I Livro das Crônicas

I Livro das Crônicas

 Capítulo 1

1. Adão, Set, Enós,
2. Cainã, Malaleel, Jared,
3. Henoc, Matusalém,Lamec,
4. Noé, Sem, Cam e Jafet.
5. Filhos de Jafet: Gomer, Magog, Madai, Javã, Tubal, Mosoc e Tiras.
6. Filhos de Gomer: Asquenaz, Rifiat, e Togorma.
7. Filhos de Javã: Elisa, Tarsis, Cetim e Dodanim.
8. Filhos de Cam: Cus, Mesraim, Fut, e Canaã.
9. Filhos de Cus: Saba, Hevila, Sabata, Regma e Sabteca. Filhos de Regma: Saba e Dadã.
10. Cus gerou Nemrod, aquele que por primeiro foi poderoso na terra.
11. Mesraim gerou os ludim, os ananim, os laabim, os neftuim, os fetrusim, os casluim,
12. dos quais procederam os filisteus e os caftorim.
13. Canaã gerou Sidon, seu primogênito, e Het,
14. os jebuseus, os amorreus e os gergeseus,
15. os heveus, os araceus, os sineus,
16. os aradeus, os samareus e os hamateus.
17. Filhos de Sem: Elão, Assur, Arfaxad, Lud, Arão, Hus, Hul, Geter, e Mosoc.
18. Arfaxad gerou Sale, o qual gerou Heber.
19. Dois filhos nasceram a Heber: um se chamou Faleg, porque a divisão da terra foi em seu tempo, e seu irmão foi chamado Jectã.
20. Jectã gerou Elmodad, Salef, Asarmot,
21. Jaré, Adorão, Huzal e Decla;
22. Hebal, Abimael, Seba,
23. Ofir, Hevila e Jobab, todos filhos de Jectã.
24. De Sem: Arfaxad, Sale,
25. Heber, Faleg, Ragau,
26. Serug, Nacor, Taré,
27. Abrão, que é Abraão.
28. Filhos de Abraão: Isaac e Ismael,
29. dos quais a posteridade é a seguinte: Nabaiot, primogênito de Ismael; em seguida, Cedar, Adbeel, Mabsão,
30. Masma, Duma, Massa, Hadad, Tema,
31. Jetur, Nafis, Cedma, que são os filhos de Ismael.
32. Filhos de Cetura, concubina de Abraão: ela deu à luz Zimrã, Jecsã, Madã, Madiã, Jesboc e Sué. Filhos de Jecsã: Seba e Dedã.
33. Filhos de Madiã: Efa, Efer, Henoc, Abida e Eldaa, todos filhos de Cetura.
34. Abraão gerou Isaac. Filhos de Isaac: Esaú e Jacó.
35. Filhos de Esaú: Elifaz, Rauel, Jeus, Ielon e Coré.
36. Filhos de Elifaz: Temã, Omar, Sef, Gatã, Cenez, Tamna, Amalec.
37. Filhos de Rauel: Naat, Zara, Sama e Meza.
38. Filhos de Seir: Lotã, Sobal, Sebeon, Ana, Dison, Eser e Disã.
39. Filhos de Lotã: Hori e Homão. Irmã de Lotã: Tamna.
40. Filhos de Sobal: Aliã, Manaat, Ebal, Sefi e Onão. Filhos de Sebeon: Aia e Ana. Filho de Ana: Dison.
41. Filhos de Dison: Hamrão, Esebã, Jetrã e Carã.
42. Filhos de Eser: Balaa, Zavã e Jacã. Filhos de Disã: Hus e Arã.
43. Eis os reis que reinaram na terra de Edom, antes que um rei governasse sobre os israelitas. Bela, filho de Beor, cuja cidade se chamava Denaba.
44. Depois da morte de Bela, Jobab, filho de Zaré, de Bosra, reinou em seu lugar.
45. Jobab morreu e Husão, do país dos temanitas, lhe sucedeu.
46. Estando Husão morto, subiu ao trono Adad, filho de Badad, que derrotou os madianitas na terra de Moab. Sua cidade se chamava Avit.
47. Adad morreu, e Semla, de Masreca, lhe sucedeu.
48. Semla morreu, e Saul de Roobot, que está situado junto do rio, lhe sucedeu.
49. Saul morreu e Balanã, filho de Acobor, lhe sucedeu.
50. Balanã morreu, e Adad lhe sucedeu. Sua cidade se chamava Fau, e sua mulher Meetabel, filha de Matred, filha de Mesaab.
51. Morreu Adad. Os governadores de Edom foram: o governador de Tamna, o governador Alva, o governador Jetet,
52. o governador Oolibama, o governador Ela, o governador Finon,
53. o governador Cenez, o governador Temã, o governador Mabsar,
54. o governador Magdiel, o governador Hirão. Estes são os governadores de Edom.

 
Capítulo 2

1. Eis os filhos de Israel: Rubem, Simeão, Levi, Judá, Issacar, Zabulon,
2. Dã, José, Benjamim, Neftali, Gad e Aser.
3. Os filhos de Judá: Her, Onã e Sela, três filhos que lhe nasceram da filha de Sué, a Cananéia. Her, primogênito de Judá, era mau aos olhos do Senhor, pelo que o matou.
4. Tamar, sua nora, lhe deu à luz Farés e Zara. Ao todo, Judá teve cinco filhos.
5. Filhos de Farés: Hesron e Hamul.
6. Filhos de Zara: Zamri, Etã, Emã, Calcal e Dara; ao todo cinco.
7. Filho de Carmi: Acar que turbou Israel, transgredindo o voto interdito.
8. Filho de Etã: Azarias.
9. Filhos que nasceram de Hesron: Jerameel, Rão e Calubi.
10. Rão gerou Aminadab: Aminadab gerou Naasson, príncipe dos juditas.
11. Naasson gerou Salma; Salma gerou Booz;
12. Booz gerou Obed; Obed gerou Isaí,
13. Isaí gerou Eliab, seu primogênito, Abinadab, o segundo, Simaa, o terceiro,
14. Natanael, o quarto, Radai, o quinto,
15. Asom, o sexto, e Davi, o sétimo.
16. Suas irmãs eram: Sarvia e Abigail. Os três filhos de Sarvia: Abisai, Joab, e Asael.
17. Abigail deu à luz Amasa, cujo pai foi Jeter, o ismaelita.
18. Caleb, filho de Hesron, teve filhos de Azuba, sua mulher, como também de Jeriot. Os filhos de Azuba foram: Jaser, Sobab e Ardon.
19. Pela morte de Azuba, Caleb desposou Efrata, que lhe deu à luz Hur.
20. Hur gerou Uri, Uri gerou Bezaleel.
21. Depois Hesron uniu-se à filha de Maquir, pai de Galaad, e desposou-a na idade de sessenta anos; ela lhe deu à luz Segub.
22. Segub gerou Jair, que teve vinte e três cidades na terra de Galaad.
23. (Os gessureus e os sírios apossaram-se das cidades de Jair, Canat e suas aldeias, ou seja, sessenta localidades.) Todos estes eram filhos de Maquir, pai de Galaad.
24. Depois da morte de Hesron, em Caleb Efrata, sua mulher Abia lhe deu à luz Azur, pai de Tecua.
25. Os filhos de Jerameel, primogênito de Hesron, foram: Rão, o primogênito, Buna, Arã, Asom e Aquia.
26. Jerameel teve outra mulher chamada Atara, que foi mãe de Onã.
27. Os filhos de Rão, primogênito de Jerameel, foram: Moos, Jamim e Acar.
28. Os filhos de Onã foram: Semei e Jada. Filhos de Semei: Nadab e Abisur.
29. O nome da mulher de Abisur era Abiail que lhe deu à luz Aobã e Molid.
30. Os filhos de Nadab: Saled e Afaim. Saled morreu sem filhos.
31. Filho de Afaim: Jesi; filho de Jesi: Sesã; filho de Sesã: Oolai.
32. Filhos de Jada, irmão de Semei: Jeter e Jonatã; Jeter morreu sem filhos.
33. Filhos de Jonatã: Falet e Ziza. Estes foram os filhos de Jerameel.
34. Sesã não teve filhos, mas muitas filhas. Ele possuía um escravo egípcio de nome Jerra;
35. deu-lhe sua filha por mulher, e ela deu à luz Etei.
36. Etei gerou Natã; Natã gerou Zabad;
37. Zabad gerou Oflal; Oflal gerou Obed;
38. Obed gerou Jeú, Jeú gerou Azarias;
39. Azarias gerou Heles; Heles gerou Elasa;
40. Elasa gerou Sisamoi; Sisamoi gerou Selum;
41. Selum gerou Icamias; Icamias gerou Elisama.
42. Filhos de Caleb, irmão de Jerameel: Mesa, o mais velho, que foi pai de Zif, e os filhos de Maresa, pai de Hebron.
43. Filhos de Hebron: Coré, Tafua, Recem e Sama.
44. Sama gerou Samai.
45. Filho de Samai: Maon; e Maon foi pai de Betsur.
46. Efa, concubina de Caleb, deu à luz Harã, Mosa e Gezez. Harã gerou Gezez.
47. Filhos de Jaadai: Regom, Joatão, Gosã Falet, Efa, e Saaf.
48. Maaca, concubina de Caleb deu à luz Saber e Tarana.
49. Ela deu à luz também a Saaf, pai de Madmena, Sué, pai de Macbena e Gabaa. A filha de Caleb era Acsa.
50. Estes foram os filhos de Caleb, filho de Ur, primogênito de Efrata: Sobal, pai de Cariatiarim,
51. Salma, pai de Belém, Harif, pai de Betgader.
52. Sobal, pai de Cariatiarim, teve por filhos Haroé, Hatsi-Hammenuot.
53. As famílias de Cariatiarim foram: os jetreus, os afuteus, os semateus, e os masereus. Destes procederam os sareus e os estaoleus.
54. Filhos de Salma: Belém e os netofateus. Ataroth-Beth-Joab, a metade dos manaquiteus, os sareus,
55. e as famílias dos escribas que moravam em Jabes: os tiriateus, os quimateus, os sucateus. Estes são os cineus, procedentes de Hamat, pai da casa de Recab.

 
Capítulo 3

1. Eis os filhos que a Davi nasceram no tempo em que estava em Hebron: o primogênito Amnon, filho de Aquinoã de Jezrael; o segundo, Daniel, de Abigail, de Carmelo;
2. o terceiro, Absalão, filho de Maaca, filha de Tolmai, rei de Gessur; o quarto, Adonias, filho de Agit;
3. o quinto, Safatias, de Abital; o sexto, Jetraão, de Egla, mulher de Davi.
4. São estes os seis filhos que lhe nasceram em Hebron, onde reinou sete anos e seis meses. Ele reinou trinta e três anos em Jerusalém.
5. Eis os que lhe nasceram em Jerusalém:
6. Simaa, Sobab, Natã, Salomão, quatro filhos de Betsué, filha de Amniel;
7. em seguida, Jebaar, Elisama, Elifalet, Noge, Nefeg, Jafia,
8. Elisama, Eliada, Elifelet, ou seja, nove filhos.
9. Eis todos os filhos de Davi, sem contar os filhos de suas concubinas. Tamar era sua irmã.
10. Filhos de Salomão: Roboão, Abias, seu filho, Asa, seu filho, Josafá, seu filho,
11. Jorão, seu filho, Ocozias, seu filho, Joás, seu filho,
12. Amasias, seu filho, Azarias, seu filho, Joatão, seu filho,
13. Acaz, seu filho, Ezequias, seu filho, Manassés, seu filho,
14. Amon, seu filho, Josias, seu filho.
15. Filhos de Josias: o mais velho, Joanã, o segundo, Joaquim, o terceiro, Sedecias, o quarto, Selum.
16. Filhos de Joaquim: Jeconias, seu filho, Sedecias, seu filho.
17. Filhos de Jeconias, o cativo: Salatiel, seu filho,
18. Melquirão, Fadaia, Seneser, Jecemias, Sama e Nadabias.
19. Filhos de Fadaia: Zorobabel e Semei. Filhos de Zorobabel: Mosolão, Hananias, Salomit, sua irmã;
20. (?): Hasabã, Ool, Baraquias, Hasadias, Josabesed, cinco filhos.
21. Filhos de Hananias: Faltias e Jeseías, os filhos de Rafaia, os filhos de Arnã, os filhos de Obdia, os filhos de Sequenias.
22. Filho de Sequenias: Semeia. Filhos de Semeia: (?), Hatus, Jegaal, Baria, Naaria, Safat, seis filhos.
23. Filhos de Naaria: Elioneai, Ezequias e Ezricão, três filhos.
24. Filhos de Elioneai: Oduia, Eliasub, Feleia, Acub, Joanã, Dalaia e Anani, sete filhos.

 
Capítulo 4

1. Filhos de Judá: Farés, Hesron, Carmi, Hur e Sobal.
2. Raia, filho de Sobal, gerou Jaat; Jaat gerou Acamai e Laad. Estas são as famílias dos sareus.
3. Eis os descendentes de Abi-Etão: Jezrael, Jesema e Jedebos; o nome de sua irmã era Asalelfuni.
4. Fanuel era pai de Gedor, e Ezer, pai de Hosa. Estes são os filhos de Hur, primogênito de Efrata, pai de Belém.
5. Assur, pai de Técua, teve duas mulheres: Halaa, e Naara.
6. Naara deu-lhe à luz Oozão, Hefer, Temani e Aastari; são estes os filhos de Naara.
7. Filhos de Haala: Seret, Isaar e Etnão.
8. Cós gerou Anob e Sobola e as famílias de Aareel, filho de Arum.
9. Jabes foi mais ilustre que seus irmãos: sua mãe lhe deu o nome de Jabes, dizendo: É porque o dei à luz com dor.
10. Jabes invocou o Deus de Israel: Se vós me abençoardes, alargando meus limites, se vossa mão estiver comigo para me preservar da desgraça e me poupar da aflição!… E Deus lhe concedeu o que tinha pedido.
11. Quelub, irmão de Sua, gerou Mair, pai de Eston.
12. Eston gerou a casa de Rafa, Fesse e Teina, pai da cidade de Naas. Foram estes os habitantes de Reca.
13. Filhos de Cenez: Otoniel e Seraia. Filhos de Otoniel: Hatat e Maonati, que gerou Ofra.
14. Seraia gerou Joab, pai dos habitantes do vale de Carasquim, porque eles eram carpinteiros.
15. Filhos de Caleb, filho de Jefoneu: Hir, Ela e Naão. Filho de Ela: Cenez.
16. Filhos de Jaleleel: Zif, Zifa, Tíria e Asrael.
17. Filhos de Esra: Jeter, Mered, Efer e Jalon. A mulher de Mered deu à luz Miriam, Samai e Jesba, pai de Estamo.
18. Sua mulher judia deu à luz Jared, pai de Gedor, Heber, pai de Soco e Icutiel, pai de Zanoe. São estes os filhos de Betia, filha do faraó, que Mered desposara.
19. Filhos da mulher de Odaia, irmã de Naão: o pai da Ceila, de Garmi e Estamo que era de Macati.
20. Filhos de Simon: Amnon, Rina, Ben-Hanã e Tilon. Os filhos de Jesi: Zoet e Ben-Zoet.
21. Filhos de Sela, filho de Judá: Her, pai de Leca, Laada, pai de Maresa, e as famílias da casa onde se fabricava linho fino, casa de Aschbea e Joaquim,
22. e os homens de Cozeba, Joás e Saraf, que dominaram sobre Moab e Jaschubi-Lechem. Isso data de muito tempo.
23. Eles eram os oleiros e os habitantes de Netaim e de Gedera; habitavam perto do rei para trabalhar a seu serviço.
24. Filhos de Simeão: Namuel, Jamin, Jarib, Zara, Saul.
25. Selum, seu filho, Madsão, seu filho, Masma, seu filho.
26. Filhos de Masma: Hamuel, seu filho, Zacur, Semei, seu filho,
27. Semei teve dezesseis filhos e seis filhas; seus irmãos não tiveram muitos filhos e suas famílias não foram tão numerosas como as dos filhos de Judá.
28. Eles habitavam em Bersabé, em Molada, em Hasar-Sual,
29. em Bala, em Asom, em Tolad,
30. em Batuel, em Horma, em Siceleg, em Betmarcabot,
31. em Hasar-Susim, em Betberai e em Saarim. Estas foram suas cidades até o reinado de Davi.
32. Possuíam ainda Etão, Aen, Remon, Toquen e Asã, cinco cidades
33. e todas as aldeias de suas redondezas, até Baal. Estas foram suas residências e seus registros genealógicos.
34. Mosobab, Jemlec, Josa, filho de Amasias,
35. Joel, Jeú, filhos de Josabias, filhos de Saraia, filhos de Asiel,
36. Elioenai, Jacoba, Isuaia, Asaia, Adiel, Ismiel, Banaia,
37. Ziza, filho de Sefei, filho de Alon, filho de Idaia, filho de Semri, filho de Samaia.
38. Estes homens, indicados por seus nomes, eram príncipes nas suas famílias. Suas casas patriarcais eram grandemente multiplicadas.
39. Eles foram da costa de Gador, até a este do vale, à procura de pastagens para seus rebanhos.
40. Encontraram pastos abundantes e bons num território amplo, tranqüilo e cheio de paz, outrora habitado pelos camitas.
41. Estes homens, indicados por seus nomes, vieram no tempo de Ezequias, rei de Judá: destruíram as tendas dos habitantes dessa terra, assim como os maonitas que lá se encontravam, e os votaram ao interdito até o dia de hoje. Estabeleceram-se em seu lugar, porque lá havia pastagens para seus rebanhos.
42. Quinhentos homens da família de Simeão dirigiram-se também para as montanhas de Seir. Eram seus chefes: Faltias, Naarias, Rafaías e Oziel, filho de Jesi.
43. Destroçaram os amalecitas sobreviventes e lá se estabeleceram até este dia.

 
Capítulo 5

1. Filhos de Rubem, primogênito de Israel. Com efeito, era ele o mais velho, mas como tinha manchado o leito de seu pai, seu direito de primogenitura foi dado aos filhos de José, filho de Israel. Mas José não foi inscrito como primogênito nas genealogias.
2. Pois Judá foi poderoso entre seus irmãos e é dele que saiu o príncipe. Mas o direito de primogenitura pertence a José.
3. Filhos de Rubem, primogênito de Israel: Enoc, Falu, Esron e Carmi.
4. Filhos de Joel: Samia, seu filho, Gog, seu filho, Semei, seu filho;
5. Mica, seu filho, Reia, seu filho, Baal, seu filho,
6. Beera, seu filho, que Teglatfalasar, rei da Assíria, levou cativo. Era ele príncipe dos filhos de Rubem.
7. Irmãos de Beera, segundo suas famílias, assim como estão inscritos nas suas genealogias: o primeiro Jeiel, Zacarias,
8. Bala, filho de Azaz, filho de Sama, filho de Joel. Bala habitava em Aroer, e ia até Nebo e a Beel-Meon.
9. Ao oriente, ocupava a terra até a entrada do deserto, que vai até o Eufrates, porque seus rebanhos eram numerosos na terra de Galaad.
10. No tempo de Saul, fizeram guerra contra os agareus que tombaram entre suas mãos. Habitaram suas tendas na costa oriental de Galaad.
11. Os filhos de Galaad habitavam defronte deles na terra de Basã, até Selca.
12. Joel, o primeiro, Safã, o segundo, Janai e Safat em Basã.
13. Seus irmãos, segundo suas casas patriarcais, eram: Miguel, Mosolã, Sebe, Jorai, Jacã, Zie e Heber: sete.
14. Eles eram filhos de Abiail, filho de Huri, filho de Jara, filho de Galaad, filho de Miguel, filho de Jesesi, filho de Jedo, filho de Bus,
15. Aqui, filho de Abdiel, filho de Guni, era o chefe de sua casa patriarcal.
16. Habitavam em Galaad, em Basã e nas suas aldeias, até as extremidades das pastagens de Saron.
17. Todos foram registrados no tempo de Joatã, rei de Judá, e no tempo de Jeroboão, rei de Israel.
18. Os filhos de Rubem, de Gad, e da meia tribo de Manassés, tinham em suas fileiras homens valorosos, que traziam escudo e espada, manejavam o arco e eram muito aguerridos, em número de 44.760 homens aptos para o combate.
19. Fizeram guerra aos agareus, em Jetur, em Nafis, e em Nodab.
20. Eles venceram, e os agareus com todos os seus aliados lhes foram entregues. Durante o combate, com efeito, eles tinham invocado Deus, que os ouviu, porque eles tinham posto nele sua confiança.
21. Arrebataram seus rebanhos: 50.000 camelos, 250.000 ovelhas, 2.000 jumentos e 100.000 pessoas;
22. muitos caíram mortos, pois essa guerra vinha de Deus. Estabeleceram-se no lugar dos vencidos até o cativeiro.
23. Os filhos da meia tribo de Manassés moravam na terra desde Basã, até o Baal-Hermon, o Sanir e a montanha do Hermon; eram numerosos.
24. Eis os chefes de suas famílias patriarcais: Efer, Jesi, Eliel, Ezriel, Jeremias, Odoia e Jediel, homens valentes e poderosos, célebres chefes de suas casas patriarcais.
25. Mas foram infiéis ao Deus de seus pais, e prostituíram-se, adorando os deuses dos povos que Deus tinha destruído diante deles.
26. O Deus de Israel suscitou o espírito de Ful, rei da Assíria, e o espírito de Teglatfalasar, rei da Assíria, que levou cativos os filhos de Rubem, os filhos de Gad e a meia tribo de Manassés: ele os deportou para Hala, para Habor, para Ara e para o rio de Gozã, onde permaneceram até o dia de hoje.
27-41 Filhos de Levi: Gerson, Caat e Merari. Filhos de Caat: Amrão, Isaar e Oziel. Filhos de Amrão: Aarão, Moisés e Maria. Filhos de Aarão: Nadab, Abiú, Eleazar e Itamar. Eleazar gerou Finéias e Finéias gerou Abisué, Abisué gerou Boci, Boci gerou Ozi, Ozi gerou Zaraías, Zaraías gerou Meraiot, Meraiot gerou Amarias, Amarias gerou Aquitob, Aquitob gerou Sadoc, Sadoc gerou Aquimaas, Aquimaas gerou Azarias, Azarias gerou Joanã, Joanã gerou Azarias, que exerceu o sacerdócio no templo que Salomão construiu em Jerusalém. Azarias gerou Amarias, Amarias gerou Aquitob, Aquitob gerou Sadoc, Sadoc gerou Selum, Selum gerou Helcias, Helcias gerou Azarias, Azarias gerou Saraías, Saraías gerou Josedec, Josedec partiu para o exílio quando o Senhor fez com que Judá e Jerusalém fossem levados ao cativeiro por Nabucodonosor.

 
Capítulo 6

1-15 Filhos de Levi: Gerson, Caat e Merari. Eis os nomes dos filhos de Gerson: Lobni e Semei. Filhos de Caat: Amrão, Isaar, Hebron e Oziel. Filhos de Merari: Mooli e Musi. Eis as famílias de Levi, segundo suas casas patriarcais. De Gerson: Lobni, seu filho, Jaat, seu filho, Zama, seu filho, Joá, seu filho, Ado, seu filho, Zara, seu filho, Jetraim, seu filho. Filhos de Caat: Aminadab, seu filho, Coré, seu filho, Asir, seu filho, Elcana, seu filho, Abiasaf, seu filho, Asir, seu filho, Taat, seu filho, Uriel, seu filho, Ozias, seu filho, Saul, seu filho. Filhos de Elcana: Amasaí e Aquimot, Elcana, seu filho, Sofaí, seu filho, Naat, seu filho, Eliaba, seu filho, Jeroão, seu filho, Elcana, seu filho. Os filhos de Samuel: o primogênito Vasseni e Abia. Filhos de Merari: Mooli, Lobni, seu filho, Semei, seu filho, Oza, seu filho, Samaa, seu filho, Hagia, seu filho, Asaia, seu filho.
16. Para dirigir o canto na casa do Senhor, depois que a arca foi colocada em lugar de repouso, eis os que Davi escolheu.
17. Eles cumpriram suas funções de cantores diante do Tabernáculo da Tenda de Reunião até que Salomão construiu o templo do Senhor em Jerusalém. Faziam seu serviço segundo o seu regulamento.
18. Eis os que cumpriam esse ofício juntamente com seus filhos:
19-32 Dentre os filhos de Caat: Hemão, cantor, filho de Joel, filho de Samuel, filho de Elcana, filho de Jeroão, filho de Eliel, filho de Toul, filho de Suf, filho de Elcana, filho de Matat, filho de Amasaí, filho de Elcana, filho de Joel, filho de Azarias, filho de Sofonias, filho de Taat, filho de Asir, filho de Abiasaf, filho de Coré, filho de Isaar, filho de Caat, filho de Levi, filho de Israel. Seu irmão Asaf, que estava à sua direita; Asaf, filho de Baraquias, filho de Samaa, filho de Miguel, filho de Basaías, filho de Melquias, filho de Atanai, filho de Zara, filho de Adaia, filho de Etã, filho de Zama, filho de Semei, filho de Jet, filho de Gerson, filho de Levi. Filhos de Merari, seus irmãos, à esquerda: Etã, filho de Cusi, filho de Abdi, filho de Maloc, filho de Hasabias, filho de Amasias, filho de Helcias, filho de Amassaí, filho de Boni, filho de Somer, filho de Mooli, filho de Musi, filho de Merari, filho de Levi.
33. Seus irmãos levitas estavam encarregados de todo o serviço do Tabernáculo da casa do Senhor.
34. Aarão e seus filhos queimavam as oblações no altar dos holocaustos e no altar dos perfumes. Eles tomavam sobre si todo o serviço do Santo dos Santos, e faziam a expiação por Israel, segundo as prescrições de Moisés, servo de Deus.
35-38 Eis os filhos de Aarão: Eleazar, seu filho, Finéias, seu filho, Abisué, seu filho, Boci, seu filho, Ozi, seu filho, Zaraías, seu filho, Meraiot, seu filho, Amarias, seu filho, Aquitob, seu filho, Sadoc, seu filho, Aquimaas, seu filho.
39. Eles se estabeleceram nos territórios das seguintes cidades. Aos filhos de Aarão, da família dos caatitas,
40. que por primeiro a sorte designou, foi dada Hebron e suas redondezas na terra de Judá.
41. Mas foi dado a Caleb, filho de Jefoné, o território da cidade e suas aldeias.
42. Foi, portanto, dada aos filhos de Aarão, a cidade de refúgio, Hebron, Lobna e seus arredores,
43. Jeter, Estemo e seus arredores, Helon e seus arredores,
44. Dabir e seus arredores, Asã e seus arredores, Betsemes e seus arredores.
45. Da tribo de Benjamim, Gabee e seus arredores, Almat e seus arredores, Anatot e seus arredores. O número total de suas cidades foi de treze, conforme suas famílias.
46. Os outros filhos de Caat receberam, pela sorte, dez cidades das famílias da tribo (de Efraim, de Dã), e da meia tribo de Manassés.
47. Aos filhos de Gerson, segundo suas famílias, foram dadas treze cidades da tribo de Issacar, de Aser, de Neftali e de Manassés em Basã.
48. Aos filhos de Merari, segundo suas famílias, foram dadas, pela sorte, doze cidades das tribos de Rubem, de Gad, e de Zabulon.
49. Os israelitas deram aos levitas essas cidades e suas pastagens.
50. Da tribo dos filhos de Judá, de Simeão, e de Benjamim, foram essas, designadas por seus nomes, as cidades que lhes foram dadas, por meio da sorte.
51. Quanto às famílias dos filhos de Caat, as cidades que lhes couberam eram da tribo de Efraim.
52. Foram-lhes dadas as cidades de refúgio, Siquém, e suas redondezas na montanha de Efraim, Gazer e seus arredores,
53. Jecmaã e seus arredores, Betoron e seus arredores,
54. Helon e seus arredores, Getremon e seus arredores;
55. e, da meia tribo de Manassés, Aner e seus arredores, Balaão e seus arredores. É o que foi dado às famílias dos outros filhos de Caat.
56. Aos filhos de Gerson foram dadas, na meia tribo de Manassés, Gaulon em Basã e seus arredores, Astarot e seus arredores;
57. da tribo de Issacar, Cedes e seus arredores, Daberet e seus arredores,
58. Ramot e seus arredores, Anem e seus arredores;
59. da tribo de Aser, Masal e seus arredores, Abdon e seus arredores,
60. Hucac e seus arredores, Roob e seus arredores;
61. da tribo de Neftali, Cedes na Galiléia e seus arredores, Hamon e seus arredores e Cariataim e seus arredores.
62. Aos outros filhos de Merari foram dadas, da tribo de Zabulon, Remono e seus arredores, Tabor e seus arredores;
63. do outro lado do Jordão, de Jericó ao oriente, da tribo de Rubem, Bosor no deserto e seus arredores, Jassa e seus arredores,
64. Cademot e seus arredores, Mefaat e seus arredores;
65. da tribo de Gad, Ramot em Galaad e seus arredores, Manaim e seus arredores,
66. Hesebon e seus arredores, Jeser e seus arredores.

 
Capítulo 7

1. Filhos de Issacar: Tola, Fua, Jasub e Simeron: quatro.
2. Filhos de Tola: Ozi, Rafaia, Jeriel, Jemai, Jebsem e Samuel. Segundo suas genealogias, eram chefes de casas patriarcais saídas de Tola, todos homens valentes cujo número era, no tempo de Davi, 22.600 homens.
3. Filho de Ozi: Izraia. Filhos de Izraia: Miguel, Obadia, Joel e Jesia, ao todo cinco chefes.
4. Possuíam, de acordo com suas genealogias, segundo suas casas patriarcais, 36.000 homens de tropas armadas para a guerra, porque eles tinham muitas mulheres e filhos.
5. Seus irmãos, dentre todas as famílias de Issacar, formavam um total de 87.000 homens valorosos, inscritos nas genealogias.
6. Os filhos de Benjamim: Bela, Becor e Jadiel, três.
7. Filhos de Bela: Esbon, Ozi, Oziel, Jerimot e Urai, cinco chefes de famílias patriarcais, compreendendo, inscritos nas genealogias, um número de 22.034 homens aptos para a guerra.
8. Filhos de Becor: Zamira, Joás, Eliezer, Elioenai, Amri Jerimot, Abia, Anatot e Almat,
9. todos filhos de Becor registrados, de acordo com suas genealogias, como chefes das casas patriarcais, compreendendo um número de 20.200 homens guerreiros.
10. Filho de Jadiel: Balã. Filhos de Balã: Jeur, Benjamim, Aod, Canana, Zetã, Társis e Abisaar,
11. todos filhos de Jadiel, chefes das casas patriarcais, formando um total de 17.200 homens guerreiros, capazes de levar armas e fazer guerra.
12. Sefão e Hafão, filhos de Hir; Hasim, filho de Aer.
13. Filhos de Neftali: Jesiel, Guni, Jeser e Selum, filho de Bala.
14. Filho de Manassés: Esriel. Sua concubina siríaca deu à luz Maquir, pai de Galaad.
15. Maquir tomou mulher na família de Hafim e Safã. O nome de sua irmã era Maaca. O nome do segundo filho era Salfaad, o qual teve filhas.
16. Maaca, mulher de Maquir, deu à luz um filho e chamou-o Fares; o nome de seu irmão era Sares, e eram seus filhos Ulão e Recém. Filho de Ulão: Badã.
17. São estes os filhos de Galaad, filho de Maquir, filho de Manassés.
18. Sua irmã Hamolequet deu à luz Iscod, Abiezer e Moola.
19. Os filhos de Semida foram: Ain, Sequém, Leci e Anião.
20. Filhos de Efraim: Sutala, Bared, seu filho, Taat, seu filho, Elada, seu filho, Taat, seu filho,
21. Zabad, seu filho, Sutala, seu filho, Ezer e Elad, os quais os homens de Get, originários da terra, mataram, porque tinham tentado arrebatar seus rebanhos.
22. Efraim, pai deles, esteve por muito tempo em luto, e seus irmãos vieram consolá-lo.
23. Ele se uniu à sua mulher que concebeu e deu à luz um filho, ao qual ele deu o nome de Beria, porque a desgraça estava em sua casa.
24. Sua filha era Sara, que construiu a alta e a baixa Betoron, e Ozensara.
25. Ele teve ainda Rafa, um filho, e Resef; Tala, seu filho, Taã, seu filho,
26. Laadã, seu filho, Amiud, seu filho, Elisama, seu filho,
27. Nun, seu filho, Josué, seu filho.
28. Suas possessões e suas moradas eram: Betel e seus arrabaldes, ao oriente; Horã, a oeste; Geser e seus arrabaldes, Siquém e seus arrabaldes até Aza e seus arrabaldes.
29. Os filhos de Manassés possuíam ainda Betsã e seus arrabaldes, Tanac e seus arrabaldes, Magedo e seus arrabaldes, Dor e seus arrabaldes. Foram essas as cidades em que habitaram os filhos de José, filhos de Israel.
30. Filhos de Aser: Jema, Jesua, Jessui, Baria e sua irmã Sara.
31. Filhos de Baria: Heber e Melquiel, pai de Barsait.
32. Heber gerou Jeflat, Somer, Hotão e Suaa, sua irmã.
33. Filhos de Jeflat: Fosec, Camaal e Asot, filhos de Jeflat.
34. Filhos de Somer: Aí, Roaga, Haba e Arão.
35. Filhos de Helem, seu irmão: Sufa, Jema, Seles e Amal.
36. Filhos de Sufa: Sué, Harnafer, Sual, Beri, Jamra,
37. Bosor, Hod, Sama, Salusa, Jetrã e Bera.
38. Filhos de Jeter: Jefoné, Fasfa e Ara.
39. Filhos de Ola: Aree, Haniel e Resia.
40. Todos estes eram filhos de Aser, chefes das casas patriarcais, homens aguerridos e escolhidos, chefes de príncipes, inscritos no número de 26.000 homens capazes de carregar armas à guerra.

 
Capítulo 8

1. Benjamim gerou Bela, seu primogênito, Asbel, o segundo, Aara, o terceiro,
2. Noaa, o quarto e Rafa, o quinto.
3. Filhos de Bela: Adar, Gera, Abiud, Abisué, Naamã, Aoé,
4. Gera, Sefufã,
5. Hurão.
6. Filhos de Aod: eram os chefes das famílias que habitavam Gabaa, transportados para Manaat:
7. Naamã, Aquia e Gera, que os transportou, o qual gerou Oza e Aiud.
8. Saarain teve filhos na terra de Moab, depois de ter repudiado suas mulheres Husim e Bara.
9. Nasceram de Hodes, sua mulher: Jobab, Sebia, Mosa, Molcon, Jeús, Sequia e Marma,
10. que são seus filhos, chefes de famílias.
11. De Husin teve Abitob e Elfaal.
12. Filhos de Elfaal: Heber, Misaão e Samad, que construiu Ono e Lod, e as cidades que dela dependem.
13. Baria e Sama, chefes das famílias que habitavam Aialon, puseram em fuga os habitantes de Get.
14-28 Aio, Sesac, Jerimot, Zabadia, Arod, Heder, Miguel, Jesfa e Joá eram filhos de Baria. Zabadia, Mosolão, Hezeci, Heber, Jesamari, Jezlia e Jobab eram filhos de Elfaal. Jacim, Zecri, Zabdi, Elioenai, Seletai, Eliel, Adaia, Baraia e Samarat eram filhos de Semei. Jesfã, Heber, Eliel, Abdon, Zecri, Hanã, Hanania, Elão, Anatotia, Jefdaia e Fanuel eram filhos de Sesac. Samsari, Sooria, Otolia, Jersia, Elia e Zecri eram filhos de Jeroão. São estes os chefes de famílias, chefes segundo suas genealogias. Habitavam em Jerusalém.
29-40 O pai de Gabaon morava em Gabaon; sua mulher chamava-se Maaca. Seu filho mais velho: Abdon; em seguida, Sur, Cis, Baal, Nadab, Gedor, Aio e Zaquer. Macelot gerou Samaa. Eles habitavam também Jerusalém com seus irmãos. Ner gerou Cis, Cis gerou Saul, Saul gerou Jônatas, Melquisua, Abinadab e Esbaal. Filho de Jônatas: Meribaal. Meribaal gerou Mica. Filhos de Mica: Fiton, Melec, Taraa e Acaz. Acaz gerou Joada, Joada gerou Alamot, Azmot e Zamri. Zamri gerou Mosa. Mosa gerou Banaa, Rafa, seu filho, Elasa, seu filho, Asel, seu filho. Asel teve seis filhos, cujos nomes são: Esricão, Bocru, Ismael, Saria, Obdias e Hanã, todos filhos de Asel. Filhos de Esec, seu irmão: Ulão, seu filho mais velho, Jeús, o segundo, e Elifalet, o terceiro. Os filhos de Ulão eram homens valentes, bons arqueiros; tiveram numerosos filhos e netos: cento e cinqüenta. Todos esses são descendentes de Benjamim.

 
Capítulo 9

1. Todo o Israel está registrado nas genealogias: elas encontram-se consignadas no livro dos reis de Israel. Em seguida, Judá foi deportado para Babilônia, por causa de suas infidelidades.
2. Os primeiros habitantes que viveram em suas possessões e suas cidades eram israelitas, sacerdotes, levitas e os natineus.
3-6 Em Jerusalém, habitaram filhos de Judá, de Benjamim, de Efraim e de Manassés; de Farés, filho de Judá: Otei, filho de Amiud, filho de Amri, filho de Omrai, filho de Boni; dentre os silonitas: Asaia, filho mais velho, e seus filhos; dentre os filhos de Zara: Jeuel e seus irmãos. Ao todo 690.
7-9 Dentre os filhos de Benjamim: Salo, filho de Mosolão, filho de Oduia, filho de Asana, e Jobania, filho de Jeroão. Ela, filho de Ozi, filho de Mocori; Mosolão, filho de Safatia, filho de Rauel, filho de Jebania. Com seus irmãos, segundo suas gerações, eram eles 956; todos chefes de famílias, segundo suas casas patriarcais.
10-13 Entre os sacerdotes: Jedaia, Joiarib, Joaquim, Azarias, filho de Helcias, filho de Mosolão, filho de Sadoc, filho de Maraiot, filho de Aquitob, chefe da casa de Deus; Adaías, filho de Jeroão, filho de Fassur, filho de Melquias; Maasai, filho de Adiel, filho de Jezra, filho de Mosolão, filho de Mosolamit, filho de Emer. Eles e seus irmãos, chefes de suas casas patriarcais, perfaziam um total de 1.760 homens valorosos, ocupados no serviço da casa de Deus.
14-16 Entre os levitas: Semeia, filho de Hassub, filho de Ezricão, filho de Hasebia, descendente de Merari; Bacbacar, Heres, Galal, Matania, filho de Mica, filho de Zecri, filho de Asaf; Obdia, filho de Semeia, filho de Gala, filho de Iditum; Baraquia, filho de Asa, filho de Elcana, que morava nas cidades dos netofateus.
17. Entre os porteiros: Selum, Acub, Telmon, Aimão e seus irmãos. Deles o chefe era Selum;
18. era ele ainda o guarda da porta do Rei, ao oriente. São estes os porteiros para o acampamento dos levitas:
19. Selum, filho de Coré, filho de Abiasaf, filho de Coré e seus irmãos; os coritas, da casa de seu pai, ocupavam as funções de guardas das portas do tabernáculo. Seus pais tinham guardado a entrada do acampamento do Senhor.
20. Finéias, filho de Eleazar, outrora tinha sido chefe deles, e o Senhor estava com ele.
21. Zacarias, filho de Mosolamia, era porteiro na entrada da tenda de reunião.
22. Esses guardas das portas tinham sido escolhidos em número de duzentos e doze, registrados nas genealogias, segundo suas aldeias. Davi e Samuel, o vidente, tinham-nos estabelecido em suas funções.
23. Eles e seus filhos estavam colocados à guarda das portas da casa do Senhor, das casas do tabernáculo.
24. Havia porteiros nos quatro lados do templo, a leste, a oeste, ao norte e ao sul.
25. Seus irmãos, que moravam nas aldeias, vinham para junto deles cada semana, cada um por seu turno.
26. Os quatro chefes dos porteiros, que eram levitas, ficavam constantemente em função, tendo ainda que vigiar os depósitos e os tesouros da casa de Deus.
27. Moravam ao redor da casa de Deus, da qual estavam encarregados da guarda, assim como do cargo de abri-la todas as manhãs.
28. Outros se encarregavam da vigilância dos objetos do culto que inventariavam à entrada e à saída.
29. Outros ainda cuidavam dos utensílios do santuário, da flor de farinha, do vinho, do azeite, do incenso e dos aromas.
30. Os filhos dos sacerdotes compunham as essências aromáticas.
31. Matatias, um levita, primogênito de Selum, o corita, tinha a seu cuidado as tortas que se coziam na sertã.
32. Alguns de seus irmãos, filhos dos caatitas, estavam encarregados de preparar para cada Sabbat os pães da proposição.
33. Eram estes (também) os cantores, chefes das famílias levíticas: moravam nos apartamentos do templo, isentos de outras funções, para exercerem a sua, dia e noite.
34. São eles os chefes das famílias dos levitas, segundo suas genealogias: moravam em Jerusalém.
35-44 O pai dos gabaonitas, Jeiel, habitava em Gabaon; sua mulher se chamava Maaca. Seu filho mais velho, Abdon; em seguida Sur, Cis, Baal, Ner, Nadab, Gedor, Aio, Zacarias e Macelot. Macelot gerou Samaã. Eles moravam também com seus irmãos em Jerusalém. Ner gerou Cis, Cis gerou Saul, Saul gerou Jônatas, Melquisua, Abinadab e Esbaal. Filho de Jônatas: Meribaal. Meribaal gerou Mica. Filhos de Mica: Fiton, Melec, Taraa. Aaz gerou Jara, Jara gerou Alamat, Azmot e Zamri. Zamri gerou Mosa. Mosa gerou Banaa, Rafaia, seu filho, Elasa, seu filho, Asel, seu filho; Asel teve seis filhos, cujos nomes são: Ezricão, Bocru, Ismael, Saria, Obdia, Hanã. São estes os filhos de Asel.

 
Capítulo 10

1. Os filisteus combatiam contra Israel e os israelitas puseram-se em fuga diante deles: muitos tombaram feridos de morte, na montanha de Gelboé.
2. Os filisteus lançaram-se a perseguir Saul e seus filhos; mataram Jônatas, Abinadab e Melquisua, filhos de Saul.
3. Em seguida, o peso da luta voltou-se contra Saul; os arqueiros alcançaram-no e o feriram no ventre.
4. Disse então Saul a seu escudeiro: Desembainha tua espada e transpassa-me, para que os incircuncisos não venham a ultrajar-me. Mas o escudeiro não o quis, tanto medo se apossava dele. Então Saul tirou sua espada e atirou-se sobre ela.
5. À vista de Saul morto, o escudeiro também se atirou sobre sua espada, e morreu.
6. Assim morreram Saul e seus três filhos; e toda a sua casa pereceu ao mesmo tempo.
7. Todos os israelitas que estavam na planície, vendo que os filhos de Israel recuavam e que Saul e seus filhos estavam mortos, abandonaram suas cidades e fugiram; e vieram os filisteus e estabeleceram-se nelas.
8. No dia seguinte, os filisteus, vindos para despojar os mortos, encontraram Saul e seus filhos estendidos na montanha de Gelboé.
9. Despojaram-no, tiraram sua cabeça e suas armas, e as enviaram para anunciar as boas novas a toda a terra dos filisteus, diante de seus ídolos e do povo.
10. Colocaram as armas de Saul no templo de seus deuses e suspenderam seu crânio no templo de Dagon.
11. Todos os habitantes de Jabes em Galaad, ao serem informados de tudo o que os filisteus tinham feito a Saul,
12. levantaram-se; todos os homens valentes tomaram o corpo de Saul e os corpos de seus filhos, e os transportaram para Jabes. Enterraram seus ossos debaixo do terebinto de Jabes e jejuaram durante sete dias.
13. Saul morreu por causa da infidelidade, pela qual se tornara culpado contra o Senhor, não observando a palavra do Senhor e por ter consultado necromantes.
14. Não consultou o Senhor e o Senhor o fez morrer, transferindo assim a realeza para Davi, filho de Isaí.

 
Capítulo 11

1. Todo o Israel se reuniu com Davi em Hebron, e disse: Vê: nós somos teus ossos e tua carne.
2. Já antes, quando Saul era rei, eras tu que conduzias os destinos de Israel. O Senhor, teu Deus, te disse: És tu que apascentarás Israel, meu povo, e serás tu o chefe de Israel, meu povo.
3. Assim todos os anciãos de Israel vieram para junto do rei em Hebron, e Davi concluiu um pacto com eles em Hebron, diante do Senhor; e eles ungiram-no rei de Israel, segundo a palavra do Senhor, pronunciada por Samuel.
4. Foi Davi com todo o Israel contra Jerusalém, isto é, Jebus, onde estavam os jebuseus, habitantes da terra.
5. Os jebuseus disseram a Davi: Aqui tu não entrarás. Mas Davi se apoderou da fortaleza de Sião, isto é, da cidade de Davi.
6. O primeiro, disse ele, seja quem for, que vencer os jebuseus, tornar-se-á chefe e príncipe. O primeiro que subiu foi Joab, filho de Sarvia, e tornou-se chefe.
7. Davi instalou-se na fortaleza; é por isso que a chamaram cidade de Davi.
8. Ele fortificou a cidade ao redor, desde Milo até seus arredores, e Joab restaurou o resto da cidade.
9. Davi tornou-se cada vez maior, e o Deus dos exércitos estava com ele.
10. Eis os chefes dos heróis que estavam a serviço de Davi e que o ajudaram com todo o Israel a assegurar seu domínio, a fim de fazê-lo rei, segundo a palavra do Senhor, com respeito a Israel.
11. Eis o número dos heróis que estavam a serviço de Davi: Jesbaão, chefe dos trinta: ele brandiu sua lança contra trezentos homens e os abateu de uma só vez.
12. Depois deste, Eleazar, filho de Dodo, o aoíta, um dos três heróis.
13. Estava ele com Davi em Fesdomim, onde os filisteus se tinham reunido para o combate. Lá havia uma terra plantada de cevada, e o exército fugia diante dos filisteus.
14. Eles se postaram no meio do campo, defenderam-no e destroçaram os filisteus; e o Senhor assegurou uma grande vitória.
15. Três dos trinta capitães desceram à rocha, para perto de Davi, junto da caverna de Odolão, enquanto o acampamento dos filisteus estava levantado no vale dos refains.
16. Ora, Davi estava na caverna e havia uma guarnição de filisteus em Belém.
17. Davi exprimiu um desejo: Quem me dará de beber, disse ele, da água da cisterna que está às portas de Belém?
18. Os três homens atravessaram acampamento dos filisteus e tiraram água da cisterna que está à porta de Belém. Eles tomaram e a levaram a Davi, mas Davi não quis bebê-la e fez dela uma libação ao Senhor:
19. Deus me livre, disse ele, de beber semelhante coisa! Haveria eu de beber o sangue desses homens? Pois foi arriscando a própria vida que ma trouxeram. E recusou bebê-la. Eis o que fizeram esses três bravos.
20. Abisai, irmão de Joab, era o chefe dos três; brandiu sua lança contra trezentos homens; matou-os e adquiriu um nome entre os três.
21. Era o mais considerado da segunda tríade e foi o seu chefe, mas não se igualou aos três primeiros;
22. Banaias, filho de Jojada, homem de valor e rico em altos feitos, originário de Cabseel, foi o que venceu os dois filhos de Ariel, de Moab. Foi ele também quem desceu e matou o leão na cisterna, num dia em que nevava.
23. Foi ele ainda quem venceu um egípcio de cinco côvados de altura; esse egípcio tinha na mão uma lança semelhante a um cilindro de tear de tecelão. Foi contra ele com um bordão, arrancou-lhe a lança das mãos e o matou com a própria lança.
24. Eis o que fez Banaias, filho de Jojada, que foi célebre entre os três valentes.
25. Era mais considerado que os trinta; todavia não se igualou aos três. Davi o colocou à testa de sua guarda.
26. Valentes homens do exército: Asael, irmão de Joab; Elcanã, filho de Dodo, de Belém;
27. Samot, de Aori; Heles, de Falon:
28. Hira, filho de Aces, de Técua;
29. Abieser, de Anatot; Sobocai, o husatita; Ilai, o aoíta; Maarai, de Netofa;
30. Heled, filho de Baana, de Netofa;
31. Etai, filho de Ribai, de Gabaa, dos filhos de Benjamim; Banaia, de Faraton;
32. Hurai, dos vales de Gaas; Abiel, de Araba; Azmavet, de Baurão; Eliaba, de Salabon; Bené-Assem de Gezon;
33. Jonatã, filho de Sage, de Arar;
34. Aião, filho de Sacar, de Arar;
35. Elifal, filho de Ur; Hefer, de Mequera;
36. Aia, de Felon; Hesro, de Carmelo;
37. Naarai, filho de Asbai; Joel, irmão de Natã;
38. Mibaar, filho de Agarai;
39. Selec, o amonita; Naarai, de Berot, escudeiro de Joab, filho de Sarvia;
40. Ira, de Jeter; Gareb, de Jeter;
41. Urias, o hiteu; Zabad, filho de Ooli;
42. Adina, filho de Siza, filho de Rubem, chefe dos rubenitas, e com ele trinta homens;
43. Hanã, filho de Maaca; Josafá, de Matã;
44. Ozías, de Astarot; Sarna e Jeiel, filhos de Hotão, de Aroer;
45. Jediel, filho de Samri; Joa, seu irmão, o tosaíta;
46. Eliel, de Maum; Jeribai e Josaia, filhos de Elnaem; Jetma, o moabita; Eliel, Obed e Jasiel, de Masobia.

 
Capítulo 12

1. Eis os que foram juntar-se a Davi, em Siceleg, quando ainda devia conservar-se longe de Saul, filho de Cis; estão contados entre os homens valentes que lhe prestaram auxílio durante a guerra.
2. Eram arqueiros, exercitados em lançar pedras, tão bem com a mão esquerda como com a direita, e a atirar flechas com o arco; eram irmãos de Saul, de Benjamim.
3. Seus chefes eram Aieser, em seguida Joás, ambos filhos de Samaa, de Gabaa; Jaziel e Falet, filhos de Azmot; Baraca; Jeú, de Anatot;
4. Samaías, de Gabaon, valente entre os trinta e chefe dos trinta; Jeremias; Jeeziel; Joanã; Jezabad, de Gedera; Eluzai; Jerimut; Baalia; Samaria;
5. Safatia, de Haruf;
6. Elcana, Jesia, Azareel, Joeser e Jesbão, filhos de Coré;
7. Joela e Zabadia, filhos de Jeroão, de Gedor.
8. Homens valentes dos gaditas passaram para Davi nas cavernas do deserto, guerreiros exercitados no combate, que sabiam manejar o escudo e a lança; tinham o aspecto de leões e a agilidade das gazelas das montanhas.
9. Ezer era seu chefe; Obdias, o segundo; Eliab, o terceiro;
10. Masmana, o quarto; Jeremias, o quinto;
11. Eti, o sexto; Eliel, o sétimo;
12. Joanã, o oitavo; Elzebad, o nono;
13. Jeremias, o décimo; Macbanai, o undécimo.
14. Eram estes os filhos de Gad, chefes do exército; o menor deles, sozinho, podia vencer cem; o mais forte, mil.
15. Foram eles que atravessaram o Jordão, no primeiro mês, quando o rio costuma transbordar em todo o seu curso, e que puseram em fuga todos os habitantes dos vales, a leste e a oeste.
16. Houve também filhos de Benjamim e de Judá, que vieram aliar-se a Davi nas cavernas.
17. Davi saiu-lhes ao encontro e lhes disse: Se é como amigos que vindes a mim, para me prestar auxílio, eu estou unido de coração convosco; mas, se é para me trair e me entregar aos inimigos, enquanto minhas mãos estão limpas de toda violência, que o Deus de nossos pais o veja e faça justiça.
18. Então o espírito entrou em Amasaí, chefe dos trinta, o qual disse: A ti, Davi, e contigo, filho de Isaí! Paz, paz a ti e àquele que te protege, porque teu Deus te presta auxílio. Davi recebeu-os e lhes deu um lugar entre os chefes do bando.
19. De Manassés também passaram homens para o lado de Davi, quando ele foi, com os filisteus, fazer guerra a Saul. Contudo, não socorreram os filisteus, porque, depois de se reunirem em conselho, os príncipes dos filisteus, despediram Davi, dizendo: Ele passará para o lado de seu mestre Saul, com perigo de nossas cabeças.
20. Quando voltou a Siceleg, homens de Manassés juntaram-se a ele: Ednas, Jozabad, Jediel, Miguel, Jozabad, Eliú e Salati, chefes de milhares de homens de Manassés.
21. Ajudaram Davi contra os bandos de saqueadores, porque todos eram homens valentes, e foram chefes no exército.
22. Todos os dias, vinham homens a Davi para auxiliá-lo, tanto que, por fim, ele teve um grande exército, como um exército de Deus.
23. Este é o número dos homens equipados para a guerra que foram ter com Davi, em Hebron, para transferir-lhe o reino de Saul, segundo a ordem do Senhor:
24. filhos de Judá, portadores de escudo e lança: 6.800, armados para a guerra.
25. Dos filhos de Simeão, 7.100 valentes guerreiros.
26. Dos filhos de Levi, 4.600;
27. Jojada, chefe da casa de Aarão, com 3.700 homens,
28. e Sadoc, jovem e valente guerreiro, e a casa de seu pai, 22 chefes.
29. Dos filhos de Benjamim, irmãos de Saul, 3.000; pois, até então, a maior parte deles guardava fidelidade à casa de Saul.
30. Dos filhos de Efraim, 20.800 guerreiros conhecidos pela sua valentia nas suas famílias.
31. Da meia tribo de Manassés, 18.000, que foram nominalmente designados para ir proclamar Davi rei.
32. Dos filhos de Issacar, que tinham o senso da oportunidade e sabiam o que Israel devia fazer, 200 chefes e todos os seus irmãos sob suas ordens.
33. De Zabulon, 50.000, em estado de ir para o exército, preparados para o combate, perfeitamente equipados com todas as armas, prontos para socorrer Davi, de coração resoluto.
34. De Neftali, 1.000 chefes e, com eles, 37.000 homens levando escudo e lança.
35. Dos danitas, 28.600 homens, prontos para se pôr em linha de batalha.
36. De Aser, aptos para o serviço militar e preparados para o combate, 40.000.
37. E, do outro lado do Jordão, dos rubenitas, dos gaditas e da meia tribo de Manassés, em perfeito equipamento de armas de guerra, 120.000.
38. Todos esses homens de guerra, prontos para se formarem em linha de batalha, vieram de coração sincero a Hebron, para aclamar Davi rei de todo o Israel. E todo o restante de Israel estava igualmente unânime em aclamar Davi rei.
39. Permaneceram ali, três dias com Davi, comendo e bebendo, porque seus irmãos lhes tinham preparado víveres.
40. Ademais, os que moravam perto deles, até Issacar, Zabulon e Neftali, traziam-lhes víveres, sobre jumentos, camelos, mulas e bois, farinha, massa de figos, tortas de uvas, vinho, óleo, bois, ovelhas em abundância; porque havia alegria em Israel.

 
Capítulo 13

1. Davi teve conselho com os chefes de milhares e de centenas, com todos os príncipes.
2. E disse a toda a assembléia de Israel: Se achais bom e isso parece vir do Senhor, nosso Deus, enviemos, sem tardar, mensageiros a nossos irmãos, em todas as regiões de Israel, como também aos sacerdotes e levitas, em todas as localidades onde estão suas pastagens, para que se juntem a nós,
3. e tornemos a trazer para nós a arca de nosso Deus, pois não cuidamos dela no tempo de Saul.
4. E toda a assembléia achou bom agir desse modo, porque isso pareceu conveniente a todo o povo.
5. Davi convocou todo o Israel, desde o Sior no Egito até a entrada de Emat, a fim de trazer de Cariatiarim a arca de Deus.
6. Davi, com todo o Israel, subiu a Baala, em Cariatiarim de Judá, para trazer de lá a arca do Senhor Deus, do Senhor que tem seu trono sobre os querubins, diante da qual seu nome é invocado.
7. A arca de Deus foi colocada num carro novo e a trouxeram da casa de Abinadab: Oza e Aio conduziam o carro.
8. Davi e todo o Israel dançavam diante de Deus, de toda a sua alma, cantando com acompanhamento de cítara, de harpas e tamborins, de címbalos e trombetas.
9. Quando chegavam à eira de Quidon, Oza estendeu a mão para suster a arca de Deus, porque os bois, tropeçando, a tinham feito inclinar.
10. A ira do Senhor se inflamou contra Oza, e o feriu, porque estendera sua mão para a arca; e Oza morreu ali mesmo, diante de Deus.
11. Davi ficou contristado porque o Senhor ferira Oza. E esse lugar traz ainda hoje o nome de Ferets-Oza.
12. Nesse dia, Davi teve medo de Deus: Como, disse ele, faria eu entrar a arca de Deus em minha casa?
13. E Davi não acolheu, a arca em sua casa, na cidade de Davi. Ele a mandou levar à casa de Obededom, de Get.
14. A arca de Deus ficou durante três meses com a família de Obededom, na sua casa; e o Senhor abençoou a família de Obededom com tudo o que lhe pertencia.

 
Capítulo 14

1. Hirão, rei de Tiro, enviou mensageiros a Davi, com madeiras de Cedro, pedreiros e carpinteiros, para construir-lhe um palácio.
2. E Davi reconheceu que o Senhor o confirmava rei de Israel, pois que seu reino era exaltado por causa de Israel, seu povo.
3. Davi tomou ainda mulheres de Jerusalém e gerou filhos e filhas.
4. Eis os nomes dos filhos que teve em Jerusalém: Samua, Sobad, Natã, Salomão,
5. Jebaar, Elisua, Elifelet,
6. Noga, Nafeg, Jafia,
7. Elisama, Baaliada e Elifalet.
8. Quando os filisteus souberam que Davi tinha sido sagrado rei de todo o Israel, subiram todos para prendê-lo. Mas ele o soube e saiu-lhes ao encontro.
9. Contudo, os filisteus que vinham espalharam-se pelo vale de Refaim.
10. Davi consultou a Deus: Subirei contra os filisteus? Entregá-los-eis em minhas mãos? E o Senhor disse-lhe: Sobe e entregá-los-ei em tuas mãos.
11. Subiram, portanto, a Baal-Farasim, e lá Davi os desbaratou. Disse então ele: Deus dispersou meus inimigos, por minha mão, como se dispersam as águas. Por isso esse lugar se denominou: Baal-Farasim.
12. Ali abandonaram eles seus deuses. E Davi os mandou queimar.
13. Os filisteus espalharam-se novamente pelo vale.
14. Davi consultou de novo a Deus, e este lhe respondeu: Não te ponhas a persegui-los; desvia-te deles e os atacarás diante das amoreiras.
15. Quando ouvires um ruído de passos nas copas das amoreiras, então começarás o combate, porque Deus sairá diante de ti para desbaratar o exército dos filisteus.
16. Fez Davi o que Deus lhe ordenava, e derrotou o exército dos filisteus desde Gabaon até Gazer.
17. A fama de Davi espalhou-se por todos os países, e o Senhor tornou-o temível para todas as nações.

 
Capítulo 15

1. Davi construiu casas para si na cidade de Davi; preparou um lugar para a arca de Deus e levantou para ela um pavilhão.
2. Disse, então, Davi: A arca de Deus só pode ser carregada por levitas, pois são eles que o Senhor escolheu para carregá-la e para servi-la perpetuamente.
3. Davi convocou todo o Israel em Jerusalém, para fazer subir a arca do Senhor ao lugar que lhe havia preparado.
4. Reuniu os filhos de Aarão e os levitas:
5. dos filhos de Caat, Uriel, o chefe, e seus 120 irmãos;
6. dos filhos de Merari, Asaia, o chefe, e seus 220 irmãos;
7. dos filhos de Gerson, Joel, o chefe, e seus 130 irmãos;
8. dos filhos de Elisafã, Semeías, o chefe, e seus 200 irmãos;
9. dos filhos de Hebron, Eliel, o chefe, e seus 80 irmãos;
10. dos filhos de Oziel, Aminadab, o chefe, e seus 112 irmãos.
11. Davi chamou Sadoc e Abiatar, e os levitas Uriel, Asaías, Joel, Semeías, Eliel e Aminadab,
12. e disse-lhes: Vós sois os chefes das famílias levíticas; santificai-vos, vós e vossos irmãos, e fazei subir a arca do Senhor, Deus de Israel, ao lugar que lhe preparei.
13. É porque não fostes vós, que o Senhor, nosso Deus, feriu na primeira vez, pois não a fomos procurar como manda a lei.
14. Os sacerdotes e levitas santificaram-se, portanto, para fazer subir a arca do Senhor, Deus de Israel.
15. E os filhos de Levi, como o tinha ordenado Moisés, segundo a palavra do Senhor, levaram a arca aos ombros, por meio de varais.
16. Davi disse aos chefes dos levitas que estabelecessem seus irmãos como cantores com instrumentos de música, cítaras, harpas e címbalos, para que sons vibrantes e alegres se fizessem ouvir.
17. Os levitas constituíram Hemã, filho de Joel, e dentre seus irmãos, Asaf, filho de Baraquias; dentre os filhos de Merari, seus irmãos, Etã, filho de Cusaia;
18. e com eles, seus irmãos de segunda ordem; Zacarias, Oziel, Semiramot, Jaiel, Ani, Eliab, Banaías, Maasias, Matatias, Elifalu, Macenias, Obededom e Jeiel, os porteiros.
19. Os cantores, Hemã, Asaf e Etã, tinham címbalos de bronze para faze-los retinir.
20. Zacarias, Oziel, Semiramot, Jaiel, Ani, Eliab, Maasias e Banaías tinham cítaras em soprano.
21. Matatias, Elifalu, Macenias, Obededom, Jeiel e Ozaziu tinham harpas na oitava inferior, para conduzir o canto.
22. Conenias, chefe dos levitas para o transporte, dirigia o transporte, pois era entendido nisso.
23. Baraquias e Elcana eram porteiros da arca.
24. Os sacerdotes Sebenias, Josafá, Natanael, Amasaí, Zacarias, Banaias e Eliezer tocavam trombetas diante da arca de Deus. Obededom e Jeías eram porteiros da arca.
25. Davi, os anciãos de Israel e os chefes de mil foram para retirar da casa de Obededom a arca da aliança do Senhor, e para transportá-la no meio de regozijo.
26. Foi com a assistência de Deus que os levitas transportaram a arca da aliança do Senhor; e foram sacrificados sete touros e sete carneiros.
27. Davi estava revestido de um manto de linho fino, e da mesma forma todos os levitas que transportavam a arca, os cantores e Conenias que dirigia o transporte da arca entre os cantores. Davi estava ainda revestido de um efod de linho.
28. Todo o Israel, ao fazer subir a arca da aliança do Senhor, soltava brados de júbilo, ressoando trombetas, trompas e címbalos, retinindo cítaras e harpas.
29. Quando a arca da aliança do Senhor entrava na cidade de Davi, Micol, filha de Saul, que olhava pela janela, viu que o rei saltava e dançava, e desprezou-o no seu coração.

 
Capítulo 16

1. Fizeram entrar a arca do Senhor e colocaram-na no meio do pavilhão que para ela Davi tinha levantado, e ofereceram a Deus holocaustos e sacrifícios pacíficos.
2. Depois desse oferecimento de holocaustos e sacrifícios pacíficos, Davi abençoou o povo em nome do Senhor.
3. Em seguida, distribuiu a todos os israelitas, homens e mulheres, a cada um, um pão, um pedaço de carne, e um bolo de uvas secas.
4. Davi colocou, diante da arca do Senhor, levitas encarregados do serviço, que invocavam, celebravam e louvavam o Senhor, Deus de Israel.
5. Eram eles: Asaf, o chefe; Zacarias, o segundo; em seguida, Oziel, Semiramot, Matatias, Eliab, Banaias, Obededom: Jeiel estava encarregado das harpas e das cítaras, enquanto que Asaf fazia vibrar os címbalos.
6. Os sacerdotes Banaias e Jaziel tocavam continuamente a trombeta diante da arca da aliança do Senhor.
7. Foi naquele dia que Davi encarregou Asaf e seus irmãos de celebrar o Senhor:
8. Celebrai o Senhor, aclamai o seu nome, apregoai entre as nações as suas obras.
9. Cantai-lhe hinos e cânticos, anunciai todas as suas maravilhas.
10. Gloriai-vos do seu santo nome, rejubile o coração dos que procuram o Senhor.
11. Recorrei ao Senhor e ao seu poder, procurai continuamente sua face.
12. Recordai as maravilhas que operou, seus prodígios e os julgamentos por seus lábios proferidos,
13. ó descendência de Israel, seu servo, ó filhos de Jacó, seus escolhidos!
14. É ele o Senhor, nosso Deus; suas sentenças comandam a terra inteira.
15. Recordai sem cessar suas alianças, a palavra que empenhou a mil gerações,
16. que garantiu a Abraão e jurou a Isaac,
17. e confirmou a Jacó irrevogavelmente e a Israel como aliança eterna,
18. quando disse: Eu te darei a terra de Canaã, como parte da tua herança.
19. Quando não passavam de um reduzido número, minoria insignificante e estrangeiros na terra,
20. e andavam errantes de nação em nação, de reino em reino,
21. não permitiu que ninguém os oprimisse e castigou os reis por causa deles:
22. Não ouseis tocar nos que me são consagrados nem maltratar os meus profetas!
23. Cantai ao Senhor, terra inteira, anunciai cada dia a salvação que ele nos trouxe.
24. Proclamai às nações a sua glória, a todos os povos as suas maravilhas.
25. Porque o Senhor é grande e digno de todo o louvor, o único temível de todos os deuses,
26. Porque os deuses dos povos, sejam quais forem, não passam de ídolos; mas foi o Senhor quem criou os céus.
27. Em seu semblante, a majestade e a beleza, em sua Morada, o poder e a felicidade.
28. Tributai ao Senhor, famílias dos povos, tributai ao Senhor a glória e a honra,
29. tributai ao Senhor a glória devida ao seu nome. Trazei oferendas e chegai à sua presença, adorai o Senhor com ornamentos sagrados.
30. Diante dele estremece a terra inteira e não vacila, porque ele a sustém.
31. Alegrem-se os céus e exulte a terra, e confessem as nações: O Senhor é rei.
32. Retumbe o oceano e o que ele contém, regozijem-se os campos e tudo o que existe neles.
33. Jubilem as árvores da floresta com a presença do Senhor, pois ele vem para governar a terra.
34. Louvai o Senhor, porque ele é bom, porque a sua misericórdia é eterna.
35. Dizei: Salvai-nos ó Deus de nossa salvação, e recolhei-nos e salvai-nos de entre as nações: para que possamos celebrar o vosso santo nome e ter a satisfação de vos louvar.
36. Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, pelos séculos dos séculos! E todo o povo disse: Amém! e Louvai o Senhor!
37. Davi deixou ali, diante da arca da aliança do Senhor, Asaf e seus irmãos para fazerem continuamente o serviço diante da arca, segundo o seu dever de cada dia;
38. igualmente Obededom, com seus irmãos, em número de sessenta e oito; Obededom, filho de Iditum, e Hosa, como porteiros;
39. igualmente o sacerdote Sadoc e os sacerdotes seus irmãos, diante do tabernáculo do Senhor, no lugar alto de Gabaon,
40. para oferecer holocaustos ao Senhor, dia a dia, pela manhã e pela tarde, sobre o altar dos holocaustos, e para cumprir tudo que está escrito na lei que o Senhor deu a Israel.
41. Com eles estavam Hemã, Iditum e os outros que tinham sido escolhidos e designados nominalmente para louvar o Senhor, porque sua misericórdia é eterna.
42. Tinham consigo trombetas e címbalos para tocar, e instrumentos para os cânticos de Deus. Os filhos de Iditum estavam encarregados da porta.
43. Depois, todo o povo retornou para suas casas; e Davi voltou para abençoar sua casa.

 
Capítulo 17

1. Quando Davi se instalou em sua casa, disse ao profeta Natã: Eis que moro numa casa de cedro e a arca da aliança do Senhor está debaixo de uma tenda.
2. Natã respondeu: Faze o que teu coração te sugere, porque Deus está contigo.
3. Mas, na noite seguinte, a palavra de Deus foi dirigida a Natã, nestes termos:
4. Vai e dize a Davi, meu servo: Eis o que diz o Senhor: Não és tu que me construirás a casa em que habitarei.
5. Nunca habitei numa casa, desde o dia em que fiz sair Israel do Egito até hoje, mas tenho estado de tenda em tenda, de morada em morada.
6. Durante todo o tempo em que viajei com todo o Israel, jamais propus esta questão a algum dos juízes de Israel, aos quais encarregara de apascentar meu povo: Por que não me edificais uma casa de cedro?
7. Agora dirás a meu servo Davi: Eis o que diz o Senhor dos exércitos: Eu te tirei dos campos de pastagens e do pastoreio das ovelhas, para seres o chefe de meu povo de Israel;
8. em toda parte a que foste, estive contigo, exterminei diante de ti teus inimigos e dei-te um nome igual ao dos grandes da terra.
9. Dei um lugar a meu povo de Israel, e o fixei. Ele está estabelecido, e não será mais inquietado, e os iníquos não mais o oprimirão, como outrora,
10. como nos dias em que estabeleci juízes sobre Israel, meu povo. Humilhei todos os teus inimigos. Eu te anuncio que o Senhor há de fundar para ti uma casa.
11. Quando teus dias se acabarem e tiveres ido juntar-te a teus pais, levantarei tua posteridade após ti, num de teus filhos, e firmarei seu reino.
12. É ele que me construirá uma casa e firmarei seu trono para sempre.
13. Serei para ele um pai, e ele será para mim um filho; e nunca retirarei dele o meu favor como retirei daquele que reinou antes de ti.
14. Eu o estabelecerei na minha casa e no meu reino para sempre, e seu trono será firme por todos os séculos.
15. Natã referiu a Davi todas as palavras que tinha ouvido em visão.
16. Então Davi foi e se apresentou diante do Senhor e disse: Quem sou eu, Senhor Deus, e que é minha casa, para que me façais chegar ao que sou?
17. E é ainda pouco a vossos olhos, ó Deus! Falastes da casa de vosso servo para os tempos longínquos, e olhastes para mim como a um homem de alta dignidade, ó Senhor Deus.
18. Que mais poder-vos-ia dizer Davi sobre a honra que fazeis ao vosso servo? Vós conheceis o vosso servo.
19. Senhor, é por causa de vosso servo e segundo o impulso de vosso coração que executastes todas estas grandes coisas para lhas revelar.
20. Senhor, ninguém é semelhante a vós, e, conforme tudo que ouvimos dizer, não há outro Deus além de vós.
21. Há sobre a terra outra nação comparável ao nosso povo de Israel, o qual seu Deus veio redimir para dele fazer seu povo, para vos fazer célebre, por meio de milagres e prodígios, repelindo nações diante de vosso povo que redimistes do Egito?
22. De Israel, fizestes vosso povo para sempre, e vós, Senhor, tornastes-vos seu Deus.
23. E agora, Senhor, possa a palavra que pronunciastes acerca de vosso servo e de sua casa subsistir eternamente! Fazei como o dissestes.
24. Que ela subsista; então vosso nome será eternamente exaltado e dir-se-á: o Senhor dos exércitos é o Deus de Israel; é um Deus para Israel. E que seja sólida diante de vós a casa de vosso servo Davi.
25. Porque fostes vós mesmo, ó meu Deus, que revelastes a vosso servo que lhe constituiríeis uma casa; eis por que vosso servo ousa dirigir-vos esta prece.
26. Agora, Senhor, vós sois Deus, e dissestes a vosso servo essa palavra agradável.
27. Dignai-vos, portanto, abençoar a casa de vosso servo, para que ela subsista perpetuamente diante de vós; porque, o que abençoais, Senhor, é para sempre bendito.

