida.
15. Mas eu, Senhor, em vós confio. Digo: Sois vós o meu Deus.
16. Meu destino está nas vossas mãos. Livrai-me do poder de meus inimigos e perseguidores.
17. Mostrai semblante sereno ao vosso servo, salvai-me pela vossa misericórdia.
18. Senhor, não fique eu envergonhado, porque vos invoquei: Confundidos sejam os ímpios e, mudos, lançados na região dos mortos.
19. Fazei calar os lábios mentirosos que falam contra o justo com insolência, desprezo e arrogância.
20. Quão grande é, Senhor, vossa bondade, que reservastes para os que vos temem e com que tratais aos que se refugiam em vós, aos olhos de todos.
21. Sob a proteção de vossa face os defendeis contra as conspirações dos homens. Vós os ocultais em vossa tenda contra as línguas maldizentes.
22. Bendito seja o Senhor, que usou de maravilhosa bondade, abrigando-me em cidade fortificada.
23. Eu, porém, tinha dito no meu temor: Fui rejeitado de vossa presença. Mas ouvistes antes o brado de minhas súplicas, quando clamava a vós.
24. Amai o Senhor todos os seus servos! Ele protege os que lhe são fiéis. Sabe, porém, retribuir, castigando com rigor aos que procedem com soberba.
25. Animai-vos e sede fortes de coração todos vós, que esperais no Senhor.

 
Salmo 31

1. De Davi. Hino. Feliz aquele cuja iniqüidade foi perdoada, cujo pecado foi absolvido.
2. Feliz o homem a quem o Senhor não argúi de falta, e em cujo coração não há dolo.
3. Enquanto me conservei calado, mirraram-se-me os ossos, entre contínuos gemidos.
4. Pois, dia e noite, vossa mão pesava sobre mim; esgotavam-se-me as forças como nos ardores do verão.
5. Então eu vos confessei o meu pecado, e não mais dissimulei a minha culpa. Disse: Sim, vou confessar ao Senhor a minha iniqüidade. E vós perdoastes a pena do meu pecado.
6. Assim também todo fiel recorrerá a vós, no momento da necessidade. Quando transbordarem muitas águas, elas não chegarão até ele.
7. Vós sois meu asilo, das angústias me preservareis e me envolvereis na alegria de minha salvação.
8. Vou te ensinar, dizeis, vou te mostrar o caminho que deves seguir; vou te instruir, fitando em ti os meus olhos:
9. não queiras ser sem inteligência como o cavalo, como o muar, que só ao freio e à rédea submetem seus ímpetos; de outro modo não se chegam a ti.
10. São muitos os sofrimentos do ímpio. Mas quem espera no Senhor, sua misericórdia o envolve.
11. Ó justos, alegrai-vos e regozijai-vos no Senhor. Exultai todos vós, retos de coração.

 
Salmo 32

1. Exultai no Senhor, ó justos, pois aos retos convém o louvor.
2. Celebrai o Senhor com a cítara, entoai-lhe hinos na harpa de dez cordas.
3. Cantai-lhe um cântico novo, acompanhado de instrumentos de música,
4. porque a palavra do Senhor é reta, em todas as suas obras resplandece a fidelidade:
5. ele ama a justiça e o direito, da bondade do Senhor está cheia a terra.
6. Pela palavra do Senhor foram feitos os céus, e pelo sopro de sua boca todo o seu exército.
7. Ele junta as águas do mar como num odre, e em reservatórios encerra as ondas.
8. Tema ao Senhor toda a terra; reverenciem-no todos os habitantes do globo.
9. Porque ele disse e tudo foi feito, ele ordenou e tudo existiu.
10. O Senhor desfaz os planos das nações pagãs, reduz a nada os projetos dos povos.
11. Só os desígnios do Senhor permanecem eternamente e os pensamentos de seu coração por todas as gerações.
12. Feliz a nação que tem o Senhor por seu Deus, e o povo que ele escolheu para sua herança.
13. O Senhor olha dos céus, vê todos os filhos dos homens.
14. Do alto de sua morada observa todos os habitantes da terra,
15. ele que formou o coração de cada um e está atento a cada uma de suas ações.
16. Não vence o rei pelo numeroso exército, nem se livra o guerreiro pela grande força.
17. O cavalo não é penhor de vitória, nem salva pela sua resistência.
18. Eis os olhos do Senhor pousados sobre os que o temem, sobre os que esperam na sua bondade,
19. a fim de livrar-lhes a alma da morte e nutri-los no tempo da fome.
20. Nossa alma espera no Senhor, porque ele é nosso amparo e nosso escudo.
21. Nele, pois, se alegra o nosso coração, em seu santo nome confiamos.
22. Seja-nos manifestada, Senhor, a vossa misericórdia, como a esperamos de vós.

 
Salmo 33

1. De Davi. Quando simulou alienação na presença de Abimelec e, despedido por ele, partiu.
2. Bendirei continuamente ao Senhor, seu louvor não deixará meus lábios.
3. Glorie-se a minha alma no Senhor; ouçam-me os humildes, e se alegrem.
4. Glorificai comigo ao Senhor, juntos exaltemos o seu nome.
5. Procurei o Senhor e ele me atendeu, livrou-me de todos os temores.
6. Olhai para ele a fim de vos alegrardes, e não se cobrir de vergonha o vosso rosto.
7. Vede, este miserável clamou e o Senhor o ouviu, de todas as angústias o livrou.
8. O anjo do Senhor acampa em redor dos que o temem, e os salva.
9. Provai e vede como o Senhor é bom, feliz o homem que se refugia junto dele.
10. Reverenciai o Senhor, vós, seus fiéis, porque nada falta àqueles que o temem.
11. Os poderosos empobrecem e passam fome, mas aos que buscam o Senhor nada lhes falta.
12. Vinde, meus filhos, ouvi-me: eu vos ensinarei o temor do Senhor.
13. Qual é o homem que ama a vida, e deseja longos dias para gozar de felicidade?
14. Guarda tua língua do mal, e teus lábios das palavras enganosas.
15. Aparta-te do mal e faze o bem, busca a paz e vai ao seu encalço.
16. Os olhos do Senhor estão voltados para os justos, e seus ouvidos atentos aos seus clamores.
17. O Senhor volta a sua face irritada contra os que fazem o mal, para apagar da terra a lembrança deles.
18. Apenas clamaram os justos, o Senhor os atendeu e os livrou de todas as suas angústias.
19. O Senhor está perto dos contritos de coração, e salva os que têm o espírito abatido.
20. São numerosas as tribulações do justo, mas de todas o livra o Senhor.
21. Ele protege cada um de seus ossos, nem um só deles será quebrado.
22. A malícia do ímpio o leva à morte, e os que odeiam o justo serão castigados.
23. O Senhor livra a alma de seus servos; não será punido quem a ele se acolhe.

 
Salmo 34

1. De Davi. Lutai, Senhor, contra os que me atacam; combatei meus adversários.
2. Empunhai o broquel e o escudo, e erguei-vos em meu socorro.
3. Brandi a lança e sustai meus perseguidores. Dizei à minha alma: Eu sou a tua salvação.
4. Sejam confundidos e envergonhados os que odeiam a minha vida, recuem humilhados os que tramam minha desgraça.
5. Sejam como a palha levada pelo vento, quando o anjo do Senhor vier acossá-los.
6. Torne-se tenebroso e escorregadio o seu caminho, quando o anjo do Senhor vier persegui-los,
7. porquanto sem razão me armaram laços; para me perder, cavaram um fosso sem motivo.
8. Venha sobre eles de improviso a ruína; apanhe-os a rede por eles mesmos preparada, caiam eles próprios na cova que abriram.
9. Então a minha alma exultará no Senhor, e se alegrará pelo seu auxílio.
10. Todas as minhas potências dirão: Senhor, quem é semelhante a vós? Vós que livrais o desvalido do opressor, o mísero e o pobre de quem os despoja.
11. Surgiram apaixonadas testemunhas, interrogaram-me sobre faltas que ignoro,
12. pagaram-me o bem com o mal. Oh, desolação para a minha alma!
13. Contudo, quando eles adoeciam, eu me revestia de saco, extenuava-me em jejuns e rezava.
14. Andava triste, como se tivesse perdido um amigo, um irmão; abatido, me vergava como quem chora por sua mãe.
15. Quando tropecei, eles se reuniram para se alegrar; eles me dilaceraram sem parar.
16. Puseram-me à prova, escarneceram de mim, rangeram os dentes contra mim.
17. Senhor, até quando assistireis impassível a este espetáculo? Arrancai desses leões a minha vida, livrai-me a alma de seus rugidos.
18. Vou render-vos graças publicamente, eu vos louvarei na presença da multidão.
19. Não se regozijem de mim meus pérfidos inimigos, nem tramem com os olhos os que me odeiam sem motivo,
20. pois nunca têm palavras de paz: e armam ciladas contra a gente tranqüila da terra,
21. escancaram para mim a boca, dizendo: Ah! Ah! Com os nossos olhos, nós o vimos!
22. Vós também, Senhor, vistes! Não guardeis silêncio. Senhor, não vos aparteis de mim.
23. Acordai e levantai-vos para me defender, ó meu Deus e Senhor meu, em prol de minha causa!
24. Julgai-me, Senhor, segundo vossa justiça. Ó meu Deus, que não se regozijem à minha custa!
25. Não pensem em seus corações: Ah, tivemos sorte! Não digam: Nós o devoramos!
26. Sejam confundidos todos juntos e se envergonhem os que se alegram com meus males, cubram-se de pejo e ignomínia os que se levantam orgulhosamente contra mim.
27. Mas exultem e se alegrem os favoráveis à minha causa e digam sem cessar: Glorificado seja o Senhor, que quis a salvação de seu servo!
28. E a minha língua proclamará vossa justiça, dando-vos perpétuos louvores.

 
Salmo 35

1. Ao mestre de canto. De Davi, servo do Senhor.
2. A iniqüidade fala ao ímpio no seu coração; não existe o temor a Deus ante os seus olhos,
3. porque ele se gloria de que sua culpa não será descoberta nem detestada por ninguém.
4. Suas palavras são más e enganosas; renunciou a proceder sabiamente e a fazer o bem.
5. Em seu leito ele medita o crime, anda pelo mau caminho, não detesta o mal.
6. Senhor, vossa bondade chega até os céus, vossa fidelidade se eleva até as nuvens.
7. Vossa justiça é semelhante às montanhas de Deus, vossos juízos são profundos como o mar. Vós protegeis, Senhor, os homens como os animais.
8. Como é preciosa a vossa bondade, ó Deus! À sombra de vossas asas se refugiam os filhos dos homens.
9. Eles se saciam da abundância de vossa casa, e lhes dais de beber das torrentes de vossas delícias,
10. porque em vós está a fonte da vida, e é na vossa luz que vemos a luz.
11. Continuai a dar vossa bondade aos que vos honram, e a vossa justiça aos retos de coração.
12. Não me calque o pé do orgulhoso, não me faça fugir a mão do pecador.
13. Eis que caíram os fautores da iniqüidade, foram prostrados para não mais se erguer.

 
Salmo 36

1. De Davi. Não te irrites por causa dos que agem mal, nem invejes os que praticam a iniqüidade,
2. pois logo eles serão ceifados como a erva dos campos, e como a erva verde murcharão.
3. Espera no Senhor e faze o bem; habitarás a terra em plena segurança.
4. Põe tuas delícias no Senhor, e os desejos do teu coração ele atenderá.
5. Confia ao Senhor a tua sorte, espera nele, e ele agirá.
6. Como a luz, fará brilhar a tua justiça; e como o sol do meio-dia, o teu direito.
7. Em silêncio, abandona-te ao Senhor, põe tua esperança nele. Não invejes o que prospera em suas empresas, e leva a bom termo seus maus desígnios.
8. Guarda-te da ira, depõe o furor, não te exasperes, que será um mal,
9. porque os maus serão exterminados, mas os que esperam no Senhor possuirão a terra.
10. Mais um pouco e não existirá o ímpio; se olhares o seu lugar, não o acharás.
11. Quanto aos mansos, possuirão a terra, e nela gozarão de imensa paz.
12. O ímpio conspira contra o justo, e para ele range os seus dentes.
13. Mas o Senhor se ri dele, porque vê o destino que o espera.
14. Os maus empunham a espada e retesam o arco, para abater o pobre e miserável e liquidar os que vão no caminho reto.
15. Sua espada, porém, lhes traspassará o coração, e seus arcos serão partidos.
16. O pouco que o justo possui vale mais que a opulência dos ímpios;
17. porque os braços dos ímpios serão quebrados, mas os justos o Senhor sustenta.
18. O Senhor vela pela vida dos íntegros, e a herança deles será eterna.
19. Não serão confundidos no tempo da desgraça e nos dias de fome serão saciados.
20. Porém, os ímpios perecerão e os inimigos do Senhor fenecerão como o verde dos prados; desaparecerão como a fumaça.
21. O ímpio pede emprestado e não paga, enquanto o justo se compadece e dá,
22. porque aqueles que o Senhor abençoa possuirão a terra, mas os que ele amaldiçoa serão destruídos.
23. O Senhor torna firmes os passos do homem e aprova os seus caminhos.
24. Ainda que caia, não ficará prostrado, porque o Senhor o sustenta pela mão.
25. Fui jovem e já sou velho, mas jamais vi o justo abandonado, nem seus filhos a mendigar o pão.
26. Todos os dias empresta misericordiosamente, e abençoada é a sua posteridade.
27. Aparta-te do mal e faze o bem, para que permaneças para sempre,
28. porque o Senhor ama a justiça e não abandona os seus fiéis. Os ímpios serão destruídos, e a raça dos ímpios exterminada.
29. Os justos possuirão a terra, e a habitarão eternamente.
30. A boca do justo fala sabedoria e a sua língua exprime a justiça.
31. Em seu coração está gravada a lei de Deus; não vacilam os seus passos.
32. O ímpio espreita o justo, e procura como fazê-lo perecer.
33. Mas o Senhor não o abandonará em suas mãos e, quando for julgado, não o condenará.
34. Põe tu confiança no Senhor, e segue os seus caminhos. Ele te exaltará e possuirás a terra; a queda dos ímpios verás com alegria.
35. Vi o ímpio cheio de arrogância, a expandir-se com um cedro frondoso.
36. Apenas passei e já não existia; procurei-o por toda a parte e nem traço dele encontrei.
37. Observa o homem de bem, considera o justo, pois há prosperidade para o pacífico.
38. Os pecadores serão exterminados, a geração dos ímpios será extirpada.
39. Vem do Senhor a salvação dos justos, que é seu refúgio no tempo da provocação.
40. O Senhor os ajuda e liberta; arranca-os dos ímpios e os salva, porque se refugiam nele.

 
Salmo 37

1. Salmo de Davi. Para servir de lembrança.
2. Senhor, em vossa cólera não me repreendais, em vosso furor não me castigueis,
3. porque as vossas flechas me atingiram, e desceu sobre mim a vossa mão.
4. Vossa cólera nada poupou em minha carne, por causa de meu pecado nada há de intacto nos meus ossos.
5. Porque minhas culpas se elevaram acima de minha cabeça, como pesado fardo me oprimem em demasia.
6. São fétidas e purulentas as chagas que a minha loucura me causou.
7. Estou abatido, extremamente recurvado, todo o dia ando cheio de tristeza.
8. Inteiramente inflamados os meus rins; não há parte sã em minha carne.
9. Ao extremo enfraquecido e alquebrado, agitado o coração, lanço gritos lancinantes.
10. Senhor, diante de vós estão todos os meus desejos, e meu gemido não vos é oculto.
11. Palpita-me o coração, abandonam-me as forças, e me falta a própria luz dos olhos.
12. Amigos e companheiros fogem de minha chaga, e meus parentes permanecem longe.
13. Os que odeiam a minha vida, armam-me ciladas; os que me procuram perder, ameaçam-me de morte; não cessam de planejar traições.
14. Eu, porém, sou como um surdo: não ouço; sou como um mudo que não abre os lábios.
15. Fiz-me como um homem que não ouve, e que não tem na boca réplicas a dar.
16. Porque é em vós, Senhor, que eu espero; vós me atendereis, Senhor, ó meu Deus.
17. Eis meu desejo: Não se alegrem com minha perda; não se ensoberbeçam contra mim, quando meu pé resvala;
18. pois estou prestes a cair, e minha dor é permanente.
19. Sim, minha culpa eu a confesso, meu pecado me atormenta.
20. Entretanto, são vigorosos e fortes os meus inimigos, e muitos os que me odeiam sem razão.
21. Retribuem-me o mal pelo bem, hostilizam-me porque quero fazer o bem.
22. Não me abandoneis, Senhor. Ó meu Deus, não fiqueis longe de mim.
23. Depressa, vinde em meu auxílio, Senhor, minha salvação!

 
Salmo 38

1. Ao mestre de canto, a Iditum. Salmo de Davi.
2. Disse comigo mesmo: Velarei sobre os meus atos, para não mais pecar com a língua. Porei um freio em meus lábios, enquanto o ímpio estiver diante de mim.
3. Fiquei mudo, mas sem resultado, porque minha dor recrudesceu.
4. Meu coração se abrasava dentro de mim, meu pensamento se acendia como um fogo, então eu me pus a falar:
5. Fazei-me conhecer, Senhor, o meu fim, e o número de meus dias, para que eu veja como sou efêmero.
6. A largura da mão: eis a medida de meus dias, diante de vós minha vida é como um nada; todo homem não é mais que um sopro.
7. De fato, o homem passa como uma sombra, é em vão que ele se agita; amontoa, sem saber quem recolherá.
8. E agora, Senhor, que posso esperar? Minha confiança está em vós.
9. Livrai-me de todas as faltas, não me abandoneis ao riso dos insensatos.
10. Calei-me, já não abro a boca, porque sois vós que operais.
11. Afastai de mim esse flagelo, pois sucumbo ao rigor de vossa mão.
12. Quando punis o homem, fazendo-lhe sentir a sua culpa, consumis, como o faria a traça, o que ele tem de mais caro. Verdadeiramente, apenas um sopro é o homem.
13. Ouvi, Senhor, a minha oração, escutai os meus clamores, não fiqueis insensível às minhas lágrimas. Diante de vós não sou mais que um viajor, um peregrino, como foram os meus pais.
14. Afastai de mim a vossa ira para que eu tome alento, antes que me vá para não mais voltar.

 
Salmo 39

1. Ao mestre de canto. Salmo de Davi.
2. Esperei no Senhor com toda a confiança. Ele se inclinou para mim, ouviu meus brados.
3. Tirou-me de uma fossa mortal, de um charco de lodo; assentou-me os pés numa rocha, firmou os meus passos;
4. pôs-me nos lábios um novo cântico, um hino à glória de nosso Deus. Muitos verão essas coisas e prestarão homenagem a Deus, e confiarão no Senhor.
5. Feliz o homem que pôs sua esperança no Senhor, e não segue os idólatras nem os apóstatas.
6. Senhor, meu Deus, são maravilhosas as vossas inumeráveis obras e ninguém vos assemelha nos desígnios para conosco. Eu quisera anunciá-los e divulgá-los, mas são mais do que se pode contar.
7. Não vos comprazeis em nenhum sacrifício, em nenhuma oferenda, mas me abristes os ouvidos: não desejais holocausto nem vítima de expiação.
8. Então eu disse: Eis que eu venho. No rolo do livro está escrito de mim:
9. fazer vossa vontade, meu Deus, é o que me agrada, porque vossa lei está no íntimo de meu coração.
10. Anunciei a justiça na grande assembléia, não cerrei os meus lábios, Senhor, bem o sabeis.
11. Não escondi vossa justiça no coração, mas proclamei alto vossa fidelidade e vossa salvação. Não ocultei a vossa bondade nem a vossa fidelidade à grande assembléia.
12. E vós, Senhor, não me recuseis vossas misericórdias; protejam-me sempre vossa graça e vossa fidelidade,
13. porque males sem conta me cercaram. Minhas faltas me pesaram, a ponto de não agüentar vê-las; mais numerosas que os cabelos de minha cabeça. Sinto-me desfalecer.
14. Comprazei-vos, Senhor, em me livrar. Depressa, Senhor, vinde em meu auxílio.
15. Sejam confundidos e humilhados os que procuram arrebatar-me a vida. Recuem e corem de vergonha os que se comprazem com meus males.
16. Fiquem atônitos, cheios de confusão, os que me dizem: Bem feito! Bem feito!
17. Ao contrário, exultem e se alegrem em vós todos os que vos procuram; digam sem cessar aqueles que desejam vosso auxílio: Glória ao Senhor.
18. Quanto a mim, sou pobre e desvalido, mas o Senhor vela por mim. Sois meu protetor e libertador: ó meu Deus, não tardeis.

 
Salmo 40

1. Ao mestre de canto. Salmo de Davi.
2. Feliz quem se lembra do necessitado e do pobre, porque no dia da desgraça o Senhor o salvará.
3. O Senhor há de guardá-lo e o conservará vivo, há de torná-lo feliz na terra e não o abandonará à mercê de seus inimigos.
4. O Senhor o assistirá no leito de dores, e na sua doença o reconfortará.
5. Quanto a mim, eu vos digo: Piedade para mim, Senhor; sarai-me, porque pequei contra vós.
6. Meus inimigos falam de mim maldizendo: Quando há de morrer e se extinguir o seu nome?
7. Se alguém me vem visitar, fala hipocritamente. Seu coração recolhe calúnias e, saindo fora, se apressa em divulgá-las.
8. Todos os que me odeiam murmuram contra mim, e só procuram fazer-me mal.
9. Um mal mortal, dizem eles, o atingiu; ei-lo deitado, para não mais se levantar.
10. Até o próprio amigo em que eu confiava, que partilhava do meu pão, levantou contra mim o calcanhar.
11. Ao menos vós, Senhor, tende piedade de mim; erguei-me, para eu lhes dar a paga que merecem.
12. Nisto verei que me sois favorável, se meu inimigo não triunfar de mim.
13. Vós, porém, me conservareis incólume, e na vossa presença me poreis para sempre.
14. Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, de eternidade em eternidade! Assim seja! Assim seja!

 
Salmo 41

1. Ao mestre de canto. Hino dos filhos de Coré.
2. Como a corça anseia pelas águas vivas, assim minha alma suspira por vós, ó meu Deus.
3. Minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo; quando irei contemplar a face de Deus?
4. Minhas lágrimas se converteram em alimento dia e noite, enquanto me repetem sem cessar: Teu Deus, onde está?
5. Lembro-me, e esta recordação me parte a alma, como ia entre a turba, e os conduzia à casa de Deus, entre gritos de júbilo e louvor de uma multidão em festa.
6. Por que te deprimes, ó minha alma, e te inquietas dentro de mim? Espera em Deus, porque ainda hei de louvá-lo:
7. ele é minha salvação e meu Deus. Desfalece-me a alma dentro de mim; por isso penso em vós do longínquo país do Jordão, perto do Hermon e do monte Misar.
8. Uma vaga traz outra no fragor das águas revoltas, todos os vagalhões de vossas torrentes passaram sobre mim.
9. Conceda-me o Senhor de dia a sua graça; e de noite eu cantarei, louvarei ao Deus de minha vida.
10. Digo a Deus: Ó meu rochedo, por que me esqueceis? Por que ando eu triste, sob a opressão do inimigo?
11. Sinto quebrarem-se-me os ossos, quando, em seus insultos, meus adversários me repetem todos os dias: Teu Deus, onde está ele?
12. Por que te deprimes, ó minha alma, e te inquietas dentro de mim? Espera em Deus, porque ainda hei de louvá-lo: ele é minha salvação e meu Deus.

 
Salmo 42

1. Fazei-me justiça, ó Deus, e defendei minha causa contra uma nação ímpia. Livrai-me do homem doloso e perverso,
2. pois vós, ó meu Deus, sois a minha fortaleza; por que me repelis? Por que devo andar triste sob a opressão do inimigo?
3. Lançai sobre mim a vossa luz e fidelidade; que elas me guiem, e me conduzam ao vosso monte santo, aos vossos tabernáculos.
4. E me aproximarei do altar de Deus, do Deus de minha alegria e exultação.
E vos louvarei com a cítara, ó Senhor, meu Deus!
5. Por que te deprimes, ó minha alma, e te inquietas dentro de mim? Espera em Deus, porque ainda hei de louvá-lo: ele é minha salvação e meu Deus.

 
Salmo 43

1. Ao mestre de canto. Hino dos filhos de Coré.
2. Ó Deus, ouvimos com os nossos próprios ouvidos, nossos pais nos contaram a obra que fizestes em seus dias, nos tempos de antanho.
3. Para implantá-los, expulsastes com as vossas mãos nações pagãs; para lhes dardes lugar, abatestes povos.
4. Com efeito, não foi com sua espada que conquistaram essa terra, nem foi seu braço que os salvou, mas foi vossa mão, foi vosso braço, foi o resplendor de vossa face, porque os amastes.
5. Meu Deus, vós sois o meu rei, vós que destes as vitórias a Jacó.
6. Por vossa graça repelimos os nossos inimigos, em vosso nome esmagamos nossos adversários.
7. Não foi em meu arco que pus minha confiança, nem foi minha espada que me salvou,
8. mas fostes vós que nos livrastes de nossos inimigos e confundistes os que nos odiavam.
9. Era em Deus que em todo o tempo nos gloriávamos, e seu nome sempre celebrávamos.
10. Agora, porém, nos rejeitais e confundis; e já não ides à frente de nossos exércitos.
11. Vós nos fizestes recuar diante do inimigo, e os que nos odiavam pilharam nossos bens.
12. Entregastes-nos como ovelhas para o corte, e nos dispersastes entre os pagãos.
13. Vendestes vosso povo por um preço vil, e pouco lucrastes com esta venda.
14. Fizeste-nos o opróbrio de nossos vizinhos, irrisão e ludíbrio daqueles que nos cercam.
15. Fizestes de nós a sátira das nações pagãs, e os povos nos escarnecem à nossa vista.
16. Continuamente estou envergonhado, a confusão cobre-me a face,
17. por causa dos insultos e ultrajes de um inimigo cheio de rancor.
18. E, apesar de todos esses males que nos sobrevieram, não vos esquecemos, não violamos a vossa aliança.
19. Nosso coração não se desviou de vós, nem nossos passos se apartaram de vossos caminhos,
20. para que nos esmagueis no lugar da aflição e nos envolvais de trevas…
21. Se houvéramos olvidado o nome de nosso Deus e estendido as mãos a um deus estranho,
22. porventura Deus não o teria percebido, ele que conhece os segredos do coração?
23. Mas por vossa causa somos entregues à morte todos os dias e tratados como ovelhas de matadouro.
24. Acordai, Senhor! Por que dormis? Despertai! Não nos rejeiteis continuamente!
25. Por que ocultais a vossa face e esqueceis nossas misérias e opressões?
26. Nossa alma está prostrada até o pó, e colado no solo o nosso corpo.
27. Levantai-vos em nosso socorro e livrai-nos, pela vossa misericórdia.

 
Salmo 44

1. Ao mestre de canto. Segundo a melodia: Os lírios. Hino dos filhos de Coré. Canto nupcial.
2. Transbordam palavras sublimes do meu coração. Ao rei dedico o meu canto. Minha língua é como o estilo de um ágil escriba.
3. Sois belo, o mais belo dos filhos dos homens. Expande-se a graça em vossos lábios, pelo que Deus vos cumulou de bênçãos eternas.
4. Cingi-vos com vossa espada, ó herói; ela é vosso ornamento e esplendor.
5. Erguei-vos vitorioso em defesa da verdade e da justiça. Que vossa mão se assinale por feitos gloriosos.
6. Aguçadas são as vossas flechas; a vós se submetem os povos; os inimigos do rei perdem o ânimo.
7. Vosso trono, ó Deus, é eterno, de eqüidade é vosso cetro real.
8. Amais a justiça e detestais o mal, pelo que o Senhor, vosso Deus, vos ungiu com óleo de alegria, preferindo-vos aos vossos iguais.
9. Exalam vossas vestes perfume de mirra, aloés e incenso; do palácio de marfim os sons das liras vos deleitam.
10. Filhas de reis formam vosso cortejo; posta-se à vossa direita a rainha, ornada de ouro de Ofir.
11. Ouve, filha, vê e presta atenção: esquece o teu povo e a casa de teu pai.
12. De tua beleza se encantará o rei; ele é teu senhor, rende-lhe homenagens.
13. Habitantes de Tiro virão com seus presentes, próceres do povo implorarão teu favor.
14. Toda formosa, entra a filha do rei, com vestes bordadas de ouro.
15. Em roupagens multicores apresenta-se ao rei, após ela vos são apresentadas as virgens, suas companheiras.
16. Levadas entre alegrias e júbilos, ingressam no palácio real.
17. Tomarão os vossos filhos o lugar de vossos pais, vós os estabelecereis príncipes sobre toda a terra.
18. Celebrarei vosso nome através das gerações. E os povos vos louvarão eternamente.

 
Salmo 45

1. Ao mestre de canto. Dos filhos de Coré. Cântico para voz de soprano.
2. Deus é nosso refúgio e nossa força, mostrou-se nosso amparo nas tribulações.
3. Por isso a terra pode tremer, nada tememos; as próprias montanhas podem se afundar nos mares.
4. Ainda que as águas tumultuem e estuem e venham abalar os montes, está conosco o Senhor dos exércitos, nosso protetor é o Deus de Jacó.
5. Os braços de um rio alegram a cidade de Deus, o santuário do Altíssimo.
6. Deus está no seu centro, ela é inabalável; desde o amanhecer, já Deus lhe vem em socorro.
7. Agitaram-se as nações, vacilaram os reinos; apenas ressoou sua voz, tremeu a terra.
8. Está conosco o Senhor dos exércitos, nosso protetor é o Deus de Jacó.
9. Vinde admirar as obras do Senhor, os prodígios que ele fez sobre a terra.
10. Reprimiu as guerras em toda a extensão da terra; partiu os arcos, quebrou as lanças, queimou os escudos.
11. Parai, disse ele, e reconhecei que sou Deus; que domino sobre as nações e sobre toda a terra.
12. Está conosco o Senhor dos exércitos, nosso protetor é o Deus de Jacó.

 
Salmo 46

1. Ao mestre de canto. Salmo dos filhos de Coré.
2. Povos, aplaudi com as mãos, aclamai a Deus com vozes alegres,
3. porque o Senhor é o Altíssimo, o temível, o grande Rei do universo.
4. Ele submeteu a nós as nações, colocou os povos sob nossos pés,
5. escolheu uma terra para nossa herança, a glória de Jacó, seu amado.
6. Subiu Deus por entre aclamações, o Senhor, ao som das trombetas.
7. Cantai à glória de Deus, cantai; cantai à glória de nosso rei, cantai.
8. Porque Deus é o rei do universo; entoai-lhe, pois, um hino!
9. Deus reina sobre as nações, Deus está em seu trono sagrado.
10. Reuniram-se os príncipes dos povos ao povo do Deus de Abraão, pois a Deus pertencem os grandes da terra, a ele, o soberanamente grande.

 
Salmo 47

1. Cântico. Salmo dos filhos de Coré.
2. Grande é o Senhor e digno de todo louvor, na cidade de nosso Deus. O seu monte santo,
3. colina magnífica, é uma alegria para toda a terra. O lado norte do monte Sião é a cidade do grande rei.
4. Deus se mostrou em seus palácios um baluarte seguro.
5. Eis que se unem os reis para atacar juntamente.
6. Apenas a vêem, atônitos de medo e estupor, fogem.
7. Aí o terror se apodera deles, uma angústia como a de mulher em parto,
8. ou como quando o vento do oriente despedaça as naus de Társis.
9. Como nos contaram, assim o vimos na cidade do Senhor dos exércitos, na cidade de nosso Deus; Deus a sustenta eternamente!
10. Ó Deus, relembremos a vossa misericórdia no interior de vosso templo.
11. Como o vosso nome, ó Deus, assim vosso louvor chega até os confins do mundo. Vossa mão direita está cheia de justiça.
12. Que o monte Sião se alegre. Que as cidades de Judá exultem, à vista de vossos juízos!
13. Relanceai o olhar sobre Sião, dai-lhe a volta, contai suas torres,
14. considerai suas fortificações, examinai seus palácios, para narrardes às gerações futuras:
15. como Deus é grande, nosso Deus dos séculos eternos; é ele o nosso guia.

 
Salmo 48

1. Ao mestre de canto. Salmo dos filhos de Coré.
2. Escutai, povos todos; atendei, todos vós que habitais a terra,
3. humildes e poderosos, tanto ricos como pobres.
4. Dirão os meus lábios palavras de sabedoria, e o meu coração meditará pensamentos profundos.
5. Ouvirei, atento, as sentenças inspiradas por Deus; depois, ao som da lira, explicarei meu oráculo.
6. Por que ter medo nos dias de infortúnio, quando me cerca a malícia dos meus inimigos?
7. Eles confiam em seus bens, e se vangloriam das grandes riquezas.
8. Mas nenhum homem a si mesmo pode salvar-se, nem pagar a Deus o seu resgate.
9. Caríssimo é o preço da sua alma, jamais conseguirá
10. prolongar indefinidamente a vida e escapar da morte,
11. porque ele verá morrer o sábio, assim como o néscio e o insensato, deixando a outrem os seus bens.
12. O túmulo será sua eterna morada, sua perpétua habitação, ainda que tenha dado a regiões inteiras o seu nome,
13. pois não permanecerá o homem que vive na opulência: ele é semelhante ao gado que se abate.
14. Este é o destino dos que estultamente em si confiam, tal é o fim dos que só vivem em delícias.
15. Como um rebanho serão postos no lugar dos mortos; a morte é seu pastor e os justos dominarão sobre eles. Depressa desaparecerão suas figuras, a região dos mortos será sua morada.
16. Deus, porém, livrará minha alma da habitação dos mortos, tomando-me consigo.
17. Não temas quando alguém se torna rico, quando aumenta o luxo de sua casa.
18. Em morrendo, nada levará consigo, nem sua fortuna descerá com ele aos infernos.
19. Ainda que em vida a si se felicitasse: Hão de te aplaudir pelos bens que granjeaste.
20. Ele irá para a companhia de seus pais, que nunca mais verão a luz.
21. O homem que vive na opulência e não reflete é semelhante ao gado que se abate.

 
Salmo 49

1. Salmo de Asaf. Falou o Senhor Deus e convocou toda a terra, desde o levante até o poente.
2. Do alto de Sião, ideal de beleza, Deus refulgiu:
3. nosso Deus vem vindo e não se calará. Um fogo abrasador o precede; ao seu redor, furiosa tempestade.
4. Do alto ele convoca os céus e a terra para julgar seu povo:
5. Reuni os meus fiéis, que selaram comigo aliança pelo sacrifício.
6. E os céus proclamam sua justiça, porque é o próprio Deus quem vai julgar.
7. Escutai, ó meu povo, que eu vou falar: Israel, vou testemunhar contra ti. Deus, o teu Deus, sou eu.
8. Não te repreendo pelos teus sacrifícios, pois teus holocaustos estão sempre diante de mim.
9. Não preciso do novilho do teu estábulo, nem dos cabritos de teus apriscos,
10. pois minhas são todas as feras das matas; há milhares de animais nos meus montes.
11. Conheço todos os pássaros do céu, e tudo o que se move nos campos.
12. Se tivesse fome, não precisava dizer-te, porque minha é a terra e tudo o que ela contém.
13. Porventura preciso comer carne de touros, ou beber sangue de cabrito?…
14. Oferece, antes, a Deus um sacrifício de louvor e cumpre teus votos para com o Altíssimo.
15. Invoca-me nos dias de tribulação, e eu te livrarei e me darás glória.
16. Ao pecador, porém, Deus diz: Por que recitas os meus mandamentos, e tens na boca as palavras da minha aliança?
17. Tu que aborreces meus ensinamentos e rejeitas minhas palavras?
18. Se vês um ladrão, te ajuntas a ele, e com adúlteros te associas.
19. Dás plena licença à tua boca para o mal e tua língua trama fraudes.
20. Tu te assentas para falar contra teu irmão, cobres de calúnias o filho de tua própria mãe.
21. Eis o que fazes, e eu hei de me calar? Pensas que eu sou igual a ti? Não, mas vou te repreender e te lançar em rosto os teus pecados.
22. Compreendei bem isto, vós que vos esqueceis de Deus: não suceda que eu vos arrebate e não haja quem vos salve.
23. Honra-me quem oferece um sacrifício de louvor; ao que procede retamente, a este eu mostrarei a salvação de Deus.

 
Salmo 50

1. Ao mestre de canto. Salmo de Davi,
2. quando o profeta Natã foi encontrá-lo, após o pecado com Betsabé.
3. Tende piedade de mim, Senhor, segundo a vossa bondade. E conforme a imensidade de vossa misericórdia, apagai a minha iniqüidade.
4. Lavai-me totalmente de minha falta, e purificai-me de meu pecado.
5. Eu reconheço a minha iniqüidade, diante de mim está sempre o meu pecado.
6. Só contra vós pequei, o que é mau fiz diante de vós. Vossa sentença assim se manifesta justa, e reto o vosso julgamento.
7. Eis que nasci na culpa, minha mãe concebeu-me no pecado.
8. Não obstante, amais a sinceridade de coração. Infundi-me, pois, a sabedoria no mais íntimo de mim.
9. Aspergi-me com um ramo de hissope e ficarei puro. Lavai-me e me tornarei mais branco do que a neve.
10. Fazei-me ouvir uma palavra de gozo e de alegria, para que exultem os ossos que triturastes.
11. Dos meus pecados desviai os olhos, e minhas culpas todas apagai.
12. Ó meu Deus, criai em mim um coração puro, e renovai-me o espírito de firmeza.
13. De vossa face não me rejeiteis, e nem me priveis de vosso santo Espírito.
14. Restituí-me a alegria da salvação, e sustentai-me com uma vontade generosa.
15. Então aos maus ensinarei vossos caminhos, e voltarão a vós os pecadores.
16. Deus, ó Deus, meu salvador, livrai-me da pena desse sangue derramado, e a vossa misericórdia a minha língua exaltará.
17. Senhor, abri meus lábios, a fim de que minha boca anuncie vossos louvores.
18. Vós não vos aplacais com sacrifícios rituais; e se eu vos ofertasse um sacrifício, não o aceitaríeis.
19. Meu sacrifício, ó Senhor, é um espírito contrito, um coração arrependido e humilhado, ó Deus, que não haveis de desprezar.
20. Senhor, pela vossa bondade, tratai Sião com benevolência, reconstruí os muros de Jerusalém.
21. Então aceitareis os sacrifícios prescritos, as oferendas e os holocaustos; e sobre vosso altar vítimas vos serão oferecidas.

 
Salmo 51

1. Ao mestre de canto. Hino de Davi.
2. Quando Doeg, o idumeu, veio dizer a Saul: Davi entrou na casa de Aquimelec.
3. Por que te glorias de tua malícia, ó infame prepotente?
4. Continuamente maquinas a perdição; tua língua é afiada navalha, tecedora de enganos.
5. Tu preferes o mal ao bem, a mentira à lealdade.
6. Só gostas de palavras perniciosas, ó língua pérfida!
7. Por isso Deus te destruirá, há de te excluir para sempre; ele te expulsará de tua tenda, e te extirpará da terra dos vivos.
8. Vendo isto, tomados de medo, os justos zombarão de ti, dizendo:
9. Eis o homem que não tomou a Deus por protetor, mas esperou na multidão de suas riquezas e se prevaleceu de seus próprios crimes.
10. Eu sou, porém, como a virente oliveira na casa de Deus: confio na misericórdia de Deus para sempre.
11. Louvar-vos-ei eternamente pelo que fizestes e cantarei vosso nome, na presença de vossos fiéis, porque é bom.

 
Salmo 52

1. Ao mestre de canto. Em melodia triste. Hino de Davi.
2. Diz o insensato em seu coração: Não há Deus. Corromperam-se os homens, seu proceder é abominável, não há um só que pratique o bem.
3. O Senhor, do alto do céu, observa os filhos dos homens para ver se, acaso, existe alguém sensato que busque a Deus.
4. Todos eles, porém, se extraviaram e se perverteram; não há mais ninguém que faça o bem, nem um, nem mesmo um só.
5. Não se emendarão esses obreiros do mal? Eles que devoram meu povo como quem come pão, não invocarão o Senhor?
6. Foram tomados de terror, não havendo nada para temer. Porque Deus dispersou os ossos dos que te assediam; foram confundidos porque Deus os rejeitou.
7. Ah, que venha de Sião a salvação de Israel! Quando Deus tiver mudado a sorte de seu povo, Jacó exultará e Israel se alegrará.

 
Salmo 53

1. Ao mestre de canto. Com instrumentos de corda. Hino de Davi,
2. quando os zifeus vieram dizer a Saul: Davi encontra-se escondido entre nós.
3. Pela honra de vosso nome, salvai-me, meu Deus! Por vosso poder, fazei-me justiça.
4. Ó meu Deus, escutai minha oração, atendei às minhas palavras,
5. pois homens soberbos insurgiram-se contra mim; homens violentos odeiam a minha vida: não têm Deus em sua presença.
6. Mas eis que Deus vem em meu auxílio, o Senhor sustenta a minha vida.
7. Fazei recair o mal em meus adversários e, segundo vossa fidelidade, destruí-os.
8. De bom grado oferecer-vos-ei um sacrifício, cantarei a glória de vosso nome, Senhor, porque é bom,
9. pois me livrou de todas as tribulações, e pude ver meus inimigos derrotados.

 
Salmo 54

1. Ao mestre de canto. Com instrumentos de corda. Hino de Davi.
2. Prestai ouvidos, ó Deus, à minha oração, não vos furteis à minha súplica;
3. Escutai-me e atendei-me. Na minha angústia agito-me num vaivém, perturbo-me
4. à voz do inimigo, sob os gritos do pecador. Eles lançam o mal contra mim, e me perseguem com furor.
5. Palpita-me no peito o coração, invade-me um pavor de morte.
6. Apoderam-se de mim o terror e o medo, e o pavor me assalta.
7. Digo-me, então: tivesse eu asas como a pomba, voaria para um lugar de repouso;
8. ir-me-ia bem longe morar no deserto.
9. Apressar-me-ia em buscar um abrigo contra o vendaval e a tempestade.
10. Destruí-os, Senhor, confundi-lhes as línguas, porque só vejo violência e discórdia na cidade.
11. Dia e noite percorrem suas muralhas, no seu interior só há injustiça e opressão.
12. Grassa a astúcia no seu meio, a iniqüidade e a fraude não deixam suas praças.
13. Se o ultraje viesse de um inimigo, eu o teria suportado; se a agressão partisse de quem me odeia, dele me esconderia.
14. Mas eras tu, meu companheiro, meu íntimo amigo,
15. com quem me entretinha em doces colóquios; com quem, por entre a multidão, íamos à casa de Deus.
16. Que a morte os colha de improviso, que eles desçam vivos à mansão dos mortos. Porque entre eles, em suas moradas, só há perversidade.
17. Eu, porém, bradarei a Deus, e o Senhor me livrará.
18. Pela tarde, de manhã e ao meio-dia lamentarei e gemerei; e ele ouvirá minha voz.
19. Dar-me-á a paz, livrando minha alma dos que me acossam, pois numerosos são meus inimigos.
20. O Senhor me ouvirá e os humilhará, ele que reina eternamente, porque não se emendem nem temem a Deus.
21. Cada um deles levanta a mão contra seus amigos. Todos violam suas alianças.
22. De semblante mais brando do que o creme, trazem, contudo, no coração a hostilidade; suas palavras são mais untuosas do que o óleo, porém, na verdade, espadas afiadas.
23. Depõe no Senhor os teus cuidados, porque ele será teu sustentáculo; não permitirá jamais que vacile o justo.
24. E vós, ó meu Deus, vós os precipitareis no fundo do abismo da morte. Os homens sanguinários e ardilosos não alcançarão a metade de seus dias! Quanto a mim, é em vós, Senhor, que ponho minha esperança.

 
Salmo 55

1. Ao mestre de canto. Conforme: Muda pomba de longínquas terras. Cântico de Davi, quando vai para junto dos filisteus, em Get.
2. Tende piedade de mim, ó Deus, porque aos pés me pisam os homens; sem cessar eles me oprimem combatendo.
3. Meus inimigos continuamente me espezinham, são numerosos os que me fazem guerra.
4. Ó Altíssimo, quando o terror me assalta, é em vós que eu ponho a minha confiança.
5. É em Deus, cuja promessa eu proclamo, sim, é em Deus que eu ponho minha esperança; nada temo: que mal me pode fazer um ser de carne?
6. O dia inteiro eles me difamam, seus pensamentos todos são para o meu mal;
7. Reúnem-se, armam ciladas, observam meus passos, e odeiam a minha vida.
8. Tratai-os segundo a sua iniqüidade. Ó meu Deus, em vossa cólera, prostrai esses povos.
9. Vós conheceis os caminhos do meu exílio, vós recolhestes minhas lágrimas em vosso odre; não está tudo escrito em vosso livro?
10. Sempre que vos invocar, meus inimigos recuarão: bem sei que Deus está por mim.
11. É em Deus, cuja promessa eu proclamo,
12. é em Deus que eu ponho minha esperança; nada temo: que mal me pode fazer um ser de carne?
13. Os votos que fiz, ó Deus, devo cumpri-los; oferecer-vos-ei um sacrifício de louvor,
14. porque da morte livrastes a minha vida, e da queda preservastes os meus pés, para que eu ande na presença de Deus, na luz dos vivos.

 
Salmo 56

1. Ao mestre de canto. Não destruas. Cântico de Davi, quando fugiu para a caverna, perseguido por Saul.
2. Tende piedade de mim, ó Deus, tende piedade de mim, porque a minha alma em vós procura o seu refúgio. Abrigo-me à sombra de vossas asas, até que a tormenta passe.
3. Clamo ao Deus Altíssimo, ao Deus que me cumula de benefícios.
4. Mande ele do céu auxílio que me salve, cubra de confusão meus perseguidores; envie-me Deus a sua graça e fidelidade.
5. Estou no meio de leões, que devoram os homens com avidez. Seus dentes são como lanças e flechas, suas línguas como espadas afiadas.
6. Elevai-vos, ó Deus, no mais alto dos céus, e sobre toda a terra brilhe a vossa glória.
7. Ante meus pés armaram rede; fizeram-me perder a coragem. Cavaram uma fossa diante de mim; caiam nela eles mesmos.
8. Meu coração está firme, ó Deus, meu coração está firme; vou cantar e salmodiar.
9. Desperta-te, ó minha alma; despertai, harpa e cítara! Quero acordar a aurora.
10. Entre os povos, Senhor, vos louvarei; salmodiarei a vós entre as nações,
11. porque aos céus se eleva a vossa misericórdia, e até as nuvens a vossa fidelidade.
12. Elevai-vos, ó Deus, nas alturas dos céus, e brilhe a vossa glória sobre a terra inteira.

 
Salmo 57

1. Ao mestre de canto. Não destruas. Cântico de Davi.
2. Será que realmente fazeis justiça, ó poderosos do mundo? Será que julgais pelo direito, ó filhos dos homens?
3. Não, pois em vossos corações cometeis iniqüidades, e vossas mãos distribuem injustiças sobre a terra.
4. Desde o seio materno se extraviaram os ímpios, desde o seu nascimento se desgarraram os mentirosos.
5. Semelhante ao das serpentes é o seu veneno, ao veneno da víbora surda que fecha os ouvidos
6. para não ouvir a voz dos fascinadores, do mágico que enfeitiça habilmente.
7. Ó Deus, quebrai-lhes os dentes na própria boca; parti as presas dos leões, ó Senhor.
8. Que eles se dissipem como as águas que correm, e fiquem suas flechas despontadas.
9. Passem como o caracol que deslizando se consome, sejam como o feto abortivo que não verá o sol.
10. Antes que os espinhos cheguem a aquecer vossas panelas, que o turbilhão os arrebate enquanto estão ainda verdes.
11. O justo terá a alegria de ver o castigo dos ímpios, e lavará os pés no sangue deles.
12. E os homens dirão: Sim, há recompensa para o justo; sim, há um Deus para julgar a terra.