 
Capítulo 18

1. Depois disso, Davi derrotou os filisteus e os submeteu; arrebatou de suas mãos Get e suas cidades anexas.
2. Em seguida, derrotou os moabitas que se tornaram seus vassalos e lhe pagaram tributo.
3. Davi venceu, em seguida, Adarezer, rei de Soba, em Hamat, quando estava a caminho para estabelecer seu domínio sobre as margens do Eufrates.
4. Davi tomou-lhe mil carros, sete mil cavaleiros e vinte mil soldados de infantaria. Cortou os jarretes de todos os cavalos de tiro e deles conservou somente cem.
5. Os sírios de Damasco vieram em socorro de Adarezer, rei de Soba; Davi matou vinte e dois mil deles.
6. Em seguida, estabeleceu guarnições na Síria de Damasco; os sírios tornaram-se seus vassalos e lhe pagaram tributo. Assim o Senhor lhe dava vitórias onde quer que fosse.
7. Davi apoderou-se dos escudos de ouro com os quais se cobriam os servos de Adarezer e os transportou para Jerusalém.
8. Em Tebat e em Cun, cidades de Adarezer, tomou ainda Davi grande quantidade de bronze, as colunas e os utensílios de bronze.
9. Quando Tou, rei de Hamat, soube que Davi tinha desfeito todo o exército de Adarezer, rei de Soba,
10. enviou-lhe Adorão, seu filho, para saudá-lo e felicitá-lo por ter atacado Adarezer e por tê-lo vencido; porque Tou estava em contínua guerra com Adarezer. Enviou-lhe também toda espécie de vasos de ouro, de prata e de bronze.
11. O rei Davi consagrou-os ao Senhor com o ouro e a prata que tinha tomado de todas as nações pagãs, em Edom, em Moab, dos amonitas, dos filisteus e de Amalec.
12. Abisai, filho de Sarvia, derrotou os idumeus no vale do Sal: eram dezoito mil.
13. Colocou guarnições em Edom, e todo Edom ficou sujeito a Davi. O Senhor dava a vitória a Davi onde quer que fosse.
14. Davi reinou sobre todo o Israel, julgando e fazendo justiça a todo o seu povo.
15. Joab, filho de Sarvia, comandava o exército; Josafá, filho de Ailud, era arquivista;
16. Sadoc, filho de Aquitob, e Aquimelec, filho de Abiatar, eram sacerdotes; Susa era secretário;
17. Banaias, filho de Jojada, era chefe dos cereteus e dos feleteus; e os filhos de Davi eram os primeiros ao lado do rei.

 
Capítulo 19

1. Depois disso, Naas, rei dos amonitas, faleceu, e seu filho lhe sucedeu.
2. Davi disse: Eu mostrarei afeto benigno a Hanon, filho de Naas, porque seu pai o mostrou para comigo. E Davi enviou-lhe, por meio de mensageiros, suas condolências por causa da morte de seu pai. Mas quando os servos de Davi chegaram à terra dos amonitas, junto de Hanon, para o consolarem,
3. os chefes dos amonitas disseram: Pensas que é para honrar teu pai que Davi te enviou consoladores? Não é antes para reconhecer e explorar a terra, e preparar-lhe a ruína, que seus servos vieram à tua casa?
4. Hanon, então, prendeu os servos de Davi, raspou-os, e lhes cortou as vestes à meia altura, até o alto das coxas; em seguida, despediu-os.
5. Quando Davi foi informado do que tinha acontecido a esses homens, enviou-lhes homens ao encontro, pois estavam sumamente confundidos. O rei mandava-lhes dizer: Ficai em Jericó, esperando que vossa barba cresça, em seguida voltai.
6. Viram os amonitas que se tinham tornado odiosos a Davi. Então Hanon e os filhos de Amon enviaram mil talentos de prata para assalariar carros e cavaleiros entre os sírios da Mesopotâmia, de Maaca e de Soba.
7. Assalariaram trinta e dois mil carros e o rei de Maaca com seu exército, o qual veio acampar perto de Medaba, enquanto os amonitas, deixando suas cidades, se reuniam e iam para a guerra.
8. Davi o soube, e mandou contra eles Joab com todo o exército de homens valentes.
9. Os amonitas saíram e formaram-se em linha de batalha à porta da cidade. Os reis que tinham vindo mantinham-se à parte, no campo.
10. Vendo Joab que o ataque contra ele tinha sido disposto pela frente e pela retaguarda, escolheu dentre o escol de Israel um batalhão, e o colocou em linha de batalha diante dos sírios;
11. colocou sob o comando de seu irmão Abisai o resto do povo para fazer frente aos amonitas.
12. E disse: Se os sírios forem mais fortes que eu, virás em meu socorro; se os amonitas forem mais fortes que tu, eu te socorrerei.
13. Sê forte; combate valentemente pelo nosso povo e pelas cidades de nosso Deus, e faça o Senhor o que lhe parecer bom!
14. Joab, pois, avançou com o exército que o acompanhava, ao encontro dos sírios, para travar o combate, e estes fugiram diante dele.
15. Quando os amonitas viram que os sírios se punham em fuga, fugiram eles próprios diante de Abisai, irmão de Joab, e tornaram a entrar na cidade. E Joab entrou em Jerusalém.
16. Vendo-se derrotados por Israel, os sírios enviaram mensageiros para fazer vir os sírios que estavam do outro lado do rio: Sofac, comandante do exército de Adarezer, estava à frente deles.
17. Davi, informado disso, reuniu todo o Israel, atravessou o Jordão, dirigiu-se a eles e preparou-se para atacá-los, colocando o seu exército em linha de batalha contra os sírios.
18. Estes começaram o combate contra ele, mas fugiram diante de Israel, e Davi matou os cavalos de seus sete mil carros e quarenta mil soldados de infantaria, e matou também Sofac, comandante do exército.
19. Os súditos de Adarezer, vendo-se vencidos por Israel, fizeram paz com Davi e sujeitaram-se a ele. E os sírios não mais quiseram prestar auxílio aos amonitas.

 
Capítulo 20

1. No ano seguinte, no tempo em que os reis costumavam ir para a guerra, Joab, à frente de um poderoso exército, devastou a terra dos amonitas e veio sitiar Raba. Joab conquistou Raba e a destruiu.
2. Davi tomou a coroa da cabeça de seu rei, a qual pesava um talento de ouro. Estava ornada com uma pedra preciosa; e ela foi colocada na cabeça de Davi. Levou também da cidade muitos despojos.
3. Quanto ao povo que lá se encontrava, fê-lo sair, e colocou-o em trabalhos de serra, de picaretas de ferro e de machados. Fez o mesmo com todas as cidades dos amonitas. Em seguida, Davi voltou para Jerusalém com todo o seu exército.
4. Depois disso, houve um combate em Gazer contra os filisteus. Então Sobocai, o husatita, matou Safai, um dos descendentes de Rafa, e os filisteus foram submetidos.
5. Houve ainda uma batalha com os filisteus; e Elcanã, filho de Jair, matou Lacmi, irmão de Golias, de Get, que tinha uma lança cujo cabo parecia um cilindro de tecelões.
6. Houve ainda um combate em Get. Lá havia um homem de alta estatura que tinha seis dedos em cada mão e em cada pé, ao todo vinte e quatro; também ele era da descendência de Rafa.
7. Desafiou Israel, e Jônatas, filho de Sama, irmão de Davi, o matou.
8. Esses homens eram filhos de Rafa, em Get; pereceram pela mão de Davi e de seus servos.

 
Capítulo 21

1. Levantou-se Satã contra Israel, e excitou Davi a fazer o recenseamento de Israel.
2. Disse Davi a Joab e aos chefes do povo: Ide, fazei o recenseamento dos israelitas desde Bersabéia até Dã e fazei-me um relatório, para que eu saiba o número deles.
3. Respondeu Joab: O Senhor multiplique seu povo cem vezes mais! Não são todos eles, ó rei, meu senhor, os servos de meu senhor? Por que, no entanto, exige meu senhor isso? Por que sobrecarregar Israel de um pecado?
4. Mas o rei persistiu na ordem que dera a Joab. Joab partiu e percorreu todo o Israel, depois retornou a Jerusalém.
5. E entregou a Davi a lista do recenseamento do povo: havia em todo o Israel um milhão e cem mil homens aptos para o manejo da espada, e, em Judá, quatrocentos e setenta mil.
6. Não fez o recenseamento da tribo de Levi nem de Benjamim, porque a ordem do rei lhe repugnava.
7. Deus não viu isso com bons olhos e feriu Israel.
8. Davi disse a Deus: Pequei gravemente agindo de tal maneira. Agora dignai-vos perdoar a iniqüidade de vosso servo, porque agi em completa insensatez.
9. Então o Senhor dirigiu-se a Gad, vidente de Davi, nesses termos:
10. Vai dizer a Davi: Eis o que diz o Senhor: Eu te proponho três coisas; escolhe uma delas e eu ta farei.
11. Gad foi ao encontro de Davi e lhe disse: Eis o que disse o Senhor:
12. Escolhe: ou três anos de fome, ou três meses durante os quais fugirás de teus inimigos e serás atingido por sua espada, ou ainda três dias em que a espada do Senhor ou a peste maltratarão a terra, e o anjo do Senhor devastará todo o território de Israel. A ti compete ver agora que resposta devo dar àquele que me enviou.
13. Estou, respondeu Davi, numa cruel angústia. Ah! Caia eu nas mãos do Senhor, porque imensa é sua misericórdia; mas que eu não caia nas mãos dos homens!
14. E o Senhor mandou a peste a Israel. Em Israel tombaram setenta mil homens.
15. Deus enviou a Jerusalém um anjo para destruí-la. Enquanto ele a assolava, o Senhor, que olhava, compadeceu-se desse mal, e disse ao anjo destruidor: Basta! Retira agora tua mão! Ora, o anjo do Senhor achava-se perto da eira de Ornã, o jebuseu.
16. Davi, tendo levantado os olhos, viu o anjo do Senhor que estava entre o céu e a terra, com uma espada desembainhada em sua mão, dirigida contra Jerusalém. Então Davi e os anciãos, cobertos de sacos, prostraram-se com o rosto por terra.
17. E Davi disse a Deus: Não fui eu que mandei fazer o recenseamento do povo? Fui eu que pequei, fui eu que fiz esse mal. Mas essas ovelhas, que fizeram elas? Senhor, meu Deus, que vossa mão caia, portanto, sobre mim e sobre a casa de meu pai para castigar, mas não sobre vosso povo.
18. O anjo do Senhor mandou Gad dizer a Davi que subisse à eira de Ornã, o jebuseu, para lá levantar um altar ao Senhor.
19. Davi lá subiu, de acordo com a ordem dada por Gad da parte do Senhor.
20. Ornã, voltando-se, viu o anjo, e ele com seus quatro filhos esconderam-se: estava, naquela ocasião, debulhando trigo.
21. Quando Davi chegou perto de Ornã, este o viu; saiu da eira e se prosternou diante de Davi, com o rosto contra a terra.
22. Davi disse-lhe: Cede-me o terreno de tua eira, para nela construir um altar ao Senhor; cede-o a mim pelo seu valor em dinheiro, para que o flagelo se retire de cima do povo.
23. Ornã respondeu: Toma-o; que meu senhor, o rei, faça o que lhe parecer bom. Vê: dou os bois para o holocausto, os carros para lenha, e o trigo para a oblação; tudo te dou.
24. Não, respondeu Davi, quero comprá-lo pelo seu inteiro valor em dinheiro; não tomarei o que te pertence para dar ao Senhor, e não oferecerei um holocausto que não me custe nada.
25. Davi deu a Ornã um peso de seiscentos siclos de ouro pelo terreno.
26. E Davi construiu lá um altar ao Senhor; ofereceu holocausto e sacrifícios pacíficos. Invocou o Senhor que lhe respondeu enviando o fogo do céu sobre o altar de holocusto.
27. Então o Senhor falou ao anjo, e este meteu a espada na bainha.
28. Nesse momento, vendo Davi que o Senhor o tinha ouvido na eira de Ornã, o jebuseu, ofereceu ali sacrifícios.
29. O tabernáculo do Senhor que Moisés construíra no deserto e o altar dos holocaustos se encontravam, nesse tempo, no lugar alto de Gabaon.
30. Mas Davi não pôde dirigir-se a esse altar, para rogar a Deus, tão aterrado ficara ao ver a espada do anjo do Senhor.

 
Capítulo 22

1. E Davi disse: É aqui a casa do Senhor Deus e este o altar dos holocaustos para Israel.
2. Mandou Davi que se juntassem os estrangeiros que viviam na terra de Israel, e designou os trabalhadores para trabalharem as pedras que deviam servir para a construção da casa de Deus.
3. Preparou também ferro em abundância, tanto para os pregos dos batentes das portas como para travar as juntas, e uma enorme quantidade de bronze.
4. e de cedros sem conta; pois os sidônios e os tírios lhe tinham enviado uma grande quantidade deles.
5. Davi dizia: Meu filho Salomão é ainda um menino fraco e a casa que se há de construir ao Senhor deve ser de uma grande magnificência, para ser ilustre e célebre em todos os países. Quero, pois, fazer-lhe os preparativos. Por isso, antes de morrer, ele fez grandes preparativos.
6. Depois chamou Salomão, seu filho, e ordenou-lhe que construísse um templo ao Senhor, Deus de Israel.
7. Meu filho, disse-lhe ele, eu me tinha decidido a construir uma casa ao nome do Senhor, meu Deus.
8. Mas a palavra do Senhor me foi dirigida nesses termos: Tu derramaste muito sangue e fizeste grandes guerras. Tu não construirás uma casa a meu nome; pois derramaste diante de mim muito sangue sobre a terra.
9. Eis: Nascer-te-á um filho que há de ser um homem pacífico; assegurar-lhe-ei a tranqüilidade com todos os seus inimigos ao redor. Seu nome será Salomão. E, durante seu tempo, darei paz e calma a Israel.
10. Ele me edificará um templo; será para mim um filho; eu serei para ele um pai, e firmarei para sempre o trono de sua realeza sobre Israel.
11. Portanto, que o Senhor esteja contigo, meu filho, para que prosperes e construas o templo do Senhor, teu Deus, segundo o que disse de ti.
12. Que o Senhor se digne conceder-te sabedoria e inteligência, quando te fizer reinar sobre Israel, para que observes a lei do Senhor, teu Deus.
13. Prosperarás, então, se te aplicares à observância das leis e dos mandamentos que o Senhor prescreveu a Moisés para Israel. Sê forte e corajoso, não temas, nem te amedrontes.
14. Eis que, por meus esforços, preparei para a casa do Senhor cem mil talentos de ouro, um milhão de talentos de prata, bronze e ferro em tal quantidade que se não poderia pesar: preparei também madeira e pedras; e tu ainda acrescentarás mais.
15. Tens a teu dispor uma multidão de operários: talhadores, pedreiros, carpinteiros e artífices hábeis em todas as espécies de ofícios.
16. O ouro, a prata, o bronze e o ferro existem em número incalculável. Vamos ao trabalho, e que o Senhor esteja contigo!
17. Davi mandou a todos os chefes de Israel ajudar Salomão, seu filho:
18. O Senhor, vosso Deus, disse-lhes ele, não está convosco? Não vos assegurou ele a paz em todas as vossas fronteiras? Com efeito, ele entregou nas minhas mãos os habitantes da terra, que atualmente estão sujeitos ao Senhor, e a seu povo.
19. Aplicai-vos, pois, de todo o vosso coração e vossa alma a buscar o Senhor vosso Deus. Construí o santuário do Senhor Deus, para trazer a arca da aliança do Senhor e os utensílios sagrados de Deus ao templo que será edificado ao nome do Senhor.

 
Capítulo 23

1. Davi, achando-se velho e cheio de dias, constituiu Salomão, seu filho, rei de Israel.
2. Reuniu todos os chefes de Israel, os sacerdotes e os levitas.
3. Foram contados os levitas de trinta anos para cima; contados por cabeça e por homem, eram 38.000 homens.
4. Davi disse: 24.000 dentre eles serão colocados ao serviço do templo do Senhor, 6.000 serão escribas e juízes,
5. 4.000 porteiros e 4.000 para celebrarem o Senhor com os instrumentos que fiz para louvá-lo.
6. Davi distribuiu-os em classes, segundo as linhagens de Levi: Gerson, Caat e Merari.
7. Dos gersonitas: Leedã e Semei.
8. Filhos de Leedã, o chefe Jaiel, Zetã e Joel: três.
9. Filhos de Semei: Salomit, Hosiel e Arã: três. Foram estes os chefes das famílias de Leedã.
10. Filhos de Semei: Leet, Ziza, Jaus e Baria.
11. Tais são os filhos de Semei: quatro. Leet era o chefe, e Ziza, o segundo. Jaus e Baria, não tendo muitos filhos, foram contados em uma só classe, segundo a família deles.
12. Filhos de Caat: Amrão, Isaar, Hebron e Oziel: quatro.
13. Filhos de Amrão: Aarão e Moisés. Aarão foi separado para ser consagrado como santíssimo, ele e seus filhos para sempre, para queimar perfumes diante do Senhor, para servi-lo e para dar a bênção perpetuamente em seu nome.
14. Os filhos de Moisés, homem de Deus, foram contados na tribo de Levi.
15. Filhos de Moisés: Gerson e Eliezer.
16. Filho de Gerson: Subuel, o chefe.
17. Os filhos de Eliezer foram: Roobia, o chefe: Eliezer não teve outro filho, mas os filhos de Roobia foram muito numerosos.
18. Filho de Isaar: Salomit, o chefe.
19. Filhos de Hebron, Jeriau, o chefe; Amarias, o segundo; Jaaziel, o terceiro e Jecnaão, o quarto.
20. Filhos de Oziel: Mica, o chefe; Jesia, o segundo.
21. Filhos de Merari: Mooli e Musi. Filhos de Mooli, Eleazar e Cis.
22. Eleazar morreu sem ter filhos, mas somente filhas, que esposaram os filhos de Cis, seus parentes.
23. Filhos de Musi: Moloi, Eder e Jerimot: três.
24. Estes são os filhos de Levi, classificados por famílias, os chefes de família como foram enumerados, nominalmente e por cabeça. Eram encarregados do serviço do templo, desde a idade de vinte anos para cima.
25. Pois dizia Davi: O Senhor, Deus de Israel, deu a paz a seu povo; ele habitará para sempre em Jerusalém.
26. Também os levitas não tiveram mais que transportar a morada e todos os utensílios de seu serviço.
27. Foi segundo as últimas ordens de Davi que se fez o recenseamento dos filhos de Levi, da idade de vinte anos para cima.
28. Colocados juntos dos filhos de Aarão para o serviço da casa do Senhor, estavam encarregados do cuidado dos átrios e das salas, da purificação de todas as coisas santas, de todo o serviço do templo,
29. dos pães de proposição, da flor de farinha para as oblações, dos pães finos sem levedura, das tortas cozidas sobre a chapa e das tortas fritas, de todas as medidas de capacidade e comprimento.
30. Eles deviam apresentar-se cada manhã e cada tarde para louvar e celebrar o Senhor,
31. para oferecer todos os holocaustos ao Senhor, aos sábados, luas novas e nas solenidades, segundo o número que a lei prescreve que se ofereça ao Senhor.
32. Tinham eles que cuidar da manutenção da tenda de reunião, das coisas santas e dos filhos de Aarão, seus irmãos, para o serviço da casa do Senhor.

 
Capítulo 24

1. Eis as classes dos filhos de Aarão: Nadab, Abiú, Eleazar e Itamar.
2. Nadab e Abiú morreram antes de seu pai, sem filhos, e Eleazar e Itamar exerceram as funções do sacerdócio.
3. Davi, Sadoc, da linhagem de Eleazar, e Aquimelec, da linhagem de Itamar, dividiram os filhos de Aarão por classes, segundo o serviço deles.
4. Havia entre os filhos de Eleazar mais chefes que entre os filhos de Itamar; foram assim distribuídos: para os filhos de Eleazar, dezesseis chefes de família, e, para os filhos de Itamar, oito chefes de família.
5. Uns e outros foram divididos pela sorte, porque havia príncipes do santuário e príncipes de Deus, tanto entre os filhos de Eleazar, como entre os filhos de Itamar.
6. O escriba Semeias, filho de Natanael, um levita, inscreveu-os em presença do rei e dos príncipes, do sacerdote Sadoc e de Aquimelec, filho de Abiatar, como também de chefes de famílias sacerdotais e levíticas, sendo uma família sorteada para Eleazar, em seguida, uma família para Itamar.
7-18 A primeira sorte caiu a Joiarib, a segunda a Jedei, a terceira a Harim, a quarta a Seorim, a quinta a Melquia, a sexta a Maimã, a sétima a Acos, a oitava a Abia, a nona a Jesua, a décima a Sequenia, a undécima a Eliasib, a duodécima a Jacim, a décima terceira a Hofa, a décima quarta a Isbaab, a décima quinta a Belga, a décima sexta a Emer, a décima sétima a Hezir, a décima oitava a Afses, a décima nona a Fetéia, a vigésima a Ezequiel, a vigésima primeira a Jaquim, a vigésima segunda a Gamul, a vigésima terceira a Dalaiau, a vigésima quarta a Maziau.
19. Assim, foram eles classificados para seus serviços no templo do Senhor, segundo as regras estabelecidas por Aarão, seu pai, consoante as ordens do Senhor, Deus de Israel.
20. Dos restantes levitas, os chefes foram: dos filhos de Amrão: Subael; filho de Subael: Jeedeia;
21. de Roodia, dos filhos de Roodia: o chefe Jesias.
22. Dos isaaritas: Salemot; dos filhos de Salemot: Jaat.
23. Filhos de Hebron: Jeriau, Amarias, o segundo, Jaaziel, o terceiro, Jecmaã, o quarto.
24. Filho de Oziel: Mica; dos filhos de Mica: Samir;
25. irmão de Mica: Jesia; filho de Jesia: Zacarias.
26. Filhos de Merari: Mooli e Musi.
27. Filhos de Merari, por Oziau, seu filho: Saão, Zacur e Hebri.
28. De Mooli: Eleazar, que não teve filhos; de Cis, os filhos de Cis:
29. Jerameel.
30. Filhos de Musi: Mooli, Eder e Jerimot.
31. Estes são os filhos de Levi, segundo suas famílias.
32. Também eles, como seus irmãos, os filhos de Aarão, foram tirados pela sorte, em presença do rei Davi, de Sadoc e Aquimelec, como também dos chefes de família dos sacerdotes e levitas, estando os mais velhos em mesma igualdade que os mais novos.

 
Capítulo 25

1. Davi e os chefes do exército apartaram para o serviço os filhos de Asaf, de Hemã e de Iditum, que profetizavam ao som da harpa, da cítara e dos címbalos. Eis a lista dos homens encarregados deste serviço:
2. Dos filhos de Asaf: Zacur, José, Natania e Asarela, filhos de Asaf, sob a direção de Asaf, que profetizava segundo as ordens do rei.
3. De Iditum: os filhos de Iditum: Godolias, Sori, Jeseías, Hasabias, Matatias, e Semei, seis, sob as ordens de seu pai Iditum, que profetizava com a cítara para cantar e louvar ao Senhor.
4. De Hemã: os filhos de Hemã: Bociau, Mataniau, Oziel, Subuel, Jerimot, Ananias, Anani, Eliata, Gedelti, Romentiezer, Jesbacassa, Meloti, Otir e Maaziot;
5. eram todos filhos de Hamon, que era vidente do rei, para revelar as palavras de Deus e exaltar seu poder: Deus tinha dado a Hemã quatorze filhos e três filhas.
6. Eis, portanto, os que, sob a direção de seus pais, estavam encarregados do canto no templo. Tinham címbalos, cítaras e harpas para o serviço do templo, sob as ordens de Davi, de Asaf, de Iditum e de Hemã.
7. O número deles, juntamente com seus irmãos exercitados em cantar ao Senhor, todos hábeis em sua arte, atingia o número de duzentos e oitenta e oito.
8. Tiraram, pela sorte, a ordem de serviço, pequenos e grandes, mestres e discípulos.
9-31 A primeira sorte caiu por Asaf, a José; a segunda a Godolias com seus irmãos e seus filhos: doze; a terceira a Zacur com seus filhos e seus irmãos: doze; a quarta a Isari com seus filhos e seus irmãos: doze; a quinta a Natanias com seus filhos e seus irmãos: doze; a sexta a Bociau com seus filhos e seus irmãos: doze; a sétima, a Isreela com seus filhos e seus irmãos: doze; a oitava a Jeseías com seus filhos e seus irmãos: doze; a nona a Matanias com seus filhos e seus irmãos: doze; a décima a Semeías com seus filhos e seus irmãos: doze; a undécima a Azareel com seus filhos e seus irmãos: doze; a duodécima a Hasabias com seus filhos e seus irmãos: doze; a décima terceira a Subuel com seus filhos e seus irmãos: doze; a décima quarta a Matatias com seus filhos e seus irmãos: doze; a décima quinta a Jerimot com seus filhos e seus irmãos: doze; a décima sexta a Ananias com seus filhos e seus irmãos: doze; a décima sétima a Jesbacassa com seus filhos e seus irmãos: doze; a décima oitava a Anani com seus filhos e seus irmãos: doze; a décima nona a Meloti com seus filhos e seus irmãos: doze; a vigésima a Eliata com seus filhos e seus irmãos: doze; a vigésima primeira a Otir com seus filhos e seus irmãos: doze; a vigésima segunda a Gedelti com seus filhos e seus irmãos: doze; a vigésima terceira a Maaziot com seus filhos e seus irmãos: doze; a vigésima quarta a Romentiezer com seus filhos e seus irmãos: doze.

 
Capítulo 26

1. Eis as categorias de porteiros: Dos coritas: Meselemia, filho deCoré, dentre os filhos de Asaf.
2. Filhos de Meselemia: Zacarias, o primogênito; Jadiel, o segundo; Zabadias, o terceiro; Jatanael, o quarto;
3. Elão, o quinto; Joanã, o sexto; Elioenai, o sétimo.
4. Filhos de Obededom: Semeías, o primogênito; Jozabad, o segundo; Joaa, o terceiro; Sacar, o quarto; Natanael, o quinto;
5. Amiel, o sexto; Issacar, o sétimo; Folati, o oitavo; porque Deus tinha abençoado a Obededom.
6. Semeías, seu filho, teve filhos que se tornaram chefes de famílias, porque eram homens valorosos.
7. Os filhos de Semeías foram: Otni, Rafael, Obed, Elzabad e seus irmãos, homens valentes, Eliú e Samaquias.
8. Descendentes de Obededom, todos estes homens, assim como seus filhos e seus irmãos, homens distinguidos e qualificados para o serviço; eram ao todo sessenta e dois.
9. Meselemia tinha filhos e irmãos, homens capazes, ao número de dezoito.
10. Hosa, dos filhos de Merari, tinha por filhos Semri, o chefe; não era o mais velho, mas seu pai fizera dele chefe; Helcias, o segundo; Tabelias, o terceiro; Zacarias, o quarto.
11. Os filhos e irmãos de Hosa eram treze ao todo.
12. A estas classes de porteiros, aos chefes destes homens e a seus irmãos foram confiadas as funções para o serviço do templo.
13. Deitaram sorte para cada porta, pequenas e grandes, segundo suas famílias.
14. Do lado do oriente, a sorte tocou a Selemias. Tirou-se a sorte a Zacarias, seu filho, que era um sábio conselheiro, e a sorte lhe atribuiu o lado norte.
15. O lado sul tocou a Obededom, e a casa dos depósitos de provisões a seus filhos.
16. A Sefim e a Hosa coube o lado oeste, com a porta Schalequet, no caminho que sobe; uma guarda estava defronte à outra.
17. Ao oriente, havia seis levitas; ao norte, quatro por dia; ao sul, quatro por dia e nos armazéns, quatro, dois a dois;
18. do lado das dependências, a oeste, quatro no caminho, e dois nas dependências.
19. Tais são as classes de porteiros, dentre os filhos dos coritas e os filhos de Merari.
20. Os levitas, seus irmãos, tinham a guarda dos tesouros do templo e dos tesouros das coisas sagradas.
21. Dentre os filhos de Ledã, a saber, os filhos dos gersonitas, descendentes de Ledã, chefes das famílias de Ledã, o gersonita, era Jeiel;
22. os filhos de Jeiel, Zatã e Joel, seu irmão, tinham a guarda dos tesouros da casa de Deus.
23. Dentre os amranitas, os isaaritas, os hebronitas e os ozielitas,
24. era Subael, filho de Gerson, filho de Moisés, o intendente chefe dos tesouros.
25. Dentre seus irmãos, descendentes de Eliezer, cujo filho foi Raabia, cujo filho foi Isaías, e filho deste, Jorão, e filho deste, Zecri, e filho deste, Selemit;
26. eram Selemit e seus irmãos que administravam todos os tesouros das coisas santas, consagradas pelo rei Davi, pelos chefes de famílias, chefes de milhares e de centenas, e chefes do exército:
27. eles os tinham consagrado, do despojo da guerra, para a manutenção do templo.
28. Tudo o que tinha consagrado Samuel, o vidente, Saul, filho de Cis, Abner, filho de Ner, Joab, filho de Sarvia, tudo estava posto sob a guarda de Salemit e de seus irmãos.
29. Dentre os isaaritas, estavam postos à frente dos serviços exteriores em Israel, como escribas e magistrados, Conenias e seus filhos.
30. Hasabias, da família de Hebron, e seus irmãos, homens de valor, em número de mil e setecentos, faziam a inspeção de Israel, do outro lado do Jordão, a oeste, para todos os negócios religiosos e civis.
31. Quanto aos hebronitas, cujo chefe era Jeria, fez-se, no quadragésimo ano do reinado de Davi, pesquisas sobre suas genealogias e suas famílias, e foram encontrados entre eles homens de valor, em Jabes, de Galaad.
32. Jeria e seus irmãos, homens de valor, eram em número de dois mil e setecentos chefes de família. O rei Davi os estabeleceu sobre os rubenitas, sobre os gaditas e sobre a meia tribo de Manssés, para todos os negócios religiosos e civis.

 
Capítulo 27

1. Israelitas, segundo o seu número, chefes de famílias, chefes de milhares e de centenas, oficiais ao serviço do rei, para tudo que se referia às divisões chegando e partindo mensalmente, tendo cada divisão vinte e quatro mil homens:
2. À frente da primeira divisão, para o primeiro mês, achava-se Jesboão, filho de Zabdiel, e sua divisão era de vinte e quatro mil homens.
3. Ele era da linhagem de Farés e comandava todos os chefes de tropas do primeiro mês.
4. À frente da divisão do segundo mês, achava-se Dudia, o aoíta; Macelot era um dos chefes de sua divisão; sua divisão contava vinte e quatro mil homens.
5. O chefe da terceira divisão para o terceiro mês, era Banaías, filho do sacerdote-chefe Jojada, chefe; havia na sua divisão vinte e quatro mil homens.
6. Este Banaías era um herói dos Trinta, e um chefe dos Trinta; Amizabad, seu filho, era um chefe de sua divisão.
7. Para o quarto mês, havia Asael, irmão de Joab, a quem sucedeu seu filho Zabadias. A divisão contava vinte e quatro mil homens.
8. O quinto, para o quinto mês, era o chefe Samaot, o izraíta; e havia na sua divisão vinte e quatro mil homens.
9. O sexto, para o sexto mês, era Hira, filho de Acés, de Técua; havia na sua divisão vinte e quatro mil homens.
10. O sétimo, para o sétimo mês, era Heles, o falonita, dos filhos de Efraim; sua divisão contava vinte e quatro mil homens.
11. O oitavo, para o oitavo mês, era Sobocai, o husatita, da família dos zaraítas; e sua divisão compreendia vinte e quatro mil homens.
12. O nono, para o nono mês, era Abiezer, de Anatot dos filhos de Benjamim; e sua divisão contava vinte e quatro mil homens.
13. O décimo, para o décimo mês, era Marai, de Netofa, da família dos zaraítas; e sua divisão contava vinte e quatro mil homens.
14. O undécimo, para o undécimo mês, era Banaias, de Faraton, dos filhos de Efraim; e sua divisão contava vinte e quatro mil homens.
15. O duodécimo para o duodécimo mês, era Holdai, de Netofa, da família de Otoniel; e sua divisão contava vinte e quatro mil homens.
16. Eis os chefes das tribos de Israel: chefes dos rubenitas: Eliezer, filho de Zecri; dos simeonitas: Safatias, filho de Maaca;
17. dos levitas: Hasabias, filho de Camuel; da família de Aarão: Sadoc;
18. de Judá: Eliú, irmão de Davi; de Issacar: Amri, filho de Miguel;
19. de Zabulon: Jesmaías, filho de Abdias; de Neftali: Jerimot, filho de Ozriel;
20. dos filhos de Efraim; Oséias, filho de Ozaziu; da meia tribo de Manassés: Joel, filho de Fadaías;
21. da meia tribo de Manassés, em Galaad: Jado, filho de Zacarias; de Benjamim: Jasiel, filho de Abner;
22. de Dã: Ezriel, filho de Jeroão. Eram estes os chefes das tribos de Israel.
23. Não fez Davi a relação daqueles que tinham vinte anos para baixo, porque o Senhor tinha prometido multiplicar Israel como as estrelas do céu.
24. Joab, filho de Sarvia, tinha começado este recenseamento, mas não terminou, porque a ira de Deus viera sobre Israel, por causa do recenseamento; e o número deles não foi relacionado nas crônicas do rei Davi.
25. Asmot, filho de Adiel, estava encarregado dos tesouros do rei; Jonatã, filho de Ozias, dos tesouros que havia nos campos, nas cidades, nas aldeias e nas torres;
26. Ezri, filho de Quelub, era superintendente dos camponeses que cultivavam a terra;
27. Semei de Rama, das vinhas; Zabadias, de Safão, das provisões de vinho nas vinhas;
28. Balanã, de Geder, das oliveiras e sicômoros de Sefela;
29. Joás, das provisões de azeite; Setrai, de Saron, dos bois que pastavam em Saron; Safat, filho de Adli, dos bois dos vales;
30. Ubil, o ismaelita, dos camelos; Jadias, de Meronat, das jumentas;
31. Jaziz, o agareu, das ovelhas; eram estes os intendentes dos bens do rei Davi.
32. Jonatã, tio de Davi, exercia a função de conselheiro; era ele um homem prudente e sábio. Jaiel, filho de Hacamoni, estava com os filhos do rei.
33. Aquitofel era conselheiro do rei, e Cusai, o araquita, amigo do rei;
34. depois de Aquitofel, vinham Jojada, filho de Banaías e Abiatar. Joab era general do exército real.

 
Capítulo 28

1. Davi reuniu em Jerusalém todos os chefes de Israel: os chefes de tribos, os chefes de divisões a serviço do rei, os chefes de milhares e os chefes de centenas, os intendentes de todos os bens e rebanhos do rei e de seus filhos, assim como os eunucos, os heróis e todos os soldados valentes.
2. O rei Davi, de pé, disse-lhes: Escutai-me, meus irmãos e meu povo. Tinha eu a intenção de construir uma residência para a arca da aliança do Senhor e o escabelo dos pés de nosso Deus. Já havia feito preparativos para esta construção.
3. Mas Deus disse-me: Tu não construirás uma casa a meu nome, porque és um guerreiro e derramaste sangue.
4. O Senhor, Deus de Israel, escolheu-me do seio de toda a minha família para ser rei de Israel para sempre. Foi a Judá que escolheu por chefe; e da casa de Judá, a casa de meu pai, e entre os filhos de meu pai, foi a mim que elegeu para reinar sobre todo o Israel.
5. Dentre todos os meus filhos – pois o Senhor me deu muitos – ele escolheu meu filho Salomão, para fazê-lo assentar sobre o trono do reinado do Senhor em Israel.
6. É Salomão, teu filho, disse-me ele, que construirá minha casa e meus átrios, porque eu o escolhi por filho e ser-lhe-ei um pai.
7. Firmarei para sempre seu reino, se ele continuar a cumprir, como hoje, meus mandamentos e minhas ordens.
8. Agora, em presença de todo o Israel, da assembléia do Senhor, em presença de nosso Deus, que nos ouve, guardai e observai comigo todos os mandamentos do Senhor, nosso Deus, para manter a posse desta excelente terra, e legá-la a vossos filhos que vos seguirão para sempre.
9. E tu, Salomão, meu filho, conhece o Deus de teu pai e serve-o com um coração leal e com alma devotada, pois ele sonda todos os corações e penetra todos os desígnios do espírito. Se o procuras, ele deixar-se-á encontrar por ti; mas se o abandonas, rejeitar-te-á para sempre.
10. Considera, portanto, que o Senhor te escolheu para construir uma casa que será seu santuário. Coragem, e põe-te a trabalhar.
11. Davi deu a Salomão, seu filho, os planos do pórtico e das construções, salas do tesouro, aposentos superiores, aposentos interiores, assim como os da sala do propiciatório:
12. o plano de tudo que ele tinha no espírito referente ao átrio do templo, e a todas as salas ao redor, para os tesouros do templo e os tesouros das coisas sagradas,
13. para as classes de sacerdotes e levitas, assim como toda a organização do serviço da casa de Deus;
14. o modelo dos utensílios de ouro, com o peso de ouro, para todos os utensílios de cada serviço; o modelo de todos os utensílios de prata, com o peso de prata, para todos os utensílios de cada serviço;
15. o peso dos candeeiros de ouro e de suas lâmpadas de ouro; com a indicação do peso de cada candeeiro e de suas lâmpadas; o peso dos candeeiros de prata com a indicação do peso de cada candeeiro:
16. o peso de ouro para as mesas dos pães de proposição, para cada mesa e o peso de prata para as mesas de prata;
17. o modelo dos garfos, das bacias e copos de ouro puro; dos vasos de ouro com o peso de cada vaso, dos vasos de prata com o peso de cada vaso;
18. do altar dos perfumes, em ouro fino, com o peso; o modelo do carro, dos querubins de ouro que estendem suas asas para cobrir a arca da aliança do Senhor.
19. Tudo isso, disse Davi, todos os modelos destas obras, foi o Senhor quem me ensinou por um escrito de sua mão.
20. Disse Davi a Salomão, seu filho: Sê forte e, corajosamente, mete mãos à obra! Não temas nada e não te amedrontes; pois o Senhor Deus, meu Deus, estará contigo; ele não te desamparará, nem te abandonará até que tenhas acabado tudo o que se deve fazer para o serviço do templo.
21. Eis as classes dos sacerdotes e levitas para todo o serviço do templo, e eis que estão contigo, para todo este trabalho, todos os homens devotados e hábeis, estando sob as tuas ordens os chefes do povo.

 
Capítulo 29

1. Disse o rei Davi a toda a assembléia: Meu filho Salomão, o único que Deus escolheu, é ainda jovem e fraco, e a obra é considerável, pois não é a um homem que este palácio é destinado, mas ao Senhor Deus.
2. Empenhei todos os meus esforços em preparar para a casa de meu Deus ouro para os objetos de ouro, prata para os objetos de prata, bronze para os objetos de bronze, ferro para os objetos de ferro, madeira para os objetos de madeira, pedras de ônix, e pedras de engaste, pedras preciosas de diversas cores, todas as espécies de pedras preciosas e mármore em grande quantidade.
3. Ademais, o ouro e a prata que possuo como propriedade minha, dou-os por amor para a casa de meu Deus, além de tudo o que preparei para o santuário:
4. três mil talentos de ouro, ouro de Ofir, e sete mil talentos de fina prata para revestir as paredes das salas.
5. Quanto a ouro para a ourivesaria, prata para a prataria, e para todo o trabalho dos artífices, quem quer, ainda hoje, oferecer espontaneamente donativos ao Senhor?
6. Os chefes das famílias, os chefes das tribos de Israel, os chefes de milhares e de centenas, assim como os intendentes do rei, fizeram donativos voluntários.
7. Deram, para o serviço do templo, cinco mil talentos de ouro, dez mil dáricos, dez mil talentos de prata, dezoito mil talentos de bronze e cem mil talentos de ferro.
8. Aqueles que possuíam pedras preciosas deram-nas para o tesouro da casa de Deus, em mãos de Jeiel, o gersonita.
9. O povo se alegrava com suas oferendas voluntárias, pois era de coração generoso que as faziam ao Senhor; e o próprio rei Davi sentiu uma grande alegria.
10. Davi bendisse o Senhor, em presença de toda a assembléia Sede bendito, disse ele, para todo o sempre, Senhor, Deus de nosso pai Israel!
11. A vós, Senhor, a grandeza, o poder, a honra, a majestade e a glória, porque tudo que está no céu e na terra vos pertence. A vós, Senhor, a realeza, porque sois soberanamente elevado acima de todas as coisas.
12. É de vós que vêm a riqueza e a glória, sois vós o Senhor de todas as coisas; é em vossa mão que residem a força e o poder. E é vossa mão que tem o poder de dar a todas as coisas grandeza e solidez.
13. Agora, ó nosso Deus, nós vos louvamos e celebramos vosso nome glorioso.
14. Quem sou eu, e quem é meu povo, para que possamos fazer-vos voluntariamente estas oferendas? Tudo vem de vós e não oferecemos senão o que temos recebido de vossa mão.
15. Diante de vós, não passamos de estrangeiros e peregrinos, como todos os nossos pais; nossos dias na terra são como a sombra, sem que haja esperança.
16. Senhor, nosso Deus, todas estas riquezas que preparamos para construir uma casa a vosso santo nome, é de vossa mão que elas vêm e a vós pertencem.
17. Eu sei, meu Deus, que perscrutais os corações e amais a retidão; por isso, é na retidão e espontaneidade de meu coração que vos ofereço tudo isso e é com alegria que vejo agora vosso povo, aqui presente, fazer-vos suas oferendas voluntárias.
18. Senhor, Deus de Abraão, de Isaac e de Israel, nossos pais, guardai para sempre no coração de vosso povo estas disposições e sentimentos, e dirigi seu coração para vós.
19. A meu filho Salomão, dai um coração íntegro para observar vossos mandamentos, vossos preceitos e vossas leis, para pô-los todos em prática, e para construir este edifício do qual fiz os preparativos.
20. Depois disse Davi a toda a assembléia: Bendizei ao Senhor, nosso Deus. E toda a assembléia bendisse ao Senhor, o Deus de seus pais, inclinando-se e prostrando-se diante do Senhor e diante do rei.
21. No dia seguinte, imolaram as vítimas ao Senhor, e ofereceram em holocausto mil touros, mil carneiros e mil cordeiros, com as libações ordinárias, e outros sacrifícios em grande quantidade por todo o Israel.
22. Nesse dia comeram e beberam diante do Senhor com grande alegria. Pela segunda vez, proclamaram rei a Salomão, filho de Davi, e ungiram-no chefe diante do Senhor. Ungiram também Sadoc, como sumo sacerdote.
23. Salomão tomou posse do trono do Senhor como rei, no lugar de Davi, seu pai; prosperou, e todo o Israel lhe obedeceu.
24. Todos os chefes e heróis, e mesmo todos os filhos do rei Davi, sujeitaram-se ao rei Salomão.
25. O Senhor elevou ao mais alto grau a grandeza de Salomão, à vista de todo o Israel e deu a seu reino tal esplendor que nenhum rei de Israel jamais possuíra antes dele.
26. Davi, filho de Isaí, tinha reinado sobre todo o Israel.
27. A duração de seu reinado sobre Israel foi de quarenta anos: sete anos em Hebron, e trinta e três anos em Jerusalém.
28. Faleceu numa feliz velhice, carregado de dias, de riquezas e de glória. Seu filho Salomão sucedeu-lhe no trono.
29. Os feitos do rei Davi, dos primeiros aos últimos, estão relatados no livro de Samuel, o vidente, no livro do profeta Natã, e no livro de Gad, o vidente.
30. com todo o seu reino e todos os seus feitos, e as vicissitudes pelas quais passou, assim como Israel e todos os reinos das terras vizinhas.

 

II Livro das Crônicas

II Livro das Crônicas

 Capítulo 1

1. Salomão, filho de Davi, consolidou-se no seu reino. O Senhor, seu Deus, estava com ele e desenvolvia seu poder.
2. O rei deu ordens a todo o Israel, aos chefes de milhares, chefes de centenas, aos juízes e aos príncipes, aos principais chefes de família,
3. e todos com ele dirigiram-se ao lugar alto de Gabaon; pois é lá que se encontrava a tenda de reunião de Deus, que Moisés, servo do Senhor, tinha construído no deserto.
4. Quanto à arca de Deus, Davi a tinha transportado de Cariatiarim ao lugar que lhe tinha preparado, pois havia preparado para ela um pavilhão em Jerusalém.
5. Encontrava-se também em Gabaon, diante do santuário do Senhor, o altar de bronze que Bezeleel, filho de Uri, filho de Hur, tinha construído. Salomão vinha, pois, consultar o Senhor, com a assembléia.
6. Lá, sobre o altar de bronze, na presença do Senhor, perto da tenda de reunião, Salomão ofereceu mil holocaustos.
7. Nessa mesma noite, Deus apareceu ao rei e lhe disse: Pede o que desejas, que eu te dou.
8. Salomão respondeu a Deus: Vós tratastes meu pai Davi com uma grande benevolência, e me fizestes rei em seu lugar.
9. Senhor, Deus, ratificai, portanto, a promessa que fizestes a Davi, meu pai, já que me fizestes rei de um povo numeroso como o pó da terra.
10. Dignai-vos, portanto, conceder-me a sabedoria e a inteligência, a fim de que eu saiba como me conduzir à frente desse povo. (Sem isso), quem poderia governar esse povo tão grande como é o vosso?
11. Disse Deus a Salomão: Já que este é o desejo de teu coração, e não me pedes nem riquezas, nem tesouros, nem glória, nem a vida de teus inimigos, nem uma longa vida, mas me pedes sabedoria e inteligência a fim
de bem governar o povo do qual eu te fiz rei,
12. pois bem, a sabedoria e a inteligência ser-te-ão concedidas, mas também riquezas, tesouros e glória mais do que jamais possuíram os reis, teus predecessores, e que jamais possuirão teus sucessores.
13. Então, descendo do lugar alto de Gabaon onde estava a tenda de reunião, Salomão retornou a Jerusalém. Ele reinava sobre Israel.
14. Ajuntou ele carros e cavalos: possuía mil e quatrocentos carros e doze mil cavaleiros, que colocou nas cidades para os carros, assim como em Jerusalém, perto de si.
15. Graças a ele, a prata e o ouro tornaram-se em Jerusalém tão comuns como pedras, e os cedros tão numerosos como os sicômoros da planície.
16. Era do Egito que Salomão importava seus cavalos; uma caravana de fornecedores reais ia buscá-los em tropas por um preço ajustado.
17. Importavam do Egito uma parelha completa por seiscentos siclos de prata; e um cavalo por cento e cinqüenta. Assim, da mesma maneira, faziam vir para os reis dos hititas e para os da Síria.

 
Capítulo 2

1. Decidiu Salomão edificar um templo ao nome do Senhor, e construir para si próprio um palácio.
2. Ele alistou setenta mil carregadores, oitenta mil cortadores de pedra na montanha, e três mil e seiscentos guardas de obras.
3. Em seguida, mandou dizer a Hirão, rei de Tiro: Digna-te fazer para mim o que fizeste para meu pai Davi, a quem enviaste cedros para construir uma residência.
4. Quero edificar um templo ao nome do Senhor, meu Deus; a ele eu o consagrarei e nele farei queimar em sua presença perfumes aromáticos. Mandar-lhe-ei apresentar continuamente pães, e oferecer os holocaustos da manhã e da tarde, dos sábados, das neomênias e das festas do Senhor, nosso Deus, segundo a lei eterna prescrita a Israel.
5. O templo que vou construir deve ser grande, pois nosso Deus é maior que todos os deuses.
6. Mas, quem será capaz de construir-lhe uma casa, uma vez que o céu e os céus dos céus não o podem conter? Quem sou eu para fazer isso? Não posso senão mandar queimar incenso diante dele.
7. Digna-te, portanto, enviar-me um homem experiente no trabalho do ouro, da prata, do bronze, do ferro, da púrpura azul e violeta, um homem que entenda suficientemente de escultura para dirigir os artífices de Judá e de Jerusalém, que meu pai Davi reuniu junto de mim.
8. Manda-me do Líbano madeira de cedro, cipreste e sândalo, pois eu sei que teus súditos são muito peritos em cortar as madeiras do Líbano. Meus servos auxiliarão os teus.
9. Manda-me preparar madeira em grande quantidade, porque o templo que vou construir será grande e magnífico.
10. A teus servos que hão de cortar as madeiras, darei por alimento vinte mil coros de trigo, vinte mil coros de cevada, vinte mil batos de vinho e vinte mil batos de azeite.
11. Hirão, rei de Tiro, respondeu numa carta que enviou a Salomão: É porque o Senhor ama seu povo, que te constituiu rei sobre ele. Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, que fez os céus e a terra, que deu ao rei Davi um filho sábio, inteligente e prudente, que vai construir um templo ao Senhor, assim como um palácio real.
12. Envio-te, portanto, um homem hábil e entendido, Hurão-Abi,
13. filho de uma mulher da tribo de Dã, e de um pai tírio. Ele sabe trabalhar em ouro, em prata, em bronze, em ferro, em madeira, em púrpura azul e violeta, em linho fino e em carmezim; ele sabe fazer todas as espécies de esculturas e elaborar todo plano que se lhe confie. Trabalhará ele com teus artífices e com os de meu senhor Davi, teu pai.
14. Que meu senhor envie, portanto, a seus servos o trigo, a cevada, o azeite e o vinho de que falou.
15. Nós cortaremos madeiras do Líbano, tanta quanta precisares, e enviar-te-emos pelo mar, em jangadas, até Jope, donde farás subir até Jerusalém.
16. Salomão fez o recenseamento de todos os estrangeiros que habitavam em Israel, segundo o recenseamento que já tinha feito seu pai Davi; encontraram-se cento e cinqüenta e três mil e seiscentos.
17. Deles designou setenta mil carregadores, oitenta mil que cortassem pedras na montanha, e três mil e seiscentos inspetores de obras para incentivar toda essa gente.

 
Capítulo 3

1. Salomão começou a construção do templo do Senhor, em Jerusalém, no monte Mória, para isso designado por Davi, seu pai, no mesmo lugar que Davi preparara, na eira de Ornã, o jebuseu.
2. Foi no segundo dia do segundo mês, no quarto ano de seu reinado, que iniciou a obra.
3. Estes são os fundamentos determinados por Salomão para a construção do templo: de comprimento, sessenta côvados, segundo a antiga medida; de largura, vinte côvados.
4. O pórtico, que se achava no frontispício, e cujo comprimento correspondia à largura do edifício, tinha vinte côvados, e vinte de altura. Era revestido de ouro puro por dentro.
5. A grande sala foi forrada de ciprestes; ele a guarneceu de ouro puro nos lugares em que estavam esculpidas as palmas e as pequenas cadeias.
6. Ornou esta sala com pedras preciosas; o ouro era de Parvaim.
7. O rei revestiu de ouro a sala: traves, umbrais, paredes e portas; nas paredes mandou esculpir querubins.
8. Fez também a construção da sala do Santo dos Santos, cujo comprimento, igual à largura do edifício, era de vinte côvados. O valor do ouro fino, com que o recobriu, era de seiscentos talentos.
9. Mesmo os pregos eram de ouro e pesavam cinqüenta siclos. Revestiu igualmente de ouro os aposentos.
10. Para o interior do Santo dos Santos, mandou esculpir dois querubins e os revestiu de ouro.
11. O comprimento de suas asas era de vinte côvados; uma asa do primeiro, de cinco côvados de comprimento, tocava a parede da sala, e outra, de cinco côvados, tocava a asa do segundo querubim.
12. Uma asa do segundo querubim, de cinco côvados de comprimento, tocava a parede da sala, e a outra, de cinco côvados de comprimento, tocava a asa do primeiro.
13. Assim, a envergadura das asas destes querubins era de vinte côvados. Sustentavam-se sobre seus pés, com o rosto voltado para a sala.
14. O rei mandou fazer uma cortina em púrpura violeta, carmesim e linho fino, e nela mandou bordar querubins.
15. Diante do edifício, levantou duas colunas de trinta e cinco côvados de altura, tendo no alto um capitel de cinco côvados.
16. Como para o santuário, fez pequenas cadeias, colocou-as no cimo das colunas, e suspendeu nelas cem romãs.
17. Levantou colunas, uma à direita e outra à esquerda da fachada do templo: chamou à da direita Jaquim e à da esquerda Boaz.

 
Capítulo 4

1. Construiu também um altar de bronze de vinte côvados de comprimento, vinte de largura e dez de altura.
2. Fabricou o mar de metal fundido, o qual tinha uma largura de dez côvados de uma borda a outra. Era redondo e sua altura era de cinco côvados: sua circunferência era medida por um cordão de trinta côvados.
3. Figuras de bois circundavam-no todo, ao redor, debaixo do rebordo, dez por cada côvado, em duas fileiras, fundidas numa só peça com ele.
4. Repousava sobre doze bois, dos quais três olhavam para o norte, três para o oeste, três para o sul, três, para o oriente. O mar descansava sobre suas partes traseiras que estavam voltadas para dentro.
5. Sua espessura era de um palmo; a sua borda, como a de um copo, tinha a forma de uma flor de loto. Sua capacidade era de três mil batos.
6. Salomão fez também dez bacias, das quais cinco foram colocadas à direita e cinco à esquerda, para nelas fazer as abluções. Nelas era lavado tudo que se utilizava para os holocaustos; ao passo que o mar servia para as abluções dos sacerdotes.
7. Fez dez candelabros de ouro, de acordo com o modelo prescrito, e colocou-os no templo, cinco à direita e cinco à esquerda.
8. Fez dez mesas e colocou-as no templo, cinco à direita e cinco à esquerda; e cem vasos de ouro.
9. Fez o átrio dos sacerdotes, e o grande pátio com portas recobertas de bronze.
10. Colocou o mar voltado para a direita, a sudeste.
11. Hirão fabricou as caldeiras, as pás e as bacias, terminando dessa maneira todos os trabalhos que tinha de fazer para o rei Salomão no templo de Deus,
12. a saber: duas colunas com os capitéis e as arquitraves que lhes estavam sobrepostas, duas redes que cobriam os capitéis com as arquitraves que estavam sobrepostas às colunas,
13. quatrocentas romãs das quais duas fileiras ornavam as grades que cobriam os capitéis com as arquitraves que estavam sobre as colunas.
14. Fez os pedestais e as bacias que eles suportam,
15. o mar e os doze bois que o sustentam,
16. as caldeiras, as pás e os garfos. Todos os acessórios que Hurão-Abi fez para o templo do Senhor eram de bronze polido.
17. O rei mandou-os fundir na planície do Jordão, numa terra argilosa entre Socot e Sareda.
18. Todos os objetos foram fabricados em tal quantidade que não se podia avaliar o peso do bronze.
19. Eis os objetos que Salomão mandou fossem ainda feitos para o templo: altar de ouro, as mesas nas quais se colocavam os pães da proposição,
20. os candelabros com suas lâmpadas de ouro prescritas pela lei para o santuário, as flores,
21. as lâmpadas e as tenazes feitas de ouro fino,
22. as facas, os vasos, as colheres e os cinzeiros de ouro fino, a porta de ouro da sala, as portas internas do Santo dos Santos e as portas de entrada do templo que eram de ouro.

 
Capítulo 5

1. Terminou-se, dessa maneira, tudo o que Salomão tinha mandado realizar para o templo do Senhor. Para aí, então, mandou transportar tudo o que Davi, seu pai, tinha consagrado, a prata, o ouro e todos os utensílios, e pôs tudo nos tesouros da casa de Deus.
2. Então, congregou em Jerusalém os anciãos de Israel, os chefes das tribos e os chefes das famílias israelitas para transportarem de Sião, isto é, da cidade de Davi, a arca da aliança do Senhor.
3. Todos os israelitas reuniram-se junto do rei para a festa: era o sétimo mês.
4. Chegados que foram todos os anciãos de Israel, levantaram os levitas a arca,
5. e transportaram-na com a tenda de reunião e todo o seu mobiliário de utensílios sagrados. Foram os sacerdotes levíticos que fizeram essa transladação.
6. O rei Salomão e toda a multidão de israelitas, reunida com ele diante da arca, imolaram tal quantidade de ovelhas e de bois que não se pôde avaliar o seu número.
7. Os sacerdotes levaram a arca da aliança do Senhor a seu lugar, no santuário do templo, o Santo dos Santos, sob as asas dos querubins.
8. Os querubins estendiam as asas sobre o lugar da arca e cobriam-na, assim como os seus varais.
9. Estes eram tão compridos que se podia ver suas extremidades diante do santuário; mas não se podiam divisá-los de fora. A arca permaneceu lá até o momento presente.
10. Nela não havia outra coisa senão duas tábuas que Moisés ali tinha colocado, no monte Horeb, quando o Senhor concluiu a aliança com os israelitas que acabavam de sair do Egito.
11. Quando os sacerdotes saíram do santuário – porque os sacerdotes presentes tinham tomado parte na cerimônia sem observar a ordem de classes;
12. todos os levitas cantores, Asaf, Hemã, Iditum, seus filhos e irmãos, vestidos de linho fino, colocados a leste do altar, tocavam címbalos, cítaras e harpas, acompanhados de cento e vinte sacerdotes que tocavam trombetas -
13. no momento em que os tocadores de trombeta, e os cantores se uniam para celebrar numa mesma sinfonia o louvor do Senhor, no momento em que faziam ressoar o som das trombetas, dos címbalos e de outros instrumentos de música com este hino: Louvor ao Senhor porque ele é bom, porque sua misericórdia é eterna, nesse momento o templo, o templo do Senhor, encheu-se de uma nuvem tão espessa
14. que os sacerdotes não puderam permanecer ali para exercer sua função. A glória do Senhor enchia a casa de Deus.

 
Capítulo 6

1. Então disse Salomão: O Senhor deseja habitar na escuridão.
2. Construí, portanto, uma casa que será vossa morada eterna.
3. Voltou-se, em seguida, para a assembléia, que estava de pé e a abençoou.
4. Bendito seja, disse ele, o Senhor, Deus de Israel, que, pela sua própria boca falou a Davi, meu pai, e que, pela sua mão, realizou suas promessas. Ele tinha dito:
5. Desde o dia em que fiz sair meu povo do Egito, não escolhi uma cidade dentre todas as tribos de Israel para nela construir um templo onde meu nome fosse invocado, e não escolhi um homem para que fosse chefe de meu povo de Israel;
6. mas escolhi Jerusalém como lugar de residência para meu nome e Davi como rei de meu povo de Israel.
7. Ora, meu pai Davi desejava edificar um templo para a glória do Senhor, Deus de Israel,
8. mas o Senhor lhe disse: Tiveste uma feliz inspiração de edificar um templo para a glória de meu nome.
9. Somente, não és tu que me hás de construir, será teu filho, o filho procedente de tuas entranhas, que o fará.
10. O Senhor realizou sua predição. Sucedi a meu pai Davi e ocupo o trono de Israel, como disse o Senhor, e construí este templo ao nome do Senhor, Deus de Israel.
11. Pus a arca onde se encontra colocada a aliança feita entre o Senhor e os israelitas.
12. Em seguida, Salomão postou-se diante do altar do Senhor, em presença de toda a assembléia de Israel e estendeu as mãos.
13. Com efeito, ele mandara construir uma tribuna de bronze, erguida no meio do átrio, de cinco côvados de comprimento, cinco de largura e três de altura. Nela subiu e, de joelhos, voltado para a multidão dos israelitas, com os braços levantados para o céu, disse:
14. Senhor, Deus de Israel, não há nem nos céus nem na terra um deus que seja comparável a vós, que seja fiel à sua aliança com seus servos, e cheio de misericórdia para com os que vos servem de todo o coração.
15. Cumpristes a promessa que fizestes a meu pai Davi, vosso servo. Neste dia, vossa mão realizou o que vossa boca havia anunciado.
16. Dignai-vos, portanto, agora, Senhor, Deus de Israel, cumprir também a promessa que fizestes a meu pai Davi, vosso servo, de que jamais lhe faltaria diante de vós um descendente que ocupasse o trono de Israel, contanto que seus filhos atendam ao seu procedimento e observem vossa lei como ele mesmo a observou.
17. Assim, pois, Senhor Deus de Israel, dignai-vos ratificar a promessa que fizestes a vosso servo Davi!
18. Mas, é verdade que Deus habita com os homens sobre a terra? Se o céu e os céus dos céus não vos podem conter, muito menos ainda esta casa que eu construí!
19. Contudo, Senhor, meu Deus, atendei à prece suplicante de vosso servo, acolhei o clamor e os votos que ele vos dirige.
20. Que de dia e de noite vossos olhos estejam abertos para esta casa, para este lugar em que prometestes fazer a residência de vosso nome. Escutai o pedido que vosso servo vos apresenta.
21. Escutai a súplica de vosso servo e de vosso povo de Israel, quando vierem orar neste lugar. Escutai-os de vossa morada celeste, escutai e perdoai!
22. Se um homem pecar contra seu próximo, e lhe for exigido juramento, se ele vier jurar diante de vosso altar, neste templo,
23. escutai-o do alto dos céus, agi e julgai vossos servos de modo a condenar o culpado, fazendo recair sobre ele o peso de sua falta, e de modo a justificar o inocente tratando-o de acordo com sua inocência.
24. Quando vosso povo de Israel, por ter pecado contra vós, for subjugado pelo inimigo, se ele retornar a vós, render glória ao vosso nome, entrar neste templo para dirigir-vos preces e súplicas,
25. escutai-o do alto dos céus, e perdoai o pecado de vosso povo de Israel, reconduzindo-o à terra que lhe destes a ele e a seus pais.
26. Se o céu vier a se fechar e não chover mais, por terem eles pecado contra vós, e vierem a orar neste lugar, rendendo glória ao vosso nome e arrependendo-se de seu pecado por causa de vosso castigo,
27. escutai-os do alto dos céus, perdoai o pecado de vossos servos e de vosso povo de Israel. Mostrai-lhes o reto caminho que devem seguir, e concedei chuva à terra que destes como herança a vosso povo.
28. Quando a terra for assolada pela fome, peste, ferrugem, mangra, gafanhoto, pulgão, quando os inimigos cercarem as cidades da terra de Israel, ou se houver uma calamidade ou uma epidemia qualquer,
29. e um homem, ou todo o povo de Israel, vos dirigir uma prece suplicante, e cada qual, reconhecendo sua chaga dolorosa, estender as mãos para este templo,
30. escutai-o do alto dos céus, de vossa morada, e perdoai, concedendo a cada um o que merece, vós que conheceis seu coração, pois só vós conheceis o coração do homem.
31. É assim que eles vos temerão e andarão em vossos caminhos durante toda a sua vida na terra que destes a seus pais.
32. Quando o estrangeiro, o que não é do vosso povo de Israel, vier de uma terra longínqua, atraído pela fama de vosso nome e do poder de vosso braço, para rezar neste templo,
33. escutai-o do alto dos céus, lá donde habitais, e concedei a esse estrangeiro tudo o que vos pedir. Todos os povos da terra conhecerão assim vosso nome e vos temerão como vosso povo de Israel, cientes de que vosso nome é invocado sob este templo que vos construí.
34. Quando vosso povo fizer guerra contra seus inimigos em qualquer direção à qual vós o enviardes, e eles vos invocarem, voltando-se para esta cidade de vossa escolha e para este templo que construí à glória de vosso nome,
35. escutai do alto dos céus suas preces suplicantes e fazei-lhes justiça.
36. Quando tiverem pecado contra vós, – pois não há homem algum sem pecado -, quando em vossa ira os entregardes ao inimigo e o vencedor os deportar para uma terra estrangeira, longínqua ou próxima,
37. e lá, na terra de seu exílio, entrarem em si e retornarem a vós, dizendo-vos em tom de súplica: Pecamos, cometemos a iniqüidade, fizemos o mal -,
38. se eles retornarem a vós de todo o seu coração e de toda a sua alma, na terra do exílio ou onde estiverem deportados, e vos dirigirem sua oração, voltando-se para a pátria que destes a seus pais, para a cidade de vossa predileção e para este templo que construí à glória de vosso nome,
39. escutai do alto dos céus, lá onde habitais, suas preces súplices, fazei-lhes justiça e perdoai a vosso povo os pecados cometidos contra vós.
40. Por conseguinte, doravante, ó meu Deus, que vossos olhos estejam abertos e vossos ouvidos atentos a (toda) prece feita neste lugar!
41. Senhor, Deus, vinde, pois, habitar nesta moradia, vós e a arca onde reside vosso poder. Senhor Deus, que vossos sacerdotes estejam revestidos de força salutar e que vossos devotos desfrutem de sua felicidade!
42. Senhor Deus, não repilais a prece daquele que vos é consagrado, em memória dos favores que concedestes a vosso servo Davi.

 
Capítulo 7

1. Quando Salomão terminou essa prece, desceu fogo do céu e consumiu o holocausto com os sacrifícios; e a glória do Senhor encheu o templo.
2. Os sacerdotes não podiam entrar no templo do Senhor, tanta era a glória que enchia o edifício.
3. À vista do fogo que descia e da glória do Senhor que enchia o templo, toda a multidão de israelitas se prosternou com o rosto em terra sobre o pavimento, e, prosternados, puseram-se a cantar: Louvai o Senhor porque ele é bom, porque sua misericórdia é eterna.
4. O rei e todo o povo ofereceram então um sacrifício em presença do Senhor.
5. Salomão imolou vinte e dois mil touros e cento e vinte mil ovelhas. Foi desse modo que o rei e o povo fizeram a dedicação do templo de Deus.
6. Os sacerdotes mantinham-se em seus postos; igualmente os levitas com os instrumentos de música do Senhor, que Davi tinha mandado fazer para celebrar os louvores do Senhor, quando confiou-lhes essa função de cantar os louvores do Senhor: Porque sua misericórdia é eterna. Os sacerdotes diante deles tocavam trombetas, enquanto toda a multidão dos israelitas mantinha-se de pé.
7. Salomão consagrou a parte central do átrio, que está em frente da fachada do templo do Senhor; ofereceu ali holocaustos e a gordura dos sacrifícios pacíficos, porque o altar de bronze que tinha feito não era suficiente para os holocaustos, oferendas e a gordura das vítimas.
8. A celebração desta festa, presidida então por Salomão, para todo o povo de Israel durou então sete dias. A multidão congregada, desde a entrada de Emat até a torrente do Egito, era enorme.
9. No oitavo dia realizou-se a assembléia dolene, pois tinham celebrado a dedicação do altar, assim como a festa, durante sete dias.
10. No vigésimo terceiro dia do sétimo mês, Salomão mandou de volta para suas tendas o povo contente, com o coração feliz pelos benefícios que o Senhor tinha feito a Davi, a Salomão e a seu povo de Israel.
11. Acabara, pois, o rei o templo e o palácio real. Tinha levado a bom termo tudo o que tencionava fazer no templo do Senhor e em sua própria residência.
12. Durante a noite o Senhor lhe apareceu: Ouvi, disse ele, tua oração; escolhi este lugar para que seja o templo no qual me oferecerão sacrifícios.
13. Quando eu cerrar os céus, e não houver mais chuva, quando ordenar aos gafanhotos que devorem a terra, ou quando enviar a peste contra meu povo,
14. se meu povo, sobre o qual foi invocado o meu nome, se humilhar, se procurar minha face para orar, se renunciar ao seu mau procedimento, escutarei do alto dos céus e sanarei sua terra.
15. Doravante meus olhos estarão abertos e meus ouvidos atentos às preces feitas neste lugar,
16. pois, para o futuro, escolho e consagro este templo para que meu nome nele resida para sempre; meus olhos e meu coração estarão nele para sempre.
l7 Quanto a ti, se andares na minha presença como fez teu pai Davi, se puseres em prática tudo o que prescrevi, se observares minhas leis e meus preceitos,
18. elevarei o trono de tua realeza, como prometi a teu pai, dizendo-lhe que jamais lhe faltaria descendente que ocupasse o trono de Israel.
19. Mas se vos desviardes de mim e negligenciardes os preceitos e mandamentos que vos prescrevi, para servirdes a outros deuses e render-lhes culto,
20. então extirpar-vos-ei da terra que vos dei, e arrojarei para longe de mim este templo que consagrei a meu nome, e dele farei para todas as nações pagãs objeto de fábula e de riso.
21. Este templo, tão excelso, será para todos os transeuntes um objeto de espanto. Eles dirão: Como tratou o Senhor dessa maneira esta terra e este templo?
22. E responderão: É porque abandonaram o Senhor, o Deus de seus pais, que os tinha tirado do Egito, e se apegaram a outros deuses, prostrando-se diante deles e rendendo-lhes culto. Eis porque fez sobrevir a eles todas essas calamidades.

 
Capítulo 8

1. Ao cabo de vinte anos, Salomão tinha construído o templo do Senhor e sua própria residência.
2. Reconstruiu também as cidades que Hirão lhe tinha dado e nelas estabeleceu os israelitas.
3. Em seguida, atacou Emat de Soba, e se apoderou dela.
4. Construiu Tadmor no deserto e todas as localidades que serviam de entreposto na terra de Emat.
5. Construiu Betoron superior e Betoron inferior, cidades fortificadas providas de muralhas, portas e ferrolhos.
6. Construiu Baalat e todas as localidades que lhe serviam de entrepostos de aprovisionamento, as cidades para os carros, as cidades para a cavalaria e tudo quanto achou bom construir em Jerusalém, no Líbano e em todo o território submetido ao seu poder.
7. Toda a população que tinha sobrevivido dos hititas, dos amorreus, dos ferezeus, dos heveus e dos jebuseus, tudo o que não era de Israel -
8. todos os descendentes desses povos que tinham ficado na terra sem que Israel tivesse podido exterminar -, Salomão submeteu-os como pessoal de trabalho pesado, o que são ainda hoje.
9. Nenhum israelita foi empregado nos trabalhos de Salomão como escravo: foram seus guerreiros, chefes de suas tropas de eleição, comandantes de seus carros e de sua cavalaria.
10. Os contramestres do rei, colocados à frente dos obreiros, eram duzentos e cinqüenta.
11. Salomão mandou buscar a filha do faraó da cidade de Davi para a residência que lhe construiu. Minha mulher, disse ele, não deve habitar na casa de Davi, rei de Israel. Essa habitação, na qual entrou a arca do Senhor, é um santuário.
12. Então Salomão ofereceu ao Senhor holocaustos no seu altar, que tinha construído diante do pórtico.
13. Cada dia oferecia os sacrifícios prescritos por Moisés; igualmente, aos sábados, nas neomênias, e nas três festas do ano: festa dos Ázimos, festa das Semanas e festa dos Tabernáculos.
14. Conforme as disposições tomadas por seu pai Davi, empossou as diversas classes de sacerdotes em suas funções, assim como os levitas, em seus ministérios de louvar o Senhor e no seu serviço quotidiano em presença dos sacerdotes; finalmente, os porteiros para cada porta, de acordo com sua categoria. Assim tinha mandado o homem de Deus, Davi.
15. Em nada se afastaram das disposições que tinha tomado com referência aos sacerdotes, aos levitas e ao que se relacionava com os tesouros.
16. Dessa forma foi levada a efeito toda a obra de Salomão, desde a fundação do templo até seu acabamento. O templo do Senhor estava, pois, terminado.
17. Então Salomão dirigiu-se a Asiongaber e a Ailat, nas praias do mar, na terra de Edom.
18. Hirão enviou-lhe, por meio de seus servos, navios e marinheiros experimentados. Eles foram a Ofir com os servos de Salomão, e de lá trouxeram ao rei quatrocentos e cinqüenta talentos de ouro.

 
Capítulo 9

1. A rainha de Sabá, ouvindo falar da fama de Salomão, veio a Jerusalém para prová-lo por meio de enigmas. Ela tinha um séquito considerável, camelos carregados de aromas, grande quantidade de ouro e de pedras preciosas. Quando da sua visita a Salomão, expôs-lhe tudo o que tinha no coração.
2. Salomão respondeu a todas as suas perguntas, e nada houve por demais obscuro que não pudesse solucionar.
3. Diante dessa sabedoria do rei, à vista da residência que tinha construído para si,
4. dos manjares de sua mesa, dos aposentos de seus servos, da habitação e vestes de seus domésticos, de seus copeiros e seus trajes, dos holocaustos que oferecia no templo do Senhor, a rainha de Sabá ficou enlevada de admiração.
5. É, pois, verdade, disse ela ao rei, o que tinha ouvido dizer, em minha terra, a respeito de tuas obras e de tua sabedoria.
6. Não queria dar fé a isso antes de vir e ver com meus próprios olhos. Pois bem, o que me tinham descrito não era sequer a metade de tua imensa sabedoria; ultrapassas tudo o que soube de ti pela tua fama!
7. Felizes os teus servos! Felizes esses servos que sempre estão diante de ti e ouvem tua sabedoria!
8. Bendito seja o Senhor, teu Deus, que te tomou como objeto de afeição, e te colocou no seu trono, como rei em nome do Senhor, teu Deus! É por causa de seu amor a Israel, e porque quer fazê-lo subsistir para sempre que te fez rei, para que faças reinar o direito e a justiça!
9. Em seguida, presenteou ao rei cento e vinte talentos de ouro, grande quantidade de aromas e pedras preciosas. Jamais se viram tantos aromas quantos os que a rainha de Sabá dera ao rei Salomão.
10. Os servos de Hirão e os servos de Salomão, que traziam o ouro de Ofir, trouxeram também madeira de sândalo e pedras preciosas.
11. Com essa madeira de sândalo o rei fez degraus para o templo do Senhor e para o palácio real, harpas e liras para os cantores. Nunca ainda se tinha visto semelhante madeira na terra de Judá.
12. O rei Salomão presenteou a rainha de Sabá com tudo o que ela sonhava ganhar, com muito mais do que ela havia trazido. Depois ela retomou com seus servos o caminho de sua terra.
13. O peso de ouro que Salomão recebia cada ano era de seiscentos e sessenta e seis talentos,
14. além do que lhe traziam os mercadores e traficantes. Todos os reis da Arábia, como os governadores locais, traziam a Salomão (um tributo) de ouro e prata.
15. O rei Salomão mandou fabricar duzentos escudos de ouro batido, para cada um dos quais utilizou seiscentos siclos de ouro batido;
16. e trezentos pequenos escudos de ouro batido, para cada um dos quais empregou trezentos siclos de ouro. O rei colocou-os no palácio do Bosque do Líbano.
17. Mandou também construir um grande trono de marfim, revestido de ouro puro.
18. Esse trono tinha seis degraus, com um escabelo de ouro fixado no trono. Nos dois lados do assento havia encostos flanqueados por leões.
19. Doze leões estavam colocados à direita e à esquerda, nos seis degraus. Nada de semelhante havia ainda sido feito em nenhum reino.
20. Todas as taças do rei Salomão eram feitas de ouro, e todo o vasilhame do palácio do Bosque do Líbano era de ouro puro. Nada era de prata, metal do qual no tempo de Salomão não se fazia caso algum.
21. Pois o rei tinha navios que iam a Társis com os servos de Hirão, e uma vez a cada três anos a frota voltava de Társis, carregada de ouro, prata, marfim, macacos e pavões.
22. Dessa maneira, por sua riqueza e sabedoria, o rei Salomão avantajava-se a todos os reis da terra,
23. e todos procuravam sua presença a fim de poderem ouvir a sabedoria que Deus lhe tinha infundido no coração.
24. Cada um lhe trazia anualmente seu presente: objetos de prata, objetos de ouro, vestimentas, armas, aromas, cavalos e mulos.
25. Salomão possuía cavalariças para quatro mil cavalos de carros e doze mil (cavalgaduras) para cavaleiros, que ele colocou nas cidades onde estavam abrigados seus carros assim como em Jerusalém, perto de si.
26. Ele dominava sobre todos os reis, desde o Eufrates até a terra dos filisteus e a fronteira do Egito.
27. Graças a ele, a prata tornou-se, em Jerusalém, tão comum como as pedras, e os cedros tão numerosos como os sicômoros da planície.
28. Era do Egito e de todas as terras que se importavam cavalos para Salomão.
29. O resto dos feitos de Salomão, dos primeiros aos últimos, está relatado no livro do profeta Natã, na profecia de Aías de Silo e nas visões do vidente Ado a respeito de Jeroboão, filho de Nabat.
30. O reinado de Salomão sobre todo o Israel durou quarenta anos, em Jerusalém.
31. Depois disso, Salomão adormeceu com seus pais e foi sepultado na cidade de Davi, seu pai. Seu filho Roboão sucedeu-lhe no trono.

 
Capítulo 10

1. Roboão foi a Siquém, onde todo o Israel se tinha reunido para proclamá-lo rei.
2. Jeroboão, filho de Nabat, estava nesse tempo no Egito, para onde tinha fugido para escapar ao rei Salomão. Soube disso e retornou. – Tinham-no mandado procurar.
3. Jeroboão e todo o Israel vieram, portanto, dizer a Roboão:
4. Teu pai nos impôs um jugo pesado. Alivia, portanto, esta dura servidão e este jugo pesado que ele nos impôs. Nós seremos teus servos.
5. Voltai, respondeu ele, a mim daqui a três dias. E a multidão se retirou.
6. O rei Roboão aconselhou-se então com os anciãos que tinham cercado seu pai Salomão durante sua vida. Que me aconselhais vós, disse-lhes ele, a responder a esse povo?
7. Disseram: Se tu te mostras bom para com esse povo, e dás atenção a ele, se lhe falas com benevolência, será teu servo para sempre.
8. Mas Roboão negligenciou o conselho que lhe davam os anciãos, para, por sua vez, consultar os jovens de sua roda, que tinham crescido com ele:
9. Que me aconselhais vós, disse-lhes ele, a responder a esse povo que me pede que eu alivie o jugo imposto a ele por meu pai?
10. Os jovens que tinham crescido com ele lhe responderam: Eis as palavras que terás para o povo que te disse: Teu pai colocou sobre nós um jugo pesado; alivia-o. – Dir-lhe-ás: Meu dedo mínimo é maior do que o ventre de meu pai.
11. Impôs-vos meu pai um jugo pesado? Eu o tornarei mais pesado ainda. Ele vos castigou com açoites? Eu vos castigarei com escorpiões.
12. Três dias depois, Jeroboão, seguido de toda uma multidão, apresentou-se diante de Roboão, uma vez que o rei tinha dito: Voltai a mim depois de três dias.
13. O rei respondeu-lhes com dureza.
14. Desprezou o conselho dos anciãos e deu-lhes uma resposta, no sentido do conselho de seus companheiros: Meu pai, disse ele, impôs-vos um jugo pesado? Eu torná-lo-ei mais pesado ainda. Castigou-vos meu pai com açoites? Eu castigar-vos-ei com escorpiões.
15. Assim, pois, o rei não escutou o povo. Era isso uma disposição divina para a realização da promessa que Deus fizera a Jeroboão, filho de Nabat, por meio de Aías de Silo.
16. Ao ver que o rei não os escutava, o povo israelita lhe fez esta declaração: Que parte temos nós com Davi? Nada temos em comum com o filho de Isaí. Cada um para suas tendas, ó Israel! A ti compete cuidar de tua casa, Davi! E todos os israelitas voltaram para suas casas.
17. Roboão só exerceu seu poder sobre os israelitas que ainda habitavam nas cidades de Judá.
18. Enviou Adurão com a missão de aliviar os impostos; mas os israelitas apedrejaram-no e ele morreu. En tão o rei teve que se apressar em subir num carro e fugir para Jerusalém.
19. Foi assim que se produziu a dissidência da casa de Israel, que dura ainda hoje.

 
Capítulo 11

1. De volta a Jerusalém, Roboão mobilizou as tribos de Judá e de Benjamim, em número de cento e oitenta mil guerreiros escolhidos, para atacar a casa de Israel e reintegrá-la ao reino de Roboão.
2. Mas a palavra do Senhor foi dirigida ao homem de Deus, Semaías, nestes termos:
3. Dirige-te a Roboão, filho de Salomão, rei de Judá, e a todos os de Israel que habitam em Judá e Benjamim.
4. Dize-lhes: Eis o que diz o Senhor: De modo algum ireis fazer guerra a vossos irmãos. Voltai cada qual para sua casa, pois é por mim que esses acontecimentos se realizaram. Dóceis à palavra do Senhor, renunciaram a atacar Jeroboão, e voltaram.
5. Roboão ficou, portanto, em Jerusalém. Construiu cidades fortes no território de Judá.
6. Construiu Belém, Etão, Técua,
7. Betsur, Odolão,
8. Get, Maresa, Zif,
9. Adurão, Laquis, Azeca,
10. Saraa, Aialon e Hebron, todas cidades fortificadas, situadas em Judá e Benjamim.
11. Fortificou esses lugares, nomeou para eles governadores e neles estabeleceu depósitos de víveres, óleo e vinho.
12. Fez em cada cidade um arsenal de escudos e de lanças, fazendo delas verdadeiras praças fortes. Judá e Benjamim ficavam-lhe, portanto, fiéis.
13. Os sacerdotes e levitas que habitavam no território de Israel vieram de todas as partes aderir ao seu partido.
14. Os levitas abandonaram suas terras e suas propriedades para irem habitar em Judá ou em Jerusalém, porque Jeroboão e seus filhos os tinham destituído de sua função de sacerdotes do Senhor.
15. Jeroboão, com efeito, nomeara sacerdotes para os lugares altos, para o culto dos bodes e dos touros que tinha feito.
16. Após os levitas, todos aqueles das tribos de Israel que procuravam de coração o Senhor, Deus de Israel, foram a Jerusalém para oferecer seus sacrifícios ao Senhor, o Deus de seus pais.
17. Vieram assim reforçar o reino de Judá, e reafirmar o poder de Roboão, filho de Salomão. Isso durou três anos, pois durante um triênio seguiram o roteiro traçado por Davi e Salomão.
18. Roboão tomou por esposas Maalat, filha de Jerimot, filho de Davi, (e) Abiai, filha de Eliab, filho de Isaí.
19. Esta lhe deu à luz os filhos: Jeus, Somoria e Zom.
20. Depois dela, tomou por esposa Maaca, filha de Absalão, que lhe deu Abia, Etaí, Ziza e Salomit.
21. Dentre todas as suas mulheres e concubinas, Roboão teve mais predileção por Maaca, filha de Absalão. Teve dezoito mulheres e sessenta concubinas; e gerou vinte e oito filhos e sessenta filhas.
22. Deu o primeiro lugar a Abia, filho de Maaca, na qualidade de chefe de seus irmãos, pois ele o destinava ao reino.
23. Teve muita habilidade para distribuir todos os seus filhos pelas praças fortes, pelas diversas regiões de Judá e de Benjamim; assegurou-lhes uma pensão copiosa, e deu-lhes muitas mulheres.

 
Capítulo 12

1. Estando seu reino constituído e firmado, Roboão abandonou a Lei do Senhor, e todo o Israel seguiu-lhe o exemplo.
2. Durante o quinto ano de seu reinado, por causa dos pecados de Jerusalém contra o Senhor, Sesac, rei do Egito, veio atacar a cidade
3. com 1.200 carros e 60.000 cavaleiros. Um inumerável exército de líbios, suquitas e etíopes acompanhavam-no desde o Egito.
4. Apoderou-se das cidades fortes de Judá e chegou a Jerusalém.
5. O profeta Semaías dirigiu-se a Roboão e aos chefes de Judá que se tinham concentrado em Jerusalém, com a aproximação de Sesac. Eis, disse-lhes ele, o que diz o Senhor: Vós me abandonastes; eu também vos abandono nas mãos de Sesac.
6. Então os chefes israelitas e o rei se humilharam e disseram: O Senhor é justo.
7. Em vista deste ato de humildade, a palavra do Senhor foi dirigida a Semaías nestes termos: Eles se humilharam; não os deitarei a perder. Dar-lhes-ei em breve um meio de salvação. Minha ira não se desencadeará sobre Jerusalém pela mão de Sesac.
8. Mas eles terão que servir para que saibam distinguir entre o meu serviço e o serviço dos reis estrangeiros.
9. Sesac, rei do Egito, atacou, pois, Jerusalém. Levou os tesouros do templo do Senhor e os do palácio real, sem nada deixar. Levou especialmente os escudos de ouro que Salomão tinha fabricado.
10. Para substituí-los, o rei Roboão mandou fazer escudos de bronze e os entregou em mãos dos chefes das guardas da porta do palácio real.
11. Cada vez que o rei ia ao templo do Senhor, esses guardas os levavam; em seguida, devolviam ao corpo da guarda.
12. Portanto, em virtude de seu ato de humildade, a ira do Senhor apartou-se dele, e sua ruína não foi total. Em Judá havia ainda coisas boas.
13. Consolidou-se, pois, o rei Roboão, reinando em Jerusalém. Contava quarenta e um anos quando começou a reinar. Reinou dezessete anos em Jerusalém, a cidade que o Senhor tinha escolhido dentre todas as tribos de Israel, para nela estabelecer seu nome. Sua mãe tinha por nome Naama, a amonita.
14. Fez o mal, não aplicando seu coração à procura do Senhor.
15. Os atos e feitos de Roboão, desde os primeiros até os últimos, estão relatados no livro do profeta Semaías e consignados com exatidão no do vidente Ado. A guerra entre Roboão e Jeroboão foi contínua.
16. Depois disso, Roboão adormeceu com seus pais e foi sepultado na cidade de Davi. Seu filho Abia sucedeu-lhe no trono.

 
Capítulo 13

1. No décimo oitavo ano do reinado de Jeroboão, Abia tornou-se rei de Judá, e reinou três anos em Jerusalém.
2. Sua mãe chamava-se Maaca, filha de Uriel de Gabaa.
3. Abia e Jeroboão fizeram guerra entre si. Abia encetou as operações com um exército de quatrocentos mil valentes guerreiros de escol. Jeroboão dispôs contra ele oitocentos mil valentes guerreiros de escol.
4. De pé, no alto de Semeron, que está na montanha de Efraim, Abia gritou: Escutai-me Jeroboão e todo o Israel!
5. Não deveríeis vós saber que o Senhor, Deus de Israel, deu para sempre o reino de Israel a Davi e a seus filhos em virtude de uma aliança inviolável?
6. Jeroboão, filho de Nabat, servo de Salomão, filho de Davi, orgulhosamente revoltou-se contra seu senhor.
7. Homens maus e perversos juntaram-se a ele e se opuseram a Roboão, filho de Salomão. Roboão, que era jovem e tímido, não pôde resistir-lhes.
8. E agora, pensais em oferecer resistência ao reino do Senhor, que está nas mãos do filho de Davi. Vós sois uma grande multidão, e tendes convosco os bezerros de ouro que Jeroboão fez para vós à maneira de deuses.
9. Demitistes os sacerdotes, do Senhor, os filhos de Aarão e os levitas; instituístes para vós sacerdotes, à maneira dos povos estrangeiros. Todo o que veio com um novilho e sete carneiros para se consagrar, tornou-se sacerdote dos falsos deuses.
10. Para nós, é o Senhor o nosso Deus, e não o abandonamos: os filhos de Aarão é que são sacerdotes a serviço do Senhor, e são os levitas que desempenham as funções.
11. Cada manhã e cada tarde queimam em honra do Senhor os holocaustos e o incenso aromático. Os pães da proposição são dispostos na mesa pura, e cada tarde são acendidas as lâmpadas do candelabro de ouro. É porque nós observamos a lei do Senhor, nosso Deus, enquanto vós o abandonastes.
12. Vede: Deus e seus sacerdotes estão conosco à nossa frente, e temos as trombetas retumbantes para fazê-las soar contra vós. Israelitas, não luteis contra o Senhor, Deus de vossos pais, porque isso não vos trará nenhuma felicidade.
13. Então Jeroboão executou uma manobra com as tropas colocadas em emboscada, dando uma volta, para surpreender o inimigo pelas costas, de sorte que seu exército fazia frente a Judá, e a emboscada se encontrava à retaguarda.
14. As tropas de Judá, ao se voltarem, viram-se atacadas pela frente e pela retaguarda. Invocaram então o Senhor, enquanto os sacerdotes tocavam a trombeta.
15. Judá soltou o grito de guerra e enquanto ecoava esse clamor, Deus feriu Jeroboão e todo o Israel diante de Abia e Judá.
16. Os israelitas fugiram diante dos homens de Judá, às mãos dos quais Deus os entregou.
17. Abia e seu exército fizeram uma grande matança: quinhentos mil guerreiros escolhidos do campo de Israel tombaram feridos de morte.
18. Isso foi, naquele tempo, humilhante para os israelitas, enquanto que os filhos de Judá obtiveram a vitória, porque se apoiaram no Senhor, o Deus de seus pais.
19. Abia perseguiu Jeroboão e dele arrebatou várias cidades: Betel, Jesana,
20. e Efron, assim como as localidades que delas dependiam. No tempo de Abia, Jeroboão não se restabeleceu.
21. O Senhor o feriu e ele morreu, enquanto o poder de Abia aumentava. Abia tomou por esposas quatorze mulheres; gerou vinte e dois filhos e dezesseis filhas.
22. O resto dos atos e feitos de Abia, assim como suas palavras, estão relatados nos discursos do profeta Ado.

 
Capítulo 14

1. Abia adormeceu com seus pais e foi sepultado na cidade de Davi. Seu filho Asa sucedeu-lhe no trono. Durante sua vida, a terra conheceu dez anos de tranqüilidade.
2. Asa fez o que era bom e justo aos olhos do Senhor, seu Deus.
3. Destruiu os altares dos deuses estrangeiros e os lugares altos; quebrou as estelas e cortou as asserás.
4. Ordenou aos filhos de Judá que buscassem o Senhor, Deus de seus pais, e que pusessem em prática a Lei e seus mandamentos.
5. Fez desaparecer de todas as cidades de Judá os lugares altos e os obeliscos. Sob seu reinado o reino esteve em paz.
6. Durante esse tempo de tranqüilidade, construiu cidades fortificadas em Judá. Efetivamente, não houve guerra contra ele durante esses anos, porque o Senhor lhe concedeu descanso.
7. Construamos, disse ele aos judeus, essas cidades, e cerquemo-las de muralhas, torres, portas e ferrolhos: a terra está ainda livre diante de nós porque temos procurado o Senhor, nosso Deus, e por isso ele nos concedeu a paz com todos os nossos vizinhos. Dispuseram-se, pois, a esse trabalho e o levaram a bom termo.
8. Asa possuía um exército composto de trezentos mil homens de Judá, que carregavam escudo e lança, e um de duzentos e oitenta mil de Benjamim, que carregavam escudo e entesavam o arco, todos valentes guerreiros.
9. Zara, o etíope, atacou-os com um exército de um milhão de homens e trezentos carros, e avançou até Maresa.
10. Asa saiu-lhe ao encontro e eles se formaram para a batalha no vale de Sefata, perto de Maresa.
11. Asa invocou o Senhor, seu Deus, nestes termos: Senhor, não vos é mais difícil ajudar o fraco do que o forte. Vinde em nosso socorro, nosso Deus! É em vós que nos apoiamos, é em vosso nome que viemos contra essa multidão. Senhor, vós sois nosso Deus; que não haja um só homem que prevaleça contra vós!
12. O Senhor feriu os etíopes, diante de Asa e dos homens de Judá. Fugiram.
13. Asa e seu exército perseguiram-nos até Gerara, e deles tombou tão grande número que nem sequer um pôde salvar-se, destruídos como foram diante do Senhor e seu exército. Judá trouxe um grande despojo.
14. Eles feriram todas as cidades dos arredores de Gerara, pois o terror do Senhor se tinha infundido neles. Pilharam-nos, porque eles possuíam um importante despojo.
15. Feriram também os redis dos rebanhos e capturaram grande número de ovelhas e camelos. Em seguida, retornaram a Jerusalém.

 
Capítulo 15

1. O espírito do Senhor se apoderou de Azarias, filho de Obed. Este saiu ao encontro de Asa, e lhe disse:
2. Escutai-me, Asa, com todo o Judá e Benjamim: O Senhor está convosco assim como vós estais com ele. Se vós o procurais, ele se manifestará a vós, mas se vós o abandonais, ele vos abandonará.
3. Durante muito tempo viveu Israel sem o verdadeiro Deus, sem sacerdotes para ensiná-lo, sem a Lei;
4. mas, quando na sua angústia eles se voltaram para o Senhor, Deus de Israel, e o procuraram, ele se manifestou a eles.
5. Naqueles tempos não havia segurança alguma para os que viajavam, pois graves distúrbios pesavam sobre a população da terra.
6. As nações e as cidades entrechocavam-se, porque Deus as agitava com toda espécie de tribulações.
7. Quanto a vós, sede fortes, não vos acovardeis, pois vosso labor terá sua recompensa.
8. Ouvindo esse oráculo do profeta, Asa, cheio de resolução, fez desaparecer as abominações de toda a terra de Judá e de Benjamim, assim como de todas as cidades que tinha conquistado na montanha de Efraim: restabeleceu o altar do Senhor que se encontrava diante do pórtico do Senhor.
9. Em seguida, convocou toda a população de Judá, de Benjamim, assim como os de Efraim, de Manassés e de Simeão que habitavam entre eles (pois grande número de israelitas se tinha aliado a ele, vendo que o Senhor, seu Deus, estava com ele).
10. Eles se reuniram em Jerusalém no terceiro mês do quinto ano do reinado de Asa.
11. Nesse dia, sacrificaram ao Senhor, do despojo que tinham trazido, setecentas reses de gado e sete mil ovelhas.
12. Obrigaram-se solenemente a procurar o Senhor, Deus de seus pais, de todo o seu coração e de toda a sua alma, decididos a matarem,
13. pequenos e grandes, homens e mulheres, todo o que não procurasse o Senhor, Deus de Israel.
14. Ao som de trombetas e de trompas, no meio de aclamações, fizeram ao Senhor um juramento solene.
15. E todo o Judá esteve em alegria, por causa desse juramento que tinham prestado de todo o seu coração. Foi com perfeita boa vontade que tinham procurado o Senhor; por isso o Senhor se manifestou a eles e lhes assegurou a paz com todos os seus vizinhos.
16. O rei Asa destituiu até de sua posição de rainha sua mãe Maaca, por ter feito um ídolo de asserá. Asa destruiu a imagem, deixou-a em pedaços e a queimou no vale de Cedron.
17. Se os lugares altos não desapareceram, o coração de Asa esteve, contudo, totalmente devotado ao Senhor durante toda a sua vida.
18. Transportou para o templo do Senhor todos os objetos consagrados por seu pai e por ele mesmo, a prata, o ouro e os utensílios.
19. Não houve guerra até o trigésimo quinto ano do reinado de Asa.

 
Capítulo 16

1. Mas no trigésimo sexto ano do reinado de Asa, rei de Israel, Baasa fez guerra contra Judá. Fez fortificações em Ramá, a fim de bloquear todas as comunicações com Asa, rei de Judá.
2. Mas Asa mandou tomar a prata e o ouro dos tesouros do templo e do palácio real, e enviou uma delegação a Ben-Hadad, rei da Síria, para lhe dizer:
3. Aliemo-nos, como foram aliados teu pai e o meu. Eu te envio prata e ouro. Rompe tua aliança com Baasa, rei de Israel, para que ele se afaste de mim.
4. Ben-Hadad ouviu o rei Asa: enviou seus generais contra as cidades de Israel. Estes tomaram Aion, Dã, Abel-Main e todas as cidades de Neftali que serviam de entrepostos.
5. A essa notícia, Baasa interrompeu os trabalhos de fortificação de Ramá.
6. Então o rei Asa convocou todos os judeus para tirar as pedras e madeiras das quais Baasa se tinha servido para construir Ramá: serviu-se delas para fortificar Gabaa e Masfa.
7. Por essa época, o vidente Hanani veio à procura de Asa, rei de Judá, e lhe disse: Porque te apoiaste no rei da Síria e não no Senhor teu Deus, o exército da Síria escapou de tuas mãos.
8. Não formavam os etíopes e os líbios um exército inumerável, com uma multidão de carros e cavaleiros? E, contudo, o Senhor os entregou a ti porque tu te apoiaste nele.
9. Os olhos do Senhor percorrem toda a terra para sustentar aqueles cujo coração lhe é totalmente devotado. Tu te comportaste tolamente nesse negócio, pois doravante terás continuamente guerras.
10. Irritado contra o vidente, no assomo de ira em que o puseram suas palavras, Asa mandou metê-lo na prisão. Pelo mesmo tempo, Asa oprimiu também alguns de seus súditos.
11. As ações e os feitos de Asa, desde os primeiros até os últimos, estão relatados no livro dos Reis de Judá e de Israel.
12. No trigésimo nono ano de seu reinado, Asa tornou-se gotoso e sofreu violentamente. Durante sua doença, ele não procurou o apoio do Senhor, mas o dos médicos.
13. Ele adormeceu com seus pais e morreu no quadragésimo primeiro ano de seu reinado.
14. Foi sepultado na tumba que tinha mandado cavar para si na cidade de Davi; estenderam-no num leito que tinham enchido de perfumes aromáticos, preparados segundo a arte do perfumista, e queimaram-lhe quantidade considerável desse perfume.

 
Capítulo 17

1. Seu filho Josafá sucedeu-lhe no trono. Ele se fortificou contra Israel.
2. Colocou tropas em todas as cidades fortes de Judá, guarnições em toda a terra e nas cidades de Efraim das quais se tinha apoderado seu pai Asa.
3. O Senhor estava com Josafá, porque este seguia os exemplos que, a princípio, dera seu pai: não corria atrás dos Baal,
4. mas só procurava o Deus de seus pais, observando seus mandamentos, sem fazer nada de semelhante ao que fazia Israel.
5. Por isso o Senhor confirmou o poder em suas mãos. Todo o Judá lhe trazia presentes; teve riqueza em abundância e glória.
6. Cheio de confiança na obra do Senhor, fez desaparecer de Judá os lugares altos e os ídolos asserás.
7. No terceiro ano de seu reinado, enviou seus chefes, Benail, Obdias, Zacarias, Natanael e Miquéias, para que ensinassem nas cidades de Judá.
8. Ele os fez acompanhar pelos levitas Semeías, Natanias, Zabadias, Asael, Semiramot, Jonatã, Adonias, Tobias, Tobadonias, e pelos sacerdotes Elisama e Jorão.
9. Ensinaram em Judá, levando consigo o livro da lei do Senhor, e percorreram todas as cidades de Judá, instruindo o povo.
10. O terror do Senhor difundiu-se em todos os reinos que cercavam Judá, os quais se abstiveram de fazer guerra a Josafá.
11. Mesmo os filisteus vieram trazer a Josafá presentes e um tributo em prata; os árabes também lhe trouxeram gado miúdo: sete mil e setecentos carneiros e sete mil e setecentos bodes.
12. Josafá aumentava seu poder. Construiu em Judá fortalezas e cidades de entrepostos.
13. Realizou grandes trabalhos nas cidades de Judá. Havia em Jerusalém guerreiros cheios de valentia.
14. Eis a sua enumeração segundo suas famílias: de Judá, os chefes de milhares eram: o chefe Adna, com trezentos mil valentes guerreiros;
15. ao seu lado o chefe Joanã, com duzentos e oitenta mil valentes guerreiros;
16. ao seu lado Amasias, filho de Zecri, voluntariamente consagrado ao Senhor, com duzentos mil valentes guerreiros.
17. De Benjamim: o valoroso Eliada, com duzentos mil homens providos de arcos e de escudos;
18. ao seu lado Josabad, com quatrocentos e vinte mil homens equipados para a guerra.
19. Essas eram as pessoas a serviço do rei, além das guarnições colocadas por ele nas fortalezas da terra de Judá.

 
Capítulo 18

1. Josafá, que possuía riqueza e glória em abundância, aliou-se por casamento com Acab.
2. Ao cabo de alguns anos, desceu à Samaria, à casa de Acab. Para recebê-lo com a comitiva, este matou numerosos carneiros e bois. Em seguida, persuadiu-o a fazer guerra contra Ramot de Galaad.
3. Acab, rei de Israel, disse a Josafá, rei de Judá: Queres vir comigo para atacar Ramot de Galaad? Josafá respondeu-lhe: Farei o que fizeres, assim como meu exército. Iremos à guerra contigo.
4. Contudo, Josafá disse mais ao rei de Israel: Consulta primeiro, eu te peço, o oráculo do Senhor.
5. O rei de Israel reuniu os profetas, que eram em número de quatrocentos, e lhes perguntou: Devemos ir atacar Ramot de Galaad, ou devemos abster-nos disso? Eles responderam: Vai; o Senhor a entregará às mãos do rei.
6. Mas Josafá replicou: Por acaso não existe aqui algum outro profeta do Senhor a quem possamos consultar?
7. Sim, respondeu o rei de Israel, há ainda um, por meio do qual se poderia consultar o Senhor; mas eu o detesto, porque nunca anuncia algo de bom; sempre a desgraça. É Miquéias, filho de Jemla. Josafá disse: Não fale o rei assim.
8. Então o rei de Israel fez sinal a um eunuco e lhe deu esta ordem: Faze vir o mais depressa possível Miquéias, filho de Jemla.
9. O rei de Israel e Josafá, rei de Judá, tomaram lugar, cada um num trono, revestidos de suas insígnias reais, na praça que está à entrada da porta de Samaria, e todos os profetas profetizavam em sua presença,
10. Sedecias, filho de Canaana, tinha feito para si chifres de ferro, e disse: Eis o que diz o Senhor: Com estes chifres ferirás os sírios até exterminá-los.
11. E todos os profetas profetizavam da mesma maneira, nesses termos: Sobe a Ramot de Galaad: Serás vencedor, porque o Senhor entregará a cidade às mãos do rei.
12. Todavia, o mensageiro que tinha ido procurar Miquéias, lhe dizia: Os profetas são unânimes em predizer a vitória do rei. Seja teu oráculo conforme o deles. Predize o bom êxito.
13. Miquéias respondeu: Por Deus, só anunciarei o que o Senhor me disser.
14. Quando ele chegou perto do rei, disse-lhe o rei: Miquéias, devemos nós ir atacar Ramot de Galaad, ou devemos nós abster-nos disso? – Vai, respondeu Miquéias, serás vencedor; ela será entregue às mãos do rei.
15. Disse-lhe o rei: Quantas vezes terei que conjurar-te a que só digas a verdade em nome do Senhor?
16. Respondeu então Miquéias: Vejo todo o Israel disperso pelas montanhas, qual um rebanho sem pastor. O Senhor disse: Estes não têm chefe; voltem eles tranqüilamente, cada qual para sua casa!
17. Disse o rei de Israel a Josafá: Bem que eu te dizia que a meu respeito ele não havia de anunciar jamais alguma coisa boa; sempre a desgraça.
18. Replicou Miquéias: Escutai o oráculo do Senhor: eu vi o Senhor assentado no seu trono e todo o exército dos céus em volta dele, à sua direita e à sua esquerda.
19. Disse o Senhor: Quem seduzirá a Acab para que suba a Ramot de Galaad e lá encontre sua perda? – Um respondia de um modo e outro de outro.
20. Então um espírito avançou até a frente do Senhor e disse: Eu irei seduzi-lo. Perguntou o Senhor: De que maneira?
21. Vou, respondeu ele, fazendo-me espírito de mentira na boca de seus profetas. – É isso mesmo, replicou o Senhor. Conseguirás seduzi-lo. Vai e faze como disseste.
22. O Senhor infundiu, portanto, um espírito de mentira na boca de todos os profetas aqui presentes; mas foi a tua perda que decretou o Senhor.
23. Nesse momento, Sedecias, filho de Canaana, aproximou-se de Miquéias e deu-lhe uma bofetada, dizendo: Por onde saiu de mim o espírito do Senhor para falar-te?
24. Vê-lo-ás, respondeu Miquéias, no dia em que hás de ir de aposento em aposento a fim de te esconderes.
25. Então o rei de Israel deu esta ordem: Prendei Miquéias; conduzi-o a Amon, governador da cidade, e a Joás, filho do rei.
26. Dizei-lhes: Ordem do rei: Metei este homem na prisão; dai-lhe uma alimentação de mísero até que eu retorne são e salvo.
27. Ao que Miquéias respondeu: Se realmente voltares são e salvo é sinal de que não falou o Senhor por mim. E acrescentou: Escutai bem, ó povo, tudo isso.
28. O rei de Israel subiu portanto a Ramot de Galaad com o rei de Judá, Josafá.
29. Ele lhe disse: Eu vou disfarçar-me para entrar no combate; tu, porém, veste tuas próprias roupas. O rei de Israel disfarçou-se, por conseguinte, antes de entrar em combate.
30. Ora, o rei da Síria tinha dado a seus trinta e dois chefes de carros a ordem seguinte: Ninguém atacareis, seja pequeno ou grande, mas só o rei de Israel.
31. Ao verem Josafá, os chefes dos carros disseram entre si: É certamente o rei de Israel, e avançaram sobre ele. Mas Josafá soltou seu grito (de guerra), e o Senhor o socorreu; Deus afastou dele os sírios.
32. Então os chefes dos carros, vendo que não era o rei de Israel, afastaram-se dele.
33. Nesse momento, um homem que tinha retesado o arco ao acaso, feriu o rei de Israel na parte fraca da couraça. O rei disse ao cocheiro de seu carro: Volta a rédea e conduze-me para fora do campo, porque estou ferido.
34. Mas, nesse dia, o combate foi tão violento, que o rei teve que ficar em pé no carro diante dos sírios, até a tarde. Ao pôr-do-sol, ele morreu.

 
Capítulo 19

1. Josafá, rei de Judá, retornou são e salvo a Jerusalém.
2. Jeú, filho do vidente Hanani, saiu-lhe ao encontro e lhe disse: Deve-se levar auxílio ao ímpio? Amas tu os que odeiam o Senhor? O Senhor está irritado contra ti.
3. Todavia, há em ti coisas boas, pois suprimiste da terra os ídolos asserás e aplicaste teu coração à busca de Deus.
4. Depois de sua volta a Jerusalém, Josafá saiu de novo a visitar seu povo, desde Bersabé até a montanha de Efraim, para conduzi-lo ao Senhor, Deus de seus pais.
5. Estabeleceu juízes na terra, em cada uma das cidades fortes, sem exceção.
6. Vede o que fareis, disse ele aos juízes. Não é em nome de um homem que administrais a justiça, mas em nome do Senhor, que vos assistirá quando tiverdes de fazer os vossos julgamentos.
7. Que o temor a Deus esteja conosco. Vigiai o vosso procedimento, pois, junto do Senhor, nosso Deus, não há iniqüidade, nem distinção de pessoa, nem admissão de presentes.
8. Também em Jerusalém, Josafá tinha estabelecido levitas e sacerdotes voltados à cidade para administrar a justiça em nome do Senhor e para serem árbitros nos litígios.
9. Ele lhes deu as seguintes instruções: Eis como agireis, com temor ao Senhor, lealdade e integridade de coração.
10. Em todo litígio trazido à vossa presença por vossos irmãos, estabelecidos em vossas cidades, quer se trate de assassínio, de lei, de preceito ou ordenações esclarecei-os, para que não se tornem culpados diante do Senhor, e que sua ira não se inflame contra vós e contra vossos irmãos. Agi dessa maneira para não vos tornardes culpados.
11. Tendes à vossa frente o sumo sacerdote Amarias, para todos os assuntos religiosos, e Zabadias, filho de Ismael, príncipe da casa de Judá, para todos os negócios civis. Tereis à vossa disposição levitas, na qualidade de escribas. Cobrai ânimo, portanto, e ao trabalho! Esteja o Senhor com o homem de bem!

 
Capítulo 20

1. Depois disso, os moabitas e os amonitas, acompanhados dos maonitas, fizeram guerra a Josafá.
2. Vieram informar o rei: “Uma multidão enorme, vinda do outro lado do mar Morto, avança contra ti. Ei-los já em Asasontamar, isto é, Engadi.
3. Perturbado, Josafá se dispôs a recorrer ao Senhor e promulgou um jejum para todo o Judá.
4. A população de Judá reuniu-se para invocar o Senhor; de todas as cidades de Judá eles acorreram para invocar o Senhor.
5. Diante do novo átrio do templo do Senhor, Josafá ergueu-se na presença da grande assembléia dos homens de Judá e de Jerusalém.
6. “Senhor, disse ele, Deus de nossos pais, não sois vós o Deus do céu e o soberano de todos os povos? Tendes em vossa mão a força e o poder e ninguém vos pode resistir.
7. Não sois vos, Senhor, nosso Deus, que desalojastes diante de vosso povo de Israel os habitantes desta terra, e a destes para sempre à descendência de Abraão, vosso bem-amado?
8. Nela habitaram e construíram um santuário para a glória de vosso nome, dizendo:
9. Se nos sobrevier alguma desgraça, guerra, flagelo de vingança, peste ou fome, apresentar-nos-emos diante de vós neste templo, pois vosso nome é nele Invocado, e clamaremos para vós do fundo de nossa angústia; então havereis de nos ouvir e salvar.
10. “Eis, portanto, agora, os amonitas, os moabitas e as gentes da montanha de Seir pela terra dos quais não permitisses que os israelitas atravessassem, quando da sua saída do Egito, e dos quais eles se desviaram sem destruí-los.
11. Eis que eles nos recompensam vindo expulsar-nos desta herança cuja possessão nos destes.
12. Ó nosso Deus, não exercereis sobre eles vossa justiça? Pois a força nos falta diante dessa multidão que avança contra nós; não sabemos o que fazer e nossos olhos se voltam para vós.”
13. Toda a população de Judá lá estava, de pé, diante do Senhor, com suas crianças, suas mulheres e seus filhos.
14. Então, no meio dessa grande multidão, o espírito do Senhor apoderou-se de Jaziel, filho de Zacarias, filho de Banaías, filho de Jeiel, filho de Matanias, um levita da linhagem, de Asaf.
15. “Prestai atenção, disse ele, homens de Judá e de Jerusalém, e tu, rei Josafá! Eis o que vos diz o Senhor: Não temais, não vos deixeis atemorizar diante dessa multidão imensa, pois, a guerra não compete a vós, mas a Deus.
l6 Amanhã ireis contra eles. Vede: eles subirão pela colina de Sis, e encontrá-los-eis no fim do vale, diante do deserto de Jeruel.
17. Não tereis que combater nesse caso. Colocai-vos lá e permanecei lá, para contemplar a salvação, que o Senhor vos concederá. Não temais Judá e Jerusalém, nem tenhais pavor. Saí-lhes amanhã ao encontro, e o Senhor estará convosco.”
18. Josafá prosternou-se com o rosto por terra e todo Judá e os habitantes de Jerusalém fizeram o mesmo em adoração diante do Senhor.
19. Os levitas da linhagem de Caat e de Coré levantaram-se para louvar o Senhor, Deus de Israel, em alta voz.
20. No dia seguinte, de manhã, puseram-se a caminho para o deserto de Tecua. Josafá estava presente na partida deles, para lhes dizer: “Escutai-me homens de Judá e de Jerusalém, Ponde vossa confiança no Senhor e estareis seguros; crede no seus profetas, e tudo vos correrá bem.”
21. Em seguida, depois de se ter entendido com o povo, ele designou os cantores que, revestidos de ornamentos sagrados, haveriam de marchar à frente do exército, cantando: “Louvai o Senhor, pois sua misericórdia é eterna!”
22. No momento em que era entoado este cântico de louvor, o Senhor fez cair numa emboscada os amonitas, os moabitas e os habitantes da montanha de Seir que tinham vindo atacar Judá. Foram destruídos.
23. Os amonitas e os moabitas atiraram-se então sobre os povos das montanhas de Seir para um massacre de exterminação e, isto feito puseram-se a matar uns aos outros.
24. Tendo chegado os homens de Judá à altura donde se vê o deserto, olharam para a multidão; e eis que lá não havia mais que cadáveres estendidos por terra, não tendo podido escapar ninguém.
25. Então avançou Josafá com seu exército para despojá-os, e encontraram riquezas, vestimentas e objetos preciosos em abundância; e tiraram em tal quantidade que não puderam levar tudo. A pilhagem durou três dias, pois o despojo era enorme.
26. No quarto dia, reuniram-se no vale de Beracá, onde bendisseram ao Senhor. Por isso, esse lugar ainda é chamado Beracá.
27. Os homens de Judá e de Jerusalém, tendo à frente eles Josafá, retomaram alegres o caminho da cidade, pois o Senhor tinha levado ao máximo sua alegria, livrando-os de seus inimigos.
28. Entraram em Jerusalém, no templo do Senhor, ao som das cítaras, das harpas e das trombetas.
29. o terror do Senhor apoderou-se de todos os reinos estrangeiros, ao ouvirem a notícia de que o Senhor combatia os inimigos de Israel.
30. Assim o reino de Josafá gozou de tranqüilidade, porque o Senhor lhe deu paz com todas as nações vizinhas.
31. Josafá reinou, pois, sobre Judá. Tinha trinta e cinco anos quando começou a reinar. Reinou vinte e cinco anos em Jerusalém. Sua mãe chamava-se Azuba, filha de Selai.
32. Tomou por regra o proceder de seu pai Asa, sem dele se afastar. Fez, o bem aos olhos do Senhor.
33. Todavia, os lugares altos não desapareceram e o povo não tinha ainda o coração firmemente unido ao Deus de seus pais.
34. O resto das ações de Josafá, desde as primeiras até às últimas, encontram-se relatadas nas memórias de Jeú, filho de Hanani, as quais estão inseridas no livro dos reis de Israel.
35. Depois disso, Josafá, rei de Judá, fez aliança com Ocozias, rei de Israel, e o procedimento era ímpio.
36. Eles se associaram para construir navios destinados a ir a Társis, construção essa feita em Asiongaber.
37. Então, Eliezer, filho de Dodau, de Maresa, fez contra Josafá o oráculo seguinte: “Porque fizeste aliança com Ocozias, destruiu o Senhor tua empresa!” Com, efeito, os navios se despedaçaram sem ter podido ir a Társis.

 
Capítulo 21

1. Josafá adormeceu com seus pais e foi sepultado na cidade de Davi. Seu filho Jorão lhe sucedeu no trono.
2. Jorão tinha irmãos, filhos de Josafá: Azarias, Jaiel, Zacarias, Azaria, Miguel e Safatias, todos filhos de Josafá, rei de Judá.
3. O pai deles tinha-os dotado consideravelmente de prata, ouro, objetos preciosos, e lhes dera fortalezas em Judá; mas legara o reino a Jorão, porque era o primogênito.
4. Uma vez consolidado na posse do reino de seu pai, Jorão fez perecer pela espada todos os seus irmãos, assim como alguns chefes de Israel.
5. Tinha ele trinta e dois anos quando começou a reinar e reinou oito anos em Jerusalém.
6. Seguiu as pegadas dos reis de Israel, como havia feito a casa de Acab, cuja filha desposara. Praticou o mal aos olhos do Senhor.
7. Contudo, não quis o Senhor destruir a casa de Davi, em vista da aliança feita com Davi e porque lhe tinha prometido deixar uma lâmpada, assim como a seus descendentes.
8. No tempo de Jorão, Edom libertou-se da dominação de Judá, e constituiu um rei para si.
9. Jorão se pôs a caminho, com seus chefes e seus carros, e no meio da noite bateu os edomitas que cercavam ele e os chefes dos carros.
10. Contudo, os edomitas ficaram livres da dominação de Judá até o dia de hoje. Pela mesma época, Lobna revoltou-se igualmente, porque Jorão tinha abandonado o Senhor, Deus de seus pais.
11. Jorão estabeleceu também lugares altos nas montanhas de Judá; induziu â idolatria os habitantes de Jerusalém, e arrastou Judá ao mal.
12. Foi então que lhe trouxeram da parte do profeta Elias uma mensagem concebida nos seguintes termos: Eis o que diz o Senhor, Deus de Davi, teu pai: Porque não andaste nas pegadas de teu pai Josafá, nem nas de Asa, rei de Judá,
13. mas imitaste os reis de Israel, induziste à idolatria os habitantes de Judá e Jerusalém, como o fez a casa de Acab, e assassinaste teus irmãos, a família de teu pai, que eram melhores do que tu,
14. o Senhor há de ferir com uma grande praga teu povo, teus filhos, tuas mulheres e todos os teus bens;
15. quanto a ti, hás de contrair no ventre uma grave doença, enfermidade que fará sair de teu corpo as entranhas durante longos dias.
16. O Senhor excitou contra Jorão o ânimo dos filisteus e dos árabes, vizinhos dos etíopes.
17. Eles subiram a Judá, irromperam por toda parte, pilharam todas as riquezas que estavam amontoadas no palácio real e levaram seus filhos com suas mulheres, de modo que só lhe ficou Joacaz, o filho mais novo.
18. Depois disso, o Senhor feriu-o no ventre com um mal incurável.
19. Isso durou certo tempo e, pelo fim do segundo ano, a violência do mal fez-lhe sair as entranhas. Morreu no meio de violentas dores. Seu povo não queimou perfumes em sua honra como o tinham feito para seu pai.
20. Sua idade era de trinta e dois anos quando começou a reinar e reinou oito anos em Jerusalém. Morreu sem ser chorado. Sepultaram-no na cidade dê Davi, mas não nos sepulcros reais.

 
Capítulo 22

1. Em seu lugar, os habitantes de Jerusalém proclamaram rei Ocozias, seu filho mais jovem, pois o bando de árabes, que havia invadido o acampamento, tinha assassinado os mais velhos. Assim se tornou rei Ocozias, filho de Jorão, rei de Judá.
2. Tinha vinte e dois anos quando começou a reinar e reinou um ano em Jerusalém. Sua mãe chamava-se Atalia, filha de Amri.
3. Também ele trilhou os caminhos da família de Acab, pois era impelido ao mal por sua mãe, que era sua conselheira.
4. Fez o mal aos olhos do Senhor, como tinham feito os da casa de Acab que, depois da morte de seu pai, o arrastaram à perda, por influência deles.
5. Foi segundo o conselho destes que se dirigiu a Ramot de Galaad com Jorão, filho de Acab, rei de Israel, para fazer a guerra a Hazael, rei da Síria. Ferido pelos sírios,
6. Jorão retornou a Jezrael para cuidar das feridas recebidas em Ramá, na batalha contra Hazael, rei da Síria.
Ocozias, filho de Jorão, rei de Judá, desceu a Jezrael para fazer uma visita a Jorão, filho de Acab, porquanto estava enfermo.
7. Foi da vontade de Deus que, para sua perda, Ocozias fosse visitar Jorão. Com efeito, tendo chegado, saiu com Jorão contra Jeú, filho de Namsi, que o Senhor tinha ungido para exterminar a casa de Acab.
8. E como Jeú exercia a vingança (divina) contra a casa de Acab, encontrou os chefes de Judá e os sobrinhos de Ocozias que estavam a serviço de seu tio, e os matou.
9. Agarraram então o próprio Ocozias e o prenderam em Samaria, onde se escondia. Levaram-no a Jeú, e este o mandou matar. Foi-lhe dada uma sepultura, porque os homens diziam: É um filho daquele Josafá, que buscara o Senhor de todo o seu coração. Assim não havia ninguém da família de Ocozias, que estivesse em condições de reinar.
10. Quando Atalia, mãe de Ocozias, viu seu filho morto, tomou a resolução de exterminar toda a estirpe real da casa de Judá.
11. Mas Josabet, filha do rei, raptou Joás, filho de Ocozias, dentre os jovens príncipes que estavam sendo massacrados, e o escondeu com sua ama no dormitório. Josabet, filha de Jorão, irmã de Ocozias, e mulher do sacerdote Jojada, escondeu-o assim das vistas de Atalia, e ela não conseguiu matá-lo
12. A criança esteve escondida junto delas, no templo, durante seis anos, enquanto Atalia reinava sobre a terra.

 
Capítulo 23

1. No sétimo ano, Jojada, cheio de coragem, conquistou a fidelidade dos centuriões Azarias, filho de Jerão, Ismael, filho de Joanã, Azarias, filho de Obed, Maasias, filho de Adaías e Elisafat, filho de Zecri.
2. Percorreram Judá e reuniram os levitas de todas as cidades de Judá, assim como os chefes de família de Israel; em seguida, retornaram a Jerusalém.
3. Todo esse grupo fez uma aliança com o rei no templo. Eis, disse-lhes Jojada, o filho do rei que deve reinar, segundo a declaração do Senhor referente aos filhos de Davi.
4. Eis o que fareis: um terço dentre vós, sacerdotes e levitas, que fazem o serviço do sábado, estará de guarda às portas do templo;
5. um terço vigiará o palácio real, e um terço guardará a porta de Jesod, enquanto que todo o resto do povo ocupará os átrios do templo.
6. Ninguém entra no templo, a não ser os sacerdotes e levitas de serviço, os quais podem entrar, pois que são consagrados. E todo o povo observará o que foi ordenado pelo Senhor.
7. Os levitas, com as armas na mão, rodearão o rei. E todo aquele que tentar entrar no templo será morto. Seguireis o rei em todas as suas idas e vindas.
8. Os levitas e todo o Judá seguiram à risca todas as ordens do sacerdote Jojada. Cada um deles reuniu seus homens, tanto aqueles que começavam seu serviço do sábado como aqueles que terminavam, pois o sacerdote Jojada não tinha dispensado nenhuma categoria.
9. Ele próprio entregou aos centuriões lanças, como também os escudos pequenos e grandes do rei Davi, conservados no templo.
10. Em seguida, colocou toda a tropa, com as armas na mão, ao longo do altar e do edifício, desde o ângulo sul até o ângulo norte do templo, de tal modo que rodeava o rei.
11. Em seguida, trouxeram o filho do rei e o cingiram com o diadema e lhe entregaram a Lei. Ele foi proclamado rei. Jojada e seus filhos ungiram-no, clamando: Viva o rei!
12. Atalia, contudo, ao ouvir os gritos do povo que acorria, para aclamar o rei, dirigiu-se através da multidão ao templo do Senhor,
13. e eis o que ela viu: o rei de pé, sobre um estrado, à entrada do templo; os chefes e os tocadores de trombeta ao lado dele; todo o povo alegre a seu lado, enquanto tocavam as trombetas; e os cantores, com instrumentos de música, dirigiam os cânticos de louvor. Então ela rasgou seus vestidos e, gritou: Traição, traição!
14. Mas o sacerdote Jojada deu esta ordem aos centuriões que comandavam as tropas: Arrastai-a para fora, por entre as vossas fileiras. Se alguém quiser segui-la, passai-o ao fio de vossa espada. Pois o sacerdote tinha impedido que a matassem dentro do templo do Senhor.
15. Agarraram-na, e, ao chegarem ao palácio real pelo portão dos cavalos, foi ela morta nesse lugar.
16. Jojada fez uma aliança entre si mesmo, o rei e o povo, uma aliança segundo a qual o povo devia pertencer ao Senhor.
17. Então toda a população penetrou no templo de Baal e o pilharam. Deixaram em pedaços seus altares e suas imagens e assassinaram diante dos altares Matã, sacerdote de Baal.
18. Em seguida, Jojada postou sentinelas no templo do Senhor, sob a direção de sacerdotes e levitas, que Davi tinha dividido em categorias no templo para o oferecimento dos holocaustos ao Senhor (assim como está escrito na lei de Moisés), entre cantos de alegria, conforme as disposições de Davi.
19. Colocou também porteiros às portas do templo, para que ninguém, atingido por alguma mancha, nele pudesse entrar.
20. Tomou consigo os centuriões, as pessoas importantes, aqueles que exerciam alguma função entre o povo, assim como toda a população da terra. Fizeram todos um cortejo ao rei, quando este saiu do templo do Senhor. Entraram no palácio real pela porta superior e estabeleceram o rei no trono.
21. Toda a população da terra regozijou-se; contudo, a calma reinava na cidade, enquanto Atalia era morta com um golpe de espada.

 
Capítulo 24

1. Joás tinha sete anos quando começou a reinar. Seu reinado, em Jerusalém, durou quarenta anos. Sua mãe chamava-se Sébia; era ela de Bersabéia.
2. Joás fez o bem aos olhos do Senhor durante toda a vida do sacerdote Jojada,
3. o qual lhe deu por esposas duas mulheres, das quais teve filhos e filhas.
4. Depois disso, Joás tomou a peito restaurar o templo do Senhor.
5. Convocou os sacerdotes e levitas e lhes disse: Ide e percorrei as cidades de Judá, e delas recolhereis anualmente dinheiro dos israelitas para reparar o templo de vosso Deus. Executai isso com presteza. Mas os levitas não se apressaram.
6. Então o rei mandou vir o sumo sacerdote Jojada e lhe disse: Por que não cuidaste que os levitas trouxessem de Judá e de Jerusalém a contribuição imposta por Moisés, servo do Senhor, à comunidade de Israel para a tenda do testemunho?
7. A ímpia Atalia e seus filhos destruíram a casa de Deus: fizeram servir ao culto de Baal todos os objetos sagrados do templo do Senhor.
8. Então o rei ordenou que se fizesse um cofre e o colocassem na parte externa da porta do templo.
9. Em seguida, publicou-se em Judá e em Jerusalém que levassem ao Senhor a contribuição imposta a Israel no deserto, por Moisés, servo do Senhor.
10. Todos os chefes e todo o povo, cheios de alegria, vieram colocar dinheiro no cofre até que este estivesse cheio.
11. Cada vez que, por meio dos levitas, era o cofre levado para a inspeção do rei – o que acontecia quando o dinheiro se acumulava -, o escriba real e um comissário do sumo sacerdote esvaziavam-no e depois os levitas iam colocá-lo no lugar. Assim faziam eles cada vez, e recolheram, em abundância, dinheiro,
12. que o rei e Jojada entregavam ao empreiteiro das obras do templo. Este contratava os carpinteiros, os canteiros e os trabalhadores que modelavam o ferro e o bronze, para restaurar e reparar o templo do Senhor.
13. Os empreiteiros fizeram com que os reparos fossem acabados pelos seus cuidados, e restabeleceram o templo em seu primeiro estado e o consolidaram.
14. Terminado o trabalho, devolveram na presença do rei e de Jojada o restante do dinheiro, com o qual fabricaram utensílios para o serviço do templo e para os holocaustos, assim como taças e outros objetos de ouro e prata. Enquanto viveu Jojada, foram regularmente oferecidos os holocaustos no templo do Senhor.
15. Jojada, velho e cheio de dias, morreu. Tinha cento e trinta anos.
16. Sepultaram-no na cidade de Davi, com os reis, pois ele tinha feito o bem em Israel para com o Senhor e seu templo.
17. Depois da morte de Jojada, os chefes de Judá vieram e se prostraram diante do rei, e o rei os ouviu.
18. Abandonaram o templo do Senhor, Deus de seus pais, e se puseram a adorar as imagens de asserá e outros ídolos, e tamanhas faltas atraíram a ira divina contra Judá e Jerusalém.
19. Enviou-lhes o Senhor profetas para os converterem a ele; porém, pregaram em vão, e não foram escutados.
20. Então o espírito de Deus apossou-se de Zacarias, filho do sacerdote Jojada, o qual se apresentou diante do povo: Eis, disse ele, o que diz o Senhor: Por que transgredis as ordens do Senhor? Nada conseguireis. Porque abandonastes o Senhor, o Senhor vos abandonará.
21. Mas eles se revoltaram contra ele e o apedrejaram por ordem do rei no átrio do templo do Senhor.
22. Joás, esquecido dos benefícios que Jojada lhe dispensara, mandou matar o filho. Porem, ao expirar, disse Zacarias: Que o Senhor o veja, e faça vingança!
23. Ao fim de um ano, o exército dos sírios atacou Joás; invadiu Judá e Jerusalém, massacrou os chefes do povo e enviou todo o seu despojo ao rei de Damasco.
24. Embora os sírios tivessem vindo em pequeno número, o Senhor lhes entregou um enorme exército, porque Judá tinha abandonado o Senhor, Deus de seus pais. Assim os sírios fizeram justiça a Joás.
25. Apenas se afastaram, deixando-o como presa de grandes sofrimentos, seus homens, revoltados contra ele por causa do assassínio do filho do sacerdote Jojada, assassinaram-no em seu leito. Assim morreu e sepultaram-no na cidade de Davi, mas não nos sepulcros dos reis.
26. Os conjurados eram Zabad, filho de Semaat, mulher amonita, e Jozabad, filho de Samarit, mulher moabita.
27. Tudo o que se refere a seus filhos, os numerosos oráculos proferidos contra ele e a restauração do templo estão relatados nas memórias do livro dos Reis. Seu filho Amasias sucedeu-lhe no trono.

 
Capítulo 25

1. Amasias tinha vinte e cinco anos quando começou a reinar. Reinou durante vinte e nove anos em Jerusalém. Sua mãe chamava-se Joadá, e era de Jerusalém.
2. Fez o bem aos olhos do Senhor, mas não com um coração inteiramente devotado.
3. Desde que se sentiu seguro de seu poder real, mandou matar aqueles servos que tinham assassinado o rei, seu pai.
4. Mas não mandou matar os filhos deles, conforme o que está escrito no livro da lei de Moisés, onde o Senhor ordena: Os país não serão mortos por seus filhos, nem os filhos por seus pais: cada um morrerá por seu próprio pecado.
5. Amasias reuniu os homens de Judá e os dividiu por famílias com os chefes de milhares e os chefes de centenas, para todo o Judá e todo o Benjamim. Fez o recenseamento. deles a partir da idade de vinte anos para cima e encontrou trezentos mil homens escolhidos, aptos para o serviço, e capazes de carregar lança e escudo.
6. Em seguida, recrutou ao seu soldo por cem talentos de prata, cem mil valentes guerreiros de Israel.
7. Mas um homem de Deus veio-lhe ao encontro. “Ó rei, disse ele, não é preciso que o exército de Israel te acompanhe, porque o Senhor não está com Israel, com esses filhos de Efraim.
8. Vai sozinho; age e sê valente no combate; de outra forma Deus te deixará cair diante do inimigo, pois ele tem o poder de socorrer ou de abater.”
9. Disse Amasias ao homem de Deus: “Mas que farei então com respeito aos cem talentos que dei às tropas israelitas?” -
11. O Senhor respondeu o homem de Deus, tem para dar-te mais do que isso.”
10. Amasias licenciou, pois, e enviou de volta para a sua terra a tropa de efraimitas que tinha vindo a ele. Mas apoderou-se deles uma viva irritação contra Judá e eles retomaram furiosos para as suas casas.
11. Amasias, cheio de confiança, foi com seu exército para o vale do Sal, onde ‘matou dez mil seiritas.
12. Os filhos de Judá tinham capturado dez mil homens vivos; conduziram-nos ao alto de um rochedo, de onde os precipitaram, e todos ficaram despedaçados.
13. Entretanto, os homens da tropa que Amasias tinha licenciado, não os deixando ir para a guerra com ele, saquearam as cidades de Judá desde Samaria até Betoron. Mataram três mil homens e levaram um considerável despojo.
14. Tendo voltado para casal depois da derrota dos edomitas, Amasias, que tinha trazido os deuses dos seiritas, fez deles seus próprios deuses; prostrou-se diante deles, queimando-lhes incenso.
15. Inflamou-se por isso a ira do Senhor contra ele; enviou-lhe um profeta, que lhe disse: “Por que foste procurar esses deuses estranhos, que não foram capazes de salvar seu povo de tua mão?”
16. Enquanto lhe falava o profeta, Amasias lhe disse: “Foste tu nomeado conselheiro cio rei? Vai-te embora, se não queres que eu te mate!” O profeta retirou-se, dizendo: “Sei que Deus decretou tua perda, porque te portaste mal e não queres ouvir minha advertência.”
17. Houve um conselho, depois do qual Amasias mandou dizer a Joás, filho de Joacaz, filho de Jeú, rei de Israel: “Vem, para que nos vejamos face a face.” Joás, rei de Israel, mandou responder a Amasias, rei de Judá:
18. “O espinho do Líbano mandou dizer ao cedro do Líbano: Dá tua filha por esposa a meu filho. Mas os animais selvagens do Líbano passaram e pisaram o espinho.
19. Dizes que derrotaste os edomitas, e teu coração se enche de orgulho. Vamos! Fica em casa. Por que correres tu à frente do perigo, arriscando-te a uma empresa que te perderá a ti e Judá contigo?”
20. Mas Amasias nada quis ouvir. Era o efeito de uma disposição divina, a fim de que fossem entregues a seus inimigos, eles que tinham adorado os deuses de Edoin.
21. Joás, rei de Israel, pôs-se a caminho; encontraram-se ele e Amasias, rei de Judá, em Betsames, que está em Judá.
22. Judá foi vencido por Israel, e cada um fugiu para sua tenda.
23. Joás, rei de Israel, aprisionou, em Betsames, Amasias, rei de Judá, filho de Joás, filho de Ocozias. Mandou-o para Jerusalém e abriu na muralha uma brecha de quatrocentos côvados, desde a porta de Efraim até a porta do ângulo.
24. Apoderou-se de todo o ouro e prata, assim como dos utensílios que se encontravam no templo, em casa de Obededom e nos tesouros do palácio real; e retornou a Samaria, levando reféns.
25. Amasias, filho de Joás, rei de Judá, viveu ainda quinze anos depois da morte de Joás, filho de Joacaz, rei de Israel.
26. O resto dos atos de Amasias, dos primeiros aos últimos, está relatado no livro dos reis de Judá e de Israel.
27. Depois que Amasias se desviou do Senhor, tramou-se contra ele em Jerusalém uma conspiração, e ele fugiu para Laquis. Perseguiram-no, porém, até lá e o mataram.
28. Transportaram-lhe o corpo em cima de cavalos, e sepultaram-no com seus pais na cidade de Judá.

 
Capítulo 26

1. Todo o povo de Judá tomou por rei a Ozias, então com a idade de dezesseis anos, e o entronizou em lugar de seu pai Amasias.
2. Foi ele quem reedificou Elat e fez voltar essa cidade ao domínio de Judá, depois que o rei adormeceu com seus pais.
3. Tinha Ozias a idade de dezesseis anos quando começou a reinar, e reinou cinqüenta e dois anos em Jerusalém. Sua mãe chamava-se Jequelia e era de Jerusalém.
4. Fez o bem aos olhos do Senhor, como tinha feito seu pai Amasias.
5. Aplicou-se a honrar a Deus durante a vida de Zacarias, que o instruiu no temor de Deus. Enquanto honrou ao Senhor, Deus o fez prosperar.
6. Fez uma expedição contra os filisteus. Derrubou a muralha de Get, a de Jabnia e a de Azot; construiu cidades no território de Azot e na terra dos filisteus.
7. Deus o ajudou contra os filisteus, contra os árabes de Gurbaal, e contra os maonitas.
8. Os amonitas lhe pagaram tributo, e sua fama se fortificou de tal modo, que se estendeu até os confins do Egito.
9. Levantou torres fortificadas em Jerusalém, na porta do ângulo, na porta do vale e no ângulo.
10. Construiu também torres no deserto, onde cavou numerosos poços, pois possuía ali numerosos rebanhos, tanto na planície como no planalto. Tinha lavradores e vinhateiros nas montanhas e nos pomares, porque se interessava pela agricultura.
11. Ozias tinha um exército de guerreiros que saíam por turmas ao combate, contados segundo o recenseamento deles, feito pelo escriba Jeiel e o comissário Maasias, sob a direção de Hananias, um dos generais do rei.
12. O número total dos chefes de família, guerreiros valentes, era de dois mil e seiscentos.
13. O exército que comandavam era de trezentos e sete mil e quinhentos homens, que faziam a guerra com valor suficiente para ajudar o rei contra o inimigo.
14. A todo esse exército Ozias fornecia escudos, lanças, capacetes, couraças, arcos e pedras de funda.
15. Mandou construir em Jerusalém, pelos cuidados de um engenheiro, máquinas para serem colocadas nas torres e nos ângulos das muralhas, que atiravam flechas e grandes pedras. Sua fama se estendeu ao longe, pois Deus fez maravilhas para ajudá-lo a adquirir um grande poder.
16. Mas, apenas sentiu-se ele poderoso, seu coração encheu-se de orgulho, para sua desgraça. Cometeu uma falta contra o Senhor, seu Deus, entrando no templo do Senhor para queimar incenso no altar dos perfumes.
17. O sacerdote, Azarias, com oitenta corajosos sacerdotes do Senhor, seguiram-no.
18. Resistiram ao rei Ozias e lhe disseram: Não compete a ti, Ozias, queimar incenso ao Senhor, mas aos sacerdotes da estirpe de Aarão, que foram consagrados para esse fim. Sai do santuário, porque prevaricaste, e isso não será para ti honra diante do Senhor Deus.
19. Então Ozias, tendo na mão o turíbulo, encolerizou-se; mas, durante esse acesso de cólera, apareceu a lepra em sua fronte, ali, no templo do Senhor, na presença dos sacerdotes, diante do altar dos perfumes.
20. O sumo sacerdote Azarias e todos os outros sacerdotes, olhando-o, viram essa lepra que ele tinha na fronte. Precipitadamente fizeram-no sair; aliás, ele próprio se apressou em sair, sentindo-se ferido pelo Senhor.
21. O rei Ozias ficou leproso até a morte. Como tal, viveu numa casa isolada. Estava excluído do templo do Senhor, e seu filho Joatão governava o palácio e julgava o povo da terra.
22. O profeta Isaías relatou os outros atos de Ozias, desde os primeiros até os últimos.
23. Ozias adormeceu entre seus pais e foi sepultado perto deles, no campo da sepultura dos reis, porque diziam: Ele era leproso. Seu filho Joatão sucedeu-lhe no trono.

 
Capítulo 27

1. Joatão tinha a idade de vinte e cinco anos quando começou a reinar, e reinou durante dezesseis anos em Jerusalém. Sua mãe chamava-se Jerusa, filha de Sadoc.
2. Fez o bem aos olhos do Senhor, e seguiu as pegadas de seu pai Ozias, exceto que não penetrou no templo do Senhor. Mas o povo continuava a se corromper.
3. Foi Joatão quem construiu a porta superior do templo do Senhor, e trabalhou muito no muro de Ofel.
4. Construiu cidades na montanha de Judá, fortes e torres nas matas.
5. Fez guerra ao rei dos amonitas e venceu-os. Nesse ano, os amonitas pagaram-lhe um tributo de cem talentos de prata, dez mil coros de trigo, e dez mil de cevada; isso eles trouxeram também no segundo e no terceiro ano.
6. Joatão tornou-se assim muito poderoso, porque ele andava com firmeza nos caminhos do Senhor, seu Deus.
7. Os outros atos de Joatão, suas ações e feitos, suas guerras, tudo isso está relatado nos livros dos reis de Israel e de Judá.
8. Tinha vinte e cinco anos quando começou a reinar: reinou dezesseis anos em Jerusalém.
9. Joatão adormeceu entre seus pais e foi sepultado na cidade de Davi. Seu filho Acaz sucedeu-lhe no trono.

 
Capítulo 28

1. Acaz tinha a idade de vinte anos, quando começou a reinar. Reinou dezesseis anos em Jerusalém. Não fez o bem aos olhos do Senhor, como havia feito Davi, seu pai,
2. mas trilhou as pegadas dos reis de Israel. Fez até imagens de metal fundido aos Baal.
3. Queimou perfumes no vale de Beninon e fez passar seus filhos pelo fogo, segundo o abominável costume das nações que o Senhor tinha afastado de diante dos israelitas.
4. Oferecia sacrifícios e perfumes nos lugares altos, nas colinas e debaixo de toda árvore verdejante.
5. O Senhor, seu Deus, entregou-o às mãos do rei da Síria. Os sírios derrotaram-no e fizeram um grande número de prisioneiros que foram deportados para Damasco. Ele também foi entregue às mãos do rei de Israel, que lhe infligiu grande derrota.
6. Pecá, filho de Romelia, matou, num só dia, cento e vinte mil homens de Judá, todos aguerridos, porque tinham abandonado o Senhor, Deus de seus pais.
7. Zecri, um guerreiro de Efraim, matou Maasias, de estirpe real, e Ezrica, chefe do palácio, assim como Elcana, o segundo depois do rei.
8. Os israelitas fizeram dentre seus irmãos duzentos mil prisioneiros, mulheres, jovens e donzelas; fizeram também um imenso despojo, que levaram para Samaria.
9. Ora, havia ali um profeta do Senhor, chamado Oded, o qual saiu ao encontro do exército que entrava em Samaria e lhes disse: Vede: na sua ira contra Judá, o Senhor, Deus de vossos pais, vo-los entregou, e vós os matastes com uma fúria tal, que subiu até o céu.
10. E agora quereis oprimir os homens de Judá e de Jerusalém até fazer deles vossos escravos e escravas. Mas, entre vós não há também prevaricações contra o Senhor, vosso Deus?
11. Escutai-me: mandai de volta os cativos que fizestes entre vossos irmãos, pois a ira do Senhor vos ameaça.
12. Levantaram-se então alguns dos chefes dos efraimitas. Eram eles Azarias, filho de Joanã, Baraquias, filho de Mosolamot, Ezequias, filho de Selum e Amassa, filho de Adali. Eles se opuseram aos que voltavam do exército.
13. Não introduzireis aqui esses cativos, disseram-lhes eles. Quereis que nos tornemos culpados contra o Senhor, e que aumentemos assim as nossas faltas que já são suficientemente numerosas? A ira do Senhor já ameaça Israel.
14. Então, na presença dos chefes e da multidão, os soldados soltaram os presos e abandonaram os despojos.
15. Em seguida, os homens, cujos nomes acabam de ser citados, acolheram os cativos. Revestiram, com vestes tiradas dos despojos, aqueles que estavam nus, e os calçaram; deram-lhes comida e bebida, ungiram-nos e mandaram-nos a Jericó, a cidade das palmeiras, junto de seus irmãos, tendo colocado sobre jumentos todos os que se achavam extenuados. Depois disso, voltaram para Samaria.
16. Naquele tempo o rei Acaz mandou pedir socorro aos reis da Assíria,
17. pois os edomitas tinham voltado para combater os judeus e levá-los prisioneiros.
18. Os filisteus tinham também invadido as cidades da planície e do Negeb, de Judá; tinham tomado Betsames, Aialon, Gaderot, Soco e as cidades que delas dependiam, Tamna e seus arrabaldes, Gamzo e seus arrabaldes, e nelas se estabeleceram.
19. O Senhor humilhava Judá por causa de Acaz, rei de Israel, que tinha soltado os freios em Judá e cometido graves delitos contra o Senhor.
20. Teglat-Falasar, rei da Assíria, em vez de dar-lhe apoio, atacou-o e oprimiu-o.
21. Em vão Acaz tinha despojado o templo do Senhor, o palácio real e os príncipes para fazer presentes ao rei da Assíria. Tudo isso de nada lhe valeu.
22. Embora estivesse angustiado, o rei Acaz continuou seus crimes contra o Senhor.
23. Oferecia sacrifícios aos deuses de Damasco, que o tinham derrotado: São, dizia ele, os deuses dos reis da Síria que lhes vêm em auxílio; oferecer-lhes-ei, portanto, sacrifícios para que me ajudem igualmente. Mas foram a causa de sua queda e de todo o Israel.
24. Acaz juntou todos os utensílios do templo e os fez em pedaços. Cerrou as portas do templo do Senhor, fabricou altares em todos os cantos de Jerusalém,
25. assim como lugares altos em cada uma das cidades de Judá para neles oferecer incenso aos deuses falsos. Assim ele exasperava o Senhor, Deus de seus pais.
26. Seus outros atos, seus feitos e façanhas, dos primeiros aos últimos, tudo isso está relatado nos livros dos reis de Judá e de Israel.
27. Adormeceu com seus pais e foi sepultado na cidade, em Jerusalém, pois não o colocaram nos sepulcros dos reis de Israel. Seu filho Ezequias sucedeu-lhe no trono.