 
Salmo 58

1. Para o mestre de canto. Não destruas. Cântico de Davi, quando Saul mandou cercar-lhe a casa para o matar.
2. Livrai-me, ó meu Deus, dos meus inimigos, defendei-me dos meus adversários.
3. Livrai-me dos que praticam o mal, salvai-me dos homens sanguinários.
4. Vede: armam ciladas para me tirar a vida, homens poderosos conspiram contra mim.
5. Senhor, não há em mim crime nem pecado. Sem que eu tenha culpa, eles acorrem e atacam. Despertai-vos, vinde para mim e vede,
6. porque vós, Senhor dos exércitos, sois o Deus de Israel. Erguei-vos para castigar esses pagãos, não tenhais misericórdia desses pérfidos.
7. Eles voltam todas as noites, latindo como cães, e percorrem a cidade toda.
8. Eis que se jactam à boca cheia, tendo nos lábios só injúrias, e dizem: Pois quem é que nos ouve?
9. Mas vós, Senhor, vos rides deles, zombais de todos os pagãos.
10. Ó vós que sois a minha força, é para vós que eu me volto. Porque vós, ó Deus, sois a minha defesa.
11. Ó meu Deus, vós sois todo bondade para mim. Venha Deus em meu auxílio, faça-me deleitar pela perda de meus inimigos.
12. Destruí-os, ó meu Deus, para que não percam o meu povo; conturbai-os, abatei-os com vosso poder, ó Deus, nosso escudo.
13. Cada palavra de seus lábios é um pecado. Que eles, surpreendidos em sua arrogância, sejam as vítimas de suas próprias calúnias e maldições.
14. Destruí-os em vossa cólera, destruí-os para que não subsistam, para que se saiba que Deus reina em Jacó e até os confins da terra.
15. Todas as noites eles voltam, latindo como cães, rondando pela cidade toda.
16. Vagueiam em busca de alimento; não se fartando, eles se põem a uivar.
17. Eu, porém, cantarei vosso poder, e desde o amanhecer celebrarei vossa bondade. Porque vós sois o meu amparo, um refúgio no dia da tribulação.
18. Ó vós, que sois a minha força, a vós, meu Deus, cantarei salmos porque sois minha defesa. Ó meu Deus, vós sois todo bondade para mim.

 
Salmo 59

1. Ao mestre de canto. Conforme: A lei é como o lírio. Poema didático de Davi,
2. quando guerreou contra os sírios da Mesopotâmia e os sírios de Soba e quando Joab, voltando, derrotou doze mil edomitas no vale do Sal.
3. Ó Deus, vós nos rejeitastes, rompestes nossas fileiras, estais irado; restabelecei-nos.
4. Fizestes nossa terra tremer e a fendestes; reparai suas brechas, pois ela vacila.
5. Impusestes duras provas ao vosso povo, fizestes-nos sorver um vinho atordoante.
6. Mas aos que vos temem destes um estandarte, a fim de que das flechas escapassem.
7. Para que vossos amigos fiquem livres, ajudai-nos com vossa destra, ouvi-nos.
8. Deus falou no seu santuário: Triunfarei, repartindo Siquém; medirei com o cordel o vale de Sucot.
9. Minha é a terra de Galaad, minha a de Manassés; Efraim é o elmo de minha cabeça; Judá, o meu cetro;
10. Moab é a bacia em que me lavo. Sobre Edom atirarei minhas sandálias, cantarei vitória sobre a Filistéia.
11. Quem me conduzirá à cidade fortificada? Quem me levará até Edom?
12. Quem, senão vós, ó Deus, que nos repelistes e já não saís à frente de nossas forças?
13. Dai-nos auxílio contra o inimigo, porque é vão qualquer socorro humano.
14. Com o auxílio de Deus faremos proezas, ele abaterá nossos inimigos.

 
Salmo 60

1. Ao mestre de canto. Com instrumentos de corda. De Davi.
2. Ouvi, ó Deus, o meu clamor, atendei à minha oração.
3. Dos confins da terra clamo a vós, quando me desfalece o coração.
4. Haveis de me elevar sobre um rochedo e me dar descanso, porque vós sois o meu refúgio, uma torre forte contra o inimigo.
5. Habite eu sempre em vosso tabernáculo, e me abrigue à sombra de vossas asas!
6. Pois vós, ó meu Deus, ouvistes os meus votos, destes-me a recompensa dos que temem vosso nome.
7. Acrescentai dias aos dias do rei, que seus anos atinjam muitas gerações.
8. Reine ele na presença de Deus eternamente, dai-lhe por salvaguarda vossa graça e fidelidade.
9. Assim, cantarei sempre o vosso nome e cumprirei todos os dias os meus votos.

 
Salmo 61

1. Ao mestre de canto. Segundo Iditum. Salmo de Davi.
2. Só em Deus repousa minha alma, só dele me vem a salvação.
3. Só ele é meu rochedo, minha salvação; minha fortaleza: jamais vacilarei.
4. Até quando, juntos, atacareis o próximo para derribá-lo como a uma parede já inclinada, como a um muro que se fendeu?
5. Sim, de meu excelso lugar pretendem derrubar-me; eles se comprazem na mentira. Enquanto me bendizem com os lábios, amaldiçoam-me no coração.
6. Só em Deus repousa a minha alma, é dele que me vem o que eu espero.
7. Só ele é meu rochedo e minha salvação; minha fortaleza: jamais vacilarei.
8. Só em Deus encontrarei glória e salvação. Ele é meu rochedo protetor, meu refúgio está nele.
9. Ó povo, confia nele de uma vez por todas; expandi, em sua presença, os vossos corações. Nosso refúgio está em Deus.
10. Os homens não passam de um sopro, e de uma mentira os filhos dos homens. Eles sobem na concha da balança, pois todos juntos são mais leves que o vento.
11. Não confieis na violência, nem espereis vãmente no roubo; crescendo vossas riquezas, não prendais nelas os vossos corações.
12. Numa só palavra de Deus compreendi duas coisas: a Deus pertence o poder,
13. ao Senhor pertence a bondade. Pois vós dais a cada um segundo suas obras.

 
Salmo 62

1. Salmo de Davi, quando se achava no deserto de Judá.
2. Ó Deus, vós sois o meu Deus, com ardor vos procuro. Minha alma está sedenta de vós, e minha carne por vós anela como a terra árida e sequiosa, sem água.
3. Quero vos contemplar no santuário, para ver vosso poder e vossa glória.
4. Porque vossa graça me é mais preciosa do que a vida, meus lábios entoarão vossos louvores.
5. Assim vos bendirei em toda a minha vida, com minhas mãos erguidas vosso nome adorarei.
6. Minha alma saciada como de fino manjar, com exultante alegria meus lábios vos louvarão.
7. Quando, no leito, me vem vossa lembrança, passo a noite toda pensando em vós.
8. Porque vós sois o meu apoio, exulto de alegria, à sombra de vossas asas.
9. Minha alma está unida a vós, sustenta-me a vossa destra.
10. Quanto aos que me procuram perder, cairão nas profundezas dos abismos,
11. serão passados a fio de espada, e se tornarão pasto dos chacais.
12. O rei, porém, se alegrará em Deus. Será glorificado todo o que jurar pelo seu nome, enquanto aos mendazes lhes será tapada a boca.

 
Salmo 63

1. Ao mestre de canto. Salmo de Davi.
2. Ouvi, Senhor, minha lastimosa voz. Do terror do inimigo protegei a minha vida,
3. preservai-me da conspiração dos maus, livrai-me da multidão dos malfeitores.
4. Eles aguçam suas línguas como espadas, desferem como flechas palavras envenenadas,
5. para atirarem, do esconderijo, sobre o inocente, a fim de feri-lo de improviso, não temendo nada.
6. Obstinam-se em seus maus desígnios, concertam, às ocultas, como armar seus laços, dizendo: Quem é que nos verá?
7. Planejam crimes e ocultam os seus planos; insondáveis são o espírito e o coração de cada um deles.
8. Mas Deus os atinge com as suas setas, eles são feridos de improviso.
9. Sua própria língua lhes preparou a ruína. Meneiam a cabeça os que os vêem.
10. Tomados de temor, proclamam ser obra de Deus, e reconhecem o que ele fez.
11. Alegra-se o justo no Senhor e nele confia. E triunfam todos os retos de coração.

 
Salmo 64

1. Ao mestre de canto. Salmo de Davi. Cântico.
2. A vós, ó Deus, convém o louvor em Sião, é a vós que todos vêm cumprir os seus votos,
3. vós que atendeis as preces. Todo homem acorre a vós,
4. por causa de seus pecados. Oprime-nos o peso de nossas faltas: vós no-las perdoais.
5. Feliz aquele que vós escolheis, e chamais para habitar em vossos átrios. Possamos nós ser saciados dos bens de vossa casa, da santidade de vosso templo.
6. Vós nos atendeis com os estupendos prodígios de vossa justiça, ó Deus, nosso salvador. Vós sois a esperança dos confins da terra, e dos mais longínquos mares.
7. Vós que, com a vossa força, sustentais montanhas, cingido de vosso poder.
8. Vós que aplacais os vagalhões do mar, o bramir de suas vagas e o tumultuar das nações pagãs.
9. À vista de vossos prodígios, temem-vos os habitantes dos confins da terra; saciais de alegria os extremos do oriente e do ocidente.
10. Visitastes a terra e a regastes, cumulando-a de fertilidade. De água encheu-se a divina fonte e fizestes germinar o trigo. Assim, pois, fertilizastes a terra:
11. irrigastes os seus sulcos, nivelastes e as sua glebas; amolecendo-as com as chuvas, abençoastes a sua sementeira.
12. Coroaste o ano com os vossos benefícios; onde passastes ficou a fartura.
13. Umedecidas as pastagens do deserto, revestem-se de alegria as colinas.
14. Os prados são cobertos de rebanhos, e os vales se enchem de trigais. Só há júbilo e cantos de alegria.

 
Salmo 65

1. Ao mestre de canto. Cântico. Salmo. Aclamai a Deus, toda a terra,
2. Cantai a glória de seu nome, rendei-lhe glorioso louvor.
3. Dizei a Deus: Vossas obras são estupendas! Tal é o vosso poder que os próprios inimigos vos glorificam.
4. Diante de vós se prosterne toda a terra, e cante em vossa honra a glória de vosso nome.
5. Vinde contemplar as obras de Deus: ele fez maravilhas entre os filhos dos homens.
6. Mudou o mar em terra firme; atravessaram o rio a pé enxuto; eis o motivo de nossa alegria.
7. Domina pelo seu poder para sempre, seus olhos observam as nações pagãs; que os rebeldes não levantem a cabeça.
8. Bendizei, ó povos, ao nosso Deus, publicai seus louvores.
9. Foi ele quem conservou a vida de nossa alma, e não permitiu resvalassem nossos pés.
10. Pois vós nos provastes, ó Deus, acrisolastes-nos como se faz com a prata.
11. Deixastes-nos cair no laço, carga pesada pusestes em nossas costas.
12. Submetestes-nos ao jugo dos homens, passamos pelo fogo e pela água; mas, por fim, nos destes alívio.
13. É, pois, com holocaustos que entrarei em vossa casa, pagarei os votos que fiz para convosco,
14. votos proferidos pelos meus lábios, quando me encontrava na tribulação.
15. Oferecerei em holocausto as mais belas ovelhas, com os mais gordos carneiros; imolarei touros e cabritos.
16. Vinde, ouvi vós todos que temeis ao Senhor. Eu vos narrarei quão grandes coisas Deus fez à minha alma.
17. Meus lábios o invocaram, com minha língua o louvei.
18. Se eu intentasse no coração o mal, não me teria ouvido o Senhor.
19. Mas Deus me ouviu; atendeu a voz da minha súplica.
20. Bendito seja Deus que não rejeitou a minha oração, nem retirou de mim a sua misericórdia.

 
Salmo 66

1. Ao mestre de canto. Com instrumentos de corda. Salmo. Cântico.
2. Tenha Deus piedade de nós e nos abençoe, faça resplandecer sobre nós a luz da sua face,
3. para que se conheçam na terra os seus caminhos e em todas as nações a sua salvação.
4. Que os povos vos louvem, ó Deus, que todos os povos vos glorifiquem.
5. Alegrem-se e exultem as nações, porquanto com eqüidade regeis os povos e dirigis as nações sobre a terra.
6. Que os povos vos louvem, ó Deus, que todos os povos vos glorifiquem.
7. A terra deu o seu fruto, abençoou-nos o Senhor, nosso Deus.
8. Sim, que Deus nos abençoe, e que o reverenciem até os confins da terra.

 
Salmo 67

1. Ao mestre de canto. Salmo de Davi. Cântico.
2. Levanta-se Deus; eis que se dispersam seus inimigos, e fogem diante dele os que o odeiam.
3. Eles se dissipam como a fumaça, como a cera que se derrete ao fogo. Assim perecem os maus diante de Deus.
4. Os justos, porém, exultam e se rejubilam em sua presença, e transbordam de alegria.
5. Cantai à glória de Deus, cantai um cântico ao seu nome, abri caminho para o que em seu carro avança pelo deserto. Senhor é o seu nome, exultai em sua presença.
6. É o pai dos órfãos e o protetor das viúvas, esse Deus que habita num templo santo.
7. Aos abandonados Deus preparou uma casa, conduz os cativos à liberdade e ao bem-estar; só os rebeldes ficam num deserto ardente.
8. Ó Deus, quando saíeis à frente de vosso povo, quando avançáveis pelo deserto,
9. a terra tremia, os próprios céus rorejavam diante de vós, o monte Sinai estremecia na presença do Deus de Israel.
10. Sobre vossa herança fizestes cair generosa chuva, e restaurastes suas forças fatigadas.
11. Vosso rebanho fixou habitação numa terra que vossa bondade, ó Deus, lhe havia preparado.
12. Apenas o Senhor profere uma palavra, tornam-se numerosas as mulheres que anunciam a boa nova:
13. Fogem, fogem os reis dos exércitos; os habitantes partilham os despojos.
14. Enquanto entre os rebanhos repousáveis, as asas da pomba refulgiam como prata, e de ouro era o brilho de suas penas.
15. Quando o Todo-poderoso dispersava os reis, caía a neve sobre o Salmon.
16. Os montes de Basã são elevados, alcantilados são os montes de Basã.
17. Montes escarpados, por que invejais a montanha que Deus escolheu para morar, para nela estabelecer uma habitação eterna?
18. São milhares e milhares os carros de Deus: do Sinai vem o Senhor ao seu santuário.
19. Subindo nas alturas levastes os cativos; recebestes homens como tributos, aqueles que recusaram habitar com o Senhor Deus.
20. Bendito seja o Senhor todos os dias; Deus, nossa salvação, leva nossos fardos:
21. nosso Deus é um Deus que salva, da morte nos livra o Senhor Deus.
22. Sim, Deus parte a cabeça de seus inimigos, o crânio hirsuto do que persiste em seus pecados.
23. Dissera o Senhor: Ainda que seja de Basã, eu os farei voltar, eu os trarei presos das profundezas do mar,
24. para que banhes no sangue os teus pés, e a língua de teus cães receba dos inimigos seu quinhão.
25. Contemplam a vossa chegada, ó Deus, a entrada do meu Deus, do meu rei, no santuário;
26. Vêm na frente os cantores, atrás os tocadores de cítara; no meio, as jovens tocando tamborins.
27. Bendizei a Deus nas vossas assembléias, bendizei ao Senhor, filhos de Israel!
28. Eis Benjamim, o mais jovem, que vai na frente; depois os príncipes de Judá, com seus esquadrões; os príncipes de Zabulon, os príncipes de Neftali.
29. Mostrai, ó Deus, o vosso poder, esse poder com que atuastes em nosso favor.
30. Pelo vosso templo em Jerusalém, ofereçam-vos presentes os reis!
31. Reprimi a fera dos canaviais, a manada dos touros com os novilhos das nações pagãs. Que eles se prosternem com barras de prata. Dispersai as nações que se comprazem na guerra.
32. Aproximem-se os grandes do Egito, estenda a Etiópia suas mãos para Deus.
33. Reinos da terra, cantai à glória de Deus, cantai um cântico ao Senhor,
34. que é levado pelos céus, pelos céus eternos; eis que ele fala, sua voz é potente:
35. Reconhecei o poder de Deus! Sua majestade se estende sobre Israel, sua potência aparece nas nuvens.
36. De seu santuário, temível é o Deus de Israel; é ele que dá ao seu povo a força e o poder. Bendito seja Deus!

 
Salmo 68

1. Ao mestre de canto. Segundo a melodia: Os lírios.
2. Salvai-me, ó Deus, porque as águas me vão submergir.
3. Estou imerso num abismo de lodo, no qual não há onde firmar o pé. Vim a dar em águas profundas, encobrem-me as ondas.
4. Já cansado de tanto gritar, enrouqueceu-me a garganta. Finaram-se-me os olhos, enquanto espero meu Deus.
5. Mais numerosos que os cabelos de minha cabeça são os que me detestam sem razão. São mais fortes que meus ossos os meus injustos inimigos. Porventura posso restituir o que não roubei?
6. Vós conheceis, ó Deus, a minha insipiência, e minhas faltas não vos são ocultas.
7. Os que esperam em vós, ó Senhor, Senhor dos exércitos, por minha causa não sejam confundidos. Que os que vos procuram, ó Deus de Israel, não tenham de que se envergonhar por minha causa,
8. pois foi por vós que eu sofri afrontas, cobrindo-se-me o rosto de confusão.
9. Tornei-me um estranho para meus irmãos, um desconhecido para os filhos de minha mãe.
10. É que o zelo de vossa casa me consumiu, e os insultos dos que vos ultrajam caíram sobre mim.
11. Por mortificar minha alma com jejuns, só recebi ultrajes.
12. Por trocar minhas roupas por um saco, tornei-me ludíbrio deles.
13. Falam de mim os que se assentam às portas da cidade, escarnecem-me os que bebem vinho.
14. Minha oração, porém, sobe até vós, Senhor, na hora de vossa misericórdia, ó Deus. Na vossa imensa bondade, escutai-me, segundo a fidelidade de vosso socorro.
15. Tirai-me do lodo, para que não me afunde. Livrai-me dos que me detestam, salvai-me das águas profundas.
16. Não me deixeis submergir nas muitas águas, nem me devore o abismo. Nem se feche sobre mim a boca do poço.
17. Ouvi-me, Senhor, pois que vossa bondade é compassiva; em nome de vossa misericórdia, voltai-vos para mim.
18. Não escondais ao vosso servo a vista de vossa face; atendei-me depressa, pois estou muito atormentado.
19. Aproximai-vos de minha alma, livrai-me de meus inimigos.
20. Bem vedes minha vergonha, confusão e ignomínia. Ante vossos olhos estão os que me perseguem:
21. seus ultrajes abateram meu coração e desfaleci. Esperei em vão quem tivesse compaixão de mim, quem me consolasse, e não encontrei.
22. Puseram fel no meu alimento, na minha sede deram-me vinagre para beber.
23. Torne-se a sua mesa um laço para eles, e uma armadilha para os seus amigos.
24. Que seus olhos se escureçam para não mais ver, que seus passos sejam sempre vacilantes.
25. Despejai sobre eles a vossa cólera, e os atinja o fogo de vossa ira.
26. Seja devastada a sua morada, não haja quem habite em suas tendas,
27. porque perseguiram aquele a quem atingistes, e aumentaram a dor daquele a quem feristes.
28. Deixai-os acumular falta sobre falta, e jamais sejam por vós reconhecidos como justos.
29. Sejam riscados do livro dos vivos, e não se inscrevam os seus nomes entre os justos.
30. Eu, porém, miserável e sofredor, seja protegido, ó Deus, pelo vosso auxílio.
31. Cantarei um cântico de louvor ao nome do Senhor, e o glorificarei com um hino de gratidão.
32. E isto a Deus será mais agradável que um touro, do que um novilho com chifres e unhas.
33. Ó vós, humildes, olhai e alegrai-vos; vós que buscais a Deus, reanime-se o vosso coração,
34. porque o Senhor ouve os necessitados, e seu povo cativo não despreza.
35. Louvem-no os céus e a terra, os mares e tudo o que neles se move.
36. Sim, Deus salvará Sião e reconstruirá as cidades de Judá; para aí hão de voltar e a possuirão.
37. A linhagem de seus servos a receberá em herança, e os que amam o seu nome aí fixarão sua morada.

 
Salmo 69

1. Ao mestre de canto. De Davi. Para servir de lembrança.
2. Comprazei-vos, ó Deus, em me livrar; depressa, Senhor, vinde em meu auxílio.
3. Sejam confundidos e humilhados os que odeiam a minha vida. Recuem e corem de vergonha os que se comprazem com meus males.
4. Afastem-se, cobertos de confusão, os que me dizem: Ah! Ah!
5. Pelo contrário, exultem e se alegrem em vós todos os que vos procuram. Que repitam sem cessar: Glória ao Senhor! aqueles que desejam vosso auxílio.
6. Quanto a mim, sou pobre e desvalido. Socorrei-me, ó Deus, sois meu protetor e libertador. Senhor, não tardeis mais.

 
Salmo 70

1. É em vós, Senhor, que procuro meu refúgio; que minha esperança não seja para sempre confundida.
2. Por vossa justiça, livrai-me, libertai-me; inclinai para mim vossos ouvidos e salvai-me.
3. Sede-me uma rocha protetora, uma cidadela forte para me abrigar: e vós me salvareis, porque sois meu rochedo e minha fortaleza.
4. Meu Deus, livrai-me da mãos do iníquo, das garras do inimigo e do opressor,
5. porque vós sois, ó meu Deus, minha esperança. Senhor, desde a juventude vós sois minha confiança.
6. Em vós eu me apoiei desde que nasci, desde o seio materno sois meu protetor; em vós eu sempre esperei.
7. Tornei-me para a turba um objeto de admiração, mas vós tendes sido meu poderoso apoio.
8. Minha boca andava cheia de vossos louvores, cantando continuamente vossa glória.
9. Na minha velhice não me rejeiteis, ao declinar de minhas forças não me abandoneis.
10. Porque falam de mim meus inimigos e os que me observam conspiram contra mim,
11. dizendo: Deus o abandonou; persegui-o e prendei-o, porque não há ninguém para o livrá-lo.
12. Ó Deus, não vos afasteis de mim. Meu Deus, apressai-vos em me socorrer.
13. Sejam confundidos e pereçam os que atentam contra minha vida, sejam cobertos de vergonha e confusão os que procuram minha desgraça.
14. Eu, porém, hei de esperar sempre, e, dia após dia, vos louvarei mais.
15. Minha boca proclamará vossa justiça e vossos auxílios de todos os dias, sem poder enumerá-los todos.
16. Os portentos de Deus eu narrarei, só a vossa justiça hei de proclamar, Senhor.
17. Vós me tendes instruído, ó Deus, desde minha juventude, e até hoje publico as vossas maravilhas.
18. Na velhice e até os cabelos brancos, ó Deus, não me abandoneis, a fim de que eu anuncie à geração presente a força de vosso braço, e vosso poder à geração vindoura,
19. e vossa justiça, ó Deus, que se eleva à altura dos céus, pela qual vós fizestes coisas grandiosas. Senhor, quem vos é comparável?
20. Vós me fizestes passar por numerosas e amargas tribulações para, de novo, me fazer viver e dos abismos da terra novamente me tirar.
21. Aumentai minha grandeza, e de novo consolai-me.
22. Celebrarei então vossa fidelidade nas cordas da lira, eu vos cantarei na harpa, ó Santo de Israel.
23. Meus lábios e minha alma que resgatastes exultarão de alegria quando eu cantar a vossa glória.
24. E, dia após dia, também minha língua exaltará vossa justiça, porque ficaram cobertos de vergonha e confusão aqueles que buscavam minha perdição.

 
Salmo 71

1. De Salomão. Ó Deus, confiai ao rei os vossos juízos. Entregai a justiça nas mãos do filho real,
2. para que ele governe com justiça vosso povo, e reine sobre vossos humildes servos com eqüidade.
3. Produzirão as montanhas frutos de paz ao vosso povo; e as colinas, frutos de justiça.
4. Ele protegerá os humildes do povo, salvará os filhos dos pobres e abaterá o opressor.
5. Ele viverá tão longamente como dura o sol, tanto quanto ilumina a lua, através das gerações.
6. Descerá como a chuva sobre a relva, como os aguaceiros que embebem a terra.
7. Florescerá em seus dias a justiça, e a abundância da paz até que cesse a lua de brilhar.
8. Ele dominará de um ao outro mar, desde o grande rio até os confins da terra.
9. Diante dele se prosternarão seus inimigos, e seus adversários lamberão o pó.
10. Os reis de Társis e das ilhas lhe trarão presentes, os reis da Arábia e de Sabá oferecer-lhe-ão seus dons.
11. Todos os reis hão de adorá-lo, hão de servi-lo todas as nações.
12. Porque ele livrará o infeliz que o invoca, e o miserável que não tem amparo.
13. Ele se apiedará do pobre e do indigente, e salvará a vida dos necessitados.
14. Ele o livrará da injustiça e da opressão, e preciosa será a sua vida ante seus olhos.
15. Assim ele viverá e o ouro da Arábia lhe será ofertado; por ele hão de rezar sempre e o bendirão perpetuamente.
16. Haverá na terra fartura de trigo, suas espigas ondularão no cume das colinas como as ramagens do Líbano; e o povo das cidades florescerá como as ervas dos campos.
17. Seu nome será eternamente bendito, e durará tanto quanto a luz do sol. Nele serão abençoadas todas as tribos da terra, bem-aventurado o proclamarão todas as nações.
18. Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, que, só ele, faz maravilhas.
19. Bendito seja eternamente seu nome glorioso, e que toda a terra se encha de sua glória. Amém! Amém!
20. Aqui terminam as preces de Davi, filho de Jessé.

 
Salmo 72

1. Salmo de Asaf. Oh, como Deus é bom para os corações retos, e o Senhor para com aqueles que têm o coração puro!
2. Contudo, meus pés iam resvalar, por pouco não escorreguei,
3. porque me indignava contra os ímpios, vendo o bem-estar dos maus:
4. não existe sofrimento para eles, seus corpos são robustos e sadios.
5. Dos sofrimentos dos mortais não participam, não são atormentados como os outros homens.
6. Eles se adornam com um colar de orgulho, e se cobrem com um manto de arrogância.
7. Da gordura que os incha sai a iniqüidade, e transborda a temeridade.
8. Zombam e falam com malícia, discursam, altivamente, em tom ameaçador.
9. Com seus propósitos afrontam o céu e suas línguas ferem toda a terra.
10. Por isso se volta para eles o meu povo, e bebe com avidez das suas águas.
11. E dizem então: Porventura Deus o sabe? Tem o Altíssimo conhecimento disto?
12. Assim são os pecadores que, tranqüilamente, aumentam suas riquezas.
13. Então foi em vão que conservei o coração puro e na inocência lavei as minhas mãos?
14. Pois tenho sofrido muito e sido castigado cada dia.
15. Se eu pensasse: Também vou falar como eles, seria infiel à raça de vossos filhos.
16. Reflito para compreender este problema, mui penosa me pareceu esta tarefa,
17. até o momento em que entrei no vosso santuário e em que me dei conta da sorte que os espera.
18. Sim, vós os colocais num terreno escorregadio, à ruína vós os conduzis.
19. Eis que subitamente se arruinaram, sumiram, destruídos por catástrofe medonha.
20. Como de um sonho ao se despertar, Senhor, levantando-vos, desprezais a sombra deles.
21. Quando eu me exasperava e se me atormentava o coração,
22. eu ignorava, não entendia, como um animal qualquer.
23. Mas estarei sempre convosco, porque vós me tomastes pela mão.
24. Vossos desígnios me conduzirão, e, por fim, na glória me acolhereis.
25. Afora vós, o que há para mim no céu? Se vos possuo, nada mais me atrai na terra.
26. Meu coração e minha carne podem já desfalecer, a rocha de meu coração e minha herança eterna é Deus.
27. Sim, perecem aqueles que de vós se apartam, destruís os que procuram satisfação fora de vós.
28. Mas, para mim, a felicidade é me aproximar de Deus, é pôr minha confiança no Senhor Deus, a fim de narrar as vossas maravilhas diante das portas da filha de Sião.

 
Salmo 73

1. Hino de Asaf. Por que, Senhor, persistis em nos rejeitar? Por que se inflama vossa ira contra as ovelhas de vosso rebanho?
2. Recordai-vos de vosso povo que elegestes outrora, da tribo que resgatastes para vossa possessão, da montanha de Sião onde fizestes vossa morada.
3. Dirigi vossos passos a estes lugares definitivamente devastados; o inimigo tudo destruiu no santuário.
4. Os adversários rugiam no local de vossas assembléias, como troféus hastearam suas bandeiras.
5. Pareciam homens a vibrar o machado na floresta espessa.
6. Rebentaram os portais do templo com malhos e martelos,
7. atearam fogo ao vosso santuário, profanaram, arrasaram a morada do vosso nome.
8. Disseram em seus corações: Destruamo-los todos juntos; incendiai todos os lugares santos da terra.
9. Não vemos mais nossos emblemas, já não há nenhum profeta e ninguém entre nós que saiba até quando…
10. Ó Deus, até quando nos insultará o inimigo? O adversário blasfemará vosso nome para sempre?
11. Por que retirais a vossa mão? Por que guardais vossa destra em vosso seio?
12. Entretanto, Deus é meu rei desde os tempos antigos, ele que opera a salvação por toda a terra.
13. Vosso poder abriu o mar, esmagastes nas águas as cabeças de dragões.
14. Quebrastes as cabeças do Leviatã, e as destes como pasto aos monstros do mar.
15. Fizestes jorrar fontes e torrentes, secastes rios caudalosos.
16. Vosso é o dia, a noite vos pertence: vós criastes a lua e o sol,
17. Vós marcastes à terra seus confins, estabelecestes o inverno e o verão.
18. Lembrai-vos: o inimigo vos insultou, Senhor, e um povo insensato ultrajou o vosso nome.
19. Não abandoneis ao abutre a vida de vossa pomba, não esqueçais para sempre a vida de vossos pobres.
20. Olhai para a vossa aliança, porque todos os recantos da terra são antros de violência.
21. Que os oprimidos não voltem confundidos, que o pobre e o indigente possam louvar o vosso nome.
22. Levantai-vos, ó Deus, defendei a vossa causa. Lembrai-vos das blasfêmias que continuamente vos dirige o insensato.
23. Não olvideis os insultos de vossos adversários, e o tumulto crescente dos que se insurgem contra vós.

 
Salmo 74

1. Ao mestre de canto. Não destruas. Salmo de Asaf. Cântico.
2. Nós vos louvamos, Senhor, nós vos louvamos; glorificamos vosso nome e anunciamos vossas maravilhas.
3. No tempo que fixei, julgarei o justo juízo.
4. Vacile, embora, a terra com todos os seus habitantes, fui eu quem deu firmeza às suas colunas.
5. Digo aos arrogantes: Não sejais insolentes; aos ímpios: Não levanteis vossa fronte,
6. não ergais contra o Altíssimo a vossa cabeça, deixai de falar a Deus com tanta insolência.
7. Não é do oriente, nem do ocidente, nem do deserto, nem das montanhas que vem a salvação.
8. Mas Deus é o juiz; a um ele abate, a outro exalta.
9. Há na mão do Senhor uma taça de vinho espumante e aromático. Dela dá de beber. E até as fezes hão de esgotá-la; hão de sorvê-la os ímpios todos da terra.
10. Eu, porém, exultarei para sempre, salmodiarei ao Deus de Jacó.
11. Abaterei todas as potências dos ímpios, enquanto o poder dos justos será exaltado.

 
Salmo 75

1. Ao mestre de canto. Com instrumentos de corda. Salmo de Asaf. Cântico.
2. Deus se fez conhecer em Judá, seu nome é grande em Israel.
3. Em Jerusalém está seu tabernáculo, e em Sião a sua morada.
4. Lá ele quebrou as fulminantes flechas do arco, os escudos, as espadas e todas as armas.
5. O esplendor luminoso de vosso poder manifestou-se do alto das eternas montanhas.
6. Foram despojados os guerreiros ousados, eles dormem tranqüilos seu último sono. Os valentes sentiram fraquejar suas mãos.
7. Só com a vossa ameaça, ó Deus de Jacó, ficaram inertes carros e cavalos.
8. Terrível sois, quem vos poderá resistir, diante do furor de vossa cólera?
9. Do alto do céu proclamastes a sentença; calou-se a terra de tanto pavor,
10. quando Deus se levantou para pronunciar a sentença de libertação em favor dos oprimidos da terra.
11. Pois o furor de Edom vos glorificará e os sobreviventes de Emat vos festejarão.
12. Fazei votos ao Senhor vosso Deus e cumpri-os. Todos os que o cercam tragam oferendas ao Deus temível,
13. a ele que abate o orgulho dos grandes e que é temido pelos reis da terra.

 
Salmo 76

1. Ao mestre de canto, segundo Iditum. Salmo de Asaf.
2. Minha voz se eleva para Deus e clamo. Elevo minha voz a Deus para que ele me atenda;
3. No dia de angústia procuro o Senhor. De noite minhas mãos se levantam para ele sem descanso; e, contudo, minha alma recusa toda consolação.
4. Faz-me gemer a lembrança de Deus; na minha meditação, sinto o espírito desfalecer.
5. Vós me conservais os olhos abertos, estou perturbado, falta-me a palavra.
6. Penso nos dias passados,
7. lembro-me dos anos idos. De noite reflito no fundo do coração e, meditando, indaga meu espírito:
8. Porventura Deus nos rejeitará para sempre? Não mais há de nos ser propício?
9. Estancou-se sua misericórdia para o bom? Estará sua promessa desfeita para sempre?
10. Deus se terá esquecido de ter piedade? Ou sua cólera anulou sua clemência?
11. E concluo então: O que me faz sofrer é que a destra do Altíssimo não é mais a mesma…
12. Das ações do Senhor eu me recordo, lembro-me de suas maravilhas de outrora.
13. Reflito em todas vossas obras, e em vossos prodígios eu medito.
14. Ó Deus, santo é o vosso proceder. Que deus há tão grande quanto o nosso Deus?
15. Vós sois o Deus dos prodígios, vosso poder manifestastes entre os povos.
16. Com o poder de vosso braço resgatastes vosso povo, os filhos de Jacó e de José.
17. As águas vos viram, Senhor, as águas vos viram; elas tremeram e as vagas se puseram em movimento.
18. Em torrentes de água as nuvens se tornaram, elas fizeram ouvir a sua voz, de todos os lados fuzilaram vossas flechas.
19. Na procela ribombaram os vossos trovões, os relâmpagos iluminaram o globo; abalou-se com o choque e tremeu a terra toda.
20. Vós vos abristes um caminho pelo mar, uma senda no meio das muitas águas, permanecendo invisíveis vossos passos.
21. Como um rebanho conduzistes vosso povo, pelas mãos de Moisés e de Aarão.

 
Salmo 77

1. Hino de Asaf. Escuta, ó meu povo, minha doutrina; às palavras de minha boca presta atenção.
2. Abrirei os lábios, pronunciarei sentenças, desvendarei os mistérios das origens.
3. O que ouvimos e aprendemos, através de nossos pais,
4. nada ocultaremos a seus filhos, narrando à geração futura os louvores do Senhor, seu poder e suas obras grandiosas.
5. Ele promulgou uma lei para Jacó, instituiu a legislação de Israel, para que aquilo que confiara a nossos pais, eles o transmitissem a seus filhos,
6. a fim de que a nova geração o conhecesse, e os filhos que lhes nascessem pudessem também contar aos seus.
7. Aprenderiam, assim, a pôr em Deus sua esperança, a não esquecer as divinas obras, a observar as suas leis;
8. e a não se tornar como seus pais, geração rebelde e contumaz, de coração desviado, de espírito infiel a Deus.
9. Os filhos de Efraim, hábeis no arco, voltaram as costas no dia do combate.
10. Não guardaram a divina aliança, recusaram observar a sua lei.
11. Eles esqueceram suas obras, e as maravilhas operadas ante seus olhos.
12. Em presença de seus pais, ainda em terras do Egito, ele fez grandes prodígios nas planícies de Tanis.
13. O mar foi dividido para lhes dar passagem, represando as águas, verticais como um dique;
14. De dia ele os conduziu por trás de uma nuvem, e à noite ao clarão de uma flama.
15. Rochedos foram fendidos por ele no deserto, com torrentes de água os dessedentara.
16. Da pedra fizera jorrar regatos, e manar água como rios.
17. Entretanto, continuaram a pecar contra ele, e a se revoltar contra o Altíssimo no deserto.
18. Provocaram o Senhor em seus corações, reclamando iguarias de suas preferências.
19. E falaram contra Deus: Deus será capaz de nos servir uma mesa no deserto?
20. Eis que feriu a rocha para fazer jorrar dela água em torrentes. Mas poderia ele nos dar pão e preparar carne para seu povo?
21. O Senhor ouviu e se irritou: sua cólera se acendeu contra Jacó, e sua ira se desencadeou contra Israel,
22. porque não tiveram fé em Deus, nem confiaram em seu auxílio.
23. Contudo, ele ordenou às nuvens do alto, e abriu as portas do céu.
24. Fez chover o maná para saciá-los, deu-lhes o trigo do céu.
25. Pôde o homem comer o pão dos fortes, e lhes mandou víveres em abundância,
26. depois fez soprar no céu o vento leste, e seu poder levantou o vento sul.
27. Fez chover carnes, então, como poeira, numerosas aves como as areias do mar,
28. As quais caíram em seus acampamentos, ao redor de suas tendas.
29. Delas comeram até se fartarem, e satisfazerem os seus desejos.
30. Mas apenas o apetite saciaram, estando-lhes na boca ainda o alimento,
31. desencadeia-se contra eles a cólera divina, fazendo perecer a sua elite, e prostrando a juventude de Israel.
32. Malgrado tudo isso, persistiram em pecar, não se deixaram persuadir por seus prodígios.
33. Então, Deus pôs súbito termo a seus dias, e seus anos tiveram repentino fim.
34. Quando os feria, eles o procuravam, e de novo se voltavam para Deus.
35. E se lembravam que Deus era o seu rochedo, e que o Altíssimo lhes era o salvador.
36. Mas suas palavras enganavam, e lhe mentiam com a sua língua.
37. Seus corações não falavam com franqueza, não eram fiéis à sua aliança.
38. Mas ele, por compaixão, perdoava-lhes a falta e não os exterminava. Muitas vezes reteve sua cólera, não se entregando a todo o seu furor.
39. Sabendo que eles eram simples carne, um sopro só, que passa sem voltar.
40. Quantas vezes no deserto o provocaram, e na solidão o afligiram!
41. Recomeçaram a tentar a Deus, a exasperar o Santo de Israel.
42. Esqueceram a obra de suas mãos, no dia em que os livrou do adversário,
43. quando operou seus prodígios no Egito e maravilhas nas planícies de Tânis;
44. quando converteu seus rios em sangue, a fim de impedi-los de beber de suas águas;
45. quando enviou moscas para os devorar e rãs que os infestaram;
46. quando entregou suas colheitas aos pulgões, e aos gafanhotos o fruto de seu trabalho;
47. quando arrasou suas vinhas com o granizo, e suas figueiras com a geada;
48. quando extinguiu seu gado com saraivadas, e seus rebanhos pelos raios;
49. quando descarregou o ardor de sua cólera, indignação, furor, tribulação, um esquadrão de anjos da desgraça.
50. Deu livre curso à sua cólera; longe de preservá-los da morte, ele entregou à peste os seres vivos.
51. Matou os primogênitos no Egito, os primeiros partos nas habitações de Cam,
52. enquanto retirou seu povo como ovelhas, e o fez atravessar o deserto como rebanho.
53. Conduziu-o com firmeza sem nada ter que temer, enquanto aos inimigos os submergiu no mar.
54. Ele os levou para uma terra santa, até os montes que sua destra conquistou.
55. Ele expulsou nações diante deles, distribuiu-lhes as terras como herança, fez habitar em suas tendas as tribos de Israel.
56. Mas ainda tentaram a Deus e provocaram o Altíssimo, e não observaram os seus preceitos.
57. Transviaram-se e prevaricaram como seus pais, erraram o alvo, como um arco mal entesado.
58. Provocaram-lhe a ira com seus lugares altos, e inflamaram-lhe o zelo com seus ídolos.
59. À vista disso Deus se encolerizou e rejeitou Israel severamente.
60. Abandonou o santuário de Silo, tabernáculo onde habitara entre os homens.
61. Deixou conduzir cativa a arca de sua força, permitiu que a arca de sua glória caísse em mãos inimigas.
62. Abandonou seu povo à espada, e se irritou contra a sua herança.
63. O fogo devorou sua juventude, suas filhas não encontraram desponsório.
64. Seus sacerdotes pereceram pelo gládio, e as viúvas não choraram mais seus mortos.
65. Então, o Senhor despertou como de um sono, como se fosse um guerreiro dominado pelo vinho.
66. E feriu pelas costas os inimigos, infligindo-lhes eterna igomínia.
67. Rejeitou o tabernáculo de José, e repeliu a tribo de Efraim.
68. Mas escolheu a de Judá e o monte Sião, monte de predileção.
69. Construiu seu santuário, qual um céu, estável como a terra, firmada para sempre.
70. Escolhendo a Davi, seu servo, e o tomando dos apriscos das ovelhas.
71. Chamou-o do cuidado das ovelhas e suas crias, para apascentar o rebanho de Jacó, seu povo, e de Israel, sua herança.
72. Davi foi para eles um pastor reto de coração, que os dirigiu com mão prudente.

 
Salmo 78

1. Salmo de Asaf. Senhor, povos infiéis invadiram a vossa herança, profanaram o vosso santo templo. De Jerusalém fizeram um montão de ruínas.
2. Os corpos de vossos servos expuseram como pasto às aves, e os de vossos fiéis às feras da terra.
3. Rios de sangue fizeram correr em torno de Jerusalém, e nem sequer havia quem os sepultasse.
4. Tornamo-nos, para nossos vizinhos, objetos de desprezo, de escárnio e zombaria para os povos que nos cercam.
5. Até quando, Senhor?… Será eterna vossa cólera? Será como um braseiro ardente o vosso zelo?
6. Desferi, antes, vossa ira sobre as nações que não vos conhecem, e sobre os reinos que não invocam o vosso nome,
7. pois Jacó foi por eles devorado e devastaram a sua habitação.
8. De nossos antepassados esqueçais as culpas; vossa misericórdia venha logo ao nosso encontro, porque estamos reduzidos a extrema miséria.
9. Ajudai-nos, ó Deus salvador, pela glória de vosso nome; livrai-nos e perdoai-nos os nossos pecados pelo amor de vosso nome.
10. Por que hão de dizer as nações pagãs: Onde está o seu Deus? Mostrai-lhes, a esses pagãos, diante de nossos olhos, que pedireis conta do sangue de vossos fiéis, por eles derramado.
11. Cheguem até vós os gemidos dos cativos: livrai, por vosso braço, os condenados à pena de morte.
12. Sobre as cabeças dos nossos vizinhos recaiam, sete vezes, as injúrias com que vos ultrajaram, Senhor.
13. Quanto a nós, vosso povo e ovelhas de vosso rebanho, glorificaremos a vós perpetuamente; de geração em geração cantaremos os vossos louvores.

 
Salmo 79

1. Ao mestre de canto. Conforme: A lei é como os lírios. Salmo de Asaf.
2. Escutai, ó pastor de Israel, vós que levais José como um rebanho.
3. Vós que assentais acima dos querubins, mostrai vosso esplendor em presença de Efraim, Benjamim e Manassés. Despertai vosso poder, e vinde salvar-nos.
4. Restaurai-nos, ó Senhor; mostrai-nos serena a vossa face e seremos salvos.
5. Ó Deus dos exércitos, até quando vos irritareis contra o vosso povo em oração?
6. Vós o nutristes com o pão das lágrimas, e o fizestes sorver um copioso pranto.
7. Vós nos tornastes uma presa disputada dos vizinhos: os inimigos zombam de nós.
8. Restaurai-nos, ó Deus dos exércitos; mostrai-nos serena a vossa face e seremos salvos.
9. Uma vinha do Egito vós arrancastes; expulsastes povos para a replantar.
10. O solo vós lhes preparastes; ela lançou raízes nele e se espalhou na terra.
11. As montanhas se cobriram com sua sombra, seus ramos ensombraram os cedros de Deus.
12. Até o mar ela estendeu sua ramagem, e até o rio os seus rebentos.
13. Por que derrubastes os seus muros, de sorte que os passantes a vindimem,
14. e a devaste o javali do mato, e sirva de pasto aos animais do campo?
15. Voltai, ó Deus dos exércitos; olhai do alto céu, vede e vinde visitar a vinha.
16. Protegei este cepo por vós plantado, este rebento que vossa mão cuidou.
17. Aqueles que a queimaram e cortaram pereçam em vossa presença ameaçadora.
18. Estendei a mão sobre o homem que escolhestes, sobre o homem que haveis fortificado.
19. E não mais de vós nos apartaremos; conservai-nos a vida e então vos louvaremos.
20. Restaurai-nos, Senhor, ó Deus dos exércitos; mostrai-nos serena a vossa face e seremos salvos.

 
Salmo 80

1. Ao mestre de canto. Com a Gitiena. Salmo de Asaf.
2. Exultai em Deus, nosso protetor, aclamai o Deus de Jacó.
3. Tocai o saltério, vibrai os tímbales, tangei a melodiosa harpa e a lira.
4. Ressoai a trombeta na lua nova, na lua cheia, dia de grande festa,
5. porque é uma instituição para Israel, um preceito do Deus de Jacó;
6. uma lei que foi imposta a José, quando ele entrou em luta com o Egito. Eis que ouviu uma língua desconhecida:
7. Aliviei os seus ombros de fardos, já não carregam cestos as suas mãos,
8. na tribulação gritaste para mim e te livrei; da nuvem que troveja eu respondi, junto às águas de Meribá eu te provei.
9. Escuta, ó povo, a minha advertência: Possas tu me ouvir, ó Israel!
10. Não haja em teu meio um deus estranho; nem adores jamais o deus de outro povo.
11. Sou eu, o Senhor, teu Deus, eu que te retirei do Egito; basta abrires a boca e te satisfarei.
12. No entanto, meu povo não ouviu a minha voz, Israel não me quis obedecer.
13. Por isso, os abandonei à dureza de seus corações. Deixei-os que seguissem seus caprichos.
14. Oh, se meu povo me tivesse ouvido, se Israel andasse em meus caminhos!
15. Eu teria logo derrotado seus inimigos, e desceria minha mão contra seus adversários.
16. Os inimigos do Senhor lhes renderiam homenagens, estaria assegurado, para sempre, o destino do meu povo.
17. Eu o teria alimentado com a flor do trigo, e com o mel do rochedo o fartaria.

 
Salmo 81

1. Salmo de Asaf. Levanta-se Deus na assembléia divina, entre os deuses profere o seu julgamento.
2. Até quando julgareis iniquamente, favorecendo a causa dos ímpios?
3. Defendei o oprimido e o órfão, fazei justiça ao humilde e ao pobre,
4. livrai o oprimido e o necessitado, tirai-o das garras dos ímpios.
5. Eles não querem saber nem compreender, andam nas trevas, vacilam os fundamentos da terra.
6. Eu disse: Sois deuses, sois todos filhos do Altíssimo.
7. Contudo, morrereis como simples homens e, como qualquer príncipe, caireis.
8. Levantai-vos, Senhor, para julgar a terra, porque são vossas todas as nações.

 
Salmo 82

1. Cântico. Salmo de Asaf
2. Senhor, não fiqueis silencioso, não permaneçais surdo, nem insensível, ó Deus.
3. Porque eis que se tumultuam vossos inimigos, levantam a cabeça aqueles que vos odeiam.
4. Urdem tramas para o vosso povo, conspiram contra vossos protegidos.
5. Vinde, dizem eles, exterminemo-lo dentre os povos, desapareça a própria lembrança do nome de Israel.
6. Com efeito, eles conspiram de comum acordo e contra vós fazem coalizão:
7. os nômades de Edom e os ismaelitas, Moab e os agarenos,
8. Gebal, Amon e Amalec, a Filistéia com as gentes de Tiro.
9. Também os assírios a eles se uniram, e aos filhos de Lot ofereceram a sua força.
10. Tratai-os como Madiã e Sísara, e Jabin junto à torrente de Cison!
11. Eles pereceram todos em Endor e serviram de adubo para a terra.
12. Tratai seus chefes como Oreb e Zeb; como Zebéia e Sálmana, seus príncipes,
13. que disseram: Tomemos posse das terras onde Deus reside.
14. Ó meu Deus, fazei deles como folhas que o turbilhão revolve, como a palha carregada pelo vento,
15. Como o fogo que devora a mata, como a labareda que incendeia os montes;
16. Persegui-os com a vossa tempestade, apavorai-os com o vosso furacão.
17. Cobri-lhes a face da ignomínia, para que, vencidos, busquem, Senhor, o vosso nome.
18. Enchei-os de vergonha e de humilhação eternas, que eles pereçam confundidos.
19. E que reconheçam que só vós, cujo nome é Senhor, sois o Altíssimo sobre toda a terra.

 
Salmo 83

1. Ao mestre de canto. Com a Gitiena. Salmo dos filhos de Coré.
2. Como são amáveis as vossas moradas, Senhor dos exércitos!
3. Minha alma desfalecida se consome suspirando pelos átrios do Senhor. Meu coração e minha carne exultam pelo Deus vivo.
4. Até o pássaro encontra um abrigo, e a andorinha faz um ninho para pôr seus filhos. Ah, vossos altares, Senhor dos exércitos, meu rei e meu Deus!
5. Felizes os que habitam em vossa casa, Senhor: aí eles vos louvam para sempre.
6. Feliz o homem cujo socorro está em vós, e só pensa em vossa santa peregrinação.
7. Quando atravessam o vale árido, eles o transformam em fontes, e a chuva do outono vem cobri-los de bênçãos.
8. Seu vigor aumenta à medida que avançam, porque logo verão o Deus dos deuses em Sião.
9. Senhor dos exércitos, escutai minha oração, prestai-me ouvidos, ó Deus de Jacó.
10. Ó Deus, nosso escudo, olhai; vede a face daquele que vos é consagrado.
11. Verdadeiramente, um dia em vossos átrios vale mais que milhares fora deles. Prefiro deter-me no limiar da casa de meu Deus a morar nas tendas dos pecadores.
12. Porque o Senhor Deus é nosso sol e nosso escudo, o Senhor dá a graça e a glória. Ele não recusa os seus bens àqueles que caminham na inocência.
13. Ó Senhor dos exércitos, feliz o homem que em vós confia.