 
Capítulo 29

1. Ezequias tinha vinte e cinco anos quando começou a reinar, e reinou em Jerusalém vinte e nove anos. Sua mãe chamava-se Abia, filha de Zacarias.
2. Fez o bem aos olhos do Senhor, assim como tinha feito Davi, seu pai.
3. Foi ele que, no primeiro ano de seu reinado, no primeiro mês, reabriu as portas do templo, depois de tê-las reparado.
4. Convocou os sacerdotes e os levitas para uma assembléia que se realizou na praça oriental.
5. Disse-lhes ele: Escutai-me, levitas! Santificai-vos agora, santificai o templo do Senhor, Deus de nossos pais, e purificai-o de tudo o que o mancha,
6. porque nossos pais prevaricaram, fizeram o mal aos olhos do Senhor, nosso Deus; abandonaram-no, desviaram seus olhos de sua morada, voltaram-lhe as costas;
7. cerraram as portas do pórtico, extinguiram as lâmpadas, não mais queimaram incenso, suprimiram os holocaustos no santuário do Deus de Israel.
8. Por isso, a ira do Senhor se desencadeou contra Judá e Jerusalém, e os entregou à desolação, fazendo deles um objeto de espanto e zombaria, como vedes com os vossos próprios olhos.
9. Foi assim que nossos pais caíram sob a espada, que nossas mulheres e filhas estão no cativeiro.
10. Tenho agora a intenção de fazer um pacto com o Senhor, Deus de Israel, para que o ardor de sua ira nos poupe.
11. Ora, meus filhos, não sejais indolentes, porque é a vós que o Senhor escolheu para estardes diante dele, para fazer seu serviço e oferecer-lhe incenso.
12. Então se apresentaram os levitas: Maat, filho de Amasaí, Joel, filho de Azarias, da linhagem dos filhos de Caat; da linhagem de Merari, Cis, filho de Abdi, Azarias, filho de Jalaleel; da linhagem dos gersonitas, Joá, filho de Zema, Éden, filho de Joá;
13. da linhagem de Elisafã, Samri e Jaiel; da linhagem de Asaf, Zacarias e Matanias;
14. da linhagem de Hemã, Jaiel e Semei; da linhagem de Iditum, Semeías e Oziel.
15. Puseram-se a reunir seus irmãos e, depois de se terem santificado, vieram, por ordem do rei e conforme as palavras do Senhor, purificar o templo.
16. Entraram no templo do Senhor para purificá-lo; varreram do átrio do templo toda imundície que encontraram e os levitas levaram-na de lá para o vale do Cedron.
17. Foi no primeiro dia do primeiro mês que começaram essa purificação; no oitavo dia desse mês, tinham chegado ao pórtico. Em oito dias o templo foi purificado. No décimo sexto dia do mês estava tudo acabado.
18. Dirigiram-se, então, à casa do rei Ezequias, a quem disseram: Purificamos todo o templo do Senhor, o altar dos holocaustos com todos os seus utensílios, a mesa dos pães de proposição com todos os seus utensílios;
19. pusemos em condição e purificamos todos os objetos que Acaz, durante seu reinado, tinha manchado; e estão diante do altar do Senhor.
20. No dia seguinte, de manhã, o rei Ezequias reuniu os dignitários da cidade e subiu ao templo.
21. Levaram sete touros, sete carneiros, sete cordeiros, sete bodes em sacrifício pelo pecado, na intenção da realeza, do santuário e de Judá. Disse o rei aos sacerdotes da linhagem de Aarão que os oferecessem no altar do Senhor.
22. Os sacerdotes imolaram os touros, dos quais recolheram o sangue para, em seguida, derramarem-no sobre o altar. Em seguida, imolaram os carneiros e espalharam seu sangue sobre o altar; depois, fizeram o mesmo com os cordeiros.
23. Trouxeram então os bodes pelo pecado, diante do rei e da multidão, e todos puseram a mão sobre eles.
24. Os sacerdotes imolaram-nos e derramaram seu sangue sobre o altar em expiação dos pecados de todo o Israel, porque era para todo o Israel que o rei tinha ordenado o holocausto e o sacrifício expiatório.
25. Ele tinha colocado no templo levitas, com címbalos, cítaras e harpas, segundo o rito de Davi, de Gad, o vidente do rei e do profeta Natã. (Mas era o Senhor quem tinha instituído isso, pela boca de seus profetas.)
26. Os levitas tinham tomado posição com os instrumentos de Davi e os sacerdotes com as trombetas.
27. Quando Ezequias deu ordem de oferecer o holocausto sobre o altar, no momento em que começou esse sacrifício, o cântico se fez ouvir, assim como as trombetas, acompanhadas pelos instrumentos de Davi, rei de Israel.
28. Toda a assembléia estava prostrada; entoaram o cântico e tocaram as trombetas até findar-se o holocausto.
29. Terminado o sacrifício, o rei e todos os que o cercavam curvaram os joelhos e se prosternaram.
30. Em seguida, o rei e os chefes ordenaram aos levitas que cantassem um cântico ao Senhor, com as palavras de Davi e de Asaf, o vidente. Cantaram cheios de alegria esse hino; depois, inclinaram-se em adoração.
31. Ezequias então tomou a palavra: Agora, disse ele, que haveis sido novamente consagrados ao Senhor, aproximai-vos e oferecei sacrifícios e ações de graças no templo do Senhor. E a multidão levou vítimas para oferecê-las em ações de graças; e todos os que o quiseram, ofereceram holocaustos.
32. Eis o número de holocaustos oferecidos pela multidão: setenta touros, cem carneiros, duzentos cordeiros, tudo em holocausto ao Senhor.
33. Consagraram, além disso, seiscentos bois e três mil ovelhas.
34. Mas como os sacerdotes, devido a seu pequeno número, não podiam esfolar todos os holocaustos, seus irmãos, os levitas, ajudaram até que não houvesse mais necessidade e até que os outros sacerdotes se tivessem santificado; porque os levitas tinham mostrado mais solicitude que os sacerdotes para se purificarem.
35. Houve ainda holocaustos em abundância, além da queima da gordura dos sacrifícios pacíficos e das libações para os holocaustos. Foi assim restabelecido o culto no templo do Senhor.
36. Ezequias e o povo regozijaram-se de que o Senhor tivesse bem disposto todo o povo, porque a coisa se tinha feito de improviso.

 
Capítulo 30

1. Ezequias enviou mensageiros a todo o Israel e a todo o Judá; escreveu também cartas a Efraim e a Manassés para convidá-los a vir ao templo de Jerusalém, a fim de celebrarem a Páscoa em honra do Senhor, Deus de Israel.
2. O rei, seus chefes e toda a multidão de Jerusalém, tinham resolvido celebrar a Páscoa no segundo mês;
3. não puderam fazê-lo em tempo, porque não estavam santificados sacerdotes em número suficiente, e o povo não se tinha ainda reunido em Jerusalém.
4. Tendo isto agradado ao rei e à assembléia,
5. decidiram publicar em todo o Israel, desde Bersabéia até Dã, a ordem de vir a Jerusalém para celebrar a Páscoa em honra do Senhor, Deus de Israel, pois desde muito tempo não mais fora celebrada como estava prescrito.
6. Partiram, então, os correios com as cartas do rei e dos chefes, para todo o Israel e Judá. Por ordem do rei, eles diziam: Israelitas, voltai ao Senhor, o Deus de Abraão, de Isaac e de Israel, a fim de que ele se volte àqueles dentre vós que conseguiram escapar das mãos do rei da Assíria.
7. Não sejais como vossos pais e vossos irmãos que prevaricaram contra o Senhor, Deus de seus pais, o qual os entregou à desolação, como vedes.
8. Não endureçais vossa cerviz como fizeram vossos pais. Dai a mão ao Senhor, vinde a seu santuário que ele consagrou para sempre, e servi ao Senhor, vosso Deus, a fim de que ele afaste de vós o ardor de sua cólera.
9. Se voltardes para o Senhor, vossos irmãos e vossos filhos acharão misericórdia diante daqueles que os levaram para o cativeiro e voltarão à sua terra, pois o Senhor Deus é generoso e misericordioso e não desviará os olhos de vós, se voltardes para ele.
10. Assim os correios passaram de cidade em cidade, na terra de Efraim, de Manassés e até de Zabulon. Zombaram deles e os escarneceram.
11. Contudo, alguns homem de Aser, de Manassés e de Zabulon humilharam-se e dirigiram-se a Jerusalém.
12. Também em Judá, a mão de Deus operou sobre os habitantes para dar-lhes um mesmo desejo de executar o mandato do rei e de seus chefes, conforme a palavra do Senhor.
13. Grandes multidões afluíram a Jerusalém para celebrar a festa dos Ázimos, no segundo mês. Foi uma imensa afluência de povo.
14. Eles puseram-se a destruir os altares que se encontravam em Jerusalém, a destruir todos os altares dos perfumes, e os atiraram na torrente do Cedron.
15. Imolaram a Páscoa no décimo quarto dia do segundo mês. Os sacerdotes e os levitas, cheios de confusão, tinham-se santificado e ofereceram holocaustos no templo.
16. Ocupavam seu lugar normal, como o prescreve a lei de Moisés, homem de Deus. Os sacerdotes esparziam o sangue que lhes davam os levitas.
17. Como houvesse na assistência muitos que não se tinham purificado, os levitas encarregaram-se de imolar a Páscoa, para todos os que não estavam puros, a fim de consagrá-los ao Senhor.
18. Grande parte do povo, com efeito, muitos de Efraim, de Manassés, de Issacar e de Zabulon, comeu a Páscoa, contrariamente à prescrição, sem se ter purificado. Mas Ezequias fez por eles esta prece: Digne-se o Senhor, na sua bondade,
19. perdoar todos os que aplicaram seu coração à procura de Deus, o Senhor, Deus de seus pais, conquanto não tivessem a purificação exigida para o santuário!
20. O Senhor escutou Ezequias e perdoou o povo.
21. Os israelitas que se encontravam em Jerusalém celebraram alegremente a festa dos Ázimos durante uma semana: e cada dia os levitas e os sacerdotes louvaram o Senhor com instrumentos possantes em honra do Senhor.
22. Ezequias dirigiu palavras de encorajamento a todos os levitas que se tinham mostrado compreensivos no serviço do Senhor. Durante sete dias comeram as vítimas da festa, ofereceram sacrifícios pacíficos e glorificaram o Senhor, Deus de seus pais.
23. Mas a opinião de toda a multidão era de prolongar a festa por mais uma semana, e esses sete dias (suplementares) foram celebrados com alegria.
24. Ezequias tinha dado à multidão mil touros e sete mil ovelhas; os chefes ajuntaram a isso mil touros e dez mil ovelhas; os sacerdotes, em grande número, se tinham purificado.
25. A alegria reinava em toda a multidão dos homens de Judá, entre os sacerdotes e levitas, a multidão vinda de Israel e os estrangeiros vindos de Israel ou estabelecidos em Judá.
26. Em Jerusalém houve grande júbilo, tanto que nada de semelhante se tinha visto na cidade desde o tempo de Salomão, filho de Davi, rei de Israel.
27. Finalmente os sacerdotes e os levitas levantaram-se para abençoar a multidão. A voz deles foi ouvida e a prece deles chegou até a morada santa do Senhor, no céu.

 
Capítulo 31

1. Acabadas estas festas, os israelitas presentes foram às cidades de Judá e despedaçaram as estelas, derrubaram as asserás, destruíram os lugares altos e demoliram os altares de todo o Judá, Benjamim, Efraim e Manassés. Foi uma destruição radical. Feito isto, os israelitas retornaram cada qual para sua cidade, cada qual para sua terra.
2. Ezequias restabeleceu as categorias dos sacerdotes e levitas segundo suas classes, tendo cada um deles sua função própria, seja para os holocaustos e os sacrifícios pacíficos, seja para o serviço do culto, seja para os cantos e louvores às portas da morada do Senhor.
3. O rei reservou também uma porção de seus bens para os holocaustos da manhã e da tarde, para os dos sábados, das neomênias, e das solenidades, conforme a prescrição da lei do Senhor.
4. Ordenou ao povo, que habitava em Jerusalém, provesse à manutenção dos sacerdotes e levitas, a fim de que estes pudessem consagrar-se à observância da lei do Senhor.
5. Logo que esta ordem foi promulgada, os israelitas multiplicaram suas oferendas das primícias de trigo, do mosto, do azeite, do mel e de todos os produtos do campo, com uma abundância de dízimos de toda a sorte.
6. Os israelitas e os filhos de Judá que moravam em Judá deram também o dízimo do gado e dos rebanhos, e o dízimo das coisas santas, consagradas ao Senhor, seu Deus; e fizeram dele montões.
7. Esta acumulação começou no terceiro mês e só no sétimo mês acabou.
8. Vieram então Ezequias e seus chefes e, vendo esses montões, louvaram o Senhor e seu povo de Israel.
9. Ezequias interrogou a esse respeito os sacerdotes e os levitas.
10. O sumo sacerdote Azarias, da linhagem de Sadoc, respondeu-lhe: Desde que começaram a trazer essas oferendas ao templo, temos comido à saciedade e delas nos restam muitas. O Senhor abençoou seu povo: eis tudo o que sobra.
11. Ezequias deu ordem de preparar celeiros no templo do Senhor, o que foi feito.
12. Neles amontoaram fielmente as oferendas, os dízimos e as coisas consagradas. Para essa tarefa foi encarregado o levita Conenias, ajudado por seu irmão Semei.
13. Sob a direção deles, Jaiel, Azarias, Naat, Asael, Jerimot, Josabad, Elial, Jesmaquias, Maat e Banaías exerciam o ofício de vigilantes, todos sob a ordem do rei Ezequias e de Azarias, governador do templo.
14. O levita Coré, guarda da porta oriental, estava encarregado dos dons voluntários feitos a Deus, da distribuição das oferendas feitas ao Senhor, e das coisas consagradas.
15. Estavam à sua disposição, nas cidades sacerdotais, Éden, Benjamim, Jesué, Semeías, Amarias e Sequemias, com a missão de distribuir eqüitativamente sua parte a cada um, grandes e pequenos, segundo suas classes -
16. com exceção, contudo, dos varões inscritos da idade de três anos para cima. – Faziam a distribuição a todos os que vinham ao templo do Senhor para o serviço cotidiano, conforme suas funções e classes.
17. A inscrição dos sacerdotes era feita segundo suas famílias, e a dos levitas, desde a idade de vinte anos para cima, segundo suas funções e suas classes.
18. A inscrição de toda essa multidão mencionava seus filhos, mulheres, filhos e filhas, porque a distribuição das oferendas devia-se fazer com eqüidade.
19. Quanto aos sacerdotes da linhagem de Aarão, que moravam no campo e nos arrabaldes de suas cidades, havia em cada localidade, homens nominalmente designados para distribuir porções a todo varão dentre os sacerdotes e a todos os levitas inscritos.
20. Foram essas as medidas tomadas por Ezequias em toda a terra de Judá. Praticou o bem, leal e fielmente diante do Senhor, seu Deus.
21. Em tudo o que empreendeu para o serviço do templo, para a lei e as prescrições, só procurou a vontade de Deus, pondo na sua obra todo o seu coração. Em tudo foi bem-sucedido.

 
Capítulo 32

1. Depois desses feitos, que eram provas de fidelidade, Senaquerib, rei da Assíria, invadiu Judá e assediou as cidades fortes com o desígnio de se apoderar delas.
2. Quando Ezequias viu que o objetivo de Senaquerib era Jerusalém,
3. resolveu, de acordo com os chefes e seus oficiais, obstruir as águas das nascentes que se encontravam fora da cidade; e todos o ajudaram a executar esse projeto.
4. Juntou muita gente; obstruíram todas as fontes, como também o riacho que corria no meio da terra. Por que, diziam eles, os reis da Assíria haveriam de encontrar, chegando aqui, água em abundância?
5. Ezequias, cheio de energia, reparou a muralha em ruína, levantou torres, construiu um segundo muro exterior, restaurou Milo, na cidade de Davi, e mandou fabricar lanças e escudos em grande abundância.
6. Colocou à frente do exército chefes militares; reuniu-os perto de si na praça da porta da cidade e exortou-os à coragem.
7. Sede valentes, disse-lhes ele; cobrai coragem, nenhum temor ou pavor diante do rei da Assíria e toda essa multidão que ele arrasta após si. Há mais conosco do que com ele.
8. Com ele, um braço de carne; conosco, o Senhor, nosso Deus, para nos auxiliar e combater conosco. A estas palavras de Ezequias, rei de Judá, o povo recobrou confiança.
9. Senaquerib, que se encontrava diante de Laquis com todas as suas forças armadas, enviou uma delegação a Jerusalém para dizer a Ezequias e aos homens de Judá:
10. Eis o que diz Senaquerib, rei da Assíria: em que confiais vós para vos encerrardes dessa maneira em Jerusalém?
11. Não vedes que Ezequias vos engana para vos fazer perecer de fome e sede, quando vos diz: o Senhor, nosso Deus, nos salvará das mãos do rei da Assíria?
12. Não foi ele, Ezequias, quem suprimiu os lugares altos e os altares do Senhor, ordenando a Judá e a Jerusalém não se prostrar e não oferecer incenso, senão diante de um só altar?
13. Não sabeis o que fizemos, meus pais e eu, a todos os povos das outras terras? Puderam os deuses dessas nações salvar seus países de minha mão?
14. Entre todos os deuses dessas nações que meus pais exterminaram, qual deles subtraiu sua nação de meu poder, para que vosso Deus vos possa livrar do meu braço?
15. Não vos deixeis, portanto, iludir por Ezequias, nem seduzir. Não confieis nele. Nenhum deus de nenhuma nação nem de algum reino pôde livrar seu povo de minha mão, nem da mão de meus pais. Quanto menos vossos deuses poderiam livrar-vos da minha!
16. Os homens de Senaquerib ajuntaram ainda muitas outras palavras contra o Senhor Deus e contra Ezequias, seu servo.
17. Ele escreveu também uma carta cheia de ultrajes contra o Senhor, Deus de Israel, na qual o atacava dizendo: Assim como os deuses das nações não puderam subtraí-las de minha mão, assim também o Deus de Ezequias não poderá livrar seu povo da minha.
18. E tudo isso foi gritado em alta voz em hebraico, com o fim de intimidar e assustar o povo de Jerusalém, que se encontrava na muralha, a fim de apoderar-se da cidade.
19. Falavam do Deus de Jerusalém como dos deuses das nações pagãs que não passam de obras feitas pela mão do homem.
20. Nessa altura, o rei Ezequias e o profeta Isaías, filho de Amós, puseram-se em oração para implorar aos céus.
21. E o Senhor enviou um anjo que exterminou todo o exército do rei da Assíria, no próprio acampamento, com os chefes e os generais; e o rei voltou para a sua terra inteiramente confuso. Quando ele entrava no templo de seu deus, seus filhos, saídos de sua própria carne, assassinaram-no com um golpe de espada.
22. Desse modo o Senhor livrou Ezequias e os habitantes de Jerusalém da mão de Senaquerib e de todos os seus inimigos, protegendo-os contra todos os seus vizinhos.
23. Muitos foram os que levaram a Jerusalém oferendas para o Senhor e ricos presentes para Ezequias, rei de Judá, que conquistou desde então um grande prestígio aos olhos das nações pagãs.
24. Por aqueles dias, Ezequias caiu numa doença mortal. Orou ao Senhor, e este lhe respondeu por um prodígio.
25. Mas Ezequias não se mostrou reconhecido pelo benefício recebido: seu coração se ensoberbeceu e a ira do Senhor se inflamou contra ele, como também contra Judá e Jerusalém.
26. Todavia, como ele se humilhou com os habitantes de Jerusalém, do orgulho de seu coração, não se desencadeou sobre ele a ira do Senhor, durante sua vida.
27. Ezequias possuía muita riqueza e glória. Mandou fazer depósitos para a prata, o ouro, as pedras preciosas, os aromas, os escudos e os outros objetos de valor;
28. armazéns para o trigo, o mosto e o azeite; estábulos para toda a espécie de gado e apriscos para os rebanhos.
29. Construiu para si cidades. Adquiriu um grande número de rebanhos, de gado grande e miúdo, pois o Senhor lhe tinha dado imensas riquezas.
30. Foi ele, Ezequias, quem fechou a saída superior das águas do Gião, e as dirigiu para o ocidente da cidade de Davi. Teve bom êxito em tudo o que empreendeu.
31. Todavia, quando os chefes de Babilônia lhe enviaram mensageiros para se informar do prodígio que tinha acontecido na terra, Deus o abandonou para provar e conhecer o âmago de seu coração.
32. Os outros atos de Ezequias, suas obras piedosas, tudo isso se acha relatado na visão do profeta Isaías, filho de Amós, e nos livros dos reis de Judá e de Israel.
33. Ezequias adormeceu entre seus pais e foi sepultado na parte superior dos sepulcros dos filhos de Davi. Todo o Judá e os habitantes de Jerusalém lhe prestaram as honras fúnebres. Seu filho Manassés sucedeu-lhe no trono.

 
Capítulo 33

1. Manassés tinha a idade de doze anos quando começou a reinar; reinou cinqüenta e cinco anos em Jerusalém.
2. Fez o mal aos olhos do Senhor, imitando as práticas abomináveis das nações que o Senhor tinha expulsado de diante dos israelitas.
3. Reconstruiu os lugares altos, que seu pai Ezequias tinha destruído, erigiu altares aos Baal, fez ídolos de madeira, asserás, e prostrou-se diante do exército dos céus ao qual prestou culto.
4. Chegou até a edificar altares no templo do Senhor, esse templo do qual tinha dito: Meu nome residirá em Jerusalém para sempre.
5. Construiu altares para todo o exército dos céus nos dois átrios do templo.
6. Fez passar pelo fogo seus próprios filhos no vale de Beninom; entregou-se à astrologia, à adivinhação e à magia, praticou a necromancia e a bruxaria, e multiplicou os atos que desagradavam ao Senhor, provocando-lhe assim a ira.
7. O ídolo, feito por ele, erigiu-o no templo, do qual Deus tinha dito a Davi e a seu filho Salomão: Neste templo e na cidade de Jerusalém, que escolhi dentre todas as tribos de Israel, farei residir meu nome para sempre.
8. Jamais removerei o pé de Israel, do solo que dei a seus pais, contanto que ponham todo o cuidado em praticar meus mandamentos e a lei que lhes prescreveu Moisés, meu servo.
9. Manassés arrastou Judá e os habitantes de Jerusalém a exceder em malícia todas as nações que o Senhor tinha aniquilado diante dos israelitas.
10. Falou, então, o Senhor a Manassés e a seu povo, mas eles não lhe deram atenção.
11. O Senhor fez, então, vir contra ele os generais do rei da Assíria, os quais puseram Manassés em ferros, prenderam-no com uma dupla cadeia de bronze e levaram-no para Babilônia.
12. Na sua angústia ele implorou ao Senhor, seu Deus, e se humilhou profundamente diante do Deus de seus pais.
13. Ele dirigiu-lhe uma prece e o Senhor ouviu sua oração, reconduzindo-o a Jerusalém sobre seu trono. Manassés reconheceu desse modo que o Senhor era verdadeiramente Deus.
14. Depois disso, construiu um muro exterior na cidade de Davi, a oeste, voltado para o Gião no vale, até a entrada da Porta dos Peixes. Essa muralha, muito elevada, cercava Ofel. Colocou também oficiais em todas as cidades fortes de Judá.
15. Fez desaparecer do templo do Senhor os deuses falsos e o ídolo, assim como todos os altares que tinha há pouco tempo construído na montanha do templo e em Jerusalém, e atirou-os para fora da cidade.
16. Reconstruiu o altar do Senhor e ofereceu sacrifícios de ação de graças e louvor; e ordenou a Judá servir ao Senhor, Deus de Israel.
17. O povo continuava, todavia, a sacrificar nos lugares altos, mas somente ao Senhor, seu Deus.
18. Os outros atos de Manassés, a prece que dirigiu a seu Deus e as palavras dos videntes que lhe falaram em nome do Senhor, Deus de Israel, tudo isso está consignado nos atos dos reis de Israel.
19. Sua prece, a maneira como foi atendido, todas as suas faltas, suas revoltas, os sítios em que edificou lugares altos e erigiu asserás e outros ídolos, antes de se humilhar, tudo isso está consignado nas Atas de Hozai.
20. Manassés adormeceu entre seus pais e foi sepultado na sua casa. Seu filho Amon sucedeu-lhe no trono.
21. Amon tinha a idade de vinte e dois anos quando começou a reinar; reinou dois anos em Jerusalém.
22. Fez o mal aos olhos do Senhor, como seu pai Manassés, sacrificando e rendendo culto a todos os ídolos levantados por seu pai.
23. Mas não se humilhou diante do Senhor como ele; pelo contrário, sempre multiplicou seus delitos.
24. Seus servos se conjuraram contra ele, e o mataram na sua própria casa.
25. Mas o povo da terra feriu os conjurados e proclamou rei em seu lugar, seu filho Josias.

 
Capítulo 34

1. Josias tinha a idade de oito anos quando começou a reinar; reinou trinta e um anos em Jerusalém.
2. Fez o bem aos olhos do Senhor, seguindo as pegadas de Davi, seu pai, sem se afastar nem para a direita, nem para esquerda.
3. No oitavo ano de seu reinado, quando ele era ainda criança, começou a buscar o Deus de Davi, seu pai, e no duodécimo ano, começou a limpar Judá e Jerusalém dos lugares altos, das asserás e dos outros ídolos de madeira ou de metal fundido.
4. Demoliram, em sua presença, os altares dos Baal; ele próprio destruiu os obeliscos que estavam colocados nesses altares. Fez em pedaços os bosques sagrados, os ídolos, as estelas; ele os reduziu a pó, que esparziu sobre as tumbas de seus devotos;
5. e queimou os ossos dos sacerdotes nos seus altares. Foi assim que purificou Judá e Jerusalém.
6. Fez o mesmo nas cidades de Manassés, de Efraim e até mesmo de Neftali, no meio de suas ruínas;
7. demoliu os altares, quebrou e reduziu a pó as asserás e os ídolos e destruiu todos os obeliscos em toda a terra de Israel. Em seguida retornou a Jerusalém.
8. No décimo oitavo ano de seu reinado, depois de ter purificado a terra e o templo, o rei encarregou Safã, filho de Aslia, Maasias, governador da cidade, e o arquivista Joá, filho de Joacaz, da restauração do templo do Senhor, seu Deus.
9. Apresentaram-se estes ao sumo sacerdote Helcias e lhe entregaram o dinheiro trazido ao templo, o que os levitas tinham recolhido de Manassés, de Efraim, de todo o resto de Israel, assim como de Judá, de Benjamim e dos habitantes de Jerusalém.
10. Puseram esse dinheiro nas mãos dos empreiteiros e dos vigias dos trabalhos do templo, os quais o distribuíram aos que trabalhavam na restauração do edifício.
11. Estes o entregaram aos carpinteiros e aos pedreiros para a compra de pedras de cantaria, e madeiras de carpintaria, assim como traves destinadas às construções que os reis de Judá tinham deixado cair em ruínas.
12. Esses homens cumpriram fielmente sua tarefa. Tinham como inspetores para dirigi-los Jaat e Abdias, levitas da linhagem de Merari, Zacarias e Mosolão, da linhagem dos caatitas, assim como outros levitas que eram todos entendidos em música.
13. Estes últimos vigiavam os carregadores e dirigiam todos os trabalhadores, segundo sua especialidade. Havia ainda levitas secretários, comissários e porteiros.
14. No momento em que se retirava o dinheiro que tinha sido levado ao templo do Senhor, o sacerdote Helcias descobriu o livro da Lei do Senhor, dada por Moisés.
15. Disse então Helcias ao escriba Safã: Encontrei o livro da Lei no templo. E ele o entregou a Safã;
16. este o levou ao rei e fez-lhe o seguinte relato: Teus servos fizeram tudo o que lhes confiaste:
17. tiraram o dinheiro que estava no templo e o puseram nas mãos dos empreiteiros dos trabalhos.
18. Por outra parte, acrescentou ele, o sacerdote Helcias me entregou um livro. E começou a lê-lo em presença do rei.
19. Ouvindo as palavras da Lei, este rasgou suas vestes.
20. Em seguida, deu esta ordem a Helcias, a Aicão, filho de Safã, a Abdon, filho de Mica, ao escriba Safã e ao seu servo Asaa:
21. Ide e consultai o Senhor de minha parte, e da parte do que resta em Israel e em Judá, a respeito das palavras deste livro que acabam de encontrar; pois grande é a ira do Senhor, que se desencadeou sobre nós porque nossos pais não observaram a palavra do Senhor, pondo em prática tudo o que está escrito neste livro.
22. Helcias e aqueles que o rei tinha designado foram ter com a profetisa Holda, mulher de Selum, filho de Técua, filho de Harsa, guarda do vestiário, a qual habitava em Jerusalém, no segundo distrito. Quando lhe transmitiram sua mensagem,
23. ela lhes respondeu: Eis o que diz o Senhor, Deus de Israel: dizei àquele que vos envia a mim: eis o que diz o Senhor:
24. vou fazer vir sobre este lugar e sobre os habitantes todas as calamidades, todas as maldições escritas neste livro que foi lido na presença do rei de Judá,
25. porque eles me abandonaram e ofereceram incenso aos deuses falsos, irritando-me com todas as suas maneiras de agir; meu furor inflamar-se-á contra este lugar, sem que se possa jamais extingui-lo.
26. Ao rei de Judá que vos enviou a consultar o Senhor, dir-lhe-eis: eis o que diz o Senhor, Deus de Israel, a respeito das palavras que ouviste:
27. porquanto teu coração se comoveu e te humilhaste diante de Deus, escutando o que eu disse contra esta terra e seus habitantes; porquanto te humilhaste diante de mim, rasgaste tuas vestes chorando, eu também te ouvirei – oráculo do Senhor.
28. Vou reunir-te a teus pais; serás depositado em paz nas suas tumbas; teus olhos nada verão da catástrofe que vou mandar a este lugar e aos seus habitantes. Eles referiram ao rei esta resposta.
29. Então Josias convocou todos os anciãos de Judá e de Jerusalém.
30. Depois, ele próprio subiu ao templo, seguido de todos os anciãos de Judá e Jerusalém, os sacerdotes, os levitas e todo o povo, desde o maior até o menor. E fez-lhes uma leitura integral do livro da aliança, encontrado no templo do Senhor.
31. O rei, de pé num estrado, fez, na presença do Senhor, um pacto no qual se comprometia a seguir o Senhor, a guardar seus mandamentos, suas ordens e seus preceitos, de todo o coração e de toda a a sua alma, e a pôr em prática todas as palavras da aliança escrita no livro.
32. Fez com que aderissem todos os que se encontravam em Jerusalém e em Benjamim; e os habitantes de Jerusalém fizeram segundo a aliança de Deus, do Deus de seus pais.
33. Josias fez, desse modo, desaparecer as abominações de toda a terra dos israelitas e impôs a todos que lá se encontravam que servissem o Senhor, seu Deus. Enquanto ele viveu, não se afastaram do Senhor, Deus de seus pais.

 
Capítulo 35

1. Josias celebrou em Jerusalém a Páscoa em honra do Senhor: imolaram essa Páscoa no décimo quarto dia do primeiro mês.
2. Estabeleceu os sacerdotes nas suas funções e animou-os a servirem no templo.
3. Disse aos levitas que instruíam todo o Israel e que estavam consagrados ao Senhor: Depositai a arca santa no templo construído por Salomão, filho de Davi, rei de Israel. Já não precisais transportá-la aos vossos ombros. Estai agora a serviço do Senhor, vosso Deus, e de seu povo de Israel;
4. e disponde-vos conforme a ordem de vossas famílias e de vossas classes, segundo as prescrições de Davi, rei de Israel, e de Salomão, seu filho.
5. Ocupai vossos lugares no santuário, segundo as divisões das famílias de vossos irmãos, filhos do povo, com uma classe de família levítica para cada divisão.
6. Imolareis, em seguida, a Páscoa e santificar-vos-eis a fim de prepará-la para vossos irmãos, conforme a palavra do Senhor, transmitida por Moisés.
7. Josias deu ao povo, a todos os que lá se encontravam, gado miúdo, cordeiros e cabritos em número de trinta mil, tudo para imolar na Páscoa e acrescentou três mil cabeças de gado, tudo tirado das propriedades do rei.
8. Seus chefes fizeram também espontaneamente um presente ao povo, aos sacerdotes e aos levitas. Helcias, Zacarias e Jaiel, príncipes do templo, deram aos sacerdotes, para a Páscoa, dois mil e seiscentos cordeiros e trezentas cabeças de gado grosso.
9. Conenias, Semeías e Natanael, seus irmãos, Hasabias, Jeiel e Josabad, chefes dos levitas, deram a eles para a Páscoa cinco mil cordeiros e quinhentas cabeças de gado grosso.
10. Estando todo o serviço preparado, os sacerdotes tomaram lugar, assim como os levitas, segundo suas divisões, como o rei havia prescrito.
11. Imolaram o cordeiro pascal. Com o sangue correndo de suas mãos os sacerdotes fizeram a aspersão, enquanto os levitas esfolavam as vítimas.
12. Puseram à parte o holocausto para dá-lo aos grupos de famílias do povo, a fim de oferecer ao Senhor, como estava prescrito no livro de Moisés. Assim também procederam com o gado grosso.
13. De acordo com o rito prescrito, assaram ao fogo a Páscoa. Cozeram as oferendas consagradas em panelas, caldeirões e sertãs, e logo as distribuíram ao povo.
14. Em seguida, prepararam tudo para si e para os sacerdotes, pois estes, os filhos de Aarão, estavam até a noite ocupados em oferecer os holocaustos e as gorduras; por isso, os levitas prepararam as carnes para si e para os filhos de Aarão.
15. Os cantores, filhos de Asaf, estavam nos seus lugares, segundo as disposições de Davi, de Asaf, de Hemã e de Iditum, o vidente do rei. Os porteiros estavam à porta correspondente; não tiveram que abandonar seu posto, porque seus irmãos, os levitas, prepararam tudo para eles.
16. Estando, nesse dia, todo o serviço do Senhor disposto segundo a ordem de Josias, de modo que se pudesse celebrar a Páscoa e oferecer os holocaustos no altar do Senhor,
17. os israelitas presentes celebraram a seu tempo a Páscoa, e a festa dos Ázimos, durante sete dias.
18. Nenhuma Páscoa semelhante a esta havia sido celebrada em Israel desde o tempo do profeta Samuel. Nenhum rei de Israel tinha celebrado uma Páscoa semelhante àquela que celebraram Josias, os sacerdotes e os levitas, como todo o Judá, todos os de Israel que estavam presentes e todos os habitantes de Jerusalém.
19. Foi no décimo oitavo ano do reinado de Josias que foi celebrada essa Páscoa.
20. Depois desse acontecimento e da reparação do templo pelo rei, Necao, rei do Egito, dirigiu-se para Carcames, junto do Eufrates, numa expedição militar. Josias saiu-lhe ao encontro.
21. Necao enviou-lhe mensageiros para dizer-lhe: Que queres tu, rei de Judá? Não vou contra ti hoje, mas contra uma dinastia com a qual estou em guerra. E disse-me Deus que me apressasse. Guarda-te de te opores a Deus, que está comigo, pois ele te deitará a perder.
22. Mas Josias não quis voltar atrás. Em lugar de ouvir as palavras de Necao, que vinham da própria boca de Deus, disfarçou-se para combater e entrou em batalha na planície de Magedo.
23. Arqueiros dispararam contra o rei Josias. Então o rei disse à sua gente: Levai-me; estou gravemente ferido.
24. Seus homens tiraram-no do carro, colocaram-no em outro carro que havia lá, e o levaram para Jerusalém, onde morreu. Foi sepultado no sepulcro de seus pais. Josias foi pranteado por todos os habitantes de Judá e de Jerusalém.
25. Jeremias compôs uma lamentação fúnebre sobre ele. Todos os cantores e todas as cantoras falam ainda de Josias em suas lamentações; é este um verdadeiro costume em Israel. Esses cantos fúnebres figuram no Livro das Lamentações.
26. Os outros atos de Josias, seus atos de piedade, de acordo com o que está escrito na Lei do Senhor,
27. seus feitos e façanhas, desde os primeiros até os últimos, tudo isso se acha relatado no livro dos reis de Israel e de Judá.

 
Capítulo 36

1. A população da terra elegeu então Joacaz, filho de Josias, e o estabeleceu rei no lugar de seu pai, em Jerusalém.
2. Joacaz tinha vinte e três anos quando começou a reinar; reinou três meses em Jerusalém.
3. O rei do Egito destronou-o em Jerusalém e impôs à terra uma contribuição de cem talentos de prata e um talento de ouro.
4. Em seguida, pôs no trono de Jerusalém o irmão de Joacaz, Eliacim, de quem mudou o nome para Joaquim. Quanto ao seu irmão Joacaz, Necao o mandou para o Egito.
5. Joaquim tinha a idade de vinte e cinco anos quando foi elevado ao trono; reinou onze anos em Jerusalém. Fez o mal aos olhos do Senhor seu Deus.
6. Nabucodonosor, rei de Babilônia, atacou-o e ligou-o com uma dupla cadeia de bronze para conduzi-lo a Babilônia,
7. levando ao mesmo tempo os objetos do templo para o seu palácio de Babilônia.
8. Os outros atos de Joaquim, suas abominações, tudo o de que ele se tornou culpado, está relatado nos livros dos reis de Judá e de Israel. Seu filho Joaquin sucedeu-o no trono.
9. Joaquin tinha a idade de dezoito anos quando foi elevado ao trono; reinou três meses em Jerusalém. Fez o mal aos olhos do Senhor.
10. No ano novo, o rei Nabucodonosor mandou que fosse levado para Babilônia com os objetos preciosos do templo do Senhor. Substituiu-o, no trono de Judá e de Jerusalém, Sedecias, irmão de seu pai.
11. Sedecias tinha a idade de vinte e um anos quando foi elevado ao trono; reinou onze anos em Jerusalém.
12. Fez o mal aos olhos do Senhor, seu Deus, e não se humilhou diante do profeta Jeremias que lhe tinha vindo falar da parte do Senhor.
13. Revoltou-se contra o rei Nabucodonosor, que, contudo, lhe tinha feito prestar um juramento em nome de Deus. Endureceu a cerviz e tornou inflexível seu coração para não se converter ao Senhor, Deus de Israel.
14. Todos os chefes dos sacerdotes e o povo continuaram a multiplicar seus delitos, imitando as práticas abomináveis das nações pagãs e profanando o templo que o Senhor tinha consagrado para si em Jerusalém.
15. Em vão o Senhor, Deus de seus pais, lhes tinha enviado, por meio de seus mensageiros, avisos sobre avisos, pois tinha compaixão de seu povo e de sua própria habitação;
16. eles zombavam de seus enviados, desprezavam seus conselhos e riam de seus profetas, até que a ira de Deus se desencadeou sobre o seu povo, e não houve mais remédio.
l7 Então Deus suscitou contra eles o rei dos caldeus, que, no próprio edifício do santuário, mandou matar seus jovens, e não poupou o adolescente, nem a donzela, nem o ancião, nem a mulher de cabelos brancos. O Senhor lhe entregou tudo.
l8 Nabucodonosor mandou tirar todo o mobiliário do templo, tanto os objetos grandes como os pequenos, os tesouros do templo, os do palácio real e os dos chefes, para transportá-los a Babilônia.
l9 Incendiaram o templo, destruíram os muros de Jerusalém, entregaram às chamas seus palácios e todos os tesouros foram lançados à destruição.
20. Nabucodonosor deportou para Babilônia todos os que tinham escapado à espada, e eles se tornaram seus escravos, dele e de seus filhos, até o advento do domínio persa.
21. Assim se cumpria a profecia que o Senhor tinha dado pela boca de Jeremias – Até que a terra desfrutasse os seus sábados -, pois a terra ficou inculta durante todo esse período de desolação, até que se completaram setenta anos.
22. No primeiro ano de Ciro, rei da Pérsia, a fim de que se cumprisse a profecia do Senhor, posta na boca de Jeremias, o Senhor excitou o espírito de Ciro, rei da Pérsia, e este mandou fazer em todo o seu reino, à viva voz e também por escrito, a proclamação seguinte:
23. Assim fala Ciro, rei da Pérsia: o Senhor, Deus do céu, deu-me todos os reinos da terra, e me encarregou de lhe construir um templo em Jerusalém, que está na terra de Judá. Todo aquele dentre vós que for de seu povo, esteja seu Deus com ele, e que ele para lá se dirija!

 

Livro de Esdras

Livro de Esdras

 Capítulo 1

1. No primeiro ano de Ciro, rei da Pérsia, para que se cumprisse a profecia posta pelo Senhor na boca de Jeremias, o Senhor suscitou o espírito de Ciro, rei da Pérsia, o qual mandou fazer em todo o seu reino, de viva voz e por escrito, a proclamação seguinte:
2. Assim fala Ciro, rei da Pérsia: o Senhor, Deus do céu, deu-me todos os reinos da terra, e encarregou-me de construir-lhe um templo em Jerusalém, que fica na terra de Judá.
3. Quem é dentre vós pertencente ao seu povo, que seu Deus o acompanhe, suba a Jerusalém que fica na terra de Judá e construa o templo do Senhor, Deus de Israel, o Deus que reside em Jerusalém.
4. Que todos os sobreviventes (de Judá) onde quer que residam, sejam providos pelos habitantes da localidade onde se encontrarem, de prata, ouro, cereais e gado, bem como de oferendas voluntárias para o templo do Deus que reside em Jerusalém.
5. Então os chefes de família de Judá e de Benjamim, bem como todos os sacerdotes e os levitas, principalmente todos aqueles cujo espírito Deus havia tocado, prepararam-se para ir reedificar o templo do Senhor em Jerusalém.
6. Todos os que habitavam pelas redondezas ajudaram-nos, dando-lhes prata, ouro, bens diversos, gado, cereais e coisas preciosas, além das outras ofertas voluntárias.
7. O rei Ciro entregou também os utensílios que Nabucodonosor trouxera do templo do Senhor em Jerusalém e colocara no templo de seu deus.
8. Ciro, rei da Pérsia, mandou-os entregar pelas mãos de Mitrídates, o tesoureiro, o qual os entregou a Sassabasar, príncipe de Judá.
9. Eis o número deles: trinta bacias de ouro, mil bacias de prata, vinte e nove facas, trinta taças de ouro,
10. quatrocentas e dez taças de prata, e mil outros utensílios.
11. Todos os utensílios de ouro e de prata eram em número de cinco mil e quatrocentos. Tudo levou Sassabasar quando os exilados voltaram de Babilônia para Jerusalém.

 
Capítulo 2

1. Entre os cativos que Nabucodonosor, rei de Babilônia, havia deportado para Babilônia foram os seguintes os habitantes da província que se puseram a caminho para voltar a Jerusalém e à Judéia, cada um à sua cidade.
2. Voltaram com Zorobabel, Josué, Neemias, Saraías, Raelaías, Mardoqueu, Belsã, Mesfar, Beguai, Reum e Baana. Número dos homens do povo de Israel:
3-35 filhos de Faros: 2.172; filhos de Safatias: 372; filhos de Area: 775; filhos de Faat-Moab, descendente de Josué e de Joab: 2.812; filhos de Elão: 1.254; filhos de Zetua: 945; filhos de Zacai: 760; filhos de Bani: 642; filhos de Bebai: 623; filhos de Azgad: 1.222; filhos de Adonicão: 666; filhos de Beguai: 2.056; filhos de Adin: 454; filhos de Ater de Azequias: 98; filhos de Besai: 323; filhos de Jora: 112; filhos de Hasum: 223; homens de Gabaon: 95; filhos de Belém: 123; homens de Netofa: 56; homens de Anatot: 128; filhos de Bet-Azmavet: 42; filhos de Cariatiarim, de Cafira e de Berot: 743; filhos de Ramá e de Geba: 621; homens de Macmas: 122; filhos de Betel e de Hai: 223; filhos de Nebo: 52; filhos de Megbis: 156; filhos do outro Elão: 1.254; filhos de Harim: 320; filhos de Lod, de Hadid e de Ono: 725; filhos de Jericó: 345; filhos de Senaa: 3.630
36-39 Sacerdotes: filhos de Iedaiá, da casa de Josué: 973; filhos de Emmer: 1.052; filhos de Pasur: 1.247; filhos de Harim: 1.017.
40. Levitas: filhos de Josué e de Cadmiel, descendentes de Hodaías: 74.
41. Cantores: filhos de Asaf: 128.
42. Porteiros: filhos de Selum, filhos de Ater, filhos de Telmon, filhos de Acub, filhos de Hatita, filhos de Sobai: ao todo, 139.
43. Natineus: filhos de Siha, filhos de Hasufa, filhos de Tabaot;
44. filhos de Ceros, filhos de Sia, filhos de Fadon;
45. filhos de Lebana, filhos de Hagaba, filhos de Acub;
46. filhos de Hagab, filhos de Selmai, filhos de Hanã;
47. filhos de Gadel, filhos de Gaer, filhos de Reaia;
48. filhos de Rasin, filhos de Necoda, filhos de Gazão;
49. filhos de Aza, filhos de Fazea, filhos de Besai;
50. filhos de Azena, filhos de Munim, filhos de Nefusim;
51. filhos de Bacbuc, filhos de Hacufa, filhos de Harur,
52. filhos de Baslut, filhos de Maida, filhos de Harsa;
53. filhos de Bercos, filhos de Sisara, filhos de Tema;
54. filhos de Nasia, filhos de Hatifa.
55. Os filhos dos escravos de Salomão: filhos de Sotai, filhos de Soferet, filhos de Faruda;
56. filhos de Jala, filhos de Darcon, filhos de Gadel; filhos de Safatia,
57. filhos de Hatil, filhos de Poceret-Asebaim, filhos de Ami.
58. Total dos natineus e dos filhos dos escravos de Salomão: 392.
59. Eis descritos, também, aqueles que, de Tel-Mela, de Tel-Harsa, de Querub-Adon e de Imer, não se pôde saber se pertenciam ao povo de Israel pela família ou raça de que descendiam:
60. filhos de Dalaías, filhos de Tobias, filhos de Necoda: 652;
61. e entre os sacerdotes: filhos de Hobaia, filhos de Acos, filhos de Berzelai, que assim foi chamado por ter tomado como esposa uma das filhas de Berzelai, o galaadita.
62. Eles procuraram esclarecer a sua genealogia, mas não a puderam encontrar. Assim, foram excluídos do sacerdócio.
63. O governador proibiu-os de comer das coisas sagradas, até que conseguissem encontrar um sacerdote (qualificado para consultar Deus) pelo Urim e o Tumim.
64. O total do povo reunido era de 43.360 pessoas,
65. sem contar seus escravos e escravas, em número de 7.337. Tinham consigo também 200 cantores e cantoras.
66. Possuíam 736 cavalos, 245 jumentos,
67. 435 camelos, e 6.720 jumentas.
68. Vários chefes de família, chegando ao templo do Senhor, fizeram ofertas voluntárias para a casa de Deus, a fim de que a mesma fosse restaurada.
69. Contribuíram para os tesouros da obra, cada um segundo suas posses, com 61.000 dáricos de ouro, 5.000 de prata e 100 vestes sacerdotais.
70. Os sacerdotes, os levitas, as pessoas do povo, os cantores, os porteiros e os natineus estabeleceram-se em suas respectivas cidades. Assim todos os israelitas habitaram cada um em sua localidade.

 
Capítulo 3

1. Tendo chegado o sétimo mês, e estando os filhos de Israel instalados em suas cidades, todo o povo se reuniu como um só homem em Jerusalém.
2. Então Josué, filho de Josedec, e seus irmãos sacerdotes, bem como Zorobabel, filho de Salatiel, e seus irmãos principiaram a reconstrução do altar do Deus de Israel e ofereceram holocaustos, como a lei de Moisés, homem de Deus, prescrevia.
3. Reconstruíram o altar sobre as antigas bases, porque tinham medo dos habitantes vizinhos, e ofereceram holocaustos ao Senhor pela manhã e pela tarde.
4. Em seguida celebraram a festa dos Tabernáculos, como estava prescrito, e, diariamente, ofereciam holocaustos de acordo com o número prescrito para cada dia.
5. Depois disso, ofereceram o holocausto perpétuo, os das neomênias e de todas as solenidades consagradas ao Senhor, assim como os daqueles que faziam uma oferta ao Senhor.
6. No primeiro dia do sétimo mês começaram a oferecer holocaustos ao Senhor, mas os fundamentos do templo do Senhor não estavam ainda colocados.
7. Foram então contratados canteiros e carpinteiros; deram aos sidônios e tírios víveres, azeite e vinho para que trouxessem por mar a madeira dos cedros desde o Líbano até Jope, segundo a autorização que lhes tinha dado Ciro, rei da Pérsia.
8. No segundo ano de sua chegada ao templo de Deus em Jerusalém, no segundo mês, Zorobabel, filho de Salatiel, e Josué, filho de Josedec, tendo consigo seus irmãos, os sacerdotes, os levitas e todos os que haviam voltado do cativeiro para Jerusalém, puseram-se a trabalhar; os levitas de vinte anos para cima foram encarregados da direção dos trabalhos do templo do Senhor;
9. Josué, com seus filhos e irmãos, Cedmiel, com seus filhos, filhos de Judá, propuseram-se unanimemente a dirigir os que trabalhavam na construção da casa de Deus; o mesmo fizeram os filhos de Henadad com seus filhos e seus irmãos que eram levitas.
10. Logo que os pedreiros lançaram os fundamentos do templo do Senhor, apresentaram-se os sacerdotes ornamentados para assistir à cerimônia, com as trombetas, e os levitas, filhos de Asaf, com os címbalos, para louvarem o Senhor, segundo as ordens de Davi, rei de Israel.
11. Entoaram ao Senhor este refrão de louvor: Porque ele é bom, e porque sua misericórdia com Israel permanece para sempre! E todo o povo soltou aclamações de alegria para celebrar o Senhor, por ocasião do lançamento dos alicerces de sua casa.
12. Mas, enquanto muitos gritavam de alegria e júbilo, muitos sacerdotes, levitas e chefes de família, já idosos, que tinham visto o primeiro templo, choravam em alta voz, enquanto diante deles eram lançados os alicerces do novo edifício.
13. Era impossível distinguir os gritos de alegria dos clamores daqueles que choravam, pois todo o povo gritava em altos brados, e o eco de suas vozes se podia ouvir de longe.

 
Capítulo 4

1. Quando os inimigos de Judá e de Benjamim souberam que os filhos do cativeiro estavam construindo um templo ao Senhor, o Deus de Israel,
2. vieram procurar Zorobabel e os chefes de família, e disseram-lhes: Deixai-nos construir convosco, porque, como vós, honramos também o vosso Deus e lhe ofertamos sacrifícios desde o tempo de Asaradon, rei da Assíria, que nos transportou para aqui.
3. Mas Zorobabel, Josué e os outros chefes das famílias de Israel responderam-lhes: Não é conveniente que nós e vós construamos em conjunto a morada de nosso Deus; construí-la-emos nós sozinhos ao Senhor, Deus de Israel, como nos ordenou Ciro, rei da Pérsia.
4. Disso resultou que os homens daquele lugar intimidavam os trabalhadores do povo de Judá e os inquietavam, enquanto trabalhavam.
5. Assalariaram contra eles alguns conselheiros para frustrar sua obra. (Isso durou toda a vida de Ciro, rei da Pérsia, até a de Dario, rei da Pérsia.)
6. Sob o reinado de Assuero (Xerxes), desde os primórdios de seu governo, escreveram uma carta de acusação contra os habitantes de Judá e de Jerusalém.
7. Depois, no tempo de Artaxerxes, Beselão, Mitrídates, Tabeel e seus colegas escreveram ao mesmo Artaxerxes, rei da Pérsia. (A carta foi escrita em caracteres aramaicos e depois traduzida.)
8. Reum, governador, e o secretário Samsai escreveram a Artaxerxes, a respeito de Jerusalém, uma carta que continha o seguinte:
9. Reum, governador, Samsai, secretário, e seus colegas de Din, de Afarsataq, de Terfal, de Afarsa, de Ercua, de Babilônia, de Susa, de Deha, de Elão,
10. e o restante dos povos que o grande e ilustre Asnafar trouxe consigo e instalou na localidade de Samaria e em outros lugares de além do rio, etc…
11. Eis a cópia da carta que enviaram: Ao rei Artaxerxes, teus servos, os povos da outra margem do rio, etc.
12. Saiba o rei que os judeus, que partiram de tua terra para vir ao nosso meio, a Jerusalém, reconstroem esta cidade maldosa e rebelde, levantando os muros e restaurando-lhe os fundamentos.
13. Saiba também o rei que, se esta cidade for reconstruída, e seus muros levantados, seus habitantes não mais pagarão impostos, nem tributos, nem rendas, o que ocasionará prejuízos ao rei.
14. Nós outros, porém, tendo em vista o sal de teu palácio que comemos, e não achando conveniente ver menosprezado o rei, transmitimos a ti estas informações,
15. para que mandes consultar os livros de registro de teus pais. Aí verás como esta cidade é uma localidade rebelde, funesta aos reis e às províncias, e como já nos antigos tempos se têm nela incitado rebeliões. É por isso que ela foi destruída.
16. Nós fazemos chegar ao conhecimento do rei que, se esta cidade for reconstruída e seus muros levantados, não poderás mais conservar tuas posses do lado de lá do rio.
17. Eis a resposta que o rei enviou ao governador Reum, ao secretário Samsai, e aos seus colegas, habitantes da Samaria e de outros lugares na outra margem do rio:
18. Saúde, etc. A carta que nos enviastes foi totalmente lida diante de mim.
19. Por minha ordem, foram feitas investigações e ficou averiguado que desde os tempos mais antigos aquela cidade sublevou-se contra os reis e que ali se fomentaram intrigas e revoltas.
20. Houve em Jerusalém reis poderosos; dominaram toda a terra da outra margem do rio; pagavam-lhes impostos, tributos e rendas.
21. Conseqüentemente, ordenai que cessem os trabalhos dessa gente, a fim de que não se reconstrua tal cidade, até que eu dê ordens em contrário.
22. Guardai-vos de toda negligência no cumprimento desta ordem para que não aumente o prejuízo causado aos reis.
23. Logo que a carta do rei Artaxerxes foi lida na presença de Reum, de Samsai, o secretário, e de seus colegas, foram com toda a pressa a Jerusalém, junto aos judeus, e os obrigaram, empregando a força e a violência, a cessar os trabalhos.
24. A restauração da casa de Deus em Jerusalém foi, pois, interrompida até o segundo ano do reinado de Dario, rei da Pérsia.

 
Capítulo 5

1. Ora, o profeta Ageu e o profeta Zacarias, filho de Ado, profetizaram aos judeus que estavam em Judá e em Jerusalém, em nome do Deus de Israel que estava com eles.
2. Então Zorobabel, filho de Salatiel, e Josué, filho de Josedec, retomaram a reconstrução do templo de Deus em Jerusalém com a ajuda e a assistência dos profetas de Deus.
3. Ao mesmo tempo, Tartanai, governador do lado oposto ao rio, Estarbuzanai e seus colegas vieram procurá-los e falaram-lhes assim: Quem vos deu autorização para reconstruir o templo e levantar suas paredes?
4. E acrescentaram: Quais são os nomes dos homens que trabalham nesse edifício?
5. Mas Deus tinha os olhos voltados para os anciãos dos judeus, e ninguém os obrigou a interromper os trabalhos, até que chegasse o relatório a Dario a fim de que este respondesse por escrito sobre o assunto.
6. Cópia da carta que enviaram ao rei Dario, o governador Tatanai, da outra margem do rio, bem como Estarbuzanai e seus colegas de Artasaq, que também moravam na outra margem do rio.
7. Enviaram-lhe um relatório no qual se lia o seguinte: Ao rei Dario prosperidade perfeita!
8. Saiba o rei que fomos à província de Judá, à casa do grande Deus. Está ela sendo reconstruída com pedras enormes, e o madeiramento está já colocado nas paredes. Este trabalho está sendo executado com cuidado e progride nas suas mãos;
9. por isso, interrogamos os anciãos: Quem vos deu autorização para reconstruir esse templo e levantar esses muros?
10. Perguntamos-lhes também os seus nomes para consigná-los aqui e fazê-los conhecidos de ti, pelo menos os que estão à testa deles.
11. Responderam: Nós somos servos do Deus do céu e da terra; estamos reconstruindo o templo que há muitos anos fora construído e rematado por um grande rei de Israel.
12. Mas nossos pais caíram na ira do Deus do céu, o qual os entregou nas mãos de Nabucodonosor, rei de Babilônia, o caldeu; este destruiu o templo e transportou o povo cativo para Babilônia.
13. Entretanto, no primeiro ano de Ciro, rei de Babilônia, o rei Ciro ordenou a reconstrução desta casa de Deus.
14. E o próprio rei Ciro retirou do templo de Babilônia os utensílios de ouro e de prata da casa de Deus, que Nabucodonosor tomara do santuário de Jerusalém e transferira para o templo de Babilônia. Foram entregues a um homem chamado Sassabasar, o qual nomeou governador.
15. E disse-lhe: Toma estes utensílios; leva-os para o templo de Jerusalém; e que a casa de Deus seja reconstruída sobre os seus alicerces.
16. Foi então que aquele Sassabasar veio para aqui e colocou os fundamentos da casa de Deus em Jerusalém; depois do que, até o presente, temos prosseguido a construção, mas não está ainda terminada.
17. Portanto, se o rei acha conveniente que sejam feitas investigações nos arquivos do rei em Babilônia, para ver se é verdade que foi ordenada pelo rei Ciro a reconstrução do templo de Deus em Jerusalém, que o faça e, em seguida, queira o rei transmitir-nos a sua decisão a respeito.

 
Capítulo 6

1. Foi então que o rei Dario emitiu um decreto ordenando que se fizessem verificações em Babilônia, na casa dos arquivos, onde os tesouros estavam depositados.
2. E encontrou-se em Ecbátana, cidade fortificada situada no província da Média, um rolo no qual se lia o seguinte texto:
3. No primeiro ano do reinado de Ciro, o rei Ciro deu esta ordem, com relação à casa de Deus que está situada em Jerusalém: este templo deve ser reconstruído, para servir de local onde se ofereçam sacrifícios; seus fundamentos devem ser restaurados. Sua altura será de sessenta côvados.
4. Terá três carreiras de pedra talhada e uma de madeira. A despesa será paga pela casa do rei.
5. Outrossim, devolveremos os utensílios de ouro e prata da casa de Deus, que Nabucodonosor havia tomado do templo de Jerusalém, e transportado para Babilônia; serão repostos no templo de Jerusalém no mesmo lugar em que estavam, e nós os depositaremos na casa de Deus.
6. Agora, pois, Tatanai, governador de além do rio, Estarbuzanai e vossos colegas de Arfasaq, que estais além do rio, afastai-vos.
7. Deixai continuar os trabalhos da casa de Deus; que o governador dos judeus e seus anciãos reconstruam-na no seu lugar.
8. Também ordeno como é que se deve proceder com aqueles anciãos dos judeus, tendo em vista a reconstrução da mencionada casa de Deus: das receitas reais provenientes dos impostos de além-rio, a despesa será fielmente paga a esses homens, a fim de que a obra não sofra interrupção.
9. Tudo aquilo que for necessário para os holocaustos do Deus do céu, novilhos, carneiros e cordeiros, trigo, sal, óleo e vinho, ser-lhes-á dado a cada dia, sem falta, segundo a ordem dos sacerdotes que estão em Jerusalém,
10. a fim de que possam fazer oferta dos sacrifícios de bom odor ao Deus do céu, e que rezem pela vida do rei e de seus filhos.
11. Eis o que ordeno, além disso: se alguém modificar no que quer que seja este edito, arranque-se uma estaca de sua casa, levante-se a mesma, e seja pregado nela onde ficará pendente; e, por seu crime, far-se-á de sua morada um montão de imundícies.
12. O Deus que fez habitar ali o seu nome destrua todo rei, todo povo que ousar fazer qualquer coisa para mudar este decreto e destruir essa casa de Deus que está em Jerusalém! Eu, Dario, dei esta ordem: seja ela pontualmente executada.
13. Assim Tatanai, governador da outra margem do rio, Estarbuzanai e seus colegas conformaram-se fielmente à ordem enviada pelo rei Dario.
14. Os anciãos dos judeus puseram-se a construir o templo e fizeram progresso, sustentados pelas profecias de Ageu, o profeta, e de Zacarias, filho de Ado. Prosseguiram a construção, segundo a ordem do Deus de Israel, e segundo a ordem de Ciro, de Dario e de Artaxerxes, rei da Pérsia.
15. Terminou-se o edifício no terceiro dia do mês de Adar no sexto ano do reinado de Dario.
16. Os israelitas, os sacerdotes, os levitas e os demais repatriados celebraram com júbilo a dedicação dessa casa de Deus.
17. Ofereceram, por ocasião dessa dedicação, cem touros, duzentos carneiros, mil e quatrocentos cordeiros e doze bodes como vítimas pelos pecados de todo Israel, segundo o número das tribos de Israel.
18. Estabeleceram os sacerdotes segundo as suas classes, e os levitas segundo suas divisões, para celebrar o culto de Deus em Jerusalém, de conformidade com as prescrições do livro de Moisés.
19. Os repatriados celebraram a Páscoa no dia catorze do primeiro mês.
20. Os sacerdotes e os levitas, sem exceção, tinham-se purificado; todos estavam puros. Imolaram a Páscoa por todos os repatriados, pelos seus irmãos, os sacerdotes, e por si mesmos.
21. Os filhos de Israel que tinham voltado do cativeiro comeram a sua Páscoa, bem como todos aqueles que tinham rompido com as práticas impuras dos povos da região e se haviam unido a eles para buscar o Senhor, Deus de Israel.
22. Celebraram com júbilo durante sete dias a festa dos Ázimos, porque o Senhor os havia consolado, fazendo com que o coração do rei da Assíria se inclinasse em favor deles, para confortá-los no trabalho (de reconstrução) da casa de Deus, do Deus de Israel.

 
Capítulo 7

1. Após esses acontecimentos, sob o reinado de Artaxerxes, rei da Pérsia, chegou Esdras, filho de Saraías, filho de Azarias, filho de Helcias,
2. filho de Selum, filho de Sadoc, filho de Aquitob,
3. filho de Amarias, filho de Azarias, filho de Maraioth,
4. filho de Zaraías, filho de Ozi, filho de Bocci,
5. filho de Abisué, filho de Finéias, filho de Eleazar, filho de Aarão, o sumo sacerdote.
6. Este Esdras vinha da Babilônia. Era um escriba versado na Lei de Moisés dada pelo Senhor, Deus de Israel. Como a mão do Senhor seu Deus repousasse sobre ele, o rei concedeu-lhe tudo o que pediu.
7. Com ele, vários israelitas, sacerdotes e levitas, cantores, porteiros e natineus, voltaram para Jerusalém, no sétimo ano do rei Artaxerxes.
8. Chegou Esdras a Jerusalém no quinto mês do sétimo ano do rei.
9. Foi no primeiro dia do primeiro mês que ele partiu de Babilônia; e chegou a Jerusalém no primeiro dia do quinto mês, porque a mão benevolente de seu Deus estava com ele.
10. Esdras havia, com efeito, aplicado seu coração a estudar a lei do Senhor, a praticá-la e a ensinar em Israel as leis e as prescrições.
11. Esta é a cópia da carta que o rei Artaxerxes entregou a Esdras, sacerdote e escriba, versado no conhecimento do texto da lei do Senhor e de suas prescrições concernentes a Israel:
12. Artaxerxes, rei dos reis, a Esdras, sacerdote e escriba versado na lei do Deus do céu…
13. Dei ordem para que deixassem partir contigo todos aqueles do povo de Israel, seus sacerdotes e seus levitas, residentes em meu reino, que desejavam ir a Jerusalém.
14. Pois foste enviado pelo rei e seus sete conselheiros, para fazer uma inspeção em Judá e em Jerusalém, e para ver como está sendo observada ali a lei de teu Deus que tens em tuas mãos.
15. Levarás a prata e o ouro que o rei e seus conselheiros ofereceram espontaneamente ao Deus de Israel, cuja morada fica em Jerusalém,
16. bem como todo o ouro e a prata que encontrares por toda a província de Babilônia, e por fim os dons voluntários que o povo e os sacerdotes ofereceram livremente para a casa de seu Deus em Jerusalém.
17. Por conseguinte, cuidarás de comprar com esse dinheiro, novilhos, carneiros, cordeiros, bem como as oferendas e as libações, e as oferecerás em Jerusalém no altar da casa de vosso Deus.
18. Com o restante do dinheiro e do ouro fareis o que parecer melhor a ti e a teus irmãos, em conformidade com a vontade de vosso Deus.
19. Os utensílios que te forem entregues para o serviço da casa de teu Deus, tu os depositarás diante do Deus de Jerusalém.
20. Quanto às outras despesas que deverás fazer para o templo de teu Deus, tu as providenciarás por meio dos recursos que o tesouro real te fornecerá.
21. Ademais, eu, o rei Artaxerxes, ordeno a todos os tesoureiros de além do rio, que entreguem pontualmente a Esdras, o sacerdote, escriba versado na lei do Deus do céu, tudo o que ele solicitar,
22. até a quantia de cem talentos de prata, cem coros de trigo, até cem batos de vinho, cem batos de azeite, e sal à vontade.
23. Tudo o que prescreveu o Deus do céu para a sua casa seja fielmente observado, a fim de que a cólera divina não se desencadeie contra o reino, o rei e seus filhos.
24. Por fim, notificamo-vos de que não se deverá lançar imposto algum, nem tributo, nem encargos, sobre qualquer dos sacerdotes, levitas, cantores, porteiros, natineus e servos dessa casa de Deus.
25. E tu, Esdras, segundo a sabedoria de teu Deus que te foi dada, estabelecerás juízes e magistrados para fazer justiça a todo o povo da outra banda do rio, a todos aqueles que conhecem as leis de teu Deus; e tu ensina-las-ás aos que não as conhecem.
26. Todo o que não observar a lei de teu Deus e a lei do rei será castigado rigorosamente, seja com a morte, seja com o desterro, seja com uma multa, ou mesmo com a prisão.
27. Bendito seja o Senhor, o Deus de nossos pais, que pôs no coração do rei o desejo de honrar a casa do Senhor que está em Jerusalém,
28. e que me fez obter o favor do rei, dos seus conselheiros e de todos os mais poderosos oficiais do rei! Enchi-me pois de coragem, porque a mão do Senhor meu Deus estava comigo e reuni os chefes de Israel para que partissem comigo.

 
Capítulo 8

1. Eis, com sua genealogia, os chefes de família que partiram comigo de Babilônia, sob o reinado do rei Artaxerxes.
2. Dos filhos de Finéias: Gersom; dos filhos de Itamar: Daniel; dos filhos de Davi; Hatus, que descendia de Sequenias.
3. Dos filhos de Faros: Zacarias e com ele cento e cinqüenta homens inscritos no registro da família.
4. Dos filhos de Fahat-Moab: Elioenai, filho de Zaréias e com ele duzentos homens.
5. Dos filhos de Sequenias: o filho de Ezequiel, e com ele trezentos homens;
6. dos filhos de Adã: Abed, filho de Jonatã, e com ele cinqüenta homens;
7. dos filhos de Alão: Isaías, filho de Atalias, e com ele setenta homens;
8. dos filhos de Safatias: Zebedias, filho de Micael, e com ele oitenta homens;
9. dos filhos de Joab: Obedias, filho de Jeiel, e com ele duzentos e dezoito homens;
10. dos filhos de Selomith: o filho de Josefias, e com ele cento e sessenta homens;
11. dos filhos de Bebai: Zacarias, filho de Bebai, e com ele vinte e oito homens;
12. dos filhos de Azgad: Joanã, filho de Ecetã, e com ele cento e dez homens;
13. dos filhos de Adonicão, os últimos, dos quais são estes os nomes: Elifelet, Jeiel e Samaías, e com eles sessenta homens;
14. dos filhos de Beguai: Utai e Zacur, e com eles setenta homens.
15. Reuni-os perto do riacho que corre para Aava e ali acampamos três dias. Tendo observado o povo e os sacerdotes não encontrei entre eles nenhum dos filhos de Levi.
16. Então mandei procurar os chefes Eliezer, Ariel, Semeías, Elnatã, Jarib, um outro Elnatã, Natã, Zacarias e Mosolão, bem como Joiarib e Elnata, doutores da lei.
17. Enviei-os ao chefe Eddo, que residia em Casfia. Ditei-lhes as palavras que deviam dizer a Eddo e a seus irmãos, os natineus, residentes em Casfia, a fim de que nos trouxessem ministros para a casa de nosso Deus.
18. E como a mão benfazeja de nosso Deus estivesse conosco, trouxeram eles um homem inteligente dentre os filhos de Mooli, filho de Levi, filho de Israel, Sarabias, com seus filhos e irmãos em números de dezoito.
19. Hasabias, e com ele Isaías, dentre os filhos de Merari, seus irmãos e seus filhos em número de vinte;
20. e dentre os natineus, que Davi e os chefes tinham entregue para o serviço dos levitas, duzentos e vinte natineus, todos designados por seu nome.
21. Ali, perto do riacho Aava, publiquei um jejum a fim de nos humilharmos diante de nosso Deus e implorar dele uma feliz viagem, para nós, nossos filhos, e para todos os nossos haveres.
22. Tive vergonha, com efeito, de pedir ao rei uma escolta e cavaleiros para nos proteger contra os inimigos durante o trajeto; porque havíamos dito ao rei: a mão de nosso Deus protege com sua bondade todos os que o procuram; mas sua força e sua cólera se fazem sentir em todos aqueles que o abandonam.
23. Por isso jejuamos e invocamos o nosso Deus, e ele nos ouviu.
24. Escolhi doze chefes dos sacerdotes, Sarabias e Hasabias, e dez de seus irmãos.
25. Diante deles pesei a prata, o ouro e os utensílios dados em oferenda para a casa de nosso Deus pelo rei, seus conselheiros e seus príncipes, bem como pelos israelitas que ali se encontravam.
26. Entreguei-lhes o peso de seiscentos e cinqüenta talentos de prata, utensílios de prata do peso de cem talentos, cem talentos de ouro,
27. vinte taças de ouro valendo mil dáricos, e dois vasos de um bronze muito claro e brilhante, tão belo como ouro.
28. E disse-lhes: vós sois santos diante do Senhor; estes utensílios são consagrados; esta prata e este ouro são uma oferta espontânea feita ao Senhor, Deus de vossos pais.
29. Guardai-os com cuidado até o momento em que vós os pesareis diante dos chefes dos sacerdotes e dos levitas, e diante dos chefes da família de Israel, em Jerusalém, nas salas da casa do Senhor.
30. Os sacerdotes e levitas receberam, pois, o ouro, a prata e os utensílios assim pesados, para levá-los a Jerusalém, à casa de nosso Deus.
31. Partimos do riacho de Aava no duodécimo dia do primeiro mês a fim de irmos para Jerusalém. A mão de nosso Deus nos protegia e nos salvava das mãos dos inimigos e de suas emboscadas durante o trajeto.
32. Chegados a Jerusalém, repousamos durante três dias.
33. Ao quarto dia, a prata, o ouro e os utensílios foram pesados na casa de nosso Deus e entregues a Merimut, filho de Urias, o sacerdote. Ele tinha consigo Eleazar, filho de Finéias, e com eles os levitas Josabad, filho de Josué, e Noadias, filho de Benui.
34. Tudo foi contado e pesado. E ao mesmo tempo o peso total foi consignado por escrito.
35. Os que voltavam do exílio, homens nascidos no cativeiro, ofereceram em holocausto, ao Deus de Israel, doze touros por todo o Israel, noventa e seis carneiros, setenta e sete cordeiros e doze bodes pelos pecados, tudo em holocausto ao Senhor.
36. Entregaram o decreto do rei aos sátrapas do rei e aos governadores de além do rio. Estes deram seu apoio ao povo e à casa de Deus.