 
Salmo 84

1. Ao mestre de canto. Salmo dos filhos de Coré.
2. Fostes propício, Senhor, à vossa terra; restabelecestes a sorte de Jacó.
3. A iniqüidade de vosso povo perdoastes, foram por vós cobertos seus pecados.
4. Aplacastes toda a vossa cólera, refreastes o furor de vossa ira.
5. Restaurai-nos, ó Deus, nosso salvador, ponde termo à indignação que tínheis contra nós.
6. Acaso será eterna contra nós a vossa cólera? Estendereis vossa ira sobre todas as gerações?
7. Não nos restituireis a vida, para que vosso povo se rejubile em vós?
8. Mostrai-nos, Senhor, a vossa misericórdia, e dai-nos a vossa salvação.
9. Escutarei o que diz o Senhor Deus, porque ele diz palavras de paz ao seu povo, para seus fiéis, e àqueles cujos corações se voltam para ele.
10. Sim, sua salvação está bem perto dos que o temem, de sorte que sua glória retornará à nossa terra.
11. A bondade e a fidelidade outra vez se irão unir, a justiça e a paz de novo se darão as mãos.
12. A verdade brotará da terra, e a justiça olhará do alto do céu.
13. Enfim, o Senhor nos dará seus benefícios, e nossa terra produzirá seu fruto.
14. A justiça caminhará diante dele, e a felicidade lhe seguirá os passos.

 
Salmo 85

1. Oração de Davi. Inclinai, Senhor, vossos ouvidos e atendei-me, porque sou pobre e miserável.
2. Protegei minha alma, pois vos sou fiel; salvai o servidor que em vós confia. Vós sois meu Deus;
3. tende compaixão de mim, Senhor, pois a vós eu clamo sem cessar.
4. Consolai o coração de vosso servo, porque é para vós, Senhor, que eu elevo minha alma.
5. Porquanto vós sois, Senhor, clemente e bom, cheio de misericórdia para quantos vos invocam.
6. Escutai, Senhor, a minha oração; atendei à minha suplicante voz.
7. Neste dia de angústia é para vós que eu clamo, porque vós me atendereis.
8. Não há entre os deuses um que se vos compare, Senhor; não existe obra semelhante à vossa.
9. Todas as nações que criastes virão adorar-vos, e glorificar o vosso nome, ó Senhor.
10. Porque vós sois grande e operais maravilhas, só vós sois Deus.
11. Ensinai-me vosso caminho, Senhor, para que eu ande na vossa verdade. Dirigi meu coração para que eu tema o vosso nome.
12. De todo o coração eu vos louvarei, ó Senhor, meu Deus, e glorificarei o vosso nome eternamente.
13. Porque vossa misericórdia foi grande para comigo, arrancastes minha alma das profundezas da região dos mortos.
14. Ó Deus, os soberbos se levantaram contra mim, uma turba de prepotentes odeia a minha vida, eles que nem vos têm presente antes os olhos.
15. Mas vós, Senhor, sois um Deus bondoso e compassivo; lento para a ira, cheio de clemência e fidelidade.
16. Olhai-me e tende piedade de mim, dai ao vosso servo a vossa força, salvai o filho de vossa escrava.
17. Dai-me uma prova de vosso favor, a fim de que verifiquem meus inimigos, para sua confusão, que sois vós, Senhor, meu sustento e meu consolo.

 
Salmo 86

1. Salmo dos filhos de Coré. Cântico.
2. O Senhor ama a cidade que fundou nos montes santos; ele prefere as portas de Sião às tendas de Jacó.
3. De ti se anuncia um glorioso destino, ó cidade de Deus.
4. Ajuntarei Raab e Babilônia aos que me honram; eis a Filistéia e Tiro com a Etiópia, lá todos nasceram.
5. Dir-se-á de Sião: Um por um, todos esses homens nela nasceram; foi o próprio Altíssimo quem a fundou.
6. O Senhor inscreverá então no registro dos povos: Aquele também nasceu em Sião.
7. E cantarão entre danças: Todas as minhas fontes se acham em ti.

 
Salmo 87

1. Cântico. Salmo dos filhos de Coré. Ao mestre de canto. Em melodia triste. Poema de Hemã, ezraíta.
2. Senhor, meu Deus, de dia clamo a vós, e de noite vos dirijo o meu lamento.
3. Chegue até vós a minha prece, inclinai vossos ouvidos à minha súplica.
4. Minha alma está saturada de males, e próxima da região dos mortos a minha vida.
5. Já sou contado entre os que descem à tumba, tal qual um homem inválido e sem forças.
6. Meu leito se encontra entre os cadáveres, como o dos mortos que jazem no sepulcro, dos quais vós já não vos lembrais, e não vos causam mais cuidados.
7. Vós me lançastes em profunda fossa, nas trevas de um abismo.
8. Sobre mim pesa a vossa indignação, vós me oprimis com o peso das vossas ondas.
9. Afastastes de mim os meus amigos, objeto de horror me tornastes para eles; estou aprisionado sem poder sair,
10. meus olhos se consomem de aflição. Todos os dias eu clamo para vós, Senhor; estendo para vós as minhas mãos.
11. Será que fareis milagres pelos mortos? Ressurgirão eles para vos louvar?
12. Acaso vossa bondade é exaltada no sepulcro, ou vossa fidelidade na região dos mortos?
13. Serão nas trevas manifestadas as vossas maravilhas, e vossa bondade na terra do esquecimento?
14. Eu, porém, Senhor, vos rogo, desde a aurora a vós se eleva a minha prece.
15. Por que, Senhor, repelis a minha alma? Por que me ocultais a vossa face?
16. Sou miserável e desde jovem agonizo, o peso de vossos castigos me abateu.
17. Sobre mim tombaram vossas iras, vossos temores me aniquilaram.
18. Circundam-me como vagas que se renovam sempre, e todas, juntas, me assaltam.
19. Afastastes de mim amigo e companheiro; só as trevas me fazem companhia…

 
Salmo 88

1. Hino de Etã, ezraíta.
2. Cantarei, eternamente, as bondades do Senhor; minha boca publicará sua fidelidade de geração em geração.
3. Com efeito, vós dissestes: A bondade é um edifício eterno. Vossa fidelidade firmastes no céu.
4. Concluí, dizeis vós, uma aliança com o meu eleito; liguei-me por juramento a Davi, meu servo.
5. Conservarei tua linhagem para sempre, manterei teu trono em todas as gerações.
6. Senhor, os céus celebram as vossas maravilhosas obras, e na assembléia dos anjos a vossas fidelidade.
7. Quem poderá, nas nuvens, igualar-se a Deus? Quem é semelhante ao Senhor entre os filhos de Deus?
8. Terrível é Deus na assembléia dos santos, maior e mais tremendo que todos os que o cercam.
9. Quem se compara a vós, Senhor, Deus dos exércitos? Sois forte, Senhor, e cheio de fidelidade.
10. Dominais o orgulho do mar, amainais suas ondas revoltas.
11. Calcastes Raab e o transportastes; com poderoso braço dispersastes vossos inimigos.
12. Vossos são os céus e também a terra, vós que criastes o globo e tudo o que ele contém.
13. O norte e o sul vós os fizestes; Tabor e Hermon em vosso nome exultam.
14. Tendes o poder em vosso braço, a firmeza na mão, a autoridade em vossa destra.
15. A justiça e o direito são o fundamento de vosso trono, a bondade e a fidelidade vos precedem.
16. Feliz o povo que vos sabe louvar: caminha na luz de vossa face, Senhor.
17. Vosso nome lhe é causa de contínua alegria, pela vossa justiça ele se glorifica,
18. porque sois o esplendor de sua força, e é vosso favor que nos faz erguer a cabeça,
19. pois no Senhor está o nosso escudo, e nosso rei no Santo de Israel.
20. Outrora, em visão, falastes aos vossos santos e dissestes-lhes: Impus a coroa a um herói, escolhi meu eleito dentre o povo.
21. Encontrei Davi, meu servidor, e o sagrei com a minha santa unção.
22. Assistir-lhe-á sempre a minha mão, e meu braço o fortalecerá.
23. Não o há de surpreender o inimigo, nem ousará oprimi-lo o malvado.
24. Sob seus olhos esmagarei os seus contrários, serão feridos aqueles que o odeiam.
25. Com ele ficarão minha fidelidade e bondade, pelo meu nome crescerá o seu poder.
26. Estenderei a sua mão por sobre o mar, e a sua destra acima dos rios.
27. Ele me invocará: Vós sois meu Pai, vós sois meu Deus e meu rochedo protetor.
28. Por isso eu o constituirei meu primogênito, o mais excelso dentre todos os reis da terra.
29. Assegurado lhe estará o favor eterno, e indissolúvel será meu pacto com ele.
30. Dar-lhe-ei uma perpétua descendência, seu trono terá a duração dos céus.
31. Se, porém, seus filhos abandonarem minha lei, se não observarem os meus preceitos,
32. se violarem as minhas prescrições e não obedecerem às minhas ordens,
33. eu punirei com vara a sua transgressão, e a sua falta castigarei com açoite.
34. Mas não lhe retirarei o meu favor e não trairei minha promessa.
35. não violarei minha aliança, não mudarei minha palavra dada.
36. Jurei uma vez por todas pela minha santidade: a Davi não faltarei jamais.
37. Sua posteridade permanecerá eternamente, e seu trono, como o sol, subsistirá diante de mim,
38. como a lua que existirá sem fim, e o arco-íris, fiel testemunha nos céus.
39. E, contudo, vós o repelistes e rejeitastes, gravemente vos irritastes contra aquele que vos é consagrado.
40. Rompestes a aliança feita com o vosso servidor, lançastes por terra sua coroa,
41. derrubastes todos os seus muros, arruinastes as suas fortalezas.
42. Saquearam-no todos os transeuntes, e o escarneceram os seus vizinhos.
43. A mão de seus inimigos exaltastes, de gozo enchestes todos os seus contrários.
44. Embotastes o fio de sua espada, não o sustentastes na batalha.
45. Fizestes terminar seu esplendor, por terra derrubastes o seu trono.
46. Abreviastes a sua adolescência, e de ignomínia o cobristes.
47. Até quando, Senhor? Até quando continuareis escondido? Até quando estará acesa a vossa cólera?
48. Lembrai-vos como é curta a nossa vida, quão efêmeros os homens que criastes.
49. Qual é o vivo que se livra da morte, ou pode subtrair a sua alma ao poder da morada dos mortos?
50. Vossas bondades de outrora, ó Senhor, onde estão? E os juramentos que a Davi fizestes de fidelidade?
51. Considerai, Senhor, a vergonha imposta aos vossos servidores. Levo em meu seio ultrajes das nações pagãs,
52. insultos de vossos inimigos, Senhor, injúrias que lançam até nos passos daquele que vos é consagrado.
53. Bendito seja o Senhor eternamente! Amém! Amém!

 
Salmo 89

1. Prece de Moisés, homem de Deus. Senhor, fostes nosso refúgio de geração em geração.
2. Antes que se formassem as montanhas, a terra e o universo, desde toda a eternidade vós sois Deus.
3. Reduzis o homem à poeira, e dizeis: Filhos dos homens, retornai ao pó,
4. porque mil anos, diante de vós, são como o dia de ontem que já passou, como uma só vigília da noite.
5. Vós os arrebatais: eles são como um sonho da manhã, como a erva virente,
6. que viceja e floresce de manhã, mas que à tarde é cortada e seca.
7. Sim, somos consumidos pela vossa severidade, e acabrunhados pela vossa cólera.
8. Colocastes diante de vós as nossas culpas, e nossos pecados ocultos à vista de vossos olhos.
9. Ante a vossa ira, passaram todos os nossos dias. Nossos anos se dissiparam como um sopro.
10. Setenta anos é o total de nossa vida, os mais fortes chegam aos oitenta. A maior parte deles, sofrimento e vaidade, porque o tempo passa depressa e desaparecemos.
11. Quem avalia a força de vossa cólera, e mede a vossa ira com o temor que vos é devido?
12. Ensinai-nos a bem contar os nossos dias, para alcançarmos o saber do coração.
13. Voltai-vos, Senhor – quanto tempo tardareis? E sede propício a vossos servos.
14. Cumulai-vos desde a manhã com as vossas misericórdias, para exultarmos alegres em toda a nossa vida.
15. Consolai-nos tantos dias quantos nos afligistes, tantos anos quantos nós sofremos.
16. Manifestai vossa obra aos vossos servidores, e a vossa glória aos seus filhos.
17. Que o beneplácito do Senhor, nosso Deus, repouse sobre nós. Favorecei as obras de nossas mãos. Sim, fazei prosperar o trabalho de nossas mãos.

 
Salmo 90

1. Tu que habitas sob a proteção do Altíssimo, que moras à sombra do Onipotente,
2. dize ao Senhor: Sois meu refúgio e minha cidadela, meu Deus, em que eu confio.
3. É ele quem te livrará do laço do caçador, e da peste perniciosa.
4. Ele te cobrirá com suas plumas, sob suas asas encontrarás refúgio. Sua fidelidade te será um escudo de proteção.
5. Tu não temerás os terrores noturnos, nem a flecha que voa à luz do dia,
6. nem a peste que se propaga nas trevas, nem o mal que grassa ao meio-dia.
7. Caiam mil homens à tua esquerda e dez mil à tua direita, tu não serás atingido.
8. Porém verás com teus próprios olhos, contemplarás o castigo dos pecadores,
9. porque o Senhor é teu refúgio. Escolheste, por asilo, o Altíssimo.
10. Nenhum mal te atingirá, nenhum flagelo chegará à tua tenda,
11. porque aos seus anjos ele mandou que te guardem em todos os teus caminhos.
12. Eles te sustentarão em suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra.
13. Sobre serpente e víbora andarás, calcarás aos pés o leão e o dragão.
14. Pois que se uniu a mim, eu o livrarei; e o protegerei, pois conhece o meu nome.
15. Quando me invocar, eu o atenderei; na tribulação estarei com ele. Hei de livrá-lo e o cobrirei de glória.
16. Será favorecido de longos dias, e mostrar-lhe-ei a minha salvação.

 
Salmo 91

1. Salmo. Cântico para o dia de sábado.
2. É bom louvar ao Senhor e cantar salmos ao vosso nome, ó Altíssimo;
3. proclamar, de manhã, a vossa misericórdia, e, durante a noite, a vossa fidelidade,
4. com a harpa de dez cordas e com a lira, com cânticos ao som da cítara,
5. pois vós me alegrais, Senhor, com vossos feitos; exulto com as obras de vossas mãos.
6. Senhor, estupendas são as vossas obras! E quão profundos os vossos desígnios!
7. Não compreende estas coisas o insensato, nem as percebe o néscio.
8. Ainda que floresçam os ímpios como a relva, e floresçam os que praticam a maldade, eles estão à perda eterna destinados.
9. Vós, porém, Senhor, sois o Altíssimo por toda a eternidade.
10. Eis que vossos inimigos, Senhor, vossos inimigos hão de perecer, serão dispersados todos os artesãos do mal.
11. Exaltastes a minha cabeça como a do búfalo, e com óleo puríssimo me ungistes.
12. Meus olhos vêem os inimigos com desprezo, e meus ouvidos ouvem com prazer o que aconteceu aos que praticam o mal.
13. Como a palmeira, florescerão os justos, elevar-se-ão como o cedro do Líbano.
14. Plantados na casa do Senhor, nos átrios de nosso Deus hão de florir.
15. Até na velhice eles darão frutos, continuarão cheios de seiva e verdejantes,
16. para anunciarem quão justo é o Senhor, meu rochedo, e como não há nele injustiça.

 
Salmo 92

1. O Senhor é rei e se revestiu de majestade, ele se cingiu com um cinto de poder. A terra, que com firmeza ele estabeleceu, não será abalada.
2. Desde toda a eternidade vosso trono é firme e vós, vós desde sempre existis.
3. Elevam os rios, Senhor, elevam os rios a sua voz, e fazem eclodir o fragor de suas ondas.
4. Porém, mais poderoso que a voz das grandes águas, mais poderoso que os vagalhões do mar, mais poderoso é o Senhor nas alturas do céu.
5. Vossas promessas são sempre dignas de fé, e a vossa casa, Senhor, é santa na duração dos séculos.

 
Salmo 93

1. Senhor, Deus justiceiro, Deus das vinganças, aparecei em vosso esplendor.
2. Levantai-vos, juiz da terra, castigai os soberbos como eles merecem.
3. Até quando, Senhor, triunfarão os ímpios?
4. Até quando se desmandarão em discursos arrogantes, e jactanciosos estarão esses obreiros do mal?
5. Eles esmagam o povo, Senhor, e oprimem vossa herança.
6. Trucidam a viúva e o estrangeiro, tiram a vida aos órfãos.
7. E dizem: O Senhor não vê, o Deus de Jacó não presta atenção nisso!
8. Tratai de compreender, ó gente estulta. Insensatos, quando cobrareis juízo?
9. Pois não ouvirá quem fez o ouvido? O que formou o olho não verá?
10. Aquele que dá lições aos povos não há de punir, ele que ensina ao homem o saber…
11. O Senhor conhece os pensamentos dos homens, e sabe que são vãos.
12. Feliz o homem a quem ensinais, Senhor, e instruís em vossa lei,
13. para lhe dar a paz no dia do infortúnio, enquanto uma cova se abre para o ímpio,
14. porque o Senhor não rejeitará o seu povo, e não há de abandonar a sua herança.
15. Mas o julgamento com justiça se fará, e a seguirão os retos de coração.
16. Quem se erguerá por mim contra os malfeitores? Quem será meu defensor contra os artesãos do mal?
17. Se o Senhor não me socorresse, em breve a minha alma habitaria a região do silêncio.
18. Quando penso: Vacilam-me os pés, sustenta-me, Senhor, a vossa graça.
19. Quando em meu coração se multiplicam as angústias, vossas consolações alegram a minha alma.
20. Acaso poderá aliar-se a vós um tribunal iníquo, que pratica vexames sob a aparência de lei?
21. Atentam contra a alma do justo, e condenam o sangue inocente.
22. Mas o Senhor certamente será o meu refúgio, e meu Deus o rochedo em que me abrigo.
23. Ele fará recair sobre eles suas próprias maldades, ele os fará perecer por sua própria malícia. O Senhor, nosso Deus, os destruirá.

 
Salmo 94

1. Vinde, manifestemos nossa alegria ao Senhor, aclamemos o Rochedo de nossa salvação;
2. apresentemo-nos diante dele com louvores, e cantemos-lhe alegres cânticos,
3. porque o Senhor é um Deus imenso, um rei que ultrapassa todos os deuses;
4. nas suas mãos estão as profundezas da terra, e os cumes das montanhas lhe pertencem.
5. Dele é o mar, ele o criou; assim como a terra firme, obra de suas mãos.
6. Vinde, inclinemo-nos em adoração, de joelhos diante do Senhor que nos criou.
7. Ele é nosso Deus; nós somos o povo de que ele é o pastor, as ovelhas que as suas mãos conduzem. Oxalá ouvísseis hoje a sua voz:
8. Não vos torneis endurecidos como em Meribá, como no dia de Massá no deserto,
9. onde vossos pais me provocaram e me tentaram, apesar de terem visto as minhas obras.
10. Durante quarenta anos desgostou-me aquela geração, e eu disse: É um povo de coração desviado, que não conhece os meus desígnios.
11. Por isso, jurei na minha cólera: Não hão de entrar no lugar do meu repouso.

 
Salmo 95

1. Cantai ao Senhor um cântico novo. Cantai ao Senhor, terra inteira.
2. Cantai ao Senhor e bendizei o seu nome, anunciai cada dia a salvação que ele nos trouxe.
3. Proclamai às nações a sua glória, a todos os povos as suas maravilhas.
4. Porque o Senhor é grande e digno de todo o louvor, o único temível de todos os deuses.
5. Porque os deuses dos pagãos, sejam quais forem, não passam de ídolos. Mas foi o Senhor quem criou os céus.
6. Em seu semblante, a majestade e a beleza; em seu santuário, o poder e o esplendor.
7. Tributai ao Senhor, famílias dos povos, tributai ao Senhor a glória e a honra,
8. tributai ao Senhor a glória devida ao seu nome. Trazei oferendas e entrai nos seus átrios.
9. Adorai o Senhor, com ornamentos sagrados. Diante dele estremece a terra inteira.
10. Dizei às nações: O Senhor é rei. E (a terra) não vacila, porque ele a sustém. Governa os povos com justiça.
11. Alegrem-se os céus e exulte a terra, retumbe o oceano e o que ele contém,
12. regozijem-se os campos e tudo o que existe neles. Jubilem todas as árvores das florestas
13. com a presença do Senhor, que vem, pois ele vem para governar a terra: julgará o mundo com justiça, e os povos segundo a sua verdade.

 
Salmo 96

1. O Senhor reina! Que a terra exulte de alegria, que se rejubile a multidão das ilhas.
2. Está envolvido em escura nuvem, seu trono tem por fundamento a justiça e o direito.
3. Ele é precedido por um fogo que devora em redor os inimigos.
4. Seus relâmpagos iluminam o mundo, a terra estremece ao vê-los.
5. Na presença do Senhor, fundem-se as montanhas como a cera, em presença do Senhor de toda a terra.
6. Os céus anunciam a sua justiça e todos os povos contemplam a sua glória.
7. São confundidos os que adoram estátuas e se gloriam em seus ídolos; pois os deuses se prostram diante do Senhor.
8. Ouve e se alegra Sião, exultam as cidades de Judá por causa de vossos juízos, Senhor.
9. Porque vós, Senhor, sois o soberano de toda a terra, vós sois o Altíssimo entre todos os deuses.
10. O Senhor ama os que detestam o mal, ele vela pelas almas de seus servos e os livra das mãos dos ímpios.
11. A luz resplandece para o justo, e a alegria é concedida ao homem de coração reto.
12. Alegrai-vos, ó justo, no Senhor, e dai glória ao seu santo nome.

 
Salmo 97

1. Cantai ao Senhor um cântico novo, porque ele operou maravilhas. Sua mão e seu santo braço lhe deram a vitória.
2. O Senhor fez conhecer a sua salvação. Manifestou sua justiça à face dos povos.
3. Lembrou-se de sua bondade e de sua fidelidade em favor da casa de Israel. Os confins da terra puderam ver a salvação de nosso Deus.
4. Aclamai o Senhor, povos todos da terra; regozijai-vos, alegrai-vos e cantai.
5. Salmodiai ao Senhor com a cítara, ao som do saltério e com a lira.
6. Com a tuba e a trombeta elevai aclamações na presença do Senhor rei.
7. Estruja o mar e tudo o que contém, o globo inteiro e os que nele habitam.
8. Que os rios aplaudam, que as montanhas exultem em brados de alegria
9. diante do Senhor que chega, porque ele vem para governar a terra. Ele governará a terra com justiça, e os povos com eqüidade.

 
Salmo 98

1. O Senhor reina, tremem os povos; seu trono está sobre os querubins: vacila a terra.
2. Grande é o Senhor em Sião, elevado acima de todos os povos.
3. Seja celebrado vosso grande e temível nome, porque ele é Santo.
4. Reina o Rei poderoso que ama a justiça; sois vós que estabeleceis o que é reto, sois vos que exerceis em Jacó o direito e a justiça.
5. Exaltai ao Senhor, nosso Deus, e prostrai-vos ante o escabelo de seus pés, porque ele é Santo.
6. Entre seus sacerdotes estavam Moisés e Aarão, e Samuel um dos que invocaram o seu nome: clamavam ao Senhor, que os atendia.
7. Falava-lhes na coluna de nuvem, eles guardavam os seus preceitos e a lei que lhes havia dado.
8. Senhor, nosso Deus, vós os ouvistes, fostes para eles um Deus propício, ainda quando puníeis as suas injustiças.
9. Exaltai ao Senhor, nosso Deus, e prostrai-vos ante sua montanha santa, porque santo é o Senhor, nosso Deus.

 
Salmo 99

1. Salmo de ação de graças. Aclamai o Senhor, por toda a terra.
2. Servi o Senhor com alegria. Vinde, entrai exultantes em sua presença.
3. Sabei que o Senhor é Deus: ele nos fez, e a ele pertencemos. Somos o seu povo e as ovelhas de seu rebanho.
4. Entrai cantando sob seus pórticos, vinde aos seus átrios com cânticos; glorificai-o e bendizei o seu nome,
5. porque o Senhor é bom, sua misericórdia é eterna e sua fidelidade se estende de geração em geração.

 
Salmo 100

1. Salmo de Davi. Cantarei a bondade e a justiça. A vós, Senhor, salmodiarei.
2. Pelo caminho reto quero seguir. Oh, quando vireis a mim? Caminharei na inocência de coração, no seio de minha família.
3. Não proporei ante meus olhos nenhum pensamento culpável. Terei horror àquele que pratica o mal, não será ele meu amigo.
4. Estará sempre longe de mim o coração perverso, não quero conhecer o mal.
5. Exterminarei o que em segredo caluniar seu próximo. Não suportarei homem arrogante e de coração vaidoso.
6. Meus olhos se voltarão para os fiéis da terra, para fazê-los habitar comigo. Será meu servo o homem que segue o caminho reto.
7. O fraudulento não há de morar jamais em minha casa. Não subsistirá o mentiroso ante meus olhos.
8. Todos os dias extirparei da terra os ímpios, banindo da cidade do Senhor os que praticam o mal.

 
Salmo 101

1. Prece de um aflito que desabafa sua angústia diante do Senhor.
2. Senhor, ouvi a minha oração, e chegue até vós o meu clamor.
3. Não oculteis de mim a vossa face no dia de minha angústia. Inclinai para mim o vosso ouvido. Quando vos invocar, acudi-me prontamente,
4. porque meus dias se dissipam como a fumaça, e como um tição consomem-se os meus ossos.
5. Queimando como erva, meu coração murcha, até me esqueço de comer meu pão.
6. A violência de meus gemidos faz com que se me peguem à pele os ossos.
7. Assemelho-me ao pelicano do deserto, sou como a coruja nas ruínas.
8. Perdi o sono e gemo, como pássaro solitário no telhado.
9. Insultam-me continuamente os inimigos, em seu furor me atiram imprecações.
10. Como cinza do mesmo modo que pão, lágrimas se misturam à minha bebida,
11. devido à vossa cólera indignada, pois me tomastes para me lançar ao longe.
12. Os meus dias se esvaecem como a sombra da noite e me vou murchando como a relva.
13. Vós, porém, Senhor, sois eterno, e vosso nome subsiste em todas as gerações.
14. Levantai-vos, pois, e sede propício a Sião; é tempo de compadecer-vos dela, chegou a hora…
15. porque vossos servos têm amor aos seus escombros e se condoem de suas ruínas.
16. E as nações pagãs reverenciarão o vosso nome, Senhor, e os reis da terra prestarão homenagens à vossa glória.
17. Quando o Senhor tiver reconstruído Sião, e aparecido em sua glória,
18. quando ele aceitar a oração dos desvalidos e não mais rejeitar as suas súplicas,
19. escrevam-se estes fatos para a geração futura, e louve o Senhor o povo que há de vir,
20. porque o Senhor olhou do alto de seu santuário, do céu ele contemplou a terra;
21. para escutar os gemidos dos cativos, para livrar da morte os condenados;
22. para que seja aclamado em Sião o nome do Senhor, e em Jerusalém o seu louvor,
23. no dia em que se hão de reunir os povos, e os reinos para servir o Senhor.
24. Deus esgotou-me as forças no meio do caminho, abreviou-me os dias.
25. Meu Deus, peço, não me leveis no meio da minha vida, vós cujos anos são eternos.
26. No começo criastes a terra, e o céu é obra de vossas mãos.
27. Um e outro passarão, enquanto vós ficareis. Tudo se acaba pelo uso como um traje. Como uma veste, vós os substituís e eles hão de sumir.
28. Mas vós permaneceis o mesmo e vossos anos não têm fim.
29. Os filhos de vossos servos habitarão seguros, e sua posteridade se perpetuará diante de vós.

 
Salmo 102

1. Salmo de Davi. Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e tudo o que existe em mim bendiga o seu santo nome.
2. Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e jamais te esqueças de todos os seus benefícios.
3. É ele que perdoa as tuas faltas, e sara as tuas enfermidades.
4. É ele que salva tua vida da morte, e te coroa de bondade e de misericórdia.
5. É ele que cumula de benefícios a tua vida, e renova a tua juventude como a da águia.
6. O Senhor faz justiça, dá o direito aos oprimidos.
7. Revelou seus caminhos a Moisés, e suas obras aos filhos de Israel.
8. O Senhor é bom e misericordioso, lento para a cólera e cheio de clemência.
9. Ele não está sempre a repreender, nem eterno é o seu ressentimento.
10. Não nos trata segundo os nossos pecados, nem nos castiga em proporção de nossas faltas,
11. porque tanto os céus distam da terra quanto sua misericórdia é grande para os que o temem;
12. tanto o oriente dista do ocidente quanto ele afasta de nós nossos pecados.
13. Como um pai tem piedade de seus filhos, assim o Senhor tem compaixão dos que o temem,
14. porque ele sabe de que é que somos feitos, e não se esquece de que somos pó.
15. Os dias do homem são semelhantes à erva, ele floresce como a flor dos campos.
16. Apenas sopra o vento, já não existe, e nem se conhece mais o seu lugar.
17. É eterna, porém, a misericórdia do Senhor para com os que o temem. E sua justiça se estende aos filhos de seus filhos,
18. sobre os que guardam a sua aliança, e, lembrando, cumprem seus mandamentos.
19. Nos céus estabeleceu o Senhor o seu trono, e o seu império se estende sobre o universo.
20. Bendizei ao Senhor todos os seus anjos, valentes heróis que cumpris suas ordens, sempre dóceis à sua palavra.
21. Bendizei ao Senhor todos os seus exércitos, ministros que executais sua vontade.
22. Bendizei ao Senhor todas as suas obras, em todos os lugares onde ele domina. Bendize, ó minha alma, ao Senhor.

 
Salmo 103

1. Bendize, ó minha alma, o Senhor! Senhor, meu Deus, vós sois imensamente grande! De majestade e esplendor vos revestis,
2. envolvido de luz como de um manto. Vós estendestes o céu qual pavilhão,
3. acima das águas fixastes vossa morada. De nuvens fazeis vosso carro, andais nas asas do vento;
4. fazeis dos ventos os vossos mensageiros, e dos flamejantes relâmpagos vossos ministros.
5. Fundastes a terra em bases sólidas que são eternamente inabaláveis.
6. Vós a tínheis coberto com o manto do oceano, as águas ultrapassavam as montanhas.
7. Mas à vossa ameaça elas se afastaram, ao estrondo de vosso trovão estremeceram.
8. Elevaram-se as montanhas, sulcaram-se os vales nos lugares que vós lhes destinastes.
9. Estabelecestes os limites, que elas não hão de ultrapassar, para que não mais tornem a cobrir a terra.
10. Mandastes as fontes correr em riachos, que serpeiam por entre os montes.
11. Ali vão beber os animais dos campos, neles matam a sede os asnos selvagens.
12. Os pássaros do céu vêm aninhar em suas margens, e cantam entre as folhagens.
13. Do alto de vossas moradas derramais a chuva nas montanhas, do fruto de vossas obras se farta a terra.
14. Fazeis brotar a relva para o gado, e plantas úteis ao homem, para que da terra possa extrair o pão
15. e o vinho que alegra o coração do homem, o óleo que lhe faz brilhar o rosto e o pão que lhe sustenta as forças.
16. As árvores do Senhor são cheias de seiva, assim como os cedros do Líbano que ele plantou.
17. Lá constroem as aves os seus ninhos, nos ciprestes a cegonha tem sua casa.
18. Os altos montes dão abrigo às cabras, e os rochedos aos arganazes.
19. Fizestes a lua para indicar os tempos; o sol conhece a hora de se pôr.
20. Mal estendeis as trevas e já se faz noite, entram a rondar os animais das selvas.
21. Rugem os leõezinhos por sua presa, e pedem a Deus o seu sustento.
22. Mas se retiram ao raiar do sol, e vão se deitar em seus covis.
23. É então que o homem sai para o trabalho, e moureja até o entardecer.
24. Ó Senhor, quão variadas são as vossas obras! Feitas, todas, com sabedoria, a terra está cheia das coisas que criastes.
25. Eis o mar, imenso e vasto, onde, sem conta, se agitam animais grandes e pequenos.
26. Nele navegam as naus e o Leviatã que criastes para brincar nas ondas.
27. Todos esses seres esperam de vós que lhes deis de comer em seu tempo.
28. Vós lhes dais e eles o recolhem; abris a mão, e se fartam de bens.
29. Se desviais o rosto, eles se perturbam; se lhes retirais o sopro, expiram e voltam ao pó donde saíram.
30. Se enviais, porém, o vosso sopro, eles revivem e renovais a face da terra.
31. Ao Senhor, glória eterna; alegre-se o Senhor em suas obras!
32. Ele, cujo olhar basta para fazer tremer a terra, e cujo contato inflama as montanhas.
33. Enquanto viver, cantarei à glória do Senhor, salmodiarei ao meu Deus enquanto existir.
34. Possam minhas palavras lhe ser agradáveis! Minha única alegria se encontra no Senhor.
35. Sejam tirados da terra os pecadores e doravante desapareçam os ímpios. Bendize, ó minha alma, ao Senhor! Aleluia.

 
Salmo 104

1. Aleluia. Celebrai o Senhor, aclamai o seu nome, apregoai entre as nações as suas obras.
2. Cantai-lhe hinos e cânticos, anunciai todas as suas maravilhas.
3. Gloriai-vos do seu santo nome; rejubile o coração dos que procuram o Senhor.
4. Recorrei ao Senhor e ao seu poder, procurai continuamente sua face.
5. Recordai as maravilhas que operou, seus prodígios e julgamentos por seus lábios proferidos,
6. ó descendência de Abraão, seu servidor, ó filhos de Jacó, seus escolhidos!
7. É ele o Senhor, nosso Deus; suas sentenças comandam a terra inteira.
8. Ele se lembra eternamente de sua aliança, da palavra que empenhou a mil gerações,
9. que garantiu a Abraão, e jurou a Isaac,
10. e confirmou a Jacó irrevogavelmente, e a Israel como aliança eterna,
11. quando disse: Dar-te-ei a terra de Canaã, como parte de vossa herança.
12. Quando não passavam de um reduzido número, minoria insignificante e estrangeiros na terra,
13. e andavam errantes de nação em nação, de reino em reino,
14. não permitiu que os oprimissem, e castigou a reis por causa deles.
15. Não ouseis tocar nos que me são consagrados, nem maltratar os meus profetas.
16. E chamou a fome sobre a terra, e os privou do pão que os sustentava.
17. Diante deles enviara um homem: José, que fora vendido como escravo.
18. Apertaram-lhe os pés entre grilhões, com cadeias cingiram-lhe o pescoço,
19. até que se cumpriu a profecia, e o justificou a palavra de Deus.
20. Então o rei ordenou que o soltassem, o soberano de povos o livrou,
21. e o nomeou senhor de sua casa e governador de seus domínios,
22. para, a seu bel-prazer, dar ordens a seus príncipes, e a seus anciãos, lições de sabedoria.
23. Então Israel penetrou no Egito, Jacó foi viver na terra de Cam.
24. Deus multiplicou grandemente o seu povo, e o tornou mais forte que seus inimigos.
25. Depois, de tal modo lhes mudou os corações, que com aversão trataram o seu povo, e com perfídia, os seus servidores.
26. Mas Deus lhes suscitou Moisés, seu servo, e Aarão, seu escolhido.
27. Ambos operaram entre eles prodígios e milagres na terra de Cam.
28. Mandou trevas e se fez noite, resistiram, porém, às suas palavras.
29. Converteu-lhes as águas em sangue, matando-lhes todos os seus peixes.
30. Infestou-lhes a terra de rãs, até nos aposentos reais.
31. A uma palavra sua vieram nuvens de moscas, mosquitos em todo o seu território.
32. Em vez de chuva lhes mandou granizo e chamas devorantes sobre a terra.
33. Devastou-lhes as vinhas e figueiras, e partiu-lhes as árvores de seus campos.
34. A seu mandado vieram os gafanhotos, e lagartas em quantidade enorme,
35. que devoraram toda a erva de suas terras e comeram os frutos de seus campos.
36. Depois matou os primogênitos do seu povo, primícias de sua virilidade.
37. E Deus tirou os hebreus carregados de ouro e prata; não houve, nas tribos, nenhum enfermo.
38. Alegraram-se os egípcios com sua partida, pelo temor que os hebreus lhes tinham causado.
39. Para os abrigar Deus estendeu uma nuvem, e para lhes iluminar a noite uma coluna de fogo.
40. A seu pedido, mandou-lhes codornizes, e os fartou com pão vindo do céu.
41. Abriu o rochedo e jorrou água como um rio a correr pelo deserto,
42. pois se lembrava da palavra sagrada, empenhada a seu servo Abraão.
43. E fez sair, com júbilo, o seu povo, e seus eleitos com grande exultação.
44. Deu-lhes a terra dos pagãos e desfrutaram das riquezas desses povos,
45. sob a condição de guardarem seus mandamentos e observarem fielmente suas lei

 
Salmo 105

1. Aleluia. Louvai o Senhor porque ele é bom, porque a sua misericórdia é eterna.
2. Quem contará os poderosos feitos do Senhor? Quem poderá apregoar os seus louvores?
3. Felizes aqueles que observam os preceitos, aqueles que, em todo o tempo, fazem o que é reto.
4. Lembrai-vos de mim, Senhor, pela benevolência que tendes com o vosso povo. Assisti-me com o vosso socorro,
5. para que eu prove a felicidade de vossos eleitos, compartilhe do júbilo de vosso povo e me glorie com os que constituem vossa herança.
6. Como nossos pais, nós também pecamos, cometemos a iniqüidade, praticamos o mal.
7. Nossos pais, no Egito, não prezaram os vossos milagres, esqueceram a multidão de vossos benefícios e se revoltaram contra o Altíssimo no mar Vermelho.
8. Mas ele os poupou para a honra de seu nome, para tornar patente o seu poder.
9. Ameaçou o mar e ele se tornou seco, e os conduziu por entre as ondas como através de um deserto.
10. Livrou-os das mãos daquele que os odiava, e os salvou do poder inimigo.
11. As águas recobriram seus adversários, nenhum deles escapou.
12. Então acreditaram em sua palavra, e cantaram os seus louvores.
13. Depressa, porém, esqueceram suas obras, e não confiaram em seus desígnios.
14. Entregaram-se à concupiscência no deserto, e tentaram a Deus na solidão.
15. Ele lhes concedeu o que pediam, mas os feriu de um mal mortal.
16. Em seus acampamentos invejaram Moisés e Aarão, o eleito do Senhor.
17. Abriu-se a terra e tragou Datã, e sepultou os sequazes de Abiron.
18. Um fogo devassou as suas tropas e as chamas consumiram os ímpios.
19. Fabricaram um bezerro de ouro no sopé do Horeb, e adoraram um ídolo de ouro fundido.
20. Eles trocaram a sua glória pela estátua de um touro que come feno.
21. Esqueceram a Deus que os salvara, que obrara prodígios no Egito,
22. maravilhas na terra de Cam, estupendos feitos no mar Vermelho.
23. Já cogitava em exterminá-los se Moisés, seu eleito, não intercedesse junto dele para impedir que sua cólera os destruísse.
24. Depois, eles desprezaram uma terra de delícias, desconfiados de sua palavra.
25. Em suas tendas se puseram a murmurar, e desobedeceram ao Senhor.
26. Então, com a mão alçada, ele jurou que havia de prostrá-los no deserto
27. e dispersar sua descendência entre as nações pagãs, disseminando-os por toda a terra.
28. Aderiram também ao Baal de Fegor, comeram vítimas oferecidas a deuses sem vida.
29. E, provocando-o com seus crimes, uma peste irrompeu entre eles.
30. Mas levantou-se Finéias para fazer justiça; cessou a peste.
31. Seu zelo lhe foi imputado como mérito, de geração em geração, para sempre.
32. Em seguida, irritaram a Deus nas águas de Meribá, e adveio o mal a Moisés por causa deles.
33. Porque o provocaram tanto, palavras temerárias saíram-lhe dos lábios.
34. Não exterminaram os povos, como o Senhor lhes havia ordenado,
35. mas se misturaram com as nações pagãs e aprenderam seus costumes.
36. Prestaram culto aos seus ídolos, que se tornaram um laço para eles.
37. Imolaram os seus filhos e suas filhas aos demônios.
38. Derramaram o sangue inocente: o sangue de seus filhos e de suas filhas, que aos ídolos de Canaã sacrificaram; seu país ficou manchado com esse sangue.
39. Eles se contaminaram com homicídios, e se prostituíram com seus crimes.
40. Então se inflamou contra seu povo a cólera divina, e Deus teve aversão de sua herança.
41. Ele os entregou nas mãos das nações pagãs, e foram dominados pelos que os odiavam.
42. Oprimiram-nos os seus inimigos, foram submetidos ao seu jugo.
43. Muitas vezes ele os libertou; mas sua conduta o exasperou, de tal modo que foram abatidos por causa de suas iniqüidades.
44. Entretanto, vendo a sua aflição, ouviu-lhes as orações.
45. Em favor deles lembrou-se de sua aliança, e por sua misericórdia deles se apiedou.
46. E fez com que encontrassem a clemência junto aos que os tinham aprisionado.
47. Salvai-nos, Senhor, nosso Deus, e recolhei-nos de entre as nações, para que possamos celebrar o vosso santo nome e ter a satisfação de vos louvar.
48. Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, pelos séculos dos séculos! E que todo o povo diga: Amém!

 
Salmo 106

1. Aleluia. Louvai o Senhor, porque ele é bom. Porque eterna é a sua misericórdia.
2. Assim o dizem aqueles que o Senhor resgatou, aqueles que ele livrou das mãos do opressor,
3. assim como os que congregou de todos os países, do oriente e do ocidente, do norte e do sul.
4. Erravam na solidão do deserto, sem encontrar caminho de cidade habitável.
5. Consumidos de fome e de sede, sentiam desfalecer-lhes a vida.
6. Em sua angústia clamaram então para o Senhor, ele os livrou de suas tribulações
7. e os conduziu pelo bom caminho, para chegarem a uma cidade habitável.
8. Agradeçam ao Senhor por sua bondade, e por suas grandes obras em favor dos homens,
9. porque dessedentou a garganta sequiosa, e cumulou de bens a que tinha fome.
10. Outros estavam nas trevas e na sombra da morte, prisioneiros na miséria e em ferros,
11. por se haverem revoltado contra as ordens de Deus e terem desprezado os desígnios do Altíssimo.
12. Pelo sofrimento lhes humilhara o coração, sucumbiam sem que ninguém os socorresse.
13. Em sua angústia clamaram então para o Senhor, e ele os livrou de suas tribulações.
14. Tirou-os das trevas e da sombra da morte, quebrou-lhes os grilhões.
15. Agradeçam ao Senhor por sua bondade, e por suas grandes obras em favor dos homens.
16. Ele arrombou as portas de bronze, e despedaçou os ferrolhos de ferro.
17. Outros, enfermos por causa de seu mau proceder, eram feridos por causa de seus pecados.
18. Todo alimento lhes causava náuseas, chegaram às portas da morte.
19. Em sua angústia clamaram então para o Senhor; ele os livrou de suas tribulações.
20. Enviou a sua palavra para os curar, para os arrancar da morte.
21. Agradeçam ao Senhor por sua bondade, e por suas grandes obras em favor dos homens.
22. Ofereçam sacrifícios de ação de graças, e proclamem alegremente as suas obras.
23. Os que se fizeram ao mar, para trafegar nas muitas águas,
24. foram testemunhas das obras do Senhor e de suas maravilhas no alto-mar.
25. Sua palavra levantou tremendo vento, que impeliu para o alto as suas ondas.
26. Subiam até os céus, desciam aos abismos, suas almas definhavam em angústias.
27. Titubeavam e cambaleavam como ébrios, e toda a sua perícia se esvaiu.
28. Em sua agonia clamaram então ao Senhor, e ele os livrou da tribulação.
29. Transformou a procela em leve brisa, e as ondas do mar silenciaram.
30. E se alegraram porque elas amainaram, e os conduziu ao desejado porto.
31. Agradeçam eles ao Senhor por sua bondade, e por suas grandes obras em favor dos homens.
32. Celebrem-no na assembléia do povo, e o louvem no conselho dos anciãos.
33. Transformou rios em deserto, e fontes de água em terra árida.
34. Converteu o solo fértil em salinas, por causa da malícia de seus habitantes.
35. Mudou o deserto em lençol de água, e a terra árida em abundantes fontes.
36. Aí fez habitar os esfaimados, que fundaram uma cidade para morar.
37. E semearam os campos e plantaram vinhas, colhendo deles abundantes frutos.
38. E os abençoou: eles se multiplicaram grandemente, e lhes concedeu rebanhos numerosos.
39. Depois seu número se reduziu e caíram na miséria, sob a opressão, a desgraça e o sofrimento.
40. Mas aquele que lança seu desprezo sobre os grandes, e os faz errar por ínvios desertos,
41. [Deus,] soergueu o pobre da miséria, multiplicando famílias como rebanhos.
42. À vista disso os justos se alegram, e toda a maldade deve fechar a boca.
43. Quem é sábio para julgar estas coisas e compreender as misericórdias do Senhor?

 
Salmo 107

1. Cântico. Salmo de Davi.
2. Meu coração está firme, ó Deus, meu coração está firme; vou cantar e salmodiar. Desperta-te, ó minha alma;
3. despertai-vos, harpa e cítara; quero acordar a aurora.
4. Entre os povos, Senhor, vos louvarei; salmodiarei a vós entre as nações,
5. porque acima dos céus se eleva a vossa misericórdia, e até as nuvens a vossa fidelidade.
6. Resplandecei, ó Deus, nas alturas dos céus, e brilhe a vossa glória sobre a terra inteira.
7. Para ficarem livres vossos amigos, ajudai-nos com vossa mão, ouvi-nos.
8. Deus falou no seu santuário: Triunfarei, e me apoderarei de Siquém, medirei com o cordel o vale de Sucot.
9. Minha é a terra de Galaad, minha a de Manassés; Efraim será o elmo de minha cabeça; Judá, o meu cetro;
10. Moab, a bacia em que me lavo. Sobre Edom porei minhas sandálias, cantarei vitória sobre a Filistéia.
11. Quem me conduzirá à cidade fortificada? Quem me levará até Edom?
12. Quem, senão vós, Senhor, que nos repelistes, e já não andais à frente dos nossos exércitos?
13. Dai-nos auxílio contra o inimigo, porque é vão qualquer socorro humano.
14. Com Deus faremos proezas, ele esmagará os nossos inimigos.

 
Salmo 108

1. Ao mestre de canto. Salmo de Davi. Ó Deus de meu louvor, não fiqueis insensível,
2. porque contra mim se abriu boca ímpia e pérfida.
3. Falaram-me com palavras mentirosas, com discursos odiosos me envolveram; e sem motivo me atacaram.
4. Em resposta ao meu afeto me acusaram. Eu, porém, orava.
5. Pagaram-me o bem com o mal, e o amor com o ódio.
6. Suscitai contra ele um ímpio, levante-se à sua direita um acusador.
7. Quando o julgarem, saia condenado, e sem efeito o seu recurso.
8. Sejam abreviados os seus dias, tome outro o seu encargo.
9. Fiquem órfãos os seus filhos, e viúva a sua esposa.
10. Andem errantes e mendigos os seus filhos, expulsos de suas casas devastadas.
11. Arrebate o credor todos os seus bens, estrangeiros pilhem o fruto de seu trabalho.
12. Ninguém lhes tenha misericórdia, nem haja quem se condoa de seus órfãos.
13. Exterminada seja a sua descendência, extinga-se o seu nome desde a segunda geração.
14. Conserve o Senhor a lembrança da culpa de seus pais, jamais se apague o pecado de sua mãe.
15. Deus os tenha sempre presentes na memória, e risque-se da terra a sua lembrança,
16. porque jamais pensou em ter misericórdia, mas perseguiu o pobre e desvalido e teve ódio mortal ao homem de coração abatido.
17. Amou a maldição: que ela caia sobre ele! Recusou a bênção: que ela o abandone!
18. Seja coberto de maldição como de um manto, que ela penetre em suas entranhas como água e se infiltre em seus ossos como óleo.
19. Seja-lhe como a veste que o cobre, como um cinto que o cinja para sempre.
20. Esta, a paga do Senhor àqueles que me acusam e que só dizem mal de mim.
21. Mas vós, Senhor Deus, tratai-me segundo a honra de vosso nome. Salvai-me em nome de vossa benigna misericórdia,
22. porque sou pobre e miserável; trago, dentro de mim, um coração ferido.
23. Vou-me extinguindo como a sombra da tarde que declina, sou levado para longe como o gafanhoto.
24. Vacilam-me os joelhos à força de jejuar, e meu corpo se definha de magreza.
25. Fizeram-me objeto de escárnio, abanam a cabeça ao me ver.
26. Ajudai-me, Senhor, meu Deus. Salvai-me segundo a vossa misericórdia.
27. Que reconheçam aqui a vossa mão, e saibam que fostes vós que assim fizestes.
28. Enquanto amaldiçoam, abençoai-me. Sejam confundidos os que se insurgem contra mim, e que vosso servo seja cumulado de alegria.
29. Cubram-se de ignomínia meus detratores, e envolvam-se de vergonha como de um manto.
30. Celebrarei altamente o Senhor, e o louvarei em meio à multidão,
31. porque ele se pôs à direita do pobre, para o salvar dos que o condenam.

 
Salmo 109

1. Salmo de Davi. Eis o oráculo do Senhor que se dirige a meu senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu faça de teus inimigos o escabelo de teus pés.
2. O Senhor estenderá desde Sião teu cetro poderoso: Dominarás, disse ele, até no meio de teus inimigos.
3. No dia de teu nascimento, já possuis a realeza no esplendor da santidade; semelhante ao orvalho, eu te gerei antes da aurora.
4. O Senhor jurou e não se arrependerá: Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec.
5. O Senhor está à tua direita: ele destruirá os reis no dia de sua cólera.
6. Julgará os povos pagãos, empilhará cadáveres; por toda a terra esmagará cabeças.
7. Beberá da torrente no caminho; por isso, erguerá a sua fronte.

 
Salmo 110

1. Aleluia. Louvarei o Senhor de todo o coração, na assembléia dos justos e em seu conselho.
2. Grandes são as obras do Senhor, dignas de admiração de todos os que as amam.
3. Sua obra é toda ela majestade e magnificência. E eterna a sua justiça.
4. Memoráveis são suas obras maravilhosas; o Senhor é clemente e misericordioso.
5. Aos que o temem deu-lhes o sustento; lembrar-se-á eternamente da sua aliança.
6. Mostrou ao seu povo o poder de suas obras, dando-lhe a herança das nações pagãs.
7. As obras de suas mãos são verdade e justiça, imutáveis os seus preceitos,
8. Irrevogáveis pelos séculos eternos, instituídos com justiça e eqüidade.
9. Enviou a seu povo a redenção, concluiu com ele uma aliança eterna. Santo e venerável é o seu nome.
10. O temor do Senhor é o começo da sabedoria; sábios são aqueles que o adoram. Sua glória subsiste eternamente.

 
Salmo 111

1. Aleluia. Feliz o homem que teme o Senhor, e põe o seu prazer em observar os seus mandamentos.
2. Será poderosa sua descendência na terra, e bendita a raça dos homens retos.
3. Suntuosa riqueza haverá em sua casa, e para sempre durará sua abundância.
4. Como luz, se eleva, nas trevas, para os retos, o homem benfazejo, misericordioso e justo.
5. Feliz o homem que se compadece e empresta, que regula suas ações pela justiça.
6. Nada jamais o há de abalar: eterna será a memória do justo.
7. Não temerá notícias funestas, porque seu coração está firme e confiante no Senhor.
8. Inabalável é seu coração, livre de medo, até que possa ver confundidos os seus adversários.
9. Com largueza distribuiu, deu aos pobres; sua liberalidade permanecerá para sempre. Pode levantar a cabeça com altivez.
10. O pecador, porém, não pode vê-lo sem inveja, range os dentes e definha; anulam-se, assim, os desejos dos maus.

 
Salmo 112

1. Aleluia. Louvai, ó servos do Senhor, louvai o nome do Senhor.
2. Bendito seja o nome do Senhor, agora e para sempre.
3. Desde o nascer ao pôr-do-sol, seja louvado o nome do Senhor.
4. O Senhor é excelso sobre todos os povos, sua glória ultrapassa a altura dos céus.
5. Quem se compara ao Senhor, nosso Deus, que tem seu trono nas alturas,
6. e do alto olha o céu e a terra?
7. Ele levanta do pó o indigente e tira o pobre do monturo,
8. para, entre os príncipes, fazê-lo sentar, junto dos grandes de seu povo.
9. E a mulher, que, antes, era estéril, ele a faz, em sua casa, mãe feliz de muitos filhos.

 
Salmo 113

1. Aleluia. Quando Israel saiu do Egito, e a casa de Jacó se apartou de um povo bárbaro,
2. a terra de Judá tornou-se o santuário do Senhor, e Israel seu reino.
3. O mar, à vista disso, fugiu, o Jordão volveu atrás.
4. Os montes saltaram como carneiros; as colinas, como cordeiros.
5. Que tens, ó mar, para assim fugires? E tu, Jordão, para retrocederes para a tua fonte?
6. Ó montes, por que saltastes como carneiros, e vós, colinas, como cordeiros?
7. Ante a face de Deus, treme, ó terra,
8. por quem o rochedo se mudou em lençol de água, e a pedra em fonte de água viva.
9. (1) Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao vosso nome dai glória, por amor de vossa misericórdia e fidelidade.
10. (2) Por que diriam as nações pagãs: Onde está o Deus deles?
11. (3) Nosso Deus está nos céus; ele faz tudo o que lhe apraz.
12. (4) Quanto a seus ídolos de ouro e prata, são eles simples obras da mão dos homens.
13. (5) Têm boca, mas não falam, olhos e não podem ver,
14. (6) têm ouvidos, mas não ouvem, nariz e não podem cheirar.
15. (7) Têm mãos, mas não apalpam, pés e não podem andar, sua garganta não emite som algum.
16. (8) Semelhantes a eles sejam os que os fabricam e quantos neles põem sua confiança.
17. (9) Mas Israel, ao contrário, confia no Senhor: ele é o seu amparo e o seu escudo.
18. (10) Aarão confia no Senhor: ele é o seu amparo e o seu escudo.
19. (11) Confiam no Senhor os que temem o Senhor: ele é o seu amparo e o seu escudo.
20. (12) O Senhor se lembra de nós e nos dará a sua bênção; abençoará a casa de Israel, abençoará a casa de Aarão,
2l (13) abençoará aos que temem ao Senhor, os pequenos como os grandes.
22. (l4) O Senhor há de vos multiplicar, vós e vossos filhos.
23. (15) Sede os benditos do Senhor, que fez o céu e a terra.
24. (16) O céu é o céu do Senhor, mas a terra ele a deu aos filhos de Adão.
25. (l7) Não são os mortos que louvam o Senhor, nem nenhum daqueles que descem aos lugares infernais.
26. (18) Mas somos nós que bendizemos ao Senhor agora e para sempre.

 
Salmo 114

1. Aleluia. Amo o Senhor, porque ele ouviu a voz de minha súplica,
2. porque inclinou para mim os seus ouvidos no dia em que o invoquei.
3. Os laços da morte me envolviam, a rede da habitação dos mortos me apanhou de improviso; estava abismado na aflição e na ansiedade.
4. Foi então que invoquei o nome do Senhor: Ó Senhor, salvai-me a vida!
5. O Senhor é bom e justo, cheio de misericórdia é nosso Deus.
6. O Senhor cuida dos corações simples; achava-me na miséria e ele me salvou.
7. Volta, minha alma, à tua serenidade, porque o Senhor foi bom para contigo,
8. pois livrou-me a alma da morte, preservou-me os olhos do pranto, os pés da queda.
9. Na presença do Senhor continuarei o meu caminho na terra dos vivos.

 
Salmo 115

1. (10) Salmo. Conservei a confiança ainda quando podia dizer: Em verdade sou extremamente infeliz.
2. (11) Em meu pavor eu dizia: O homem é um apoio falaz.
3. (12) Mas que poderei retribuir ao Senhor por tudo o que ele me tem dado?
4. (13) Erguerei o cálice da salvação, invocando o nome do Senhor.
5. (14) Cumprirei os meus votos para com o Senhor, na presença de todo o seu povo.
6. (15) É penoso para o Senhor ver morrer os seus fiéis.
7. (16) Senhor, eu sou vosso servo; vosso servo, filho de vossa serva: quebrastes os meus grilhões.
8. (17) Oferecer-vos-ei um sacrifício de louvor, invocando o nome do Senhor.
9. (18) Cumprirei os meus votos para com o Senhor, na presença de todo o seu povo,
10. (19) nos átrios da casa do Senhor, no teu recinto, ó Jerusalém!

 
Salmo 116

1. Aleluia. Louvai ao Senhor todas as nações, louvai-o todos os povos,
2. porque sem limites é a sua misericórdia para conosco, e eterna a fidelidade do Senhor.

 
Salmo 117

1. Aleluia. Louvai ao Senhor, porque ele é bom; porque eterna é a sua misericórdia.
2. Diga a casa de Israel: Eterna é sua misericórdia.
3. Proclame a casa de Aarão: Eterna é sua misericórdia.
4. E vós, que temeis o Senhor, repeti: Eterna é sua misericórdia.
5. Na tribulação invoquei o Senhor; ouviu-me o Senhor e me livrou.
6. Comigo está o Senhor, nada temo; que mal me poderia ainda fazer um homem?
7. Comigo está o Senhor, meu amparo; verei logo a ruína dos meus inimigos.
8. Mais vale procurar refúgio no Senhor do que confiar no homem.
9. Mais vale procurar refúgio no Senhor do que confiar nos grandes da terra.
10. Ainda que me cercassem todas as nações pagãs, eu as esmagaria em nome do Senhor.
11. Ainda que me assediassem de todos os lados, eu as esmagaria em nome do Senhor.
12. Ainda que me envolvessem como um enxame de abelhas, como um braseiro de espinhos, eu as esmagaria em nome do Senhor.
13. Forçaram-me violentamente para eu cair, mas o Senhor veio em meu auxílio.
14. O Senhor é minha força, minha coragem; ele é meu Salvador.
15. Brados de alegria e de vitória ressoam nas tendas dos justos:
16. a destra do Senhor fez prodígios, levantou-me a destra do Senhor; fez maravilhas a destra do Senhor.
17. Não hei de morrer; viverei para narrar as obras do Senhor.
18. O Senhor castigou-me duramente, mas poupou-me à morte.
19. Abri-me as portas santas, a fim de que eu entre para agradecer ao Senhor.
20. Esta é a porta do Senhor: só os justos por ela podem passar.
21. Graças vos dou porque me ouvistes, e vos fizestes meu Salvador.
22. A pedra rejeitada pelos arquitetos tornou-se a pedra angular.
23. Isto foi obra do Senhor, é um prodígio aos nossos olhos.
24. Este é o dia que o Senhor fez: seja para nós dia de alegria e de felicidade.
25. Senhor, dai-nos a salvação; dai-nos a prosperidade, ó Senhor!
26. Bendito seja o que vem em nome do Senhor! Da casa do Senhor nós vos bendizemos.
27. O Senhor é nosso Deus, ele fez brilhar sobre nós a sua luz. Organizai uma festa com profusão de coroas. E cheguem até os ângulos do altar.
28. Sois o meu Deus, venho agradecer-vos. Venho glorificar-vos, sois o meu Deus.
29. Dai graças ao Senhor porque ele é bom, eterna é sua misericórdia.

 
Salmo 118

1. Salmo. Felizes aqueles cuja vida é pura, e seguem a lei do Senhor.
2. Felizes os que guardam com esmero seus preceitos e o procuram de todo o coração;
3. e os que não praticam o mal, mas andam em seus caminhos.
4. Impusestes vossos preceitos, para serem observados fielmente;
5. oxalá se firmem os meus passos na observância de vossas leis.
6. Não serei então confundido, se fixar os olhos nos vossos mandamentos.
7. Louvar-vos-ei com reto coração, uma vez instruído em vossos justos decretos.
8. Guardarei as vossas leis; não me abandoneis jamais.
9. Como um jovem manterá pura a sua vida? Sendo fiel às vossas palavras.
10. De todo o coração eu vos procuro; não permitais que eu me aparte de vossos mandamentos.
11. Guardo no fundo do meu coração a vossa palavra, para não vos ofender.
12. Sede bendito, Senhor; ensinai-me vossas leis.
13. Meus lábios enumeram todos os decretos de vossa boca.
14. Na observância de vossas ordens eu me alegro, muito mais do que em todas as riquezas.
15. Sobre os vossos preceitos meditarei, e considerarei vossos caminhos.
16. Hei de deleitar-me em vossas leis; jamais esquecerei vossas palavras.
17. Concedei a vosso servo esta graça: que eu viva guardando vossas palavras.
18. Abri meus olhos, para que veja as maravilhas de vossa lei.
19. Peregrino sou na terra, não me oculteis os vossos mandamentos.
20. Consome-se minha alma no desejo perpétuo de observar vossos decretos.
21. Repreendestes os soberbos, malditos os que se apartam de vossos mandamentos.
22. Livrai-me do opróbrio e do desprezo, pois observo as vossas ordens.
23. Mesmo que os príncipes conspirem contra mim, vosso servo meditará em vossas leis.
24. Vossos preceitos são minhas delícias, meus conselheiros são as vossas leis.
25. Prostrada no pó está minha alma, restituí-me a vida conforme vossa promessa.
26. Eu vos exponho a minha vida, para que me atendais: ensinai-me as vossas leis.
27. Mostrai-me o caminho de vossos preceitos, e meditarei em vossas maravilhas.
28. Chora de tristeza a minha alma; reconfortai-me segundo vossa promessa.
29. Afastai-me do caminho da mentira, e fazei-me fiel à vossa lei.
30. Escolhi o caminho da verdade, impus-me os vossos decretos.
31. Apego-me a vossas ordens, Senhor. Não permitais que eu seja confundido.
32. Correrei pelo caminho de vossos mandamentos, porque sois vós que dilatais meu coração.
33. Mostrai-me, Senhor, o caminho de vossas leis, para que eu nele permaneça com fidelidade.
34. Ensinai-me a observar a vossa lei e a guardá-la de todo o coração.
35. Conduzi-me pelas sendas de vossas leis, porque nelas estão minhas delícias.
36. Inclinai-me o coração às vossas ordens e não para a avareza.
37. Não permitais que meus olhos vejam a vaidade, fazei-me viver em vossos caminhos.
38. Cumpri a promessa para com vosso servo, que fizestes àqueles que vos temem.
39. Afastai de mim a vergonha que receio, pois são agradáveis os vossos decretos.
40. Anseio pelos vossos preceitos; dai-me que viva segundo vossa justiça.
41. Desçam a mim as vossas misericórdias, Senhor, e a vossa salvação, conforme vossa promessa.
42. Saberei o que responder aos que me ultrajam, porque tenho confiança em vossa palavra.
43. Não me tireis jamais da boca a palavra da verdade, porque tenho confiança em vossos decretos.
44. Guardarei constantemente a vossa lei, para sempre e pelos séculos dos séculos.
45. Andarei por um caminho seguro, porque procuro os vossos preceitos.
46. Diante dos reis falarei de vossas prescrições, e não me envergonharei.
47. Encontrarei minhas delícias em vossos mandamentos, porque os amo.
48. Erguerei as mãos para executar vossos mandamentos, e meditarei em vossas leis.
49. Lembrai-vos da palavra empenhada ao vosso servo, na qual me fizestes encontrar esperança.
50. O único consolo em minha aflição é que vossa palavra me dá vida.
51. De sarcasmos cumulam-me os soberbos, mas de vossa lei não me afasto.
52. Lembro-me de vossos juízos de outrora, e isso me consola.
53. Revolto-me à vista dos pecadores, que abandonam a vossa lei.
54. Vossas leis são objeto de meus cantares no lugar de meu exílio.
55. De noite, lembro-me, Senhor, de vosso nome; guardarei a vossa lei.
56. Escolhi, como parte que me toca, observar vossos preceitos.
57. Minha partilha, Senhor, eu o declaro, é guardar as vossas palavras.
58. De todo o coração imploro em vossa presença: tende piedade de mim como haveis prometido.
59. Considero os meus atos, e regulo meus passos conforme as vossas ordens.
60. Apresso-me, sem hesitação, em observar os vossos mandamentos.
61. As malhas dos ímpios me cercaram, mas eu não esqueço a vossa lei.
62. Em meio à noite levanto-me para vos louvar pelos vossos decretos cheios de justiça.
63. Sou amigo de todos os que vos temem e dos que seguem vossos preceitos.
64. De vossa bondade, Senhor, está cheia a terra; ensinai-me as vossas leis.
65. Tratastes com benevolência o vosso servo, Senhor, segundo a vossa palavra.
66. Dai-me o juízo reto e a sabedoria, porque confio em vossos mandamentos.
67. Antes de ser afligido pela provação, errei; mas agora guardo a vossa palavra.
68. Vós que sois bom e benfazejo, ensinai-me as vossas leis.
69. Contra mim os soberbos maquinam caluniosamente, mas eu, de todo o coração, fico fiel aos vossos preceitos.
70. Seu espírito tornou-se espesso como sebo; eu, porém, me deleito em vossa lei.
71. Foi bom para mim ser afligido, a fim de aprender vossos decretos.
72. Mais vale para mim a lei de vossa boca que montes de ouro e prata.
73. Formaram-me e plasmaram-me vossas mãos, dai-me a sabedoria para aprender os vossos mandamentos.
74. Aqueles que vos temem alegrem-se ao me ver, porque em vossa palavra pus minha esperança.
75. Sei, Senhor, que são justos os vossos decretos e que com razão vós me provastes.
76. Venha-me em auxílio a vossa misericórdia, e console-me segundo a promessa feita a vosso servo.
77. Venham sobre mim as vossas misericórdias, para que eu viva, porque a vossa lei são as minhas delícias.
78. Sejam confundidos esses orgulhosos que sem razão me afligem; porque medito em vossos preceitos.
79. Voltem para mim os que vos temem e os que observam as vossas prescrições.
80. Seja perfeito meu coração na observância de vossas leis, a fim de que eu não seja confundido.
81. Desfalece-me a alma ansiando por vosso auxílio; em vossa palavra ponho minha esperança.
82. Enlanguescem-me os olhos desejando a vossa palavra; quando vireis consolar-me?
83. Assemelho-me a um odre exposto ao fumeiro, e, contudo, não me esqueci de vossas leis.
84. Por quantos dias fareis esperar o vosso servo? Quando lhe fareis justiça de seus perseguidores?
85. Para mim cavaram fossas os orgulhosos, que não guardam a vossa lei.
86. Todos os vossos mandamentos são justos; sem razão me perseguem; ajudai-me.
87. Por pouco não me exterminaram da terra; eu, porém, não abandonei vossos preceitos.
88. Conservai-me vivo em vossa misericórdia, para que eu observe as prescrições de vossa boca.
89. É eterna, Senhor, vossa palavra, tão estável como o céu.
90. Vossa verdade dura de geração em geração, tão estável como a terra que criastes.
91. Tudo subsiste perpetuamente pelos vossos decretos, porque o universo vos é sujeito.
92. Se em vossa lei não tivesse encontrado as minhas delícias, já teria perecido em minha aflição.
93. Jamais esquecerei vossos preceitos, porque por eles é que me dais a vida.
94. Sou vosso, salvai-me, porquanto busco vossos preceitos.
95. Espreitam-me os pecadores para me perder, mas eu atendo às vossas ordens.
96. Vi que há um termo em toda perfeição, mas vossa lei se estende sem limites.
97. Ah, quanto amo, Senhor, a vossa lei! Durante o dia todo eu a medito.
98. Mais sábio que meus inimigos me fizeram os vossos mandamentos, pois eles me acompanham sempre.
99. Sou mais prudente do que todos os meus mestres, porque vossas prescrições são o único objeto de minha meditação.
100. Sou mais sensato do que os anciãos, porque observo os vossos preceitos.
101. Dos maus caminhos desvio os meus pés, para poder guardar vossas palavras.
102. De vossos decretos eu não me desvio, porque vós mos ensinastes.
103. Quão saborosas são para mim vossas palavras! São mais doces que o mel à minha boca.
104. Vossos preceitos me fizeram sábio, por isso odeio toda senda iníqua.
105. Vossa palavra é um facho que ilumina meus passos, uma luz em meu caminho.
106. Faço juramento e me obrigo a guardar os vossos justos decretos.
107. Estou extremamente aflito, Senhor; conservai-me a vida como prometestes.
108. Aceitai, Senhor, a oferenda da minha promessa e ensinai-me as vossas ordens.
109. Em constante perigo está a minha vida, mas não me esqueço de vossa lei.
110. Armaram-me laços os pecadores, mas não fugi de vossos preceitos.
111. Minha herança eterna são as vossas prescrições, porque fazem a alegria de meu coração.
112. Inclinei o meu coração à prática de vossas ordens, perpetuamente e com exatidão.
113. Odeio os homens hipócritas, mas amo a vossa lei.
114. Vós sois meu abrigo e meu escudo; vossa palavra é minha esperança.
115. Afastai-vos de mim, homens malignos! E guardarei os mandamentos de meu Deus.
116. Sustentai-me pela vossa promessa, para que eu viva, não queirais confundir minha esperança.
117. Ajudai-me para que me salve, e sempre atenderei a vossos decretos.
118. Desprezais os que se apartam de vossas leis, porque mentirosos são seus pensamentos.
119. Como escória reputais os pecadores, por isso eu amo as vossas prescrições.
120. O respeito que tenho por vós me faz estremecer e vossos decretos inspiram-me temor.
121. Pratico o direito e a justiça; não me entregueis aos que me querem oprimir.
122. Sede fiador de vosso servo para a sua segurança, a fim de que os orgulhosos não me oprimam.
123. Desfalecem-me os olhos desejando vossa ajuda e na espera de vossas promessas de felicidade.
124. Tratai vosso servo segundo vossa bondade, e ensinai-me vossas leis.
125. Sou vosso servo: ensinai-me a sabedoria, para que conheça as vossas prescrições.
126. Senhor, é tempo de vós intervirdes, porque violaram as vossas leis.
127. Por isso amo os vossos mandamentos, mais que o ouro, mesmo o ouro mais fino.
128. Por isso escolhi as vossas leis como partilha, e detesto o caminho da mentira.
129. São admiráveis as vossas prescrições, por isso minha alma as observa.
130. Vossas palavras são uma verdadeira luz, que dá sabedoria aos simples.
131. Abro a boca para aspirar, num intenso amor de vossa lei.
132. Voltai-vos para mim e mostrai-me vossa misericórdia, como fazeis sempre para com os que amam o vosso nome.
133. Dirigi meus passos segundo a vossa palavra, a fim de que jamais o pecado reine sobre mim.
134. Livrai-me da opressão dos homens, para que possa guardar as vossas ordens.
135. Fazei brilhar sobre o vosso servo o esplendor da vossa face, e ensinai-me as vossas leis.
136. Muitas lágrimas correram de meus olhos, por não ver observada a vossa lei.
137. Justo sois, Senhor, e retos os vossos juízos.
138. Promulgastes vossas prescrições com toda a justiça, em toda a verdade.
139. Sinto-me consumido pela dor ao ver meus inimigos negligenciar vossas palavras.
140. Vossa palavra é isenta de toda a impureza, vosso servo a ama com fervor.
141. Sou pequeno e desprezado, mas não esqueço os vossos preceitos!
142. Vossa justiça é justiça eterna; e firme, a vossa lei.
143. Apesar da angústia e da tribulação que caíram sobre mim, vossos mandamentos continuam a ser minhas delícias.
144. Eterna é a justiça das vossas prescrições; dai-me a compreensão delas para que eu viva.
145. De todo o coração eu clamo. Ouvi-me, Senhor; e observarei as vossas leis.
146. Clamo a vós: salvai-me, para que eu guarde as vossas prescrições.
147. Já desde a aurora imploro vosso auxílio; nas vossas palavras ponho minha esperança.
148. Meus olhos se antecipam às vigílias da noite, para meditarem em vossa palavra.
149. Conforme vossa misericórdia, ouvi, Senhor, a minha voz; e dai-me a vida, segundo vossa promessa.
150. Aproximam-se os que me perseguem sem razão, eles estão longe de vossa lei.
151. Mas vós, Senhor, estais bem perto, e os vossos mandamentos são a verdade.
152. De há muito sei que vossas prescrições, vós as estabelecestes desde toda a eternidade.
153. Vede a minha aflição e libertai-me, porque não me esqueci de vossa lei.
154. Tomai em vossas mãos a minha causa e vingai-me; como prometestes, dai-me a vida.
155. Longe dos pecadores está a salvação, daqueles que não observam as vossas leis.
156. São muitas, Senhor, as vossas misericórdias; dai-me a vida segundo as vossas decisões.
157. Apesar do número dos que me perseguem e oprimem, não me aparto em nada de vossos preceitos.
158. Ao ver os prevaricadores sinto desgosto, porque eles não observam a vossa palavra.
159. Vede, Senhor, como amo vossos preceitos; conservai-me vivo segundo vossa promessa.
160. O sumário da vossa palavra é a verdade, eternos são os decretos de vossa justiça.
161. Perseguem-me sem razão os poderosos; meu coração só reverencia vossas palavras.
162. Encontro minha alegria na vossa palavra, como a de quem encontra um imenso tesouro.
163. Odeio o mal, eu o detesto; mas amo a vossa lei.
164. Sete vezes ao dia publico vossos louvores, por causa da justiça de vossos juízos.
165. Grande paz têm aqueles que amam vossa lei: não há para eles nada que os perturbe.
166. Espero, Senhor, o vosso auxílio, e cumpro os vossos mandamentos.
167. Minha alma é fiel às vossas prescrições, e eu as amo com fervor.
168. Guardo os vossos preceitos e as vossas ordens, porque ante vossos olhos está minha vida inteira.
169. Chegue até vós, Senhor, o meu clamor; instruí-me segundo a vossa palavra.
170. Chegue até vós a minha prece; livrai-me segundo a vossa palavra.
171. Meus lábios cantem a vós um cântico, por me haverdes ensinado as vossas leis.
172. Cante minha língua as vossas palavras, porque justos são os vossos mandamentos.
173. Estenda-se a vossa mão e me socorra, porque escolhi vossos preceitos.
174. Suspiro, Senhor, pela vossa salvação, e a vossa lei são as minhas delícias.
175. Viva a minha alma para vos louvar, e ajudem-me os vossos decretos.
176. Ando errante como ovelha tresmalhada; vinde em busca do vosso servo, porque não me esqueci de vossos mandamentos!

 
Salmo 119

1. Cântico das peregrinações. Na hora da tribulação, clamei ao Senhor e ele me atendeu.
2. Senhor, livrai minha alma dos lábios mentirosos e da língua pérfida.
3. Que ganharás, qual será teu proveito, ó língua pérfida?
4. Flechas agudas de guerreiro, carvões ardentes de giesta.
5. Ai de mim por habitar em Mesec e viver em meio às tendas de Cedar!
6. Por muito tempo minha alma tem vivido com aqueles que detestam a paz.
7. Só quero a paz, mas quando dela lhes falo, eles se dispõem para a guerra.

 
Salmo 120

1. Cântico das peregrinações. Para os montes levanto os olhos: de onde me virá socorro?
2. O meu socorro virá do Senhor, criador do céu e da terra.
3. Ele não permitirá que teus pés resvalem; não dormirá aquele que te guarda.
4. Não, não há de dormir, nem adormecer o guarda de Israel.
5. O Senhor é teu guarda, o Senhor é teu abrigo, sempre ao teu lado.
6. De dia, o sol não te fará mal; nem a lua durante a noite.
7. O Senhor te resguardará de todo o mal; ele velará sobre tua alma.
8. O Senhor guardará os teus passos, agora e para todo o sempre.

 
Salmo 121

1. Cântico das peregrinações. De Davi. Que alegria quando me vieram dizer: Vamos subir à casa do Senhor…
2. Eis que nossos pés se estacam diante de tuas portas, ó Jerusalém!
3. Jerusalém, cidade tão bem edificada, que forma um tão belo conjunto!
4. Para lá sobem as tribos, as tribos do Senhor, segundo a lei de Israel, para celebrar o nome do Senhor.
5. Lá se acham os tronos de justiça, os assentos da casa de Davi.
6. Pedi, vós todos, a paz para Jerusalém, e vivam em segurança os que te amam.
7. Reine a paz em teus muros, e a tranqüilidade em teus palácios.
8. Por amor de meus irmãos e de meus amigos, pedirei a paz para ti.
9. Por amor da casa do Senhor, nosso Deus, pedirei para ti a felicidade.

 
Salmo 122

1. Cântico das peregrinações. Levanto os olhos para vós, que habitais nos céus.
2. Como os olhos dos servos estão fixos nas mãos de seus senhores, como os olhos das servas estão fixos nas mãos de suas senhoras, assim nossos olhos estão voltados para o Senhor, nosso Deus, esperando que ele tenha piedade de nós.
3. Tende misericórdia de nós, Senhor, tende misericórdia de nós, porque estamos saturados de desprezo.
4. Nossa alma está em excesso repleta da irrisão dos opulentos e do desprezo dos soberdos.

 
Salmo 123

1. Cântico das peregrinações. De Davi. Se o Senhor não tivesse estado conosco, sim, diga-o Israel,
2. se o Senhor não tivesse estado conosco, os homens que se insurgiram contra nós
3. ter-nos-iam então devorado vivos. Quando seu furor se desencadeou contra nós,
4. as águas nos teriam submergido. Uma torrente teria passado sobre nós.
5. Então nos teriam recoberto as ondas intumescidas.
6. Bendito seja o Senhor, que não nos entregou como presa aos seus dentes.
7. Nossa alma escapou como um pássaro, dos laços do caçador. Rompeu-se a armadilha, e nos achamos livres.
8. Nosso socorro está no nome do Senhor, criador do céu e da terra.

 
Salmo 124

1. Cântico das peregrinações. Os que confiam no Senhor são como o monte Sião, eternamente firme.
2. Como Jerusalém está toda cercada de montanhas, assim o Senhor envolve seu povo, agora e sempre.
3. Não permanecerá estendido o cetro dos ímpios sobre o destino dos justos, para que também estes não acabem por estender suas mãos ao crime.
4. Fazei bem, Senhor, aos que são bons, e aos homens de reto coração.
5. Mas aqueles que se desviam por caminhos tortuosos, que o Senhor os leve com os malfeitores. Paz para Israel!

 
Salmo 125

1. Cântico das peregrinações. Quando o Senhor reconduzia os cativos de Sião, estávamos como sonhando.
2. Em nossa boca só havia expressões de alegria, e em nossos lábios canto de triunfo. Entre os pagãos se dizia: O Senhor fez por eles grandes coisas.
3. Sim, o Senhor fez por nós grandes coisas; ficamos exultantes de alegria!
4. Mudai, Senhor, a nossa sorte, como as torrentes nos desertos do sul.
5. Os que semeiam entre lágrimas, recolherão com alegria.
6. Na ida, caminham chorando, os que levam a semente a espargir. Na volta, virão com alegria, quando trouxerem os seus feixes.

 
Salmo 126

1. Cântico das peregrinações. De Salomão. Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a constroem. Se o Senhor não guardar a cidade, debalde vigiam as sentinelas.
2. Inútil levantar-vos antes da aurora, e atrasar até alta noite vosso descanso, para comer o pão de um duro trabalho, pois Deus o dá aos seus amados até durante o sono.
3. Vede, os filhos são um dom de Deus: é uma recompensa o fruto das entranhas.
4. Tais como as flechas nas mãos do guerreiro, assim são os filhos gerados na juventude.
5. Feliz o homem que assim encheu sua aljava: não será confundido quando defender a sua causa contra seus inimigos à porta da cidade.

 
Salmo 127

1. Cântico das peregrinações. Felizes os que temem o Senhor, os que andam em seus caminhos.
2. Poderás viver, então, do trabalho de tuas mãos, serás feliz e terás bem-estar.
3. Tua mulher será em teu lar como uma vinha fecunda. Teus filhos em torno à tua mesa serão como brotos de oliveira.
4. Assim será abençoado aquele que teme o Senhor.
5. De Sião te abençoe o Senhor para que em todos os dias de tua vida gozes da prosperidade de Jerusalém,
6. e para que possas ver os filhos dos teus filhos. Reine a paz em Israel!

 
Salmo 128

1. Cântico das peregrinações. Ah, como me perseguiram desde a minha juventude! Que o diga Israel.
2. Como me perseguiram desde a minha juventude! Mas não me puderam vencer.
3. Lavraram sobre o meu dorso os lavradores, nele abriram longos sulcos.
4. Mas o Senhor é justo, ele cortou as correias com que me afligiram os maus.
5. Sejam confundidos e recuem todos os que odeiam Sião.
6. Que eles se tornem como a erva do telhado, que seca antes de ser arrancada.
7. Com ela não enche as mãos o ceifador, nem seu regaço quem recolhe os feixes.
8. Os que passam não lhes dirão: Desça sobre vós a bênção do Senhor! Nem: Nós vos abençoamos em nome do Senhor.

 
Salmo 129

1. Cântico das peregrinações. Do fundo do abismo, clamo a vós, Senhor;
2. Senhor, ouvi minha oração. Que vossos ouvidos estejam atentos à voz de minha súplica.
3. Se tiverdes em conta nossos pecados, Senhor, Senhor, quem poderá subsistir diante de vós?
4. Mas em vós se encontra o perdão dos pecados, para que, reverentes, vos sirvamos.
5. Ponho a minha esperança no Senhor. Minha alma tem confiança em sua palavra.
6. Minha alma espera pelo Senhor, mais ansiosa do que os vigias pela manhã.
7. Mais do que os vigias que aguardam a manhã, espere Israel pelo Senhor, porque junto ao Senhor se acha a misericórdia; encontra-se nele copiosa redenção.
8. E ele mesmo há de remir Israel de todas as suas iniqüidades.

 
Salmo 130

1. Cântico das peregrinações. De Davi. Senhor, meu coração não se enche de orgulho, meu olhar não se levanta arrogante. Não procuro grandezas, nem coisas superiores a mim.
2. Ao contrário, mantenho em calma e sossego a minha alma, tal como uma criança no seio materno, assim está minha alma em mim mesmo.
3. Israel, põe tua esperança no Senhor, agora e para sempre.

 
Salmo 131

1. Cântico das peregrinações. Senhor, lembrai-vos de Davi e de sua grande piedade,
2. como ele fez ao Senhor este juramento, e este voto ao Poderoso de Jacó:
3. Não entrarei na tenda em que moro, não me deitarei no leito de meu repouso,
4. não darei sono aos meus olhos, nem repouso às minhas pálpebras,
5. até que encontre uma residência para o Senhor, uma morada ao Poderoso de Jacó.
6. Ouvimos dizer que a arca estava em Éfrata, nós a encontramos nas campinas de Jaar.
7. Entremos em sua morada, prostremo-nos diante do escabelo de seus pés.
8. Levantai-vos, Senhor, para vir ao vosso repouso, vós e a arca de vossa majestade.
9. Vistam-se de justiça os vossos sacerdotes, e jubilosos cantem de alegria vossos fiéis.
10. Pelo nome de Davi, vosso servo, não rejeiteis a face daquele que vos é consagrado.
11. O Senhor fez a Davi um juramento, de que não há de se retratar: Colocarei em teu trono um descendente de tua raça.
12. Se teus filhos guardarem minha aliança e os preceitos que eu lhes hei de ensinar, também os descendentes deles, para sempre, sentar-se-ão em teu trono.
13. Porque o Senhor escolheu Sião, ele a preferiu para sua morada.
14. É aqui para sempre o lugar de meu repouso, é aqui que habitarei porque o escolhi.
15. Abençoarei copiosamente sua subsistência, fartarei de pão os seus pobres.
16. Revestirei de salvação seus sacerdotes, e seus fiéis exultarão de alegria.
17. Aí farei crescer o poder de Davi, aí prepararei uma lâmpada para o que me é consagrado.
18. Cobrirei de confusão seus inimigos; em sua fronte, porém, brilhará meu diadema.

 
Salmo 132

1. Cântico das peregrinações. Oh, como é bom, como é agradável para irmãos unidos viverem juntos.
2. É como um óleo suave derramado sobre a fronte, e que desce para a barba, a barba de Aarão, para correr em seguida até a orla de seu manto.
3. É como o orvalho do Hermon, que desce pela colina de Sião; pois ali derrama o Senhor a vida e uma bênção eterna.

 
Salmo 133

1. Cântico das peregrinações. E agora, bendizei ao Senhor, vós todos, servos do Senhor, vós que habitais na casa do Senhor, durante as horas da noite.
2. Levantai as mãos para o santuário, e bendizei ao Senhor.
3. De Sião te abençoe o Senhor, ele que fez o céu e a terra!

 
Salmo 134

1. Aleluia. Louvai o nome do Senhor, louvai-o, servos do Senhor,
2. vós que estais no templo do Senhor, nos átrios da casa de nosso Deus.
3. Louvai o Senhor, porque ele é bom; cantai à glória de seu nome, porque ele é amável.
4. Pois o Senhor escolheu Jacó para si, ele tomou Israel por sua herança.
5. Em verdade, sei que o Senhor é grande, e nosso Deus é maior que todos os deuses.
6. O Senhor faz tudo o que lhe apraz, no céu e na terra, no mar e nas profundezas das águas.
7. Ele chama as nuvens dos confins da terra, faz chover em meio aos relâmpagos, solta o vento de seus reservatórios.
8. Foi ele que feriu os primogênitos do Egito, tanto dos homens como dos brutos.
9. Realizou em ti, Egito, sinais e prodígios, contra o faraó de todos os seus servos.
10. Abateu numerosas nações, e exterminou reis poderosos:
11. Seon, rei dos amorreus; Og, rei de Basã, assim como todos os reis de Canaã.
12. E deu a terra deles em herança, como patrimônio para Israel, seu povo.
13. Ó Senhor, vosso nome é eterno! Senhor, vossa lembrança passa de geração em geração,
14. pois o Senhor é o guarda de seu povo, e tem piedade de seus servos.
15. Os ídolos dos pagãos não passam de prata e ouro, são obras de mãos humanas.
16. Têm boca e não podem falar; têm olhos e não podem ver;
17. têm ouvidos e não podem ouvir. Não há respiração em sua boca.
18. Assemelhem-se a eles todos os que os fizeram, e todos os que neles confiam.
19. Casa de Israel, bendizei o Senhor; casa de Aarão, bendizei o Senhor;
20. casa de Levi, bendizei o Senhor. Vós todos que o servis, bendizei o Senhor.
21. De Sião seja bendito o Senhor, que habita em Jerusalém.

 
Salmo 135

1. Aleluia. Louvai o Senhor, porque ele é bom, porque sua misericórdia é eterna.
2. Louvai o Deus dos deuses, porque sua misericórdia é eterna.
3. Louvai o Senhor dos senhores, porque sua misericórdia é eterna.
4. Só ele operou maravilhosos prodígios, porque sua misericórdia é eterna.
5. Ele criou os céus com sabedoria, porque sua misericórdia é eterna.
6. Ele estendeu a terra sobre as águas, porque sua misericórdia é eterna.
7. Ele fez os grandes luminares, porque sua misericórdia é eterna.
8. O sol que domina os dias, porque sua misericórdia é eterna.
9. A lua e as estrelas para presidirem a noite, porque sua misericórdia é eterna.
10. Ele feriu os primogênitos dos egípcios, porque sua misericórdia é eterna.
11. Ele tirou Israel do meio deles, porque sua misericórdia é eterna.
12. Graças à força de sua mão e ao vigor de seu braço, porque sua misericórdia é eterna.
13. Ele dividiu em dois o mar Vermelho, porque sua misericórdia é eterna.
14. Ele fez passar Israel pelo meio dele, porque sua misericórdia é eterna.
15. Ele precipitou no mar Vermelho o faraó e seu exército, porque sua misericórdia é eterna.
16. Ele conduziu seu povo através do deserto, porque sua misericórdia é eterna.
17. Ele abateu grandes reis, porque sua misericórdia é eterna.
18. Ele exterminou reis poderosos, porque sua misericórdia é eterna.
19. Seon, rei dos amorreus, porque sua misericórdia é eterna.
20. E Og, rei de Basã, porque sua misericórdia é eterna.
21. E deu a terra deles em herança, porque sua misericórdia é eterna.
22. Como patrimônio de Israel, seu servo, porque sua misericórdia é eterna.
23. Em nosso abatimento ele se lembrou de nós, porque sua misericórdia é eterna.
24. E nos livrou de nossos inimigos, porque sua misericórdia é eterna.
25. Ele dá alimento a todos os seres vivos, porque sua misericórdia é eterna.
26. Louvai o Deus do céu, porque sua misericórdia é eterna.

 
Salmo 136

1. Às margens dos rios de Babilônia, nos assentávamos chorando, lembrando-nos de Sião.
2. Nos salgueiros daquela terra, pendurávamos, então, as nossas harpas,
3. porque aqueles que nos tinham deportado pediam-nos um cântico. Nossos opressores exigiam de nós um hino de alegria: Cantai-nos um dos cânticos de Sião.
4. Como poderíamos nós cantar um cântico do Senhor em terra estranha?
5. Se eu me esquecer de ti, ó Jerusalém, que minha mão direita se paralise!
6. Que minha língua se me apegue ao paladar, se eu não me lembrar de ti, se não puser Jerusalém acima de todas as minhas alegrias.
7. Contra os filhos de Edom, lembrai-vos, Senhor, do dia da queda de Jerusalém, quando eles gritavam: Arrasai-a, arrasai-a até os seus alicerces!
8. Ó filha de Babilônia, a devastadora, feliz aquele que te retribuir o mal que nos fizeste!
9. Feliz aquele que se apoderar de teus filhinhos, para os esmagar contra o rochedo!

 
Salmo 137

1. De Davi. Eu vos louvarei de todo o coração, Senhor, porque ouvistes as minhas palavras. Na presença dos anjos eu vos cantarei.
2. Ante vosso santo templo prostrar-me-ei, e louvarei o vosso nome, pela vossa bondade e fidelidade, porque acima de todas as coisas, exaltastes o vosso nome e a vossa promessa.
3. Quando vos invoquei, vós me respondestes; fizestes crescer a força de minha alma.
4. Hão de vos louvar, Senhor, todos os reis da terra, ao ouvirem as palavras de vossa boca.
5. E celebrarão os desígnios do Senhor: Verdadeiramente, grande é a glória do Senhor.
6. Sim, excelso é o Senhor, mas olha os pequeninos, enquanto seu olhar perscruta os soberbos.
7. Em meio à adversidade vós me conservais a vida, estendeis a mão contra a cólera de meus inimigos; salva-me a vossa mão.
8. O Senhor completará o que em meu auxílio começou. Senhor, eterna é a vossa bondade: não abandoneis a obra de vossas mãos.

 
Salmo 138

1. Ao mestre de canto. Salmo de Davi. Senhor, vós me perscrutais e me conheceis,
2. sabeis tudo de mim, quando me sento ou me levanto. De longe penetrais meus pensamentos.
3. Quando ando e quando repouso, vós me vedes, observais todos os meus passos.
4. A palavra ainda me não chegou à língua, e já, Senhor, a conheceis toda.
5. Vós me cercais por trás e pela frente, e estendeis sobre mim a vossa mão.
6. Conhecimento assim maravilhoso me ultrapassa, ele é tão sublime que não posso atingi-lo.
7. Para onde irei, longe de vosso Espírito? Para onde fugir, apartado de vosso olhar?
8. Se subir até os céus, ali estareis; se descer à região dos mortos, lá vos encontrareis também.
9. Se tomar as asas da aurora, se me fixar nos confins do mar,
10. é ainda vossa mão que lá me levará, e vossa destra que me sustentará.
11. Se eu dissesse: Pelo menos as trevas me ocultarão, e a noite, como se fora luz, me há de envolver.
12. As próprias trevas não são escuras para vós, a noite vos é transparente como o dia e a escuridão, clara como a luz.
13. Fostes vós que plasmastes as entranhas de meu corpo, vós me tecestes no seio de minha mãe.
14. Sede bendito por me haverdes feito de modo tão maravilhoso. Pelas vossas obras tão extraordinárias, conheceis até o fundo a minha alma.
15. Nada de minha substância vos é oculto, quando fui formado ocultamente, quando fui tecido nas entranhas subterrâneas.
16. Cada uma de minhas ações vossos olhos viram, e todas elas foram escritas em vosso livro; cada dia de minha vida foi prefixado, desde antes que um só deles existisse.
17. Ó Deus, como são insondáveis para mim vossos desígnios! E quão imenso é o número deles!
18. Como contá-los? São mais numerosos que a areia do mar; se pudesse chegar ao fim, seria ainda com vossa ajuda.
19. Oxalá extermineis os ímpios, ó Deus, e que se apartem de mim os sanguinários!
20. Eles se revoltam insidiosamente contra vós, perfidamente se insurgem vossos inimigos.
21. Pois não hei de odiar, Senhor, aos que vos odeiam? Aos que se levantam contra vós, não hei de abominá-los?
22. Eu os odeio com ódio mortal, eu os tenho em conta de meus próprios inimigos.
23. Perscrutai-me, Senhor, para conhecer meu coração; provai-me e conhecei meus pensamentos.
24. Vede se ando na senda do mal, e conduzi-me pelo caminho da eternidade.

 
Salmo 139

1. Ao mestre de canto. Salmo de Davi.
2. Livrai-me, Senhor, do homem mau; preservai-me do homem violento,
3. daqueles que tramam o mal no coração, que provocam discórdias diariamente,
4. que aguçam a língua qual serpente, que ocultam nos lábios veneno viperino.
5. Salvai-me, Senhor, das mãos do ímpio; preservai-me do homem violento, daqueles que tramam minha queda.
6. Orgulhosos, armam laços contra mim e estendem suas redes, e junto ao caminho me colocam ciladas.
7. Digo ao Senhor: Vós sois o meu Deus. Escutai, Senhor, a voz de minha súplica.
8. Senhor Deus, meu poderoso apoio! Vós protegeis minha fronte no dia do combate.
9. Não atendais, Senhor, os desejos do ímpio, não deixeis que se cumpram seus desígnios.
10. Que não levantem a cabeça os que me cercam; sobre eles recaia a malícia de seus lábios.
11. Carvões ardentes chovam sobre eles: sejam lançados numa fossa de onde não se ergam mais.
12. Não terá duração na terra a má língua; o infortúnio surpreenderá o homem violento.
13. Sei que o Senhor defende o desvalido, e faz justiça aos pobres.
14. Sim, os justos celebrarão o vosso nome, e os retos poderão viver em vossa presença.

 
Salmo 140

1. Salmo de Davi. Senhor, eu vos chamo, vinde logo em meu socorro; escutai a minha voz quando vos invoco.
2. Que minha oração suba até vós como a fumaça do incenso, que minhas mãos estendidas para vós sejam como a oferenda da tarde.
3. Ponde, Senhor, uma guarda em minha boca, uma sentinela à porta de meus lábios.
4. Não deixeis meu coração inclinar-se ao mal, para impiamente cometer alguma ação criminosa. Não permitais que eu tome parte nos festins dos homens que praticam o mal.
5. Se o justo me bate é um favor, se me repreende é como perfume em minha fronte. Minha cabeça não o rejeitará; porém, sob seus golpes, apenas rezarei.
6. Seus chefes foram precipitados pelas encostas do rochedo, e ouviram quão brandas eram as minhas palavras.
7. Como a terra fendida e sulcada pelo arado, assim seus ossos se dispersam à beira da região dos mortos.
8. Pois é para vós, Senhor, que se voltam os meus olhos; eu me refugio junto de vós, não me deixeis perecer.
9. Guardai-me do laço que me armaram, e das ciladas dos que praticam o mal.
10. Caiam os ímpios, de uma vez, nas próprias malhas; quanto a mim, que eu escape são e salvo.

 
Salmo 141

1. Hino de Davi, quando estava na caverna. Oração.
2. Minha voz lança um grande brado ao Senhor, em alta voz imploro ao Senhor.
3. Ponho diante dele a minha inquietação, eu lhe exponho toda a minha angústia.
4. Na hora em que meu espírito desfalece, vós conheceis o meu caminho. Na senda em que ando, ocultaram-me um laço.
5. Olho para a direita e vejo: não há ninguém que cuide de mim. Não existe para mim um refúgio, ninguém que se interesse pela minha vida.
6. Eu vos chamo, Senhor, vós sois meu refúgio, meu quinhão na terra dos vivos.
7. Atendei ao meu clamor, porque estou numa extrema miséria. Livrai-me daqueles que me perseguem, porque são mais fortes do que eu.
8. Tirai-me desta prisão, para que possa agradecer ao vosso nome. Os justos virão rodear-me, quando me tiverdes feito este benefício.