 
Capítulo 9

1. Após todos estes acontecimentos, os chefes aproximaram-se de mim e disseram-me: O povo de Israel, os sacerdotes e os levitas não se conservaram afastados dos habitantes desta terra. Imitaram as abominações dos cananeus, dos hiteus, dos ferezeus, dos jebuseus, dos amonitas, dos moabitas, dos egípcios e dos amorreus.
2. Tomaram, entre as filhas deles, mulheres para si e para seus filhos. Assim, a raça santa misturou-se com a dos habitantes dessas terras; e os chefes e os magistrados foram os primeiros a dar a mão a essa transgressão.
3. Ouvindo essas palavras, rasguei minha túnica e a capa, arranquei os cabelos da cabeça e da barba, e sentei-me consternado.
4. Ao redor de mim reuniram-se todos aqueles que temiam as palavras do Deus de Israel, por causa da transgressão dos filhos do cativeiro. Quanto a mim, fiquei sentado e angustiado, até o sacrifício da tarde.
5. Na hora da oblação da tarde, levantei-me de minha aflição com minhas vestes e meu manto rasgados; então, caindo de joelhos, estendi as mãos para o Senhor, meu Deus,
6. e disse: Meu Deus, estou coberto de vergonha e de confusão ao levantar minha face para vós, meu Deus; porque as nossas iniqüidades acumularam-se sobre nossas cabeças, e nosso pecado chegou até o céu.
7. Desde o tempo de nossos pais até o dia de hoje, temos sido gravemente culpados; e por causa de nossas iniqüidades, fomos escravizados, nós, nossos reis e nossos filhos; fomos entregues à mercê dos reis de outras terras, à espada, ao cativeiro, à pilhagem e à vergonha que nos cobre mesmo nos dias de hoje.
8. Entretanto, o Senhor, nosso Deus, testemunhou-nos por um momento a sua misericórdia, permitindo que subsistisse um resto dentre nós, e concedeu-nos um abrigo em seu lugar santo. Nosso Deus quis assim fazer brilhar a nossos olhos a sua luz, e nos dar um pouco de vida no meio de nossa servidão.
9. Sim somos escravos; mas nosso Deus não nos abandonou em nosso cativeiro. Ele concedeu-nos a benevolência dos reis da Pérsia, dando-nos vida bastante para reconstruir a morada de nosso Deus, reerguer as ruínas, e prometendo-nos um abrigo seguro em Judá e em Jerusalém.
10. Agora, ó Deus nosso, que mais poderemos dizer depois de tudo isso?
11. Abandonamos os mandamentos que vós nos destes por meio de vossos servos, os profetas, que diziam: a terra em que ides entrar para dominar como possessão vossa é uma terra de impureza, contaminada pelas imundícies dos povos dessas regiões, pelas abominações e impurezas com que a encheram de uma extremidade à outra.
12. Não deis, pois, vossas filhas a seus filhos, e nem tomeis as suas filhas para vossos filhos; não vos preocupeis com sua prosperidade e seu bem-estar, para que vos torneis fortes e comais os bons produtos dessa terra, a qual transmitireis para sempre como herança aos vossos filhos.
13. Depois de tudo o que nos aconteceu por causa de nossas más ações e nossa grande culpabilidade, vós nos conservastes, ó nosso Deus, mais do que mereciam as nossas iniqüidades, e deixastes subsistir um resto dentre nós.
14. Poderíamos recomeçar a violar vossas leis, aliando-nos a esses povos abomináveis? Não vos irritaríeis contra nós, até nos exterminar, sem deixar um sobrevivente que pudesse escapar?
15. Senhor, Deus de Israel, vós sois justo, porque presentemente nada mais somos que um resto de sobreviventes; eis-nos aqui diante de vós com nossa falta, porque não poderíamos subsistir em vossa presença depois do pecado.

 
Capítulo 10

1. Enquanto Esdras, prostrado diante da casa de Deus, fazia chorando esta prece e esta confissão, foi-se reunindo em torno dele uma multidão numerosa de israelitas, homens, mulheres e crianças; e o povo também derramava abundantes lágrimas.
2. Então Sequenias, filho de Jeiel, dos filhos de Elão, tomou a palavra e disse a Esdras: Nós pecamos contra o nosso Deus, tomando por mulheres as estrangeiras pertencentes ao povo desta terra. Entretanto, resta ainda uma esperança para Israel.
3. Façamos, agora, uma aliança com nosso Deus: proponhamo-nos a mandar de volta todas essas mulheres e seus filhos, de conformidade com o teu conselho e o daqueles que têm respeito pelos mandamentos de nosso Deus. E que seja feito segundo manda a lei.
4. Levanta-te, pois, para regulamentar este trabalho. Estaremos contigo. Coragem, e mãos à obra!
5. Então Esdras levantou-se; fez com que os chefes dos sacerdotes, dos levitas, e de todo o Israel jurassem que agiriam como acabava de ser dito; e eles juraram.
6. Depois, deixando a casa de Deus, foi ao quarto de Joanã, filho de Eliasib. Tendo entrado ali, permaneceu sem comer nem beber, porque chorava o pecado dos filhos do cativeiro.
7. Publicou-se então em Judá e Jerusalém que todos os filhos do cativeiro viessem reunir-se em Jerusalém.
8. Quem não comparecesse dentro de três dias, conforme as ordens dos anciãos e dos chefes, veria confiscados os seus bens, e seria excluído da assembléia dos filhos do cativeiro.
9. Todos os homens de Judá e de Benjamim reuniram-se em Jerusalém nos três dias; era o vigésimo dia do nono mês. Todo o povo que se encontrava na praça do templo de Deus tremia, não só (pela gravidade) da circunstância, mas também porque estava chovendo.
10. Esdras, o sacerdote, levantou-se e disse-lhes: Vós pecastes tomando mulheres estrangeiras, agravando assim a falta de Israel.
11. Agora, compenetrai-vos de vossa falta diante do Senhor, o Deus de nossos pais, e fazei a sua vontade; separai-vos dos povos desta terra e das mulheres estrangeiras.
12. Toda a assembléia respondeu em alta voz: Sim, devemos proceder como disseste.
13. Mas o povo é numeroso, e é a estação das chuvas; não é, pois, possível ficar-se fora; ademais, isso não é trabalho de um ou dois dias, porque cometemos uma grande transgressão nesse assunto.
14. Que nossos chefes fiquem aqui para representar a assembléia inteira; e todos aqueles que, em nossas cidades, receberam em suas casas uma ou mais mulheres estrangeiras, se apresentem nas datas fixadas, com os anciãos de cada cidade e os seus juízes, até que consigamos apartar de nós o fogo da cólera de nosso Deus por causa dessa questão.
15. Só Jonatã, filho de Azael, e Jaasiaz, filho de Técua, se apresentaram para contradizer essa ordem, apoiados por Mosolão e Sebetai, o levita.
16. Os filhos do cativeiro, porém, conformaram-se. Esdras, o sacerdote, e alguns homens, chefes de família segundo suas casas, todos designados por seus nomes, puseram-se de parte e, sentando-se, começaram a examinar a questão no primeiro dia do décimo mês.
17. No primeiro dia do primeiro mês resolveram a questão dos homens que tinham desposado mulheres estrangeiras.
18. Entre os filhos dos sacerdotes, encontravam-se alguns que haviam desposado mulheres estrangeiras, a saber: filhos de Josué, filhos de Josedec, e de seus irmãos entre os quais Maasias, Eliezer, Jarib e Godolias.
19. Estes se comprometeram a repudiar suas mulheres e oferecer um carneiro pela expiação de sua falta.
20. Dos filhos de Emmer: Hanani e Zebedias.
21. Dos filhos de Harim: Maasias, Elias, Semeías, Jeiel e Ozias.
22. Dos filhos de Fasur: Elioenai, Maasias, Ismael, Natanael, Jozabed e Elasa.
23. Entre os levitas: Jozabel, Semei, Celaías, chamado também Celita, Fataias, Judá e Eliezer.
24. Entre os cantores: Eliasib. Entre os porteiros: Selum, Telem e Uri.
25. Entre os israelitas: dos filhos de Faros: Remeías, Jezias, Melquias, Miamim, Eliezer, Melquias e Banaías.
26. Dos filhos de Elão: Matanias, Zacarias, Jeiel, Abdi, Jerimot e Elias.
27. Dos filhos de Zetua: Elioenai, Eliasib, Matanias, Jerimot, Zabad e Aziza.
28. Dos filhos de Bebai: Joanã, Ananias, Zabai, Atalai.
29. Dos filhos de Bani: Mosolão, Meluch, Adaías, Jasub, Saal e Ramot.
30. Dos filhos de Fahat-Moab: Edna, Calal, Banaías, Maasias, Matanias, Beseleel, Benui e Manassés.
31. Dos filhos de Harim: Eliezer, Jesias, Melquias, Semeías,
32. Simeão, Benjamim, Melluc, Samarias.
33. Dos filhos de Hasom: Matanai, Matata, Zabad, Elifelet, Jermai, Manassés, Semei.
34. Dos filhos de Bani: Maadi, Amrão, Uel,
35. Banaías, Badaías, e Queliau,
36. Vanas, Merimut, Eliasib,
37. Matanias, Matanai, Jasi,
38. Bani, Benui, Semei,
39. Salmias, Natã, Adaías, Mecnedebai,
40. Sisai, Sarai, Ezrel, Selemiau,
41. Semerias, Selum, Amarias, José.
42. Dos filhos de Nebo: Jeiel, Matatias, Zabad,
43. Zabina, Jedu, Joel e Banaías.
44. Todos estes homens, que haviam desposado mulheres estrangeiras, despediram-nas com seus filhos.

 

Livro de Neemias

Livro de Neemias

 Capítulo 1

1. Palavras de Neemias, filho de Helquias. No mês de Casleu do vigésimo ano, encontrando-me eu em Susa, no palácio,
2. eis que chegaram de Judá, Hanani, um de meus irmãos, com alguns companheiros. Perguntei-lhes pelos judeus libertados que tinham escapado ao cativeiro e a respeito de Jerusalém.
3. Os que escaparam, disseram-me eles, os que voltaram do cativeiro, estão lá na província, numa grande miséria e numa situação humilhante; os muros de Jerusalém estão em ruínas e suas portas foram incendiadas.
4. Ouvindo tais palavras, sentei-me para chorar e fiquei vários dias desconsolado; jejuei e orei diante do Deus do céu,
5. dizendo: Ah! Senhor, Deus do céu, Deus grande e terrível, vós que permaneceis fiel à vossa aliança e exerceis a misericórdia para com aqueles que vos amam e observam os vossos mandamentos,
6. que vossos ouvidos estejam atentos e vossos olhos se abram para ouvirdes a prece que eu, vosso servo, estou fazendo na vossa presença, de noite e de dia, pelos filhos de Israel, vossos servos, confessando os pecados que nós, os israelitas, cometemos contra vós. Porque eu mesmo e a casa de meu pai temos pecado.
7. Nós vos ofendemos gravemente e não observamos as leis, mandamentos e preceitos que destes a Moisés, vosso servo.
8. Lembrai-vos da palavra que destes ao vosso servo Moisés, dizendo: se transgredirdes meus preceitos, eu vos dispersarei entre as nações;
9. mas, se voltardes a mim, se observardes meus mandamentos e os praticardes, mesmo que estejais deportados às extremidades do céu, eu vos reunirei ali e vos farei retornar ao lugar que escolhi para estabelecer nele a morada de meu nome.
10. Eles são vossos servos, esse mesmo povo que libertastes com o poder e a força de vossa mão.
11. Ah! Senhor, prestai ouvidos à oração deste vosso servo e à oração dos vossos servos que veneram o vosso nome. Dignai-vos hoje dar bom êxito ao vosso servo, e fazei-o ganhar o favor do rei. Eu era então copeiro do rei.

 
Capítulo 2

1. No vigésimo ano do rei Artaxerxes, no mês de Nisã, estando o vinho diante de mim, tomei-o e o ofereci ao rei. Ora, jamais em outra ocasião, eu estivera triste em sua presença.
2. Disse-me o rei: Por que tens a face sombria? Não estás doente! Tens no entanto algum dissabor!
3. Muito conturbado respondi ao rei: Viva o rei para sempre! Como não haveria eu de estar pesaroso, desde que a cidade onde se encontram os túmulos de meus pais está devastada e suas portas consumidas pelo fogo?
4. Disse-me o rei: Que tens a me pedir?
5. Então, fazendo uma prece ao Deus do céu, eu disse ao rei: Se aprouver ao rei, e se o teu servo te é agradável, permite-me ir para a terra de Judá, à cidade onde se encontram os túmulos de meus pais, para reconstruí-la.
6. O rei, junto de quem estava sentada a rainha, perguntou-me: Quanto tempo durará tua viagem? Quando voltarás? Ele consentiu que eu partisse, logo que lhe fixei certo prazo.
7. Prossegui: Se o rei achar bom, que me dêem missivas para os governadores de além do rio, a fim de que me deixem passar para Judá;
8. e uma outra carta para Asaf, o intendente da floresta real, para que ele me forneça a madeira para a viga das portas da fortaleza vizinha ao templo, para as muralhas da cidade e para a casa em que eu habitar.
O rei concordou com o meu pedido, porque a mão favorável de meu Deus estava comigo.
9. Fui ter com os governadores de além do rio e entreguei-lhes as cartas do rei; ora, o rei fizera-me escoltar por alguns chefes militares e cavaleiros.
10. Mas, quando Sanabalat, o horonita, e Tobias, o servo amonita, foram informados disso, ficaram grandemente despeitados por ter chegado um homem que procurava o bem dos filhos de Israel.
11. Cheguei a Jerusalém e, depois de ter passado ali três dias,
12. levantei-me durante a noite acompanhado de um pequeno grupo de homens, sem dizer a ninguém o que o meu Deus me inspirara fazer por Jerusalém. Não tinha comigo outro animal, senão aquele em que montava.
13. Saí à noite pela porta do Vale, e dirigi-me à fonte do Dragão e à porta da Esterqueira; verifiquei que as muralhas de Jerusalém estavam arruinadas e que as portas estavam consumidas pelo fogo.
14. Prossegui rumo à porta da Fonte e à piscina do Rei; mas não havia ali lugar para passagem com a minha montaria.
15. Subi então à noite ao barranco, examinei a muralha, retomei em seguida o mesmo caminho e reentrei pela porta do Vale.
16. Os magistrados ignoravam onde eu tinha ido e o que queria fazer. Até aquele momento, eu nada havia deixado transparecer, nem aos Judeus, nem aos sacerdotes, nem aos homens importantes, nem aos magistrados, nem às demais pessoas do povo que se ocupavam dos trabalhos.
17. Disse-lhes então: Vede a miséria em que estamos; Jerusalém devastada, suas portas consumidas pelo fogo! Vinde; reconstruamos as muralhas da cidade e ponhamos termo a esta humilhante situação.
18. Contei-lhes em seguida como a mão de meu Deus me favorecera e narrei-lhes tudo o que dissera o rei. Gritaram todos: Vamos! Reconstruamos! E com coragem puseram-se a trabalhar nessa boa obra.
19. Quando Sanabalat, o horonita, Tobias, o servo amonita, e Gossem, o árabe, souberam disso, zombaram de nós e diziam num tom de desprezo: Que estais fazendo? Quereis revoltar-vos contra o rei?
20. Respondi-lhes: O próprio Deus do céu é quem nos fará triunfar. Nós somos seus servos, e vamos reconstruir. Quanto a vós, não tendes parte, nem direito, nem lembrança em Jerusalém.

 
Capítulo 3

1. O sumo sacerdote Eliasib e seus irmãos, sacerdotes, puseram-se a trabalhar para reconstruir a porta das Ovelhas; consagraram-na e assentaram-lhe os batentes. Construíram a muralha até a torre de Mea, a qual consagraram, e prosseguiram até a torre de Hananeel.
2. Ao lado deles construíam os homens de Jericó; e, mais ao longe, Zacur filho de Amri.
3. Os filhos de Asnaa construíram a porta dos Peixes; colocaram-lhe as vigas e assentaram-lhe os batentes, com suas fechaduras e as trancas.
4. Ao lado deles trabalhavam nas reparações Marimut, filho de Urias, filho de Acus, depois Mosolão, filho de Baraquias, filho de Mesezebel; depois Sadoc, filho de Baana.
5. Ao lado destes trabalhavam os tecuítas; mas seus chefes não prestaram apoio ao trabalho do seu Senhor.
6. Joiada, filho de Fasea, e Mosolão, filho de Besodias, repararam a porta antiga; puseram-lhe as vigas e colocaram os batentes, as fechaduras e as trancas.
7. Ao lado trabalhavam Meltias, o gabaonita, Jadon, o meronatita, bem como os homens de Gabaon e de Masfa, que eram súditos do governador da outra banda do rio.
8. Ao lado trabalhava Eziel, filho de Araías, que pertencia à turma dos ourives; depois Ananias, da turma dos perfumistas. Reconstruíram Jerusalém até o muro largo.
9. Ao lado deles trabalhava Rafaías, filho de Hur, chefe de uma metade do distrito de Jerusalém.
10. Depois, frente à sua casa, Jedaías, filho de Haromaf; em seguida Hatas, filho de Hasebonias.
11. Melquias, filho de Herem, e Hasub, filho de Falat-Moab, repararam outra parte da muralha e a torre dos Fornos.
12. Ao lado deles trabalhava, com suas filhas, Selum, filho de Aloes, chefe da outra metade do distrito de Jerusalém.
13. Hanun e os habitantes de Zanoe repararam a porta do Vale; recontruíram-na e trocaram os batentes, as fechaduras e as trancas; e fizeram além disso mil côvados de muro até a porta da Esterqueira.
14. Melquias, filho de Recab, chefe do distrito de Betacarão, reformou a porta da Esterqueira; reconstruiu-a, colocando-lhe também os batentes, as fechaduras e as trancas.
15. Selum, filho de Colhosa, chefe do distrito de Masfa, reparou a porta da Fonte; reconstruiu-a, cobriu-a, e colocou-lhe os batentes, as fechaduras e as trancas; fez além disso os muros, desde a piscina de Siloé, ao lado do jardim do rei, até a escada que desce da cidade de Davi.
16. Depois dele, Neemias, filho de Azboc, chefe da metade do distrito de Betsur, trabalhou até defronte do túmulo de Davi, até o reservatório artificial e até a casa dos Heróis.
17. Depois dele, trabalharam os levitas com Reum, filho de Beni; ao lado trabalhava, para o seu distrito, Hasebias, chefe da metade do distrito de Ceila.
18. Mais ao longe trabalhavam seus irmãos, sob a direção de Bavai, filho de Enadad, chefe da outra metade de Ceila.
19. Azer, filho de Josué, chefe de Masfa, reparou outro setor da muralha, defronte da subida do arsenal, até a esquina.
20. Depois dele, Baruc, filho de Zacai, trabalhava com ardor em outra seção, desde a esquina até a entrada da casa do sumo sacerdote Eliasib.
21. Depois dele, Merimut, filho de Urias, filho de Hacus, trabalhava em outra seção, desde a porta da casa de Eliasib, até a extremidade dessa casa.
22. Mais ao longe, trabalhavam os sacerdotes, os homens da planície do Jordão.
23. Depois deles, Benjamim e Hasub trabalhavam defronte das suas casas. Depois deles, Azarias, filho de Maasias, filho de Ananias, ao lado de sua casa;
24. depois dele, Benui, filho de Henadad, trabalhava em outra seção, desde a casa de Azarias até a esquina e o contorno.
25. Falel, filho de Ozi, trabalhava defronte da esquina e da alta torre que aparece sobre o palácio real, perto do átrio da prisão.
26. Depois dele trabalhava Fadaías, filho de Faros. (Os natineus habitavam Ofel, até defronte da porta da Água, a oriente, e da torre que se salientava.)
27. Depois dele, os tecuítas trabalhavam na parte seguinte, defronte da torre que se salientava, até o muro de Ofel.
28. Acima da porta dos Cavalos, trabalhavam os sacerdotes, cada um diante de sua casa.
29. Depois deles, Sadoc, filho de Emmer, diante de sua casa; depois Semaías, filho de Sequenias, guardião da porta oriental do templo.
30. Depois dele Hananias, filho de Selemias e Hanum, o sexto filho de Selef, repararam uma outra seção. Depois dele Mosolão, filho de Baraquias, trabalhava diante de sua residência.
31. Depois dele, trabalhava Melquias, que pertencia à turma dos ourives, até a casa dos natineus e dos negociantes, diante da porta de Mifcad até o quarto da esquina.
32. Enfim, entre o quarto da esquina do contorno e a porta das Ovelhas, trabalhavam os ourives e os negociantes.
33. Grande foi a raiva de Sanabalat quando soube que reconstruíamos a muralha. Em sua cólera, escarneceu dos judeus,
34. e disse diante de seus irmãos e do exército da Samaria: Que querem fazer esses miseráveis judeus? Porventura permitiremos que o façam? Querem eles oferecer sacrifícios? Chegarão ao cabo de sua empresa? Tirarão por acaso pedras destes montes de areia calcinada?
35. E Tobias, que estava ao seu lado, ajuntou: Deixem-nos reconstruir! Virá uma raposa e fará cair a sua muralha de pedra.
36. Ouvi, ó nosso Deus, como nos desprezam. Fazei recair sobre suas cabeças todos os seus insultos. Fazei deles a presa de outros numa terra de exílio.
37. Não perdoeis sua iniqüidade, e que seu pecado jamais seja esquecido diante de vossa face, tão grande é o escândalo que fizeram diante dos construtores!
38. Reconstruímos o muro, reparamo-lo inteiramente até a metade de sua altura, tanto era o ânimo do povo para trabalhar.

 
Capítulo 4

1. Quando Sanabalat, Tobias, os árabes, os amonitas e os azoteus souberam que prosseguíamos na reparação das muralhas de Jerusalém e que as fendas começavam a desaparecer, ficaram enraivecidos.
2. Coligaram-se todos para vir atacar Jerusalém e semear ali a confusão.
3. Fizemos oração ao nosso Deus, e estabelecemos uma guarda de dia e de noite, para nos proteger contra eles.
4. Já o povo de Judá dizia: Os transportadores estão quase sem forças, e há ainda grande quantidade de escombros. Jamais conseguiremos reconstruir a muralha.
5. E nossos inimigos diziam: Atacá-los-emos sem que saibam e antes que vejam algo; matá-los-emos e assim poremos fim a este trabalho.
6. Os judeus que habitavam nas vizinhanças vieram até dez vezes advertir-nos acerca dos lugares de onde possivelmente nossos inimigos viriam atacar-nos.
7. Coloquei, pois, como anteparo, por detrás das muralhas, nos pontos descobertos, o povo dividido em famílias, com as suas espadas, lanças e arcos.
8. Tendo terminado a inspeção, achei que era de meu dever exortar os homens importantes, os magistrados e o restante do povo: Não tenhais medo deles! disse-lhes eu. Lembrai-vos de que o Senhor é grande e temível; combatei por vossos irmãos, vossos filhos e filhas, vossas mulheres e vossas casas!
9. Quando nossos inimigos souberam que estávamos alertados, (compreenderam) que Deus lhes aniquilava o projeto. Nós, pois, retornamos todos à muralha, cada um ao seu trabalho.
10. Mas, depois daquele dia, a metade dos que estavam comigo trabalhava, enquanto a outra metade estava armada de lanças, escudos, arcos e couraças; e os chefes estavam atrás deles com toda a gente de Judá.
11. Entre os que estavam ocupados na muralha, os transportadores trabalhavam com uma das mãos e, na outra, traziam uma arma;
12. os pedreiros tinham cada um sua espada na cinta ao redor dos rins; foi assim que se fez a alvenaria. Um homem tocador de trombeta estava junto de mim.
13. E eu disse aos homens importantes, aos magistrados e ao resto do povo: O trabalho é considerável e se estende por um vasto espaço; nós nos encontramos dispersados na muralha, uns a grande distância dos outros.
14. Quando, pois, tocar a trombeta, de qualquer canto em que vós a escuteis, reuni-vos a nós. Nosso Deus combaterá por nós.
15. Estávamos assim trabalhando, a metade com a lança na mão, desde o despontar da aurora até a aparição das estrelas.
16. Ao mesmo tempo, eu disse ao povo: Cada um, com seu ajudante, passe a noite em Jerusalém, para nos auxiliar a montar a guarda durante a noite e a trabalhar durante o dia.
17. Quanto a mim, a meus irmãos, a minha gente, e aos guardas de minha escolta, nem mesmo trocávamos nossas vestes; cada um guardava sua arma ao alcance da mão.

 
Capítulo 5

1. Entretanto, os homens do povo e suas mulheres fizeram ouvir lamentações muito fortes contra os judeus, seus irmãos.
2. Havia alguns que diziam: Nós, nossos filhos e filhas, somos numerosos; precisamos de trigo, para que possamos comer e viver.
3. Havia outros que diziam: Somos obrigados a empenhar nossas terras, nossas vinhas e nossas casas para termos trigo durante a fome.
4. Outros ainda: Tivemos de tomar dinheiro emprestado para pagar o tributo ao rei, empenhando nossas vinhas e nossos campos.
5. E, no entanto, somos da mesma raça que nossos irmãos; nossos filhos não são diferentes dos deles; e eis que foi preciso escravizar nossos filhos e filhas; mesmo agora, entre nossas filhas, há algumas que já são escravas. E nada podemos fazer, porque nossos campos e nossas vinhas passaram já à mão de outros.
6. Estes lamentos e reclamações irritaram-me profundamente.
7. Depois de ter refletido, censurei as pessoas importantes e os magistrados: Por que, lhes disse eu, cobrais usuras de vossos irmãos? Convoquei então por causa deles uma grande assembléia,
8. e disse-lhes: Nossos irmãos judeus, que tinham sido vendidos às nações, nós os resgatamos segundo nossa posse. E vós vendeis vossos irmãos? É a nós que eles seriam vendidos! Calaram-se, não encontrando o que responder.
9. Eu continuei: O que estais fazendo não é correto! Não devíeis caminhar no temor de nosso Deus, para evitar o insulto das nações que são nossas inimigas?
10. Eu mesmo, com meus irmãos e servos, nós emprestamos prata e trigo. Pois bem! Abandonemos o que nos devem.
11. Devolvei-lhes desde já seus campos, suas vinhas, suas oliveiras e suas casas, bem como a porcentagem de prata, de trigo, de vinho e de azeite que exigistes deles como juros.
12. Responderam eles: Devolveremos tudo, e nada mais lhes pediremos; faremos tudo o que dizes. Chamei então os sacerdotes, e os fiz jurar que procederiam assim.
13. E sacudi o pó de meu manto, dizendo: Que Deus assim sacuda de sua casa e de seus bens todo aquele que não cumprir com a sua palavra; que assim, expulso, fique também tal homem espoliado! Ao que toda a assembléia respondeu: Amém, louvando o Senhor. E o povo nada mais disse.
14. Depois do dia em que o rei me estabeleceu como governador da região de Judá, isto é, depois do vigésimo até o trigésimo segundo ano do reinado do rei Artaxerxes, durante doze anos, nem eu nem meus irmãos comemos o pão do governador.
15. Os antigos governadores, meus predecessores, cobrando o pão e o vinho à razão de quarenta siclos por dia, tinham sido uma carga para o povo, que também sofria as exações de seus servos. Mas, quanto a mim, o temor de Deus preservou-me de proceder assim.
16. Eu mesmo colaborei no trabalho de reparação das muralhas. Não compramos campo algum, e meus servos puseram-se todos a trabalhar.
17. Tinha eu ao meu encargo a alimentação de cento e cinqüenta homens, judeus e magistrados, além dos que nos vinham procurar das regiões vizinhas.
18. Preparávamos cada dia um boi, seis carneiros escolhidos e aves, tudo à minha custa; e a cada dez dias se servia o vinho necessário em abundância. Entretanto, não reclamei a pensão do governador porque os trabalhos pesavam muito sobre o povo.
19. Lembrai-vos, ó meu Deus, de tudo o que eu fiz por este povo, e recompensai-me.

 
Capítulo 6

1. Sanabalat, Tobias, Gossem o árabe, e outros inimigos nossos, souberam que eu havia reconstruído a muralha e que não havia mais brechas; entretanto, até aquele momento eu não havia ainda colocado os batentes nas portas.
2. Mandaram solicitar-me uma entrevista com eles numa das aldeias do vale de Ono. Projetavam fazer-me mal.
3. Enviei-lhes mensageiros para dizer-lhes: Estou em vias de executar um trabalho importante; não posso descer. Não tenho desculpa para interromper meu trabalho e não posso deixar a obra para descer a vós.
4. Quatro vezes eles me endereçaram a mesma mensagem, e eu cada vez enviava-lhes a mesma resposta.
5. Pela quinta vez Sanabalat fez-me a mesma proposta por um seu servo, o qual, desta vez, trazia na mão uma carta aberta
6. que continha o seguinte: Foi divulgado entre as gentes, e Gossem afirma que, se tu reconstróis a muralha, é porque tu e os judeus estais projetando uma revolta. E, pelo que se diz, desejas tornar-te o rei deles,
7. e terias mesmo enviado profetas para proclamar-te rei de Judá em Jerusalém. Todos esses boatos chegarão aos ouvidos do rei. Vem, pois, e entendamo-nos.
8. Eu lhes respondi: Nada existe de verdadeiro no que dizes: foste tu que inventaste tudo isso.
9. Todos procuravam intimidar-nos. Diziam entre si: Fatigar-se-ão de tal modo que abandonarão o trabalho; este jamais será terminado. Agora, pois, ó meu Deus, sustentai os meus braços!
10. Fui depois à casa de Semaías, filho de Dalaías, filho de Metabeel, que se tinha fechado em sua residência. Vamos juntos, disse-me ele, à casa de Deus, ao interior do templo, e fechemos as portas do santuário, porque procuram matar-te; nesta mesma noite virão liquidar-te.
11. Respondi-lhe: Como! Então um homem como eu há de fugir? Por outra parte, como pode um homem como eu entrar no templo sem perder a vida? Ali não entrarei.
12. Eu compreendera, com efeito, que não fora Deus quem o enviara; se ele tinha pronunciado sobre mim tal predição, era porque Tobias e Sanabalat o haviam subornado.
13. Eles o faziam para intimidar-me e fazer-me pecar segundo o seu desejo; isto lhes permitiria cobrir-me de opróbrios e lançar-me em má reputação.
14. Lembrai-vos, ó meu Deus, das maldades de Tobias e de Sanabalat; e também do profeta Noadias, bem como dos outros profetas que procuravam atemorizar-me.
15. Terminou-se a muralha no vigésimo quinto dia do mês de Elul, em cinqüenta e dois dias.
16. Quando nossos inimigos souberam disso, encheram-se de temor todas as nações vizinhas: pois seu ânimo arrefeceu e reconheceram que, se aquela empresa fora levada a bom termo, era graças ao nosso Deus.
17. Naquele tempo, Tobias mantinha uma correspondência contínua com certas pessoas importantes de Judá.
18. Muitos, com efeito, estavam-lhe unidos por juramento, pois ele era genro de Sequenias, filho de Area, e Joanã, seu filho, era casado com a filha de Mosolão, filho de Baraquias.
19. Até mesmo o louvavam em minha presença e participavam-lhe as minhas palavras. Esse Tobias era quem me remetia cartas para atemorizar-me.

 
Capítulo 7

1. Logo que foi restaurada a muralha, colocados os batentes das portas, e que os porteiros, cantores e levitas foram encarregados da vigilância,
2. confiei a defesa da cidade a Hanani, meu irmão, e a Ananias, comandante da cidadela, porque era um homem sério e muito piedoso.
3. Ordenei-lhes que não abrissem as portas de Jerusalém enquanto não viesse o calor do sol; à tarde, enquanto os guardas estivessem ainda em seus postos, colocaríamos as trancas e fecharíamos as portas; e durante a noite estabeleceríamos guardas recrutados entre os habitantes de Jerusalém; cada um devia montar guarda em seu posto diante de sua própria casa.
4. A cidade era grande e espaçosa, mas não tinha muitos habitantes, e as moradias não estavam ainda todas reconstruídas.
5. Meu Deus inspirou-me então que reunisse as pessoas importantes, os magistrados e o povo, e fizesse o recenseamento. Descobri um registro genealógico dos que tinham voltado em primeiro lugar, no qual estava escrito o que segue:
6. Entre os exilados que Nabucodonosor, rei de Babilônia, tinha levado cativos, estes são os habitantes da província que se puseram a caminho para retornar a Jerusalém e à Judéia, cada um à sua localidade.
7. Voltaram sob o comando de Zorobabel, Josué, Neemias, Azarias, Raamias, Naamani, Mardoqueu, Belsã, Mesfarat, Beguai, Naum, Baana.
8-38 Este é o recenseamento dos israelitas: filhos de Farsos: 2.172; filhos de Safatias: 372; filhos de Area: 652; filhos de Faat-Moab, descendentes de Josué e de Joab: 2.818; filhos de Elão: 1.254; filhos de Zetua: 845; filhos de Zacai: 760; filhos de Banui: 648; filhos de Bebai: 628; filhos de Azgad: 2.322; filhos de Adonicão: 667; filhos de Beguai: 2.067; filhos de Adin: 655; filhos de Ater de Ezequias: 98; filhos de Hasem: 328; filhos de Bezai: 324; filhos de Haref: 112; filhos de Gabaon: 95; habitantes de Belém e de Netofa: 188; habitantes de Anatot: 128; habitantes de Bet-Azmot: 42; habitantes de Cariatiarim, de Cafira e de Berot: 743; habitantes de Ramá e de Geba: 621; habitantes de Macmas: 122; habitantes de Betel e Hai: 123; habitantes de outro Nebo: 52; filhos do outro Elão: 1.254; filhos de Harim: 320; habitantes de Jericó: 345; filhos de Lod, de Hadid e de Ono: 721; filhos de Senaa: 3.930.
39-42 Sacerdotes: filhos de Iedaiá, da casa de Josué: 973; filhos de Emmer: 1.052; filhos de Pasur: 1.247; filhos de Harim: 1.017.
43. Levitas: filhos de Josué e de Cadmiel, descendentes de Odaías: 74.
44. Cantores: filhos de Asaf: 148.
45. Porteiros: filhos de Selum, filhos de Ater, filhos de Telmon, filhos de Acub, filhos de Hatita, filhos de Sobai: 138.
46-56 Natineus: filhos de Siha, filhos de Hasufa, filhos de Tabaot, filhos de Ceros, filhos de Sia, filhos de Fadon, filhos de Lebana, filhos de Hagaba, filhos de Selmai, filhos de Hanã, filhos de Gadel, filhos de Gaer, filhos de Reaia, filhos de Rasin, filhos de Necoda, filhos de Gazão, filhos de Aza, filho de Fazea, filhos de Basai, filhos de Munim, filhos de Nefusim, filhos de Bacbuc, filhos de Hacufa, filhos de Harur, filhos de Baslit, filhos de Maida, filhos de Harsa, filhos de Bercos, filhos de Sisara, filhos de Tema, filhos de Nasia, filhos de Hatifa.
57-59 Filhos dos servos de Salomão: filhos de Sotai, filhos de Soferet, filhos de Farida, filhos de Jaala, filhos de Darcon, filhos de Gadel, filhos de Safatia, filhos de Hatil, filhos de Poceret-Asebaim, filhos de Amon.
60. Total dos natineus e dos filhos dos servos de Salomão: 392.
61. Eis aqueles que, partindo de Tel-Mela, de Tel-Harsa, de Querub-Adon e de Imer, não conseguiram provar sua origem israelita, nem tornar conhecidas sua família e descendência:
62. filhos de Dalaías, filhos de Tobias, filhos de Necoda, 642;
63. e entre os sacerdotes: filhos de Hobaia, filhos de Acos, filhos de Berzelai, o qual, tendo desposado uma das filhas de Berzelai, o galaadita, foi chamado pelo seu nome.
64. Procuraram estabelecer sua genealogia, mas não o conseguiram descobrir. Assim, foram excluídos do sacerdócio.
65. O governador proibiu-lhes comer das coisas sagradas, até que se pudesse encontrar um sacerdote qualificado para consultar Deus pelo Urim e Tumim.
66. Toda a assembléia perfazia um total de 42.360 pessoas,
67. sem contar seus servos e servas, que eram em número de 7.337. Havia com eles 245 cantores e cantoras.
68. Tinham 736 cavalos, 245 burros,
69. 435 camelos e 6.720 jumentos.
70. Alguns chefes de família fizeram donativos para os trabalhos. O governador doou ao tesouro mil dáricos de ouro, cinqüenta taças e quinhentas e trinta túnicas sacerdotais.
71. Muitos chefes de família doaram ao tesouro vinte mil dáricos de ouro e duas mil e duzentas minas de prata.
72. Enfim, o resto do povo doou vinte mil dáricos de ouro, duas mil minas de prata e sessenta e sete túnicas sacerdotais.
73. Foi assim que os sacerdotes e levitas, os cantores, os porteiros, as pessoas do povo, os natineus e todos os israelitas estabeleceram-se em suas respectivas cidades. Assim, quando chegou o sétimo mês, os israelitas estavam instalados em suas cidades e casas.

 
Capítulo 8

1. Todo o povo se reuniu então, como um só homem, na praça que ficava diante da porta da Água, e pediu a Esdras, o escriba, que trouxesse o livro da Lei de Moisés, que o Senhor havia prescrito a Israel.
2. O sacerdote Esdras trouxe a lei diante da assembléia de homens, mulheres e de todas (as crianças) que fossem capazes de compreender. Era o primeiro dia do sétimo mês.
3. Esdras fez então a leitura da lei, na praça que ficava diante da porta da Água, desde a manhã até o meio-dia, na presença dos homens, mulheres e das (crianças) capazes de compreender; todos escutavam atentamente a leitura.
4. O escriba Esdras postou-se num estrado de madeira que haviam construído para a ocasião; a seu lado encontravam-se, à direita, Matatias, Semeías, Anias, Urias, Helcias e Maasias; à esquerda, Fadaías, Misael, Melquias, Hasum, Hasbadana, Zacarias e Mosolão.
5. Esdras abriu o livro à vista do povo todo; ele estava, com efeito, elevado acima da multidão. Quando o escriba abriu o livro, todo o povo levantou-se.
6. Esdras bendisse o Senhor, o grande Deus; ao que todo o povo respondeu, levantando as mãos: Amém! Amém! Depois inclinaram-se e prostraram-se diante do Senhor com a face por terra.
7. E Josué, Bani, Serebias, Jamin, Acub, Seftai, Odias, Maasias, Celita, Azarias, Josabed, Hanã, Falaías e outros levitas explicavam a lei ao povo, e cada um ficou no seu lugar.
8. Liam distintamente no livro da lei de Deus, e explicavam o sentido, de maneira que se pudesse compreender a leitura.
9. Depois Neemias, o governador, Esdras, sacerdote e escriba, e os levitas que instruíam o povo, disseram a toda a multidão: Este é um dia de festa consagrado ao Senhor, nosso Deus; não haja nem aflição, nem lágrimas. Porque todos choravam ao ouvir as palavras da lei.
10. Neemias disse-lhes: Ide para as vossas casas, fazei um bom jantar, tomai bebidas doces, e reparti com aqueles que nada têm pronto; porque este dia é um dia de festa consagrado ao nosso Senhor; não haja tristeza, porque a alegria do Senhor será a vossa força.
11. Os levitas acalmavam o povo. Calai-vos, diziam eles, este é um dia santo; não vos aflijais.
12. E todo o povo se foi para beber e comer, dar porções aos pobres e entregar-se a grandes alegrias. Porque haviam entendido o sentido das palavras que lhes foram explicadas.
13. No segundo dia, os chefes de família de todo o povo, os sacerdotes e os levitas reuniram-se junto do escriba Esdras para examinar o texto da lei.
14. Encontraram escrito na Lei que o Senhor havia dito, pelo ministério de Moisés, que os israelitas deviam habitar debaixo de tendas durante a festa do sétimo mês,
15. e que se devia proclamar e publicar em todas as cidades e em Jerusalém o seguinte aviso: Ide à montanha e trazei ramos de oliveira cultivada e de oliveira selvagem, ramos de mirta, ramos de palmeiras e de árvores frondosas, para fazer cabanas, segundo está prescrito.
16. Então o povo foi e trouxe ramos. E construíram as cabanas nos terraços de suas casas, nos pátios, nos átrios do templo, na praça da porta da Água e na praça da porta de Efraim.
17. Todos aqueles que tinham voltado do cativeiro fizeram cabanas e nelas habitaram. Desde o tempo de Josué, filho de Nun, até aquele dia, os israelitas não tinham feito coisa semelhante. E houve por isso grande regozijo.
18. Foi feita a cada dia uma leitura da lei de Deus, desde o primeiro dia da festa até o último. Celebraram a festa durante sete dias, e, no oitavo dia, houve uma assembléia solene para encerramento, segundo prescrevia o rito.

 
Capítulo 9

1. No vigésimo quarto dia do mesmo mês, vestidos de sacos, e com a cabeça coberta de pó, os israelitas reuniram-se para um jejum.
2. Os que eram de origem israelita estavam separados de todos os estrangeiros, e apresentaram-se para confessar seus pecados e as iniqüidades de seus pais.
3. De pé em seus lugares, escutaram a leitura da lei do Senhor, seu Deus, durante um quarto do dia; e durante o outro quarto do dia confessaram seus pecados e prostraram-se diante do Senhor, seu Deus.
4. Josué, Bani, Cedmiel, Sabanias, Boni, Sarebias, Bani e Canani, que haviam tomado lugar no estrado dos levitas, invocaram em alta voz o Senhor, seu Deus.
5. E os levitas Josué, Cedmiel, Bani, Hasebnias, Serebias, Odaías, Sebnias e Fataías diziam: Levantai-vos, bendizei ao Senhor, vosso Deus, de eternidade em eternidade! Seja bendito o vosso nome glorioso, com toda a sorte de louvores e bênçãos.
6. Sois vós, Senhor, vós somente, que fizestes o céu dos céus e todo o seu exército, a terra e tudo o que ela contém, o mar e tudo o que nele se encerra; sois vós quem dais a vida a todos os seres, e o exército dos céus vos adora.
7. Vós, Senhor Deus, fostes quem escolheu Abrão, quem o fez deixar a terra de Ur, na Caldéia, e quem lhe deu o nome de Abraão.
8. Encontrastes nele um coração fiel, e com ele firmastes uma aliança, prometendo dar à sua posteridade a terra dos cananeus, dos hiteus, dos amorreus, dos ferezeus, dos jebuseus e dos gergeseus, e cumpristes a vossa palavra, porque sois justo.
9. Vistes a aflição de nossos pais no Egito, e ouvistes os seus clamores junto do mar Vermelho.
10. Operastes milagres e prodígios contra o faraó, contra todos os seus servos e todo o povo de sua terra, porque sabíeis que haviam tratado com arrogância os nossos pais; e adquiristes um renome que perdura até os nossos dias.
11. Fendestes o mar diante deles, que passaram a pé enxuto; mas precipitastes nos abismos todos os que os perseguiam, como uma pedra é atirada às profundezas das águas.
12. Vós os guiastes durante o dia por uma coluna de nuvem, e à noite por uma coluna de fogo, para iluminar o caminho que deviam seguir.
13. Descestes ao monte Sinai, falastes-lhes do alto do céu e destes-lhes justas ordenações, leis verdadeiras, preceitos e mandamentos excelentes.
14. Fizestes lhes conhecer o vosso santo sábado, e prescrevestes-lhes, pela boca de Moisés, vosso servo, os mandamentos, preceitos e uma lei.
15. Do alto do céu, destes-lhes pão para saciar a fome; e do rochedo fizestes jorrar água para matar-lhes a sede. E vós os mandastes tomar posse da terra que havíeis jurado dar-lhes.
16. Mas os nossos pais, em seu orgulho, endureceram a cerviz e não observaram os vossos mandamentos.
17. Recusaram-se a ouvir, e não mais se incomodaram com as maravilhas que operastes em seu favor. Endureceram a cerviz e, em sua rebelião, elegeram um chefe para retornar à sua escravidão. Mas vós sois um Deus sempre pronto ao perdão, clemente e compassivo, vagaroso em encolerizar-se e rico em bondade, e assim não os abandonastes.
18. Mesmo quando fabricaram para si um bezerro de metal fundido, e vos ultrajaram grandemente dizendo ser aquilo o Deus que os tirara do Egito,
19. usastes de muita misericórdia e não os abandonastes no deserto; e a coluna de nuvem que os guiava durante o dia em sua viagem, bem como a coluna de fogo que lhes iluminava o caminho que deviam seguir durante a noite, não lhes foi arrebatada.
20. Destes-lhes do vosso bom espírito para torná-los prudentes; não lhes recusastes o vosso maná para seu alimento, e destes-lhes água para estancar a sede.
21. Durante quarenta anos provestes às suas necessidades no deserto, sem que nada lhes faltasse. Suas vestes não se estragaram e nem seus pés incharam.
22. Vós os livrastes dos reinos e dos povos, cujas terras repartistes entre eles. Tomaram posse da terra de Seon, da terra do rei de Hesebon e da terra de Og, rei de Basã.
23. Multiplicastes seus filhos como as estrelas do céu; e os fizestes entrar na posse da terra. Havíeis prometido aos seus pais que entrariam e possuiriam essa terra,
24. mas foram seus filhos que a ocuparam. Diante deles humilhastes o orgulho dos habitantes da terra, os cananeus; entregastes em suas mãos tanto os reis como as populações, que ficaram à sua mercê.
25. Eles se apropriaram de cidades fortificadas e de terras férteis; tomaram posse de casas repletas de bens de toda a sorte, de cisternas já feitas, de vinhas, olivais e muitas árvores frutíferas. Puderam comer até se saciar e engordaram, vivendo nas delícias que lhes outorgava a vossa grande bondade.
26. Entretanto, foram rebeldes e se revoltaram contra vós. Desprezaram vossa lei; mataram vossos profetas que os conjuravam a retornar a vós. Como cometessem grandes ultrajes para convosco,
27. vós os abandonastes às mãos de seus inimigos, que os oprimiram. Mas quando, no tempo de sua miséria, clamaram a vós, vós os ouvistes do alto do céu, e, em vossa grande misericórdia, enviastes-lhes salvadores que os livraram das mãos dos seus inimigos.
28. Mas, assim que voltou a segurança, recomeçaram a fazer o mal diante de vós, e os abandonastes às mãos dos seus inimigos, que os tiranizaram. Mas clamaram de novo a vós, e vós, do alto do céu, os atendestes; assim é que a vossa grande misericórdia operou inúmeras vezes a sua libertação.
29. Vós os conjurastes a voltar à vossa lei, mas eles, em sua arrogância, não escutavam vossas objurgações, transgrediam vossas ordens, que dão a vida ao homem que as observa; nada mais mostraram que ombros rebeldes, cerviz altiva e ouvidos surdos.
30. Vossa paciência para com eles durou muitos anos; vós lhes fazíeis admoestações pela inspiração de vosso espírito, que animava os vossos profetas. Então, finalmente, como não vos escutassem, vós os entregastes às mãos dos povos de outras terras.
31. Mas, mesmo assim, vossa grande misericórdia vos impediu de aniquilá-los, e não os abandonastes porque sois um Deus clemente e compassivo.
32. E agora, Senhor, Deus grande, poderoso e temível, vós que mantendes fielmente vossa aliança misericordiosa, não sejais indiferente a todos os sofrimentos que nos atingem, a nós, nossos reis, nossos chefes, nossos sacerdotes, e a todo o vosso povo, desde o tempo dos reis da Assíria até o presente.
33. Em tudo aquilo que nos aconteceu, nada mais houve que justiça de vossa parte, porque procedestes com lealdade, enquanto que nós retribuíamos com o mal.
34. Nossos reis, nossos chefes, nossos sacerdotes e nossos pais negligenciaram a prática da vossa lei, não mais obedeceram aos vossos mandamentos, nem às advertências que lhes fizestes.
35. Malgrado seu reino, apesar dos bens que lhes havíeis dado em abundância, e a despeito desta terra vasta e fértil que lhes entregastes, eles não vos serviram, não renunciaram às suas más obras.
36. E eis que hoje somos escravos! Escravos na própria terra que destes aos nossos pais, para usufruir de seus frutos e dos seus produtos.
37. Esta terra multiplica suas messes para reis estrangeiros, que no momento nos tiranizam por causa de nossos pecados, e dispõem a seu arbítrio de nossas pessoas e de nossos animais. Sim, estamos numa grande aflição.

 
Capítulo 10

1. Por todos esses motivos, contratamos uma aliança sagrada, que redigimos por escrito, e onde os nossos chefes, levitas e sacerdotes vão colocar o seu selo.
2. Eis os que apuseram o seu selo: Neemias, o governador, filho de Helquias.
3-28 Sacerdotes: Sedecias, Saraías, Azarias, Jeremias, Fasur, Amarias, Melquias, Hatus, Sebenias, Meluc, Harim, Merimut, Abdias, Daniel, Genton, Baruc, Mosolão, Abias, Miamin, Maazias, Belgai, Semeías. Levitas: Josué, filho de Azanias, Benui, dos filhos de Henadad, Cadmiel e seus irmãos, Sebenias, Odaías, Celita, Falaías, Hanã, Mica, Roob, Hasebias, Zacur, Serebias, Sabanias, Odaías, Bani, Baninu. Chefes do povo: Faros, Faat-Moab, Elão, Zetu, Bani, Boni, Azgad, Bebai, Adonias, Begoai, Adin, Ater, Ezequias, Azur, Odaías, Hasum, Besaí, Haref, Anatot, Nebai, Megfias, Mosolão, Hazir, Mesizabel, Sadoc, Jedua, Feltias, Hanã, Anaías, Oséias, Ananias, Hassub, Aloes, Falea, Sobec, Reum, Hasebna, Maasias, Equias, Hanã, Anã, Meluc, Harim, Baana.
29. O resto do povo, os sacerdotes, levitas, porteiros, cantores, natineus, e todos os que estavam separados dos povos estrangeiros para seguir a lei de Deus, suas mulheres, filhos e filhas, todos os que estavam em idade de conhecer e compreender,
30. juntaram-se aos seus irmãos, às pessoas importantes, e se comprometeram com juramento a caminhar segundo a lei de Deus, dada por intermédio de Moisés, seu servo, a observar e a praticar todos os mandamentos do Senhor, nosso Deus, suas ordenações e leis.
31. Prometemos não dar nossas filhas aos habitantes da terra e não tomar suas filhas para os nossos filhos;
32. nada comprar da terra, em dia de sábado ou em dia de festa, se trouxessem para vender, naqueles dias, mercadorias ou quaisquer gêneros alimentícios que fossem; deixar repousar a terra e não reclamar nenhuma dívida no sétimo ano.
33. Impusemo-nos a obrigação de pagar cada ano o terço de um siclo para o serviço do templo:
34. os pães da proposição, a oblação perpétua, o holocausto perpétuo, os sacrifícios dos sábados, das neomênias e das festas, as coisas consagradas, os sacrifícios expiatórios em favor de Israel, e para todo o serviço da casa de nosso Deus.
35. Tiramos a sorte, sacerdotes, levitas e o povo, para a repartição da oferta da madeira, a fim de que cada família, por sua vez, em cada ano, nas épocas determinadas, trouxesse ao templo o material necessário para manter aceso o fogo do altar do Senhor, nosso Deus, de conformidade com o que está escrito na lei.
36. Tomamos o compromisso de levar ao templo, cada ano, as primícias de nosso solo e as de nossos campos;
37. de apresentar igualmente aos sacerdotes que fazem o serviço da casa de Deus, como está prescrito na lei, os primogênitos dos nossos filhos e de nossos rebanhos, e os primogênitos de nossos bois e de nossas ovelhas;
38. do mesmo modo, de levar aos sacerdotes, nas salas da casa de Deus, as primícias de nossos alimentos, nossas oferendas, assim como dos frutos de todas as árvores, do vinho e do azeite; e de entregar o dízimo de nosso solo aos levitas, que estavam encarregados de transportá-lo para todas as nossas aglomerações agrícolas.
39. Um sacerdote da linhagem de Aarão acompanharia os levitas quando recebessem o dízimo; e os levitas trariam o dízimo do dízimo à casa de nosso Deus, para as salas que servem de depósito.
40. Porque os filhos de Israel e os filhos de Levi devem trazer para essas salas as primícias do trigo, do vinho e do azeite; nessas salas é que se acham os utensílios do santuário, e é ali que os sacerdotes se encontram em serviço, bem como os porteiros e os cantores. Assim é que nós não mais queremos negligenciar a casa de nosso Deus.

 
Capítulo 11

1. Estabeleceram-se os chefes do povo em Jerusalém. O resto dos israelitas tirou a sorte, a fim de que um entre dez viesse habitar em Jerusalém, na cidade santa, enquanto que os nove outros ficariam nas demais cidades.
2. O povo abençoou todos aqueles que se decidiram espontaneamente a vir habitar em Jerusalém.
3. Eis os chefes de família da colônia que se estabeleceu em Jerusalém. Nas cidades de Judá, israelitas, sacerdotes, levitas, natineus e os filhos dos escravos de Salomão estabeleceram-se cada um em sua propriedade, na sua cidade.
4. Estabeleceram-se em Jerusalém filhos de Judá e filhos de Benjamim. Entre os filhos de Judá: Ataías, filho de Azião, filho de Zacarias, filho de Amarias, filho de Safatias, filho de Malaleel, dos filhos de Fares;
5. e Maasias, filho de Baruc, filho de Colhosa, filho de Hazias, filho de Adaías, filho de Joiarib, filho de Zacarias, filho de Sela.
6. Total dos filhos de Fares que habitaram em Jerusalém: 468 homens valentes.
7. Eis os filhos de Benjamim: Selum, filho de Mosolão, filho de Joed, filho de Fadaías, filho de Colaías, filho de Maasias, filho de Eteel, filho de Isaías,
8. e depois dele Gebai, Selai. Ao todo, 928.
9. Joel, filho de Zecri, era o chefe e Judá, filho de Senua, o segundo comandante da cidade.
10. Entre os sacerdotes: Idaías, filho de Joiarib, Jaquin,
11. Saraías, filho de Helcias, filho de Mosolão, filho de Sadoc, filho de Meraiot, filho de Aquitob, príncipe da casa de Deus,
12. e seus irmãos que trabalhavam no serviço do templo: 822; Adaías, filho de Jeroão, filho de Felelias, filho de Amsi, filho de Zacarias, filho de Fasur, filho de Melquias,
13. e seus irmãos, chefes de família: 242; e Amassai, filho de Azrael, filho Aazi, filho de Mosolamot, filho de Emmer,
14. e seus irmãos, fortes e valentes, em número de 128. Zabdiel, filho de Hagdolim, era o seu chefe.
15. Entre os levitas: Semeías, filho de Hasub, filho de Azaricã, filho de Hasabias, filho de Boni;
16. Sabatai e Jozabed, superintendentes dos trabalhos exteriores da casa de Deus, entre os chefes dos levitas;
17. Matanias, filho de Mica, filho de Zebedeu, filho de Asaf, o chefe que entoava o cântico de louvores no tempo da oração; Becbecias, o segundo entre os seus irmãos, e Abda, filho de Samua, filho de Galal, filho de Iditum.
18. Total dos levitas residentes na cidade santa: 284.
19. E os porteiros: Acub, Telmon e seus irmãos, guardiães das portas: 172.
20. O restante dos israelitas, sacerdotes e levitas, estabeleceu-se em todas as outras cidades de Judá, cada um em sua propriedade.
21. Os natineus estabeleceram-se no quarteirão de Ofel, tendo à frente Sia e Gasfa.
22. O chefe dos levitas de Jerusalém era Azi, filho de Bani, filho de Hasabias, filho de Matanias, filho de Mica, um dos cantores filho de Asaf, encarregado do serviço da casa de Deus.
23. Havia uma ordem do rei concernente a eles, e um salário determinado era entregue quotidianamente aos seus cantores.
24. Fataías, filho de Mesezebel, da linhagem de Zara, filho de Judá, era comissário do rei para todos os negócios civis.
25. Quanto às pequenas cidades e seus arredores, descendentes de Judá, estabeleceram-se em Cariat-Arbé e em suas aldeias, em Dibon e em suas aldeias, em Cabseel e em suas aldeias;
26. em Jesué, em Molada, em Bet-Falet,
27. em Hasersual, em Bersabéia e em suas aldeias;
28. em Siceleg, em Mocona e em suas aldeias;
29. em En-Remon, em Saraá, em Jerimut,
30. em Zanoé, em Odolão e em suas aldeias, em Laquis e no seu território; em Azeca e nas suas aldeias. Estabeleceram-se desde Bersabéia até o vale de Enom.
31. Descendentes de Benjamim estabeleceram-se desde Geba, até Macmas, Hai, Betel e em suas aldeias,
32. em Anatot, em Nobe, em Anania,
33. em Asor, em Rama, Getaim,
34. em Hadid, em Seboim, em Nebalat,
35. em Lod e em Ono, no vale dos operários.
36. Entre os levitas, houve classes pertencentes a Judá que se uniram à tribo de Benjamim.

 
Capítulo 12

1. Lista dos sacerdotes e levitas que voltaram com Zorobabel, filho de Salatiel, e com Josué: Saraías, Jeremias, Esdras,
2. Amarias, Meluc, Hatus,
3. Sequenias, Rehum, Merimut,
4. Ado, Genton, Abias,
5. Miamin, Maadias, Belga, Semeías,
6. Joiarib, Idaías, Selu, Amoc, Helcias, Idaías.
7. Tais eram os chefes dos sacerdotes e seus irmãos no tempo de Josué.
8. Os levitas: Josué, Benui, Cedmiel, Serebias, Judá, Matanias, que estava com seus irmãos, dirigindo o canto de louvores;
9. Becbecias e Hani, seus irmãos, alternavam com eles.
10. Josué gerou Joaquim, Joaquim gerou Eliasib, Eliasib gerou Joiada,
11. Joiada gerou Jonatã, e Jonatã gerou Jedoa.
12. Eis os chefes das famílias sacerdotais no tempo de Joaquim: para a de Saraías, Maraías; para a de Jeremias, Ananias;
13-21 para Esdras, Mosolão; para Amarias, Joanã; para Milico, Jonatã; para Sebenias, José; para Harão, Edna; para Maraiot, Helci; para Ado, Zacarias; para Genton, Mosolão; para Abias, Zecri; para Miamin e Moadias, Felti; para Belga, Samua; para Semeías, Jonatã; para Joiarib, Matanai; para Jodaías, Azi; para Selai, Celai; para Amoc, Heber; para Helcias, Hasebias; para Idaías, Natanael.
22. Sob o reinado de Dario, rei da Pérsia, fez-se uma lista de todos os chefes de famílias levíticas e sacerdotais do tempo de Eliasib, de Joiada, de Joanã e de Jedoa.
23. No livro das Crônicas, os chefes de famílias levíticas só estão inscritos até o tempo de Joanã, filho de Eliasib.
24. Os chefes dos levitas foram, pois: Hasebias, Serebias e Josué, filho de Cedmiel, encarregados, alternadamente com os seus irmãos, do serviço dos louvores ao Senhor segundo o rito instituído por Davi, com um coro respondendo ao outro;
25. Matanias, Becbecias, Abdias, Mosolão, Telmon e Acub eram porteiros e tinham a guarda das portas.
26. Tais eram os que estavam em funções no tempo de Joaquim, filho de Josué, filho de Josedec, e no tempo do governador Neemias, e de Esdras, sacerdote e escriba.
27. Por ocasião da inauguração das muralhas de Jerusalém, convocaram-se os levitas de todos os lugares onde habitavam, para que viessem a Jerusalém celebrar alegremente tal dedicação com hinos e cânticos, ao som de címbalos, cítaras e harpas.
28. Os filhos dos cantores reuniram-se dos campos vizinhos de Jerusalém e das cidades dos netofateus, de Bet-Galgal e do território de Geba e de Azmavet,
29. porque os cantores haviam construído aldeias nos arredores de Jerusalém.
30. Os sacerdotes e levitas purificaram-se, e depois purificaram o povo, as portas e a muralha.
31. Fiz então subir à muralha os chefes de Judá, e formei dois grandes coros para o cortejo. Um ia pela direita, por cima da muralha, na direção da porta da Esterqueira.
32. Em seguida caminhavam Osaías e a metade dos chefes de Judá,
33. Azarias, Esdras, Mosolão,
34. Judá, Benjamim, Semeías e Jeremias;
35. depois os filhos dos sacerdotes com trombetas: Zacarias, filho de Jonatã, filho de Semeías, filho de Matanias, filho de Miquéias, filho de Zecur, filho de Asaf,
36. e seus irmãos, Semeías, Azareel, Malalai, Galalai, Maai, Natanael, Judá e Hanani, com os instrumentos musicais de Davi, o homem de Deus. O escriba Esdras ia à frente deles.
37. Chegando à porta da fonte, subiram reto diante de si os degraus da cidade de Davi, pela subida da muralha que protege a casa de Davi, até atingir a porta da Água, ao oriente.
38. O segundo coro pôs-se a caminho por cima da muralha, do lado oposto; a este é que eu seguia com a outra metade da multidão.
39. Passando por cima da torre dos Fornos, caminhou-se até a muralha larga; depois por cima da porta de Efraim, da torre de Nananeel, da torre de Mea, até a porta das Ovelhas; e paramos à porta da Prisão.
40. Os dois coros se detiveram na casa de Deus, bem como eu e a metade dos magistrados que me acompanhavam,
41. e os sacerdotes Eliacim, Maasias, Miamin, Miquéias, Elisenai, Zacarias, Ananias, munidos de trombetas,
42. e Maasias, Semeías, Eleazar, Azi, Joanã, Melquias, Elã e Ezer. E os cantores se fizeram ouvir, sob a direção de Jezraías.
43. Ofereceram-se naquele dia grandes sacrifícios e houve grande regozijo porque Deus havia dado ao povo um grande motivo de alegria. As mulheres e as crianças tomaram parte também nas festividades, e de muito longe ouviam-se os gritos de alegria que ecoavam de Jerusalém.
44. Naquele tempo, estabeleceram-se homens para guardar as salas que serviam de depósito para as oferendas, as ofertas reservadas, as primícias e os dízimos, onde foram recolhidas, em suas diversas divisões, as partes assinaladas pela lei aos sacerdotes e aos levitas. O povo de Judá alegrou-se, vendo em seus postos os sacerdotes e os levitas,
45. os quais, do mesmo modo que os cantores e os porteiros, asseguravam o serviço de seu Deus e os ritos das purificações, segundo as ordens de Davi e de Salomão, seu filho.
46. Com efeito, no tempo de Davi e de Asaf, havia chefes de cantores que cantavam louvores e ações de graças a Deus.
47. E agora, no tempo de Zorobabel e de Neemias, Israel inteiro servia quotidianamente porções destinadas aos cantores e porteiros; e dava as ofertas sagradas aos levitas, os quais entregavam sua parte aos filhos de Aarão.

 
Capítulo 13

1. Naquele tempo, por ocasião de uma leitura pública do livro deMoisés, descobriu-se um texto no qual se dizia que o amonita e o moabita jamais deviam ingressar na assembléia de Deus,
2. porque não tinham vindo ao encontro dos filhos de Israel com pão e água, e haviam contratado Balaão para amaldiçoá-los – maldição que nosso Deus mudara em bênção.
3. Logo que se ouviu a leitura dessa lei, excluíram de Israel todos os elementos estrangeiros.
4. Antes disso, o sacerdote Eliasib, intendente dos depósitos da casa de nosso Deus, e parente de Tobias,
5. colocara à disposição deste último uma grande sala, onde se depositavam até então as oferendas, o incenso, os utensílios, o dízimo do trigo, do vinho e do azeite, a taxa dos levitas, dos cantores e porteiros e as ofertas devidas aos sacerdotes.
6. Quando fazia tudo isso, eu não estava mais em Jerusalém; porque no trigésimo segundo ano do reinado de Artaxerxes, rei de Babilônia, fui ter com o rei.
7. Decorrido algum tempo, voltei a Jerusalém com a aquiescência do rei, e tive conhecimento do mal que havia cometido Eliasib em favor de Tobias, colocando-lhe à disposição uma sala nos átrios da casa de Deus.
8. Fiquei grandemente indignado. Mandei tirar para fora do quarto todo o mobiliário de Tobias,
9. ordenei que purificassem a sala, e fiz recolocar os utensílios da casa de Deus, as oferendas e o incenso.
10. Soube também que as dádivas devidas aos levitas não lhes tinham sido entregues, e que os levitas e os cantores encarregados do serviço tinham se retirado cada um para as suas terras.
11. Censurei os magistrados e disse-lhes: Por que foi abandonada a casa de Deus? Depois reuni os levitas e cantores, e os recoloquei em seus postos.
12. Então todo o Judá trouxe para os armazéns o dízimo do trigo, do vinho e do óleo.
13. Confiei a intendência dos armazéns ao sacerdote Selemias, ao escriba Sadoc, e a Fadaías, um dos levitas, com o seu auxiliar Hanã, filho de Zacur, filho de Matanias, porque tinham reputação de integridade. Foram encarregados de fazer a distribuição aos seus irmãos.
14. Recordai-vos de mim, ó meu Deus, que fiz tudo isso, e não apagueis de vossa memória os atos de piedade que fiz pela casa de meu Deus e por seu culto.
15. Na mesma época, encontrei em Judá homens que pisavam uvas durante o sábado, carregavam molhos, e transportavam em jumentos vinho, uva, figos, e toda a espécie de fardos, levando-os para Jerusalém em dia de sábado. Admoestei-os então a respeito do dia em que vendiam os seus produtos.
16. Havia também alguns de Tiro, estabelecidos na cidade, que traziam peixes e toda espécie de mercadorias, que vendiam em dia de sábado aos judeus, em Jerusalém.
17. Dirigi-me aos importantes de Judá: Procedeis muito mal, profanando o dia do sábado.
18. Vossos pais faziam o mesmo; e foi por isso que Deus fez cair todas essas desgraças sobre vós e sobre esta cidade. E vós ireis acender sua cólera contra Israel, profanando o sábado?
19. Em conseqüência, logo que as portas de Jerusalém foram cobertas pela sombra, antes do sábado, mandei que se fechassem as portas e só as abrissem depois do sábado. Ademais, coloquei nas portas alguns dos meus homens, a fim de impedir que qualquer mercadoria entrasse no dia do sábado.
20. Então os negociantes e vendedores de toda espécie de produtos passaram uma ou duas vezes a noite fora de Jerusalém.
21. Interroguei-os: Por que passais a noite diante das muralhas? Se recomeçardes, mandar-vos-ei castigar. Cessaram então de vir durante o sábado.
22. E ordenei aos levitas que se purificassem e viessem guardar as portas para santificar o dia do sábado. Recordai-vos de mim, ó meu Deus, por causa disso, e tende piedade de mim segundo a vossa grande misericórdia.
23. Naqueles dias, encontrei judeus que haviam desposado mulheres de Azot, de Amon e de Moab.
24. A metade de seus filhos falava a língua de Azot e não sabia mais o hebraico; o mesmo sucedia com a língua dos outros povos.
25. Admoestei-os e os amaldiçoei; bati em muitos, arranquei os cabelos de alguns, e ordenei-lhes, em nome de Deus, que não mais dessem suas filhas aos filhos de estrangeiros e não tomassem filhas estrangeiras para os seus filhos nem para si mesmos.
26. Não foi esse, disse eu, o pecado de Salomão, rei de Israel? Não existia rei algum como ele entre a multidão das nações; era amado de seu Deus, e Deus o havia tornado rei de todo o Israel; entretanto, foram as mulheres estrangeiras que induziram tal homem a pecar.
27. E haveremos de ouvir que estais cometendo esse grande crime, e que sois assim infiéis ao nosso Deus, desposando mulheres estrangeiras?
28. Ora, um dos filhos de Jojada, filho do sumo sacerdote Eliasib, tornara-se genro de Sanabalat, o horonita; expulsei-o para longe de mim.
29. Recordai-vos, ó meu Deus, daqueles que profanaram assim o sacerdócio e os deveres sagrados dos sacerdotes e dos levitas!
30. Foi assim que purifiquei o povo de todo o elemento estrangeiro. Coloquei em vigor os regulamentos que sacerdotes e levitas deviam observar em seus respectivos mesteres,
31. e restabeleci a oferenda da madeira nas épocas determinadas, bem como as primícias. Levai-o em conta, ó meu Deus, para o meu bem!