 
Salmo 142

1. Salmo de Davi. Senhor, ouvi a minha oração; pela vossa fidelidade, escutai a minha súplica, atendei-me em nome de vossa justiça.
2. Não entreis em juízo com o vosso servo, porque ninguém que viva é justo diante de vós.
3. O inimigo trama contra a minha vida, ele me prostrou por terra; relegou-me para as trevas com os mortos.
4. Desfalece-me o espírito dentro de mim, gela-me no peito o coração.
5. Lembro-me dos dias de outrora, penso em tudo aquilo que fizestes, reflito nas obras de vossas mãos.
6. Estendo para vós os braços; minha alma, como terra árida, tem sede de vós.
7. Apressai-vos em me atender, Senhor, pois estou a ponto de desfalecer. Não me oculteis a vossa face, para que não me torne como os que descem à sepultura.
8. Fazei-me sentir, logo, vossa bondade, porque ponho em vós a minha confiança. Mostrai-me o caminho que devo seguir, porque é para vós que se eleva a minha alma.
9. Livrai-me, Senhor, de meus inimigos, porque é em vós que ponho a minha esperança.
10. Ensinai-me a fazer vossa vontade, pois sois o meu Deus. Que vosso Espírito de bondade me conduza pelo caminho reto.
11. Por amor de vosso nome, Senhor, conservai-me a vida; em nome de vossa clemência, livrai minha alma de suas angústias.
12. Pela vossa bondade, destruí meus inimigos e exterminai todos os que me oprimem, pois sou vosso servo.

 
Salmo 143

1. De Davi. Bendito seja o Senhor, meu rochedo, que adestra minhas mãos para o combate, meus dedos para a guerra;
2. meu benfeitor e meu refúgio, minha cidadela e meu libertador, meu escudo e meu asilo, que submete a mim os povos.
3. Que é o homem, Senhor, para cuidardes dele, que é o filho do homem para que vos ocupeis dele?
4. O homem é semelhante ao sopro da brisa, seus dias são como a sombra que passa.
5. Inclinai, Senhor, os vossos céus e descei, tocai as montanhas para que se abrasem,
6. fulminai o raio e dispersai-os, lançai vossas setas e afugentai-os.
7. Estendei do alto a vossa mão, tirai-me do caudal, das mãos do estrangeiro,
8. cuja boca só diz mentiras e cuja mão só faz juramentos falsos.
9. Ó Deus, cantar-vos-ei um cântico novo, louvar-vos-ei com a harpa de dez cordas.
10. Vós que aos reis dais a vitória, que livrastes Davi, vosso servo;
11. salvai-me da espada da malícia, e livrai-me das mãos de estrangeiros, cuja boca só diz mentiras e cuja mão só faz juramentos falsos.
12. Sejam nossos filhos como as plantas novas, que crescem na sua juventude; sejam nossas filhas como as colunas angulares esculpidas, como os pilares do templo.
13. Encham-se os nossos celeiros de frutos variados e abundantes, multipliquem-se aos milhares nossos rebanhos, por miríades cresçam eles em nossos campos; sejam fecundas as nossas novilhas.
14. Não haja brechas em nossos muros, nem ruptura, nem lamentações em nossas praças.
15. Feliz o povo agraciado com tais bens, feliz o povo cujo Deus é o Senhor.

 
Salmo 144

1. Louvor. De Davi. Ó meu Deus, meu rei, eu vos glorificarei, e bendirei o vosso nome pelos séculos dos séculos.
2. Dia a dia vos bendirei, e louvarei o vosso nome eternamente.
3. Grande é o Senhor e sumamente louvável, insondável é a sua grandeza.
4. Cada geração apregoa à outra as vossas obras, e proclama o vosso poder.
5. Elas falam do brilho esplendoroso de vossa majestade, e publicam as vossas maravilhas.
6. Anunciam o formidável poder de vossas obras e narram a vossa grandeza.
7. Proclamam o louvor de vossa bondade imensa, e aclamam a vossa justiça.
8. O Senhor é clemente e compassivo, longânime e cheio de bondade.
9. O Senhor é bom para com todos, e sua misericórdia se estende a todas as suas obras.
10. Glorifiquem-vos, Senhor, todas as vossas obras, e vos bendigam os vossos fiéis.
11. Que eles apregoem a glória de vosso reino, e anunciem o vosso poder,
12. para darem a conhecer aos homens a vossa força, e a glória de vosso reino maravilhoso.
13. Vosso reino é um reino eterno, e vosso império subsiste em todas as gerações. O Senhor é fiel em suas palavras, e santo em tudo o que faz.
14. O Senhor sustém os que vacilam, e soergue os abatidos.
15. Todos os olhos esperançosos se dirigem para vós, e a seu tempo vós os alimentais.
16. Basta abrirdes as mãos, para saciardes com benevolência todos os viventes.
17. O Senhor é justo em seus caminhos, e santo em tudo o que faz.
18. O Senhor se aproxima dos que o invocam, daqueles que o invocam com sinceridade.
19. Ele satisfará o desejo dos que o temem, ouvirá seus clamores e os salvará.
20. O Senhor vela por aqueles que o amam, mas exterminará todos os maus.
21. Que minha boca proclame o louvor do Senhor, e que todo ser vivo bendiga eternamente o seu santo nome.

 
Salmo 145

1. Aleluia. Louva, ó minha alma, o Senhor!
2. Louvarei o Senhor por toda a vida. Salmodiarei ao meu Deus enquanto existir.
3. Não coloqueis nos poderosos a vossa confiança, são apenas homens nos quais não há salvação.
4. Quando se lhe for o espírito, ele voltará ao pó, e todos os seus projetos se desvanecerão de uma só vez.
5. Feliz aquele que tem por protetor o Deus de Jacó, que põe sua esperança no Senhor, seu Deus.
6. É esse o Deus que fez o céu e a terra, o mar e tudo o que eles contêm; que é eternamente fiel à sua palavra,
7. que faz justiça aos oprimidos, e dá pão aos que têm fome. O Senhor livra os cativos;
8. o Senhor abre os olhos aos cegos; o Senhor ergue os abatidos; o Senhor ama os justos.
9. O Senhor protege os peregrinos, ampara o órfão e a viúva; mas entrava os desígnios dos pecadores.
10. O Senhor reinará eternamente; ó Sião, teu Deus é rei por toda a eternidade.

 
Salmo 146

1. Salmo. Louvai o Senhor porque ele é bom; cantai ao nosso Deus porque ele é amável, e o louvor lhe convém.
2. O Senhor reconstrói Jerusalém, e congrega os dispersos de Israel.
3. Ele cura os que têm o coração ferido, e pensa-lhes as chagas.
4. É ele que fixa o número das estrelas, e designa cada uma por seu nome.
5. Grande é o Senhor nosso e poderosa a sua força; sua sabedoria não tem limites.
6. O Senhor eleva os humildes, mas abate os ímpios até a terra.
7. Cantai ao Senhor um cântico de gratidão, cantai ao nosso Deus com a harpa.
8. A ele que cobre os céus de nuvens, que faz cair a chuva à terra; a ele que faz crescer a relva nas montanhas, e germinar plantas úteis para o homem.
9. Que dá sustento aos rebanhos, aos filhotes dos corvos que por ele clamam.
10. Não é o vigor do cavalo que lhe agrada, nem ele se compraz nos jarretes do corredor.
11. Agradam ao Senhor somente os que o temem, e confiam em sua misericórdia.

 
Salmo 147

1. (12) Salmo. Louva, ó Jerusalém, ao Senhor; louva o teu Deus, ó Sião,
2. (13) porque ele reforçou os ferrolhos de tuas portas, e abençoou teus filhos em teu seio.
3. (14) Estabeleceu a paz em tuas fronteiras, e te nutre com a flor do trigo.
4. (15) Ele revelou sua palavra a Jacó, e aí ela corre velozmente.
5. (16) Ele faz cair a neve como lã, espalha a geada, como cinza.
6. (17) Atira o seu granizo como migalhas de pão, diante de seu frio as águas se congelam.
7. (18) À sua ordem, porém, elas se derretem; faz soprar o vento e as águas correm de novo.
8. (19) Ele revelou sua palavra a Jacó, sua lei e seus preceitos a Israel.
9. (20) Com nenhum outro povo agiu assim, a nenhum deles manifestou seus mandamentos.

 
Salmo 148

1. Aleluia. Nos céus, louvai o Senhor, louvai-o nas alturas do firmamento.
2. Louvai-o, todos os seus anjos. Louvai-o, todos os seus exércitos.
3. Louvai-o, sol e lua; louvai-o, astros brilhantes.
4. Louvai-o, céus dos céus, e vós, ó oceanos dos espaços celestes.
5. Louvem o nome do Senhor, porque ele mandou e tudo foi criado.
6. Tudo estabeleceu pela eternidade dos séculos; fixou-lhes uma lei que não será violada.
7. Na terra, louvai o Senhor, cetáceos e todos das profundezas do mar;
8. fogo e granizo, neve e neblina; vendaval proceloso dócil às suas ordens;
9. montanhas e colinas, árvores frutíferas, árvores silvestres;
10. feras e rebanhos, répteis e aves;
11. reis da terra e todos os seus povos; príncipes e juízes do mundo;
12. jovens e donzelas; velhos e crianças!
13. Louvem todos o nome do Senhor, porque só o seu nome é excelso. Sua majestade transcende a terra e o céu,
14. e conferiu a seu povo um grande poder. Louvem-no todos os seus fiéis, filhos de Israel, povo a ele mais chegado.

 
Salmo 149

1. Aleluia. Cantai ao Senhor um cântico novo, ressoe o seu louvor na assembléia dos fiéis.
2. Alegre-se Israel em seu criador, exultem em seu rei os filhos de Sião.
3. Em coros louvem o seu nome, cantem-lhe salmos com o tambor e a cítara,
4. porque o Senhor ama o seu povo, e dá aos humildes a honra da vitória.
5. Exultem os fiéis na glória, alegrem-se em seus leitos.
6. Tenham nos lábios o louvor de Deus, e nas mãos a espada de dois gumes,
7. para tirar vingança das nações pagãs, e impor castigos aos povos;
8. para lançar em ferros os seus reis, e pôr algemas em seus príncipes,
9. executando contra eles o julgamento pronunciado. Tal é a glória reservada a todos os seus fiéis.

 
Salmo 150

1. Aleluia. Louvai o Senhor em seu santuário, louvai-o em seu majestoso firmamento.
2. Louvai-o por suas obras maravilhosas, louvai-o por sua majestade infinita.
3. Louvai-o ao som da trombeta, louvai-o com a lira e a cítara.
4. Louvai-o com tímpanos e danças, louvai-o com a harpa e a flauta.
5. Louvai-o com címbalos sonoros, louvai-o com címbalos retumbantes. Tudo o que respira louve o Senhor!

 

Livro dos Provérbios

Livro dos Provérbios

 Capítulo 1

1. Provérbios de Salomão, filho de Davi, rei de Israel,
2. para conhecer a sabedoria e a instrução, para compreender as palavras sensatas,
3. para adquirir as lições do bom senso, da justiça, da eqüidade e da retidão;
4. para dar aos simples o discernimento, ao adolescente a ciência e a reflexão.
5. Que o sábio escute, e aumentará seu saber, e o homem inteligente adquirirá prudência
6. para compreender os provérbios, as alegorias, as máximas dos sábios e seus enigmas.
7. O temor do Senhor é o princípio da sabedoria. Os insensatos desprezam a sabedoria e a instrução.
8. Ouve, meu filho, a instrução de teu pai: não desprezes o ensinamento de tua mãe.
9. Isto será, pois, um diadema de graça para tua cabeça e um colar para teu pescoço.
10. Meu filho, se pecadores te quiserem seduzir, não consintas;
11. se te disserem: Vem conosco, faremos emboscadas, para (derramar) sangue, armaremos ciladas ao inocente, sem motivo,
12. como a região dos mortos devoremo-lo vivo, inteiro, como aquele que desce à cova.
13. Nós acharemos toda a sorte de coisas preciosas, nós encheremos nossas casas de despojos.
14. Tu desfrutarás tua parte conosco, uma só será a bolsa comum de todos nós!
15. Oh, não andes com eles, afasta teus passos de suas sendas,
16. porque seus passos se dirigem para o mal, e se apressam a derramar sangue.
17. Debalde se lança a rede diante daquele que tem asas.
18. Eles mesmos armam emboscadas contra seu próprio sangue e se enganam a si mesmos.
19. Tal é a sorte de todo homem ávido de riqueza: arrebata a vida àquele que a detém.
20. A Sabedoria clama nas ruas, eleva sua voz na praça,
21. clama nas esquinas da encruzilhada, à entrada das portas da cidade ela faz ouvir sua voz: e até quando os que zombam se comprazerão na zombaria?
22. Até quando, insensatos, amareis a tolice, e os tolos odiarão a ciência?
23. Convertei-vos às minhas admoestações, espalharei sobre vós o meu espírito, ensinar-vos-ei minhas palavras.
24. Uma vez que recusastes o meu chamado e ninguém prestou atenção quando estendi a mão,
25. uma vez que negligenciastes todos os meus conselhos e não destes ouvidos às minhas admoestações,
26. também eu me rirei do vosso infortúnio e zombarei, quando vos sobrevier um terror,
27. quando vier sobre vós um pânico, como furacão; quando se abater sobre vós a calamidade, como a tempestade; e quando caírem sobre vós tribulação e angústia.
28. Então me chamarão, mas não responderei; procurar-me-ão, mas não atenderei.
29. Porque detestam a ciência sem lhe antepor o temor do Senhor,
30. porque repelem meus conselhos com desprezo às minhas exortações;
31. comerão do fruto dos seus erros e se saciarão com seus planos,
32. porque a apostasia dos tolos os mata e o desleixo dos insensatos os perde.
33. Aquele que me escuta, porém, habitará com segurança, viverá tranqüilo, sem recear dano algum.

 
Capítulo 2

1. Meu filho, se acolheres minhas palavras e guardares com carinho meus preceitos,
2. ouvindo com atenção a sabedoria e inclinando teu coração para o entendimento;
3. se tu apelares à penetração, se invocares a inteligência,
4. buscando-a como se procura a prata; se a pesquisares como um tesouro,
5. então compreenderás o temor do Senhor, e descobrirás o conhecimento de Deus,
6. porque o Senhor é quem dá a sabedoria, e de sua boca é que procedem a ciência e a prudência.
7. Ele reserva para os retos a salvação e é um escudo para os que caminham com integridade;
8. protege as sendas da retidão e guarda o caminho de seus fiéis.
9. Então compreenderás a justiça e a eqüidade, a retidão e todos os caminhos que conduzem ao bem.
10. Quando a sabedoria penetrar em teu coração e o saber deleitar a tua alma,
11. a reflexão velará sobre ti, amparar-te-á a razão,
12. para preservar-te do mau caminho, do homem de conversas tortuosas
13. que abandona o caminho reto para percorrer caminhos tenebrosos;
14. que se compraz em praticar o mal e se alegra com a maldade;
15. do homem cujos caminhos são tortuosos e os trilhos sinuosos.
16. Ela te preservará da mulher alheia, da estranha que emprega palavras lisonjeiras,
17. que abandona o esposo de sua juventude e se esquece da aliança de seu Deus.
18. Sua casa declina para a morte, seu caminho leva aos lugares sombrios;
19. não retornam os que a buscam, nem encontram as veredas da vida.
20. Assim tu caminharás pela estrada dos bons e seguirás as pegadas dos justos,
21. porque os homens retos habitarão a terra, e os homens íntegros nela permanecerão,
22. enquanto os maus serão arrancados da terra e os pérfidos dela serão exterminados.

 
Capítulo 3

1. Meu filho, não te esqueças de meu ensinamento e guarda meus preceitos em teu coração
2. porque, com longos dias e anos de vida, assegurar-te-ão eles a felicidade.
3. Oxalá a bondade e a fidelidade não se afastem de ti! Ata-as ao teu pescoço, grava-as em teu coração!
4. Assim obterás graça e reputação aos olhos de Deus e dos homens.
5. Que teu coração deposite toda a sua confiança no Senhor! Não te firmes em tua própria sabedoria!
6. Sejam quais forem os teus caminhos, pensa nele, e ele aplainará tuas sendas.
7. Não sejas sábio aos teus próprios olhos, teme o Senhor e afasta-te do mal.
8. Isto será saúde para teu corpo e refrigério para teus ossos.
9. Honra o Senhor com teus haveres, e com as primícias de todas as tuas colheitas.
10. Então, teus celeiros se abarrotarão de trigo e teus lagares transbordarão de vinho.
11. Meu filho, não desprezes a correção do Senhor, nem te espantes de que ele te repreenda,
12. porque o Senhor castiga aquele a quem ama, e pune o filho a quem muito estima.
13. Feliz do homem que encontrou a sabedoria, daquele que adquiriu a inteligência,
14. porque mais vale este lucro que o da prata, e o fruto que se obtém é melhor que o fino ouro.
15. Ela é mais preciosa que as pérolas, jóia alguma a pode igualar.
16. Na mão direita ela sustenta uma longa vida; na esquerda, riqueza e glória.
17. Seus caminhos estão semeados de delícias. Suas veredas são pacíficas.
18. É uma árvore de vida para aqueles que lançarem mãos dela. Quem a ela se apega é um homem feliz.
19. Foi pela sabedoria que o Senhor criou a terra, foi com inteligência que ele formou os céus.
20. Foi pela ciência que se fenderam os abismos, por ela as nuvens destilam o orvalho.
21. Meu filho, guarda a sabedoria e a reflexão, não as percas de vista.
22. Elas serão a vida de tua alma e um adorno para teu pescoço.
23. Então caminharás com segurança, sem que o teu pé tropece.
24. Se te deitares, não terás medo. Uma vez deitado, teu sono será doce.
25. Não terás a recear nem terrores repentinos, nem a tempestade que cai sobre os ímpios,
26. porque o Senhor é tua segurança e preservará teu pé de toda cilada.
27. Não negues um benefício a quem o solicita, quando está em teu poder conceder-lho.
28. Não digas ao teu próximo: Vai, volta depois! Eu te darei amanhã, quando dispões de meios.
29. Não maquines o mal contra teu vizinho, quando ele habita com toda a confiança perto de ti.
30. Não litigues com alguém sem ter motivo, se esse alguém não te fez mal algum.
31. Não invejes o homem violento, nem adotes o seu procedimento,
32. porque o Senhor detesta o que procede mal, mas reserva sua intimidade para os homens retos.
33. Sobre a casa do ímpio pesa a maldição divina, a bênção do Senhor repousa sobre a habitação do justo.
34. Se ele escarnece dos zombadores, concede a graça aos humildes.
35. A glória será o prêmio do sábio, a ignomínia será a herança dos insensatos.

 
Capítulo 4

1. Ouvi, filhos meus, a instrução de um pai; sede atentos, para adquirir a inteligência,
2. porque é sã a doutrina que eu vos dou; não abandoneis o meu ensino.
3. Fui um (verdadeiro) filho para meu pai, terno e amado junto de minha mãe.
4. Deu-me ele este conselho: Que teu coração retenha minhas palavras; guarda meus preceitos e viverás.
5. Adquire sabedoria, adquire perspicácia, não te esqueças de nada, não te desvies de meus conselhos.
6. Não abandones a sabedoria, ela te guardará; ama-a, ela te protegerá.
7. Eis o princípio da sabedoria: adquire a sabedoria. Adquire a inteligência em troca de tudo o que possuis.
8. Tem-na em grande estima, ela te exaltará, glorificar-te-á quando a abraçares,
9. colocará sobre tua fronte uma graciosa coroa, outorgar-te-á um magnífico diadema.
10. Ouve, meu filho, recebe minhas palavras e se multiplicarão os anos de tua vida.
11. É o caminho da sabedoria que te mostro, é pela senda da retidão que eu te guiarei.
12. Se nela caminhares, teus passos não serão dificultosos; se correres, não tropeçarás.
13. Aferra-te à instrução, não a soltes, guarda-a, porque ela é tua vida.
14. Na estrada dos ímpios não te embrenhes, não sigas pelo caminho dos maus.
15. Evita-o, não passes por ele, desvia-te e toma outro,
16. Porque eles não dormiriam sem antes haverem praticado o mal, não conciliariam o sono se não tivessem feito cair alguém,
17. tanto mais que a maldade é o pão que comem e a violência, o vinho que bebem.
18. Mas a vereda dos justos é como a aurora, cujo brilho cresce até o dia pleno.
19. A estrada dos iníquos é tenebrosa, não percebem aquilo em que hão de tropeçar.
20. Meu filho, ouve as minhas palavras, inclina teu ouvido aos meus discursos.
21. Que eles não se afastem dos teus olhos, conserva-os no íntimo do teu coração,
22. pois são vida para aqueles que os encontram, saúde para todo corpo.
23. Guarda teu coração acima de todas as outras coisas, porque dele brotam todas as fontes da vida.
24. Preserva tua boca da malignidade, longe de teus lábios a falsidade!
25. Que teus olhos vejam de frente e que tua vista perceba o que há diante de ti!
26. Examina o caminho onde colocas os pés e que sejam sempre retos!
27. Não te desvies nem para a direita nem para a esquerda, e retira teu pé do mal.

 
Capítulo 5

1. Meu filho, atende à minha sabedoria, presta atenção à minha razão,
2. a fim de conservares o sentido das coisas e guardares a ciência em teus lábios.
3. Porque os lábios da mulher alheia destilam o mel; seu paladar é mais oleoso que o azeite.
4. No fim, porém, é amarga como o absinto, aguda como a espada de dois gumes.
5. Seus pés se encaminham para a morte, seus passos atingem a região dos mortos.
6. Longe de andarem pela vereda da vida, seus passos se extraviam, sem saber para onde.
7. Escutai-me, pois, meus filhos, não vos aparteis das palavras de minha boca.
8. Afasta dela teu caminho, não te aproximes da porta de sua casa,
9. para que não seja entregue a outros tua fortuna e tua vida a um homem cruel;
10. para que estranhos não se fartem de teus haveres e o fruto de teu trabalho não passe para a casa alheia;
11. para que não gemas no fim, quando forem consumidas tuas carnes e teu corpo
12. e tiveres que dizer: Por que odiei a disciplina, e meu coração desdenhou a correção?
13. Por que não ouvi a voz de meus mestres, nem dei ouvido aos meus educadores?
14. Por pouco eu chegaria ao cúmulo da desgraça no meio da assembléia do povo.
15. Bebe a água do teu poço e das correntes de tua cisterna.
16. Derramar-se-ão tuas fontes por fora e teus arroios nas ruas?
17. Sejam eles para ti só, sem que os estranhos neles tomem parte.
18. Seja bendita a tua fonte! Regozija-te com a mulher de tua juventude,
19. corça de amor, serva encantadora. Que sejas sempre embriagado com seus encantos e que seus amores te embriaguem sem cessar!
20. Por que hás de te enamorar de uma alheia e abraçar o seio de uma estranha?
21. Pois o Senhor olha os caminhos dos homens e observa todas as suas veredas.
22. O homem será preso por suas próprias faltas e ligado com as cadeias de seu pecado.
23. Perecerá por falta de correção e se desviará pelo excesso de sua loucura.

 
Capítulo 6

1. Meu filho, se ficaste por fiador do teu próximo, se estendeste a mão a um estranho,
2. se te ligaste com as palavras de teus lábios, se ficaste cativo com a tua própria linguagem,
3. faze, pois, meu filho, o que te digo: livra-te, pois caíste nas mãos do teu próximo; vai, apressa-te, solicita-o com instância,
4. não concedas sono aos teus olhos, nem repouso às tuas pálpebras.
5. Salva-te como a gazela [do caçador], e como o pássaro das mãos do que arma laços.
6. Vai, ó preguiçoso, ter com a formiga, observa seu proceder e torna-te sábio:
7. ela não tem chefe, nem inspetor, nem mestre;
8. prepara no verão sua provisão, apanha no tempo da ceifa sua comida.
9. Até quando, ó preguiçoso, dormirás? Quando te levantarás de teu sono?
10. Um pouco para dormir, outro pouco para dormitar, outro pouco para cruzar as mãos no seu leito,
11. e a indigência virá sobre ti como um ladrão; a pobreza, como um homem armado.
12. É um homem perverso, um iníquo aquele que caminha com falsidade na boca;
13. pisca os olhos, bate com o pé, faz sinais com os dedos;
14. só há perversidade em seu coração, não cessa de maquinar o mal, e de semear questões.
15. Por isso, repentinamente, virá sua ruína, de improviso ficará irremediavelmente quebrantado.
16. Seis coisas há que o Senhor odeia e uma sétima que lhe é uma abominação:
17. olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente,
18. um coração que maquina projetos perversos, pés pressurosos em correr ao mal,
19. um falso testemunho que profere mentiras e aquele que semeia discórdias entre irmãos.
20. Guarda, filho meu, os preceitos de teu pai, não desprezes o ensinamento de tua mãe.
21. Traze-os constantemente ligados ao teu coração e presos ao teu pescoço.
22. Servir-te-ão de guia ao caminhares, de guarda ao dormires e falarão contigo ao despertares,
23. porque o preceito é uma tocha, o ensinamento é uma luz, a correção e a disciplina são o caminho da vida,
24. para te preservar da mulher corrupta e da língua lisonjeira da estranha.
25. Não cobices sua formosura em teu coração, não te deixes prender por seus olhares;
26. por uma meretriz o homem se reduz a um pedaço de pão, e a mulher adúltera arrebata a vida preciosa do homem.
27. Porventura pode alguém esconder fogo em seu seio sem que suas vestes se inflamem?
28. Pode caminhar sobre brasas sem que seus pés se queimem?
29. Assim o que vai para junto da mulher do seu próximo não ficará impune depois de a tocar.
30. Não se despreza o ladrão que furta para satisfazer seu apetite, quando tem fome;
31. se for preso, restituirá sete vezes mais e entregará todos os bens de sua casa.
32. Quem comete adultério carece de senso, é por sua própria culpa que um homem assim procede.
33. Só encontrará infâmia e ignomínia e seu opróbrio não se apagará,
34. porque o marido, furioso e ciumento, não perdoará no dia da vingança,
35. não se aplacará por resgate algum, nem aceitará nada, se multiplicares os presentes.

 
Capítulo 7

1. Meu filho, guarda minhas palavras, conserva contigo meus preceitos. Observa meus mandamentos e viverás.
2. Guarda meus ensinamentos como a pupila de teus olhos.
3. Traze-os ligados aos teus dedos, grava-os em teu coração.
4. Dize à sabedoria: Tu és minha irmã, e chama a inteligência minha amiga,
5. para que elas te guardem da mulher alheia, da estranha que tem palavras lúbricas.
6. Estava eu atrás da janela de minha casa, olhava por entre as grades.
7. Vi entre os imprudentes, entre os jovens, um adolescente incauto:
8. passava ele na rua perto da morada de uma destas mulheres e entrava na casa dela.
9. Era ao anoitecer, na hora em que surge a obscuridade da noite.
10. Eis que uma mulher sai-lhe ao encontro, ornada como uma prostituta e o coração dissimulado.
11. Inquieta e impaciente, seus pés não podem parar em casa;
12. umas vezes na rua, outras na praça, em todos os cantos ela está de emboscada.
13. Abraça o jovem e o beija, e com um semblante descarado diz-lhe:
14. Tinha que oferecer sacrifícios pacíficos, hoje cumpri meu voto.
15. Por isso saí ao teu encontro para te procurar! E achei-te!
16. Ornei minha cama com tapetes, com estofos recamados de rendas do Egito.
17. Perfumei meu leito com mirra, com aloés e cinamomo.
18. Vem! Embriaguemo-nos de amor até o amanhecer, desfrutemos as delícias da voluptuosidade;
19. pois o marido não está em casa: partiu para uma longa viagem,
20. levou consigo uma bolsa cheia de dinheiro e só voltará lá pela lua cheia.
21. Seduziu-o à força de palavras e arrastou-o com as lisonjas de seus lábios.
22. Põe-se ele logo a segui-la, como um boi que é levado ao matadouro, como um cervo que se lança nas redes,
23. até que uma flecha lhe traspassa o fígado, como o pássaro que se precipita para o laço sem saber que se trata dum perigo para sua vida.
24. E agora, meus filhos, ouvi-me, prestai atenção às minhas palavras.
25. Que vosso coração não se deixe arrastar para seguir essa mulher, nem vos extravieis em suas veredas,
26. porque numerosos são os feridos por ela e considerável é a multidão de suas vítimas.
27. Sua casa é o caminho da região dos mortos, que conduz às entranhas da morte.

 
Capítulo 8

1. Por ventura não clama a Sabedoria e a inteligência não eleva a sua voz?
2. No cume das montanhas posta-se ela, e nas encruzilhadas dos caminhos.
3. Alça sua voz na entrada das torres, junto às portas, nas proximidades da cidade.
4. É a vós, ó homens, que eu apelo; minha voz se dirige aos filhos dos homens.
5. Ó simples, aprendei a prudência, adquiri a inteligência, ó insensatos.
6. Prestai atenção, pois! Coisas magníficas vos anuncio, de meus lábios só sairá retidão,
7. porque minha boca proclama a verdade e meus lábios detestam a iniqüidade.
8. Todas as palavras de minha boca são justas, nelas nada há de falso nem de tortuoso.
9. São claras para os que as entendem e retas para o que chegou à ciência.
10. Recebei a instrução e não o dinheiro. Preferi a ciência ao fino ouro,
11. pois a Sabedoria vale mais que as pérolas e jóia alguma a pode igualar.
12. Eu, a Sabedoria, sou amiga da prudência, possuo uma ciência profunda.
13. O temor do Senhor é o ódio ao mal. Orgulho, arrogância, caminho perverso, boca mentirosa: eis o que eu detesto.
14. Meu é o conselho e o bom êxito, minha a inteligência, minha a força.
15. Por mim reinam os reis e os legisladores decretam a justiça;
16. por mim governam os magistrados e os magnatas regem a terra.
17. Amo os que me amam. Quem me procura, encontra-me.
18. Comigo estão a riqueza e a glória, os bens duráveis e a justiça.
19. Mais precioso que o mais fino ouro é o meu fruto, meu produto tem mais valor que a mais fina prata.
20. Sigo o caminho da justiça, no meio da senda da eqüidade.
21. Deixo os meus haveres para os que me amam e acumulo seus tesouros.
22. O Senhor me criou, como primícia de suas obras, desde o princípio, antes do começo da terra.
23. Desde a eternidade fui formada, antes de suas obras dos tempos antigos.
24. Ainda não havia abismo quando fui concebida, e ainda as fontes das águas não tinham brotado.
25. Antes que assentados fossem os montes, antes dos outeiros, fui dada à luz;
26. antes que fossem feitos a terra e os campos e os primeiros elementos da poeira do mundo.
27. Quando ele preparava os céus, ali estava eu; quando traçou o horizonte na superfície do abismo,
28. quando firmou as nuvens no alto, quando dominou as fontes do abismo,
29. quando impôs regras ao mar, para que suas águas não transpusessem os limites, quando assentou os fundamentos da terra,
30. junto a ele estava eu como artífice, brincando todo o tempo diante dele,
31. brincando sobre o globo de sua terra, achando as minhas delícias junto aos filhos dos homens.
32. E agora, meus filhos, escutai-me: felizes aqueles que guardam os meus caminhos.
33. Ouvi minha instrução para serdes sábios, não a rejeiteis.
34. Feliz o homem que me ouve e que vela todos os dias à minha porta e guarda os umbrais de minha casa!
35. Pois quem me acha encontra a vida e alcança o favor do Senhor.
36. Mas quem me ofende, prejudica-se a si mesmo; quem me odeia, ama a morte.

 
Capítulo 9

1. A Sabedoria edificou sua casa, talhou sete colunas.
2. Matou seus animais, preparou seu vinho e dispôs a mesa.
3. Enviou servas, para que anunciassem nos pontos mais elevados da cidade:
4. Quem for simples apresente-se! Aos insensatos ela disse:
5. Vinde comer o meu pão e beber o vinho que preparei.
6. Deixai a insensatez e vivereis; andai direito no caminho da inteligência!
7. Quem censura um mofador, atrai sobre si a zombaria; o que repreende o ímpio, arrisca-se a uma afronta.
8. Não repreendas o mofador, pois ele te odiará. Repreende o sábio e ele te amará.
9. Dá ao sábio: tornar-se-á ele mais sábio ainda, ensina ao justo e seu saber aumentará.
10. O temor do Senhor é o princípio da Sabedoria, e o conhecimento do Santo é a inteligência,
11. porque por mim se multiplicarão teus dias e ser-te-ão acrescentados anos de vida.
12. Se tu és sábio, é para teu bem que o és, mas se tu és um mofador, só tu sofrerás as conseqüências.
13. A senhora Loucura é irrequieta, uma tola que não sabe nada.
14. Ela se assenta à porta de sua casa, numa cadeira, nos pontos mais altos da cidade,
15. para convidar os viandantes que seguem direito seu caminho.
16. Quem for simples venha para cá! Aos insensatos, ela diz:
17. As águas furtivas são mais doces e o pão tomado às escondidas é mais delicioso.
18. Ignora ele que ali há sombras e que os convidados [da senhora Loucura] jazem nas profundezas da região dos mortos.

 
Capítulo 10

1. O filho sábio é a alegria de seu pai; o insensato, porém, a aflição de sua mãe.
2. Tesouros mal adquiridos de nada servem, mas a justiça livra da morte.
3. O Senhor não deixa o justo passar fome, mas repele a cobiça do ímpio.
4. A mão preguiçosa causa a indigência; a mão diligente se enriquece.
5. Quem recolhe no verão é um filho prudente; quem dorme na ceifa merece a vergonha.
6. As bênçãos descansam sobre a cabeça do justo, mas a boca dos maus oculta a injustiça.
7. A memória do justo alcança as bênçãos; o nome dos ímpios apodrecerá.
8. O sábio de coração recebe os preceitos, mas o insensato caminha para a ruína.
9. Quem anda na integridade caminha com segurança, mas quem emprega astúcias será descoberto.
10. Quem pisca os olhos traz desgosto, mas o que repreende com franqueza procura a paz.
11. A boca do justo é uma fonte de vida; a do ímpio, porém, esconde injustiça.
12. O ódio desperta rixas; a caridade, porém, supre todas as faltas.
13. Nos lábios do sábio encontra-se a sabedoria; no dorso do insensato a correção.
14. Os sábios entesouram a sabedoria, mas a boca do tolo é uma desgraça sempre ameaçadora.
15. A fortuna do rico é a sua cidade forte; a pobreza dos indigentes ocasiona-lhes ruína.
16. O salário do justo é para a vida; o fruto do ímpio produz o pecado.
17. O que observa a disciplina está no caminho da vida; anda errado o que esquece a repressão.
18. Quem dissimula o ódio é um mistificador; um insensato o que profere calúnias.
19. Não pode faltar o pecado num caudal de palavras; quem modera os lábios é um homem prudente.
20. A língua do justo é prata finíssima; o coração dos maus, porém, para nada serve.
21. Os lábios dos justos nutrem a muitos; mas os néscios perecem por falta de inteligência.
22. É a bênção do Senhor que enriquece; o labor nada acrescenta a ela.
23. É um divertimento para o ímpio praticar o mal; e para o sensato, ser sábio.
24. O que receia o mal, este cai sobre ele. O desejo do justo lhe é concedido.
25. Quando passa a tormenta, desaparece o perverso, mas o justo descansa sobre fundamentos duráveis.
26. Como o vinagre nos dentes e a fumaça nos olhos, assim é o preguiçoso para os que o mandam.
27. O temor do Senhor prolonga os dias, mas os anos dos ímpios serão abreviados.
28. A expectativa dos justos causa alegria; a esperança dos ímpios, porém, perecerá.
29. Para o homem íntegro o Senhor é uma fortaleza, mas é a ruína dos que fazem o mal.
30. Jamais o justo será abalado, mas os ímpios não habitarão a terra.
31. A boca do justo produz sabedoria, mas a língua perversa será arrancada.
32. Os lábios do justo sabem dizer o que é agradável; a boca dos maus, o que é mal.

 
Capítulo 11

1. A balança fraudulenta é abominada pelo Senhor, mas o peso justo lhe é agradável.
2. Vindo o orgulho, virá também a ignomínia, mas a sabedoria mora com os humildes.
3. A integridade dos justos serve-lhes de guia; mas a perversidade dos pérfidos arrasta-os à ruína.
4. No dia da cólera a riqueza não terá proveito, mas a justiça salva da morte.
5. A justiça do homem íntegro aplana-lhe o caminho, mas o ímpio se abisma em sua própria impiedade.
6. A justiça dos retos os salva, mas em sua própria cobiça os pérfidos se prendem.
7. Morto o ímpio, desaparece sua esperança, a esperança dos iníquos perecerá.
8. O justo livra-se da angústia; em seu lugar cai o malvado.
9. Com os lábios, o hipócrita arruína o seu próximo, mas os justos serão salvos pela ciência.
10. Com a felicidade dos justos, exulta a cidade; com a perdição dos ímpios solta brados de alegria.
11. Uma cidade prospera pela bênção dos justos, mas é destruída pelas palavras dos maus.
12. Quem despreza seu próximo demonstra falta de senso; o homem sábio guarda silêncio.
13. O perverso trai os segredos, enquanto um coração leal os mantém ocultos.
14. Por falta de direção cai um povo; onde há muitos conselheiros, ali haverá salvação.
15. Quem fica por fiador de um estranho cairá na desventura; o que evita os laços viverá tranqüilo.
16. Uma mulher graciosa obtém honras, mas os laboriosos alcançam fortuna.
17. O homem liberal faz bem a si próprio, mas o cruel prejudica a sua própria carne.
18. O ímpio obtém um lucro falaz, mas o que semeia justiça receberá uma recompensa certa.
19. Quem pratica a justiça o faz para a vida, mas quem segue o mal corre para a morte.
20. Os homens de coração perverso são odiosos ao Senhor; os de conduta íntegra são objeto de seus favores.
21. Na verdade, o iníquo não ficará impune, mas a posteridade dos justos será salva.
22. Um anel de ouro no focinho de um porco: tal é a mulher formosa e insensata.
23. O desejo dos justos é unicamente o bem; o que espera os ímpios é a cólera.
24. Há quem dá com liberalidade e obtém mais. Outros poupam demais e vivem na indigência.
25. A alma generosa será cumulada de bens; e o que largamente dá, largamente receberá.
26. O povo amaldiçoa o que esconde o trigo, mas a bênção virá sobre a cabeça dos que o vendem.
27. Quem investiga o bem busca o favor; o que busca o mal será por ele oprimido.
28. Quem confia em sua riqueza cairá, enquanto os justos reverdecerão como a folhagem.
29. O que perturba sua casa herda o vento, e o néscio será escravo do sábio.
30. O fruto do justo é uma árvore de vida; o que conquista as almas é sábio.
31. Se o justo recebe na terra sua recompensa, quanto mais o perverso e o pecador!

 
Capítulo 12

1. Aquele que ama a correção ama a ciência, mas o que detesta a reprimenda é um insensato.
2. O homem de bem alcança a benevolência do Senhor; o Senhor condena o homem que premedita o mal.
3. Não se firma o homem pela impiedade, mas a raiz dos justos não será abalada.
4. Uma mulher virtuosa é a coroa de seu marido, mas a insolente é como a cárie nos seus ossos.
5. Os pensamentos dos justos são cheios de retidão; as tramas dos perversos são cheias de dolo.
6. As palavras dos ímpios são ciladas mortíferas, enquanto a boca dos justos os salva.
7. Transtornados, os ímpios não subsistirão, mas a casa dos justos permanecerá firme.
8. Avalia-se um homem segundo a sua inteligência, mas o perverso de coração incorrerá em desprezo.
9. Mais vale um homem humilde, que tem um servo, que o jactancioso, que não tem o que comer.
10. O justo cuida das necessidades do seu gado, mas cruéis são as entranhas do ímpio.
11. Quem cultiva sua terra será saciado de pão; quem procura as futilidades é um insensato.
12. O ímpio cobiça o laço do perverso, mas a raiz do justo produz fruto.
13. No pecado dos lábios há uma cilada funesta, mas o justo livra-se da angústia.
14. O homem se farta com o fruto de sua boca; cada qual recebe a recompensa da obra de suas mãos.
15. Ao insensato parece reto seu caminho, enquanto o sábio ouve os conselhos.
16. O louco mostra logo a sua irritação; o circunspecto dissimula o ultraje.
17. O homem sincero anuncia a justiça; a testemunha falsa profere mentira.
18. O falador fere com golpes de espada; a língua dos sábios, porém, cura.
19. Os lábios sinceros permanecem sempre constantes; a língua mentirosa dura como um abrir e fechar de olhos.
20. No coração dos que tramam males há engano; a alegria está naqueles que dão conselhos de paz.
21. Ao justo nenhum mal pode abater, mas os maus enchem-se de tristezas.
22. Os lábios mentirosos são abominação para o Senhor, mas os que procedem com fidelidade agradam-lhe.
23. O homem prudente oculta sua sabedoria; o coração dos insensatos proclama sua própria loucura.
24. A mão diligente dominará; a mão preguiçosa torna-se tributária.
25. A aflição no coração do homem o deprime; uma boa palavra restitui-lhe a alegria.
26. O justo guia seu companheiro, mas o caminho dos ímpios os perde.
27. O indolente não assa o que caçou; um homem diligente, porém, é um tesouro valioso.
28. A vida está na vereda da justiça; o caminho do ódio, porém, conduz à morte.

 
Capítulo 13

1. Um filho sábio ama a disciplina, mas o incorrigível não aceita repreensões.
2. O homem de bem goza do fruto de sua boca, mas o desejo dos pérfidos é a violência.
3. Quem vigia sua boca guarda sua vida; quem muito abre seus lábios se perde.
4. O preguiçoso cobiça, mas nada obtém. É o desejo dos homens diligentes que é satisfeito.
5. O justo detesta a mentira; o ímpio só faz coisas vergonhosas e ignominiosas.
6. A justiça protege o que caminha na integridade, mas a maldade arruína o pecador.
7. Há quem parece rico, não tendo nada, há quem se faz de pobre e possui copiosas riquezas.
8. A riqueza de um homem é o resgate de sua vida, mas o pobre está livre de ameaças.
9. A luz do justo ilumina, enquanto a lâmpada dos maus se extingue.
10. O orgulho só causa disputas; a sabedoria se acha com os que procuram aconselhar-se.
11. Os bens que muito depressa se ajuntam se desvanecem; os acumulados pouco a pouco aumentam.
12. Esperança retardada faz adoecer o coração; o desejo realizado, porém, é uma árvore de vida.
13. Quem menospreza a palavra perder-se-á; quem respeita o preceito será recompensado.
14. O ensinamento do sábio é uma fonte de vida para libertar-se dos laços da morte.
15. Bom entendimento procura favor; o caminho dos pérfidos, porém, é escabroso.
16. Todo homem prudente age com discernimento, mas o insensato põe em evidência sua loucura.
17. Um mau mensageiro provoca a desgraça; o enviado fiel, porém, traz a saúde.
18. Miséria e vergonha a quem recusa a disciplina; honra ao que aceita a reprimenda.
19. O desejo cumprido deleita a alma. Os insensatos detestam os que fogem do mal.
20. Quem visita os sábios torna-se sábio; quem se faz amigo dos insensatos perde-se.
21. A desgraça persegue os pecadores; a felicidade é a recompensa dos justos.
22. O homem de bem deixa sua herança para os filhos de seus filhos; ao justo foi reservada a fortuna do pecador.
23. É abundante em alimento um campo preparado pelo pobre, mas há quem pereça por falta de justiça.
24. Quem poupa a vara odeia seu filho; quem o ama, castiga-o na hora precisa.
25. O justo come até se saciar, mas o ventre dos pérfidos conhece a penúria.

 
Capítulo 14

1. A senhora Sabedoria edifica sua casa; a senhora Loucura destrói a sua com as próprias mãos.
2. Quem caminha direito teme o Senhor; o que anda desviado o despreza.
3. A boca do néscio encerra a vara para seu orgulho, mas os lábios do sábio são uma proteção para si mesmo.
4. Onde não há bois, a manjedoura está vazia; a abundância da colheita provém da força do gado.
5. A testemunha fiel não mente; a testemunha falsa profere falsidades.
6. O mofador busca a sabedoria, mas em vão; ao homem entendido a ciência é fácil.
7. Afasta-te da presença do tolo: em seus lábios não encontrarás palavras sábias.
8. A sabedoria do prudente está no cuidar do seu procedimento; a loucura dos insensatos consiste na fraude.
9. O insensato zomba do pecado; a benevolência (de Deus) é para os homens retos.
10. O coração conhece suas próprias amarguras; o estranho não pode partilhar de sua alegria.
11. A habitação dos pérfidos será destruída, mas a tenda dos justos florescerá.
12. Há caminho que parece reto ao homem; seu fim, porém, é o caminho da morte.
13. Mesmo no sorrir, o coração pode estar triste; a alegria pode findar na aflição.
14. O extraviado será saciado com seus próprios erros; o homem de bem, com seus atos.
15. O ingênuo acredita em tudo o que se diz; o prudente vigia seus passos.
16. O sábio teme o mal e dele se aparta, mas o insensato que se eleva dá-se por seguro.
17. O homem violento comete loucura; o dissimulado atrai a si o ódio.
18. Os ingênuos têm por herança a loucura; os prudentes, a ciência como coroa.
19. Diante dos bons humilham-se os maus e os ímpios ante as portas do justo.
20. Até mesmo ao seu companheiro o pobre é odioso; numerosos são os amigos do rico.
21. Quem despreza seu próximo comete um pecado; feliz aquele que tem compaixão dos desgraçados.
22. Porventura não erram os que maquinam o mal? Os que planejam o bem adquirem favor e verdade.
23. Para todo esforço há fruto, muito palavrório só produz penúria.
24. Para o sábio a riqueza é uma coroa. A loucura dos insensatos permanece loucura.
25. A testemunha fiel salva vidas; o que profere mentiras é falso.
26. No temor do Senhor [o justo] encontra apoio sólido; seus filhos nele encontrarão abrigo.
27. O temor do Senhor é uma fonte de vida para escapar aos laços da morte.
28. A multidão do povo é a glória de um rei; a falta de população é a ruína de um príncipe.
29. O paciente dá prova de bom senso; quem se arrebata rapidamente manifesta sua loucura.
30. Um coração tranqüilo é a vida do corpo, enquanto a inveja é a cárie dos ossos.
31. O opressor do pobre ultraja seu criador, mas honra-o o que se compadece do indigente.
32. É por causa de sua própria malícia que cai o ímpio; o justo, porém, até na morte conserva a confiança.
33. No coração do prudente repousa a sabedoria. Entre os tolos ela se fará conhecer?
34. A justiça enaltece uma nação; o pecado é a vergonha dos povos.
35. O servidor inteligente goza do favor do rei, mas a sua ira fere o desonrado.

 
Capítulo 15

1. Uma resposta branda aplaca o furor, uma palavra dura excita a cólera.
2. A língua dos sábios ornamenta a ciência, a boca dos imbecis transborda loucura.
3. Em todo o lugar estão os olhos do Senhor, observando os maus e os bons.
4. A língua sã é uma árvore de vida; a língua perversa corta o coração.
5. O néscio desdenha a instrução de seu pai, mas o que atende à repreensão torna-se sábio.
6. Na casa do justo há riqueza abundante, mas perturbação nos frutos dos maus.
7. Os lábios do sábio destilam saber, e não assim é o coração dos insensatos.
8. Os sacrifícios dos pérfidos são abominação para o Senhor, a oração dos homens retos lhe é agradável.
9. O Senhor abomina o caminho do mau, mas ama o que se prende à justiça.
10. Severa é a correção para o que se afasta do caminho, e o que aborrece a repreensão perecerá.
11. A habitação dos mortos e o abismo estão abertos diante do Senhor; quanto mais os corações dos filhos dos homens!
12. O zombador não gosta de quem o repreende, nem vai em busca dos sábios.
13. O coração contente alegra o semblante, o coração triste deprime o espírito.
14. O coração do inteligente procura a ciência; a boca dos tolos sacia-se de loucuras.
15. Para o aflito todos os dias são maus; para um coração contente, são um perpétuo festim.
16. Vale mais o pouco com o temor do Senhor que um grande tesouro com a inquietação.
17. Mais vale um prato de legume com amizade que um boi cevado com ódio.
18. O homem iracundo excita questões, mas o paciente apazigua as disputas.
19. O caminho do preguiçoso é como uma sebe de espinhos, o caminho dos corretos é sem tropeço.
20. O filho sábio alegra seu pai; o insensato despreza sua mãe.
21. A loucura diverte o insensato, mas o homem inteligente segue o caminho reto.
22. Os projetos malogram por falta de deliberação; conseguem bom êxito com muitos conselheiros.
23. Saber dar uma resposta é fonte de alegria; como é agradável uma palavra oportuna!
24. O sábio escala o caminho da vida, para evitar a descida à morada dos mortos.
25. O Senhor destrói a casa dos soberbos, mas firma os limites da viúva.
26. Os projetos dos pérfidos são abomináveis ao Senhor, mas as palavras benevolentes são puras.
27. O homem cobiçoso perturba a sua casa, aquele que odeia os subornos viverá.
28. O coração do justo estuda a sua resposta; a boca dos maus, porém, vomita o mal.
29. O Senhor está longe dos maus, mas atende à oração dos justos.
30. O brilho dos olhos alegra o coração; uma boa notícia fortifica os ossos.
31. Quem der atenção às repreensões salutares habitará entre os sábios.
32. O que rejeita a correção faz pouco caso de sua vida; quem ouve a repreensão adquire sabedoria.
33. O temor do Senhor é uma escola de sabedoria. A humildade precede a glória.

 
Capítulo 16

1. Cabe ao homem formular projetos em seu coração, mas do Senhor vem a resposta da língua.
2. Todos os caminhos parecem puros ao homem, mas o Senhor é quem pesa os corações.
3. Confia teus negócios ao Senhor e teus planos terão bom êxito.
4. Tudo fez o Senhor para seu fim, até o ímpio para o dia da desgraça.
5. Todo coração altivo é abominação ao Senhor: certamente não ficará impune.
6. É pela bondade e pela verdade que se expia a iniqüidade; pelo temor do Senhor evita-se o mal.
7. Quando agradam ao Senhor os caminhos de um homem, reconcilia com ele seus próprios inimigos.
8. Mais vale o pouco com justiça do que grandes lucros com iniqüidade.
9. O coração do homem dispõe o seu caminho, mas é o Senhor que dirige seus passos.
10. As palavras do rei são como oráculos: quando ele julga, sua boca não erra.
11. Balança e peso justos são do Senhor, e são obra sua todos os pesos da bolsa.
12. Fazer o mal, para um rei, é coisa abominável, porque pela justiça firma-se o trono.
13. Os lábios justos são agradáveis ao rei; ele ama o que fala com retidão.
14. A indignação do rei é prenúncio de morte, só o sábio sabe aplacá-la.
15. Na serenidade do semblante do rei está a vida: sua clemência é como uma chuva de primavera.
16. Adquirir a sabedoria vale mais que o ouro; antes adquirir a inteligência que a prata.
17. O caminho dos corretos consiste em evitar o mal; o que vigia seu procedimento conserva sua vida.
18. A soberba precede à ruína; e o orgulho, à queda.
19. Mais vale ser modesto com os humildes que repartir o despojo com os soberbos.
20. Quem ouve a palavra com atenção encontra a felicidade; ditoso quem confia no Senhor.
21. Inteligente é o que possui o coração sábio; a doçura da linguagem aumenta o saber.
22. A inteligência é fonte de vida para quem a possui; o castigo dos insensatos é a loucura.
23. O coração do sábio torna sua boca instruída, e acrescenta-lhes aos lábios o saber.
24. As palavras agradáveis são como um favo de mel; doçura para a alma e saúde para os ossos.
25. Há caminhos que parecem retos ao homem e, contudo, o seu termo é a morte.
26. A fome do trabalhador trabalha por ele, porque sua boca o constrange a isso.
27. O perverso cava o mal, há em seus lábios como que fogo devorador.
28. O perverso excita questões, o detrator separa os amigos.
29. O violento seduz seu próximo e o arrasta pelo mau caminho.
30. Quem fecha os olhos e planeja intriga, ao morder os lábios, já praticou o mal.
31. Os cabelos brancos são uma coroa de glória a quem se encontra no caminho da justiça.
32. Mais vale a paciência que o heroísmo, mais vale quem domina o coração do que aquele que conquista uma cidade.
33. As sortes lançam-se nas dobras do manto, mas do Senhor depende toda a decisão.

 
Capítulo 17

1. Mais vale um bocado de pão seco, com a paz, do que uma casa cheia de carnes, com a discórdia.
2. Um escravo prudente vale mais que um filho desonroso, e partilhará da herança entre os irmãos.
3. Um crisol para a prata, um forno para o ouro; é o Senhor, porém, quem prova os corações.
4. O mau dá ouvidos aos lábios iníquos; o mentiroso presta atenção à língua perniciosa.
5. Aquele que zomba do pobre insulta seu criador; quem se ri de um infeliz não ficará impune.
6. Os filhos dos filhos são a coroa dos velhos, e a glória dos filhos são os pais.
7. Uma linguagem elevada não convém ao néscio, quanto mais, a um nobre, palavras mentirosas.
8. Um presente parece uma gema preciosa a seu possuidor; para qualquer lado que ele se volte, logra êxito.
9. Aquele que dissimula faltas promove amizade; quem as divulga, divide amigos.
10. Uma repreensão causa mais efeito num homem prudente do que cem golpes num tolo.
11. O perverso só busca a rebeldia, mas será enviado contra ele um mensageiro cruel.
12. Antes encontrar uma ursa privada de seus filhotes do que um tolo em crise de loucura.
13. A desgraça não deixará a casa daquele que retribui o mal pelo bem.
14. Começar uma questão é como soltar as águas; desiste, antes que se exaspere a disputa.
15. Quem declara justo o ímpio e perverso o justo, ambos desagradam ao Senhor.
16. Para que serve o dinheiro na mão do insensato? Para comprar a sabedoria? Ele não tem critério.
17. O amigo ama em todo o tempo: na desgraça, ele se torna um irmão.
18. É destituído de senso o que aceita compromissos e que fica fiador para seu próximo.
19. O que ama as disputas ama o pecado; quem ergue sua porta busca a ruína.
20. O homem de coração falso não encontra a felicidade; o de língua tortuosa cai na desgraça.
21. Quem gera um tolo terá desventura; nem alegria terá o pai de um imbecil.
22. Coração alegre, bom remédio; um espírito abatido seca os ossos.
23. O ímpio aceita um presente ocultamente para desviar a língua da justiça.
24. Ante o homem prudente está a sabedoria; os olhos do insensato vagueiam até o fim do mundo.
25. Um filho néscio é o pesar de seu pai e a amargura de quem o deu à luz.
26. Não convém chamar a atenção do justo e ferir os homens honestos por causa de sua retidão.
27. O que mede suas palavras possui a ciência; quem é calmo de espírito é um homem inteligente.
28. Mesmo o insensato passa por sábio, quando se cala; por prudente, quando fecha sua boca.

 
Capítulo 18

1. Quem se isola procura sua própria vontade e se irrita contra tudo o que é razoável.
2. O insensato não tem propensão para a inteligência, mas para a expansão dos próprios sentimentos.
3. O desprezo ombreia com a iniqüidade; o opróbrio com a vergonha.
4. As palavras da boca de um homem são águas profundas; a fonte da sabedoria é uma torrente transbordante.
5. Não fica bem favorecer um perverso para prejudicar o direito do justo.
6. Os lábios do insensato promovem contendas: sua boca atrai açoites.
7. A boca do tolo é a sua ruína; seus lábios são uma armadilha para a sua própria vida.
8. As palavras do delator são como gulodices: penetram até as entranhas.
9. O frouxo no trabalho é um irmão do dissipador.
10. O nome do Senhor é uma torre: para lá corre o justo a fim de procurar segurança.
11. A fortuna do rico é sua cidade forte; em seu pensar, ela é como uma muralha elevada.
12. Antes da ruína, o coração do homem se eleva, mas a humildade precede a glória.
13. Quem responde antes de ouvir, passa por tolo e se cobre de confusão.
14. O espírito do homem suporta a doença, mas quem erguerá um espírito abatido?
15. O coração inteligente adquire o saber; o ouvido dos sábios procura a ciência.
16. O presente de um homem lhe abre tudo, e lhe dá acesso junto aos grandes.
17. Quem advoga sua causa, por primeiro, parece ter razão; sobrevém a parte adversa, que examina a fundo.
18. A sorte apazigua as contendas e decide entre os poderosos.
19. Um irmão ofendido é pior que uma cidade forte; as questões entre irmãos são como os ferrolhos de uma cidadela.
20. É do fruto de sua boca que um homem se nutre; com o produto de seus lábios ele se farta.
21. Morte e vida estão à mercê da língua: os que a amam comerão dos seus frutos.
22. Aquele que acha uma mulher, acha a felicidade: é um dom recebido do Senhor.
23. O pobre fala suplicando; a resposta do rico é ríspida.
24. O homem cercado de muitos amigos tem neles sua desgraça, mas existe um amigo mais unido que um irmão.

 
Capítulo 19

1. Mais vale um pobre que caminha na integridade que um insensato com lábios mentirosos.
2. Sem a ciência, nem mesmo o zelo é bom: quem precipita seus passos, desvia-se.
3. A loucura de um homem o leva a um mau caminho; é contra o Senhor que seu coração se irrita.
4. A riqueza aumenta o número de amigos, o pobre é abandonado pelo seu [único] companheiro.
5. O falso testemunho não fica sem castigo; o que profere mentira não escapará.
6. O homem generoso possui muitos lisonjeiros: todos se tornam amigos de quem dá.
7. Todos os irmãos do pobre o odeiam, quanto mais seus amigos não hão de se afastar dele? Está em busca de palavras, mas não terá nada.
8. Quem adquire bom senso ama sua alma; o que observa a prudência encontra a felicidade.
9. O falso testemunho não fica impune; o que profere mentira perecerá.
10. Não convém ao insensato viver entre delícias, muito menos ainda a um escravo dominar os chefes.
11. Um homem sábio sabe conter a sua cólera, e tem por honra passar por cima de uma ofensa.
12. Cólera de rei, rugido de leão; favor de rei, orvalho sobre a erva.
13. Um filho insensato é a desgraça de seu pai; a mulher intrigante é uma goteira inesgotável.
14. Casas e bens são a herança dos pais, mas uma mulher sensata é um dom do Senhor.
15. A preguiça cai no torpor: a alma indolente terá fome.
16. O que observa o preceito guarda sua vida; quem descuida de seu proceder morrerá.
17. Quem se apieda do pobre empresta ao Senhor, que lhe restituirá o benefício.
18. Corrige teu filho enquanto há esperança, mas não te enfureças até fazê-lo perecer.
19. O homem iracundo sofrerá um castigo; se o libertares, aumentarás a sua pena.
20. Ouve os conselhos, aceita a instrução: tu serás sábio para o futuro.
21. Há muitos planos no coração do homem, mas é a vontade do Senhor que se realiza.
22. O encanto de um homem é a sua caridade: mais vale o pobre que o mentiroso.
23. O temor do Senhor conduz à vida; (o que o possui) é saciado: passará a noite sem a visita da desgraça.
24. O preguiçoso põe sua mão no prato e nem sequer a leva à boca.
25. Castiga o zombador e o simples tornar-se-á sábio; repreende o homem sensato e ele compreenderá por quê.
26. Quem maltrata seu pai, quem expulsa sua mãe é um filho infame do qual todos se envergonham.
27. Cessa, meu filho, de ouvir as advertências e isto servirá para te afastares da sabedoria!
28. O testemunho falso zomba da justiça, a boca dos ímpios devora a iniqüidade.
29. As varas estão preparadas para os mofadores e os golpes para o dorso dos insensatos.

 
Capítulo 20

1. Zombeteiro é o vinho e amotinadora a cerveja: quem quer que se apegue a isto não será sábio.
2. O furor do rei é como um rugido de leão: aquele que o provoca, prejudica-se a si mesmo.
3. É uma glória para o homem abster-se de contendas; o tolo, porém, é o único que as procura.
4. Desde o outono o preguiçoso não trabalha: mendigará no tempo da colheita, mas não terá nada.
5. Água profunda é o conselho no íntimo do homem; o homem inteligente sabe haurir dela.
6. Muitos homens apregoam a sua bondade, mas quem achará um homem verdadeiramente fiel?
7. O justo caminha na integridade; ditosos os filhos que o seguirem!
8. O rei, que está sentado no trono da justiça, só com seu olhar dissipa todo o mal.
9. Quem pode dizer: Meu coração está puro, estou limpo de pecado?
10. Ter dois pesos e duas medidas é objeto de abominação para o Senhor.
11. O menino manifesta logo por seus atos se seu proceder será puro e reto.
12. O ouvido que ouve, o olho que vê, ambas estas coisas fez o Senhor.
13. Não sejas amigo do sono, para que não te tornes pobre: abre os olhos e terás pão à vontade.
14. Mau, mau! diz o comprador. Mas se gloria ao se retirar.
15. Há ouro, há pérola em abundância; jóia rara é a boca sábia.
16. Toma-lhe a roupa, porque ele respondeu por outrem; exige dele um penhor em proveito dos estranhos.
17. Saboroso é para o homem o pão defraudado, mas depois terá a boca cheia de cascalhos.
18. Os projetos triunfam pelo conselho; é com prudência que deve ser dirigida a guerra.
19. O mexiriqueiro trai os segredos: não te familiarizes com um falador.
20. Quem amaldiçoa seu pai ou sua mãe (verá) apagar-se sua luz no meio de densas trevas.
21. Herança muito depressa adquirida no princípio não será abençoada no fim.
22. Não digas: Eu me vingarei! Coloca tua esperança no Senhor, ele te salvará.
23. Ter dois pesos é abominação para o Senhor; uma balança falsa não é coisa boa.
24. O Senhor é quem dirige os passos do homem: como poderá o homem compreender seu caminho?
25. É um laço dizer inconsideradamente: Consagrado! e não refletir antes de ter emitido um voto.
26. O rei sábio joeira os ímpios, faz passar sobre eles a roda.
27. O espírito do homem é uma lâmpada do Senhor: ela penetra os mais íntimos recantos das entranhas.
28. Bondade e fidelidade montam guarda ao rei; pela justiça firma-se seu trono.
29. A força é o ornato dos jovens; o ornamento dos anciãos são os cabelos brancos.
30. A ferida sangrenta cura o mal; também os golpes, no mais íntimo do corpo.

 
Capítulo 21

1. O coração do rei é uma água fluente nas mãos do Senhor: ele o inclina para qualquer parte que quiser.
2. Os caminhos do homem parecem retos aos seus olhos, mas cabe ao Senhor pesar os corações.
3. A prática da justiça e da eqüidade vale aos olhos do Senhor mais que os sacrifícios.
4. Olhares altivos ensoberbecem o coração; o luzeiro dos ímpios é o pecado.
5. Os planos do homem ativo produzem abundância; a precipitação só traz penúria.
6. Tesouros adquiridos pela mentira: vaidade passageira para os que procuram a morte.
7. A violência dos ímpios os conduz à [ruína], porque se recusam a praticar a justiça.
8. O caminhos do perverso é tortuoso, mas o inocente age com retidão.
9. Melhor é habitar num canto do terraço do que conviver com uma mulher impertinente.
10. A alma do ímpio deseja o mal; nem mesmo seu amigo encontrará graça a seus olhos.
11. Quando se pune o zombador, o simples torna-se sábio; quando se adverte o sábio, ele adquire a ciência.
12. O justo observa a cada do ímpio e precipita os maus na desventura.
13. Quem se faz de surdo aos gritos do pobre não será ouvido, quando ele mesmo clamar.
14. Um presente dado sob o manto extingue a cólera; uma oferta concebida às ocultas acalma um furor violento.
15. Para o justo é uma alegria a prática da justiça, mas é um terror para aqueles que praticam a iniqüidade.
16. O homem que se desvia do caminho da prudência repousará na companhia das trevas.
17. O que ama os banquetes será um homem indigente; o que ama o vinho e o óleo não se enriquecerá.
18. O ímpio serve de resgate para o justo e o pérfido para os homens retos.
19. Melhor é habitar no deserto do que com uma mulher impertinente e intrigante.
20. Na casa do sábio há preciosas reservas e óleo; um homem imprudente, porém, os absorverá.
21. Quem segue a justiça e a misericórdia, achará vida, justiça e glória.
22. O sábio toma de assalto a cidade dos heróis: destrói a fortaleza em que depositava confiança.
23. Quem vigia sua boca e sua língua preserva sua vida da angústia.
24. Chamamos de zombador um soberbo arrogante, que age com orgulho desmedido.
25. Os desejos do preguiçoso o matam porque suas mãos recusam o trabalho;
26. passam todo o dia a desejar com ardor, mas quem é justo dá largamente.
27. O sacrifício dos ímpios é abominável, mormente quando o oferecem com má intenção.
28. A testemunha mentirosa perecerá, mas o homem que escuta sempre poderá falar.
29. O ímpio aparenta um ar firme; o homem correto consolida seu proceder.
30. Nem a sabedoria, nem prudência, nem conselho podem prevalescer contra o Senhor.
31. Prepara-se o cavalo para o dia da batalha, mas é do senhor que depende a vitória.

 
Capítulo 22

1. Bom renome vale mais que grandes riquezas; a boa reputação vale mais que a prata e o ouro.
2. Rico e pobre se encontram: foi o Senhor que criou a ambos.
3. O homem prudente percebe a aproximação do mal e se abriga, mas os imprudentes passam adiante e recebem o dano.
4. O prêmio da humildade é o temor do Senhor, a riqueza, a honra e a vida.
5. Espinhos e laços há no caminho do perverso; quem guarda sua vida retira-se para longe deles.
6. Ensina à criança o caminho que ela deve seguir; mesmo quando envelhecer, dele não se há de afastar.
7. O rico domina os pobres: o que toma emprestado torna-se escravo daquele que lhe emprestou.
8. Aquele que semeia o mal, recolhe o tormento: a vara de sua ira o ferirá.
9. O homem benevolente será abençoado porque tira do seu pão para o pobre.
10. Expulsa o mofador e cessará a discórdia: ultrajes e litígios cessarão.
11. Quem ama a pureza do coração, pela graça dos seus lábios, é amigo do rei.
12. Os olhos do Senhor protegem a sabedoria, mas arruínam as palavras do pérfido.
13. Há um leão do lado de fora!, diz o preguiçoso, eu poderei ser morto na rua!
14. A boca das meretrizes é uma cova profunda; nela cairá aquele contra o qual o Senhor se irar.
15. A loucura apega-se ao coração da criança; a vara da disciplina afastá-la-á dela.
16. Quem oprime o pobre, enriquece-o. Quem dá ao rico, empobrece-o.
17. Presta atenção às minhas palavras, aplica teu coração à minha doutrina,
18. porque é agradável que as guardes dentro de teu coração e que elas permaneçam, todas, presentes em teus lábios.
19. É para que o Senhor seja tua confiança, que quero instruir-te hoje.
20. Desde muito tempo eu te escrevi conselhos e instruções,
21. para te ensinar a verdade das coisas certas, para que respondas certo àquele que te indaga.
22. Não despojes o pobre, porque é pobre, não oprimas o fraco à porta da cidade,
23. porque o Senhor pleiteará sua causa e tirará a vida aos que os despojaram.
24. Não faças amizade com um homem colérico, não andes com o violento,
25. há o perigo de que aprendas os seus costumes e prepares um laço fatal.
26. Não sejas daqueles que se obrigam, apertando a mão, e se fazem fiadores de dívidas;
27. se não tens com que pagar, arrebatar-te-ão teu leito debaixo de ti.
28. Não passes além dos marcos antigos que puseram teus pais.
29. Viste um homem hábil em sua obra? Ele entrará ao serviço dos reis, e não ficará entre gente obscura.

 
Capítulo 23

1. Quando te assentares à mesa com um grande, considera com atenção quem está diante de ti:
2. põe uma faca na tua garganta, se tu sentes muito apetite;
3. não cobices seus manjares que são alimentos enganosos.
4. Não te afadigues para te enriqueceres, evita aplicar a isso teu espírito.
5. Mal fixas os olhos nos bens, e nada mais há, porque a riqueza tem asas como a águia que voa para o céu.
6. Não comas com homem invejoso, não cobices seus manjares,
7. porque ele se mostra tal qual se calculou em si mesmo. Ele te diz: Come e bebe, mas seu coração não está contigo.
8. Comido o bocado, tu o vomitarás e desperdiçarás tuas amabilidades.
9. Não fales aos ouvidos do insensato porque ele desprezaria a sabedoria de tuas palavras.
10. Não toques no marco antigo, não penetres na terra dos órfãos
11. porque seu vingador é poderoso e defenderá sua causa contra ti.
12. Aplica teu coração à instrução e teus ouvidos às palavras da ciência.
13. Não poupes ao menino a correção: se tu o castigares com a vara, ele não morrerá,
14. castigando-o com a vara, salvarás sua vida da morada dos mortos.
15. Meu filho, se o teu espírito for sábio, meu coração alegrar-se-á contigo!
16. Meus rins estremecerão de alegria, quando teus lábios proferirem palavras retas.
17. Que teu coração não inveje os pecadores, mas permaneça sempre no temor do Senhor
18. porque [então] haverá certamente um futuro e tua esperança não será frustrada.
19. Ouve, meu filho: sê sabio, dirige teu coração pelo caminho reto,
20. não te ajuntes com os bebedores de vinho, com aqueles que devoram carnes,
21. pois o ébrio e o glutão se empobrecem e a sonolência veste-se com andrajos.
22. Dá ouvidos a teu pai, àquele que te gerou e não desprezes tua mãe quando envelhecer.
23. Adquire a verdade e não a vendas, adquire sabedoria, instruções e inteligência.
24. O pai do justo exultará de alegria; aquele que gerou um sábio alegrar-se-á nele.
25. Que teu pai se alegre por tua causa, que viva na alegria aquela que te deu à luz!
26. Meu filho, dá-me teu coração. Que teus olhos observem meus caminhos,
27. pois a meretriz é uma fossa profunda e a entranha, um poço estreito:
28. como um salteador ele fica de emboscada e, entre os homens, multiplica os infiéis.
29. Para quem os ah? Para quem os ais? Para quem as contendas? Para quem as queixas? Para quem as feridas sem motivo? Para quem o vermelho dos olhos?
30. Para aqueles que permanecem junto ao vinho, para aqueles que vão saborear o vinho misturado.
31. Não consideres o vinho: como ele é vermelho, como brilha no copo, como corre suavemente!
32. Mas, no fim, morde como uma serpente e pica como um basilisco!
33. Os teus olhos verão coisas estranhas, teu coração pronunciará coisas incoerentes.
34. Serás como um homem adormecido no fundo do mar, ou deitado no cimo dum mastro:
35. Feriram-me, dirás tu; e não sinto dor! Bateram-me… e não sinto nada. Quando despertei eu? Quero mais ainda!

 
Capítulo 24

1. Não invejes os maus, nem desejes estar com eles,
2. porque seus corações maquinam a violência e seus lábios só proclamam a iniqüidade.
3. É com sabedoria que se constrói a casa, pela prudência ela se consolida.
4. Pela ciência enchem-se os celeiros de todo bem precioso e agradável.
5. O sábio é um homem forte, o douto é cheio de vigor.
6. É com a prudência que empreenderás a guerra e a vitória depende de grande número de conselheiros.
7. A sabedoria é por demais sublime para o tolo; à porta da cidade, ele não abre a boca.
8. Quem medita fazer o mal, é chamado mestre intrigante.
9. O desígnio da loucura é o pecado; e detrator é terror para os outros.
10. Se te deixas abater no dia da adversidade, minguada é a tua força.
11. Livra os que foram entregues à morte, salva os que cambaleiam indo para o massacre.
12. Se disseres: Mas, não o sabia! Aquele que pesa os corações não o verá? Aquele que vigia tua alma não o saberá? E não retribuirá a cada qual segundo seu procedimento?
13. Meu filho, come mel, pois é bom; um favo de mel é doce para teu paladar.
14. Sabe, pois, que assim será a sabedoria para tua alma. Se tu a encontrares, haverá para ti um bom futuro e tua esperança não será frustrada.
15. Não conspires, ó ímpio, contra a casa do justo, não destruas sua habitação!
16. Porque o justo cai sete vezes, mas ergue-se, enquanto os ímpios desfalecem na desgraça.
17. Não te alegres, se teu inimigo cair, se tropeçar, que não se rejubile teu coração,
18. para não suceder que o Senhor o veja, e isto lhe desagrade, e tire de cima dele sua ira.
19. Não te indignes à vista dos maus, não invejes os ímpios,
20. porque para o mal não há futuro e o luzeiro dos ímpios extinguir-se-á.
21. Meu filho, teme o Senhor e o rei, não te mistures com os sediciosos,
22. porque, de repente, surgirá sua desgraça. Quem conhece a destruição de uns e de outros?
23. O que segue é ainda dos sábios: Não é bom mostrar-se parcial no julgamento.
24. Ao que diz ao culpado: Tu és inocente, os povos o amaldiçoarão, as nações o abominarão.
25. Aqueles que sabem repreender são louvados, sobre eles cai uma chuva de bênçãos.
26. Dá um beijo nos lábios aquele que responde com sinceridade.
27. Cuida da tua tarefa de fora, aplica-te ao teu campo e depois edificarás tua habitação.
28. Não sejas testemunha inconsiderada contra teu próximo. Queres, acaso, que teus lábios te enganem?
29. Não digas: Far-lhe-ei o que me fez, pagarei a este homem segundo seus atos.
30. Perto da terra do preguiçoso eu passei, junto à vinha de um homem insensato:
31. eis que, por toda a parte, cresciam abrolhos, urtigas cobriam o solo, o muro de pedra estava por terra.
32. Vendo isso, refleti; daquilo que havia visto, tirei esta lição:
33. um pouco de sono, um pouco de torpor, um pouco cruzando as mãos para descansar
34. e virá a indigência como um vagabundo, a miséria como um homem armado!

 
Capítulo 25

1. Ainda alguns provérbios de Salomão, recolhidos pelos homens de Ezequias, rei de Judá.
2. A glória de Deus é ocultar uma coisa; a glória dos reis é esquadrinhá-la.
3. A altura dos céus, a profundeza da terra são impenetráveis, bem como o coração dos reis.
4. Tira as escórias da prata e terás um vaso para o ourives;
5. afasta o mau de presença do rei e seu trono se firmará na justiça.
6. Não te faças de pretensioso diante do rei, não te ponhas no lugar dos grandes.
7. É melhor que te digam: Sobe aqui!, do que seres humilhado diante de um personagem. O que teus olhos viram,
8. não o descubras com precipitação numa contenda, pois, no final das contas, que farás tu quando o outro te houver confundido?
9. Trata teu negócio com teu próximo de maneira a não revelar o segredo de outro,
10. para que não sejas repreendido por aquele que o ouviu nem incorras em descrédito irreparável.
11. Maçãs de ouro sobre prata gravada: tais são as palavras oportunas.
12. Anel de ouro, jóia de ouro fino: tal é o sábio que admoesta um ouvido atento.
13. Frescor de neve no tempo da colheita, tal é um mensageiro fiel para quem o envia: ele restaura a alma de seu senhor.
14. Nuvens e vento sem chuva: tal é o homem que se gaba falsamente de dar.
15. Pela paciência o juiz se deixa aplacar: a língua que fala com brandura pode quebrantar ossos.
16. Achaste mel? Come o que for suficiente: se comeres demais, tu o vomitarás.
17. Põe raramente o pé na casa do vizinho: enfastiado de ti, ele te viria a aborrecer.
18. Clava, espada, flecha penetrante: tal é o que usa de falso testemunho contra seu próximo.
19. Dente arruinado, pé que resvala: tal é a confiança de um pérfido no dia da desventura.
20. Tirar a capa num dia de frio, derramar vinagre numa ferida: isso faz aquele que canta canções a um coração atribulado.
21. Tem o teu inimigo fome? Dá-lhe de comer. Tem sede? Dá-lhe de beber:
22. assim amontoarás brasas ardentes sobre sua cabeça e o Senhor te recompensará.
23. O vento norte traz chuva e a língua detratora anuvia os semblantes.
24. É melhor habitar um canto do terraço do que viver com uma mulher impertinente.
25. Água fresca para uma garganta sedenta: tal é uma boa nova vinda de terra longínqua.
26. Fonte turva e manancial contaminado: tal é o justo que cede diante do ímpio.
27. Comer mel em demasia não é bom: usa de moderação nas palavras elogiosas.
28. Como uma cidade desmantelada, sem muralhas: tal é o homem que não é senhor de si.

 
Capítulo 26

1. Assim como a neve é imprópria no estio e a chuva na ceifa, do mesmo modo não convém ao insensato a consideração.
2. Como um pássaro que foge, uma andorinha que voa: uma maldição injustificada permanece sem efeito.
3. O açoite para o cavalo, o freio para o asno: a vara para as costas do tolo.
4. Não respondas ao néscio segundo sua insensatez, para não seres semelhante a ele.
5. Responde ao tolo segundo sua loucura para que ele não se julgue sábio aos seus olhos.
6. Corta os pés, bebe aflições quem confia uma mensagem a um tolo.
7. As pernas de um coxo não têm força: do mesmo modo uma sentença na boca de um tolo.
8. É colocar pedra na funda cumprimentar um tolo.
9. Um espinho que cai na mão de um embriagado: tal é uma sentença na boca dos insensatos.
10. Um arqueiro que fere a todos: tal é aquele que emprega um tolo ou um embriagado.
11. Um cão que volta ao seu vômito: tal é o louco que reitera suas loucuras.
12. Tu tens visto um homem que se julga sábio? Há mais a esperar de um tolo do que dele.
13. Há um leão no caminho, diz o preguiçoso, um leão na estrada!
14. A porta gira sobre seus gonzos: assim o preguiçoso no seu leito.
15. O preguiçoso põe sua mão no prato e custa-lhe muito levá-la à boca.
16. O preguiçoso julga-se mais sábio do que sete homens que respondem com prudência.
17. É pegar pelas orelhas um cão que passa envolver-se num debate que não interessa.
18. Um louco furioso que lança chamas, flechas e morte:
19. tal é o homem que engana seu próximo e diz em seguida: mas, era para brincar.
20. Sem lenha o fogo se apaga: desaparecido o relator, acaba-se a questão.
21. Carvão sobre a brasa, lenha sobre o fogo: tal é um intrigante para atiçar uma disputa.
22. As palavras do mexeriqueiro são como guloseimas: penetram até o fundo das entranhas.
23. Uma liga de prata sobre o pote de argila: tais são as palavras ardentes com um coração malévolo.
24. O que odeia, fala com dissimulação; no seu interior maquina a fraude;
25. quando ele falar com amabilidade, não te fies nele porque há sete abominações em seu coração;
26. pode dissimular seu ódio sob aparências, e sua malícia acabará por ser revelada ao público.
27. Quem cava uma fossa, ali cai; quem rola uma pedra, cairá debaixo dela.
28. A língua mendaz odeia aqueles que ela atinge, a boca enganosa conduz à ruína.

 
Capítulo 27

1. Não te gabes do dia de amanhã porque não sabes o que ele poderá engendrar.
2. Que seja outro que te louve, não a tua própria boca; um estranho, não teus próprios lábios.
3. Pesada é a pedra, pesada a areia, mais pesada ainda é a cólera de um tolo.
4. Crueldade do furor, ímpetos da cólera: mas quem pode suportar o ciúme?
5. Melhor é a correção manifesta do que uma amizade fingida.
6. As feridas do amigo são provas de lealdade, mas os beijos do que odeia são abundantes.
7. Saciado o apetite, calca aos pés o favo de mel; para o faminto tudo o que é amargo parece doce.
8. Um pássaro que anda longe do seu ninho: tal é o homem que vive longe da sua terra.
9. Azeite e incenso alegram o coração: a bondade de um amigo consola a alma.
10. Não abandones teu amigo, o amigo de teu pai; não vás à casa do teu irmão em dia de aflição. Vale mais um vizinho que está perto, que um irmão distante.
11. Sê sábio, meu filho, alegrarás meu coração e eu poderei responder ao que me ultrajar.
12. O homem prudente percebe o mal e se põe a salvo; os imprudentes passam adiante e agüentam o peso.
13. Toma a sua veste, porque ficou fiador de outrem, exige o penhor que deve aos estrangeiros.
14. Quem, desde o amanhecer, louva seu vizinho em alta voz é censurado de o ter amaldiçoado.
15. Goteira que cai de contínuo em dia de chuva e mulher litigiosa, tudo é a mesma coisa.
16. Querer retê-la, é reter o vento, ou pegar azeite com a mão.
17. O ferro com o ferro se aguça; o homem aguça o homem.
18. Quem trata de sua figueira, comerá seu fruto; quem cuida do seu senhor, será honrado.
19. Como o reflexo do rosto na água, assim é o coração do homem para o homem.
20. A morada dos mortos e o abismo nunca se enchem; assim os olhos do homem são insaciáveis.
21. Há um crisol para a prata, um forno para o ouro; assim o homem [é provado] pela sua reputação.
22. Ainda que pisasses o insensato num triturador, entre os grãos, com um pilão, sua loucura não se separaria dele.
23. Certifica-te bem do estado do teu gado miúdo; atende aos teus rebanhos,
24. porque a riqueza não é eterna e a coroa não permanece de geração em geração.
25. Quando se abre o prado, quando brotam as ervas, uma vez recolhido o feno das montanhas,
26. tens ainda cordeiros para te vestir e bodes para pagares um campo,
27. leite de cabra suficiente para teu sustento, para o sustento de tua casa e a manutenção das tuas servas.

 
Capítulo 28

1. O ímpio foge sem que ninguém o persiga, mas o justo sente-se seguro como um leão.
2. Por causa do pecado de um país, multiplicam-se os chefes, mas sob um homem sábio e sensato [a ordem] perdura.
3. Um pobre que oprime miseráveis é qual chuva torrencial, causa de fome.
4. Quem abandona a instrução, louva o ímpio; quem a observa, faz-lhe guerra.
5. Os homens maus não compreendem o que é justo; os que buscam o Senhor tudo entendem.
6. Mais vale um pobre que caminha na integridade do que um rico em caminhos tortuosos.
7. Um filho inteligente segue a instrução; quem convive com os devassos, torna-se a vergonha de seu pai.
8. Quem aumenta sua fortuna por usuras e logro, ajunta para o que tem piedade dos pequenos.
9. Aquele que afasta o ouvido para não ouvir a instrução, até em sua oração é um objeto de horror.
10. Quem seduz os homens corretos para um mau caminho, cairá no fosso que ele mesmo cavou e para os íntegros caberá a herança da felicidade.
11. O rico julga-se sábio, mas o pobre inteligente penetra-o a fundo.
12. Quando os justos triunfam, há muita alegria; quando os ímpios se erguem, cada qual se esconde.
13. Quem dissimula suas faltas, não há de prosperar; quem as confessa e as detesta, obtém misericórdia.
14. Feliz daquele que vive em temor contínuo; mas o que endurece seu coração, cairá na desgraça.
15. Leão rugidor, urso esfaimado: tal é o ímpio que domina sobre um povo pobre.
16. Um príncipe, destituído de senso, é rico em extorsões, mas o que odeia o lucro viverá longos dias.
17. O homem sobre o qual pesa o sangue de outro fugirá até o fosso: não o retenhas.
18. O que caminha na integridade, será salvo; quem seguir por caminhos tortuosos cairá no fosso.
19. O que cultiva seu solo, terá pão à vontade; o que corre atrás das vaidades fartar-se-á de miséria.
20. O homem leal será cumulado de bênçãos; o que, porém, tem pressa de se enriquecer, não ficará impune.
21. Não é bom mostrar-se parcial: há quem cometa este pecado por um pedaço de pão.
22. O homem invejoso precipita-se atrás da fortuna: não sabe que vai cair sobre ele a indigência.
23. Quem corrige alguém, encontra no fim mais gratidão do que lisonjas.
24. Quem furta de seu pai ou de sua mãe, dizendo: Isto não é pecado!, é colega do bandoleiro.
25. O homem cobiçoso provoca contendas, mas o que se fia no Senhor, será saciado.
26. O que se fia em seu próprio coração, é um tolo; quem caminha com sabedoria, escapará do perigo.
27. O que dá ao pobre, não padecerá penúria, mas quem fecha os olhos ficará cheio de maldições.
28. Quando se erguem os ímpios, cada qual se oculta; quando eles perecem, multiplicam-se os justos.

 
Capítulo 29

1. O homem que, apesar das admoestações, se obstina será logo irremediavelmente arruinado.
2. Quando dominam os justos, alegra-se o povo; quando governa o ímpio, o povo geme.
3. Quem ama a sabedoria alegra seu pai; o que freqüenta as prostitutas dissipa sua fortuna.
4. É pela justiça que um rei firma seu país, mas aquele que o sobrecarrega com muitos impostos, o arruína.
5. O homem que adula seu próximo estende redes aos seus pés.
6. No delito do ímpio há um ardil, mas o justo corre alegremente.
7. O justo conhece a causa dos pobres; o ímpio a ignora.
8. Os escarnecedores ateiam fogo na cidade, mas os sábios acalmam o furor.
9. Discute um sábio com um tolo? Que ele se zangue ou que ele se ria, não terá paz.
10. Os homens sanguinários odeiam o íntegro, mas os homens retos tomam cuidado com sua vida.
11. O insensato desafoga toda sua ira, mas o sábio a domina e a recalca.
12. Quando um soberano presta atenção às mentiras, todos os seus servidores tornam-se maus.
13. O pobre e o opressor se encontram: é o Senhor que ilumina os olhos de cada um.
14. Um rei que julga com eqüidade os humildes terá seu trono firmado para sempre.
15. Vara e correção dão a sabedoria; menino abandonado à sua vontade se torna a vergonha da mãe.
16. Quando se multiplicam os ímpios, multiplica-se o crime, mas os justos contemplarão sua queda.
17. Corrige teu filho e ele te dará repouso e será as delícias de tua vida.
18. Por falta de visão, o povo vive sem freios; ditoso o que observa a instrução!
19. Não é com palavras que se corrige um escravo, porque ele compreende, mas não se atém a elas.
20. Viste um homem precipitado no falar: há mais esperança num tolo do que nele.
21. Um escravo mimado desde sua juventude, acaba por se tornar desobediente.
22. Um homem irascível excita contendas; o colérico acumula as faltas.
23. O orgulho de um homem leva-o à humilhação, mas o humilde de espírito obtém a glória.
24. Quem partilha com o ladrão, odeia-se a si mesmo; ouve a maldição e nada denuncia.
25. O temor dos homens prepara um laço, mas quem confia no Senhor permanece seguro.
26. Muitos buscam o favor dum príncipe, mas é do Senhor que cada homem alcança justiça
27. O homem iníquo é abominado pelos justos; o ímpio abomina aquele que anda pelo caminho certo.

 
Capítulo 30

1. Palavras de Agur, filho de Jaque, de Massa. Palavras desse homem: Eu me fatiguei por Deus, estou esgotado por Deus, eis-me entregue.
2. Porque eu sou o mais insensato dos homens, não tenho a inteligência de um homem.
3. Não aprendi a sabedoria e não conheci a ciência do Santo.
4. Quem subiu ao céu e quem dele desceu? Quem reteve o vento em suas mãos? Quem envolveu as águas em seu manto? Quem determinou as extremidades da terra? Qual é o seu nome, qual é o nome de seu filho, se é que o sabes?
5. Toda a palavra de Deus é provada, é um escudo para quem se fia nele.
6. Não acrescentes nada às suas palavras, para que ele não te corrija e sejas achado mentiroso.
7. Eu te peço duas coisas, não mas negues antes de minha morte:
8. afasta de mim falsidade e mentira, não me dês nem pobreza nem riqueza, concede-me o pão que me é necessário,
9. para que, saciado, eu não te renegue, e não diga: Quem é o Senhor? Ou que, pobre, eu não roube, e não profane o nome do meu Deus.
10. Não calunies um escravo junto de seu senhor, para que ele não te amaldiçoe e sofras o castigo.
11. Há uma raça que amaldiçoa seu pai e que não abençoa sua mãe.
12. Há uma raça que se julga pura e que não está limpa de sua mancha.
13. Há uma raça , oh, cujos olhos são altivos, com pálpebras levantadas!
14. Há uma raça cujos dentes são espadas e os maxilares, facas, para devorar os desvalidos da terra e os indigentes dentre os homens.
15. A sanguessuga tem duas filhas: Dá! Dá! Há três coisas insaciáveis, quatro mesmo, que nunca dizem: Basta!
16. A habitação dos mortos, o seio estéril, o solo que a água jamais sacia e o fogo que nunca diz: Basta!
17. Os olhos de quem zomba do pai, de quem se recusa obedecer sua mãe: os corvos da torrente o arrebatarão, os filhos da águia o devorarão.
18. Há três coisas que me são mistério, quatro mesmo, que não compreendo:
19. O vôo da águia nos céus, o rastejar da cobra no rochedo, a navegação de um navio em pleno mar, o caminho de um homem junto a uma jovem.
20. Tal é o procedimento da mulher adúltera: come, depois limpa a boca, dizendo: Não fiz mal algum.
21. Três coisas fazem tremer a terra, há mesmo quatro que ela não pode suportar:
22. um escravo que se torna rei, um tolo que está farto de pão,
23. uma filha desprezada que se casa, uma serva que suplanta sua senhora.
24. Há quatro animais pequenos na terra que, entretanto, são sábios, muito sábios:
25. as formigas, povo sem força, que, durante o verão, preparam suas provisões,
26. os arganazes, povo sem poder, que fazem sua habitação nos rochedos,
27. os gafanhotos, que não têm rei e avançam todos em bandos,
28. a lagartixa, que se pode pegar na mão e penetra nos palácios reais.
29. Há três coisas que têm bela aparência, quatro mesmo, que andam garbosamente:
30. O leão, o mais bravo dos animais, que não recua diante de nada,
31. o animal cingido pelos rins, o bode e o rei acompanhado de seu exército.
32. Se tiveres a asneira de elevar-te a ti mesmo, refletindo nisso, depois, põe tua mão à boca,
33. porque quem comprime o leite, tira dele a manteiga, quem aperta o nariz, faz jorrar o sangue, quem provoca a cólera, promove a disputa.

 
Capítulo 31

1. Palavras de Lamuel, rei de Massa, que lhe foram ensinadas por sua mãe:
2. Meu filho, filho de minhas entranhas, que te direi eu? Não, ó filho de meus votos!
3. Não dês teu vigor às mulheres e teu caminho àquelas que perdem os reis.
4. Não é próprio dos reis, Lamuel, não convém aos reis beber vinho, nem aos príncipes dar-se aos licores,
5. para que, bebendo, eles não esqueçam a lei e não desconheçam o direito de todos os infelizes.
6. Dai a bebida forte àquele que desfalece e o vinho àquele que tem amargura no coração:
7. que ele beba e esquecerá sua miséria e já não se lembrará de suas mágoas.
8. Abre tua boca a favor do mundo, pela causa de todos os abandonados;
9. abre tua boca para pronunciar sentenças justas, faze justiça ao aflito e ao indigente.
10. Uma mulher virtuosa, quem pode encontrá-la? Superior ao das pérolas é o seu valor.
11. Confia nela o coração de seu marido, e jamais lhe faltará coisa alguma.
12. Ela lhe proporciona o bem, nunca o mal, em todos os dias de sua vida.
13. Ela procura lã e linho e trabalha com mão alegre.
14. Semelhante ao navio do mercador, manda vir seus víveres de longe.
15. Levanta-se, ainda de noite, distribui a comida à sua casa e a tarefa às suas servas.
16. Ela encontra uma terra, adquire-a. Planta uma vinha com o ganho de suas mãos.
17. Cinge os rins de fortaleza, revigora seus braços.
18. Alegra-se com o seu lucro, e sua lâmpada não se apaga durante a noite.
19. Põe a mão na roca, seus dedos manejam o fuso.
20. Estende os braços ao infeliz e abre a mão ao indigente.
21. Ela não teme a neve em sua casa, porque toda a sua família tem vestes duplas.
22. Faz para si cobertas: suas vestes são de linho fino e de púrpura.
23. Seu marido é considerado nas portas da cidade, quando se senta com os anciãos da terra.
24. Tece linha e o vende, fornece cintos ao mercador.
25. Fortaleza e graça lhe servem de ornamentos; ri-se do dia de amanhã.
26. Abre a boca com sabedoria, amáveis instruções surgem de sua língua.
27. Vigia o andamento de sua casa e não come o pão da ociosidade.
28. Seus filhos se levantam para proclamá-la bem-aventurada e seu marido para elogiá-la.
29. Muitas mulheres demonstram vigor, mas tu excedes a todas.
30. A graça é falaz e a beleza é vã; a mulher inteligente é a que se deve louvar.
31. Dai-lhe o fruto de suas mãos e que suas obras a louvem nas portas da cidade.

 

Livro do Eclesiastes

Livro do Eclesiastes

 Capítulo 1

1. Palavras do Eclesiastes, filho de Davi, rei de Jerusalém.
2. Vaidade das vaidades, diz o Eclesiastes, vaidade das vaidades! Tudo é vaidade.
3. Que proveito tira o homem de todo o trabalho com que se afadiga debaixo do sol?
4. Uma geração passa, outra vem; mas a terra sempre subsiste.
5. O sol se levanta, o sol se põe; apressa-se a voltar a seu lugar; em seguida, se levanta de novo.
6. O vento vai em direção ao sul, vai em direção ao norte, volteia e gira nos mesmos circuitos.
7. Todos os rios se dirigem para o mar, e o mar não transborda. Em direção ao mar, para onde correm os rios, eles continuam a correr.
8. Todas as coisas se afadigam, mais do que se pode dizer. A vista não se farta de ver, o ouvido nunca se sacia de ouvir.
9. O que foi é o que será: o que acontece é o que há de acontecer. Não há nada de novo debaixo do sol.
10. Se é encontrada alguma coisa da qual se diz: Veja: isto é novo, ela já existia nos tempos passados.
11. Não há memória do que é antigo, e nossos descendentes não deixarão memória junto daqueles que virão depois deles.
12. Eu, o Eclesiastes, fui rei de Israel em Jerusalém.
13. Apliquei meu espírito a um estudo atencioso e à sábia observação de tudo que se passa debaixo dos céus: Deus impôs aos homens esta ocupação ingrata.
14. Vi tudo o que se faz debaixo do sol, e eis: tudo vaidade, e vento que passa.
15. O que está curvado não se pode endireitar, e o que falta não se pode calcular.
16. Eu disse comigo mesmo: Eis que amontoei e acumulei mais sabedoria que todos os que me precederam em Jerusalém. Porque meu espírito estudou muito a sabedoria e a ciência,
17. e apliquei o meu espírito ao discernimento da sabedoria, da loucura e da tolice. Mas cheguei à conclusão de que isso é também vento que passa.
18. Porque no acúmulo de sabedoria, acumula-se tristeza, e que aumenta a ciência, aumenta a dor.

 
Capítulo 2

1. Eu disse comigo mesmo: Vamos, tentemos a alegria e gozemos o prazer. Mas isso é também vaidade.
2. Do riso eu disse: Loucura! e da alegria: Para que serve?
3. Resolvi entregar minha carne ao vinho, enquanto meu espírito se aplicaria ainda à sabedoria; procurar a loucura até que eu visse o que é bom para os filhos dos homens fazerem durante toda a sua vida debaixo dos céus.
4. Empreendi grandes trabalhos, construí para mim casas e plantei vinhas;
5. fiz jardins e pomares, onde plantei árvores frutíferas de toda espécie;
6. cavei reservatórios de água para regar o bosque. Comprei escravos e escravas; e possuí outros nascidos em casa.
7. Possuí muito gado, bois e ovelhas, mais que todos os que me precederam em Jerusalém.
8. Amontoei prata e ouro, riquezas de reis e de províncias. Procurei cantores e cantoras, e que faz as delícias dos filhos dos homens: mulheres e mulheres.
9. Fui maior que todos os que me precederam em Jerusalém; e, ainda assim, minha sabedoria permaneceu comigo.
10. Tudo que meus olhos desejaram, não lhes recusei; não privei meu coração de nenhuma alegria. Meu coração encontrava sua alegria no meu trabalho; este é o fruto que dele tirei.
11. Mas, quando me pus a considerar todas as obras de minhas mãos e o trabalho ao qual me tinha dado para fazê-las, eis: tudo é vaidade e vento que passa; não há nada de proveitoso debaixo do sol.
12. Passei então à meditação da sabedoria, da loucura e da tolice. (Qual é o homem, designado desde muito tempo, que virá depois do rei?)
13. Cheguei à conclusão de que a sabedoria leva vantagem sobre a loucura, como a luz leva vantagem sobre as trevas.
14. Os olhos do sábio estão na cabeça, mas o insensato anda nas trevas. Mas eu notei que um mesmo destino espera a ambos,
15. e disse comigo mesmo: A minha sorte será a mesma que a do insensato. Então para que me serve toda a minha sabedoria? Por isso disse eu comigo mesmo, que tudo isso é ainda vaidade.
16. Porque a memória do sábio não é mais eterna que a do insensato, pois que, passados alguns dias, ambos serão esquecidos. Mas então? Tanto morre o sábio como morre o louco!
17. E eu detestei a vida, porque, a meus olhos, tudo é mau no que se passa debaixo do sol, tudo é vaidade e vento que passa.
18. Também se tornou odioso para mim todo o trabalho que produzi debaixo do sol, porque devo deixá-lo àquele que virá depois de mim.
19. E quem sabe se ele será sábio ou insensato? Contudo, é ele que disporá de todo o fruto dos meus trabalhos que debaixo do sol em custaram trabalho e sabedoria. Também isso é vaidade.
20. E eu senti o coração cheio de desgosto por todo o labor que suportei debaixo do sol.
21. Que um homem trabalhe com sabedoria, ciência e bom êxito para deixar o fruto de seu labor a outro que em nada colaborou, note-se bem, é uma vaidade e uma grande desgraça.
22. Com efeito, que resta ao homem de todo o seu labor, de todas as suas azáfamas a que se entregou debaixo do sol?
23. Todos os seus dias são apenas dores, seu trabalhos apenas tristezas; mesmo durante a noite ele não goza de descanso. Isto é ainda vaidade.
24. Não há nada melhor para o homem que comer, beber e gozar o bem-estar no seu trabalho. Mas eu notei que também isso vem da mão de Deus;
25. pois, quem come e bebe, senão graças a ele? Àquele que lhe é agradável Deus dá sabedoria, ciência e alegria; mas ao pecador ele dá a tarefa de recolher e acumular bens, que depois passará a quem lhe agradar. Isto é ainda vaidade e vento que passa.