 

Livro de Tobias

Livro de Tobias

 Capítulo 1

1. Tobit, da tribo e da cidade de Neftali (situada na Galiléia superior, acima de Naasson, atrás do caminho do ocidente, tendo à esquerda a cidade de Sefet),
2. foi levado para o cativeiro no tempo de Salmanasar, rei dos assírios. Embora cativo, ele não abandonou o caminho da verdade.
3. Tudo aquilo, de que podia dispor, distribuía cada dia a seus irmãos de raça, que partilhavam com ele sua sorte de cativo.
4. Embora fosse ele o mais jovem da tribo de Neftali, seu proceder nada tinha de pueril.
5. Por isso, enquanto todos eles iam adorar os bezerros de ouro que o rei de Israel, Jeroboão, tinha feito, só ele fugia da companhia de todos e
6. dirigia-se ao templo do Senhor em Jerusalém, onde adorava o Senhor Deus de Israel, oferecendo fielmente as primícias e os dízimos de todos os seus bens.
7. De três em três anos, dava aos prosélitos e aos estrangeiros todo o seu dízimo.
8. Esta e outras práticas semelhantes da lei de Deus, tinha observado desde a sua infância.
9. Quando se tornou adulto, desposou uma mulher de sua tribo, chamada Ana, da qual teve um filho, a quem deu o nome de Tobias.
10. Ensinou-lhe desde a sua mais tenra idade a temer a Deus e a se abster de todo o pecado.
11. Desse modo, quando chegou com sua mulher e seu filho, como cativo, no meio de sua tribo, à cidade de Nínive,
12. embora todos os outros comessem dos alimentos dos pagãos, guardou sua alma pura, e jamais contraiu mancha alguma com seus alimentos.
13. E porque ele conservava com todo o seu coração a lembrança de Deus, Deus tornou-o simpático ao rei Salmanasar,
14. que o autorizou a ir aonde quisesse, e a fazer o que quer que lhe agradasse.
15. Ele ia, pois, visitar todos os deportados e dava-lhes conselhos salutares.
16. Foi um dia a Ragés, cidade da Média, com dez talentos de prata que o rei lhe tinha dado.
17. Encontrando entre a multidão dos seus compatriotas um homem de sua tribo, chamado Gabael, o qual se achava em dificuldades, deu-lhe a sobredita quantia de prata, mediante um recibo.
18. Passou o tempo; Salmanasar morreu e Senaquerib, seu filho, sucedeu-lhe no trono. Ora, Senaquerib odiava os israelitas.
19. Tobit ia diariamente visitar toda a sua parentela, consolava-a e distribuía dos seus bens a cada um, segundo as suas posses.
20. Alimentava os famintos, vestia os nus, e, com uma solicitude toda particular, sepultava os defuntos e os que tinham sido mortos.
21. Quando o rei Senaquerib, fugindo da Judéia ao castigo com que Deus o ferira por suas blasfêmias, mandou assassinar, na sua ira, um grande número de israelitas, Tobit sepultou os seus cadáveres.
22. Denunciaram-no ao rei, que o mandou matar e confiscou todos os seus bens.
23. Tobit, porém, despojado de tudo, fugiu com seu filho e sua mulher e, como tinha muitos amigos, conseguiu permanecer oculto.
24. Ora, quarenta e cinco dias depois, o rei foi assassinado por seus filhos,
25. e Tobit voltou para a sua casa; e foram-lhe restituídos todos os seus bens.

 
Capítulo 2

1. Algum tempo depois, num dia de festa religiosa, foi preparado um grande banquete na casa de Tobit.
2. Ele disse então ao seu filho: Vai buscar alguns homens piedosos de nossa tribo, para comerem conosco.
3. Ele saiu, mas logo voltou, anunciando ao pai que um dos filhos de Israel jazia degolado na praça. Tobit levantou-se imediatamente da mesa, sem nada haver comido, e foi aonde estava o cadáver.
4. Tomou-o e levou-o clandestinamente para a sua casa, a fim de sepultá-lo com cuidado depois do sol posto.
5. Tendo escondido o cadáver, começou a comer com pranto e tremor,
6. lembrando-se do oráculo que o Senhor tinha pronunciado pela boca do profeta Amós: Vossas festas mudar-se-ão em luto e lamentações (Am 8,10).
7. Quando o sol se pôs, ele foi e o sepultou.
8. Seus vizinhos criticavam-no unanimemente. Já uma vez ordenaram que te matassem, precisamente por isso, e mal escapaste dessa sentença de morte, recomeças a enterrar os cadáveres!
9. Mas Tobit temia mais a Deus que ao rei, e continuava a levar para a sua casa os corpos daqueles que eram assassinados, onde os escondia e os inumava durante a noite.
10. Ora, aconteceu que um dia, cansado desse trabalho, voltou para a sua casa e deitou-se junto à parede onde adormeceu.
11. Enquanto dormia, caiu-lhe de um ninho de andorinhas esterco quente nos olhos, e ele tornou-se cego.
12. Deus permitiu que lhe acontecesse essa prova, para que a sua paciência, como a do santo homem Jó, servisse de exemplo à posteridade.
13. Como havia sempre temido a Deus, desde a sua infância, e guardado seus mandamentos, ele não se afligiu (nem murmurou) contra Deus por ter sido atingido pela cegueira.
14. Mas perseverou firme no temor de Deus, e continuou a dar-lhe graças em todos os dias de sua vida.
15. Assim como o bem-aventurado Jó foi insultado por outros chefes, assim seus parentes e amigos escarneciam de seu comportamento:
16. Onde está, diziam eles, essa esperança por cujo amor deste esmolas e sepultaste os mortos?
17. Porém Tobit repreendia-os, dizendo: Não faleis assim;
18. somos filhos dos santos (patriarcas), e esperamos aquela vida que Deus há de dar aos que não perdem jamais a sua confiança nele.
19. Ora, Ana, sua mulher, ia todos os dias tecer, e trazia o que ela ganhava com o trabalho de suas mãos.
20. Foi assim que, tendo trazido para casa um cabrito que recebera (como gratificação),
21. seu marido ouviu-o balir e disse: Vê que ele não tenha sido roubado; restitui-o ao seu proprietário, porque não nos é permitido comer, e nem mesmo tocar, o que foi roubado.
22. Ao que lhe respondeu sua mulher com indignação: Tua esperança é manifestamente vã; agora tuas esmolas mostram bem o que valem! Com estas e outras palavras semelhantes ela censurava-o duramente.

 
Capítulo 3

1. Tobit, então, suspirando em meio de suas lágrimas, pôs-se a orar:
2. Vós sois justo, Senhor! Vossos juízos são cheios de eqüidade, e vossa conduta é toda misericórdia, verdade e justiça.
3. Lembrai-vos, pois, de mim, Senhor! Não me castigueis por meus pecados e não guardeis a memória de minhas ofensas, nem das de meus antepassados.
4. Se fomos entregues à pilhagem, ao cativeiro e à morte, e se nos temos tornado objeto de mofa e de riso para os pagãos entre os quais nos dispersastes, é porque não obedecemos às vossas leis.
5. Agora os vossos castigos são grandes, porque não procedemos segundo os vossos preceitos e não temos sido leais para convosco.
6. Tratai-me, pois, ó Senhor, como vos aprouver; mas recebei a minha alma em paz, porque me é melhor morrer que viver.
7. Aconteceu que, precisamente naquele dia, Sara, filha de Raguel, em Ecbátana na Média, teve também de suportar os ultrajes de uma serva de seu pai.
8. Ela tinha sido dada sucessivamente a sete maridos. Mas logo que eles se aproximavam dela, um demônio chamado Asmodeu os matava.
9. Tendo Sara repreendido a jovem criada por alguma falta, esta respondeu-lhe: Não vejamos jamais filho nem filha nascidos de ti sobre a terra! Foste tu que assassinaste os teus maridos.
10. Queres porventura matar-me, como mataste todos os sete? Ouvindo isso, Sara subiu ao seu quarto e aí ficou três dias completos, sem comer nem beber.
11. E, orando com fervor, ela suplicava a Deus, chorando, que a livrasse dessa humilhação.
12. Ao terceiro dia, acabou sua oração, bendizendo o Senhor desta forma:
13. Deus de nossos pais, que vosso nome seja bendito. Vós, que depois de vos irardes, usais de misericórdia, e no meio da tribulação perdoais os pecados aos que vos invocam.
14. Volto-me para vós, ó Senhor; para vós levanto os meus olhos.
15. Rogo-vos, Senhor, que me livreis dos laços deste opróbrio, ou então que me tireis de sobre a terra!
16. Vós sabeis que eu nunca desejei homem algum, e que guardei minha alma pura de todo o mau desejo.
17. Nunca freqüentei lugares de prazer nem tive comércio com pessoas levianas.
18. E se consenti em casar-me, foi por vosso temor e não por paixão.
19. Foi, sem dúvida, porque eu não era digna deles; ou talvez não eram eles dignos de mim; ou então me destinastes a outro homem.
20. Não está nas mãos do homem penetrar os vossos desígnios.
21. Mas todo aquele que vos honra tem a certeza de que sua vida, se for provada, será coroada; que depois da tribulação haverá a libertação, e que, se houver castigo, haverá também acesso à vossa misericórdia.
22. Porque vós não vos comprazeis em nossa perda: após a tempestade, mandais a bonança; depois das lágrimas e dos gemidos, derramais a alegria.
23. Ó Deus de Israel, que o vosso nome seja eternamente bendito!
24. Estas duas orações foram ouvidas ao mesmo tempo, diante da glória do Deus Altíssimo;
25. e um santo anjo do Senhor, Rafael, foi enviado para curar Tobit e Sara, cujas preces tinham sido simultaneamente dirigidas ao Senhor.

 
Capítulo 4

1. Tobit, julgando que sua prece tinha sido atendida e que ia morrer, chamou junto de si o seu filho
2. e disse-lhe: Ouve, meu filho, as palavras que te vou dizer, e faze que elas sejam em teu coração um sólido fundamento.
3. Quando Deus tiver recebido a minha alma, darás sepultura ao meu corpo. Honrarás tua mãe todos os dias de tua vida,
4. porque te deves lembrar de quantos perigos ela passou por tua causa (quando te trazia em seu seio).
5. Quando ela, por sua vez, tiver cessado de viver, tu a enterrarás junto de mim.
6. Quanto a ti, conserva sempre em teu coração o pensamento de Deus; guarda-te de consentir jamais no pecado, e de negligenciar os preceitos do Senhor, nosso Deus.
7. Dá esmola dos teus bens, e não te desvies de nenhum pobre, pois, assim fazendo, Deus tampouco se desviará de ti.
8. Sê misericordioso segundo as tuas posses.
9. Se tiveres muito, dá abundantemente; se tiveres pouco, dá desse pouco de bom coração.
10. Assim acumularás uma boa recompensa para o dia da necessidade:
11. porque a esmola livra do pecado e da morte, e preserva a alma de cair nas trevas.
12. A esmola será para todos os que a praticam um motivo de grande confiança diante do Deus Altíssimo.
13. Guarda-te, meu filho, de toda a fornicação: fora de tua mulher, não te autorizes jamais um comércio criminoso.
14. Nunca permitas que o orgulho domine o teu espírito ou tuas palavras, porque ele é a origem de todo o mal.
15. A todo o que fizer para ti um trabalho, paga o seu salário na mesma hora: que a paga de teu operário não fique um instante em teu poder.
16. Guarda-te de jamais fazer a outrem o que não quererias que te fosse feito.
17. Come o teu pão em companhia dos pobres e dos indigentes; cobre com as tuas próprias vestes os que estiverem desprovidos delas.
18. Põe o teu pão e o teu vinho sobre a sepultura do justo; mas não o comas, nem o bebas em companhia dos pecadores.
19. Busca sempre conselho junto ao sábio.
20. Bendize a Deus em todo o tempo, e pede-lhe que dirija os teus passos, de modo que os teus planos estejam sempre de acordo com a sua vontade.
21. Faço-te saber também, meu filho, que quando eras ainda pequenino, emprestei a Gabael de Ragés, cidade da Média, uma soma de dez talentos de prata, cujo recibo tenho guardado comigo.
22. Procura, pois, um meio de ir até lá para receber o sobredito peso de prata, restituindo-lhe o recibo.
23. Procura viver sem cuidados, meu filho. Levamos, é certo, uma vida pobre, mas se temermos a Deus, se evitarmos todo o pecado e vivermos honestamente, grande será a nossa riqueza.

 
Capítulo 5

1. Então Tobias respondeu a seu pai: Tudo o que me ordenaste, eu o farei, meu pai.
2. Mas estou realmente sem saber como ir buscar esse dinheiro. Gabael não me conhece, e eu tampouco o conheço; que sinal lhe hei de dar? Não conheço nem mesmo o caminho por onde ir a essa terra.
3. Seu pai disse-lhe: Tenho comigo o seu recibo; bastará que lho mostres, para que ele te devolva imediatamente o dinheiro.
4. Vai procurar um homem de confiança que te possa acompanhar, mediante uma retribuição. É preciso que recebas esse dinheiro enquanto ainda estou vivo.
5. Apenas saíra, Tobias encontrou um jovem de belo aspecto, equipado como para uma viagem.
6. Sem saber que se tratava de um anjo de Deus, ele o saudou e disse-lhe: De onde és tu, ó bom jovem?
7. Ele respondeu: Sou israelita. Tobias perguntou-lhe: Conheces porventura o caminho para a Média?
8. Oh, muito!, respondeu ele. Tenho percorrido freqüentemente esse caminho. Hospedei-me em casa de Gabael, nosso compatriota que habita em Ragés, na Média, cidade que está situada na montanha de Ecbátana.
9. Tobias disse-lhe: Rogo-te que esperes por mim, enquanto vou anunciar isto a meu pai.
10. Tendo Tobias entrado e contado o sucedido ao seu pai, este ficou muito admirado e pediu que fizesse entrar o jovem.
11. Ele entrou e saudou a Tobit: A felicidade esteja contigo para sempre!
12. Ao que Tobit respondeu: Que felicidade posso eu ter ainda? Estou nas trevas, sem poder ver a luz do céu.
13. O jovem replicou-lhe: Tem ânimo, porque é fácil a Deus curar-te!
14. Tobit disse-lhe: É verdade que poderás conduzir meu filho à casa de Gabael, em Ragés, na Média? Quando voltares, eu te retribuirei por isso.
15. Então o anjo disse-lhe: Eu o levarei até lá e to reconduzirei.
16. Tobit então perguntou-lhe: Rogo-te que me digas de que família e de que tribo és tu?
17. O anjo respondeu: Que é que procuras: a raça do servo, ou o próprio servo para acompanhar teu filho?
18. Mas, para tranqüilizar-te: eu sou Azarias, filho do grande Ananias.
19. És de família distinta, respondeu Tobit. Rogo-te que não me queiras mal por ter querido conhecer tua origem.
20. O anjo então disse: Conduzirei o teu filho são e salvo, e to trarei de novo são e salvo.
21. Tobit respondeu: Boa viagem! Que Deus esteja em vosso caminho, e que o seu anjo vos acompanhe.
22. Fizeram em seguida suas bagagens, Tobias despediu-se de seu pai e de sua mãe e os dois viajantes partiram.
23. Depois que partiram, sua mãe pôs-se a chorar: Tiraste-nos, disse ela, o bordão de nossa velhice, e o apartaste de nós.
24. Prouvera a Deus que nunca tivesse havido esse dinheiro pelo qual o enviaste.
25. O pouco que temos nos bastava; a nossa riqueza era a vista de nosso filho.
26. Tobit respondeu-lhe: Não chores; nosso filho chegará são e salvo, e voltará também são e salvo para a nossa companhia; tu o verás com os teus olhos.
27. Estou certo de que um bom anjo de Deus o acompanhará e disporá solicitamente tudo o que lhe diz respeito, de modo que ele tenha a alegria de voltar para nós.
28. Ouvindo isso, sua mãe cessou de chorar e calou-se.

 
Capítulo 6

1. Tobias partiu, pois, seguido de seu cão, e deteve-se na primeira parada à beira do rio Tigre.
2. Descendo ao rio para lavar os pés, eis que um enorme peixe se lançou sobre ele para devorá-lo.
3. Aterrorizado, Tobias gritou, dizendo: Senhor, ele lança-se sobre mim.
4. O anjo disse-lhe: Pega-o pelas guelras e puxa-o para ti. Tobias assim o fez. Arrastou o peixe para a terra, o qual se pôs a saltar aos seus pés.
5. O anjo então disse-lhe: Abre-o, e guarda o coração, o fel e o fígado, que servirão para remédios muito eficazes. Ele assim o fez.
6. A seguir ele assou uma parte da carne do peixe, que levaram consigo pelo caminho. Salgaram o resto, para que lhes bastasse até chegarem a Ragés, na Média.
7. Entretanto, Tobias interrogou o anjo: Azarias, meu irmão, peço-te que me digas qual é a virtude curativa dessas partes do peixe que me mandaste guardar.
8. O anjo respondeu-lhe: Se puseres um pedaço do coração sobre brasas, a sua fumaça expulsará toda espécie de mau espírito, tanto do homem como da mulher, e impedirá que ele volte de novo a eles.
9. Quanto ao fel, pode-se fazer com ele um ungüento para os olhos que têm uma belida, porque ele tem a propriedade de curar.
10. Em seguida Tobias disse-lhe: Onde queres que pousemos?
11. Há aqui, respondeu o anjo, um homem de tua tribo e de tua família, chamado Raguel, que tem uma filha chamada Sara; além dela não tem mais filha.
12. Todos os seus bens te devem pertencer: mas é preciso que a recebas por mulher.
13. Pede-a, pois, ao seu pai, e ele ta dará por mulher.
14. Tobias replicou: Ouvi dizer que ela já teve sete maridos, e que todos morreram. Diz-se mesmo que foi um demônio que os matou,
15. por isso eu temo que o mesmo venha a me acontecer, a mim que sou filho único, e desse modo faça descer lamentavelmente a velhice de meus pais à habitação dos mortos.
16. O anjo respondeu-lhe: Ouve-me, e eu te mostrarei sobre quem o demônio tem poder:
17. são os que se casam, banindo Deus de seu coração e de seu pensamento, e se entregam à sua paixão como o cavalo e o burro, que não têm entendimento: sobre estes o demônio tem poder.
18. Tu, porém, quando te casares e entrares na câmara nupcial, viverás com ela em castidade durante três dias, e não vos ocupareis de outra coisa senão de orar juntos.
19. Na primeira noite, queimarás o fígado do peixe, e será posto em fuga o demônio.
20. Na segunda noite, serás admitido na sociedade dos santos patriarcas.
21. Na terceira noite, receberás a bênção que vos dará filhos cheios de saúde.
22. Passada esta terceira noite, aproximar-te-ás da jovem no temor ao Senhor, mais com o desejo de ter filhos que o ímpeto da paixão. Obterás assim para os teus filhos a bênção prometida à raça de Abraão.

 
Capítulo 7

1. Chegaram, pois à casa de Raguel, que os recebeu cordialmente.
2. Vendo Tobias, Raguel disse a Edna, sua mulher: Como este jovem é parecido com meu primo.
3. Dito isto, perguntou De onde viestes, ó jovens? Eles responderam: Somos da tribo de Neftali, dos deportados de Nínive.
4. Raguel prosseguiu: Conheceis porventura o meu primo Tobit? Certamente, responderam.
5. E como Raguel começasse a elogiar Tobit, o anjo disse-lhe: Esse Tobit de que falas é o pai deste jovem
6. Raguel lançou-se então ao pescoço de Tobias, beijou-o com lágrimas, e disse:
7. Abençoado sejas, meu filho, porque és filho de um homem de bem!
8. Edna, sua mulher, e Sara, sua filha, tinham também os olhos cheios de lágrimas.
9. Depois que conversaram, Raguel mandou matar um carneiro para preparar um jantar. E quando lhes rogava que tomassem lugar à mesa,
10. Tobias disse-lhe: Não comerei nem beberei aqui hoje, antes que me tenhas prometido conceder o que te vou pedir: dá-me Sara, tua filha, (por mulher).
11. Estas palavras encheram Raguel de espanto, pensando no que tinha acontecido aos sete maridos que se tinham aproximado dela, e começou a temer que tal desgraça se repetisse mais uma vez. E como ele hesitasse em dar uma resposta a Tobias,
12. o anjo disse-lhe: Não temas dar-lhe tua filha, porque é deste piedoso servo de Deus que ela deve ser mulher. Por isso nenhum outro pôde tê-la.
13. Então Raguel disse: Não tenho mais dúvidas de que Deus admitiu em sua presença minhas lágrimas.
14. Estou persuadido de que ele vos fez vir à minha casa unicamente para que minha filha desposasse um seu parente, segundo a lei de Moisés. Não temas: eu ta hei de dar.
15. E, tomando a mão direita de sua filha, pô-la na de Tobias, dizendo: Que o Deus de Abraão, o Deus de lsaac, o Deus de Jacó esteja convosco; que ele vos una e derrame sobre vós a sua bênção.
16. Tomou em seguida o papel, e redigiram o ato do matrimônio.
17. E celebraram alegremente uma festa, agradecendo a Deus.
18. Raguel chamou então sua mulher e mandou-lhe que preparasse outro aposento.
19. Ela introduziu ali Sara, sua filha, e esta se pôs a chorar.
20. Mas ela disse-lhe: O Senhor do céu te encha de alegria pelos males que tens sofrido.

 
Capítulo 8

1. Depois do jantar, introduziram o jovem no aposento de Sara.
2. E Tobias, fiel às indicações do anjo, tirou do seu alforje uma parte do fígado e o pôs sobre brasas acesas.
3. Nesse momento, o anjo Rafael tomou o demônio e prendeu-o no deserto do Alto Egito.
4. Então Tobias encorajou a jovem com estas palavras: Levanta-te, Sara, e roguemos a Deus, hoje, amanhã e depois de amanhã. Estaremos unidos a Deus durante essas três noites. Depois da terceira noite consumaremos nossa união;
5. porque somos filhos dos santos (patriarcas), e não nos devemos casar como os pagãos que não conhecem a Deus.
6. Levantaram-se, pois, ambos, e oraram juntos fervorosamente para que lhes fosse conservada a vida.
7. Tobias disse: Senhor Deus de nossos pais, bendigam-vos os céus, a terra, o mar, as fontes e os rios, com todas as criaturas que neles existem.
8. Vós fizestes Adão do limo da terra, e destes-lhe Eva por companheira.
9. Ora, vós sabeis, ó Senhor, que não é para satisfazer a minha paixão que recebo a minha prima como esposa, mas unicamente com o desejo de suscitar uma posteridade, pela qual o vosso nome seja eternamente bendito.
10. E Sara acrescentou: Tende piedade de nós, Senhor; tende piedade de nós, e fazei que cheguemos juntos a uma ditosa velhice!
11. Ora, ao cantar do galo, Raguel chamou os seus criados e foram juntos cavar uma sepultura.
12. Quem sabe, dizia ele, se não aconteceu a esse o mesmo que aos outros sete homens que se aproximaram dela?
13. Cavada a fossa, voltou para junto de sua mulher e disse:
14. Manda uma de tuas escravas ver se ele morreu, a fim de que eu possa enterrá-lo antes de clarear o dia.
15. Ela o fez. E a serva, tendo entrado no aposento, encontrou-os bem vivos, dormindo juntos.
16. Ela voltou e deu essa boa nova; e Raguel com sua mulher louvaram o Senhor, dizendo:
17. Nós vos bendizemos, Senhor Deus de Israel, porque não se realizou o que temíamos.
18. Usastes conosco de vossa misericórdia, expulsando para longe de nós o inimigo que nos perseguia,
19. e tivestes piedade de dois filhos únicos. Fazei, ó Senhor, que eles vos bendigam sempre mais, e vos ofereçam um sacrifício de louvor pela sua conservação, a fim de que todas as nações pagãs conheçam que vós sois o único Deus de toda a terra.
20. Raguel ordenou imediatamente aos seus criados que enchessem de novo, antes que clareasse o dia, a cova que haviam feito.
21. Disse à sua mulher que aprontasse um banquete e preparasse todos os víveres necessários aos viajantes.
22. Mandou também matar duas vacas gordas e quatro carneiros, destinados a um festim para todos os seus vizinhos e amigos.
23. E instou com Tobias que ficasse com ele duas semanas.
24. Presenteou Tobias com a metade de seus bens, e redigiu um documento estipulando que a outra metade se tornaria também, depois de sua morte, propriedade de Tobias.

 
Capítulo 9

1. Tobias chamou então a si o anjo, que ele julgava ser um homem, e disse-lhe: Azarias, meu irmão, peço-te que me ouças.
2. Ainda que eu me fizesse teu escravo, não seria isso uma retribuição digna por teus cuidados.
3. Não obstante, vou pedir-te ainda que tomes contigo cavalos e servos e vás à casa de Gabael, em Ragés, na Média. Devolve-lhe o seu recibo e recebe o dinheiro. Convida-o também para o meu casamento.
4. Bem sabes que meu pai conta os dias; se eu tardar um dia mais, ele sofrerá com isso.
5. Vês, por outro lado, como Raguel insistiu em que eu me demorasse aqui, e não lho posso recusar.
6. Rafael tomou então quatro servos de Raguel, e dois camelos, e partiu para Ragés, na Média. Encontrando Gabael, entregou-lhe o recibo e recebeu dele todo o dinheiro.
7. Contou-lhe toda a aventura de Tobias e fê-lo vir consigo às núpcias.
8. Tobias estava à mesa, quando Gabael entrou na casa de Raguel. Lançaram-se nos braços um do outro, e Gabael louvava a Deus com lágrimas (de alegria).
9. Que o Deus de Israel te abençoe, disse ele, porque és filho de um homem de bem, justo, piedoso e esmoler.
10. Abençoe também a tua mulher e os vossos pais;
11. possais ver os vossos filhos e os filhos de vossos filhos, até a terceira e a quarta gerações!
12. Bendita seja a vossa raça pelo Deus de Israel que reina em toda a eternidade! Amém, responderam eles. E todos se puseram à mesa. E foi no temor do Senhor que celebraram o festim das núpcias.

 
Capítulo 10

1. O casamento de Tobias tinha retardado a sua volta. Seu pai, muito inquieto, dizia: Por que será que meu filho tarda tanto? Por que se demora lá?
2. Teria Gabael porventura falecido, de sorte que não haveria ninguém para restituir o dinheiro?
3. Ele entristeceu-se extremamente com isso, assim como Ana, sua mulher, e ambos se puseram a chorar, porque seu filho não voltava no tempo previsto.
4. Sua mãe, principalmente, derramava lágrimas inesgotáveis, e dizia: Ai, ai, meu filho! Por que te mandamos lá? Tu que eras a luz de nossos olhos, o bordão de nossa velhice, a consolação de nossa vida e a esperança de nossa raça!
5. Nós, que em ti só tínhamos tudo, não te devíamos ter deixado ir para longe de nós.
6. Tobit dizia-lhe: Cala-te, não te aflijas! Nosso filho está passando bem; aquele homem com quem nós o mandamos é um homem de confiança.
7. Mas ela continuava inconsolável: todos os dias ela saía para fora, olhava para todos os lados, e corria por todos os caminhos, por onde poderia voltar o filho, a fim de vê-lo ao longe, se fosse possível.
8. Entretanto, Raguel dizia ao seu genro: Fica aqui, mandarei notícias a Tobit, teu pai, a respeito de tua saúde.
9. Mas Tobias disse-lhe: Sei que meu pai e minha mãe contam os dias e que se acham em grande tormento.
10. Raguel insistiu ainda, apresentando muitas razões, mas Tobias não quis ouvi-lo. Então entregou-lhe Sara com a metade de seus bens em servos, servas, rebanhos, camelos, vacas, e em grande soma de dinheiro. Despediu-o cheio de saúde e alegria,
11. dizendo-lhe: Que o santo anjo do Senhor vos acompanhe pelo caminho, e vos conduza sãos e salvos. Faço votos de que encontreis tudo em ordem em casa de vossos pais, e que eu possa ver os vossos filhos antes de morrer!
12. Os pais beijaram sua filha e deixaram-na partir,
13. recomendando-lhe que honrasse seus sogros, amasse o seu marido, educasse bem a sua família e governasse a sua casa, conservando-se ela mesma irrepreensível.

 
Capítulo 11

1. De regresso, chegaram no décimo primeiro dia de viagem a Caserim, que está a meio caminho na direção de Nínive.
2. O anjo disse então: Tobias, meu irmão, tu sabes em que estado deixaste o teu pai.
3. Se for do teu agrado, poderíamos tomar a dianteira, deixando a tua mulher, os servos e os rebanhos seguirem devagar pelo caminho.
4. Tendo Tobias concordado com esse parecer, Rafael disse-lhe: Leva contigo o fel do peixe, porque vais precisar dele. Tomou, pois, Tobias o fel e partiram.
5. Entretanto, Ana ia todos os dias assentar-se perto do caminho, no cimo de uma colina, de onde podia ver ao longe.
6. Ela espreitava ali a volta de seu filho, quando o viu de longe que voltava e o reconheceu. Correu ao seu marido e disse-lhe: Eis que aí vem o teu filho!
7. Ora, Rafael tinha dito a Tobias: Logo que entrares em tua casa, adorarás o Senhor teu Deus e dar-lhe-ás graças. Irás em seguida beijar teu pai,
8. e pôr-lhe-ás imediatamente nos olhos o fel do peixe que tens contigo. Sabe que seus olhos se abrirão instantaneamente e que teu pai verá a luz do céu. E, vendo-te, ficará cheio de alegria.
9. O cão, que os tinha acompanhado durante a viagem, correu então adiante como um mensageiro, e mostrava o seu contentamento fazendo festas e abanando a cauda.
10. O pai cego levantou-se e pôs-se a correr, tropeçando. Dando então a mão a um criado, foi ao encontro de seu filho.
11. Abraçou-o e beijou-o, fazendo o mesmo sua mulher, e ambos começaram a chorar de alegria.
12. Só se assentaram depois de terem adorado e agradecido a Deus.
13. Tobias tomou então o fel do peixe e pô-lo nos olhos de seu pai.
14. Depois de ter esperado cerca de meia hora, começou a sair-lhe dos olhos uma belida branca como a membrana de um ovo.
15. Tobias tomou-a e a arrancou dos olhos de seu pai, o qual recobrou instantaneamente a vista.
16. E louvaram a Deus, ele, sua mulher e todos os que o conheciam.
17. Bendigo-vos, Senhor Deus de Israel, dizia ele, porque depois de me terdes provado, me salvastes: eis que vejo o meu filho Tobias!
18. Sete dias depois, chegou também Sara, mulher de seu filho, com todos os seus servos, em boa saúde, com os rebanhos, os camelos, o grande dote da esposa, e mais o dinheiro recebido de Gabael.
19. Tobias contou a seus pais todos os benefícios que Deus lhe tinha feito por intermédio de seu guia.
20. Chegaram também Aquior e Nabat, primos de Tobit, felizes de poderem congratular-se com ele pelos benefícios que Deus lhe tinha prodigalizado.
21. Durante sete dias houve festa e grande regozijo.

 
Capítulo 12

1. Então Tobit chamou seu filho e disse-lhe: Que havemos nós de dar a esse santo homem que te acompanhou?
2. Meu pai, respondeu ele, que gratificação lhe havemos de dar? Que presente poderá igualar os seus benefícios?
3. Ele levou-me e trouxe-me em boa saúde; foi receber o dinheiro de Gabael; fez-me ter uma mulher e afugentou dela o demônio; encheu de alegria os seus pais; livrou-me de ser devorado pelo peixe, e fez-te rever a luz do céu; enfim, ele cumulou-nos de toda a sorte de benefícios. Que presente poderia igualar a tudo isso?
4. Rogo-te, meu pai, que lhe peças se digne aceitar a metade de tudo o que trouxemos.
5. Chamaram-no, pois, o pai e o filho, e, tomando-o à parte, rogaram-lhe que aceitasse a metade de tudo o que tinham trazido.
6. Então ele falou-lhes discretamente: Bendizei o Deus do céu, e dai-lhe glória diante de todo o ser vivente, porque ele usou de misericórdia para convosco.
7. Se é bom conservar escondido o segredo do rei, é coisa louvável revelar e publicar as obras de Deus.
8. Boa coisa é a oração acompanhada de jejum, e a esmola é preferível aos tesouros de ouro escondidos,
9. porque a esmola livra da morte: ela apaga os pecados e faz encontrar a misericórdia e a vida eterna;
10. aqueles, porém, que praticam a injustiça e o pecado são os seus próprios inimigos.
11. Vou descobrir-vos a verdade, sem nada vos ocultar.
12. Quando tu oravas com lágrimas e enterravas os mortos, quando deixavas a tua refeição e ias ocultar os mortos em tua casa durante o dia, para sepultá-los quando viesse a noite, eu apresentava as tuas orações ao Senhor.
13. Mas porque eras agradável ao Senhor, foi preciso que a tentação te provasse.
14. Agora o Senhor enviou-me para curar-te e livrar do demônio Sara, mulher de teu filho.
15. Eu sou o anjo Rafael, um dos sete que assistimos na presença do Senhor.
16. Ao ouvir estas palavras, eles ficaram fora de si, e, tremendo, prostraram-se com o rosto por terra.
17. Mas o anjo disse-lhes: A paz seja convosco: não temais.
18. Quando eu estava convosco, eu o estava por vontade de Deus: rendei-lhe graças, pois, com cânticos de louvor.
19. Parecia-vos que eu comia e bebia convosco, mas o meu alimento é um manjar invisível, e minha bebida não pode ser vista pelos homens.
20. É chegado o tempo de voltar para aquele que me enviou: vós, porém, bendizei a Deus e publicai todas as suas maravilhas.
21. Acabando de dizer estas palavras, desapareceu diante deles, e eles não viram mais nada.
22. Durante três horas permaneceram prostrados por terra, bendizendo a Deus. Depois levantaram-se e publicaram todas essas maravilhas.

 
Capítulo 13

1. Tobit tomou, então, a palavra e, num transporte de alegria, escreveu esta prece: Sois grande, Senhor, na eternidade, vosso reino estende-se a todos os séculos.
2. Porque vós provais e, em seguida, salvais. Conduzis a profundos abismos e deles tirais; e não há quem possa escapar à vossa mão.
3. Celebrai o Senhor, filhos de Israel. Louvai-o em presença das nações.
4. Porque, se ele vos dispersou entre povos que o não conhecem, foi para que publiqueis as suas maravilhas e lhes façais reconhecer que não há outro Deus onipotente senão ele.
5. Castigou-nos por causa das nossas iniqüidades, mas nos salvará por sua misericórdia.
6. Considerai, agora, o que fez por nós, e bendizei-o com temor e tremor; por vosso comportamento, glorificai o rei dos séculos.
7. Quanto a mim, louvá-lo-ei na terra do meu cativeiro, porque manifestou sua majestade sobre um povo criminoso.
8. Convertei-vos, pecadores, e praticai a justiça diante de Deus, na confiança que vos fará misericórdia.
9. Nele me alegrarei de todo o coração.
10. Dai graças ao Senhor, vós todos, seus eleitos; celebrai dias de alegria e rendei-lhe louvores.
11. Jerusalém, cidade santa! Deus te castigou por teu mau procedimento.
12. Confessa a Deus como convém e louva o rei dos séculos, para que ele reedifique o teu santuário. Reúna em ti os que foram deportados, e possas alegrar-te sem fim!
13. Hás de refulgir qual esplêndida luz, e todos os povos da terra te venerarão.
14. Nações de longe virão a ti, com presentes, adorar o Senhor em teus muros, e considerarão o teu solo como um santuário.
15. Porque em teu recinto invocarão o grande nome.
16. Maldito seja quem te desprezar; desonrado, quem te caluniar; bendito seja quem te reconstruir!
17. Alegrar-te-ás nos teus filhos, porque serão todos abençoados, e se reunirão junto do Senhor.
18. Ditosos todos os que te amam: na tua paz encontrarão sua alegria.
19. Ó minha alma, bendize ao Senhor, porque o Senhor, nosso Deus, livrou Jerusalém de todas as suas tribulações.
20. Feliz serei, se ficar um homem de minha raça para ver o esplendor de Jerusalém:
21. suas portas serão reconstruídas com safiras e esmeraldas, seus muros serão inteiramente de pedras preciosas,
22. Suas praças serão pavimentadas de mosaicos e rubis, e em suas ruas cantarão: Aleluia!
23. Bendito seja Deus que te restituiu tal esplendor! Que ele reine sobre ti eternamente!

 
Capítulo 14

1. Tal foi o cântico de Tobit. Depois que recobrou a vista, viveu (ainda) Tobit quarenta e dois anos, e viu os filhos de seus netos.
2. (Morreu) com a idade de cento e dois anos, e foi sepultado com muita honra em Nínive.
3. Aos cinqüenta e seis anos tornou-se cego, e recobrou a vista aos sessenta.
4. Todo o resto de sua vida se passou na alegria; e a paz de que gozou foi em proporção aos seus progressos no temor a Deus.
5. Quando veio a hora de sua morte, chamou à sua presença o seu filho Tobias, com os sete filhos deste e disse-lhes:
6. Está próxima a ruína de Nínive, porque a palavra de Deus não falha; os nossos irmãos, que foram dispersos para longe da pátria de Israel, voltarão para ela.
7. Todo o seu país deserto será repovoado, e a casa de Deus, que ali foi queimada, será reconstruída. Todos os homens que temem a Deus voltarão novamente para ela
8. e as nações pagãs abandonarão os seus ídolos e virão habitar em Jerusalém,
9. e todos os reis da terra se alegrarão de apresentar suas homenagens ao rei de Israel.
10. Ouvi, pois, o vosso pai, meus filhos. Servi fielmente o Senhor e procurai fazer o que lhe é agradável.
11. Recomendai aos vossos filhos que pratiquem a justiça, sejam caridosos e esmoleres, que se lembrem de Deus e o bendigam em todo o tempo, fielmente, e com todas as suas forças.
12. E agora, meus filhos, ouvi-me: não fiqueis aqui; mas, no dia em que tiverdes enterrado vossa mãe junto de mim no mesmo túmulo, ponde-vos logo a caminho para deixar estes lugares;
13. porque eu vejo que a iniqüidade desta cidade será a causa de sua queda.
14. Depois da morte de sua mãe, Tobias partiu de Nínive com sua mulher, seus filhos e seus netos, e voltou para a casa de seus sogros.
15. Encontrou-os em perfeita saúde, numa ditosa velhice. Teve para com eles todas as atenções, e fechou-lhes os olhos. Tomou posse de toda a herança da casa de Raguel, e viu os filhos de seus filhos até a quinta geração.
16. Morreu com alegria, tendo vivido noventa e nove anos no temor ao Senhor, e seus filhos sepultaram-no.
17. Toda a sua parentela e toda a sua descendência perseveraram numa vida íntegra e santo procedimento, de modo que foram amados tanto por Deus como pelos homens e por todos os seus compatriotas.

 

Livro de Judite

Livro de Judite

 Capítulo 1

1. Arfaxad, rei dos medos, submetera ao seu império um grande número de nações. Ele edificou uma fortaleza de pedras polidas, à qual deu o nome de Ecbátana.
2. Cercou-a de muralhas de setenta côvados de altura e trinta de largura, e pôs-lhe torres de cem côvados de altura.
3. Estas eram de forma quadrada, e seus lados estendiam-se por um espaço de vinte pés. As portas tinham uma altura proporcionada à das torres.
4. Ele gloriava-se do poder invencível do seu exército e da imponência de seus carros.
5. Ora, no décimo segundo ano de seu reinado, Nabucodonosor, que reinava sobre os assírios em Nínive, a grande cidade, fez guerra a Arfaxad, e venceu-o
6. na grande planície chamada Ragau. Aliaram-se-lhe todos os habitantes das regiões vizinhas do Tigre, do Eufrates e do Jadason, na planície de Erioc, rei dos eliceus.
7. Então engrandeceu-se o reino de Nabucodonosor e seu coração encheu-se de orgulho. Mandou emissários a todos os habitantes da Cilícia, de Damasco, do Líbano,
8. aos povos do Carmelo e de Cedar, aos galileus, na grande planície de Esdrelon,
9. aos habitantes de Samaria e aos povos de além do Jordão até Jerusalém, a toda a terra de Gessém e até aos confins da Etiópia.
10. A todos esses povos enviou Nabucodonosor emissários,
11. mas todos protestaram unanimemente e os despediram de mãos vazias, chegando até a expulsá-los com desprezo.
12. À vista disso, encheu-se de cólera o rei Nabucodonosor contra todos esses povos, e jurou pelo seu trono e pelo seu reino que havia de tomar vingança de todos eles.

 
Capítulo 2

1. No décimo terceiro ano do rei Nabucodonosor, no vigésimo segundo dia do primeiro mês, foi tomada na casa de Nabucodonosor, rei dos assírios, a decisão de que ele se vingaria.
2. Convocou todos os anciãos, todos os seus chefes e guerreiros, e teve com eles um conselho secreto, no qual
3. revelou-lhes o seu desígnio de submeter toda a terra ao seu império.
4. Tendo a sua proposta agradado à assembléia, o rei Nabucodonosor ordenou a Holofernes, marechal do seu exército,
5. dizendo: Vai contra todos os reinos do ocidente, principalmente contra aqueles que desprezaram a minha ordem.
6. Ferirás a todos sem consideração alguma e me sujeitarás todas as fortalezas.
7. Holofernes convocou os generais e oficiais do exército assírio e contou os efetivos da expedição, conforme a ordem do rei: havia cento e vinte mil soldados de infantaria e doze mil frecheiros a cavalo.
8. Mandou adiante do seu exército uma multidão de camelos com provisões abundantes para as tropas, e inumeráveis rebanhos de bois e de cordeiros.
9. Ordenou que em toda a Síria se preparasse trigo para quando ele passasse.
10. Levou também grande quantidade de ouro e de prata do tesouro real.
11. Pôs-se a caminho com todo o exército, com os carros, os cavaleiros e os frecheiros, que se espalharam pela terra como gafanhotos.
12. Atravessou as fronteiras da Assíria e chegou às grandes montanhas de Ange, que ficam ao norte da Cilícia. Penetrou em todos os seus fortes e apoderou-se de todos os seus bens.
13. Tomou de assalto a célebre cidade de Melitene, e saqueou todos os filhos de Társis e os filhos de Ismael, que habitavam defronte do deserto, ao sul da terra de Celon.
14. Passando o Eufrates pela segunda vez, penetrou na Mesopotâmia e arrasou todas as fortalezas do país, desde a torrente de Caboras até o mar.
15. Em seguida, apossou-se de todas as regiões (que marginam o Eufrates), desde a Cilícia até a terra de Jafet, que se estende para o sul.
16. Levou consigo todos os madianitas, saqueou todas as suas riquezas e passou ao fio da espada todos os que lhe opunham resistência.
17. Depois desceu às planícies de Damasco no tempo da colheita, queimou todas as colheitas e cortou todas as árvores e as vinhas.
18. Tornou-se, assim, objeto de terror para todos os habitantes da terra.

 
Capítulo 3

1. Então os reis e os príncipes de todas as cidades e de todas as províncias, da Síria, da Mesopotâmia, da Síria de Sobal, da Líbia e da Cilícia, enviaram seus delegados a Holofernes para lhe dizerem:
2. Cessa a tua indignação contra nós; é melhor que vivamos servindo o grande rei Nabucodonosor, e submetendo-nos a ti, do que morrermos, depois de havermos sofrido, além da nossa perda, os males da escravidão.
3. Eis aí todas as nossas cidades, todas as nossas possessões, todas as nossas montanhas e colinas, nossos campos, nosso gado, nossos rebanhos de cordeiros e de cabras, nossos cavalos e nossos camelos, todos os nossos bens e nossas famílias.
4. Tudo o que nos pertence depende de ora em diante de ti.
5. Somos teus escravos, nós e nossos filhos.
6. Vem a nós como um senhor pacífico e emprega os nossos serviços como te parecer melhor.
7. Holofernes desceu então das montanhas com suas poderosas forças de cavalaria e apoderou-se de todas as cidades e de todos os habitantes do país.
8. Levou de todas as cidades, para suas tropas auxiliares, homens valentes e escolhidos para a guerra.
9. Era tão grande o terror daquelas províncias, que os principais e os magistrados de todas as cidades saíam com o povo ao seu encontro,
10. e o acolhiam com coroas e archotes, dançando ao som dos tamborins e das flautas.
11. Mas não conseguiram apesar disso abrandar a ferocidade daquele coração.
12. Ele destruiu as suas cidades, e cortou os seus troncos sagrados.
13. Pois Nabucodonosor havia-lhe ordenado que exterminasse todos os deuses da terra, para que só ele fosse chamado deus por todas as nações que lhe conquistasse o poder de Holofernes.
14. Ele, atravessando a Síria de Sobal, toda a Apaméia e toda a Mesopotâmia, chegou aos idumeus, na terra de Gabaa.
15. Depois de haver conquistado suas cidades, fez ali uma parada de trinta dias, durante os quais juntou todas as forças de seu exército.

 
Capítulo 4

1. Ouvindo isso, os israelitas de Judá ficaram muito alarmados com a aproximação (de Holofernes).
2. O medo e o terror apoderaram-se deles, temendo que ele fizesse a Jerusalém e ao templo do Senhor o mesmo que ele fizera às outras cidades e aos seus templos.
3. Mandaram mensageiros por toda a Samaria e seus arredores até Jericó, e ocuparam todos os cumes dos montes.
4. Cercaram de muros todas as suas cidades e armazenaram trigo para poderem sustentar o combate.
5. De seu lado, o sumo sacerdote Eliacim escreveu a todos os que habitavam defronte de Esdrelon, que está fronteira à grande planície vizinha de Dotain, e a todos os das terras pelas quais havia passagens,
6. pedindo-lhes que ocupassem as vertentes montanhosas que davam acesso a Jerusalém, e que pusessem guarnições nos desfiladeiros por onde se pudesse passar.
7. Os israelitas executaram todas as ordens de Eliacim, sacerdote do Senhor.
8. Todo o povo orou fervorosamente ao Senhor; humilharam suas almas com jejuns e orações, eles e suas mulheres.
9. Os sacerdotes vestiram-se de cilício, as crianças prostraram-se diante do templo do Senhor, e cobriu-se o altar do Senhor com um cilício.
10. Unidos de coração e de alma, clamaram ao Senhor que não entregasse seus filhos à rapina do vencedor, suas mulheres à devassidão, suas cidades ao extermínio, seu templo à profanação, e não permitisse que eles próprios se tornassem o opróbrio das nações pagãs.
11. Eliacim, sumo sacerdote do Senhor, percorreu então todo o país de Israel e falou ao povo
12. nestes termos: Estai certos de que o Senhor vos ouvirá, se perseverardes jejuando e orando em sua presença.
13. Lembrai-vos de Moisés, servo do Senhor: Amalec, que confiava em sua força, em seu poder, em seu exército, em seus escudos, em seus carros e cavaleiros, foi derrotado por ele, não com a força das armas, mas com o poder da santa oração.
14. Isso mesmo acontecerá a todos os inimigos de Israel, se perseverardes na obra que começastes.
15. Com tais exortações, os israelitas puseram-se a orar diante do Senhor;
16. mesmo aqueles que ofereciam holocaustos ao Senhor, faziam-no revestidos de sacos e com a cabeça coberta de cinzas.
17. E todos rogavam a Deus, de todo o seu coração, que visitasse o seu povo de Israel.

 
Capítulo 5

1. Holofernes, marechal do exército assírio, foi avisado de que os israelitas se dispunham à resistência e que haviam bloqueado as passagens dos montes.
2. Explodiu então a sua cólera, e, cheio de furor, convocou os príncipes de Moab e os generais dos amonitas e disse-lhes:
3. Dizei-me quem é esse povo que ocupa as montanhas; quais as suas cidades, a sua força, o seu número; qual o poder e o efetivo de seu exército, quem é o seu chefe,
4. e por que motivo foi ele o único dentre todos os povos do oriente que nos desprezou, recusando-se a sair ao nosso encontro para receber-nos pacificamente.
5. Aquior, chefe dos amonitas, respondeu-lhe: Meu senhor, se te dignas ouvir-me, dir-te-ei a verdade acerca desse povo que habita nos montes, e nenhuma mentira sairá de minha boca.
6. Esse povo é da raça dos caldeus;
7. habitaram primeiramente na Mesopotâmia, porque recusavam seguir os deuses de seus pais que estavam na Caldéia.
8. Abandonaram os ritos de seus ancestrais que honravam múltiplas divindades,
9. e passaram a adorar o Deus único do céu, o qual lhes ordenou que saíssem daquele país e fossem estabelecer-se na terra de Canaã. Depois disso sobreveio a toda a terra uma grande fome, e desceram ao Egito onde, durante quatrocentos anos, multiplicaram-se de tal forma que se tornaram uma multidão inumerável.
10. Oprimidos pelo rei do Egito, e obrigados a trabalhar na fabricação de tijolos e de argamassa para a construção de suas cidades, clamaram ao seu Senhor, e este feriu toda a terra do Egito com vários flagelos.
11. A praga cessou, quando os egípcios os expulsaram de sua terra; mas quiseram retomá-los para sujeitá-los de novo à escravidão.
12. Eles fugiram. O Deus do céu abriu-lhes o mar de tal modo que as águas tornaram-se de cada lado sólidas como um muro, e eles atravessaram a pé enxuto pelo fundo do mar.
13. Entretanto, vindo em sua perseguição o inumerável exército dos egípcios, foi de tal maneira envolvido pelas águas que não escapou um sequer que pudesse contar à posteridade o acontecimento.
14. Ao sair do mar Vermelho, ocuparam os desertos do monte Sinai, onde nunca homem algum pôde habitar, nem um ser humano se fixar.
15. Ali, tornaram-se-lhes doces e potáveis as fontes amargas, e por espaço de quarenta anos receberam um alimento vindo do céu.
16. Por toda parte onde entraram sem arco e sem flecha, sem escudos e sem espada, Deus combateu por eles e venceu.
17. Ninguém jamais pôde insultar esse povo, a não ser quando ele se afastou do culto do Senhor, seu Deus.
18. Mas sempre que, ao lado de seu Deus, eles adoravam um outro, logo eram entregues à pilhagem, à espada e à vergonha.
19. E todas as vezes que se arrependiam de ter abandonado o culto do seu Deus, o Deus do céu dava-lhes força para resistir.
20. Finalmente, derrotaram os reis cananeus, jebuseus, fereseus, hiteus, heveus, amorreus e todos os valentes de Hesebon, e tomaram posse de suas terras e de suas cidades.
21. Enquanto não pecavam na presença de seu Deus, eram bem sucedidos, porque o seu Deus odeia a iniqüidade.
22. Há alguns anos, com efeito, tendo-se afastado da via em que Deus lhes ordenara caminhar, foram derrotados nos combates contra várias nações, e muitos dentre eles levados para o cativeiro.
23. Mas converteram-se de novo ao Senhor, seu Deus, e depois dessa dispersão acham-se reunidos desde há pouco: retomaram a posse de suas montanhas e de Jerusalém onde está seu santuário.
24. Agora, pois, meu senhor, informa-te se esse povo cometeu alguma iniqüidade na presença de seu Deus, e então subamos e o ataquemos, porque o seu Deus os entregará nas tuas mãos, e ficarão sujeitos ao teu poder.
25. Mas se esse povo não está manchado de nenhuma ofensa para com o seu Deus, não o poderemos enfrentar, porque o seu Deus o defenderá e seremos o opróbrio de toda a terra.
26. Calando-se Aquior, todos os grandes de Holofernes se indignaram e queriam matá-lo.
27. E diziam entre si: Quem é esse homem que pretende que os israelitas possam resistir ao rei Nabucodonosor e ao seu exército, sendo eles homens sem armas, sem força e ignorantes da estratégia?
28. Para mostrarmos a Aquior que ele nos engana, vamos às montanhas, e, quando tivermos capturado seus príncipes, passá-lo-emos com eles ao fio da espada.
29. É preciso que toda a nação saiba que Nabucodonosor é o deus da terra, e que não há outro fora dele.

 
Capítulo 6

1. A estas palavras, Holofernes encolerizou-se e disse a Aquior:
2. Já que nos predisseste que a nação de Israel será defendida por seu Deus, vou mostrar-te que não há outro deus fora de Nabucodonosor:
3. quando os tivermos ferido a todos como a um só homem, perecerás tu também com eles pela espada dos assírios, e todo o Israel desaparecerá contigo.
4. Assim aprenderás que Nabucodonosor é o Senhor de toda a terra. A espada de meus soldados entrar-te-á pelos flancos e cairás transpassado no meio dos feridos de Israel; não respirarás mais, senão para ser exterminado com eles.
5. Se crês na verdade de tua profecia, não desanimes; muda a palidez de tua face, se pensas que minhas palavras não se podem realizar.
6. E para que saibas que terás a mesma sorte que eles, serás desde já associado a esse povo, a fim de sofreres com eles os golpes de minha vingança, quando minha espada infligir-lhes o castigo que merecem.
7. Então Holofernes ordenou aos seus homens que prendessem Aquior e o levassem a Betúlia para entregá-lo nas mãos dos israelitas.
8. Os escravos de Holofernes tomaram-no e se foram através da planície. Ao se aproximarem dos montes, porém, saíram contra eles os atiradores de funda,
9. e eles desviaram-se para os lados da montanha, onde ataram Aquior a uma árvore pelas mãos e pés. Abandonaram-no ali amarrado, e voltaram para o seu senhor.
10. Ora, os israelitas que desciam de Betúlia encontraram-no e, soltando-o, levaram-no para a cidade. Puseram-no no meio do povo e perguntaram-lhe o motivo por que os assírios o deixaram amarrado.
11. (Naquele tempo, Betúlia era governada por Ozias, filho de Mica, da tribo de Simeão, e por Carmi, também chamado Gotoniel).
12. E, estando no meio dos anciãos e em presença de todo o povo, Aquior contou tudo o que tinha respondido quando Holofernes o interrogara, e como a gente de Holofernes quis matá-lo por ter ele falado assim;
13. e como Holofernes, encolerizado, ordenara que ele fosse por esse motivo entregue aos israelitas, a fim de que, após a vitória sobre eles, ele fizesse perecer também Aquior com diversos suplícios, porque ele dissera que o Deus do céu era o defensor de Israel.
14. Após essa narração de Aquior, todo o povo se prostrou com o rosto por terra em adoração diante do Senhor, e todos, unidos de coração, oraram ao Senhor com gemidos e prantos:
15. Senhor, disseram eles, Deus do céu e da terra, vede o seu orgulho e olhai para a nossa humilhação. Lançai os vossos olhos sobre os vossos fiéis; mostrai que não abandonais aqueles que confiam em vós, mas que humilhais os que presumem de si mesmos e se gloriam do seu poder.
16. Acabada a lamentação, e terminada a prece do povo, que durou um dia todo, encorajaram Aquior, dizendo:
17. O Deus de nossos pais, cujo poder proclamaste, conceder-te-á a recompensa de veres tu a ruína deles.
18. Quando o Senhor nosso Deus tiver livrado os seus servos, que ele esteja também contigo no meio de nós, a fim de que vivas, tu e os teus, conosco, como for do teu agrado.
19. Então Ozias, despedida a assembléia, recebeu Aquior em sua casa e ofereceu-lhe uma grande ceia.
20. E foram convidados a ela todos os anciãos, (pois já) tinha terminado o jejum, e comeram juntos alegremente.
21. Depois foi convocado todo o povo e oraram durante toda a noite no lugar onde estavam reunidos, pedindo socorro ao Deus de Israel.

 
Capítulo 7

1. No dia seguinte, Holofernes ordenou às suas tropas que tomassem de assalto Betúlia.
2. Havia cento e vinte mil soldados de infantaria e vinte e dois mil cavaleiros, além dos homens de armas que tinha aprisionado e dos jovens que havia levado das províncias e das cidades.
3. Prepararam-se todos para combater contra os israelitas e partiram pela encosta da montanha até o cume que olha para Dotain, desde o lugar chamado Belma até Quelmon, que está fronteiro a Esdrelon.
4. Quando os israelitas viram aquela multidão, prostraram-se por terra e cobriram de cinzas as suas cabeças, orando em comum ao Deus de Israel para que fizesse misericórdia ao seu povo.
5. Tomando então as suas armas de guerra, postaram-se nos lugares em que caminhos estreitos conduziam às passagens entre os montes, e ali montaram guarda noite e dia.
6. Entretanto, ao fazer uma ronda pelos arredores, Holofernes descobriu ao sul da cidade a fonte que a abastecia por meio de um aqueduto, e mandou cortá-lo.
7. Havia, entretanto, não longe dos muros, algumas fontes aonde iam furtivamente os sitiados buscar água, mais para aliviar um pouco a sede que para beber.
8. Então os amonitas e os moabitas foram dizer a Holofernes: Os israelitas não confiam nem nas lanças nem nas flechas, mas são defendidos pelas montanhas e sua verdadeira força são as colinas escarpadas.
9. Para que possas vencê-los sem combate, põe guardas às fontes, para não buscarem água ali, e os matareis sem golpes de espada. Ou, pelo menos, esgotados pela sede, entregarão a cidade, a qual, por estar situada nas montanhas, julgavam inexpugnável.
10. Esta sugestão agradou a Holofernes e aos seus oficiais, e ele mandou que cada fonte fosse vigiada por um contingente de cem homens.
11. Passados vinte dias de guarda, secaram-se as fontes e os poços de Betúlia, e os habitantes que recebiam quotidianamente a sua medida de água não a tiveram mais nem sequer para um dia.
12. Então, reuniram-se todos os homens, mulheres, jovens e crianças ao redor de Ozias, e disseram-lhe a uma voz:
13. Deus seja juiz entre nós e ti, pois, recusando negociar a paz com os assírios, atraíste a desgraça sobre nós; e por isso entregou-nos Deus nas suas mãos.
14. Também por isso não há quem nos socorra, estando nós aos seus olhos esgotados pela sede.
15. Agora, pois, reúne todos os que estão na cidade e entreguemo-nos espontaneamente aos homens de Holofernes.
16. É melhor que bendigamos a Deus no cativeiro, vivos, do que morrer vergonhosamente diante de todos os homens, vendo morrer sob os nossos olhos nossas mulheres e nossos filhos.
17. O céu e a terra nos são testemunhas, assim como o Deus de nossos pais que toma vingança de nossos pecados: entrega sem demora a cidade ao exército de Holofernes, para que o fio da espada abrevie o nosso fim, retardado pelo ardor da sede!
18. Tendo eles assim falado, levantou-se um grande pranto e gritos lancinantes na assembléia, e a sua voz elevou-se para Deus durante várias horas:
19. Pecamos, diziam eles, nós e nossos pais, cometemos a injustiça e a iniqüidade.
20. Vós, que sois bom, tende piedade de nós, ou então que vossos castigos tomem vingança de nossas iniqüidades; mas não entregueis os que vos invocam a um povo que vos não conhece,
21. para que se não diga entre os pagãos: Onde está o seu Deus?
22. Fatigados enfim de gritar e de chorar, eles se calaram.
23. Ozias levantou-se então banhado em lágrimas: Coragem, meus irmãos! – disse ele.- Esperemos (ainda) cinco dias a misericórdia do Senhor.
24. Talvez se aplaque a sua cólera e dê glória ao seu nome.
25. Entretanto, se depois de cinco dias não nos chegar socorro algum, faremos o que propusestes.

 
Capítulo 8

1. Ora, tudo isso chegou aos ouvidos de Judite, viúva, filha de Merari, filho de Idox, filho de José, filho de Ozias, filho de Elai, filho de Jamnor, filho de Gedeão, filho de Rafaim, filho de Aquitob, filho de Melquias, filho de Enã, filho de Natanias, filho de Salatiel, filho de Simeão, filho de Rubem.
2. Seu marido chamava-se Manassés, e morrera no tempo da colheita da cevada,
3. ferido de insolação quando fiscalizava os ceifadores que ligavam os feixes no campo; ele morrera em Betúlia, sua cidade, e fora enterrado com seus pais.
4. Judite ficara viúva havia três anos e meio.
5. Ela tinha feito no andar superior de sua casa um quarto reservado para si, no qual se conservava retirada com suas criadas.
6. Trazia um cilício sobre os rins e jejuava todos os dias, exceto nos sábados, nas luas novas e nas festas do povo israelita.
7. Era extremamente bela, e seu marido tinha-lhe deixado grandes riquezas, numerosos criados e domínios cheios de rebanhos de bois e de ovelhas.
8. Era muito estimada por todos porque tinha grande temor a Deus; não havia ninguém que falasse mal a seu respeito.
9. Sabendo, pois, que Ozias tinha prometido entregar a cidade dentro de cinco dias, mandou alguém chamar os anciãos Cabri e Carmi,
10. e estes vieram ter com ela. Ela disse-lhes: Como é possível que Ozias tenha consentido em entregar a cidade aos assírios dentro de cinco dias, se não nos chegar socorro?
11. Quem sois vós para provocar o Senhor?
12. Não é esse o meio de atrair a sua misericórdia, mas antes o de excitar a sua cólera e acender o seu furor
13. Vós impusestes ao Senhor um prazo para exercer a sua misericórdia e fixastes-lhe um dia ao vosso arbítrio!
14. Mas o Senhor é paciente; façamos, pois, penitência por isso e peçamos-lhe perdão com lágrimas nos olhos,
15. pois Deus não ameaça como os homens e não se deixa arrastar como eles à violência da cólera.
16. Humilhemo-nos diante dele e prestemos-lhe nosso culto com espírito de humildade.
17. Roguemos ao Senhor com lágrimas que nos conceda a sua misericórdia como lhe aprouver, para que, assim como se perturbou o nosso coração com o orgulho de nossos inimigos, do mesmo modo encontremos glória em nossa humilhação.
18. Nós não imitamos os pecados de nossos pais, abandonando Deus para adorar divindades estranhas.
19. Por esse crime foram entregues à espada, à pilhagem e ao desprezo de seus inimigos; nós, porém, não admitimos outro Deus fora dele.
20. Esperamos com humildade a sua consolação e ele vingará o nosso sangue dos males que nos causam nossos inimigos. Ele humilhará toda nação que se levantar contra nós; o Senhor nosso Deus cobri-las-á de vergonha.
21. Agora, meus Irmãos, já que sois os anciãos do povo de Deus, e que sua vida depende de vós, reanimai os seus corações com vossas palavras, para que eles se lembrem de que nossos pais foram tentados a fim de que se verificasse se eles serviam verdadeiramente ao seu Deus.
22. Que eles se lembrem de como nosso pai Abraão foi provado e de como passou por múltiplas tribulações para se tornar o amigo de Deus.
23. Assim Isaac, assim Jacó, assim Moisés, e todos os que agradaram a Deus permaneceram fiéis apesar das muitas tribulações.
24. Aqueles, porém, que não aceitaram essas provações no temor ao Senhor e se impacientaram, murmurando contra ele,
25. foram feridos pelo Exterminador e pereceram pelas serpentes.
26. Por isso não nos irritemos por causa do que sofremos.
27. Consideremos que esses tormentos são menos graves que nossos pecados, e que esses flagelos com que o Senhor nos castiga, como escravos, foram-nos mandados para a nossa emenda, e não para a nossa perdição.
28. Ozias e os anciãos responderam-lhe: Tudo o que disseste é verdade; nada há repreensível nas tuas palavras.
29. Roga, pois, a Deus por nós, porque és uma mulher santa e piedosa.
30. Judite respondeu-lhes: Se reconheceis que o que eu vos disse vem de Deus,
31. examinai se vem igualmente dele o que eu resolvi fazer, e orai para que Deus me ajude a realizar o meu desígnio.
32. Ficai esta noite à porta, e eu sairei com minha criada. Orai então para que, como vós o dissestes, o Senhor olhe para o seu povo de Israel dentro de cinco dias.
33. Mas não quero que procureis saber o que eu vou fazer; enquanto eu mesma não voltar para vos avisar, não se faça outra coisa que rogar por mim ao Senhor nosso Deus.
34. Ozias, o príncipe de Judá, respondeu-lhe: Vai em paz, e que o Senhor te ajude a tomar a vingança de nossos inimigos. E retiraram-se.

 
Capítulo 9

1. Tendo eles partido, Judite entrou em seu oratório, pôs o seu cilício, cobriu a cabeça com cinzas e, prostrando-se diante do Senhor, orou dizendo:
2. Senhor, Deus de meu pai Simeão, que lhe destes a espada para se vingar dos estrangeiros que, arrastados pela paixão, violaram uma virgem, descobrindo-lhe vergonhosamente a nudez;
3. que entregastes suas mulheres à rapina, suas filhas ao cativeiro, e todos os seus despojos em partilha aos vossos servos que ardiam de zelo ao vosso serviço, vinde, eu vos peço, ó Senhor meu Deus, e socorrei esta viúva.
4. Vós dispusestes os acontecimentos do passado, determinastes que uns sucedessem a outros, e nada aconteceu sem que vós o quisésseis.
5. Todos os vossos caminhos são previamente escolhidos, e os vossos juízos são marcados por vossa providência.
6. Olhai agora para o acampamento dos assírios, como vos dignastes outrora olhar para o dos egípcios, quando corriam armados atrás dos vossos servos, fiando-se nos seus carros, nos. seus cavaleiros e na multidão dos seus combatentes.
7. Bastou um vosso olhar sobre o seu acampamento para paralisá-los nas trevas.
8. O abismo reteve os seus pés, e as águas submergiram-nos.
9. Senhor, que o mesmo aconteça a estes que confiam no seu número, nos seus carros, nos seus dardos, nos seus escudos, nas suas flechas, e que são orgulhosos de suas lanças.
10. Eles ignoram que vós sóis o nosso Deus, vós que desde todo o tempo sabeis deter as guerras, e que vosso nome é o Senhor.
11. Levantai o vosso braço como nos tempos antigos e quebrai o seu. poder com a vossa força; caia diante de vossa cólera o poder daqueles que prometeram a si próprios violar o vosso santuário, profanar o tabernáculo de vosso nome e derrubar com um golpe de espada os cornos de vosso altar.
12. Fazei, Senhor, que o orgulho desse homem seja cortado com sua própria espada;
13. seja ele preso no laço de seus olhos fixos em mim; e feri-o com as doces palavras de meus lábios.
14. Dai firmeza ao meu coração para o desprezar, e coragem para o abater.
15. Isso será para o vosso nome uma glória digna de memória, tendo-o derrubado a mão de uma mulher.
16. Não é na multidão, Senhor, que está o vosso poder, nem vos comprazeis na força dos cavalos; os soberbos nunca vos agradaram, mas sempre vos foram aceitas as preces dos mansos e humildes.
17. Deus do céu, criador das águas e senhor de toda a criação, ouvi uma pobre suplicante que só confia em vossa misericórdia.
18. Lembrai-vos, Senhor, de vossa promessa; inspirai as palavras de minha boca e dai firmeza à resolução de meu coração, para que a vossa casa vos permaneça (para sempre) consagrada e que todos os povos reconheçam que só vós sois Deus e que não há outro fora de vós.

 
Capítulo 10

1. Quando acabou de orar ao Senhor, levantou-se do lugar onde estava prostrada diante do Senhor.
2. Chamou a sua criada, desceu à sua casa, tirou o cilício e despiu suas vestes de viúva.
3. Lavou-se, ungiu-se de mirra preciosa, arranjou o cabelo e pôs um diadema. Vestiu-se como para uma festa, calçou as sandálias, pôs os braceletes, o colar, os brincos, os anéis e todos os seus enfeites.
4. O Senhor aumentou-lhe a beleza, porque tudo aquilo procedia, não de uma paixão má, mas de sua virtude; por isso o Senhor deu-lhe uma tal formosura, que apareceu aos olhos de todos com um encanto incomparável.
5. Fez que sua criada levasse um odre de vinho, uma garrafa de óleo, grãos torrados, figos secos, pão e queijo, e partiu.
6. Chegando à porta da cidade, encontraram Ozias e os anciãos que as esperavam.
7. Vendo-a, ficaram cheios de admiração diante de sua beleza.
8. Sem lhe perguntar coisa alguma deixaram-na passar e disseram-lhe: Que o Deus de nossos pais te dê a sua graça e fortifique a resolução de teu coração, para que sejas a glória de Jerusalém e o teu nome figure no número dos santos e dos justos.
9. Os que ali estavam disseram a uma só voz: Assim seja! Assim seja!
10. E Judite passou a porta com sua criada, orando ao Senhor.
11. Ao raiar do dia, quando ela descia pela montanha, eis que a encontrou uma patrulha dos assírios e a deteve: De onde vens?, perguntaram-lhe, e aonde vais?
12. Ela respondeu: Sou uma israelita; fugi do meio deles porque vi que eles vos hão de ser entregues como presa, e porque vos desprezaram não querendo render-se espontaneamente a vós para encontrar graça diante de vossos olhos.
13. Por isso pensei comigo mesma: Irei apresentar-me ao príncipe Holofernes para revelar-lhe seus segredos e indicar-lhe um caminho por onde poderá tomar, sem perder um homem sequer do seu exército.
14. Ouvindo estas palavras, os homens olhavam-na de frente com os olhos deslumbrados de admiração pela sua grande beleza.
15. E disseram-lhe: Salvaste a tua vida, porque resolveste descer para o nosso senhor. Podes estar certa de seres bem tratada quando lhe fores apresentada, e tu lhe hás de ganhar o coração.
16. Levaram-na à tenda de Holofernes, declarando quem era.
17. Mal havia ela entrado, Holofernes ficou cativo de seus olhos.
18. Seus oficiais disseram-lhe: Quem poderia desprezar os hebreus que têm tão belas mulheres? Não são elas uma razão suficiente de lhes fazermos guerra?
19. Judite viu Holofernes sentado sob um baldaquino de púrpura, bordado de ouro, com esmeraldas e pedras preciosas:
20. Ela levantou os olhos para o seu rosto e inclinou-se profundamente diante dele até o solo. Os servos de Holofernes levantaram-na por ordem do seu senhor.

 
Capítulo 11

1. Então Holofernes disse-lhe: Tranqüiliza-te! Não temas em teu coração, pois nunca fiz mal algum a quem estivesse pronto a servir o rei Nabucodonosor.
2. Se teu povo não me tivesse desprezado, eu não teria levantado a minha lança contra ele.
3. Mas dize-me, agora, por que os deixaste e vieste para o meio de nós?
4. Judite respondeu-lhe: Ouve as palavras de tua serva, porque se seguires as palavras que te vou dizer, o Senhor chegará aos seus fins por ti.
5. Juro-o por Nabucodonosor, rei da terra, e por seu poder que está nas tuas mãos para castigo daqueles que se desviam, porque não somente contribuis para que os homens o sirvam, mas até os animais do campo lhe obedecem.
6. A sabedoria de teu espírito é, com efeito, célebre em todas as nações, todo o mundo sabe que és o único bom e poderoso em seu reino, e tua administração é louvada em todas as províncias.
7. O que disse Aquior não é um segredo e ninguém ignora o que ordenaste que lhe fosse feito.
8. Porque é manifesto que nosso Deus está de tal forma ofendido pelos pecados do povo, que lhe mandou dizer por meio de seus profetas, que o entregaria por causa de seus pecados.
9. E como os israelitas sabem que ofenderam o seu Deus, tu te tornaste um objeto de terror.
10. Além disso, a fome aperta-os e pela falta de água estão já como mortos.
11. Chegam até a matar os seus animais para beberem o seu sangue.
12. E mesmo as primícias consagradas ao Senhor, seu Deus, que o Senhor lhes proibiu tocar – trigo, vinho e azeite – eles pensam empregá-las, e querem assim comer aquilo que não lhes é permitido nem tocar com as mãos. Procedendo assim, é certo que serão entregues à ruína.
13. E eu, tua serva, que sei de tudo isto, fugi do meio deles, e o Senhor mandou-me a ti para dizer-te estas coisas.
14. Porque tua serva teme a Deus, mesmo junto de ti, e ela sairá do acampamento para orar a Deus.
15. Ele me dirá quando vai puni-los pelos seus pecados, e eu to virei dizer. Levar-te-ei então até o coração de Jerusalém, e encontrarás todo o povo de Israel como um rebanho de ovelhas sem pastor, e não haverá sequer um cão para ladrar contra ti.
16. Isto me foi dito pela providência divina;
17. e como Deus está irritado contra eles, fui enviada para to anunciar.
18. Holofernes e seus servos alegraram-se com este discurso, e admiraram a sabedoria de Judite, dizendo uns aos outros:
19. Não há sobre a terra mulher semelhante a esta no valor, na beleza e na sabedoria de suas palavras.
20. Holofernes disse-lhe: Deus fez muito bem em te mandar antes do povo, a fim de que possas entregá-lo nas nossas mãos.
21. Teu plano é bom: se teu Deus fizer isto por mim, ele será também o meu Deus, e tu serás grande na casa de Nabucodonosor, e o teu nome será célebre em toda a terra.