 
Capítulo 3

1. Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo dos céus:
2. tempo para nascer, e tempo para morrer; tempo para plantar, e tempo para arrancar o que foi plantado;
3. tempo para matar, e tempo para sarar; tempo para demolir, e tempo para construir;
4. tempo para chorar, e tempo para rir; tempo para gemer, e tempo para dançar;
5. tempo para atirar pedras, e tempo para ajuntá-las; tempo para dar abraços, e tempo para apartar-se.
6. Tempo para procurar, e tempo para perder; tempo para guardar, e tempo para jogar fora;
7. tempo para rasgar, e tempo para costurar; tempo para calar, e tempo para falar;
8. tempo para amar, e tempo para odiar; tempo para a guerra, e tempo para a paz.
9. Que proveito tira o trabalhador de sua obra?
10. Eu vi o trabalho que Deus impôs aos homens:
11. todas as coisas que Deus fez são boas, a seu tempo. Ele pôs, além disso, no seu coração a duração inteira, sem que ninguém possa compreender a obra divina de um extremo a outro.
12. Assim eu concluí que nada é melhor para o homem do que alegrar-se e procurar o bem-estar durante sua vida;
13. e que comer, beber e gozar do fruto de seu trabalho é um dom de Deus.
14. Reconheci que tudo o que Deus fez subsistirá sempre, sem que se possa ajuntar nada, nem nada suprimir. Deus procede desta maneira para ser temido.
15. Aquilo que é, já existia, e aquilo que há de ser, já existiu; Deus chama de novo o que passou.
16. Debaixo do sol, observei ainda o seguinte: a injustiça ocupa o lugar do direito, e a iniqüidade ocupa o lugar da justiça.
17. Então eu disse comigo mesmo: Deus julgará o justo e o ímpio, porque há tempo para todas as coisas e tempo para toda a obra.
18. Eu disse comigo mesmo a respeito dos homens: Deus quer prová-los e mostrar-lhes que, quanto a eles, são semelhantes aos brutos.
19. Porque o destino dos filhos dos homens e o destino dos brutos é o mesmo: um mesmo fim os espera. A morte de um é a morte do outro. A ambos foi dado o mesmo sopro, e a vantagem do homem sobre o bruto é nula, porque tudo é vaidade.
20. Todos caminham para um mesmo lugar, todos saem do pó e para o pó voltam.
21. Quem sabe se o sopro de vida dos filhos dos homens se eleva para o alto, e o sopro de vida dos brutos desce para a terra?
22. E verifiquei que nada há de melhor para o homem do que alegrar-se com o fruto de seus trabalhos. Esta é a parte que lhe toca. Pois, quem lhe dará a conhecer o que acontecerá com o volver dos anos.?

 
Capítulo 4

1. Pus-me então a considerar todas as opressões que se exercem debaixo do sol. Eis aqui as lágrimas dos oprimidos e não há ninguém para consolá-los. Seus opressores fazem-lhes violência e não há ninguém para os consolar.
2. E julguei os mortos, que estão mortos, mais felizes que os vivos que ainda estão em vida,
3. e mais feliz que uns e outros o aborto que não chegou à existência, aquele que não viu o mal que se comete debaixo do sol.
4. Vi que todo o trabalho, toda a habilidade numa obra, não passa de emulação de um homem diante do seu próximo. Isto é também vaidade e vento que passa.
5. O insensato cruza as mãos e devora sua própria carne.
6. Mais vale uma mão cheia de tranqüilidade, que as duas mãos cheias de trabalho e de vento que passa.
7. Vi ainda outra vaidade debaixo do sol:
8. eis um homem sozinho, sem alguém junto de si, nem filho, nem irmão; trabalha sem parar, e, não obstante, seus olhos não se fartam de riquezas. Para quem trabalho eu, privando-me de todo bem-estar? Eis uma vaidade e um trabalho ingrato.
9. Dois homens juntos são mais felizes que um isolado, porque obterão um bom salário de seu trabalho.
10. Se um vem a cair, o outro o levanta. Mas ai do homem solitário: se ele cair não há ninguém para o levantar.
11. Da mesma forma, se dormem dois juntos, aquecem-se; mas um homem só, como se há de aquecer?
12. Se é possível dominar o homem que está sozinho, dois podem resistir ao agressor, e um cordel triplicado não se rompe facilmente.
13. Mais vale um adolescente pobre, mas sábio, que um rei velho, mas insensato, que já não aceita conselhos;
14. porque ele sai da prisão para reinar, se bem que pobre de nascimento no seu reino.
15. Vi todos os viventes, que se acham debaixo do sol, apressarem-se junto do adolescente que o ia suceder;
16. era interminável o cortejo dessa multidão, à testa da qual ele caminhava. Contudo, a geração seguinte não se regozijará por sua causa. Tudo isso é ainda vaidade e vento que passa.
17. Vê onde pões teu pé quando entras no templo do Senhor. Mais vale a obediência que os sacrifícios dos insensatos, porque eles só sabem fazer o mal.

 
Capítulo 5

1. Não te apresses em abrir a boca; que teu coração não se apresse em proferir palavras diante de Deus, porque Deus está no céu, e tu na terra; que tuas palavras sejam, portanto, pouco numerosas.
2. Porque muitas ocupações geram sonhos, e a torrente de palavras faz nascer resoluções insensatas.
3. Quando fizeres um voto a Deus, realiza-o sem delonga, porque aos insensatos Deus não é favorável. Portanto, cumpre teu voto.
4. Mais vale não fazer voto, que prometer a não ser fiel à promessa.
5. Não permitas à tua boca fazer pecar a tua carne, e não digas ao sacerdote que isto foi apenas uma inadvertência, para não suceder que Deus se irrite com essas palavras e reduza a nada tua empresa.
6. Porque muitos cuidados geram sonhos, e a torrente de palavras, despropósitos. Assim, pois, teme a Deus.
7. Se vires na região a opressão do pobre, ou a violação do direito e da justiça, não te admires, porque o que é grande é observado por outro maior e ambos por maiores ainda.
8. Sob todos os pontos de vista, uma vantagem para uma nação é um rei para um país cultivado.
9. Aquele que ama o dinheiro nunca se fartará, e aquele que ama a riqueza não tira dela proveito. Também isso é vaidade.
10. Quando abundam os bens, numerosos são os que comem, e que vantagem há para os seus possuidores, senão ver como se comportam?
11. Doce é o sono dos trabalhador, tenha ele pouco ou muito para comer; mas a abundância do rico o impede de dormir.
12. Vi uma dolorosa miséria debaixo do sol: as riquezas que um possuidor guarda para sua desgraça.
13. Caso essas riquezas venham a se perder em conseqüência de algum desagradável acontecimento, se ele tiver um filho, nada lhe restará na sua mão.
14. Nu saiu ele do ventre de sua mãe, tão nu como veio sairá desta vida, e, pelo seu trabalho, nada receberá que possa levar em suas mãos.
15. Sim, é uma dolorosa miséria que ele se vá assim como veio; e que vantagem terá ele por ter trabalhado para o vento?
16. Todos os seus dias foram consumidos numa sombria dor, em extrema amargura, no sofrimento e na irritação.
17. Eis o que eu reconheci ser bom: que é conveniente ao homem comer, beber, gozar de bem-estar em todo o trabalho ao qual ele se dedica debaixo do sol, durante todos os dias de vida que Deus lhe der. Esta é a sua parte.
18. Se Deus dá ao homem bens e riquezas, e lhe concede delas comer e delas tomar sua parte, e se alegrar no seu trabalho, isso é um dom de Deus.
19. Ele não pensa no número dos dias de sua vida, quando Deus derrama em seu coração a alegria.

 
Capítulo 6

1. Vi um mal debaixo do sol, que calca pesadamente o homem.
2. Isto é, um homem a quem Deus deu sorte, riquezas e honras; nada que possa desejar lhe falta, mas Deus não lhe concede o gozo, reservando-o a um estrangeiro. Isso é vaidade e dor.
3. Um homem, embora crie cem filhos, viva numerosos anos e numerosos dias nesses anos, se não pôde fartar-se de felicidade e não tiver tido sepultura, eu digo que um aborto lhe é preferível.
4. Porque é em vão o fato de o aborto ter vindo e ido para as trevas. Seu nome permanecerá na obscuridade,
5. e não terá visto nem conhecido o sol. Melhor é a sua sorte que a deste homem.
6. E, mesmo que alguém vivesse duas vezes mil anos, sem provar a felicidade, não vão todos para o mesmo lugar?
7. Todo o trabalho do homem é para a sua boca, e, entretanto, seus desejos não são satisfeitos.
8. Que superioridade tem o sábio sobre o louco? Que vantagem há para o pobre saber se comportar na vida?
9. Melhor é o que vêem os olhos do que a agitação dos desejos. Isso é ainda vaidade e vento que passa.
10. A tudo que existe, desde há muito foi dado um nome: sabe-se o que é um homem, e ele não pode disputar com um mais forte do que ele.
11. Muitas palavras, muita vaidade. De tudo isso, qual é o proveito para o homem?
12. Pois, quem pode saber o que é bom para o homem na vida, durante os dias de sua vã existência, que ele atravessa como uma sombra? Que poderá dizer ao homem o que acontecerá depois dele debaixo do sol?

 
Capítulo 7

1. Boa fama vale mais que bom perfume; mais vale o dia da morte que o dia do nascimento.
2. Melhor é ir para a casa onde há luto que para a casa onde há banquete. Porque aí se vê aparecer o fim de todo homem e os vivos nele refletem.
3. Tristeza vale mais que riso, porque a tristeza do semblante é boa para o coração.
4. O coração dos sábios está na casa do luto, o coração dos insensatos na casa da alegria.
5. É melhor ouvir a reprimenda de um sábio que a canção de um tolo,
6. porque qual o crepitar dos espinhos na caldeira, tal é o riso do insensato. E isso é ainda vaidade.
7. A opressão torna um sábio insensato; os presentes corrompem o coração.
8. Mais vale o fim de uma coisa que seu começo. Um espírito paciente vale mais que um espírito orgulhoso.
9. Não cedas prontamente ao espírito de irritação; é no coração dos insensatos que reside a irritação.
10. Não digas jamais: Como pode ser que os dias de outrora eram melhores que estes de agora? Porque não é a sabedoria que te inspira esta pergunta.
11. A sabedoria é tão boa como uma herança, e é de proveito aos que vêem o sol.
12. Pois está-se à sombra da sabedoria como se está à sombra do dinheiro: a utilidade do saber consiste em que a sabedoria dá vida ao que a possui.
13. Considera a obra de Deus: quem poderá endireitar o que ele fez curvo?
14. No dia da felicidade, sê alegre; no dia da desgraça, pensa; porque Deus fez uma e outra, de tal modo que o homem não descubra o futuro.
15. No decurso de minha vã existência, vi tudo isso: há o justo que morre permanecendo justo e o ímpio que dura apesar de sua malícia.
16. Não sejas justo excessivamente, nem sábio além da medida. Por que te tornarias estúpido?
17. Não sejas excessivamente mau, e não sejas insensato. Por que haverias de morrer antes de tua hora?
18. É bom que guardes isto, e que não negligencies aquilo: porque aquele que teme a Deus, realizará uma e outra coisa.
19. A sabedoria dá ao sábio mais força que dez chefes de guerra reunidos numa cidade.
20. Não há homem justo sobre a terra que faça o bem sem jamais pecar.
21. Não prestes atenção em todas as palavras que se dizem, para que não ouças dizer que teu servo fala mal de ti;
22. porque teu coração bem sabe que tu mesmo, muitas vezes, falaste mal dos outros.
23. Tudo isso eu perscrutei com sabedoria. Eu disse comigo mesmo: Eu quero ser sábio. Mas a sabedoria ficou longe de mim.
24. Aquilo que acontece é longínquo, profundo, profundo: quem o poderá sondar?
25. Eu me apliquei de todo o coração a perscrutar, a sondar a sabedoria e a razão das coisas, a reconhecer que a maldade é uma loucura e a falta de razão uma demência.
26. Eu descobri que a mulher é coisa mais amarga que a morte, porque ela é um laço, e seu coração é uma rede, e suas mãos, cadeias. Aquele que é agradável a Deus lhe escapa, mas o pecador será preso por ela.
27. Eis o que encontrei, diz o Eclesiastes, procurando descobrir a razão de uma coisa depois de outra.
28. Eis o que eu procuro continuamente sem descobrir: encontrei um homem entre mil, mas nenhuma mulher entre todas
29. Somente encontrei isto: Deus criou o homem reto, mas é ele que procura os extravios.

 
Capítulo 8

1. Quem é comparável ao sábio, que conhece a razão das coisas? A sabedoria de um homem ilumina-lhe o semblante e a severidade de seus traços é modificada por ela.
2. Observa a ordem do rei e, por causa do juramento feito a Deus,
3. não te apresses a fugir de sua presença. Não te comprometas com um mau negócio, porque o rei faz tudo que lhe apraz.
4. Com efeito, sua palavra é soberana; e quem ousaria dizer-lhe: Que fazes tu?
5. Aquele que observa o preceito não provará mal algum, e o coração de um sábio conhece o tempo e o julgamento.
6. Porque para tudo há um tempo e um julgamento, e a desgraça pesa muito forte sobre o homem.
7. Ele não conhece o futuro; quem lhe poderia dizer como as coisas se passarão?
8. O homem não é senhor de seu sopro de vida, nem é capaz de o conservar. Ninguém tem poder sobre o dia de sua morte, nem faculdade de afastar esse combate; e o crime não pode salvar o criminoso.
9. Eis o que eu vi, aplicando meu espírito a tudo que se faz debaixo do sol, quando um homem domina sobre outro homem para a desgraça deste último:
10. vi ímpios receberem sepultura e gozarem de repouso, enquanto que aqueles que tinham feito o bem iam para longe do lugar santo e eram esquecidos na cidade. Isto é ainda vaidade.
11. Porque a sentença contra os maus atos não é executada imediatamente, o coração dos homens se enche de desejo de fazer o mal;
12. porque o pecador culpado de cem crimes vê sua vida prolongada. Eu sei, no entanto, que a felicidade é para os que temem a Deus, que sua presença enche de respeito,
13. e que não haverá nenhuma felicidade para o ímpio, o qual, como a sombra, não prolongará sua vida, porque não tem temor a Deus.
14. Há outra vaidade que aparece sobre a terra: há justos aos quais acontece o que conviria ao proceder de celerados; e há ímpios aos quais acontece o que conviria ao proceder de justos. Digo que isso é também vaidade.
15. Por isso louvei a alegria, porque não há nada de melhor para o homem, debaixo do sol, do que comer, beber e se divertir; possa isto acompanhá-lo no seu trabalho, ao longo dos dias que Deus lhe outorgar debaixo do sol.
16. Quando meu espírito se entregou ao estudo da sabedoria e à observação das coisas que se passam sobre a terra – porque nem de dia, nem de noite os olhos dos homens encontram repouso -,
17. verifiquei, em toda a obra de Deus, que o homem nada pode descobrir do que se faz debaixo do sol. Ele se fatiga a investigar, mas não encontra, e se mesmo um sábio pensasse ter alcançado, isso não aconteceria.

 
Capítulo 9

1. Apliquei então meu espírito ao esclarecimento de tudo isso: os justos, os sábios e seus atos estão na mão de Deus. O homem ignora se isso será amor ou ódio. Tudo é possível.
2. Um mesmo destino para todos: há uma sorte idêntica para o justo e para o ímpio, para aquele que é bom como para aquele que é impuro, para o que oferece sacrifícios como para o que deles se abstém. O homem bom é tratado como o pecador e o perjuro como o que respeita seu juramento.
3. Entre tudo que se faz debaixo do sol, é uma desgraça só existir para todos um mesmo destino: por isso o espírito dos homens transborda de malícia, a loucura ocupa o coração deles durante a vida, depois da qual vão para a casa dos mortos.
4. Porque, enquanto um homem permanece entre os vivos, há esperança; mais vale um cão vivo que um leão morto.
5. Com efeito, os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos não sabem mais nada; para eles não há mais recompensa, porque sua lembrança está esquecida.
6. Amor, ódio, ciúme, tudo já pereceu; não terão mais parte alguma, para o futuro, no que se faz debaixo do sol.
7. Ora, pois, come alegremente teu pão e bebe contente teu vinho, porque Deus já apreciou teus trabalhos.
8. Traja sempre vestes brancas e haja sempre azeite (perfumado) em tua cabeça.
9. Desfruta da vida com a mulher que amas, durante todos os dias da fugitiva e vã existência que Deus te concede debaixo do sol. Esta é tua parte na vida, o prêmio do labor a que te entregas debaixo do sol.
10. Tudo que tua mão encontra para fazer, faze-o com todas as tuas faculdades, pois que na região dos mortos, para onde vais, não há mais trabalho, nem ciência, nem inteligência, nem sabedoria.
11. Nas minhas investigações debaixo do sol, vi ainda que a corrida não é para os ágeis, nem a batalha para os bravos, nem o pão para os prudentes, nem a riqueza para os inteligentes, nem o favor para os sábios: todos estão à mercê das circunstâncias e da sorte.
12. O homem não conhece sua própria hora: semelhantes aos peixes apanhados pela rede fatal, os passarinhos presos no laço, os homens são enlaçados na hora da calamidade que se arremessa sobre eles de súbito.
13. Vi também, debaixo do sol, este exemplo de uma sabedoria que me pareceu grande:
14. havia uma pequena cidade, pouco populosa, contra a qual veio um poderoso rei que a sitiou e construiu contra ela fortes trincheiras.
15. Ora, aí se encontrava um pobre homem, prudente, cuja sabedoria salvou a cidade; e ninguém se lembrou desse pobre homem.
16. Por isso eu disse: A sabedoria vale mais que a força; mas a sabedoria do pobre é desprezada e às suas palavras não se dão ouvidos.
17. As palavras calmas dos sábios são mais bem ouvidas que os gritos de um chefe entre insensatos.
18. A sabedoria vale mais que as máquinas de guerra; mas um só pecador pode causar a perda de muitos bens.

 
Capítulo 10

1. Uma mosca morta infeta e corrompe o azeite perfumado; um pouco de loucura é suficiente para corromper a sabedoria.
2. O coração do sábio está à sua direita: o coração do insensato à sua esquerda.
3. No meio da estrada, quando caminha o tolo, falta-lhe o bom senso, e todos dizem: É um louco.
4. Se a ira do príncipe se inflama contra ti, não abandones teu lugar, porque a calma previne grandes erros.
5. Vi debaixo do sol um mal: uma falha da parte do soberano:
6. o insensato ocupa os mais altos cargos, enquanto que os homens de valor estão colocados em empregos inferiores.
7. Vi escravos montarem a cavalo, e príncipes andarem a pé como escravos.
8. Quem cava uma fossa, pode nela cair, e que derruba um muro pode ser picado por uma serpente.
9. Quem lavra a pedra pode machucar-se; quem fende achas de lenha arrisca a ferir-se.
10. Se o ferro está embotado, e não for afiado o gume, é preciso redobrar de esforços; mas afiá-lo é uma vantagem que a sabedoria proporciona.
11. Se a serpente morde por erro de encantamento, não vale a pena ser encantador.
12. As palavras de um sábio alcançam-lhe o favor, mas os lábios dos insensatos causam a sua perda.
13. O começo de suas palavras é uma estultícia, e o fim de seu discurso é uma perigosa insânia.
14. E o insensato multiplica as palavras. O homem não conhece o futuro. Quem lhe poderia dizer o que há de acontecer em seguida?
15. O trabalho do insensato o fatiga: ele que nem sequer sabe ir à cidade.
16. Ai de ti, país, cujo rei é um menino e cujos príncipes comem desde a manhã.
17. Feliz de ti, país, cujo rei é de família nobre, e cujos príncipes comem à hora conveniente, não por devassidão, mas para sua própria refeição.
18. Por causa do desleixo ir-se-á abaixando o madeiramento, e quando as mãos são inativas, choverá dentro da casa.
19. Faz-se festa para se divertir; o vinho alegra a vida, e o dinheiro serve para tudo.
20. Não digas mal do rei, nem mesmo em pensamento; mesmo dentro de teu quarto, não digas mal do poderoso. Porque um passarinho do céu poderia levar tua palavra e as aves repetirem tuas frases.

 
Capítulo 11

1. Atira teu pão sobre a superfície das águas; depois de muito tempo, achá-lo-ás de novo.
2. Faze (de tua riqueza) sete e mesmo oito partes, porque não sabes que calamidade pode sobrevir à terra.
3. Quando as nuvens estiverem carregadas, derramarão chuvas sobre a terra. Quando tomba uma árvore para o sul ou para o norte, lá onde cai, fica.
4. Quem observa o vento não semeia; e quem examina as nuvens não sega.
5. Do mesmo modo que não sabes qual é o caminho do sopro da vida, e como se formam os ossos no seio de uma mãe, assim também ignoras a obra de Deus que faz todas as coisas.
6. Semeia a tua semente desde a manhã, e não deixes tuas mãos ociosas até a noite. Porque não sabes o que terá bom êxito, se isto ou aquilo, ou se ambas as coisas são igualmente úteis.
7. Doce é a luz e é um deleite para os olhos ver o sol.
8. Por mais numerosos que sejam os anos de vida, regozija-se o homem em todos eles, mas deve pensar nos dias obscuros que serão numerosos. Tudo o que acontece é vaidade.
9. Jovem, rejubila-te na tua adolescência, e, enquanto ainda és jovem, entrega teu coração à alegria. Anda nos caminhos de teu coração e segundo os olhares de teus olhos, mas fica sabendo que de tudo isso Deus te fará prestar conta.
10. Exclui a tristeza de teu coração, poupa o sofrimento a teu corpo, porque a juventude e a adolescência são vaidade.

 
Capítulo 12

1. Mas, lembra-te de teu Criador nos dias de tua juventude, antes que venham os maus dias e que apareçam os anos dos quais dirás: Não sinto prazer neles;
2. antes que se escureçam o sol, a luz, a lua a as estrelas, e que à chuva sucedam as nuvens;
3. anos nos quais tremem os guardas da casa, nos quais se curvam os robustos e param de moer as moleiras pouco numerosas, nos quais se escurecem aqueles que olham pela janela,
4. nos quais se fecham para a rua os dois batentes da porta, nos quais se enfraquece o ruído de moinho, nos quais os homens se levantam ao canto do passarinho, nos quais se extingue o som da voz,
5. nos quais se temem as subidas; nos quais se terão sobressaltos no caminho, nos quais a amendoeira branqueia, nos quais o gafanhoto engorda, nos quais a alcaparra perde a sua eficácia, porque o homem se encaminha para a morada eterna e os carpidores percorrem as ruas;
6. antes que se rompa o cordão de prata, que se despedace a lâmpada de ouro, antes que se quebre a bilha na fonte, e que se fenda a roldana sobre a cisterna;
7. antes que a poeira retorne à terra para se tornar o que era; e antes que o sopro de vida retorne a Deus que o deu.
8. Vaidade das vaidades!, diz o Eclesiastes, tudo é vaidade.
9. Além de ser sábio, o Eclesiastes ensinou a ciência ao povo. Ele pesou e perscrutou; dispôs numerosas máximas.
10. O Eclesiastes aplicou-se à procura de sentenças agradáveis e a redigir com exatidão adágios verídicos.
11. As palavras dos sábios são semelhantes a aguilhões; as sentenças, reunidas em coleção, são parecidas a estacas plantadas, inspiradas por um só pastor.
12. De resto, meu filho, quanto a maior número de palavras que estas, fica sabendo que se podem multiplicar os livros a não mais acabar, e que muito estudo se torna uma fadiga para o corpo.
13. Em conclusão: tudo bem entendido, teme a Deus e observa seus preceitos, é este o dever de todo homem.
14. Deus fará prestar contas de tudo o que está oculto, todo ato, seja ele bom ou mau.

 

Cântico dos Cânticos

Cântico dos Cânticos

 Capítulo 1

1. O mais belo dos Cânticos de Salomão.
2. – Ah! Beija-me com os beijos de tua boca! Porque os teus amores são mais deliciosos que o vinho,
3. e suave é a fragrância de teus perfumes; o teu nome é como um perfume derramado: por isto amam-te as jovens.
4. Arrasta-me após ti; corramos! O rei introduziu-me nos seus aposentos. Exultaremos de alegria e de júbilo em ti. Tuas carícias nos inebriarão mais que o vinho. Quanta razão há de te amar!
5. Sou morena, mas sou bela, filhas de Jerusalém, como as tendas de Cedar, como os pavilhões de Salomão.
6. Não repareis em minha tez morena, pois fui queimada pelo sol. Os filhos de minha mãe irritaram-se contra mim; puseram-me a guardar as vinhas, mas não guardei a minha própria vinha.
7. Dize-me, ó tu, que meu coração ama, onde apascentas o teu rebanho, onde o levas a repousar ao meio-dia, para que eu não ande vagueando junto aos rebanhos dos teus companheiros.
8. – Se não o sabes, ó mais bela das mulheres, vai, segue as pisadas da ovelhas, e apascenta os cabritos junto às cabanas dos pastores.
9. – À égua dos carros do faraó eu te comparo, ó minha amiga;
10. tuas faces são graciosas entre os brincos, e o teu pescoço entre os colares de pérolas.
11. Faremos para ti brincos de ouro com glóbulos de prata.
12. – Enquanto o rei descansa em seu divã, meu nardo exala o seu perfume;
13. meu bem-amado é para mim um saquitel de mirra, que repousa entre os meus seios;
14. meu bem-amado é para mim um cacho de uvas nas vinhas de Engadi.
15. – Como és formosa, amiga minha! Como és bela! Teus olhos são como pombas.
16. – Como é belo, meu amor! Como és encantador! Nosso leito é um leito verdejante,
17. as vigas de nossa casa são de cedro, suas traves de cipreste;

 
Capítulo 2

1. sou o narciso de Saron, o lírio dos vales.
2. – Como o lírio entre os espinhos, assim é minha amiga entre as jovens.
3. – Como a macieira entre as árvores da floresta, assim é o meu amado entre os jovens; gosto de sentar-me à sua sombra, e seu fruto é doce à minha boca.
4. Ele introduziu-me num celeiro, e o estandarte, que levanta sobre mim, é o amor.
5. Restaurou-me com tortas de uvas, fortaleceu-me com maçãs, porque estou enferma de amor.
6. Sua mão esquerda está sob minha cabeça, e sua direita abraça-me.
7. – Conjuro-vos, ó filhas de Jerusalém, pelas gazelas e corças dos campos, que não desperteis nem perturbeis o amor, antes que ele o queira.
8. – Oh, esta é a voz do meu amado! Ei-lo que aí vem, saltando sobre os montes, pulando sobre as colinas.
9. Meu amado é como a gazela e como um cervozinho. Ei-lo atrás de nossa parede. Olho pela janela, espreito pelas grades.
10. Meu bem-amado disse-me: Levanta-te, minha amiga, vem, formosa minha.
11. Eis que o inverno passou, cessaram e desapareceram as chuvas.
12. Apareceram as flores na nossa terra, voltou o tempo das canções. Em nossas terras já se ouve a voz da rola.
13. A figueira já começa a dar os seus figos, e a vinha em flor exala o seu perfume; levanta-te, minha amada, formosa minha, e vem.
14. Minha pomba, oculta nas fendas do rochedo, e nos abrigos das rochas escarpadas, mostra-me o teu rosto, faze-me ouvir a tua voz. Tua voz é tão doce, e delicado teu rosto!
15. – Apanhai-nos as raposas, essas pequenas raposas que devastam nossas vinhas, pois nossas vinhas estão em flor.
16. – Meu bem-amado é para mim e eu para ele; ele apascenta entre os lírios.
17. Antes que sopre a brisa do dia, e se estendam as sombras, volta, ó meu amado, como a gazela, ou o cervozinho sobre os montes escarpados.

 
Capítulo 3

1. Durante as noites, no meu leito, busquei aquele que meu coração ama; procurei-o, sem o encontrar.
2. Vou levantar-me e percorrer a cidade, as ruas e as praças, em busca daquele que meu coração ama; procurei-o, sem o encontrar.
3. Os guardas encontraram-me quando faziam sua ronda na cidade. Vistes acaso aquele que meu coração ama?
4. Mal passara por eles, encontrei aquele que meu coração ama. Segurei-o, e não o largarei antes que o tenha introduzido na casa de minha mãe, no quarto daquela que me concebeu.
5. – Conjuro-vos, ó filhas de Jerusalém, pelas gazelas e corças dos campos, não desperteis nem perturbeis o amor, antes que ele o queira.
6. – Que é aquilo que sobe do deserto como colunas de fumaça, exalando o perfume de mirra e de incenso, e de todos os aromas dos mercadores?
7. É a liteira de Salomão, escoltada por sessenta guerreiros, sessenta valentes de Israel;
8. todos hábeis manejadores de espada, e exercitados no combate; cada um deles leva a espada ao lado por causa dos terrores noturnos.
9. O rei Salomão mandou fazer para si uma liteira de madeira do Líbano.
10. Suas colunas são feitas de prata, seu encosto de ouro, seu assento de púrpura. O interior é bordado pelo amor das filhas de Jerusalém.
11. Saí, ó filhas de Sião, contemplai o rei Salomão, ostentando o diadema recebido de sua mãe no dia de suas núpcias, no dia da alegria de seu coração.

 
Capítulo 4

1. – Tu és bela, minha querida, tu és formosa! Por detrás do teu véu os teus olhos são como pombas, teus cabelos são como um rebanho de cabras descendo impetuosas pela montanha de Galaad,
2. teus dentes são como um rebanho de ovelhas tosquiadas que sobem do banho; cada uma leva dois (cordeirinhos) gêmeos, e nenhuma há estéril entre elas.
3. Teus lábios são como um fio de púrpura, e graciosa é tua boca. Tua face é como um pedaço de romã debaixo do teu véu;
4. teu pescoço é semelhante à torre de Davi, construída para depósito de armas. .Aí estão pendentes mil escudos, todos os escudos dos valentes.
5. Os teus dois seios são como dois filhotes gêmeos de uma gazela pastando entre os lírios.
6. Antes que sopre a brisa do dia, e se estendam as sombras, irei ao monte da mirra, e à colina do incenso.
7. És toda bela, ó minha amiga, e não há mancha em ti.
8. Vem comigo do Líbano, ó esposa, vem comigo do Líbano! Olha dos cumes do Amaná, do cimo de Sanir e do Hermon, das cavernas dos leões, dos esconderijos das panteras.
9. Tu me fazes delirar, minha irmã, minha esposa, tu me fazes delirar com um só dos teus olhares, com um só colar do teu pescoço.
10. Como são deliciosas as tuas carícias, minha irmã, minha esposa! Mais deliciosos que o vinho são teus amores, e o odor dos teus perfumes excede o de todos os aromas!
11. Teus lábios, ó esposa, destilam o mel; há mel e leite sob a tua língua. O perfume de tuas vestes é como o perfume do Líbano.
12. És um jardim fechado, minha irmã, minha esposa, uma nascente fechada, uma fonte selada.
13. Teus rebentos são como um bosque de romãs com frutos deliciosos; com ligústica e nardo,
14. nardo e açafrão, canela e cinamomo, com todas as árvores de incenso, mirra e aloés, com os balsámos mais preciosos.
15. És a fonte de meu jardim, uma fonte de água viva, um riacho que corre do Líbano.
16. – Levanta-te, vento do norte, vem tu, vento do sul. Sopra no meu jardim para que se espalhem os meus perfumes. Entre meu amado no seu jardim, prove-lhe os frutos deliciosos.

 
Capítulo 5

1. – Entro no meu jardim, minha irmã, minha esposa, colho a minha mirra e o meu bálsamo, como o meu favo com meu mel, e bebo o meu vinho com meu leite. .Amigos, comei, bebei, inebriai-vos ó caríssimos.
2. – Eu dormia, mas meu coração velava. Eis a voz do meu amado. Ele bate. Abre-me, minha irmã, minha amiga, minha pomba, minha perfeita; minha cabeça está coberta de orvalho, e os cachos de meus cabelos cheios das gotas da noite.
3. Tirei minha túnica; como irei revesti-la? Lavei os meus pés; por que sujá-los de novo?
4. Meu bem-amado passou a mão pela abertura (da porta) e o meu coração estremeceu.
5. Levantei-me para abrir ao meu amigo; a mirra escorria de minhas mãos, de meus dedos a mirra líquida sobre os trincos do ferrolho.
6. Abri ao meu bem-amado, mas ele já se tinha ido, já tinha desaparecido; ouvindo-o falar, eu ficava fora de mim. Procurei-o e não o encontrei; chamei-o, mas ele não respondeu.
7. Os guardas encontraram-me, quando faziam sua ronda na cidade. Bateram-me, feriram-me, arrancaram-me o manto os guardas das muralhas.
8. Conjuro-vos, filhas de Jerusalém, se encontrardes o meu amigo, que lhe haveis de dizer? Dizei-lhe que estou enferma de amor.
9. – Que tem o teu bem-amado a mais que os outros, ó mais bela das mulheres? Que tem o teu bem-amado a mais que os outros, para que assim nos conjures?
10. – Meu amado é forte e corado, distingue-se entre dez mil.
11. Sua cabeça é de ouro puro, seus cachos flexíveis são negros como o corvo.
12. Seus olhos são como pombas à beira dos regatos, banhando-se no leite, pousadas nas praias.
13. Suas faces são um jardim perfumado onde crescem plantas odoríferas. Seus lábios são lírios que destilam mirra líquida.
14. Suas mãos são argolas de ouro incrustadas de pedrarias. Seu corpo é um bloco de marfim recoberto de safiras.
15. Suas pernas são colunas de alabastro erguidas sobre pedestais de ouro puro. Seu aspecto é como o do Líbano, imponente como os cedros.
16. Sua boca é cheia de doçura, tudo nele é encanto. Assim é o meu amado, tal é o meu amigo, filhas de Jerusalém!

 
Capítulo 6

1. – Para onde foi o teu amado, ó mais bela das mulheres? Para onde se retirou o teu amigo? Nós o buscaremos contigo.
2. – O meu bem-amado desceu ao seu jardim, aos canteiros perfumados; para apascentar em meu jardim, e colher lírios.
3. Eu sou do meu amado e meu amado é meu. Ele apascenta entre os lírios.
4. – És formosa, amiga minha, como Tirsa, graciosa como Jerusalém, temível como um exército em ordem de batalha.
5. Desvia de mim os teus olhos, porque eles me fascinam. Teus cabelos são como um rebanho de cabras descendo impetuosamente pelas encostas de Galaad.
6. Teus dentes são como um rebanho de ovelhas que sobem do banho, cada uma leva dois (cordeirinhos) gêmeos, e nenhuma delas é estéril.
7. Tua face é como um pedaço de romã debaixo do teu véu.
8. Há sessenta rainhas, oitenta concubinas, e inumeráveis jovens mulheres;
9. uma, porém, é a minha pomba, uma só a minha perfeita; ela é a única de sua mãe, a predileta daquela que a deu à luz. Ao vê-la, as donzelas proclamam-na bem-aventurada, rainhas e concubinas a louvam.
10. Quem é esta que surge como a aurora, bela como a lua, brilhante como o sol, temível como um exército em ordem de batalha?
11. Eu desci ao jardim das nogueiras para ver a nova vegetação dos vales, e para ver se a vinha crescia e se as romãzeiras estavam em flor.
12. Eu não o sabia; minha alma colocou-me nos carros de Aminadab.

 
Capítulo 7

1. – Volta, volta, ó Sulamita, volta, volta, para que nós te vejamos. – Por que olhais a Sulamita, quando ela entra na dança de Maanaim?
2. – Como são graciosos os teus pés nas tuas sandálias, filha de príncipe! A curva de teus quadris assemelha-se a um colar, obra de mãos de artista;
3. teu umbigo é uma taça redonda, cheia de vinho perfumado; teu corpo é um monte de trigo cercado de lírios;
4. teus dois seios são como dois filhotes gêmeos de uma gazela;
5. teu pescoço é uma torre de marfim; teus olhos são as fontes de Hesebon junto à porta de Bat-Rabim. Teu nariz é como a torre do Líbano, que olha para os lados de Damasco;
6. tua cabeça ergue-se sobre ti como o Carmelo; tua cabeleira é como a púrpura, e um rei se acha preso aos seus cachos.
7. – Como és bela e graciosa, ó meu amor, ó minhas delícias!
8. Teu porte assemelha-se ao da palmeira, de que teus dois seios são os cachos.
9. Vou subir à palmeira, disse eu comigo mesmo, e colherei os seus frutos.. Sejam-me os teus seios como cachos da vinha.
10. E o perfume de tua boca como o odor das maçãs; teus beijos são como um vinho delicioso que corre para o bem-amado, umedecendo-lhe os lábios na hora do sono.
11. Eu sou para o meu amado o objeto de seus desejos.
12. Vem, meu bem-amado, saiamos ao campo, passemos a noite nos pomares;
13. pela manhã iremos às vinhas, para ver se a vinha lançou rebentos, se as suas flores se abrem, se as romãzeiras estão em flor. Ali te darei as minhas carícias.
14. As mandrágoras exalam o seu perfume; temos à nossa porta frutos excelentes, novos e velhos que guardei para ti, meu bem-amado.

 
Capítulo 8

1. Ah, se fosses meu irmão, amamentado ao seio de minha mãe! Então, encontrando-te fora, poderia beijar-te sem que ninguém me censurasse.
2. Eu te levaria, far-te-ia entrar na casa de minha mãe; dar-te-ia a beber vinho perfumado, licor de minhas romãs.
3. Sua mão esquerda está sob a minha cabeça, e sua direita abraça-me.
4. – Conjuro-vos, filhas de Jerusalém, não desperteis nem perturbeis o amor, antes que ele o queira.
5. – Quem é esta que sobe do deserto apoiada em seu bem-amado? – Sob a macieira eu te despertei, onde em dores te deu à luz tua mãe, onde em dores te pôs no mundo tua mãe.
6. – Põe-me como um selo sobre o teu coração, como um selo sobre os teus braços; porque o amor é forte como a morte, a paixão é violenta como o cheol. Suas centelhas são centelhas de fogo, uma chama divina.
7. As torrentes não poderiam extinguir o amor, nem os rios o poderiam submergir. Se alguém desse toda a riqueza de sua casa em troca do amor, só obteria desprezo.
8. Temos uma irmã pequenina que não tem ainda os seus seios formados. Que faremos nós de nossa irmã no dia que for pedida (em casamento)?
9. Se ela é um muro, construiremos sobre ela ameias de prata. Se é uma porta, fechá-la-emos com batentes de cedro.
10. – Ora, eu sou um muro, e meus seios são como torres; por isso sou aos seus olhos uma fonte de alegria.
11. Salomão tinha uma videira em Baal-Hamon. Confiou-a aos guardas, cada um dos quais devia dar mil siclos de prata pelos frutos colhidos.
12. Eu disponho de minha videira: mil siclos para ti, Salomão! Duzentos para aqueles que velam pela colheita.
13. – Os amigos estão atentos. Ó tu, que habitas nos jardins, faze-me ouvir a tua voz.
14. – Foge, meu bem-amado, como a gazela ou como o cervozinho sobre os montes perfumados!

 

Livro da Sabedoria

Livro da Sabedoria

 Capítulo 1

1. Amai a justiça, vós que governais a terra, tende para com o Senhor sentimentos perfeitos, e procurai-o na simplicidade do coração,
2. porque ele é encontrado pelos que o não tentam, e se revela aos que não lhe recusam sua confiança;
3. com efeito, os pensamentos tortuosos afastam de Deus, e o seu poder, posto à prova, triunfa dos insensatos.
4. A Sabedoria não entrará na alma perversa, nem habitará no corpo sujeito ao pecado;
5. o Espírito Santo educador (das almas) fugirá da perfídia, afastar-se-á dos pensamentos insensatos, e a iniqüidade que sobrevém o repelirá.
6. Sim, a Sabedoria é um espírito que ama os homens, mas não deixará sem castigo o blasfemador pelo crime de seus lábios, porque Deus lhe sonda os rins, penetra até o fundo de seu coração, e ouve as suas palavras.
7. Com efeito, o Espírito do Senhor enche o universo, e ele, que tem unidas todas as coisas, ouve toda voz.
8. Aquele que profere uma linguagem iníqua, não pode fugir dele, e a Justiça vingadora não o deixará escapar;
9. pois os próprios desígnios do ímpio serão cuidadosamente examinados; o som de suas palavras chegará até o Senhor, que lhe imporá o castigo pelos seus pecados.
10. É, com efeito, um ouvido cioso, que tudo ouve: nem a menor murmuração lhe passa despercebida.
11. Acautelai-vos, pois, de queixar-vos inutilmente, evitai que vossa língua se entregue à crítica, porque até mesmo uma palavra secreta não ficará sem castigo, e a boca que acusa com injustiça arrasta a alma à morte.
12. Não procureis a morte por uma vida desregrada, não sejais o próprio artífice de vossa perda.
13. Deus não é o autor da morte, a perdição dos vivos não lhe dá alegria alguma.
14. Ele criou tudo para a existência, e as criaturas do mundo devem cooperar para a salvação. Nelas nenhum princípio é funesto, e a morte não é a rainha da terra,
15. porque a justiça é imortal.
16. Mas, (a morte), os ímpios a chamam com o gesto e a voz. Crendo-a amiga, consomem-se de desejos, e fazem aliança com ela; de fato, eles merecem ser sua presa.

 
Capítulo 2

1. Dizem, com efeito, nos seus falsos raciocínios: Curta é a nossa vida, e cheia de tristezas; para a morte não há remédio algum; não há notícia de ninguém que tenha voltado da região dos mortos.
2. Um belo dia nascemos e, depois disso, seremos como se jamais tivéssemos sido! É fumaça a respiração de nossos narizes, e nosso pensamento, uma centelha que salta do bater de nosso coração!
3. Extinta ela, nosso corpo se tornará pó, e o nosso espírito se dissipará como um vapor inconsistente!
4. Com o tempo nosso nome cairá no esquecimento, e ninguém se lembrará de nossas obras. Nossa vida passará como os traços de uma nuvem, desvanecer-se-á como uma névoa que os raios do sol expulsam, e que seu calor dissipa.
5. A passagem de uma sombra: eis a nossa vida, e nenhum reinício é possível uma vez chegado o fim, porque o selo lhe é aposto e ninguém volta.
6. Vinde, portanto! Aproveitemo-nos das boas coisas que existem! Vivamente gozemos das criaturas durante nossa juventude!
7. Inebriemo-nos de vinhos preciosos e de perfumes, e não deixemos passar a flor da primavera!
8. Coroemo-nos de botões de rosas antes que eles murchem!
9. Ninguém de nós falte à nossa orgia; em toda parte deixemos sinais de nossa alegria, porque esta é a nossa parte, esta a nossa sorte!
10. Tiranizemos o justo na sua pobreza, não poupemos a viúva, e não tenhamos consideração com os cabelos brancos do ancião!
11. Que a nossa força seja o critério do direito, porque o fraco, em verdade, não serve para nada.
12. Cerquemos o justo, porque ele nos incomoda; é contrário às nossas ações; ele nos censura por violar a lei e nos acusa de contrariar a nossa educação.
13. Ele se gaba de conhecer a Deus, e se chama a si mesmo filho do Senhor!
14. Sua existência é uma censura às nossas idéias; basta sua vista para nos importunar.
15. Sua vida, com efeito, não se parece com as outras, e os seus caminhos são muito diferentes.
16. Ele nos tem por uma moeda de mau quilate, e afasta-se de nosso caminhos como de manchas. Julga feliz a morte do justo, e gloria-se de ter Deus por pai.
17. Vejamos, pois, se suas palavras são verdadeiras, e experimentemos o que acontecerá quando da sua morte,
18. porque, se o justo é filho de Deus, Deus o defenderá, e o tirará das mãos dos seus adversários.
19. Provemo-lo por ultrajes e torturas, a fim de conhecer a sua doçura e estarmos cientes de sua paciência.
20. Condenemo-lo a uma morte infame. Porque, conforme ele, Deus deve intervir.
21. Eis o o que pensam, mas enganam-se, sua malícia os cega:
22. eles desconhecem os segredos de Deus, não esperam que a santidade seja recompensada, e não acreditam na glorificação das almas puras.
23. Ora, Deus criou o homem para a imortalidade, e o fez à imagem de sua própria natureza.
24. É por inveja do demônio que a morte entrou no mundo, e os que pertencem ao demônio prová-la-ão.

 
Capítulo 3

1. Mas as almas dos justos estão na mão de Deus, e nenhum tormento os tocará.
2. Aparentemente estão mortos aos olhos dos insensatos: seu desenlace é julgado como uma desgraça.
3. E sua morte como uma destruição, quando na verdade estão na paz!
4. Se aos olhos dos homens suportaram uma correção, a esperança deles era portadora de imortalidade,
5. e por terem sofrido um pouco, receberão grandes bens, porque Deus, que os provou, achou-os dignos de si.
6. Ele os provou como ouro na fornalha, e os acolheu como holocausto.
7. No dia de sua visita, eles se reanimarão, e correrão como centelhas na palha.
8. Eles julgarão as nações e dominarão os povos, e o Senhor reinará sobre eles para sempre.
9. Os que põem sua confiança nele compreenderão a verdade, e os que são fiéis habitarão com ele no amor: porque seus eleitos são dignos de favor e misericórdia.
10. Mas os ímpios terão o castigo que merecem seus pensamentos, uma vez que desprezaram o justo e se separaram do Senhor: e desgraçado é aquele que rejeita a sabedoria e a disciplina!
11. A esperança deles é vã, seus sofrimentos sem proveito, e as obras deles inúteis.
12. Suas mulheres são insensatas e seus filhos malvados; a raça deles é maldita.
13. Feliz a mulher estéril, mas pura de toda a mancha, a que não manchou seu tálamo: ela carregará seu fruto no dia da retribuição das almas.
14. Feliz o eunuco cuja mão não cometeu o mal, que não concebeu iniqüidade contra o Senhor, porque ele receberá pela sua fidelidade uma graça de escol, e no templo do Senhor uma parte muito honrosa,
15. porque é esplêndido o fruto de bons trabalhos, e a raiz da sabedoria é sempre fértil.
16. Quanto aos filhos dos adúlteros, a nada chegarão, e a raça que descende do pecado será aniqüilada.
17. Ainda que vivam muito tempo, serão tidos por nada e, finalmente, sua velhice será sem honra.
18. Caso morram cedo, não terão esperança alguma, e no dia do julgamento não encontrarão nenhuma piedade:
19. porque é lamentável o fim de uma raça injusta.

 
Capítulo 4

1. Mais vale uma vida sem filhos, mas rica de virtudes: sua memória será imortal, porque será conhecida de Deus e dos homens.
2. Quando está presente, imitam-na; quando passada, desejam-na; ela leva na glória uma coroa eterna, por ter triunfado sem mancha nos combates.
3. Mas para nada servirá, ainda que numerosa, a raça dos ímpios; procedendo de renovos bastardos, não estenderá raízes profundas, não se estabelecerá numa base sólida.
4. Ainda que por algum tempo estenda seus ramos, estando instavelmente assentada, será abalada pelo vento e, pela violência da tempestade, será desarraigada.
5. Os galhos serão quebrados antes do desenvolvimento, o fruto deles será inútil, verde demais para ser comido, e impróprio para qualquer uso,
6. porque os filhos nascidos de uniões ilícitas serão no dia do juízo testemunhas a deporem contra seus pais.
7. Quanto ao justo, mesmo que morra antes da idade, gozará de repouso.
8. A honra da velhice não provém de uma longa vida, e não se mede pelo número dos anos.
9. Mas é a sabedoria que faz as vezes dos cabelos brancos; é uma vida pura que se tem em conta de velhice.
10. Ele agradou a Deus e foi por ele amado, assim (Deus) o transferiu do meio dos pecadores onde vivia.
11. Foi arrebatado para que a malícia lhe não corrompesse o sentimento, nem a astúcia lhe pervertesse a alma:
12. porque a fascinação do vício atira um véu sobre a beleza moral, e o movimento das paixões mina uma alma ingênua.
13. Tendo chegado rapidamente ao termo, percorreu uma longa carreira.
14. Sua alma era agradável ao Senhor, e é por isso que ele o retirou depressa do meio da perversidade. Os povos que vêem esse modo de agir não o compreendem, e não refletem nisto:
15. que o favor de Deus e sua misericórdia são para seus eleitos, e sua assistência está no meio de seus fiéis.
16. O justo, ao morrer, condena os ímpios que sobrevivem, e a juventude, atingindo tão depressa a perfeição, confunde a longa velhice do pecador.
17. Eles verão o fim do sábio, e não compreenderão os desígnios do Senhor a seu respeito, nem por que ele o pôs em segurança.
18. Eles verão e mostrarão desprezo, mas o Senhor zombará deles.
19. Depois disso serão cadáveres sem honra, desterrados entre os mortos, numa eterna ignomínia, porque ele os ferirá, e os precipitará sem voz, abatê-los-á nas suas bases e os mergulhará na última desolação. Eles serão entregues à dor, e a memória deles perecerá.
20. Comparecerão aterrorizados com a lembrança de seus pecados, e suas iniqüidades se levantarão contra eles para os confundir.