 
Capítulo 12

1. Mandou então que a introduzissem onde estavam os seus tesouros, ordenando-lhe que ficasse ali, e regulou o que se lhe devia dar de sua mesa.
2. Judite respondeu-lhe: Não posso agora comer do que me mandaste servir, para não cometer infração (contra a Lei); comerei do que trouxe comigo.
3. Holofernes disse-lhe: E quando acabarem as provisões que trouxeste contigo, que poderemos fazer por ti?
4. Por tua vida; meu senhor, replicou Judite, juro que tua serva não gastará todas estas coisas, sem que Deus realize pela minha mão o que resolvi fazer. Os escravos de Holofernes introduziram-na então na tenda que ele tinha designado.
5. Aí entrando, Judite pediu que lhe fosse permitido sair à noite e antes do amanhecer, para fazer suas devoções e orar ao Senhor.
6. Holofernes ordenou aos seus escravos que a deixassem sair e entrar como quisesse, durante três dias, para adorar o seu Deus.
7. Cada noite ela saía ao vale de Betúlia e fazia as suas abluções numa fonte.
8. Ao voltar, rogava ao Senhor Deus de Israel que lhe dirigisse os passos para a libertação do seu povo.
9. Entrava em seguida na sua tenda, e ali permanecia pura até que tomava a sua refeição pela tarde.
10. No quarto dia, Holofernes deu um banquete aos seus oficiais. E disse a Vagao, seu eunuco: Vê se persuades a essa judia que consinta espontaneamente em tornar-se minha concubina.
11. (Entre os assírios era coisa vergonhosa que uma mulher zombasse de um homem, retirando-se sem se ter dado a ele.)
12. Vagao foi ter com Judite e disse-lhe: Não tema a boa jovem entrar à presença de meu senhor; ser-lhe-ia uma honra comer em sua companhia e beber vinho alegremente.
13. Quem sou eu, respondeu ela, para opor-me ao meu senhor?
14. Farei tudo o que parecer bom e melhor aos seus olhos; o que mais lhe agradar, isso será também para mim o melhor durante toda a minha vida.
15. Ela levantou-se e, trajada com requinte, apresentou-se diante dele.
16. O coração de Holofernes agitou-se, porque ardia de paixão por ela.
17. Come e bebe alegremente, disse-lhe ele, pois encontraste graça aos meus olhos.
18. Ao que respondeu Judite: Eu beberei, senhor, porque nunca em minha vida me senti tão engrandecida como hoje.
19. Mas ela tomou e comeu do que a sua serva lhe tinha preparado, e bebeu com ele.
20. Holofernes alegrou-se grandemente por tê-la junto dele, e bebeu vinho como nunca tinha bebido.

 
Capítulo 13

1. Anoiteceu. Os oficiais apressaram-se em voltar aos seus aposentos. Vagao fechou as portas do quarto e foi-se.
2. Estavam todos embriagados pelo vinho.
3. Judite ficou só no seu quarto,
4. enquanto Holofernes repousava em seu leito, bêbedo a cair.
5. Judite havia dito à sua serva que ficasse fora, diante do quarto, vigiando.
6. De pé ao lado do leito, movendo em silêncio os lábios, ela orou com lágrimas a Deus, dizendo:
7. Senhor, Deus de Israel, dai-me força. Olhai agora o que vão fazer minhas mãos, a fim de que, segundo a vossa promessa, levanteis a vossa cidade de Jerusalém, e eu realize o que acreditei ser possível graças a vós.
8. Dizendo isto, aproximou-se da coluna que estava à cabeceira do leito e tomou a espada que ali estava pendurada;
9. desembainhou-a e, tomando os cabelos de Holofernes, disse: Senhor, dai-me força neste momento!
10. Feriu-o duas vezes na nuca e decepou-lhe a cabeça. Desprendeu em seguida o cortinado das colunas, e rolou por terra o corpo mutilado.
11. Feito isto, saiu e deu à sua serva a cabeça de Holofernes para que a metesse no saco.
12. Depois saíram ambas, como de costume, como se fossem para a oração. Atravessaram o acampamento, contornaram o vale e chegaram às portas da cidade.
13. De longe, Judite gritou aos guardas dos muros: Abri as portas, porque Deus está conosco; ele manifestou o seu poder em favor de Israel.
14. Ouvindo estas palavras, os homens chamaram os anciãos da cidade,
15. e toda a população correu para ela, desde o menor até o maior, porque não esperavam mais que ela voltasse.
16. Juntaram-se todos ao redor dela com tochas acesas. Judite, subindo a um lugar mais alto, pediu que se fizesse silêncio. Todos se calaram.
17. Louvai ao Senhor nosso Deus, disse-lhes ela, que não abandonou os que puseram nele a sua esperança,
18. e que cumpriu pelas mãos de sua serva a sua promessa de misericórdia à casa de Israel; esta noite ele matou por minha mão o inimigo de seu povo.
19. Retirando então do saco a cabeça de Holofernes, mostrou-lha dizendo: Eis a cabeça de Holofernes, marechal do exército assírio, e eis o cortinado do baldaquino onde se achava deitado, ébrio a cair, quando o Senhor, nosso Deus, o feriu pela mão de uma mulher.
20. Mas juro-vos, pelo mesmo Senhor, que o seu anjo me protegeu, tanto ao partir, como ao demorar-me lá, e como ao voltar, e o Senhor não permitiu que sua serva fosse manchada: ele reconduziu-me a vós livre de toda a mancha de pecado, cheia de alegria por sua vitória, pela minha salvação e pela vossa libertação.
21. Dai-lhe glória todos vós, porque é bom, porque a sua misericórdia é eterna!
22. Então todos, adorando o Senhor, disseram a Judite: O Senhor te abençoou com o seu poder, porque ele por ti aniquilou os nossos inimigos.
23. Ozias, príncipe do povo de Israel, acrescentou: Minha filha, tu és bendita do Senhor Deus altíssimo, mais que todas as mulheres da terra.
24. Bendito seja o Senhor, criador do céu e da terra, que te guiou para cortar a cabeça de nosso maior inimigo!
25. Ele deu neste dia tanta glória ao teu nome, que nunca o teu louvor cessará de ser celebrado pelos homens, que se lembrarão eternamente do poder do Senhor. Ante os sofrimentos e a angústia de teu povo, não poupaste a tua vida, mas salvaste-nos da ruína, em presença de nosso Deus.
26. E todo o povo respondeu: Assim seja! Assim seja!
27. Mandaram então vir Aquior, e Judite disse-lhe: O Deus de Israel, de quem testemunhaste que toma vingança dos seus inimigos, cortou esta noite por minha mão a cabeça de todos os infiéis.
28. Para provar-te que assim é, eis aqui a cabeça de Holofernes que, na insolência de seu orgulho, desprezava o Deus de Israel e te ameaçava de morte, dizendo: Quando o povo de Israel for vencido, mandarei passar-te ao fio da espada.
29. Vendo a cabeça de Holofernes, Aquior foi tomado de pavor e caiu com o rosto por terra, sem sentidos.
30. Quando recobrou os sentidos e voltou a si, jogou-se aos pés de Judite em sinal de reverência e disse: Sê bendita de teu Deus em todas as tendas de Jacó, porque o Deus de Israel será glorificado por causa de ti entre todas as nações que ouvirem o teu nome.

 
Capítulo 14

1. Então Judite disse a todo o povo: Ouvi-me, irmãos, pendurai esta cabeça no alto de nossas muralhas.
2. Quando o sol se levantar, tome cada um as suas armas e saí com ímpeto, não para descerdes simplesmente (até o vale), mas como para atacá-los.
3. Será necessário que as sentinelas corram a acordar o seu general para o combate.
4. Quando os seus chefes tiverem corrido à tenda de Holofernes e o encontrarem decapitado, jazendo no seu próprio sangue, serão tomados de pavor.
5. E quando os virdes fugir, persegui-os destemidamente, porque o Senhor os esmagará sob os vossos pés.
6. Então Aquior, vendo o poder que manifestara o Deus de Israel, abandonou o culto pagão, creu em Deus, circuncidou-se e foi incorporado ao povo de Israel, assim como toda a sua descendência até o dia de hoje.
7. Logo que raiou o dia, penduraram nas muralhas a cabeça de Holofernes, cada um tomou as suas armas e saíram fazendo um grande alarido e soltando gritos agudos.
8. Vendo isto, correram as sentinelas à tenda de Holofernes.
9. Os que estavam na tenda vieram (ver) e fizeram grande barulho à porta do quarto para o despertar, e aumentavam cada vez mais o tumulto para que Holofernes acordasse com o ruído, sem que houvesse necessidade (de entrar) para o acordar.
10. Porque ninguém ousava bater na porta nem entrar no quarto do marechal dos assírios.
11. Mas chegando os generais com os tribunos e com todos os oficiais do exército do rei dos assírios, ordenaram aos camareiros:
12. Entrai e despertai-o, porque os ratos saíram de seus buracos e se atrevem a nos provocar ao combate.
13. Então Vagao, entrando no quarto, parou diante da cortina e bateu com as mãos, porque supunha que ele dormia com Judite.
14. Aplicando, porém, os ouvidos e não percebendo movimento algum de um homem que dorme, aproximou-se da cortina e a levantou. À vista do cadáver de Holofernes decapitado, que jazia por terra num charco de sangue, soltou um forte grito, rompeu em lágrimas e rasgou as suas vestes.
15. Entrou então na tenda de Judite e não a encontrou. Correu para fora e disse ao povo:
16. Uma judia pôs a confusão na casa do rei Nabucodonosor: Holofernes jaz ali caído por terra, e a sua cabeça não está com o corpo!
17. Ouvindo estas palavras, todos os oficiais do exército assírio rasgaram suas vestes, um terror e um espanto extremos os invadiram, e os seus espíritos ficaram completamente desorientados, e um clamor indescritível levantou-se do acampamento.

 
Capítulo 15

1. Quando todo o exército soube que Holofernes tinha sido decapitado, perderam a razão e o conselho. Agitados pelo espanto e pelo terror, buscaram a salvação na fuga.
2. Sem trocar uma palavra sequer com o seu vizinho, com a cabeça baixa, deixando tudo, fugiram pelas planícies e pelos montes, procurando escapar aos hebreus, pois ouviam que vinham armados sobre eles.
3. Os israelitas, vendo-os fugir, perseguiram-nos. Desceram as encostas atrás deles tocando a trombeta e soltando grandes gritos.
4. E como os assírios iam fugindo desordenadamente, os israelitas que os perseguiam juntos, formados em batalhão, destroçavam todos os que podiam atingir.
5. Ozias mandou mensageiros a todas as cidades e províncias de Israel.
6. Assim, cada localidade e cada cidade armou o melhor de sua juventude e a enviou contra os assírios, e perseguiram-nos à ponta de espada até a sua fronteira mais afastada.
7. Entretanto, os que tinham ficado em Betúlia, entraram no acampamento dos assírios e levaram um enorme despojo deixado pelo inimigo em sua fuga.
8. Enfim, aqueles que voltaram vitoriosos para Betúlia, trouxeram consigo tudo o que pertencera aos assírios, um numeroso rebanho, grande quantidade de material e de animais de carga; e assim todos, desde o maior até o menor, se enriqueceram com seus despojos.
9. Veio então de Jerusalém a Betúlia o sumo sacerdote Joaquim com todos os anciãos para ver Judite.
10. Quando ela lhes veio ao encontro, abençoaram-na todos a uma só voz, dizendo: Tu és a glória de Jerusalém; Tu és a alegria de Israel, tu és a honra de nosso povo.
11. Deste prova de alma viril e coração valente. Amaste a castidade, e não quiseste, depois da morte do teu marido, conhecer outro homem; então o Senhor te fortaleceu e por isso serás eternamente bendita.
12. Ao que todo o povo respondeu: Assim seja! Assim seja!
13. Trinta dias mal bastaram ao povo de Israel para recolher os despojos dos assírios.
14. Tudo o que se soube ter pertencido a Holofernes, o povo deu-o a Judite: ouro, prata, vestes, pedras preciosas e outros objetos.
15. Todo o povo entregou-se a grandes festas, com as mulheres, com as jovens e com os jovens, ao som de harpas e cítaras.

 
Capítulo 16

1. E Judite expressou-se nestes termos: Entoai um cântico ao meu Deus com tamborins, cantai ao Senhor com címbalos. Entoai-lhe salmos e louvores, exaltai e invocai o seu nome.
2. Porque é um Deus que extermina guerras – Senhor é o seu nome. Acampou no meio do seu povo e me livrou da mão de todos os meus inimigos.
3. Assur veio das montanhas, do norte, veio com imensa tropa de guerreiros. Multidão de encher os vales, cavalaria de cobrir morros inteiros!
4. Jurara incendiar a minha terra. Passar meus jovens ao fio da espada e esmagar minhas criancinhas, levar embora meus filhos e minhas filhas, ao cativeiro…
5. O Senhor onipotente os rechaçou, por mãos de uma mulher!
6. Seu caudilho foi derrotado, não por jovens; foi ferido, não por filhos de Titãs; vencido, não por gigantes enormes: foi Judite, filha de Merari, quem o paralisou com a formosura de seu rosto.
7. Despiu o seu vestido de viúva, para consolação dos que sofriam em Israel. Ungiu o rosto com essência perfumada,
8. cingiu os cabelos com um diadema e vestiu um vestido de linho, para o seduzir.
9. Suas sandálias arrebataram-lhe os olhos, sua beleza extasiou-lhe a alma, e a espada lhe decepou a nuca.
10. Os persas tremeram de ver tamanha valentia, os medos se acovardaram perante sua audácia.
11. Então, os humildes gritaram, e eles tremeram espavoridos, os fracos (do meu povo) clamaram, e eles foram tomados de espanto; ao estrépito das vozes, deitaram a fugir.
12. Filhos de jovens mães os transpassaram e, como a meninos fugitivos, os feriram: ei-los derrotados na batalha de meu Senhor!
13. Cantarei a Deus um cântico novo: Sois grande, Senhor, sois glorioso, de admirável poder, invencível.
14. Todas as criaturas vos rendam homenagem, porque com uma só palavra fizestes todas as coisas; enviastes o vosso espírito, e foram criadas, e nada pôde resistir à vossa voz.
15. Podem abalar-se montanhas e águas, rochedos derreter-se como cera diante de vossa face: para aqueles que vos temem sereis sempre propício.
16. Bem pouca coisa é o sacrifício de suave fragrância, é como nada a gorda carne dos sacrifícios; quem teme ao Senhor, este é grande, para sempre!
17. Ai das nações que se insurgirem contra o meu povo! No dia do juízo as punirá o Senhor todo-poderoso: entregará as suas carnes aos vermes e ao fogo, e hão de chorar eterna dor.
18. Depois desta vitória, todo o povo foi a Jerusalém para adorar o Senhor. Purificaram-se e todos ofereceram os seus holocaustos, cumprindo os seus votos e suas promessas.
19. Judite ofereceu todas as armas de Holofernes recebidas do povo, e o cortinado que ela mesma tinha tirado do leito de Holofernes para que servisse de anátema de esquecimento.
20. O povo alegrou-se grandemente diante do santuário, e o regozijo desta vitória foi celebrado com Judite durante três meses.
21. Terminada a festa, cada um voltou para a sua casa, e Judite, que tinha grande crédito em Betúlia, adquiriu ainda maior renome em todo o país de Israel.
22. À coragem juntava a castidade, de tal sorte que nunca em toda a sua vida conheceu outro homem, desde que morreu Manassés, seu marido.
23. Nos dias de festa aparecia em público com todos os seus adornos.
24. Ela viveu cento e cinco anos na casa de seu marido, e deu liberdade à sua escrava. Morreu e foi sepultada em Betúlia junto de seu marido.
25. Todo o povo a chorou durante sete dias.
26. Em todos os dias de sua vida, e muitos anos depois de sua morte, não houve quem perturbasse a paz de Israel.
27. O aniversário de sua vitória foi posto pelos hebreus no número dos dias santos, e ainda hoje é celebrado pelos judeus.

 

Livro de Ester

Livro de Ester

 Capítulo 1

1. No tempo de Assuero, que reinava desde a Índia até a Etiópia sobre cento e vinte e sete províncias,
2. naqueles dias em que ele ocupava o trono real de Susa, sua capital,
3. no terceiro ano de seu reinado, deu um banquete a todos os cortesãos e a seus servos. Tinha reunido em sua presença os chefes do exército dos persas e dos medos, os príncipes e os governadores das províncias,
4. para fazer manifestação da riqueza e do esplendor de seu reino, da rara magnificência de sua grandeza, durante um tempo considerável, a saber, cento e oitenta dias.
5. Passado esse tempo, o rei ofereceu a toda a população de Susa, a capital, desde o maior até o menor, um banquete de sete dias no pátio do jardim, junto ao palácio.
6. Cortinas brancas de algodão e de púrpura violeta, presas por cordões brancos e purpúreos a anéis de prata e a colunas de mármore; leitos de ouro e prata sobre um pavimento de pórfiro, de mármore branco, de nácar e pedra preta;
7. bebida servida em copos de ouro de variadas formas; o vinho real em abundância oferecido pela liberalidade do rei.
8. Bebia-se sem ser importunado por ninguém, segundo uma ordem do rei, porque ele tinha recomendado a todos os chefes de sua casa que deixassem cada um proceder como lhe agradasse.
9. Por sua parte, a rainha Vasti ofereceu o banquete das mulheres no palácio do rei Assuero.
10. No sétimo dia, o rei cujo coração estava alegre pelo vinho, ordenou a Mauman, Bazata, Harbona, Bagata, Abgata, Zetar e Carcar – os sete eunucos a serviço, junto de Assuero -
11. que trouxessem à sua presença a rainha Vasti com o diadema real, para mostrar ao povo e aos grandes toda a sua beleza, porque era formosa de aspecto.
12. Mas a rainha Vasti recusou sujeitar-se à ordem do rei transmitida pelos eunucos, com o que se irritou grandemente o rei, acendendo-se o seu furor.
13. Consultou os sábios versados na ciência dos tempos. (Porque os assuntos reais eram tratados desse modo, com jurisconsultos,
14. e os mais considerados eram Carsena, Setar, Admata, Tarsis, Mares, Marsena e Memucan, sete príncipes da Pérsia e da Média, que contemplavam a face do rei e ocupavam o primeiro lugar no reino.)
15. Que lei, disse ele, se deve aplicar à rainha Vasti, por não ter obedecido a ordem que o rei Assuero lhe transmitiu pelos eunucos?
16. Não foi somente em relação ao rei, respondeu Memucan, que se comportou mal a rainha Vasti, mas também em relação a todos os príncipes e os povos das províncias do rei Assuero.
17. Porque o proceder da rainha será conhecido de todas as mulheres e as incitará a desprezar seus maridos. Dirão: O rei Assuero tinha mandado trazer à sua presença a rainha Vasti, mas ela não quis vir.
18. Daqui em diante, as senhoras da Pérsia e da Média, sabendo da conduta da rainha, responderão do mesmo modo a todos os grandes do rei e disso resultará, por toda parte, desprezo e irritação.
19. Se o rei achar bom, publique-se em seu nome um decreto real, que ficará consignado nas ordenações da Pérsia e da Média como irrevogável, em força do qual Vasti não apareça mais diante de Assuero e o rei confira o título de rainha a outra que seja mais digna.
20. Quando o edito for conhecido na imensidade de seu reino, todas as mulheres respeitarão seus maridos, desde o maior até o mais humilde.
21. Esse parecer agradou ao rei e aos príncipes, de modo que o rei seguiu o conselho de Memucan.
22. O rei expediu cartas para todas as províncias reais, a cada uma em sua escrita e a cada povo em sua língua própria: elas decretavam que todo homem devia ser o senhor em sua casa e fazer-se respeitar por sua mulher.

 
Capítulo 2

1. Quando, pouco depois, a cólera do rei se acalmou, pensou em Vasti, no que ela tinha feito e na decisão que tomara a respeito dela.
2. Então as pessoas do séquito do rei disseram:
3. Que se procurem para o rei donzelas virgens, belas de aspecto; que o rei envie pessoas a todas as províncias de seu reino, para reunir todas as jovens virgens de belo aspecto e trazê-las a Susa, sua capital, ao harém, sob a vigilância de Hegai, eunuco do rei e encarregado das mulheres, que providenciará às necessidades de seu toucador.
4. A jovem que souber agradar ao rei se tornará rainha em lugar de Vasti. Isso agradou ao rei que seguiu esse conselho.
5. Ora, havia em Susa, a capital, um judeu chamado Mardoqueu, filho de Jair, filho de Semei, filho de Cis, da tribo de Benjamim,
6. que tinha sido trazido de Jerusalém entre os cativos deportados com Jeconias, rei de Judá, por Nabucodonosor, rei de Babilônia.
7. Era o tutor de Edissa – isto é, Ester, – filha de seu tio, órfã de pai e mãe. A moça era de belo porte e agradável de aspecto; na morte de seus pais, Mardoqueu a tinha adotado por filha.
8. Logo que foi publicado o edito do rei, numerosas jovens foram reunidas em Susa, a capital, sob a guarda de Hegai. Ester também foi levada ao palácio e posta sob a guarda de Hegai, o encarregado das mulheres.
9. A jovem lhe agradou e ganhou suas graças; tanto que ele se apressou a lhe proporcionar ungüentos e perfumes para seu toucador e adorno. Deu-lhe sete companheiras, escolhidas na casa do rei, reservando a elas o melhor apartamento do gineceu.
10. Ester não tinha revelado sua raça nem sua família, porque Mardoqueu lhe tinha proibido falar disso.
11. Cada dia ele passeava diante do pátio do gineceu para ter notícias de Ester e saber o que lhe acontecia.
12. Toda jovem começava por sujeitar-se, durante doze meses, à lei das mulheres. Nesse período se purificavam seis meses com óleo de mirra, e seis meses com cosméticos e outros bálsamos em uso entre as mulheres.
13. Depois disso, quando chegava a vez de cada uma entrar junto ao rei, podia, ao passar do gineceu ao palácio, tomar consigo tudo o que queria.
14. Admitida à tarde, se retirava pela manhã a um outro palácio das mulheres, sob a guarda de Chaasgaz, o eunuco do rei posto à frente das concubinas. E não voltava mais junto ao rei, se ele não tivesse manifestado o desejo, chamando-a expressamente.
15. Chegou a vez de Ester entrar junto ao rei. A filha de Abigail (tio desse Mardoqueu que a tinha adotado por filha), não pediu nada além do que lhe foi dado por Hegai, eunuco do rei, encarregado das mulheres. Mas ela ganhava as boas graças de todos os que a viam.
16. Foi levada junto ao rei Assuero, a seu palácio. Era o décimo mês (mês de Tebet), do ano sétimo do seu reinado.
17. O rei amou-a mais que todas as outras mulheres; e ganhou ela as graças e o favor real mais que todas as demais jovens. Tanto que o rei colocou sobre sua cabeça o diadema real e a fez rainha em lugar de Vasti.
18. O rei deu um grande banquete a todos os seus príncipes e a seus servos em honra de Ester; concedeu um dia de descanso a seus Estados e fez benefícios verdadeiramente reais.
19. Na segunda vez que reuniram as jovens, Mardoqueu se achava sentado à porta do rei.
20. Obedecendo à proibição de seu tutor, Ester não tinha revelado nem sua família, nem sua raça. Obedecia ainda a Mardoqueu, como quando estava sob a sua tutela.
21. Naquele tempo, pois, Mardoqueu se sentava à porta do palácio. Ora, dois eunucos do rei, Bigtã e Tares, guardas da entrada, cedendo ao ressentimento, pensaram levantar sua mão contra o rei.
22. Mardoqueu o soube e deu parte à rainha Ester, e esta o referiu ao rei da parte de Mardoqueu.
23. Examinado o assunto e reconhecido como certo, foram os dois eunucos suspensos numa forca. E se consignou o fato nas Crônicas, em presença do rei.

 
Capítulo 3

1. Depois desses acontecimentos, o rei Assuero elevou em dignidade Amã, filho de Amedata, o agagita, e lhe deu um lugar acima de todos os grandes que o rodeavam.
2. Todos os servos do rei, que estavam à sua porta, dobravam o joelho e prostravam-se diante de Amã, por ordem expressa do rei; entretanto, Mardoqueu não queria nem dobrar o joelho, nem prostrar-se.
3. Por que, pois, lhe diziam os servos que estavam à porta real, desobedeces assim à ordem do rei?
4. E como lhe repetissem isso todos os dias, sem que ele fizesse conta, denunciaram-no a Amã, para ver se esse Mardoqueu persistia em sua resolução, pois ele lhes havia dito que era judeu.
5. Amã viu que Mardoqueu não queria nem inclinar-se, nem prostrar-se diante dele e isso o pôs em cólera.
6. Mas teve como pouco vingar-se só de Mardoqueu, cuja raça conhecia, e procurou um meio de exterminar a nação de Mardoqueu, todos os judeus do reino de Assuero.
7. No primeiro mês, chamado Nisã, do ano duodécimo do reinado de Assuero, foi lançado o pur, isto é, a sorte, diante de Amã, para cada dia e para cada mês, até o duodécimo mês, isto é, Adar.
8. Então Amã disse ao rei Assuero: Há em todas as províncias do teu reino uma nação dispersa e separada das outras; suas leis são diferentes das dos demais povos e se nega a observar as leis do rei. Não convém aos interesses do rei deixar essa gente em paz.
9. Se ao rei lhe parece bem, dê-se ordem de fazê-los perecer, e eu pesarei dez mil talentos de prata nas mãos dos funcionários, para que os recolham ao tesouro real.
10. Tirando o anel de seu dedo, o rei o entregou a Amã, filho de Amedata, o agagita, o opressor dos judeus.
11. Eu te entrego, lhe disse, esse dinheiro e ao mesmo tempo esse povo; faze dele o que quiseres.
12. No dia treze do primeiro mês foram convocados os escribas reais. Foram escritas pontualmente todas as ordens do rei aos sátrapas do rei, aos governadores de cada província e aos príncipes de cada nação, a cada província segundo sua escritura e a cada nação em sua língua própria. O edito estava assinado com o nome de Assuero e levava o selo real.
13. Foram expedidas cartas, por correios, para todas as províncias do rei, a fim de destruir, matar e exterminar todos os judeus, jovens, velhos, crianças e mulheres, num só dia, no dia treze do duodécimo mês chamado Adar e a fim de entregar ao saque os seus despojos.
14. Uma cópia do edito, que devia ser promulgado em cada província, foi enviada a todos os povos, para que todos estivessem preparados para o dia marcado.
15. Por ordem do rei, os correios partiram a toda a pressa. O edito fora publicado primeiro em Susa, a capital, e enquanto o rei bebia acompanhado de Amã, a consternação reinava na cidade de Susa.

 
Capítulo 4

1. Quando Mardoqueu soube o que se tinha passado, rasgou suas vestes, cobriu-se de saco e cinza, e percorreu a cidade, dando gritos de dor.
2. Veio desse modo até diante da porta do rei, pela qual ninguém tinha o direito de passar com vestes de luto.
3. Em cada província, em toda parte onde chegava a ordem do rei e seu edito, havia grande desolação entre os judeus. Jejuaram, choraram e fizeram lamentações; e muitos se deitavam sobre o saco e a cinza.
4. As criadas de Ester e seus eunucos vieram contar-lhe o que se passava, e isso lhe causou grande temor. Mandou roupas para revestir Mardoqueu, fazendo-lhe despir o saco de que estava coberto, mas ele não as aceitou.
5. Então Ester, chamando Atac, um dos eunucos que o rei pusera a seu serviço, encarregou-o de perguntar a Mardoqueu o que significavam aqueles sinais de dor.
6. Atac foi ter com Mardoqueu, que estava na praça da cidade, diante da porta do rei.
7. Soube dele tudo o que tinha acontecido e a quantia de dinheiro que Amã tinha prometido recolher ao tesouro real em troca da destruição dos judeus.
8. Mardoqueu lhe entregou também uma cópia do edito, publicado em Susa para exterminá-los. Devia mostrá-la a Ester, pô-la a par de tudo e movê-la a ir ter com o rei para implorar sua graça e interceder junto dele em favor do povo.
9. Atac veio referir a Ester as palavras de Mardoqueu,
10. mas a rainha mandou Atac responder-lhe:
11. Todos os servos do rei e o povo de suas províncias sabem bem que, para quem quer que seja, homem ou mulher, que penetrar sem ser chamado na câmara interior do palácio, há uma lei real condenando-o à morte, exceção feita somente àquele para o qual o rei estender seu cetro de ouro, conservando-lhe a vida. E eis que são já trinta dias que não sou chamada junto ao rei.
12. As palavras de Ester foram referidas a Mardoqueu, e este lhe mandou responder:
13. Não imagines que serás a única entre todos os judeus a escapar, por estares no palácio.
14. Se te calares agora, o socorro e a libertação virão aos judeus de outra parte; mas tu e a casa de teu pai perecereis. E quem sabe se não foi para essas circunstâncias que chegaste à realeza.
15. Ester mandou responder a Mardoqueu:
16. Vai reunir todos os judeus de Susa e jejuai por mim sem comer nem beber durante três dias e três noites. Eu farei a mesma coisa com as minhas criadas. Depois disso, apesar da lei, irei ter com o rei. Se houver de morrer, morrerei.
17. Mardoqueu se retirou e fez o que Ester pediu.

 
Capítulo 5

1. Três dias depois Ester se revestiu de seus trajes reais e se apresentou na câmara interior do palácio, diante do aposento real, onde estava o rei sentado sobre seu trono, diante da porta de entrada do edifício.
2. Logo que o rei viu a rainha Ester no átrio, esta conquistou suas boas graças, de sorte que ele estendeu o cetro de ouro que tinha na mão. E Ester se aproximou para tocá-lo.
3. O rei lhe disse: Que tens, rainha Ester e que queres? Mesmo a metade de meu reino eu te daria.
4. Se parecer bem ao rei, respondeu ela, venha hoje com Amã ao banquete que lhe preparo.
5. O rei disse então: Apressai-vos em fazer vir Amã para atender ao desejo de Ester. O rei foi, pois, com Amã ao banquete que Ester tinha preparado.
6. Enquanto se bebia o vinho, o rei disse à rainha: Qual é o teu pedido? Ser-te-á concedido. Que desejas? Mesmo que fosse a metade de meu reino, a receberias.
7. Eis, respondeu, meu pedido e meu desejo:
8. se achei graça aos olhos do rei, e se lhe agrada aceder ao meu pedido e cumprir o meu desejo, que o rei e Amã tornem a vir ao banquete que lhes mandarei preparar. Amanhã eu responderei à pergunta do rei.
9. Amã voltou naquele dia gozoso e alegre de coração. Mas à vista de Mardoqueu que, diante da porta do rei, não se levantava nem se movia à sua passagem, encheu-se de furor contra o judeu.
10. Soube, entretanto, conter-se e retirou-se para casa. Então, mandou buscar os seus amigos e Zarés, sua mulher, e
11. lhes falou do esplendor de suas riquezas, do número de seus filhos, de tudo o que tinha feito o rei para exaltá-lo e do lugar que lhe tinha conferido sobre todos os príncipes e todo o pessoal real.
12. Além disso, acrescentou, fui o único que a rainha Ester admitiu com o rei ao banquete que ela deu e sou ainda convidado para amanhã, com o rei.
13. Mas tudo isso o tenho por nada, enquanto vir esse judeu Mardoqueu na antecâmara do rei.
14. Zarés, sua mulher, e todos os seus amigos lhe disseram: Não há mais que preparar uma forca de cinqüenta côvados de altura. E amanhã cedo pede ao rei que nela seja suspenso Mardoqueu. Depois irás satisfeito ao banquete com o rei. Isso agradou a Amã, e este mandou levantar a forca.

 
Capítulo 6

1. Naquela noite o rei não pôde conciliar o sono. Mandou que lhe trouxessem o livro dos Anais, as Crônicas, que lhe foram lidas.
2. Achava-se aí consignada a narração da denúncia que tinha feito Mardoqueu (da conjuração) de Bigtã e Tares, os dois eunucos do rei que tinham querido levantar sua mão contra o rei.
3. Que honras, disse então o rei, e que distinções recebeu Mardoqueu por isso? – Nenhuma, responderam os servos do rei.
4. E o rei perguntou: Quem está no pátio? Ora, nesse mesmo instante entrava Amã no pátio exterior do palácio para pedir ao rei que mandasse suspender Mardoqueu na forca que tinha feito levantar.
5. Os servos do rei responderam: É Amã que está no pátio. – Que entre!, retornou o rei.
6. Entrou, pois, Amã e o rei lhe disse: Que se deveria fazer para um homem que o rei quer honrar? – A quem, senão a mim, quererá o rei honrar?, pensou Amã.
7. Por isso respondeu ao rei: Para um homem a quem o rei deseja honrar
8. convém que lhe tragam as vestes com que se adorna o rei, o cavalo que o rei monta, e sobre sua cabeça se coloque a coroa real.
9. As vestes e o cavalo se darão a um dos senhores da corte e este revestirá o homem a quem o rei quer honrar e o passeará a cavalo pela praça da cidade, dizendo em altas vozes diante dele: É assim que é tratado o homem a quem o rei quer honrar.
10. O rei replicou: Toma, pois, depressa as vestes e o cavalo, como disseste, e faze tudo isso para Mardoqueu, o judeu que está assentado em minha antecâmara. E que nada se omita de tudo o que disseste.
11. Amã tomou as vestes e o cavalo, revestiu Mardoqueu e o conduziu a cavalo pela praça da cidade, clamando diante dele: É assim que é tratado o homem a quem o rei quer honrar.
12. Depois Mardoqueu voltou à porta do palácio, enquanto Amã se retirava precipitadamente para casa, consternado e de cabeça coberta,
13. para contar a Zarés, sua mulher, e a todos os seus amigos o que lhe tinha acontecido. Seus conselheiros e sua mulher Zarés lhe responderam: Se Mardoqueu, diante do qual começou tua queda, pertence ao povo judeu, não o vencerás, mas sucumbirás diante dele.
14. Eles falavam ainda, quando sobrevieram os eunucos do rei para levá-lo imediatamente ao banquete que Ester tinha preparado.

 
Capítulo 7

1. O rei e Amã vieram, pois, ao banquete de Ester.
2. No segundo dia, bebendo vinho, disse ainda o rei a Ester: Qual é teu pedido, rainha Ester? Será atendido. Que é que desejas? Fosse mesmo a metade de meu reino, tu obterias.
3. A rainha respondeu: Se achei graça a teus olhos, ó rei, e se ao rei lhe parecer bem, concede-me a vida, eis o meu pedido; salva meu povo, eis o meu desejo.
4. Fomos votados, eu e meu povo, ao extermínio, à morte, ao aniquilamento. Se tivéssemos sido vendidos como escravos, eu me calaria, mas eis que agora o opressor não poderia compensar o prejuízo que causa ao mesmo rei.
5. Quem é, replicou o rei, e onde está quem maquina tal projeto em seu coração?
6. O opressor, o inimigo, disse a rainha, é Amã, eis aí o infame!
7. Amã ficou tomado de terror diante do rei e da rainha. O rei, aceso em cólera, levantou-se e deixou o banquete, dirigindo-se ao jardim do palácio, ao passo que Amã permanecia ali, para implorar a Ester o perdão de sua vida, porque via bem que no espírito do rei estava decretada sua perda.
8. Quando o rei voltou do jardim do palácio para a sala do banquete, viu Amã que se tinha deixado cair sobre o divã em que repousava Ester: Como!, exclamou. Ei-lo que quer fazer violência à rainha em minha casa, em meu palácio! Mal tinha saído essa palavra da boca do rei, quando cobriram a face de Amã.
9. Harbona, um dos eunucos, disse ao rei. A forca preparada por Amã para Mardoqueu, cuja denúncia em favor do rei tinha sido tão salutar, acha-se levantada na casa de Amã, alta de cinqüenta côvados.- Que o suspendam nela!, exclamou o rei.
10. E suspenderam Amã na forca que tinha preparado para Mardoqueu. Isso acalmou a cólera do rei.

 
Capítulo 8

1. Naquele mesmo dia Assuero fez presente à rainha Ester da casa de Amã, o opressor dos judeus; e Mardoqueu se apresentou diante do rei, porque Ester tinha manifestado o que ele era dela.
2. Tirando seu anel, que tinha retomado de Amã, o rei o presenteou a Mardoqueu, que foi colocado por Ester à frente da casa de Amã.
3. Ester voltou de novo à presença do rei e falou. Prostrada a seus pés, desfeita em lágrimas, lhe suplicava que destruísse as maquinações que Amã, o agagita, tinha perversamente urdido contra os judeus.
4. O rei estendeu o cetro de ouro a Ester, a qual se pôs em pé diante dele.
5. Se parecer bem ao rei, disse ela, e se achei graça diante dele, e se isso lhe parecer justo e se sou agradável a seus olhos, que revogue por escrito as cartas, que Amã, filho de Amedata, o agagita, tinha concebido o redigido para perder os judeus de todas as províncias do rei.
6. Como poderia eu ver a desgraça que aguarda meu povo, e como poderia assistir ao extermínio de minha raça?
7. O rei Assuero respondeu à rainha Ester e ao judeu Mardoqueu: Fiz presente a Ester da casa de Amã, e fiz perecer esse homem por ter levantado a mão contra os judeus.
8. Escrevei, portanto, vós mesmos, em nome do rei, em favor dos judeus, como bem vos parecer e selai com o selo real, porque toda ordem escrita em nome do rei e firmada com seu selo é irrevogável.
9. Foram então chamados os escribas do rei, no vigésimo terceiro dia do terceiro mês, chamado Sivã; e conforme as instruções de Mardoqueu, escreveram aos judeus, aos sátrapas, aos governadores e aos senhores das cento e vinte e sete províncias situadas entre a Índia e a Etiópia, a cada província em sua escritura, a cada nação em sua língua, e aos judeus na sua própria escritura e língua.
10. Redigiram-se, pois, em nome do rei Assuero e marcaram-se com o selo real as cartas, que foram expedidas por correios a cavalo, tendo como montarias cavalos procedentes das cavalariças reais.
11. Essas comunicações diziam que o rei outorgava aos judeus, em qualquer cidade em que residissem, o direito de se reunir para defender sua vida, de destruir, matar e fazer perecer, em cada província do reino, todos os que se armassem para atacá-los, com suas mulheres e filhos; igualmente o direito de se apoderarem de seus despojos.
12. (Tudo isso se faria) num só dia, em todas as províncias do rei Assuero, no dia treze do duodécimo mês, chamado Adar.
13. Uma cópia do edito, que devia ser promulgado como lei em cada província, foi enviada a todos os povos, a fim de que os judeus estivessem preparados, naquele dia, para tirar vingança de seus inimigos.
14. Os correios, montando cavalos das cavalariças reais, partiram apressadamente e cumpriram diligentemente a ordem do rei. O edito foi publicado primeiramente em Susa, a capital.
15. Saiu então Mardoqueu da casa do rei, com uma veste real, azul e branca, com uma grande coroa de ouro e um manto de linho e púrpura. A cidade de Susa alegrou-se com os gritos de júbilo.
16. Não havia para os judeus senão felicidade, alegria e cantos de triunfo.
17. Em cada província, em cada cidade, aonde quer que chegasse o edito real, havia entre os judeus transportes de gozo, banquetes e regozijo. Muitos no país se fizeram judeus, tanto era o temor que lhes inspiravam.

 
Capítulo 9

1. No duodécimo mês, que é o de Adar, no dia treze do mês, data em que entrava em vigor a ordem e o edito do rei, no mesmo dia em que os inimigos dos judeus contavam fazer-lhes mal, aconteceu tudo ao contrário, e os judeus dominaram seus inimigos.
2. Estavam reunidos em suas respectivas cidades, em todas as províncias do rei Assuero para levantarem a mão contra aqueles que desejavam sua perda. Ninguém pôde resistir-lhes, porque o terror se tinha apoderado de todos os povos.
3. Todos os senhores das províncias, os sátrapas, os governadores, os funcionários do rei tomaram o partido dos judeus, por temor de Mardoqueu.
4. Porque este ocupava um alto lugar no palácio real e sua fama se espalhava em todas as províncias, onde sua influência não cessava de crescer.
5. Os judeus, pois, feriram todos os seus inimigos a golpes de espada: massacre e extermínio de seus opressores, aos quais trataram como quiseram.
6. Em Susa, na capital, mataram quinhentos homens.
7. Fizeram igualmente perecer Farsandata, Delfon, Esfata,
8. Forata, Adalia, Aridata,
9. Fermesta, Arisai, Aridai e Jesata,
10. os dez filhos de Amã, filho de Amedata, o opressor dos judeus. Mas se abstiveram de toda pilhagem.
11. Nesse mesmo dia fizeram conhecer ao rei o número das vítimas em Susa, a capital.
12. E o rei disse a Ester: Em Susa, na capital, os judeus mataram quinhentos homens e os dez filhos de Amã. Que não terão feito nas outras províncias do rei! (Entretanto), tens ainda algum pedido? Ser-te-á concedido. Tens algum desejo? Será satisfeito.
13. Se parecer bem ao rei, respondeu Ester, seja permitido ainda amanhã, aos judeus de Susa, agir conforme ao decreto de hoje, e que se suspendam numa forca os dez filhos de Amã.
14. O rei deu ordem para que assim se fizesse. O edito foi publicado em Susa e suspenderam na forca os dez filhos de Amã.
15. Os judeus de Susa se reuniram de novo no dia quatorze do mês de Adar, e mataram na cidade trezentos homens, sem entretanto dar-se à pilhagem.
16. Os outros judeus que estavam disseminados pelas províncias do rei se juntaram para defender suas vidas e se pôr a salvo dos ataques de seus inimigos. Massacraram setenta e cinco mil, sem entretanto entregar-se à pilhagem.
17. Era o dia treze do mês de Adar. No dia quatorze repousaram e fizeram um dia de banquete de alegria.
18. Quanto aos judeus de Susa, que se juntaram no dia treze e catorze do mesmo mês, repousaram no dia quinze, fazendo-o um dia de alegre banquete
19. Eis por que os judeus do campo, que habitam nas cidades não fortificadas, fazem no dia catorze do mês de Adar, um dia de festa com banquetes de alegria, dia em que mandam presentes uns aos outros.
20. Mardoqueu consignou por escrito todos esses acontecimentos. Enviou cartas a todos os judeus das províncias do rei Assuero, próximas ou longínquas,
21. para lhes ordenar que celebrassem cada ano o dia catorze e o dia quinze do mês de Adar,
22. como sendo dias em que tinham sido postos a salvo dos ataques de seus inimigos, e mês em que sua angústia tinha sido trocada em alegria e sua dor em felicidade. Deviam, pois, nesses dias oferecer alegres banquetes, dar-se presentes e praticar generosidade com os pobres.
23. Os judeus erigiram em costume o que tinham feito na primeira vez e o que Mardoqueu lhes tinha mandado.
24. Porque Amã, filho de Amedata, o agagita, o opressor dos judeus, tinha resolvido perdê-los, e lançado (contra eles) o pur, isto é, a sorte, para exterminá-los e destruí-los.
25. Mas quando Ester se apresentou diante do rei, este ordenou por escrito que a perversa maquinação, tramada contra os judeus, recaísse sobre a cabeça de seu autor e que este e seus filhos fossem suspensos à forca.
26. É por isso que se chamam esses dias Purim, da palavra pur. Assim, conforme o conteúdo dessa carta, conforme o que eles mesmos tinham visto e o que lhes tinha acontecido,
27. os judeus instituíram e estabeleceram para si, para sua posteridade e para seus adeptos, o costume irrevogável de celebrar anualmente esses dois dias, segundo a forma prescrita e no tempo marcado.
28. Esses dias deviam ser recordados e celebrados de geração em geração, em cada família, em cada província e em cada cidade. Jamais poderiam ser abolidos esses dias dos Purim entre os judeus, nem sua recordação se apagar entre seus descendentes.
29. A rainha Ester, filha de Abigail, e o judeu Mardoqueu escreveram uma segunda vez com insistência para confirmar a carta sobre os Purim.
30. Depois enviaram a todos os judeus das cento e vinte e sete províncias do rei Assuero cartas com palavras de paz,
31. e a recomendação de celebrarem fielmente esses dias dos Purim no tempo marcado, como o judeu Mardoqueu e a rainha Ester os tinham instituído, e como eles tinham estabelecido, tanto para si mesmos, como para seus descendentes, com os jejuns e as lamentações.
32. Desse modo, a ordem de Ester confirmou a instituição dos Purim, e tudo isso foi consignado num livro.

 
Capítulo 10

1. O rei Assuero impôs um tributo sobre o continente e sobre as ilhas do mar.
2. Tudo o que concerne a seu poder e suas façanhas e os detalhes sobre a elevação de Mardoqueu pelo rei estão escritos no livro das Crônicas dos reis dos medos e dos persas.
3. Porque o judeu Mardoqueu era o primeiro depois do rei Assuero. Ele gozava de grande consideração entre os judeus e era amado pela multidão de seus irmãos. Procurava o bem de seu povo e falava a favor da felicidade de toda a sua nação.
4. E Mardoqueu disse: De Deus veio tudo isso.
5. Lembro-me de um sonho que tive a esse respeito. Nada foi omitido:
6. a pequena fonte tornada um rio, a luz, o sol, a massa de água. O rio é Ester que o rei tomou por esposa e a quem tornou rainha.
7. Amã e eu, eis as duas serpentes.
8. Os povos são aqueles que se reuniram para destruir o nome dos judeus.
9. Minha nação é Israel que invocou o Senhor e que foi salva; porque o Senhor salvou seu povo e nos livrou de todos esses males. Deus fez prodígios e maravilhas, como não fez semelhantes entre todas as nações.
10. Porque Deus preparou dois destinos: um para seu povo e outro para todas as nações.
11. E esses dois destinos se cumpriram na hora, no tempo e no dia marcados por Deus para todas as nações.
12. Então o Senhor lembrou-se dos seus e fez justiça à sua herança.
13. E esses dias do mês de Adar, o catorze e o quinze, serão celebrados em comum, no povo de Israel, com gozo e alegria diante de Deus, em todas as gerações, para sempre.

 
Capítulo 11

1. No quarto ano do reino de Ptolomeu e de Cleópatra, Dositeu que se dizia sacerdote e levita, e igualmente seu filho, Ptolomeu, trouxeram a presente carta concernente aos Purim, dizendo que ela tinha sido traduzida por Lisímaco, filho de Ptolomeu, em Jerusalém.
2. No segundo ano do reino de Assuero, o grande rei, no primeiro dia do mês de Nisã, Mardoqueu, filho de Jair, filho de Semei, filho de Cis, da tribo de Benjamim, teve um sonho.
3. Havia um judeu, estabelecido em Susa, grande personagem, adido à corte do rei.
4. Era do número dos cativos que Nabucodonosor, rei de Babilônia, tinha deportado de Jerusalém com o rei Jeconias, de Judá.
5. Esta foi sua visão: clamores repentinos, tumultos, trovões, um tremor de terra, o terror por toda a terra.
6. Em seguida, repentinamente, avançaram dois grandes dragões, dispostos para acometer um ao outro.
7. Ao grito que lançaram, as nações se comoveram para combater contra a nação dos justos.
8. Foi um dia de escuridão e trevas: tribulação, angústia, perigo e terror sobre toda a terra.
9. O povo inteiro dos justos, cheio de terror, temendo todos os males, julgou-se a ponto de perecer,
10. e clamou a Deus. Enquanto levantavam clamores, eis que uma pequenina fonte toma proporções de um grande rio, uma massa de água.
11. A luz apareceu com o sol; os que estavam na humilhação foram exaltados e devoraram os nobres.
12. Depois de ter visto esse sonho e o que Deus queria fazer, Mardoqueu se levantou. Até a noite conservou esse sonho gravado no seu espírito, procurando conhecer o seu sentido.

 
Capítulo 12

1. Morava então Mardoqueu na corte com Bigtã e Tares, dois eunucos do rei, porteiros do palácio.
2. Teve conhecimento de seus projetos e penetrou em seus desígnios; descobriu que eles se propunham a levantar a mão contra o rei Assuero e os denunciou.
3. O rei fez o inquérito. Eles confessaram e foram conduzidos ao suplício.
4. O rei mandou registrar esses acontecimentos na Crônica e Mardoqueu tomou também nota disso.
5. O rei lhe assinou uma função no seu palácio e em prêmio de seus serviços lhe fez presentes.
6. Mas Amã, filho de Amedata, o agagita, que gozava da consideração do rei, odiava Mardoqueu e seu povo por causa dos dois eunucos reais que tinham sido condenados à morte.

 
Capítulo 13

1. Assuero, o grande rei, a seus vassalos, os sátrapas e os governadores das cento e vinte e sete províncias, da Índia até a Etiópia, manda o que se segue:
2. Embora eu seja o chefe de numerosas nações e tenha submetido o mundo inteiro, não quero de modo algum abusar da grandeza de meu poder. Quero, por um governo de clemência e de doçura, oferecer a meus súditos uma existência de tranqüilidade perpétua; e, procurando para meu reino, até seus confins, a calma e a segurança, garantir a paz, cara a todos os mortais.
3. Tenho, pois, perguntado a meus conselheiros como isso se podia realizar, e um deles, chamado Amã, superior a todos por sua sabedoria e fidelidade, que ocupa o primeiro lugar depois do rei,
4. me fez conhecer que há um povo mal-intencionado, disperso entre os outros povos do mundo, de costumes contrários aos dos outros, que despreza continuamente as ordens dos reis, a ponto de ameaçar a concórdia que reina em nosso império.
5. Tendo, portanto, sabido que essa única nação, em oposição perpétua com o resto do gênero humano, destruindo os costumes por leis estranhas, malévola para com tudo o que nos diz respeito, comete as piores desordens e compromete assim a ordem pública do reino;
6. por essas razões, ordenamos que todos aqueles que vos são indicados pelas cartas de Amã (o homem que está à frente de nossos interesses e que nos é um segundo pai), sejam todos radicalmente exterminados, mesmo mulheres e crianças, pela espada de seus inimigos, sem nenhuma compaixão, nem clemência, no dia catorze do duodécimo mês, chamado de Adar, do presente ano.
7. Desse modo, esse povo, nosso inimigo de outrora e de agora, lançado violentamente, num mesmo dia, na região dos mortos, deixará para o futuro prosperarem em paz nossos negócios.
8. Então Mardoqueu orou ao Senhor, recordando tudo o que havia feito:
9. Senhor, disse, Senhor, rei todo-poderoso, tudo está realmente no vosso poder, e ninguém pode resistir à vossa vontade, se tendes resolvido salvar Israel.
10. Fizestes o céu e a terra e todas as maravilhas que se acham sob a abóbada celeste.
11. Sois o Senhor universal e ninguém poderia opor-se a vós, o Senhor.
12. Conheceis tudo e sabeis que não foi nem por espírito de soberba, nem por presunção, nem por vanglória que recusei prostrar-me diante do orgulhoso Amã.
13. Voluntariamente para salvar Israel, eu beijaria os vestígios de seus pés.
14. Mas procedi assim por temor de colocar a honra de um homem acima da honra de Deus; não adorarei jamais a ninguém senão vós. E, contudo, não farei isso por orgulho.
15. E agora, Senhor, que sois meu Deus e meu rei, Deus de Abraão, poupai vosso povo, pois nossos inimigos nos querem arruinar e destruir vossa antiga herança.
16. Não desprezeis a vossa porção, que vós resgatastes do Egito.
17. Ouvi minha oração! Sede propício para com a partilha de vossa herança, e mudai em gozo nossa dor, a fim de vivermos para celebrar vosso nome, Senhor, e não fecheis a boca daqueles que vos louvam, ó Senhor!
18. Todo o Israel clamava também ao Senhor, com grandes vozes, porque tinham a morte diante dos olhos.

 
Capítulo 14

1. Por sua parte, a rainha Ester, tomada de uma angústia mortal, recorreu ao Senhor.
2. Depôs suas vestes suntuosas e vestiu roupas de aflição e de pesar. Em lugar de essências preciosas, cobriu a cabeça de cinza e de lama; afligiu duramente seu corpo e por todos os lugares onde costumava alegrar-se espalhou os cabelos que se arrancava.
3. Dirigiu esta prece ao Senhor, Deus de Israel: Meu Senhor, nosso único rei, assisti-me no meu desamparo, porque não tenho outro socorro senão vós,
4. e o perigo que me ameaça eu o toco já com as mãos.
5. Ouvi desde criança, no seio da minha família, que vós, Senhor, tendes escolhido Israel entre todas as nações, e nossos pais, entre todos os seus antepassados, para deles fazer vossa herança perpétua e que tendes executado todas as vossas promessas.
6. Agora pecamos na vossa presença e nos tendes entregado nas mãos de nossos inimigos,
7. por termos adorado seus deuses. Vós sois justo, Senhor.
8. Ora, presentemente não lhes basta a amargura de nossa escravidão, mas colocaram suas mãos sobre as mãos dos ídolos,
9. em sinal de que querem abolir o que vossos lábios decretaram, aniquilar vossa herança, fechar a boca daqueles que vos louvam, extinguir a glória de vosso templo e de vosso altar,
10. a fim de proclamar pela boca dos povos pagãos o poder de seus ídolos e de magnificar eternamente um rei de carne.
11. Ó Senhor, não entregueis vosso cetro aos povos que são nada! Que não se riam de nossa ruína! Fazei cair sobre eles o seu projeto e tornai um escarmento para todo aquele que por primeiro nos atacou.
12. Lembrai-vos de nós, Senhor! Manifestai-vos no dia da tribulação! Dai-nos coragem, Senhor, rei dos deuses e dominador de todo principado!
13. Colocai em seus lábios palavras prudentes na presença do leão e fazei passar seu coração para o ódio daquele que nos é hostil, a fim de que ele pereça, ele e todos os seus parceiros.
14. E a nós, que a vossa mão nos livre! Assisti-me no meu abandono, a mim que não tenho senão a vós, Senhor. Conheceis tudo:
15. sabeis que detesto a glória dos ímpios e que tenho horror ao leito dos incircuncisos e estrangeiros.
16. Conheceis a necessidade a que estou reduzida e como abomino a insígnia da dignidade que está sobre minha cabeça nos dias em que devo aparecer em público. Sim, eu a abomino como um pano manchado e não a levo nos dias de meu retiro.
17. Vossa serva não comeu à mesa de Amã, nem honrou com sua presença os banquetes do rei, nem bebeu o vinho das libações.
18. Jamais, desde o dia de sua elevação até hoje, vossa serva não experimentou alegria a não ser em vós, Senhor, Deus de Abraão.
19. Ó Deus, que sois poderoso sobre todas as coisas, ouvi a voz daqueles que não têm outra esperança; livrai-nos das mãos dos malvados, e livrai-me de minha angústia.

 
Capítulo 15

1. Mardoqueu mandou pedir a Ester que fosse ter com o rei para lhe pedir graça e suplicar em favor de sua pátria.
2. Recorda-te, lhe mandou dizer, do tempo de tua humilhação, como eras alimentada por minhas mãos. Amã, o primeiro dignitário após o rei, falou contra nós para nossa ruína.
3. Roga, pois, ao Senhor e fala ao rei por nós; salva-nos da morte!
4. No terceiro dia, terminando sua prece, Ester despiu suas vestes de dor e revestiu suas vestiduras de cerimônia.
5. Assim adornada, depois de ter invocado a Deus, árbitro e salvador universal, tomou consigo suas duas servas.
6. Apoiava-se sobre uma, como uma pessoa delicada,
7. ao passo que a outra a seguia, levando a cauda de seu vestido.
8. Estava rosada como uma flor de beleza, de rosto alegre e atraente, mas com o coração angustiado pelo temor.
9. Passou, pois, todas as portas e se apresentou diante do rei. Assuero estava assentado em seu trono, revestido de todos os ornamentos de sua majestade, coberto de ouro e de pedrarias e seu aspecto era imponente.
10. Logo que o rei levantou a cabeça radiante de esplendor e dirigiu seu olhar cheio de cólera, a rainha, mudando de cor, desfaleceu e se deixou cair sobre os ombros da criada que a acompanhava.
11. Deus mudou, então, em doçura a cólera do rei. Todo perturbado, levantou-se precipitadamente de seu trono e a tomou nos braços até que ela voltou a si, procurando acalmar seu temor com doces palavras:
12. Que tens, Ester, lhe disse. Sou teu irmão. Não temas:
13. não morrerás, porque nossa ordem não concerne senão ao comum do povo.
14. Vem.
15. Levantou o cetro de ouro e o aproximou de seu pescoço e a beijou, dizendo: Fala-me.
16. Meu Senhor, eu te vi como um anjo de Deus e o temor de tua majestade pôs no avesso meu coração.
17. Porque és maravilhoso, Senhor, e teu rosto está cheio de graça.
18. Dizendo essas palavras, desfaleceu de novo sem sentidos,
19. o que encheu o rei de consternação, enquanto todos os seus servos procuravam reanimá-la.

 
Capítulo 16

1. Eis a cópia da carta: Assuero, o grande rei, aos cento e vinte e sete sátrapas, aos governadores das províncias, desde a Índia até a Etiópia, e a todos os que dirigem nossos negócios, saudação.
2. Há muitos que, cumulados de honras pela grande bondade de seus benfeitores, tornaram-se arrogantes.
3. Não somente se deram a oprimir nossos súditos, mas, incapazes de se contentar com as honras recebidas, urdiram maquinações contra aqueles que os tinham beneficiado.
4. E não contentes de banir do meio dos homens o sentimento de gratidão, chegam até a imaginar, na inchação faustosa de uma sorte inesperada, poder escapar à justa vingança do Deus que tudo vê.
5. Muitas vezes, as insinuações dos encarregados de administrar os interesses de seus amigos arrastaram a calamidades irremediáveis os que detêm o poder e os tornaram cúmplices da morte de inocentes,
6. abusando, por uma mentirosa malícia, da simplicidade e da probidade dos príncipes.
7. Isso é o que se pode verificar, não tanto pelas relações passadas que chegaram até nós, como acabamos de recordar, quando examinamos os fatos criminosos, de vós conhecidos, perpetrados por essa calamidade de homens indignamente revestidos de autoridade.
8. Em conseqüência disso, é necessário vigiar para assegurar no futuro, para todos, a tranqüilidade e a paz do reino,
9. realizando mudanças e julgando prudentemente os acontecimentos que se apresentam, para enfrentá-los sempre com eqüidade.
10. Ora, pois, é assim que o macedônio Amã, filho de Amedata, homem verdadeiramente estranho ao sangue dos persas e muito alheio à nossa bondade – embora gozasse de nossa hospitalidade e
11. fosse favorecido de nossa universal benevolência a ponto de ser chamado nosso pai e de ver todos se curvarem diante dele até a terra, como quem ocupa o lugar da segunda pessoa depois do trono real -
12. não soube conter sua presunção e intentou privar-nos tanto do poder como da vida.
13. Por insinuações cautelosas e sutis, procurou a morte de nosso salvador e grande benfeitor Mardoqueu, como também a de Ester, a irrepreensível companheira de nosso reino e de toda a sua nação.
14. Pensava surpreender-nos assim, isolados, para transferir o império dos persas aos macedônios.
15. Mas esses judeus que o criminoso votava à morte, verificamos que não eram de modo algum malfazejos, mas pelo contrário dirigidos por leis muito cheias de eqüidade,
16. e que eles são os filhos do Altíssimo Deus vivo, o qual nos conserva a nós, como a nossos antepassados, este reino em grande prosperidade.
17. Fareis, portanto, bem, não levando em conta as cartas enviadas por Amã, filho de Amedata,
18. visto que o autor desse crime foi suspenso numa forca diante das portas de Susa, com toda a sua família, tendo-lhe Deus, o Senhor universal, infligido prontamente o castigo que merecia.
19. Que uma cópia deste presente edito seja afixada por toda parte: deixai os judeus observar suas leis com toda a liberdade
20. e prestai-lhes assistência para que se possam defender contra todos os que os ataquem no dia marcado para a ruína deles, isto é, no dia treze do duodécimo mês, chamado Adar.
21. Porque esse dia, marcado para a perda da raça escolhida, Deus, o Senhor universal, o trocou em dia de alegria.
22. Por conseguinte, celebrareis esse dia memorável com grande alegria, como uma de vossas solenidades,
23. a fim de que agora e daqui em diante seja um dia de salvação para nós e para os persas de boa vontade e uma recordação da ruína dos que maquinaram contra nós.
24. Toda cidade e toda província que não observar estas ordens será entregue à furiosa devastação do ferro e do fogo; desse modo se tornará não somente inacessível aos homens, mas ainda horror perpétuo para os animais selvagens e para as aves.

 

I Livro dos Macabeus

I Livro dos Macabeus

 Capítulo 1

1. Ora, aconteceu que, já senhor da Grécia, Alexandre, filho de Filipe da Macedônia, oriundo da terra de Cetim, derrotou também Dario, rei dos persas e dos medos e reinou em seu lugar.
2. Empreendeu inúmeras guerras, apoderou-se de muitas cidades e matou muitos reis.
3. Avançou até os confins da terra e apoderou-se das riquezas de vários povos, e diante dele silenciou a terra. Tornando-se altivo, seu coração ensoberbeceu-se.
4. Reuniu um imenso exército,
5. impôs seu poderio aos países, às nações e reis, e todos se tornaram seus tributários.
6. Enfim, adoeceu e viu que a morte se aproximava.
7. Convocou então os mais considerados dentre os seus cortesãos, companheiros desde sua juventude, e, ainda em vida, repartiu entre eles o império.
8. Alexandre havia reinado doze anos ao morrer.
9. Seus familiares receberam cada qual seu próprio reino.
10. Puseram todos o diadema depois de sua morte, e, após eles, seus filhos durante muitos anos; e males em quantidade multiplicaram-se sobre a terra.
11. Desses reis originou-se uma raiz de pecado: Antíoco Epífanes, filho do rei Antíoco, que havia estado em Roma, como refém, e que reinou no ano cento e trinta e sete do reino dos gregos.
12. Nessa época saíram também de Israel uns filhos perversos que seduziram a muitos outros, dizendo: Vamos e façamos alianças com os povos que nos cercam, porque, desde que nós nos separamos deles, caímos em infortúnios sem conta.
13. Semelhante linguagem pareceu-lhes boa,
14. e houve entre o povo quem se apressasse a ir ter com o rei, o qual concedeu a licença de adotarem os costumes pagãos.
15. Edificaram em Jerusalém um ginásio como os gentios, dissimularam os sinais da circuncisão, afastaram-se da aliança com Deus, para se unirem aos estrangeiros e venderam-se ao pecado.
16. Quando seu reino lhe pareceu bem consolidado, concebeu Antíoco o desejo de possuir o Egito, a fim de reinar sobre dois reinos.
17. Entrou, pois, no Egito com um poderoso exército, com carros, elefantes, cavalos e uma numerosa esquadra.
18. Investiu contra Ptolomeu, rei do Egito, o qual, tomado de pânico, fugiu. Foram muitos os que sucumbiram sob seus golpes.
19. Tornou-se ele senhor das fortalezas do Egito, e apoderou-se das riquezas do país.
20. Após ter derrotado o Egito, pelo ano cento e quarenta e três, regressou Antíoco e atacou Israel, subindo a Jerusalém com um forte exército.
21. Penetrou cheio de orgulho no santuário, tomou o altar de ouro, o candelabro das luzes com todos os seus pertences,
22. a mesa da proposição, os vasos, as alfaias, os turíbulos de ouro, o véu, as coroas, os ornamentos de ouro da fachada, e arrancou as embutiduras.
23. Tomou a prata, o ouro, os vasos preciosos e os tesouros ocultos que encontrou.
24. Arrebatando tudo consigo, regressou à sua terra, após massacrar muitos judeus e pronunciar palavras injuriosas
25. Foi isso um motivo de desolação em extremo para todo o Israel.
26. Príncipes e anciãos gemeram, jovens e moças perderam sua alegria e a beleza das mulheres empanou-se.
27. O recém-casado lamentava-se, e a esposa chorava no leito nupcial.
28. A própria terra tremia por todos os seus habitantes e a casa de Jacó cobriu-se de vergonha.
29. Dois anos após, Antíoco enviou um oficial a cobrar o tributo nas cidades de Judá. Chegou ele a Jerusalém com uma numerosa tropa;
30. dirigiu-se aos habitantes com palavras pacíficas, mas astuciosas, nas quais acreditaram; em seguida lançou-se de improviso sobre a cidade, pilhou-a seriamente e matou muita gente.
31. Saqueou-a, incendiou-a, destruiu as casas e os muros em derredor.
32. Seus soldados conduziram ao cativeiro as mulheres e as crianças e apoderaram-se dos rebanhos.
33. Cercaram a Cidade de Davi com uma grande e sólida muralha, com possantes torres, tornando-se assim ela sua fortaleza.
34. Instalaram ali uma guarnição brutal de gente sem leis, fortificaram-se aí;
35. e ajuntaram armas e provisões. Reunindo todos os espólios do saque de Jerusalém, ali os acumularam. Constituíram desse modo uma grande ameaça.
36. Serviram de cilada para o templo, e um inimigo constantemente incitado contra o povo de Israel,
37. derramando sangue inocente ao redor do templo e profanando o santuário.
38. Por causa deles, os habitantes de Jerusalém fugiram, e só ficaram lá os estrangeiros. Jerusalém tornou-se estranha a seus próprios filhos e estes a abandonaram.
39. Seu templo ficou desolado como um deserto, seus dias de festa se transformaram em dias de luto, seus sábados, em dias de vergonha, e sua glória em desonra.
40. Quanto fora ela honrada, agora foi desprezada, e sua exaltação converteu-se em tormento.
41. Então o rei Antíoco publicou para todo o reino um edito, prescrevendo que todos os povos formassem um único povo e
42. que abandonassem suas leis particulares. Todos os gentios se conformaram com essa ordem do rei, e
43. muitos de Israel adotaram a sua religião, sacrificando aos ídolos e violando o sábado.
44. Por intermédio de mensageiros, o rei enviou, a Jerusalém e às cidades de Judá, cartas prescrevendo que aceitassem os costumes dos outros povos da terra,
45. suspendessem os holocaustos, os sacrifícios e as libações no templo, violassem os sábados e as festas,
46. profanassem o santuário e os santos,
47. erigissem altares, templos e ídolos, sacrificassem porcos e animais imundos,
48. deixassem seus filhos incircuncidados e maculassem suas almas com toda sorte de impurezas e abominações, de maneira
49. a obrigarem-nos a esquecer a lei e a transgredir as prescrições.
50. Todo aquele que não obedecesse à ordem do rei seria morto.
51. Foi nesse teor que o rei escreveu a todo o seu reino; nomeou comissários para vigiarem o cumprimento de sua vontade pelo povo e coagirem as cidades de Judá, uma por uma, a sacrificar.
52. Houve muitos dentre o povo que colaboraram com eles e abandonaram a lei. Fizeram muito mal no país, e
53. constrangeram os israelitas a se refugiarem em asilos e refúgios ocultos.
54. No dia quinze do mês de Casleu, do ano cento e quarenta e cinco, edificaram a abominação da desolação por sobre o altar e construíram altares em todas as cidades circunvizinhas de Judá.
55. Ofereciam sacrifícios diante das portas das casas e nas praças públicas,
56. rasgavam e queimavam todos os livros da lei que achavam;
57. em toda parte, todo aquele em poder do qual se achava um livro do testamento, ou todo aquele que mostrasse gosto pela lei, morreria por ordem do rei.
58. Com esse poder que tinham, tratavam assim, cada mês, os judeus que eles encontravam nas cidades
59. e, no dia vinte e cinco do mês, sacrificavam no altar, que sobressaía ao altar do templo.
60. As mulheres, que levavam seus filhos a circuncidar, eram mortas conforme a ordem do rei,
61. com os filhos suspensos aos seus pescoços. Massacravam-se também seus próximos e os que tinham feito a circuncisão.
62. Numerosos foram os israelitas que tomaram a firme resolução de não comer nada que fosse impuro, e preferiram a morte antes que se manchar com alimentos;
63. não quiseram violar a santa lei e foram trucidados.
64. Caiu assim sobre Israel uma imensa cólera.