 
Capítulo 5

1. Então, com grande confiança, o justo se levantará em face dos que o perseguiram e zombaram dos seus males aqui embaixo.
2. Diante de sua vista serão presos de grande temor e tomados de assombro ao vê-lo salvo contra sua expectativa;
3. tocados de arrependimento, dirão entre si, e, gemendo na angústia de sua alma, dirão:
4. Ei-lo, aquele de quem outrora escarnecemos, e a quem loucamente cobrimos de insultos! Considerávamos sua vida como uma loucura, e sua morte como uma vergonha.
5. Como, pois, é ele do número dos filhos de Deus, e como está seu lugar entre os santos?
6. Portanto, nós nos desgarramos para longe da verdade: a luz da justiça não brilhou para nós e o sol não se levantou sobre nós!
7. Nós nos manchamos nas sendas da iniqüidade e da perdição, erramos pelos desertos sem caminhos e não conhecemos o caminho do Senhor!
8. O que ganhamos com nosso orgulho, e que nos trouxe a riqueza unida à arrogância?
9. Tudo isso desapareceu como sombra, como notícia que passa;
10. como navio que fende a água agitada, sem que se possa reencontrar o rasto de seu itinerário, nem a esteira de sua quilha nas ondas.
11. Como a ave que, atravessando o ar em seu vôo, não deixa após si o traço de sua passagem, mas, ferindo o ar com suas penas, fende-o com a impetuosa força do bater de suas asas, atravessa-o e logo nem se nota indício de sua passagem;
12. como quando uma flecha, que é lançada ao alvo, o ar que ela cortou volta imediatamente à sua posição de modo que não se pode distinguir sua trajetória,
13. assim, também nós, apenas nascidos, cessamos de ser, e não podemos mostrar traço algum de virtude: é no mal que nossa vida se consumiu!
14. Assim a esperança do ímpio é como a poeira levada pelo vento, e como uma leve espuma espalhada pela tempestade; ela se dissipa como o fumo ao vento, e passa como a lembrança do hóspede de um dia.
15. Mas os justos viverão eternamente; sua recompensa está no Senhor, e o Altíssimo cuidará deles.
16. Por isso receberão a régia coroa de glória, e o diadema da beleza da mão do Senhor, porque os cobrirá com sua direita, e os protegerá com seu braço.
17. Por armadura tomará seu zelo cioso, e armará as criaturas para se vingar de seus inimigos.
18. Tomará por couraça a justiça, e por capacete a integridade no julgamento.
19. Ele se cobrirá com a santidade, como com um impenetrável escudo,
20. afiará o gume de sua ira para lhe servir de espada, e o mundo se reunirá a ele na luta contra os insensatos.
21. Os raios partirão como flechas bem dirigidas, e, como de um arco bem distendido, voarão das nuvens para o alvo;
22. uma balista fará cair uma pesada saraiva de ira; a água do mar se levantará em turbilhão contra eles e os rios os arrastarão impetuosamente.
23. O sopro do Todo-poderoso se insurgirá contra eles e os dispersará como um furacão; a iniqüidade fará de toda a terra um deserto, e a malícia derribará os tronos dos poderosos!

 
Capítulo 6

1. Ouvi, pois, ó reis, e entendei; aprendei vós que governais o universo!
2. Prestai ouvidos, vós que reinais sobre as nações e vos gloriais do número de vossos povos!
3. Porque é do Senhor que recebestes o poder, e é do Altíssimo que tendes o poderio; é ele que examinará vossas obras e sondará vossos pensamentos!
4. Se, ministros do reino, vós não julgastes eqüitativamente, nem observastes a lei, nem andastes segundo a vontade de Deus,
5. ele se apresentará a vós, terrível, inesperado, porque aqueles que dominam serão rigorosamente julgados.
6. Ao menor, com efeito, a compaixão atrai o perdão, mas os poderosos serão examinados sem piedade.
7. O Senhor de todos não fará exceção para ninguém, e não se deixará impor pela grandeza, porque, pequenos ou grandes, é ele que a todos criou, e de todos cuida igualmente;
8. mas para os poderosos o julgamento será severo.
9. É a vós, pois, ó príncipes, que me dirijo, para que aprendais a Sabedoria e não resvaleis,
10. porque aqueles que santamente observarem as santas leis serão santificados, e os que as tiverem estudado poderão justificar-se.
11. Anelai, pois, pelas minhas palavras, reclamai-as ardentemente e sereis instruídos.
12. Resplandescente é a Sabedoria, e sua beleza é inalterável: os que a amam, descobrem-na facilmente.
13. Os que a procuram encontram-na. Ela antecipa-se aos que a desejam.
14. Quem, para possuí-la, levanta-se de madrugada, não terá trabalho, porque a encontrará sentada à sua porta.
15. Fazê-la objeto de seus pensamentos é a prudência perfeita, e quem por ela vigia, em breve não terá mais cuidado.
16. Ela mesma vai à procura dos que são dignos dela; ela lhes aparece nos caminhos cheia de benevolência, e vai ao encontro deles em todos os seus pensamentos,
17. porque, verdadeiramente, desde o começo, seu desejo é instruir, e desejar instruir-se é amá-la.
18. Mas amá-la é obedecer às suas leis, e obedecer às suas leis é a garantia da imortalidade.
19. Ora, a imortalidade faz habitar junto de Deus;
20. assim o desejo da Sabedoria conduz ao Reino!
21. Se, pois, cetros e tronos vos agradam, ó vós que governais os povos, honrai a Sabedoria, e reinareis eternamente.
22. Mas eu vou dizer o que é a Sabedoria e como ela nasceu. Não vos esconderei os seus mistérios; mas investigá-la-ei até sua mais remota origem; porei à luz o que dela pode ser conhecido, e não me afastarei da verdade.
23. Não imitarei aquele a quem a inveja consome, porque esse tal não tem nada a ver com a Sabedoria:
24. é no grande número de sábios que se encontra a salvação do mundo, e um rei sensato faz a prosperidade de seu povo.
25. Deixai-vos, pois, instruir por minhas palavras, e nelas encontrareis grande proveito.

 
Capítulo 7

1. Eu mesmo não passo de um mortal como todos os outros, e descendo do primeiro homem formado da terra. Meu corpo foi formado no seio de minha mãe,
2. onde, durante dez meses, no sangue tomou consistência, da semente viril e do prazer ajuntado à união (conjugal).
3. Eu também, desde meu nascimento, respirei o ar comum; eu caí, da mesma maneira que todos, sobre a mesma terra, e, como todos, nos mesmos prantos soltei o primeiro grito.
4. Envolto em faixas fui criado no meio de assíduos cuidados;
5. porque nenhum rei teve outro início na existência;
6. para todos a entrada na vida é a mesma e a partida semelhante.
7. Assim implorei e a inteligência me foi dada, supliquei e o espírito da sabedoria veio a mim.
8. Eu a preferi aos cetros e tronos, e avaliei a riqueza como um nada ao lado da Sabedoria.
9. Não comparei a ela a pedra preciosa, porque todo o ouro ao lado dela é apenas um pouco de areia, e porque a prata diante dela será tida como lama.
10. Eu a amei mais do que a saúde e a beleza, e gozei dela mais do que da claridade do sol, porque a claridade que dela emana jamais se extingue.
11. Com ela me vieram todos os bens, e nas suas mãos inumeráveis riquezas.
12. De todos esses bens eu me alegrei, porque é a Sabedoria que os guia, mas ignorava que ela fosse sua mãe.
13. Eu estudei lealmente e reparto sem inveja e não escondo a riqueza que ela encerra,
14. porque ela é para os homens um tesouro inesgotável; e os que a adquirem preparam-se para se tornar amigos de Deus, recomendados (a ele) pela educação que ela lhes dá.
15. Que Deus me permita falar como eu quisera, e ter pensamentos dignos dos dons que recebi, porque é ele mesmo quem guia a sabedoria e emenda os sábios,
16. porque nós estamos nas suas mãos, nós e nossos discursos, toda a nossa inteligência e nossa habilidade;
17. foi ele quem me deu a verdadeira ciência de todas as coisas, quem me fez conhecer a constituição do mundo e as virtudes dos elementos,
18. o começo, o fim e o meio dos tempos, a sucessão dos solstícios e as mutações das estações,
19. os ciclos do ano e as posições dos astros,
20. a natureza dos animais e os instintos dos brutos, os poderes dos espíritos e os pensamentos dos homens, a variedade das plantas e as propriedades das raízes.
21. Tudo que está escondido e tudo que está aparente eu conheço: porque foi a sabedoria, criadora de todas as coisas, que mo ensinou.
22. Há nela, com efeito, um espírito inteligente, santo, único, múltiplo, sutil, móvel, penetrante, puro, claro, inofensivo, inclinado ao bem, agudo,
23. livre, benéfico, benévolo, estável, seguro, livre de inquietação, que pode tudo, que cuida de tudo, que penetra em todos os espíritos, os inteligentes, os puros, os mais sutis.
24. Mais ágil que todo o movimento é a Sabedoria, ela atravessa e penetra tudo, graças à sua pureza.
25. Ela é um sopro do poder de Deus, uma irradiação límpida da glória do Todo-poderoso; assim mancha nenhuma pode insinuar-se nela.
26. É ela uma efusão da luz eterna, um espelho sem mancha da atividade de Deus, e uma imagem de sua bondade.
27. Embora única, tudo pode; imutável em si mesma, renova todas as coisas. Ela se derrama de geração em geração nas almas santas e forma os amigos e os intérpretes de Deus,
28. porque Deus somente ama quem vive com a sabedoria!
29. É ela, com efeito, mais bela que o sol e ultrapassa o conjunto dos astros. Comparada à luz, ela se sobreleva,
30. porque à luz sucede a noite, enquanto que, contra a Sabedoria, o mal não prevalece.

 
Capítulo 8

1. Ela estende seu vigor de uma extremidade do mundo à outra e governa todas as coisas com felicidade.
2. Eu a amei e procurei desde minha juventude, esforçei-me por tê-la por esposa e me enamorei de seus encantos.
3. Ela mostra a nobreza de sua origem em conviver com Deus, ela é amada pelo Senhor de todas as coisas.
4. Ela é iniciada na ciência de Deus e, por sua escolha, decide de suas obras.
5. Se a riqueza é um bem desejável na vida, que há de mais rico que a Sabedoria que tudo criou?
6. Se a inteligência do homem consegue operar, o que, então, mais que a Sabedoria, é artífice dos seres?
7. E se alguém ama a justiça, seus trabalhos são virtudes; ela ensina a temperança e a prudência, a justiça e a força: não há ninguém que seja mais útil aos homens na vida.
8. Se alguém deseja uma vasta ciência, ela sabe o passado e conjectura o futuro; conhece as sutilezas oratórias e revolve os enigmas; prevê os sinais e os prodígios, e o que tem que acontecer no decurso das idades e dos tempos.
9. Portanto, resolvi tomá-la por companheira de minha vida, cuidando que ela será para mim uma boa conselheira, e minha consolação nos cuidados e na tristeza.
10. Graças a ela, receberei as honras das multidões, e, embora jovem como sou, o respeito dos anciãos.
11. Reconhecerão a penetração de meu julgamento, e excitarei a admiração dos reis.
12. Se me calo, esperarão que eu fale; se falo, estarão atentos; e se prolongo meu discurso, levarão a mão à boca.
13. Por meio dela obterei a imortalidade, e deixarei à posteridade uma lembrança eterna.
14. Governarei povos e as nações ser-me-ão submissas.
15. Príncipes temíveis estarão cheios de medo ao ouvirem falar de mim; mostrar-me-ei bom para com o povo e valoroso no combate.
16. Recolhido em minha casa, repousarei junto dela, porque a sua convivência não tem nada de desagradável, e sua intimidade nada de fastidioso; ela traz consigo, pelo contrário, o contentamento e a alegria!
17. Meditando comigo mesmo nesses pensamentos, e considerando em meu coração que a imortalidade se encontra na aliança com a Sabedoria,
18. a alegria perfeita na sua amizade, contínua riqueza na sua atividade, inteligência nas lições de seus entretenimentos familiares, e glória na comunicação de suas sentenças, saí à sua procura a fim de possuí-la em mim.
19. Eu era um menino vigoroso, dotado de uma alma excelente,
20. ou antes, como era bom, eu vim a um corpo intacto;
21. mas, consciente de não poder possuir a sabedoria, a não ser por dom de Deus, (e já era inteligência o saber de onde vem o dom), eu me voltei para o Senhor, e invoquei-o, dizendo do fundo do coração:

 
Capítulo 9

1. Deus de nossos pais, e Senhor de misericórdia, que todas as coisas criastes pela vossa palavra,
2. e que, por vossa sabedoria, formastes o homem para ser o senhor de todas as vossas criaturas,
3. governar o mundo na santidade e na justiça, e proferir seu julgamento na retidão de sua alma,
4. dai-me a Sabedoria que partilha do vosso trono, e não me rejeiteis como indigno de ser um de vossos filhos.
5. Sou, com efeito, vosso servo e filho de vossa serva, um homem fraco, cuja existência é breve, incapaz de compreender vosso julgamento e vossas leis;
6. porque qualquer homem, mesmo perfeito, entre os homens, não será nada, se lhe falta a Sabedoria que vem de vós.
7. Ora, vós me escolhestes para ser rei de vosso povo e juiz de vossos filhos e vossas filhas.
8. Vós me ordenastes construir um templo na vossa montanha santa e um altar na cidade em que habitais: imagem da sagrada habitação que preparastes desde o princípio.
9. Mas, ao lado de vós está a Sabedoria que conhece vossas obras; ela estava presente quando fizestes o mundo, ela sabe o que vos é agradável, e o que se conforma às vossas ordens.
10. Fazei-a, pois, descer de vosso santo céu, e enviai-a do trono de vossa glória, para que, junto de mim, tome parte em meus trabalhos, e para que eu saiba o que vos agrada.
11. Com efeito, ela sabe e conhece todas as coisas; prudentemente guiará meus passos, e me protegerá no brilho de sua glória.
12. Assim, minhas obras vos serão agradáveis; governarei vosso povo com justiça, e serei digno do trono de meu pai.
13. Que homem, pois, pode conhecer os desígnios de Deus, e penetrar nas determinações do Senhor?
14. Tímidos são os pensamentos dos mortais, e incertas as nossas concepções;
15. porque o corpo corruptível torna pesada a alma, e a morada terrestre oprime o espírito carregado de cuidados.
16. Mal podemos compreender o que está sobre a terra, dificilmente encontramos o que temos ao alcance da mão. Quem, portanto, pode descobrir o que se passa no céu?
17. E quem conhece vossas intenções, se vós não lhe dais a Sabedoria, e se do mais alto dos céus vós não lhe enviais vosso Espírito Santo?
18. Assim se tornaram direitas as veredas dos que estão na terra; os homens aprenderam as coisas que vos agradam e pela sabedoria foram salvos.

 
Capítulo 10

1. O primeiro homem, o pai do mundo, que foi criado sozinho, foi a Sabedoria que cuidou dele, tirou-o de seu próprio pecado,
2. e deu-lhe o poder de reinar sobre todas as coisas.
3. E porque o perverso, na sua ira, dela se afastou, pereceu depois de seu furor fratricida.
4. E estando a terra submersa por causa dele pelo dilúvio, a Sabedoria de novo o salvou, conduzindo o justo num lenho sem valor.
5. E quando as nações unânimes caíram no mal, foi ela que distinguiu o justo, o manteve irrepreensível diante de Deus, e lhe deu a força para vencer sua ternura pelo seu filho.
6. Foi ela que, quando do aniquilamento dos ímpios, salvou o justo, subtraindo-o ao fogo que descera sobre a Pentápole,
7. cuja perversidade ainda no presente é testemunhada por uma terra fumegante e deserta, onde as árvores carregam frutos incapazes de amadurecer, e onde está erigida uma coluna de sal, memorial de uma alma incrédula.
8. Porque aqueles que desprezaram a Sabedoria, não somente se prejudicaram em ignorar o bem, mas ainda deixaram aos homens um testemunho de sua loucura, para que seus pecados não fossem esquecidos.
9. Quanto aos que a honram, a Sabedoria os liberta de sofrimentos;
10. foi ela que guiou por caminhos retos o justo que fugia à ira de seu irmão; mostrou-lhe o reino de Deus, e deu-lhe o conhecimento das coisas santas; ajudou-o nos seus trabalhos, e fez frutificar seus esforços;
11. cuidou dele contra ávidos opressores e o fez conquistar riquezas;
12. ela o protegeu contra seus inimigos e o defendeu dos que lhe armavam ciladas; e no duro combate, deu-lhe vitória, a fim de que ele soubesse quanto a piedade é mais forte que tudo.
13. Ela não abandonou o justo vendido, mas preservou-o do pecado.
14. Desceu com ele à prisão, e não o abandonou nas suas cadeias, até que lhe trouxe o cetro do reino e o poder sobre os que o tinham oprimido; revelou-lhe a mentira de seus acusadores, e conferiu-lhe uma glória eterna.
15. Foi ela que livrou das nações que o tiranizavam, o povo santo e a raça irrepreensível;
16. entrou na alma do servo de Deus, e se opôs, com sinais e prodígios, a reis temíveis.
17. Deu aos santos o galardão de seus trabalhos, conduziu-os por um caminho miraculoso; durante o dia serviu-lhes de proteção, e deu-lhes a luz dos astros, durante a noite.
18. Fê-los atravessar o mar Vermelho, e deu-lhes passagem através da massa das águas,
19. ao passo que engoliu seus inimigos, e depois os tirou das profundezas do abismo.
20. Também os justos, depois de despojados os ímpios, celebraram, Senhor, vosso santo nome, e louvaram, unidos num só coração, vossa mão protetora,
21. porque a Sabedoria abriu a boca aos mudos, e tornou eloqüente a língua das crianças.

 
Capítulo 11

1. Pela mão de um santo profeta aplanou suas dificuldades;
2. eles atravessaram um deserto inabitado, e levantaram suas tendas em lugares ermos;
3. resistiram aos que os atacavam, e repeliram seus inimigos.
4. Tiveram sede e clamaram a vós: do rochedo abrupto a água lhes foi dada, e da pedra seca estancaram sua sede.
5. Porque os elementos que tinham servido para punir seus inimigos, foram-lhes dados, na sua necessidade, como benefício:
6. em lugar das ondas de um rio perene turvadas por uma lama de sangue,
7. pela punição do decreto que consagrava crianças à morte, vós lhes destes, de maneira inesperada, água em abundância,
8. mostrando-lhes, pela sede que então sofreram, como punistes seus inimigos.
9. Por isso, tratados com piedade na sua provação, reconheceram quanto deviam ter sofrido os ímpios, julgados com ira.
10. A estes provastes como um pai que corrige, mas a outros provastes como um rei severo que condena.
11. Tanto estando longe como perto, a dor os consumiu da mesma forma,
12. porque tiveram um segundo para se entristecer e gemer à lembrança dos males passados.
13. Compreendendo, com efeito, que o que era para eles castigo, era para outros ocasião de benefício, sentiram a mão do Senhor;
14. e aquele que, outrora exposto e abandonado, tinham repelido com zombaria, admiraram-no finalmente, porque sofreram uma sede diferente da sede do justo.
15. Por outro lado, para os punir dos loucos pensamentos de sua perversidade, que os faziam extraviar-se na adoração de répteis irracionais e de vis animais, enviastes contra eles uma multidão de animais estúpidos,
16. a fim de que compreendessem que por onde cada um peca, será punido.
17. Não era difícil à vossa mão todo-poderosa, que formou o mundo de matéria informe, mandar contra eles bandos de ursos e de leões ferozes,
18. ou animais desconhecidos e duma nova espécie, cheios de furor, exalando um hálito inflamado, ou espalhando um fumo infecto, ou lançando de seus olhos faíscas terríveis,
19. capazes não só de os exterminar com seus golpes, mas ainda de os matar de terror só pelo seu aspecto.
20. E, mesmo sem isso, eles poderiam perecer por um sopro, perseguidos pela justiça e arrebatados pelo vento de vosso poder; mas, dispusestes tudo com medida, quantidade e peso,
21. porque sempre vos é possível mostrar vosso poder imenso, e quem poderá resistir à força de vosso braço?
22. Diante de vós o mundo inteiro é como um nada, que faz pender a balança, ou como uma gota de orvalho, que desce de madrugada sobre a terra.
23. Tendes compaixão de todos, porque vós podeis tudo; e para que se arrependam, fechais os olhos aos pecados dos homens.
24. Porque amais tudo que existe, e não odiais nada do que fizestes, porquanto, se o odiásseis, não o teríeis feito de modo algum.
25. Como poderia subsistir qualquer coisa, se não o tivésseis querido, e conservar a existência, se por vós não tivesse sido chamada?
26. Mas poupais todos os seres, porque todos são vossos, ó Senhor, que amais a vida.

 
Capítulo 12

1. Vosso espírito incorruptível está em todos.
2. É por isso que castigais com brandura aqueles que caem, e os advertis mostrando-lhes em que pecam, a fim de que rejeitem sua malícia e creiam em vós, Senhor.
3. Foi assim que se deu com os antigos habitantes da Terra Santa.
4. Tínheis horror deles por causa de suas obras detestáveis, sua magia e seus ritos ímpios,
5. seus cruéis morticínios de crianças, seus festins de entranhas, carne humana e sangue, suas iniciações nos mistérios orgíacos,
6. e os crimes de pais contra seres indefesos; e resolvestes aniquilá-los pela mão de nossos pais,
7. para que esta terra, que estimais entre todas, recebesse uma digna colônia de filhos de Deus.
8. Contudo, porque também eles eram homens, vós os poupastes, enviando-lhes vespas precursoras de vosso exército, para que elas os fizessem perecer pouco a pouco.
9. Não é que vos fosse impossível esmagar os maus por meio dos justos num combate, ou exterminar todos juntos por animais ferozes ou por uma palavra categórica;
10. mas castigando-os pouco a pouco, dáveis tempo para o arrependimento, não ignorando que sua raça era maldita, ingênita a sua perversidade, e que jamais seus pensamentos se mudariam,
11. porque sua estirpe era má desde a origem… Não era por temor do que quer que fosse que vos mostráveis indulgente para com eles em seus pecados.
12. Porque, quem ousará dizer-vos: Que fizeste tu? E quem se oporá a vosso julgamento? Quem vos repreenderá de terdes aniquilado nações que criastes? Ou quem se levantará contra vós para defender os culpados?
13. Não há, fora de vós, um Deus que se ocupa de tudo, e a quem deveis mostrar que nada é injusto em vosso julgamentos;
14. nem um rei, nem um tirano que vos possa resistir em favor dos que castigastes.
15. Mas porque sois justo, governais com toda a justiça, e julgais indigno de vosso poder condenar quem não merece ser punido.
16. Porque vossa força é o fundamento de vossa justiça e o fato de serdes Senhor de todos, vos torna indulgente para com todos.
17. Mostrais vossa força aos que não crêem no vosso poder, e confundis os que a não conhecem e ousam afrontá-la.
18. Senhor de vossa força, julgais com bondade, e nos governais com grande indulgência, porque sempre vos é possível empregar vosso poder, quando quiserdes.
19. Agindo desta maneira, mostrastes a vosso povo que o justo deve ser cheio de bondade, e inspirastes a vossos filhos a boa esperança de que, após o pecado, lhes dareis tempo para a penitência;
20. porque se os inimigos de vossos filhos, dignos de morte, vós os haveis castigado com tanta prudência e longanimidade, dando-lhes tempo e ocasião para se emendarem,
21. com quanto cuidado não julgareis vós os vossos filhos, a cujos antepassados concedestes com juramento vossa aliança, repleta de ricas promessas!
22. Portanto, quando nos corrigis, castigais mil vezes mais nossos inimigos, para que em nossos julgamentos nos lembremos de vossa bondade, e para que esperemos em vossa indulgência quando somos julgados.
23. Por isso também aqueles que loucamente viveram no mal, vós os torturastes por meio das suas próprias abominações:
24. porque se tinham afastado demais nos caminhos do erro, tomando por deuses os mais vis animais, deixando-se enganar como meninos sem razão;
25. assim é que, como a meninos sem razão, lhes destes um castigo irrisório.
26. Mas os que recusam a advertência de semelhante correção sofrerão um castigo digno de Deus.
27. Excitados, então, pelos sofrimentos causados por esses animais que tinham julgado deuses, e que os atormentavam, viram o que no começo tinham recusado ver, e reconheceram o verdadeiro Deus. Por isso é que caiu sobre eles a condenação final.

 
Capítulo 13

1. São insensatos por natureza todos os que desconheceram a Deus, e, através dos bens visíveis, não souberam conhecer Aquele que é, nem reconhecer o Artista, considerando suas obras.
2. Tomaram o fogo, ou o vento, ou o ar agitável, ou a esfera estrelada, ou a água impetuosa, ou os astros dos céus, por deuses, regentes do mundo.
3. Se tomaram essas coisas por deuses, encantados pela sua beleza, saibam, então, quanto seu Senhor prevalece sobre elas, porque é o criador da beleza que fez estas coisas.
4. Se o que os impressionou é a sua força e o seu poder, que eles compreendam, por meio delas, que seu criador é mais forte;
5. pois é a partir da grandeza e da beleza das criaturas que, por analogia, se conhece o seu autor.
6. Contudo, estes só incorrem numa ligeira censura, porque, talvez, eles caíram no erro procurando Deus e querendo encontrá-lo:
7. vivendo entre suas obras, eles as observam com cuidado, e porque eles as consideram belas, deixam-se seduzir pelo seu aspecto.
8. Ainda uma vez, entretanto, eles não são desculpáveis,
9. porque, se eles possuíram luz suficiente para poder perscrutar a ordem do mundo, como não encontraram eles mais facilmente aquele que é seu Senhor?
10. Mas são desgraçados e esperam em mortos, aqueles que chamaram de deuses a obras de mãos humanas: o ouro, a prata, artisticamente trabalhados, figuras de animais, alguma pedra inútil, a que, outrora, certa mão deu forma.
11. Assim, um lenhador cortou e serrou uma árvore fácil de manejar. Habilmente ele lhe tirou toda a casca, e com a habilidade do seu ofício, fez dela um móvel útil para seu uso.
12. Com as sobras de seu trabalho, cozinhou comida, com que se saciou.
13. O que ainda lhe restava, não era bom para nada, não passando de madeira torcida e toda cheia de nós; contudo, ele a tomou e consagrou suas horas de lazer a talhá-la; ele a trabalhou com toda a arte que adquirira, e lhe deu a semelhança de um homem,
14. ou o aspecto de algum vil animal. Pôs-lhe vermelhão, uma demão de uma tinta encarnada, e encobriu-lhe cuidadosamente todo defeito.
15. Em seguida, preparou-lhe um nicho digno dele. e o fixou à parede, segurando-o com um prego:
16. foi por medo que caísse, que tomou este cuidado, porque sabe muito bem que ele não pode ajudar-se a si mesmo, pois não passa de uma estátua que tem necessidade de um apoio.
17. Mas quando lhe implora por seus bens, seus casamentos, seus filhos, não se envergonha de falar ao que é inanimado, e pede saúde ao que é desprezível.
18. Reclama a vida ao que é morto, e procura socorro no que é débil; e para uma viagem, invoca o que não pode andar;
19. para um lucro, um trabalho, o bom êxito de uma obra de suas mãos, pede a força ao que nem é capaz de mover as mãos.

 
Capítulo 14

1. Outro, por sua vez, que quer navegar e se prepara para atravessar as impetuosas ondas, invoca um madeiro de pior qualidade que o navio que o leva;
2. porque o desejo do lucro inventou o navio, e uma hábil sabedoria dirigiu sua construção.
3. Mas sois vós, Pai, que o governais pela vossa Providência, porque, se abristes caminho, mesmo no mar, e uma rota segura no meio das ondas -
4. mostrando por aí que vós podeis tirar do perigo aquele que as afronta mesmo sem meios -,
5. quereis entretanto que não sejam inúteis as obras de vossa sabedoria. Por isso os homens confiam a própria vida a um pouco de madeira e atravessam em segurança as ondas num navio.
6. Assim, com efeito, quando na origem dos tempos fizestes perecer gigantes orgulhosos, a esperança do universo, refugiando-se num barco, que vossa mão governava, conservou para o mundo o germe de uma geração.
7. Porque é bendito o madeiro pelo qual se opera a justiça,
8. mas maldito é o ídolo, ele e o que o fez; este porque o formou, aquele porque, sendo corruptível, leva o nome de deus.
9. Com efeito, Deus odeia tanto o ímpio quanto sua impiedade,
10. e a obra sofrerá o mesmo castigo que o autor.
11. Este é o motivo porque também os ídolos das nações serão julgados, porque, na criação de Deus, eles se tornaram uma abominação, objetos de escândalo para os homens, e laços para os pés dos insensatos.
12. É pela idealização dos ídolos que começou a apostasia, e sua invenção foi a perda dos humanos.
13. Eles não existiam no princípio e não durarão para sempre;
14. a vaidade dos homens os introduziu no mundo. E, por causa disso, Deus decidiu a sua destruição para breve.
15. Um pai aflito por um luto prematuro, tendo mandado fazer a imagem do filho, tão cedo arrebatado, honrou, em seguida, como a um deus aquele que não passava de um morto, e transmitiu, aos seus, certos ritos secretos e cerimônias.
16. Este costume ímpio, tendo-se firmado com o tempo, foi depois observado como lei.
17. Foi também em conseqüência das ordens dos príncipes que se adoraram imagens esculpidas, porque aqueles que não podiam honrar pessoalmente, porque moravam longe deles, fizeram representar o que se achava distante, e expuseram publicamente a imagem do rei venerado, a fim de lisonjeá-lo de longe com seu zelo, como se estivesse presente.
18. Isto contribuiu ainda para o estabelecimento deste culto, mesmo entre os que não conheciam o rei; foi a ambição do artista,
19. que, talvez, querendo agradar ao soberano, deu-lhe, por sua arte, a semelhança do belo;
20. e a multidão, seduzida pelo encanto da obra, em breve tomou por deus aquele que tinham honrado como homem.
21. E isto foi uma cilada para a humanidade: os homens, sujeitando-se à lei da desgraça e da tirania, deram à pedra e à madeira o nome incomunicável.
22. Como se não bastasse terem errado acerca do conhecimento de Deus, embora passando a vida numa longa luta de ignorância, eles dão o nome de paz a um estado tão infeliz.
23. Com efeito, sacrificando seus filhos, celebrando mistérios ocultos, ou entregando-se a orgias desenfreadas de religiões exóticas,
24. eles já não guardam a honestidade nem na vida nem no casamento, mas um faz desaparecer o outro pelo ardil, ou o ultraja pelo adultério.
25. Tudo está numa confusão completa – sangue, homicídio, furto, fraude, corrupção, deslealdade, revolta, perjúrio,
26. perseguição dos bons, esquecimento dos benefícios, contaminação das almas, perversão dos sexos, instabilidade das uniões, adultérios e impudicícias -
27. porque o culto de inomináveis ídolos é o começo, a causa e o fim de todo o mal.
28. (Seus adeptos) incitam o prazer até a loucura, ou fazem vaticínios falsos, ou vivem na injustiça, ou, sem escrúpulo, juram falso,
29. porque, confiando em ídolos inanimados, esperam não ser punidos de sua má fé.
30. Contudo, o castigo os atingirá por duplo motivo: porque eles desconheceram a Deus, afeiçoando-se aos ídolos, e porque são culpados, por desprezo à santidade da religião, de ter feito juramentos enganadores.
31. Pois não é o poder dos ídolos invocados, mas o castigo reservado ao pecador, que sempre persegue as faltas dos maus.

 
Capítulo 15

1. Mas vós, Deus nosso, sois benfazejo e verdadeiro, vós sois paciente e tudo governais com misericórdia;
2. com efeito, mesmo se pecamos, somos vossos, porque conhecemos vosso poder; mas não pecaremos, cientes de que somos considerados como vossos.
3. Porque conhecer-vos é a perfeita justiça, e conhecer vosso poder é a raiz da imortalidade.
4. Não fomos seduzidos pelas invenções da arte corruptora dos homens nem pelo vão trabalho dos pintores: borrada figura de cores misturadas,
5. cuja vista excita os desejos dos insensatos, fantasma inanimado de uma imagem sem vida que provoca a paixão!
6. Cativados pelo mal, não merecem esperar senão o mal, os que o fazem, os que o amam e os que o veneram.
7. Eis, portanto, um oleiro que amassa laboriosamente a terra mole, e forma diversos objetos para nosso uso, mas da mesma argila faz vasos destinados a fins nobres e outros, indiferentemente, para usos opostos. Para qual destes usos cada vaso será aplicado? O oleiro será o juiz.
8. Do mesmo barro, forma também, como obreiro perverso, uma vã divindade, ele que, ainda há pouco, nasceu da terra, e em breve voltará a ela, de onde foi tirado, quando lhe serão pedidas as contas de sua vida.
9. Ele mesmo não tem preocupação alguma com o próprio desfalecimento, nem com a brevidade da vida; ele rivaliza, pelo contrário, com aqueles que trabalham o ouro e a prata, imita os que trabalham o cobre.
10. Pó é o seu coração, mais vil que a terra sua esperança, e põe sua glória em fabricar objetos enganadores. E mais desprezível que o barro é sua vida,
11. porque não reconheceu aquele que o formou, aquele que lhe inspirou uma alma ativa e lhe insuflou o espírito vital.
12. Para ele a vida é um divertimento, e nossa existência um mercado lucrativo, porque, diz ele, é preciso aproveitar-se de tudo, mesmo do mal.
13. Mais que qualquer outro, esse homem sabe que peca, fazendo do mesmo barro vasos frágeis e ídolos.
14. Ora, verdadeiramente, muito insensatos, mais infortunados que a alma da criança, são os inimigos de vosso povo, que o oprimiram,
15. porque eles também tiveram por deuses todos os ídolos das nações, que não podem servir-se de seus olhos para ver, que não têm nariz para aspirar o ar, nem ouvidos para ouvir, nem os dedos das mãos para apalpar, e cujos pés são incapazes de andar;
16. foi, com efeito, um homem que os fez, formou-os alguém que recebeu a alma de empréstimo. Nenhum homem pode fazer um deus, mesmo semelhante a si próprio,
17. porque, sendo ele próprio mortal, morto é tudo que produz com suas mãos ímpias. De fato, ele vale mais que os objetos que venera; ele, pelo menos, tem vida, enquanto os ídolos não a têm.
18. Chega-se até a adorar os mais odiosos animais, que são piores ainda que os outros animais irracionais,
19. que nem mesmo possuem o que outros seres vivos possuem: bastante beleza para serem amados, e que foram excluídos da aprovação e da bênção de Deus.

 
Capítulo 16

1. Por isso foram justamente castigados por animais dessa espécie e atormentados por uma multidão de animais;
2. em vez de feri-lo assim, vós favorecíeis vosso povo, satisfazendo por um alimento surpreendente o ardor de seu apetite, e oferecendo-lhe por alimento codornizes.
3. De tal modo que aqueles, mau grado sua fome, diante do aspecto hediondo de animais enviados contra eles, experimentaram a náusea; estes, após uma curta privação, receberam um alimento maravilhoso.
4. Pois era preciso que os primeiros, os opressores, fossem oprimidos por uma inexorável fome, e que aos outros fossem apenas mostrados os tormentos suportados por seus inimigos.
5. Efetivamente, quando o cruel furor dos animais os atingiu também, e quando pereceram com a mordedura de sinuosas serpentes, vossa cólera não durou até o fim.
6. Foram por pouco tempo atormentados, para sua correção: eles possuíram um sinal de salvação que lhes lembrava o preceito de vossa lei.
7. E quem se voltava para ele era salvo, não em vista do objeto que olhava, mas por vós, Senhor, que sois o salvador de todos.
8. Com isso mostráveis a vossos inimigos, que sois vós que livrais de todo o mal.
9. Quanto a eles as mordeduras dos gafanhotos e das moscas os matavam e não se encontrou remédio para salvar sua vida, porque mereciam ser castigados por tais instrumentos;
10. mas a vossos filhos, mesmo os dentes de serpentes venenosas não os puderam vencer, porque sobrevindo a vossa misericórdia curou-os.
11. Eram picados, para que se lembrassem de vossas palavras, e, em seguida, ficavam curados, para que não viessem a esquecê-las completamente e a subtraírem-se a si mesmos de vossos benefícios.
12. Não foi uma erva nem algum ungüento que os curou, mas a vossa palavra que cura todas as coisas, Senhor.
13. Porque vós sois senhor da vida e da morte. Vós conduzis às portas do Hades e de lá tirais;
14. enquanto o homem, se pode matar por sua maldade, não pode fazer voltar o espírito uma vez saído, nem chamar de volta a alma que o Hades já recebeu.
15. Escapar à vossa mão é impossível,
16. e os ímpios, que recusaram conhecer-vos, foram fustigados pela força de vosso braço, perseguidos por chuvas extraordinárias, saraivas e implacáveis tempestades, e consumidos pelo fogo dos raios.
17. O que havia de mais admirável ainda, é que, na água que tudo extingue, o fogo tomava mais violência, porque o universo toma a defesa dos justos.
18. Ora, a chama temperava seu ardor para não queimar os animais enviados contra os ímpios, para que estes se apercebessem e reconhecessem que eram perseguidos pelo julgamento de Deus.
19. Ora, excedendo sua força habitual, o fogo ardia mesmo no meio da água para destruir os frutos de uma terra iníqua…
20. Mas, pelo contrário, foi com o alimento dos anjos que alimentastes vosso povo, e foi do céu que, sem fadiga, vós lhe enviastes um pão já preparado, contendo em si todas as delícias e adaptando-se a todos os gostos.
21. Esta substância que dáveis se parecia com a doçura que mostráveis a vossos filhos. Ela se adaptava ao desejo de quem a comia, e transformava-se naquilo que cada qual desejava.
22. (Embora fosse como) neve e gelo, ela suportava o fogo sem se fundir, para mostrar que era para os inimigos que o fogo destruía as colheitas, quando ardia, apesar da saraiva, e brilhava debaixo de chuvas,
23. enquanto que, quando se tratava de alimentar os justos, até perdia sua natural violência.
24. A criatura que vos é submissa, a vós, seu Criador, aumenta sua força para castigar os maus, e os modera para o bem dos que puseram em vós sua fé.
25. Do mesmo modo, transformada em tudo que se queria, servia à vossa generosidade que a todos alimenta, segundo a vontade dos que dela tinham necessidade,
26. para que os filhos que vós amais, Senhor, aprendessem que não são os frutos da terra que alimentam o homem, mas é vossa palavra que conserva em vida aqueles que crêem em vós.
27. O que não era destruído pelo fogo, fundia-se ao simples calor de um raio de sol,
28. para que se soubesse que é preciso antecipar-se ao sol para vos agradecer, e que é preciso adorar-vos antes de raiar o dia;
29. porque a esperança do ingrato é como a geleira do inverno, que se derramará como água inútil.

 
Capítulo 17

1. Em verdade, grandes e impenetráveis são vossos juízos, Senhor; por isso as almas grosseiras caíram no erro.
2. Por terem acreditado que podiam oprimir a santa nação, os ímpios, prisioneiros das trevas e encarcerados por uma longa noite, jaziam encerrados nas suas casas, tentando escapar à vossa incessante vigilância.
3. Depois de terem imaginado que, com seus secretos pecados, ficariam escondidos sob o sombrio véu do esquecimento, eles se viram dispersados, como presa de um terrível espanto, e amedrontados por alucinações.
4. Mesmo o canto mais afastado em que se abrigavam não os punha ao abrigo do terror: ruídos aterradores ressoavam em torno deles, e taciturnos espectros de lúgubre aspecto lhes apareciam.
5. Nenhuma chama, por intensa que fosse, chegava a iluminar. E a luz brilhante dos astros era impotente para alumiar esta noite sombria.
6. Mas aparecia-lhes de súbito nada mais que uma chama aterradora, e, tomados de terror por esta visão fugitiva, julgavam essas aparições mais terríveis ainda.
7. A arte dos mágicos se mostrou ilusória, e esta sabedoria, a que eles pretendiam, evidenciou-se vergonhosamente como falsidade.
8. Aqueles que se jactavam de banir das almas doentes o terror e a perturbação, eram eles mesmos atormentados por um ridículo temor.
9. Mesmo quando nada de mais grave os aterrorizava, a passagem dos animais e o silvo das serpentes punham-nos fora de si, e eles morriam de medo. Recusavam até mesmo contemplar essa atmosfera à qual nada podia escapar;
10. porque a maldade, condenada por seu próprio testemunho, é medrosa, e, sob o peso da consciência, supõe sempre o pior,
11. pois o temor não é outra coisa que a privação dos socorros trazidos pela reflexão,
12. porque, quanto menor for em sua alma a esperança de auxílio, tanto mais penosa é a ignorância daquilo de que se tem medo.
13. Eles, durante essa noite de impotência, saída dos recantos do Hades impotente, dormiam num mesmo sono,
14. agitados, de um lado, pelo terror dos espectros, e paralisados, de outro, pelo desfalecimento da alma; pois era um pavor repentino e inesperado o que se abatera sobre eles.
15. E todo aquele que caía sem força, ficava como que preso e encerrado num cárcere sem ferros.
16. Fosse ele camponês ou pastor, ou o operário que se afadiga sozinho no seu trabalho, uma vez surpreendido, tinha de suportar a inevitável necessidade, porque todos estavam ligados por uma mesma cadeia de trevas.
17. O silvo do vento, o canto harmonioso dos passarinhos nos ramos espessos, o murmúrio da água correndo precipitadamente, o estrondo das rochas que se despenhavam,
18. a carreira invisível dos animais que saltavam, os urros dos animais selvagens, o eco que repercutia nas cavidades dos montes: tudo os paralisava de terror.
19. Enquanto o mundo inteiro era alumiado de uma brilhante luz, e sem obstáculo se entregava às suas ocupações,
20. somente sobre eles se estendia uma pesada noite, imagem das trevas que mais tarde os deviam acolher; e eram para si mesmos um peso mais insuportável que esta escuridão.

 
Capítulo 18

1. Contudo, para vossos santos havia uma luz brilhantíssima. Sem verem seus semblantes, os outros ouviam-lhes a voz, e julgavam-nos felizes por não sofrerem os mesmos tormentos.
2. Davam-lhes graças, porque não se vingavam dos maus tratos suportados, e pediam-lhes perdão de sua inimizade.
3. Pelo contrário, vós destes uma coluna luminosa para guiá-los na sua marcha para o desconhecido, como um sol que sem incomodá-los alumiava seu glorioso êxodo.
4. Mas eles bem mereciam ser privados da luz e aprisionados nas trevas, eles, que tinham encerrado em prisões os vossos filhos, através dos quais a incorruptível luz da lei se devia comunicar ao mundo.
5. Também tinham resolvido levar à morte os filhos dos santos, mas um deles foi exposto e salvo, e para puni-los fizestes perecer em multidão os seus filhos, e, todos juntos, vós os aniquilastes na profundeza das águas.
6. Esta mesma noite tinha sido conhecida de antemão por nossos pais, para que, conhecendo bem em que juramentos confiavam, ficassem cheios de coragem.
7. Assim vosso povo esperava tanto a salvação dos justos como a perdição dos ímpios,
8. e pelo mesmo fato de terdes destruído nossos inimigos, vós nos convidastes a ser vossos e nos honrastes.
9. Por isso, os santos filhos dos justos ofereciam secretamente um sacrifício; de comum acordo estabeleciam o pacto divino: que os santos participariam dos mesmos bens e correriam os mesmos perigos; e entoavam já os hinos de seus pais,
10. quando se elevaram os gritos confusos dos inimigos e se espalharam as lamentações dos que choravam seus filhos.
11. Uma mesma sentença feria o escravo e o senhor, o homem do povo sofria o mesmo castigo que o rei.
12. Todos igualmente tinham um número incalculável de mortos abatidos da mesma maneira; os sobreviventes não eram suficientes para sepultá-los. porque, num instante, sua melhor geração era exterminada.
13. Depois de terem permanecido incrédulos por causa de seus sortilégios, reconheceram, vendo morrer seus primogênitos, que esse povo era verdadeiramente filho de Deus,
14. porque, quando um profundo silêncio envolvia todas as coisas, e a noite chegava ao meio de seu curso,
15. vossa palavra todo-poderosa desceu dos céus e do trono real, e, qual um implacável guerreiro, arremessou-se sobre a terra condenada à ruína.
16. De pé, ela tudo encheu de morte, e, pisando a terra, tocava os céus.
17. No mesmo instante, visões e sonhos terríveis os perturbaram, e temores inesperados os assaltaram;
18. tombando aqui e acolá, semimortos, revelavam a causa da morte que os atingia;
19. porque os sonhos que os tinham agitado tinham-nos informado antecipadamente, para que eles não perecessem sem conhecer a causa de sua desgraça.
20. Verdade é que a prova da morte feriu também os justos, e numerosos foram os que ela abateu no deserto, mas a ira de Deus não durou muito tempo;
21. porque um homem irrepreensível se apressou a tomar sua defesa, servindo-se das armas de seu ministério pessoal, a oração e o sacrifício expiatório do incenso. Opôs-se à ira, e pôs fim ao flagelo, mostrando que era vosso servo.
22. Dominou a revolta, não pela força física, nem pela força das armas, mas pela sua palavra deteve aquele que castigava, relembrando-lhe os juramentos feitos aos antepassados e a aliança estabelecida.
23. Já os mortos se amontoavam uns sobre os outros, quando ele interveio, deteve a cólera e afastou-a dos vivos.
24. Na sua longa vestimenta estava representado o universo inteiro; nas quatro fileiras de pedras os nomes gloriosos dos patriarcas; e no diadema de sua cabeça vossa Majestade.
25. Diante destas coisas cedeu o exterminador e foi diante destas coisas que retrocedeu: porque a simples demonstração de vossa ira era suficiente.

 
Capítulo 19

1. Quanto aos ímpios, inexorável foi a ira que os perseguiu até o fim: porque Deus previa o que eles haveriam de fazer,
2. isto é, depois de terem deixado partir (os justos), instando mesmo que fossem embora, mudariam de opinião e os perseguiriam.
3. Na verdade, eles estavam ainda enlutados, e gemiam ainda sobre a tumba de seus mortos, quando loucamente tomaram outra resolução e perseguiram, como a fugitivos, aqueles aos quais tinham rogado que partissem.
4. Um merecido destino os impelia a esse proceder extremo, e os atirava no olvido dos acontecimentos passados, para que sofressem, em meio a tormentos, um castigo completo,
5. e fossem feridos de uma morte insólita, enquanto vosso povo tentava uma extraordinária passagem.
6. É que toda a criação, obedecendo às vossas ordens, foi remodelada em sua natureza, para que vossos filhos fossem conservados ilesos.
7. Foi vista uma nuvem cobrir o acampamento, e a terra seca surgir do que tinha sido água, um caminho viável formar-se no mar Vermelho, e um campo verdejante emergir das ondas impetuosas.
8. Por aí passou toda ela, a nação dos que vossa mão protegia, e que viram singulares prodígios.
9. Iam como cavalos conduzidos à pastagem, e saltavam como cordeiros, glorificando-vos a vós, Senhor, seu libertador,
10. porque eles se lembravam ainda do que tinha acontecido na terra estrangeira: como a terra, contrariando a geração dos vivos, tinha produzido moscas, e como o rio, em lugar de peixes, tinha lançado fora uma multidão de rãs.
11. Mais tarde, viram ainda nascer uma nova espécie de pássaros, quando, premidos pela cobiça, pediram manjares delicados, porquanto, para satisfazê-los, codornizes subiram do mar.
12. Os castigos não surpreenderam os pecadores, sem que fossem antes advertidos pela violência dos raios.
13. Suportavam justamente o castigo de sua própria maldade, porque tinham mostrado excessivo ódio pelo estrangeiro.
14. Houve muitos que não quiseram receber hóspedes desconhecidos, mas estes reduziram à escravidão hóspedes que tinham sido benfeitores.
15. E isso não é tudo; haverá algo a mais que um castigo qualquer para aqueles que acolheram mal os estrangeiros:
16. mas estes, a princípio, receberam bem seus hóspedes, e concederam-lhes a participação em seus direitos. Em seguida, eles os encheram de males.
17. Do mesmo modo, foram feridos de cegueira, como aqueles homens, às portas do justo, quando, envolvidos por uma profunda escuridão, procuravam, cada um de seu lado, o caminho para suas casas.
18. Assim, os elementos mudavam suas propriedades entre si, como na harpa os sons mudam de ritmo, conservando a mesma tonalidade. É o que se pode verificar perfeitamente quando se consideram esses acontecimentos.
19. Os seres terrestres tornavam-se aquáticos, os que nadam passavam à terra,
20. o fogo era mais violento debaixo da chuva, e a água esquecia a propriedade que tem de extingui-lo.
21. Além disso, as chamas não ofendiam as carnes dos frágeis animais que as atravessavam, e não liqüefaziam esse alimento celeste, semelhante ao gelo e inteiramente capaz de se derreter.
22. É que em tudo, Senhor, engrandecestes e glorificastes vosso povo, e não vos dedignastes de assisti-lo em todo o tempo e em todo o lugar.