 
Capítulo 2

1. Foi nessa época que se levantou Matatias, filho de João, filho de Simeão, sacerdote da família de Joarib, que veio de Jerusalém se estabelecer em Modin.
2. Tinha ele cinco filhos: João, apelidado Gadis,
3. Simão, alcunhado Tasi,
4. Judas, chamado Macabeu,
5. Eleazar, cognominado Avarã, e Jônatas, chamado Afos.
6. Vendo as abominações praticadas em Judá e em Jerusalém, exclamou: Ai de mim, por que nasci eu, para ver a ruína de meu povo e da cidade santa,
7. e ficar sem fazer nada, enquanto ela é entregue ao poder de seus inimigos
8. e seu centro religioso abandonado aos estrangeiros? Seu templo tornou-se como um homem desonrado
9. e os vasos sagrados, que eram o motivo de seu orgulho, levados como para um cativeiro; seus filhos foram trucidados nas ruas e os seus jovens sucumbiram ao gládio do inimigo.
10. Que povo há que não tenha herdado de seus atributos reais, que não se tenha apoderado dos seus despojos?
11. Toda a sua glória desapareceu e, de livre que era, tornou-se escrava.
12. Eis que tudo o que tínhamos de sagrado, de belo, de glorioso, foi assolado e profanado pelas nações.
13. Por que viver ainda?
14. Matatias e seus filhos rasgaram suas vestes, cobriram-se de sacos, e choravam amargamente.
15. Sobrevieram enviados do rei a Modin, para impor a apostasia e obrigar a sacrificar.
16. Muitos dos israelitas uniram-se a eles, mas Matatias e seus filhos permaneceram firmes.
17. Em resposta disseram-lhe os que vinham da parte do rei: Possuis nesta cidade notável influência e consideração, teus irmãos e teus filhos te dão autoridade.
18. Vem, pois, como primeiro, executar a ordem do rei, como o fizeram todas as nações, os habitantes de Judá e os que ficaram em Jerusalém. Serás contado, tu e teus filhos, entre os amigos do rei; a ti e aos teus filhos o rei vos honrará, cumulando-vos de prata, de ouro e de presentes.
19. Matatias respondeu-lhes: Ainda mesmo que todas as nações que se acham no reino do rei o escutassem, de modo que todos renegassem a fé de seus pais e aquiescessem às suas ordens,
20. eu, meus filhos e meus irmãos, perseveraremos na Aliança concluída por nossos antepassados.
21. Que Deus nos preserve de abandonar a lei e os mandamentos!
22. Não obedeceremos a essas ordens do rei e não nos desviaremos de nossa religião, nem para a direita, nem para a esquerda.
23. Mal acabara de falar, eis que um judeu se adiantou para sacrificar no altar de Modin, à vista de todos, conforme as ordens do rei.
24. Viu-o Matatias e, no ardor de seu zelo, sentiu estremecerem-se suas entranhas. Num ímpeto de justa cólera arrojou-se e matou o homem no altar.
25. Matou ao mesmo tempo o oficial incumbido da ordem de sacrificar e demoliu o altar.
26. Com semelhante gesto mostrou ele seu amor pela lei, como agiu Finéias a respeito de Zamri, filho de Salum.
27. Em altos brados Matatias elevou a voz então na cidade: Quem for fiel à lei e permanecer firme na Aliança, saia e siga-me.
28. Assim, com seus filhos, fugiu em direção às montanhas, abandonando todos os seus bens na cidade.
29. Então, uma grande parte dos que procuravam a lei e a justiça, encaminhou-se para o deserto.
30. Ali refugiaram-se, com seus filhos, suas mulheres e seus rebanhos, porque a perseguição se encarniçava contra eles.
31. Contaram aos oficiais do rei e às forças acantonadas em Jerusalém, na cidadela de Davi, que certo número de judeus, culpáveis de terem transgredido a ordem real, havia descido ao deserto, para ali se ocultar e que muitos se haviam precipitado em seu seguimento.
32. Os sírios arremessaram-se ao encalço deles e os alcançaram, depois se prepararam para agredi-los no dia de sábado.
33. Isso basta, agora, gritaram-lhes eles, saí, obedecei à ordem do rei, e vivereis.
34. Não sairemos, replicaram os judeus, e nem obedeceremos ao rei, com a profanação do dia de sábado.
35. Instantaneamente os sírios travaram combate contra eles;
36. mas eles não responderam, não atiraram uma pedra e não barricaram seu refúgio.
37. Que morramos todos inocentes! O céu e a terra nos servirão de testemunha, de que nos matais injustamente.
38. E foi assim que os inimigos se lançaram sobre eles em dia de sábado, morrendo eles, suas mulheres e seus filhos, com seu gado, em número de mil.
39. Matatias e seus amigos o souberam e comoveram-se muito;
40. mas disseram uns aos outros: Se todos nós agirmos como nossos irmãos, e se não pelejarmos contra os estrangeiros para pormos a salvo nossas vidas e nossas leis, exterminar-nos-ão bem depressa da terra.
41. Tomaram, pois, naquele dia a seguinte resolução: Mesmo que nos ataquem em dia de sábado, pugnaremos contra eles e não nos deixaremos matar a todos nós, como o fizeram nossos irmãos no seu esconderijo.
42. Então se ajuntou a eles o grupo dos judeus assideus, particularmente valentes em Israel, apegados todos à lei;
43. e todos os que fugiam das perseguições se ajuntaram do mesmo modo a eles e os reforçaram.
44. Formaram, pois, um exército e na sua ira e indignação massacraram certo número de prevaricadores e de traidores da lei; os outros procuraram refúgio junto aos estrangeiros.
45. Assim Matatias e seus amigos percorreram o país, destruíram os altares e
46. circuncidaram à força as crianças, ainda incircuncisas nas fronteiras de Israel,
47. e perseguiram os sírios orgulhosos. Sua empresa alcançou bom êxito.
48. Arrancaram a lei do poder dos gentios e dos reis, e não permitiram que prevalecesse o mal.
49. Ora, chegou para Matatias o dia de sua morte e ele disse a seus filhos: O que domina até este momento é o orgulho, o ódio, a desordem e a cólera.
50. Sede, pois, agora, meus filhos, os defensores da lei e dai vossa vida pela Aliança de vossos pais.
51. Recordai-vos dos feitos de vossos maiores em seu tempo, e merecereis uma grande glória e um nome eterno.
52. Porventura, não foi na prova que Abraão foi achado fiel? E não lhe foi isso imputado em justiça?
53. José observou os mandamentos na sua desgraça e veio a ser o senhor do Egito.
54. Finéias, nosso antepassado, por ter sido inflamado de zelo, recebeu a promessa de um perpétuo sacerdócio.
55. Josué, cumprindo a palavra de Deus, veio a ser juiz em Israel.
56. Caleb deu testemunho na assembléia e herdou a terra.
57. Por todos os séculos, em vista de sua piedade, mereceu Davi o trono real.
58. Porque ardia em zelo pela lei, Elias foi arrebatado ao céu.
59. Ananias, Azarias e Mizael foram salvos das chamas por terem tido fé.
60. Daniel, na sua retidão, foi livre da boca dos leões.
61. Recordai-vos assim, de geração em geração, de que todos os que esperam em Deus não desfalecem.
62. Não receeis as ameaças do pecador, porque sua glória chega à lama e aos vermes:
63. hoje ele se eleva e amanhã desaparece, porque tornará ao pó, e seus planos são frustrados.
64. Quanto a vós, meus filhos, sede corajosos e destemidos em observar a lei, porque por ela chegareis à glória.
65. Aqui tendes Simão, irmão vosso, eu sei que ele é homem de conselho, ouvi-o sempre e será para vós um pai.
66. Judas Macabeu, bravo desde a juventude: será o general do exército e dirigirá a guerra contra os gentios.
67. Atraireis a vós todos os que observam a lei e vingareis vosso povo.
68. Pagai aos gentios o que nos fizeram e atendei aos preceitos da lei.
69. Depois disso abençoou-os e foi unir-se aos seus pais.
70. Morreu no ano cento e quarenta e seis. Seus filhos sepultaram-no em Modin, entre as sepulturas de seus antepassados, e todo o Israel o chorou dolorosamente.

 
Capítulo 3

1. Seu filho Judas, cognominado Macabeu, ficou em seu lugar.
2. Todos os seus irmãos o auxiliaram, bem como todos os que se tinham unido a seu pai, aceitando generosamente a promessa de combater por Israel.
3. Dilatou a glória do povo; revestiu-se com a couraça como um gigante, cingiu-se com as armas de guerra, e empenhava-se nos combates, protegendo seu exército com sua espada.
4. Assemelhava-se nas ações a um leão, e parecia um leãozinho que ruge na caçada.
5. Perseguia e rebuscava com cuidado os traidores e lançava ao fogo os que perseguiam seu povo.
6. Os maus recuavam diante dele transidos de medo, tremiam os que praticavam o mal e a salvação do povo firmava-se em suas mãos.
7. Seus feitos exasperavam os reis, mas alegravam Jacó, e sua memória permaneceu eternamente bendita.
8. Percorreu as cidades expulsando de Judá os ímpios, desviando assim de Israel a cólera divina.
9. Seu nome foi pronunciado até as extremidades da terra, e ele conseguiu a adesão daqueles que estavam a ponto de perecer.
10. Aconteceu que Apolônio convocou os gentios e, de Samaria, partiu com um grande exército para pelejar contra Israel.
11. Soube-o Judas, saiu-lhe ao encontro, venceu-o e o matou; muitos caíram aos seus golpes e os restantes puseram-se em fuga.
12. Apoderou-se dos espólios, tomou a espada de Apolônio, e desde então usava-a sempre nos combates.
13. Seron, general do exército sírio, veio a saber que Judas cercara-se de soldados fiéis convocados e que ele os levara ao combate.
14. Tornar-me-ei célebre, disse ele, e cobrir-me-ei de glória no reino, vencerei Judas com seus correligionários, que se opõem às ordens reais.
15. Armou-se ele para a guerra. Um poderoso exército de ímpios marchou com ele, para reforçar e tomar vingança dos filhos de Israel.
16. Avançaram até a muralha de Betoron e Judas, seguido de poucos homens, foi-lhe ao encontro.
17. Mas à vista do exército que vinha contra eles, os companheiros de Judas disseram-lhe: Como poderemos enfrentar tamanho exército, se somos tão poucos, tanto mais que nos sentimos fracos, porque hoje nada temos comido?
18. É fácil, respondeu Judas, a um punhado de gente fazer-se respeitar por muitos; para o Deus do céu não há diferença entre a salvação de uma multidão e de um punhado de homens,
19. porque a vitória no combate não depende do número, mas da força que desce do céu.
20. Esta gente vem contra nós, com insolência e orgulho, para nos aniquilar, juntamente com nossas mulheres e nossos filhos, e para nos despojar;
21. nós, porém, lutamos por nossas vidas e nossas leis.
22. O próprio Deus os esmagará aos nossos olhos. Não os temais.
23. E logo que cessara de falar, arrojou-se Judas com rapidez sobre os inimigos, e Seron diante dele foi derrotado com seu exército;
24. e Judas o perseguiu na descida de Betoron até a planície. Morreram cerca de oitocentos sírios e os restantes fugiram para a terra dos filisteus.
25. E foi assim que se espalhou o terror de Judas e dos seus irmãos e todos os povos das vizinhanças encheram-se de consternação.
26. Seu nome chegou aos ouvidos do rei, e todas as nações comentaram os feitos heróicos de Judas.
27. Quando o rei Antíoco soube dessas novas, encolerizou-se terrivelmente, reuniu todas as forças do reino, de que formou um exército poderosíssimo.
28. Abriu seu tesouro, e deu ao exército o soldo de um ano com a ordem de estarem prontos para qualquer eventualidade.
29. No entanto viu que lhe faltava dinheiro no tesouro e que os tributos do território eram deficientes em vista das perturbações e da maldade que havia provocado, suprimindo em toda a parte as instituições em vigor, desde outrora.
30. Receou, portanto, não poder pagar as despesas, como fizera já uma ou duas vezes, e outorgar as liberalidades, que distribuía em certo tempo com mão generosa, porque excedia em liberalidade a todos os reis, seus predecessores.
31. Profundamente consternado, resolveu ir à Pérsia cobrar os tributos dessas regiões e ajuntar muito dinheiro.
32. Deixou Lísias, pessoa de relevo, de linhagem real, para dirigir os negócios do reino, do Eufrates às fronteiras do Egito,
33. e ocupar-se, até sua volta, de seu filho Antíoco.
34. Deixou-lhe a metade do exército do reino, com os elefantes, e deu-lhe as instruções referentes à execução de suas vontades, especialmente o que dizia respeito aos habitantes da Judéia e de Jerusalém:
35. ele devia enviar um exército contra eles, para destruir e aniquilar o poderio de Israel e o que restava de Jerusalém, e apagar desses lugares até a sua lembrança
36. e estabelecer em todos os seus confins estrangeiros, aos quais distribuiria por meio de sorte as terras.
37. O rei tomou a outra metade do exército, partiu de Antioquia, capital de seu reino, pelo ano cento e quarenta e sete, passou o Eufrates e atravessou as terras superiores.
38. Lísias escolheu Ptolomeu, filho de Dorímino, Nicanor e Górgias, valorosos generais e familiares do rei;
39. enviou com estes quarenta mil homens e sete mil cavaleiros para invadir e devastar o país de Judá, conforme a ordem do rei.
40. Postos a caminho com todas essas tropas, chegaram à planície de Emaús e penetraram nela.
41. Quando os mercadores ouviram falar deles, tomaram muita prata e ouro e se dirigiram com peias ao campo para comprar os filhos de Israel como escravos. Exércitos da Síria, bem como do estrangeiro, vieram juntar-se a eles.
42. Judas e seus irmãos viram que a situação era grave e que as forças inimigas acampavam dentro de suas fronteiras. Sabendo também como o rei havia ordenado de tratar o povo para destruí-lo e exterminá-lo,
43. disseram uns aos outros: Levantemos nossa pátria de seu abatimento e lutemos por nosso povo e nossa religião.
44. Convocaram então toda a gente, a fim de se prepararem para a luta, de rezarem, de implorarem piedade e misericórdia de Deus.
45. Porquanto Jerusalém estava desabitada e deserta: não havia um só de seus filhos que nela entrasse ou dela saísse. Seu santuário estava profanado, soldados estrangeiros ocupavam a cidadela, gentios faziam ali sua habitação. Toda a alegria havia desaparecido de Jacó; a flauta e a harpa estavam caladas.
46. Os israelitas se ajuntaram, pois, e se dirigiram a Masfa, defronte de Jerusalém, porque tinham tido outrora, em Masfa, um lugar de oração.
47. Jejuaram aquele dia, vestiram-se com sacos, cobriram a cabeça com cinza e rasgaram suas vestes.
48. Abriram um dos livros da Lei, para ler nele o que os gentios perguntavam às representações de seus falsos deuses;
49. trouxeram os ornamentos sacerdotais, as primícias e os dízimos e mandaram vir os nazarenos que haviam cumprido o tempo de seu voto;
50. em seguida sua voz se elevou com força ao céu: Que havemos nós de fazer destas ofertas e para onde vamos nós levá-las?
51. Vosso santuário está profanado e manchado, vossos sacerdotes estão em luto e na humilhação,
52. as nações se coligaram para nos aniquilar e vós sabeis o que elas tramam contra nós.
53. Como resistir diante deles, se vós não vierdes em nosso auxílio?
54. Então eles soaram a trombeta e fizeram um grande clamor.
55. Depois disso Judas nomeou chefes para grupos de mil, cem, cinqüenta e dez homens,
56. e disse aos que acabavam de construir uma casa, de tomar mulher, plantar uma vinha, ou que tinham medo, que voltassem cada qual para sua casa, conforme a lei.
57. Os israelitas se puseram então a caminho e vieram acampar ao sul de Emaús.
58. Preparai-vos, disse-lhes Judas, sede corajosos e estai prontos desde a manhã para o combate a essas nações que estão unidas para nos arruinar, a nós e tudo o que possuímos de sagrado;
59. porquanto é preferível morrer no combate, que ver nosso povo perseguido e profanado nosso santuário.
60. Que se faça somente a vontade de Deus!

 
Capítulo 4

1. Tomando consigo cinco mil homens e mil cavaleiros de elite, Górgias se pôs a caminho à noite
2. para surpreender o acampamento dos judeus e atacá-lo de improviso. A gente da cidadela servia-lhe de guia.
3. Mas Judas o soube, e com seus destemidos companheiros saiu para esmagar aquelas forças do rei que tinham ficado perto de Emaús,
4. enquanto as tropas estavam espalhadas na planície.
5. Chegou Górgias à noite ao acampamento de Judas, mas não encontrou ninguém; pôs-se então à sua procura nas montanhas, dizendo: Fugiram diante de nós.
6. Todavia Judas apareceu na planície ao despertar do dia com três mil homens, que, excetuando espadas e escudos, não estavam armados como o teriam querido;
7. entrementes viram eles o campo dos gentios poderoso, fortificado de cavalaria e os próprios inimigos prontos para o combate.
8. Não temais seu número, disse Judas a seus companheiros, e nem receeis seu choque.
9. Lembrai-vos como nossos pais foram salvos no mar Vermelho, quando o faraó os perseguia com seu exército.
10. Gritemos agora para o céu para que ele se apiade de nós, que se lembre da Aliança com nossos antepassados e queira hoje esmagar esse exército aos nossos olhos.
11. Todas as nações saberão que Israel possui um libertador e um salvador.
12. Erguendo os olhos, os gentios viram-nos avançar contra eles
13. e saíram do acampamento para a luta, enquanto os homens de Judas soavam a trombeta.
14. Travou-se a batalha, mas os inimigos, derrotados, puseram-se em fuga através da planície.
15. Os últimos tombaram todos sob a espada, enquanto eram perseguidos até Gazara e as planícies de Iduméia, de Azot e de Jânia. E sucumbiram cerca de três mil.
16. Então Judas parou de persegui-los, voltou atrás com suas tropas pelo mesmo caminho,
17. e disse: Não penseis nos despojos, porque outro combate nos aguarda:
18. Górgias está perto de nós na montanha, com suas forças. No momento, enfrentai o inimigo e combatei; após isto, podereis apoderar-vos de seus despojos, com toda a segurança.
19. Ainda Judas falava, quando alguns homens apareceram e olharam de cima da montanha.
20. Viram que o exército tinha sido posto em fuga e que o acampamento se queimava porque a fumaça que se percebia indicava o que se passara.
21. À vista disso todos foram tomados de grande espanto e, certificando-se de que o exército de Judas se achava na planície, pronto para o combate,
22. fugiram todos para terra estrangeira.
23. Judas voltou para pilhar o acampamento, e seus homens apoderaram-se de muito ouro, prata, jacinto, púrpura marinha, e de grandes riquezas.
24. Ao voltarem, cantavam hinos e elevavam ao céu os louvores do Senhor, porque ele é bom e sua misericórdia é eterna.
25. Israel foi, com efeito, naquele dia salvo de um grande perigo.
26. Os gentios que escaparam vieram contar a Lísias os acontecimentos,
27. o qual ficou consternado e abatido ouvindo-os, porque Israel não tinha sido tratado como ele quis, e porque as ordens do rei não tinham sido cumpridas.
28. Por isso, no ano seguinte, reuniu Lísias sessenta mil infantes escolhidos e cinco mil cavaleiros para acabar com os judeus.
29. Esse exército veio da Iduméia acampar em Betsur. Judas foi-lhe ao encontro com dez mil homens.
30. Tendo ante os olhos esse poderoso exército, rezou nestes termos: Sede bendito, Salvador de Israel, vós que quebrastes a força do poderoso pela mão do vosso servo Davi e entregastes os exércitos estrangeiros nas mãos de Jônatas e do seu escudeiro.
31. Entregai esse exército ao poder do povo de Israel e confundi nossos inimigos com suas tropas e sua cavalaria.
32. Inspirai-lhes o terror, fazei derreter seu orgulho audaz. Que eles sejam sacudidos e pisados.
33. Derribai-os sob a espada dos que vos amam e que todos aqueles que conhecem vosso nome cantem vossos louvores.
34. Travou-se então o combate, e do exército de Lísias tombaram cinco mil homens, que sucumbiram diante deles.
35. Vendo seu exército posto em fuga e os judeus cheios de bravura, prontos a viver ou a morrer valentemente, voltou Lísias a Antioquia para arregimentar tropas de mercenários, com o intuito de reaparecer na Judéia com um exército mais forte.
36. Judas e seus irmãos disseram então: Eis que nossos inimigos estão aniquilados; subamos agora a purificar e consagrar de novo os lugares santos.
37. Reunido todo o exército, subiram à montanha de Sião.
38. Contemplaram a desolação dos lugares santos, o altar profanado, as portas queimadas, os átrios cheios de arbustos que tinham nascido como num bosque ou sobre as colinas, os aposentos demolidos.
39. Rasgando suas vestes, eles se lamentaram muito e cobriram as cabeças com cinza,
40. prostraram-se com o rosto por terra, tocaram as trombetas e ergueram clamores ao céu.
41. Então Judas encarregou alguns homens de combater os soldados da cidadela, enquanto purificavam o templo.
42. Escolheu sacerdotes sem mancha e zelosos pela lei,
43. os quais purificaram o templo, transportando para um lugar impuro as pedras contaminadas.
44. Consultaram-se entre si, o que se deveria fazer do altar dos holocaustos, que havia sido profanado,
45. e tomaram a excelente resolução de demoli-lo, para que não recaísse sobre eles o opróbrio vindo da mancha dos gentios. Destruíram-no, portanto,
46. e transportaram suas pedras a um lugar conveniente sobre a montanha do templo, aguardando a decisão de algum profeta a esse respeito.
47. Tomaram pedras intactas, segundo a lei, e construíram um novo altar, semelhante ao primeiro.
48. Restauraram também o templo e o interior do templo e purificaram os átrios.
49. Fizeram novos vasos sagrados e transportaram ao santuário o candeeiro, o altar dos perfumes, e a mesa.
50. Queimaram incenso no altar, acenderam as lâmpadas do candeeiro, para alumiarem o templo,
51. colocaram pães sobre a mesa e suspenderam os véus, terminando completamente seu trabalho.
52. No dia vinte e cinco do nono mês, isto é, do mês de Casleu, do ano cento e quarenta e oito, eles se levantaram muito cedo,
53. e ofereceram um sacrifício legal sobre o novo altar dos holocautos, que haviam construído.
54. Foi no mesmo dia e na mesma data em que os gentios o haviam profanado, que o altar foi de novo consagrado ao som de cânticos, das harpas, das liras e dos címbalos.
55. Todo o povo se prostrou com o rosto em terra para adorar e bendizer no céu aquele que os havia conduzido ao triunfo.
56. Prolongaram por oito dias a dedicação do altar, oferecendo com alegria holocaustos e sacrifícios de ações de graças e de louvores.
57. Adornaram a fachada do templo com coroas de ouro e com pequenos escudos, consagraram as entradas do templo e os quartos, nos quais colocaram portas.
58. Reinou uma alegria imensa entre o povo e o opróbrio das nações foi afastado.
59. Foi estabelecido por Judas e seus irmãos, e por toda a assembléia de Israel que os dias da dedicação do altar seriam celebrados cada ano em sua data própria, durante oito dias, a partir do dia vinte e cinco do mês de Casleu, e isto com alegria e regozijo.
60. Na mesma época cercaram a montanha de Sião com uma alta muralha com fortes torres, para que não fosse mais possível às nações pisá-la aos pés, como outrora.
61. Judas pôs ali tropas para guardá-la e fortificou também Betsur para protegê-la, a fim de que o povo tivesse uma muralha do lado da Iduméia.

 
Capítulo 5

1. Ora, ouvindo falar da reconstrução do altar e da restauração do templo, os povos circunvizinhos encolerizaram-se muito, e,
2. tomada a resolução de exterminar toda a raça de Jacó, que vivesse entre eles, puseram-se a matá-los e a persegui-los.
3. Por eles perseguirem desse modo Israel, Judas atacou os filhos de Esaú na Iduméia, junto de Acrabatan, infligiu-lhes uma grande derrota, esmagou-os e apoderou-se de seus despojos.
4. Lembrou-se igualmente da malícia dos filhos de Bean, armadilha e perigo para seu povo, por causa das emboscadas que eles armavam nos caminhos.
5. Foram rechaçados em suas torres, onde ele os sitiou e os exterminou, queimando as torres com todos os que ali se achavam.
6. Em seguida atacou os amonitas, entre os quais ele descobriu um forte exército e numeroso povo, sob a chefia de Timóteo.
7. Travou com eles numerosos combates; foram aniquilados aos seus olhos e despedaçou-os.
8. Apoderou-se da cidade de Jazer e de seus arrabaldes e voltou depois à Judéia.
9. No entanto, as nações de Galaad se coligaram contra os israelitas, que habitavam seu território, com a intenção de exterminá-los, mas estes se refugiaram no forte de Datema
10. e enviaram uma mensagem a Judas e a seus irmãos, nestes termos: As nações que nos cercam se uniram contra nós e querem exterminar-nos.
11. Preparam-se para vir tomar a fortaleza, em que nos achamos refugiados. Timóteo chefia suas tropas.
12. Vinde, pois, agora nos livrar de suas mãos, porque muitos dos nossos foram mortos.
13. Mataram todos os nossos irmãos que se achavam na região de Tob, levaram consigo suas mulheres, seus filhos e seus bens e mataram, lá perto de cem mil homens.
14. Quando ainda se estava lendo essa carta, eis que chegam outros da Galiléia, com as vestes em farrapos e portadores de notícias idênticas,
15. dizendo: Congregaram-se contra nós nações de Ptolemaida, de Tiro, de Sidônia, e de toda a Galiléia das Nações, para nos destruir inteiramente.
16. Logo que Judas e o povo souberam da situação, organizaram uma grande assembléia, para deliberar sobre o que se deveria fazer em favor dos irmãos atacados e provados.
17. Disse Judas a seu irmão Simão: Escolhe homens e põe-te a caminho para livrar teus irmãos da Galiléia; Jônatas, meu irmão, e eu dirigir-nos-emos à terra de Galaad.
18. Para guardar a Judéia deixou ali José, filho de Zacarias, e Azarias, chefe do povo, à frente do resto do exército,
19. com esta ordem: Governai este povo e, até nossa volta, evitai toda luta com os gentios.
20. A Simão foram dados três mil homens, para se dirigir à Galiléia, e a Judas oito mil, para ocupar a terra de Galaad.
21. Simão tomou, portanto, o caminho da Galiléia e sustentou muitos combates, esmagando diante dele as nações,
22. as quais perseguiu até as portas de Ptolemaida. Perto de três mil gentios caíram e ele se apoderou de seus despojos.
23. Com grandes manifestações de regozijo, conduziu à Judéia os judeus que se achavam na Galiléia e em Arbates, bem como suas mulheres, seus filhos e tudo o que eles possuíam.
24. Por seu lado, Judas Macabeu e seu irmão Jônatas atravessaram o Jordão e andaram três dias pelo deserto.
25. Encontraram os nabateus, os quais se aproximaram deles pacificamente e lhes contaram tudo aquilo que tinha acontecido a seus irmãos em Galaad,
26. dizendo que muitos dentre eles haviam sido encerrados em Bosra e Bosor, em Alema, em Casfor, em Maked, e em Carnaim, todas elas cidades grandes e fortificadas.
27. Eles estão também reunidos, acrescentaram eles, nas outras cidades de Galaad. Seus inimigos se preparam para atacar amanhã suas fortificações, apoderar-se deles e exterminá-los num só dia.
28. Judas mudou de caminho e atravessou o deserto para alcançar Bosor de improviso. Tomou a cidade, mandou passar a fio de espada todos os homens, apoderou-se dos espólios e incendiou a cidade.
29. Na mesma noite partiu e atacou a fortaleza.
30. No entanto, ao romper do dia, seus homens, erguendo os olhos, viram uma multidão incalculável carregando escadas e máquinas para escalar de assalto a fortaleza, e começando já o ataque.
31. Enquanto a cidade erguia um clamor, misturado ao som da trombeta e um ruído formidável, viu Judas que o ataque estava começado
32. e disse a seus homens: Pelejai hoje por vossos irmãos.
33. Separou-os em três batalhões e apareceu na retaguarda do inimigo, tocando a trombeta e erguendo preces em alta voz.
34. O exército de Timóteo conheceu que era Macabeu e fugiu diante dele. Sofreu uma grande derrota e tombaram nesse dia oito mil homens.
35. Judas voltou-se em seguida para Alema; atacou-a e conquistou-a de assalto. Matou todos os homens, tomou seus despojos e incendiou-a.
36. Dali continuou e apoderou-se de Casfor, de Maked, de Bosor e das outras cidades de Galaad.
37. Depois de tudo o que temos acabado de dizer, Timóteo reuniu um novo exército, acampou do outro lado da corrente, defronte de Rafon.
38. Imediatamente Judas mandou alguém espionar sua posição, e vieram-lhe dizer: Todas as nações circunvizinhas se uniram contra nós formando um poderoso exército.
39. Tomaram em seu auxílio mercenários árabes, e se estabeleceram do outro lado do rio, prontos a atravessá-lo, para vir atacar-te. Judas foi então contra ele.
40. Ao chegar Judas com suas tropas à torrente, disse Timóteo, por sua vez, aos oficiais de seu exército: Se ele atravessar primeiro a torrente contra nós, nós não lhe poderemos resistir, porque terá vantagem sobre nós;
41. mas se ele temer passar e acampar do outro lado do rio, nós atravessaremos e teremos vantagem sobre ele.
42. Ora, logo que chegaram à torrente, Judas pôs ao longo do rio os escribas do povo, com a seguinte ordem: Não deixeis ninguém se instalar aqui, mas venham todos ao combate.
43. E foi ele o primeiro a se arrojar, e todo o povo o seguiu. Os gentios foram derrotados aos seus olhares, lançaram suas armas e fugiram para o templo de Carnaim.
44. Os judeus, porém, apoderaram-se da cidade e incendiaram o templo, com todos aqueles que ali se achavam. Carnaim foi assolada e não pôde mais resistir a Judas.
45. Este reuniu todos os judeus da terra de Galaad, do menor ao maior, as mulheres, as crianças e seus haveres, uma multidão enorme que ele resolveu conduzir à terra de Judá.
46. Caminharam até Efron, cidade muito grande e bem fortificada, que se achava no caminho da volta. Não se podia contorná-la nem pela direita, nem pela esquerda, mas era preciso atravessá-la.
47. Os habitantes fecharam as portas e se entrincheiraram com pedras. Judas, todavia, enviou-lhes mensageiros com palavras de paz:
48. Atravessaremos vossa terra, para irmos à nossa, e ninguém vos molestará, apenas passaremos. Mas eles não lhes quiseram abrir o acesso.
49. Então Judas ordenou que cada um em seu posto se dispusesse para a luta.
50. Todos os homens do exército se prepararam, pois. Durante todo o dia e toda a noite assaltaram a cidade, e esta caiu em suas mãos.
51. Passaram a fio da espada todos os homens, destruíram completamente a cidade, apoderaram-se dos espólios e atravessaram por cima dos seus cadáveres.
52. Depois a caravana passou o Jordão, para chegar à grande planície, em frente a Betsã.
53. Em caminho, Judas não cessava de ajuntar os retardatários e de encorajar a multidão até que chegassem à terra de Judá.
54. Escalaram a montanha de Sião com alegria e regozijo e ofereceram holocaustos, por terem voltado em paz, sem que ninguém dentre eles tivesse sucumbido.
55. Ora, enquanto Judas se achava em Galaad com Jônatas, e seu irmão Simão na Galiléia diante de Ptolemaida,
56. José, filho de Zacarias, e Azarias, à frente de suas tropas, souberam de seus feitos heróicos e de suas proezas.
57. Façamos também nós célebre o nosso nome, disse um para o outro, e vamos combater nações vizinhas.
58. Transmitiram ordens às forças, que eles tinham consigo, e foram contra Jânia.
59. Mas Górgias saiu com seus homens para opor-se à sua investida.
60. José e Azarias foram postos em fuga e perseguidos até as fronteiras da Judéia. Pereceram nesse dia cerca de dois mil homens de Israel, e foi grande a derrota do povo,
61. isso porque não haviam escutado Judas, supondo que mostrariam seu valor,
62. mas não pertenciam à raça desses homens, a quem era dado salvar Israel.
63. O valoroso Judas e seus irmãos foram de modo particular honrados por todo o povo de Israel e por todas as nações onde penetrava seu nome.
64. Vinham em grande número para aclamá-los.
65. Entrementes, Judas e seus irmãos partiram para combater os filhos de Esaú, que habitavam no sul. Abateu Hebron e seus arrabaldes, destruiu as fortificações e queimou todas as torres dos arredores.
66. Partiu ainda para atingir a terra dos estrangeiros e atravessou Marisa.
67. Naquele dia pereceram alguns sacerdotes no combate, por terem querido mostrar sua valentia, saindo imprudentemente para travarem combate.
68. Judas voltou para Azot, na terra dos estrangeiros, derrubou seus altares, queimou seus ídolos, sujeitou suas cidades à pilhagem e em seguida voltou para a terra de Judá.

 
Capítulo 6

1. Enquanto percorria as províncias superiores, soube o rei Antíoco que na Pérsia, em Elimaida, havia uma cidade famosa por suas riquezas, sua prata e ouro.
2. Seu templo, extremamente rico, possuía véus de ouro, escudos, couraças e armas, abandonados ali por Alexandre, filho de Filipe, rei da Macedônia, que foi o primeiro a reinar sobre a Grécia.
3. Dirigiu-se ele para essa cidade, com a finalidade de tomá-la e pilhá-la, mas foi em vão, porque os habitantes haviam sido prevenidos.
4. Eles se aprontaram para lhe resistir e ele teve que voltar de lá, para alcançar Babilônia com grande humilhação.
5. E eis que, na Pérsia, um mensageiro veio dizer-lhe que as tropas enviadas à Judéia tinham sido derrotadas,
6. e que Lísias, tendo partido a princípio com um poderoso exército, havia fugido na presença dos judeus, os quais haviam aumentado ainda suas forças com armas e tropas e se tinham enriquecido com todo o material raptado de seus campos devastados.
7. Eles tinham também destruído a abominação edificada por ele sobre o altar, em Jerusalém, e haviam cercado o templo com altas muralhas, como outrora, assim como a cidade de Betsur.
8. Ouvindo essas novas, o rei ficou irado e profundamente perturbado. Atirou-se à cama e caiu doente de tristeza, porque os acontecimentos não tinham correspondido à sua expectativa.
9. Passou assim muitos dias, porque sua mágoa se renovava sem cessar, e pensava na morte.
10. Mandou chamar todos os seus amigos e lhes disse: O sono fugiu dos meus olhos e meu coração desfalece de tristeza.
11. Eu repito para mim mesmo: Em que aflição fui eu cair e a que desolação fui eu reduzido até o presente, eu que era bom e querido no tempo de meu poder?
12. Mas agora eu me lembro dos males que causei em Jerusalém, de todos os objetos de ouro e de prata que saqueei, e de todos os habitantes da Judéia que exterminei sem motivo.
13. Reconheço que foi por causa disso que todos esses males me fulminaram, e agora morro de tristeza numa terra estrangeira.
14. Ele chamou Filipe, um de seus amigos, e constituiu-o regente de todo o seu reino.
15. Entregou-lhe seu diadema, seu manto, e seu anel, com a responsabilidade de guiar seu filho Antíoco e de educá-lo para sua realeza.
16. O rei Antíoco morreu ali no ano cento e quarenta e nove.
17. Por sua vez soube Lísias que o rei havia morrido e elevou ao trono seu filho Antíoco que ele havia educado desde a infância, e a quem ele dera o nome de Eupator.
18. Nesse ínterim, os ocupantes da cidadela importunavam os judeus que se dirigiam ao templo, procuravam constantemente causar-lhes dano, para apoiar os gentios.
19. Judas resolveu arrancar-lhes das mãos a cidadela e convocou todo o povo para sitiá-los.
20. Reuniram-se, portanto, para começar o cerco no ano cento e cinqüenta, e construíram balistas e máquinas.
21. Mas alguns dos sitiados, aos quais se juntaram alguns israelitas perversos, fugiram
22. e correram ao rei para lhe dizer: Até quando deixarás de fazer justiça e vingar nossos irmãos?
23. Julgamos bom servir a teu pai, obedecer suas ordens e seguir suas leis;
24. e os filhos de nosso povo se afastaram de nós como dos estrangeiros. Eles cercam a cidadela; mal capturam um dos nossos, matam-no e pilham os nossos bens.
25. E não é somente sobre nós que eles estendem a mão, mas ainda contra os povos vizinhos.
26. Eis que hoje eles se empossaram da cidadela, para serem senhores do templo e da cidade, e fortificaram Betsur.
27. Se tu não os prevenires, farão ainda piores males e tu não poderás mais detê-los.
28. A estas palavras o rei se encolerizou e convocou todos os seus amigos, os generais de seus exércitos e os chefes de sua cavalaria.
29. E ajuntaram-se a ele outros reinos e ilhas marítimas, tropas de mercenários;
30. e seu exército atingiu a cem mil infantes, vinte mil cavaleiros e trinta e dois elefantes, prontos para a guerra.
31. Atravessaram eles a Iduméia e acamparam defronte a Betsur, onde combateram por muito tempo; construíram máquinas, mas os sitiados saíram e lançaram fogo, lutando com coragem.
32. Abandonando a cidadela, veio Judas estabelecer-se em Betzacara, defronte do campo de luta do rei.
33. Ao amanhecer, levantou-se o rei e dirigiu impetuosamente suas tropas em direção a Betzacara: as forças se prepararam para o combate, e soaram as trombetas.
34. Mostraram aos elefantes suco de uvas e de amoras para incitá-los ao combate.
35. Foram repartidos nas falanges, pondo-se em volta de cada elefante mil homens armados de cotas de malhas e de capacetes de bronze para a cabeça, e quinhentos cavaleiros escolhidos estavam igualmente ao redor de cada animal.
36. Esses cavaleiros tinham o costume de estar com o animal onde quer que ele estivesse e de ir aonde ele ia sem jamais se afastarem dele.
37. Sobre cada um havia também fortes torres de madeira, muito firmes e defendidas pelas máquinas. Sobre cada um achavam-se também valentes guerreiros, que combatiam lá em cima, e, finalmente, seu condutor indiano.
38. O restante da cavalaria, colocada de um lado e de outro, nas duas alas, manobrava cobrindo as falanges.
39. Quando o sol brilhou sobre os escudos de ouro e bronze, a montanha resplandeceu, como que iluminada por outras tantas lâmpadas.
40. Uma parte das tropas do rei se espalhou sobre as colinas e outra na planície, caminhando com precaução e em boa ordem.
41. O ruído de seu número, de sua marcha, da colisão de suas armas era pavoroso, porque era um exército extremamente numeroso e possante.
42. Judas, no entanto, avançou com os seus para travar a batalha, e seiscentos homens do exército do rei foram aniquilados.
43. Eleazar, cognominado Avarã, viu que um dos elefantes estava armado com um couraçado real e ultrapassava todos os outros; ele julgou que o rei o montasse.
44. Projetou então salvar todo o povo e conquistar um nome eterno.
45. Precipitou-se audaciosamente nessa direção, para o meio da falange, matando à direita e à esquerda e separando o inimigo de lado a lado.
46. Meteu-se debaixo do elefante e, tomando posição abaixo dele, matou-o. O animal rolou sobre ele, e ele morreu ali.
47. No entanto, averiguando o poder do exército real e a impetuosidade de suas tropas, retiraram-se os judeus.
48. Mas os soldados do rei subiram-lhe ao encontro até Jerusalém, dirigindo-se então o rei à Judéia e ao monte Sião.
49. Fez igualmente a paz com os habitantes de Betsur, porquanto estes saíram da cidade, porque já não tinham víveres para continuarem ali, pois era o ano sabático.
50. Assim o rei apoderou-se da cidade e pôs nela uma guarnição.
51. Por muitos dias cercou a cidade santa, construiu máquinas, guindastes para lançar fogo ou pedras, escorpiões para lançar flechas e fundas.
52. De seu lado, os sitiados construíram também máquinas, para se oporem aos seus inimigos, e combateram por muito tempo.
53. Todavia faltavam víveres nos celeiros, por ser o sétimo ano e todos os que se achavam refugiados na Judéia, para fugir dos gentios, haviam esgotado o resto da reserva.
54. Restavam afinal poucos homens para a defesa do templo, atingidos como estavam pela fome e por dispersarem-se cada um para sua casa.
55. Filipe, que antes de morrer o rei Antíoco fora designado para educar seu filho Antíoco para a realeza,
56. tinha chegado da Pérsia e da Média com o exército do rei e procurava apoderar-se do governo.
57. Soube-o Lísias e apressou a partida dizendo ao rei, aos oficiais e aos homens: Nós nos vamos enfraquecendo aqui dia por dia, temos poucos víveres, e o lugar que sitiamos é forte, enquanto nos devemos ocupar com os negócios do reino.
58. Estendamos a mão a esses homens e façamos paz com eles e com toda a sua raça.
59. Deixemo-los viver como outrora segundo as suas próprias leis, porque foi por causa dessas leis que nós abolimos, que eles se revoltaram e fizeram tudo isso.
60. Essa proposta agradou ao rei e aos generais. Enviou, pois, alguém para tratar da paz com os sitiados, que a aceitaram.
61. Sob a palavra do juramento feito pelo rei e os generais, abandonaram a fortaleza.
62. O rei subiu o monte Sião e visitou as fortificações, mas quebrou a palavra dada e ordenou a destruição da muralha.
63. Em seguida, partiu a toda a pressa, recuperou Antioquia, onde achou Filipe como senhor da cidade. Atacou-a e tomou a cidade à força.

 
Capítulo 7

1. No ano cento e cinqüenta e um, Demétrio, filho de Seleuco, escapou de Roma e, com alguns companheiros, alcançou uma cidade marítima onde se proclamou rei.
2. Quando ele entrou no palácio real de seus pais, o exército se apoderou de Antíoco e de Lísias para conduzi-los a ele.
3. Soube-o o rei e disse: Não me mostreis a sua face.
4. E o exército os matou, e Demétrio sentou-se no trono que lhe cabia.
5. Todos os traidores e os ímpios de Israel achegaram-se dele sob a chefia de Alcimo, que aspirava tornar-se sumo sacerdote.
6. Acusaram o povo nestes termos: Judas e seus irmãos mataram todos os teus amigos e nos expulsaram de nosso país.
7. Envia portanto, agora, um homem que possua tua confiança e que venha ver em que triste situação nos puseram, a nós e ao país que pertence ao rei, para castigar a eles e a todos os seus partidários.
8. O rei escolheu Báquides, um de seus amigos, então governador além do rio, um dos grandes do reino e fiel ao rei. Enviou-o
9. com o ímpio Alcimo, a quem destinou o cargo de sumo sacerdote, e deu-lhe ordem de tomar vingança dos filhos de Israel.
10. Partiram, pois, e tomaram o caminho do país de Judá com um forte exército, enviando a Judas e seus irmãos palavras de paz capciosas.
11. Vendo-os chegar com numerosas tropas, estes não lhes deram ouvido.
12. Houve todavia um grupo de escribas que foi ter com Alcimo e Báquides, com palavras de justas reivindicações.
13. Estes assideus, que eram os mais benquistos em Israel, pediam-lhes a paz.
14. Diziam entre si: É um sacerdote da raça de Aarão que vem a nós com exército, ele não nos fará mal algum.
15. Alcimo trocou com eles palavras de paz e lhes jurou: Não faremos mal nem a vós, nem a vossos amigos.
16. Acreditaram neles, mas ele apoderou-se de sessenta deles e mandou-os matar no mesmo dia, conforme estava escrito:
17. Espalharam a carne e o sangue dos teus santos ao redor de Jerusalém, e não havia ninguém para sepultá-los (Sl 78,3).
18. O assombro e o terror apoderou-se do povo, porque se dizia: Não há entre eles nem verdade nem justiça, depois que violaram o pacto e o juramento, que haviam confirmado.
19. Báquides afastou-se de Jerusalém e instalou seu acampamento em Bezet, onde prendeu e lançou numa grande cisterna muitos desertores de seu exército e algumas pessoas do país.
20. Confiou a terra nas mãos de Alcimo e, deixando-lhe um exército para socorrê-lo, regressou para junto do rei.
21. Entretanto, Alcimo teve que lutar para se impor como sumo sacerdote.
22. Agrupavam-se ao redor dele todos os perturbadores do povo com os quais ele se tornara senhor da terra de Judá e foi um tempo doloroso para Israel.
23. Judas viu que o mal que Alcimo e seus cúmplices faziam aos filhos de Israel era pior ainda que o mal praticado pelos gentios.
24. Por isso percorreu ele toda a terra da Judéia, até as fronteiras, vingando-se dos traidores e impedindo-lhes a volta ao país.
25. Vendo Alcimo que Judas com os seus eram mais fortes e reconhecendo sua impotência em lhes resistir, refugiou-se junto do rei e acusou-os dos piores crimes.
26. O rei enviou Nicanor, general eminente, que detestava e odiava Israel, com a ordem de exterminar esse povo.
27. Nicanor partiu para Jerusalém com um numeroso exército e mandou levar a Judas e a seus irmãos falsas palavras de paz:
28. Que não haja guerra entre vós e mim. Chegarei somente com um punhado de homens para te ver, como amigo.
29. Com efeito, ele chegou e saudaram-se pacificamente, mas seus soldados se achavam prontos para se lançarem sobre Judas.
30. Todavia, Judas estava a par dos desígnios pérfidos de Nicanor a afastou-se dele, recusando vê-lo de novo.
31. Reconheceu Nicanor que seu projeto fora descoberto e propôs a Judas uma batalha perto de Cafarsalama.
32. Foram mortos do seu exército quinhentos homens e o resto fugiu para a cidade de Davi.
33. Após o combate, subiu Nicanor a colina de Sião, e sacerdotes saíram do templo com anciãos do povo, para saudá-lo em espírito de paz, e mostrar-lhe o holocausto que se oferecia pelo rei,
34. mas ele escarnecia deles, dirigia-lhes mofas, desprezava-os e falava-lhes com desdém,
35. jurando em sua ira: Se Judas não me for entregue imediatamente com seu exército, afirmo, logo que estabelecer a paz, retornarei e lançarei fogo a esta casa. Partiu depois todo enfurecido.
36. Então os sacerdotes entraram, e, em pé diante do altar e do templo, choraram dizendo:
37. Fostes vós que escolhestes esta casa, para que se invoque nela vosso nome e para que ela seja uma casa de súplicas, de orações pelo vosso povo.
38. Tomai vingança desse homem e de seu exército, e que eles caiam sob o golpe da espada. Lembrai-vos de suas blasfêmias e não permitais que eles vivam.
39. Saiu Nicanor de Jerusalém e acampou em Beteron, onde um exército sírio se lhe ajuntou.
40. Judas acampou em Adasa com três mil homens e começou a rezar nestes termos:
41. Quando os soldados enviados pelo rei da Síria vos blasfemaram, apareceu vosso anjo e matou cento e oitenta e cinco mil homens dentre eles.
42. Do mesmo modo exterminai hoje este exército aos nossos olhos, para que os outros saibam que Nicanor insultou vosso templo, e julgai-o segundo sua perfídia.
43. Chocaram-se os exércitos no dia treze do mês de Adar; o de Nicanor foi vencido e ele foi o primeiro a tombar na luta.
44. Assim que as tropas de Nicanor viram que ele fora morto, largaram as armas e fugiram.
45. Os judeus perseguiram-nos todo o dia desde Adasa até Gazara e fizeram soar as trombetas dos sinais.
46. E saíram então os habitantes de todas as aldeias da Judéia e dos arredores, para cercar os fugitivos. Estes voltaram de encontro a eles e caíram todos sob a espada. E não sobrou nem mesmo um dentre eles.
47. Os judeus apoderaram-se de seus despojos e haveres. Cortaram a cabeça de Nicanor e a mão direita que ele orgulhosamente estendera, e suspenderam-nas à vista de Jerusalém.
48. Alegrou-se muito o povo que passou aquele dia em grande regozijo.
49. Decidiu-se que esse dia seria celebrado a cada ano no dia treze do mês de Adar.
50. Após isso, a terra de Judá esteve tranqüila durante algum tempo.

 
Capítulo 8

1. Pela voz da fama soube Judas que os romanos eram extremamente poderosos, que se mostravam benevolentes para com seus aliados, e que a todos os que recorriam a eles ofereciam sua amizade, porque eram verdadeiramente potentes.
2. Contaram-lhe também seus combates, suas façanhas junto aos gauleses, aos quais haviam vencido e subjugado;
3. como haviam chegado à Espanha para se apoderar das minas de prata e de ouro que ali existem e, como, por sua sabedoria e longanimidade, eles haviam conciliado todo o país,
4. por mais que ele fosse afastado deles; como haviam derrotado reis que haviam surgido contra eles das extremidades da terra, e os haviam aniquilado devidamente, enquanto outros lhes pagavam o tributo anual.
5. Filipe Perseu, rei dos ceteus, e outros se haviam insurgido contra eles, mas tinham sido derrotados e subjugados.
6. Antíoco, o Grande, rei da Ásia, lhes tinha movido guerra com cento e vinte elefantes, cavalaria, carros e um numeroso exército, mas havia sido aniquilado por eles.
7. Eles o haviam tomado vivo e haviam imposto a ele e aos seus sucessores um grande tributo, a entrega de reféns e a cessão de um território,
8. arrebatando-lhe a Índia, a Média, a Lídia e suas melhores regiões que eles deram ao rei Eumenes.
9. Os gregos haviam querido atacá-los para exterminá-los, mas eles o souberam
10. e enviaram um general que os atacou, levando a perecer um grande número, arrastou ao cativeiro suas mulheres e seus filhos, saqueou e tornou-se senhor do país, destruiu suas praças fortes e os reduziu à servidão, que ainda durava.
11. Haviam eles igualmente arruinado e subjugado ao seu domínio os outros reinos e as ilhas, que lhes haviam resistido.
12. Por outro lado, conservavam sua proteção a seus amigos e aliados, estendiam seu poder sobre os reinos vizinhos ou distantes e todos os que ouviam pronunciar seu nome, temiam-nos.
13. Aqueles que eles queriam auxiliar e ver reinar, reinavam com efeito, mas os que eles não queriam, eram exilados. Engrandeciam-nos muito.
14. Apesar de tudo isso, ninguém deles trazia diadema, nem se envolvia com púrpura, para se engrandecer.
15. Eles tinham estabelecido entre si um conselho supremo onde, cada dia, trezentos e vinte conselheiros discutiam assuntos do povo, para governá-lo bem.
16. Cada ano confiavam a autoridade suprema a um só homem, que comandava em todo o território e todos obedeciam a um só, sem haver ali entre eles nem inveja nem ciúme.
17. Escolheu Judas a Eupolemo, filho de João, filho de Acos, e Jasão, filho de Eleazar, e enviou-os a Roma, para estabelecer amizade e aliança com eles,
18. pedindo-lhes que os libertasse do jugo que os gregos, como estavam vendo, faziam pesar sobre Israel, reduzindo-o à escravidão.
19. Dirigiram-se eles a Roma, apesar da duração da viagem, e entraram no Senado, onde disseram:
20. Judas Macabeu, seus irmãos e todo o povo de Israel nos enviaram a vós, para concluir aliança e paz, e para que nos conteis entre vossos amigos e aliados.
21. Essa linguagem agradou aos romanos e
22. eis a cópia da carta que os romanos mandaram gravar sobre tabuletas de bronze e enviaram a Jerusalém, para ali ficar como memorial da paz e da amizade de sua parte:
23. Felicidade para sempre aos romanos e ao povo judeu, por terra e por mar! Longe deles esteja a espada e o inimigo!
24. Se sobrevier uma guerra contra os romanos ou contra um de seus aliados em todo império,
25. o povo judeu tome as armas por sua vez, conforme o permitirem as circunstâncias e isso de boa vontade.
26. Não fornecerão aos adversários nem trigo, nem armas, nem dinheiro, nem navios, segundo a vontade dos romanos. Os judeus observarão esses contratos sem receber nada.
27. Por outro lado, se for o povo judeu o atacado, os romanos tomarão armas voluntariamente por eles conforme as circunstâncias o indicarem.
28. E não será fornecido aos combatentes nem trigo, nem armas, nem dinheiro, nem navios, conforme a vontade de Roma, e esses contratos serão observados sem fraude.
29. Por essas palavras os romanos aliaram-se com os judeus.
30. Se uns ou outros contratantes quiserem ajuntar ou subtrair e essas cláusulas, farão a proposta, e o que for acrescentado ou tirado será ratificado.
31. Pelo que toca aos danos causados pelo rei Demétrio, eis o que nós lhe escrevemos: Por que fizestes pesar vosso jugo sobre os judeus, nossos amigos e aliados?
32. Se, pois, eles vierem a nós outra vez contra vós, nós lhes faremos justiça e vos combateremos, por terra e mar.

 
Capítulo 9

1. Soube logo Demétrio do fim de Nicanor e da aniquilação de seu exército e resolveu enviar pela segunda vez Báquides e Alcimo à terra de Judá, com a ala direita de suas tropas.
2. Estes tomaram o caminho que leva a Gálgala, e acamparam em frente de Mezalot, no distrito de Arbelas; apoderaram-se da cidade e mataram um grande número de habitantes.
3. No primeiro mês do ano cento e cinqüenta e dois colocaram cerco diante de Jerusalém,
4. depois eles se apartaram e foram a Berzet com cento e vinte mil homens e dois mil cavaleiros.
5. Judas estava acampado em Elasa, e três mil homens de escol estavam com ele.
6. Todavia, ante o número considerável de seus adversários, ficaram tomados de pânico; muitos se retiraram do acampamento e, por fim, ali ficaram não mais que oitocentos homens.
7. Verificando Judas a dispersão de seu exército e a iminência do combate, sentiu seu coração angustiado, porque já não tinha tempo de reunir os fugitivos.
8. Consternado, disse aos que tinham ficado: Vamos, e ataquemos o inimigo, talvez possamos combatê-lo!
9. Mas eles o desviavam disso, dizendo: Nós não poderemos. Salvemos antes nossas vidas agora; voltaremos depois com nossos irmãos e travaremos a batalha; mas neste momento somos muito poucos.
10. Livre-nos Deus, disse Judas, que proceda desse modo e que eu me salve diante deles. Se chegou a nossa hora, morramos corajosamente por nossos irmãos e não deixemos uma nódoa sequer em nossa memória.
11. O exército do inimigo saiu do acampamento e tomou posição diante deles: a cavalaria se dividiu em dois batalhões, os fundibulários e os flecheiros se colocaram à frente e todos os mais valentes postaram-se na primeira fileira.
12. Báquides achava-se na ala direita e, ao som das trombetas, a falange avançou dos dois lados.
13. Os soldados de Judas tocaram também as trombetas e a terra foi abalada pelo tumulto das armas. O combate se prolongou desde a manhã até à tarde.
14. Viu Judas que Báquides se encontrava à direita com a mais forte porção de seu exército, e cercado dos mais corajosos dos seus.
15. Rompeu ele essa ala direita e a perseguiu até o sopé da montanha.
16. Mas a ala esquerda, vendo derrotada a direita, lançou-se atrás nas pegadas de Judas e dos seus soldados.
17. O combate tornou-se mais encarniçado, e, tanto de um como de outro lado, caíram muitos feridos.
18. Judas mesmo caiu morto, e então todos os outros fugiram.
19. Jônatas e Simão levaram Judas, seu irmão, e enterraram-no no sepulcro de seus pais em Modin.
20. Todo o povo de Israel caiu na desolação e o chorou longamente, guardando o luto por vários dias, dizendo:
21. Como sucumbiu o valente salvador de Israel?
22. O resto das façanha de Judas, de seus combates, de seus feitos heróicos e atos gloriosos não foram escritos: eles são, com efeito, por demais numerosos.
23. Ora, após a morte de Judas, aconteceu que os perversos reapareceram em todas as fronteiras de Israel e todos os que praticavam o mal deram-se a conhecer.
24. Naqueles dias dominou também uma grande fome, e todo o país passou para o inimigo com eles.
25. Báquides escolheu homens ímpios, para colocá-los nos postos de comando.
26. Estes procuravam com empenho os amigos de Judas e os conduziam a Báquides, que se vingava deles e os escarnecia.
27. A opressão que caiu sobre Israel foi tal, que não houve igual desde o dia em que tinham desaparecido os profetas.
28. Reuniram-se todos os amigos de Judas e disseram a Jônatas:
29. Após a morte de Judas, teu irmão, não há mais ninguém como ele, para opor-se a nossos inimigos, a Báquides e aos que odeiam nossa raça.
30. Por isso, nós te escolhemos hoje por chefe, para nos conduzires ao combate.
31. A partir dessa hora, Jônatas tomou o comando e assumiu o lugar de seu irmão Judas.
32. Tendo Báquides conhecimento disso, procurava matá-lo,
33. mas, advertidos, Jônatas, seu irmão Simão e todos os seus companheiros fugiram ao deserto de Técua, onde acamparam junto às águas da cisterna de Asfar.
34. Soube-o Báquides no dia de sábado e atravessou o Jordão com todo o seu exército.
35. Nesse ínterim, Jônatas havia enviado seu irmão, chefe do povo, aos nabateus, seus amigos, rogando-lhes se podiam guardar as suas bagagens, que eram numerosas.
36. Mas os filhos de Jambri saíram de Medaba, apoderaram-se de João e de tudo o que ele tinha e o levaram.
37. Logo em seguida disseram a Jônatas e a seu irmão Simão que os filhos de Jambri celebravam um grande casamento, e traziam de Nadabá, com grande pompa, a jovem esposa, filha de um dos maiores príncipes de Canaã.
38. Lembraram-se do sangue de seu irmão João, e retiraram-se para a montanha, onde se ocultaram.
39. Erguendo os olhos, eles se puseram de espreita, e eis que em grande tumulto e com grande aparato, o esposo saía com seus amigos e seus irmãos na direção dessa, com tambores, instrumentos de música e uma considerável equipagem.
40. Os companheiros de Jônatas saíram então de seu esconderijo, e lançaram-se sobre eles, para massacrá-los. Muitos caíram aos seus golpes e os restantes fugiram para a montanha, enquanto os agressores apoderavam-se de seus despojos.
41. Assim a boda transformou-se em luto e os sons de música, em lamentações.
42. Dessa maneira os judeus vingaram-se do sangue de seu irmão, e voltaram à margem do Jordão.
43. Soube-o Báquides e, no dia de sábado, avançou com um poderoso exército até a margem do Jordão.
44. Dirigindo-se então a seus companheiros, disse-lhes Jônatas: Vamos, pelejemos agora por nossa vida, porque hoje não é como ontem e anteontem.
45. Eis a batalha diante e atrás de nós; de um lado e de outro do rio Jordão,
um pântano, um bosque: não há meio de escapar.
46. Clamai, pois, agora ao céu, para nos livrar de nossos inimigos. E travou-se o combate.
47. Jônatas estendeu a mão para ferir Báquides, mas este se afastou e o evitou.
48. Então Jônatas e seus companheiros atiraram-se ao Jordão e passaram, a nado, para a outra margem, sem que o inimigo atravessasse atrás dele.
49. Naquele dia caíram cerca de mil homens da parte de Báquides. Este voltou a Jerusalém;
50. edificou fortalezas na Judéia, e consolidou com densos muros, portas e fechaduras, as fortificações de Jericó, Emaús, Betoron, Betel, Tanata, Faraton, e de Tefon.
51. E colocou nelas guarnições para importunar Israel.
52. Fortificou igualmente Betsur, Gasara e a cidadela, onde ele deixou tropas e depósitos de víveres.
53. Tomou como reféns os filhos dos importantes do país, e os mandou guardar na cidadela de Jerusalém.
54. No segundo mês do ano cento e cinqüenta e três, ordenou Alcimo a destruição do muro do pátio interior do santuário e, deitando a mão sobre a obra dos profetas, começou por destruí-la.
55. Neste instante, porém, Alcimo foi ferido por Deus e seu plano foi suspenso. Ficou ele com a boca fechada pela paralisia e não pôde mais dizer uma palavra, nem dar ordens relativamente à sua casa;
56. morreu depois atormentado por grandes sofrimentos.
57. Vendo Báquides essa morte, retirou-se para perto do rei, e a terra de Judá permaneceu em paz durante dois anos.
58. Mas, entre os judeus, os maus conspiravam, dizendo: Eis que Jônatas e os seus vivem em paz e descuidados aproveitemos para chamar Báquides, que os exterminará numa só noite.
59. Foram eles, pois, aconselhá-lo
60. e ele se pôs a caminho com um grande exército. Secretamente enviou mensageiros aos partidários que ele possuía junto aos judeus, para que eles lançassem mão sobre Jônatas e seus companheiros; mas eles não conseguiram, porque seu plano tinha sido descoberto.
61. Pelo contrário, cinqüenta dos principais cabeças da conjuração foram presos e mortos.
62. Quanto a Jônatas, fugiu com Simão e seus partidários até Betbasi, no deserto, ergueram as suas ruínas, e fortificaram-se nelas.
63. Logo que Báquides o soube, reuniu todo o seu exército e foi avisar seus amigos da Judéia.
64. Veio acampar defronte a Betbasi, que ele sitiou por muito tempo, construindo máquinas.
65. Jônatas, deixando na cidade seu irmão Simão, ganhou o campo com um pequeno número de homens.
66. Matou Odomera e seus irmãos na sua própria tenda, bem como os filhos de Fasiron, e começou a dar combates e aumentar em número.
67. Do outro lado, Simão e seus homens saíram da cidade e incendiaram as máquinas.
68. Travaram combate com Báquides que foi derrotado por eles e ficou muito entristecido pela presunção e insucesso de sua tentativa.
69. Por isso mostrou-se irritadíssimo contra os maus judeus que o haviam aconselhado a vir à sua terra; mandou matar a muitos e decidiu voltar a seu país.
70. Sabendo disso, enviou-lhe Jônatas mensageiros para propor-lhe a paz e a devolução dos prisioneiros.
71. Ele os recebeu, aceitou a proposta e jurou nunca mais tentar nada de mal contra eles, por todos os dias de sua vida.
72. Restituiu os prisioneiros que havia feito anteriormente na Judéia e voltou a seu país, para nunca mais tentar reaparecer junto aos judeus.
73. A espada repousou em Israel e Jônatas fixou residência em Macmas; ali começou a julgar o povo e exterminou os ímpios de Israel.

 
Capítulo 10

1. No ano cento e sessenta, Alexandre Epífanes, filho de Antíoco, embarcou e veio ocupar Ptolemaida, onde foi acolhido e proclamado rei.
2. Soube-o o rei Demétrio, que reuniu um numerosíssimo exército e atacou-o.
3. Enviou a Jônatas uma carta cheia de palavras de paz, para lisonjeá-lo,
4. dizendo consigo mesmo: Apressemo-nos em fazer a paz com os judeus, antes que eles a façam com Alexandre contra nós,
5. porque certamente eles se lembram do mal que lhes fizemos, a eles, a seus irmãos e à sua raça.
6. Concedeu-lhe a liberdade de reunir tropas, de fabricar armas e de ser seu aliado e mandou-lhe entregar os reféns aprisionados na cidadela.
7. Jônatas veio então a Jerusalém e leu a mensagem diante do povo todo e diante das tropas que ocupavam a cidadela.
8. Estes ficaram tomados de um grande medo, quando souberam que o rei lhe havia permitido levantar um exército;
9. os guardas lhe entregaram os reféns e ele os entregou a seus pais.
10. Ficou habitando em Jerusalém e começou a edificar e a restaurar a cidade.
11. Ordenou aos que executavam os trabalhos, que construíssem ao redor do monte Sião um muro de pedras de cantaria para sua fortificação, e isso foi feito.
12. Os estrangeiros que se achavam nas fortalezas edificadas por Báquides fugiram;
13. cada qual deixou seu posto para se refugiar no seu país.
14. Sobraram somente em Betsur alguns dos desertores da lei e dos preceitos, porque achavam ali um refúgio seguro.
15. Entretanto, soube o rei Alexandre da carta que Demétrio havia enviado a Jônatas, e contaram-lhe as batalhas e feitos deste e de seus irmãos, como também os trabalhos que tinham suportado.
16. Poderíamos nós achar, disse ele, um homem semelhante a este? Procuremos imediatamente fazê-lo nosso amigo e nosso aliado.
17. Escreveu-lhe então e mandou-lhe uma carta lavrada nestes termos:
18. O rei Alexandre a seu irmão Jônatas, saúde!
19. Ouvimos dizer de ti, que tu és um homem ponderoso e forte e que mereces a nossa amizade.
20. Por isso nós te constituímos desde agora sumo sacerdote de teu povo, outorgamos-te o título de amigo do rei – mandou-lhe uma toga de púrpura e uma coroa de ouro – e pedimos-te escolher nosso partido e conservar-nos tua amizade.
21. No sétimo mês do ano cento e sessenta, pela festa dos Tabernáculos, revestiu-se Jônatas com a túnica sagrada; organizou um exército e ajuntou armas em quantidade.
22. Demétrio foi informado de tudo isso e inquietou-se:
23. Como fomos nós deixar que Alexandre nos precedesse, travando com os judeus uma amizade, que o fortifica?
24. Eu também enviar-lhe-ei belas palavras, títulos e presentes, para que eles passem ao meu lado e venham em meu auxílio.
25. E ele mandou-lhes levar uma mensagem nestes termos: O rei Demétrio ao povo dos judeus, saúde!
26. Vós observastes nossos acordos, permanecestes fiéis à nossa amizade, e não fizestes convenções com nossos inimigos; nós o sabemos e regozijamo-nos com isso.
27. Ainda agora continuai a nos conservar a mesma fidelidade e vos recompensaremos do que fazeis por nós:
28. isentar-vos-emos dos muitos impostos e vos cumularemos de presentes.
29. Desde agora concedemo-vos a todos os judeus dispensa dos impostos, da taxa do sal e das coroas.
30. Ao terço dos produtos do solo e à metade dos frutos das árvores, que me pertencem, eu renuncio, a partir deste dia, a cobrar na terra de Judá e dos três distritos de Samaria e da Galiléia, que lhe estão anexos; isso desde agora e para sempre.
31. Que Jerusalém seja sagrada e isenta, com seu território, dos dízimos e dos impostos.
32. Abandono também todo poder sobre a cidadela de Jerusalém e a entrego ao sumo sacerdote, para que ele coloque ali como guardas os homens que ele quiser.
33. Concedo gratuitamente a liberdade a todo cidadão judeu, em cativeiro no meu reino e todos serão isentos de impostos, mesmo sobre seus rebanhos.
34. Todos os dias solenes, os sábados, as neomênias, as festas prescritas, os três dias anteriores às solenidades e os três dias posteriores, serão dias de imunidade e de isenção para todos os judeus que se acham no meu reino,
35. e ninguém poderá perseguir ou molestar quem quer que seja dentre eles, por motivo algum.
36. Que se alistem no exército do rei até trinta mil judeus e que lhes sejam dados os mesmos direitos que às tropas reais.
37. Colocar-se-á uma parte nas grandes fortalezas do rei, tomar-se-ão alguns para postos de confiança do reino. Seus chefes e seus oficiais serão escolhidos entre eles, seguirão suas próprias leis, como o exige o rei para a Judéia.
38. Os três distritos de Samaria que foram anexados à Judéia lhe serão incorporados de maneira que sejam considerados como sendo um só com ela, e não obedeçam a nenhuma outra autoridade a não ser a do sumo sacerdote.
39. Faço de Ptolemaida e de seu território doação ao templo de Jerusalém, para prover seu sustento.
40. Darei também cada ano quinze mil siclos de prata das rendas do rei, provenientes dos seus domínios.
41. Todo o dinheiro que os administradores dos negócios não tiveram despendido, e que lhes sobrar, como nos anos passados, será destinado à construção do templo.
42. Além disso será feita a entrega dos cinqüenta mil siclos de prata cobrados cada ano das rendas do templo, porque essa soma pertence aos sacerdotes que exercem o serviço do culto.
43. Todo aquele que se refugiar no templo de Jerusalém ou no seu recinto, por motivo de dívida ao fisco, ou por qualquer coisa que seja, será poupado, bem como tudo o que ele possui no meu reino.
44. As despesas para os trabalhos de construção e de restauração do templo serão postas na conta do rei.
45. Do mesmo modo as despesas para a construção dos muros e do recinto da cidade ficarão a cargo das rendas do rei, bem como os gastos da construção das outras fortificações na Judéia.
46. Quando Jônatas e o povo ouviram essas propostas, não acreditaram e não quiseram aceitá-las, lembrando-se de todo o mal que Demétrio fizera a Israel e do quanto ele os havia oprimido.
47. Escolheram então o partido de Alexandre, porque ele tinha sido o primeiro a lhes falar de paz, e foram sempre seus auxiliares.
48. Alexandre reuniu um grande exército e veio ao encontro de Demétrio.
49. Os dois reis travaram o combate, mas o exército de Demétrio fugiu. Perseguiu-o Alexandre, obtendo pleno êxito.
50. Combateu com ardor até o pôr-do-sol e Demétrio sucumbiu nesse mesmo dia.
51. Então Alexandre enviou embaixadores a Ptolomeu o rei do Egito, com a missão de lhe dizer:
52. Eis-me de volta ao solo do meu reino e assentado no trono de meus pais; recobrei o poder, derrotei Demétrio e entrei na posse de meu país.
53. Travei batalha com ele, venci-o com seu exército e subi ao trono onde ele reinava.
54. Façamos agora laços de amizade, dá-me tua filha por esposa e serei teu genro, e vos cumularei, a ti e a ela, com presentes dignos de vós.
55. O rei Ptolomeu respondeu: Venturoso o dia em que entraste na terra de teus pais e te assentaste no trono de seu reino!
56. Por isso dar-te-ei o que me pedes, mas vem ter comigo em Ptolemaida, para que nos vejamos, e farei de ti o meu genro como desejas.
57. Saiu Ptolomeu do Egito com sua filha Cleópatra, e foi a Ptolemaida no ano cento e sessenta e dois.
58. Deu-a em casamento a Alexandre que lhe veio ao encontro e celebrou as bodas com real magnificência.
59. O rei Alexandre escreveu também a Jônatas, para que viesse procurá-lo,
60. e este se dirigiu a Ptolemaida, com pompa, onde encontrou os dois reis. Ofereceu-lhes, como também a seus amigos, prata, ouro e numerosos presentes e conquistou sua confiança inteiramente.
61. Todavia, alguns perversos de Israel reuniram-se contra ele e esses ímpios quiseram acusá-lo, mas o rei não lhes deu atenção alguma.
62. Ordenou até mesmo que se tirassem as vestes de Jônatas, para revesti-lo de púrpura, o que foi feito; e o rei fê-lo assentar-se junto de si.
63. Disse também aos grandes de sua corte: Saí com ele para o meio da cidade, e proclamai que ninguém o acuse por qualquer coisa que seja e que ninguém o moleste de maneira alguma.
64. Quando seus acusadores o viram assim exaltado publicamente e revestido de púrpura, fugiram.
65. Honrou-o o rei, inscreveu-o entre seus primeiros amigos e deu-lhe o título de chefe do exército e de governador.
66. Após isto, regressou Jônatas a Jerusalém, tranqüilo e alegre.
67. No ano cento e sessenta e cinco, Demétrio, filho de Demétrio, voltou de Creta à terra de seus pais.
68. Com essa notícia, Alexandre, muito contristado, partiu para Antioquia.
69. Demétrio constituiu Apolônio como governador da Celesíria. Este levantou um poderoso exército, que ele reuniu em Jânia, e mandou avisar ao sumo sacerdote Jônatas:
70. Só tu nos resistes e, por causa de ti, eu me tornei objeto de zombaria e de opróbrio. Por que te fazes de arrogante diante de nós, em tuas montanhas?
71. Se tens ainda confiança em tuas tropas, desce agora das montanhas a nós na planície, onde nos poderemos medir, porque tenho comigo a força das cidades.
72. Informa-te e saberás quem sou eu e quais são os meus aliados. Estes também dizem que não podereis manter-vos de pé diante de nós, porque já duas vezes teus pais foram afugentados em sua própria terra.
73. Hoje não poderás mais resistir à nossa cavalaria e a um tal exército, nesta planície, onde não há nem pedra nem rochedo nem esconderijo algum para se refugiar.
74. Ouvindo estas palavras de Apolônio, indignou-se Jônatas; e, tomando consigo dez mil homens, saiu de Jerusalém. Seu irmão Simão trouxe-lhe reforço.
75. Veio acampar defronte de Jope que, possuindo uma guarnição de Apolônio, fechou-lhe suas portas. Jônatas atacou-a.
76. Os habitantes, espantados, abriram-lhe as portas e assim Jônatas conquistou Jope.
77. Sabendo Apolônio, pôs a caminho três mil cavaleiros e um poderoso exército
78. e de lá dirigiu-se para Azot, como se fosse atravessá-la ao mesmo tempo, ganhou a planície, porque possuía uma numerosa cavalaria, na qual se fiava: Jônatas perseguiu-o até Azot e os dois exércitos chocaram-se.
79. Apolônio havia deixado escondidos mil cavaleiros, para pegar os judeus de emboscada.
80. Mas Jônatas foi informado da emboscada dirigida contra ele. Os inimigos cercavam sua formação e, desde a manhã até o pôr-do-sol, atacaram seus homens;
81. o povo permanecia firme em suas fileiras como Jônatas havia ordenado, enquanto que os cavaleiros do inimigo se fatigavam.
82. Em seguida, Simão avançou com sua tropa e travou uma batalha contra a falange, quando a cavalaria já estava enfraquecida; o inimigo, aniquilado, foi posto em fuga.
83. Os cavaleiros se dispersaram pela planície, e os fugitivos alcançaram Azot, onde se refugiaram no templo de Dagon, seu ídolo, para ali se porem em segurança.
84. Jônatas incendiou Azot e todos os povoados das circunvizinhanças depois de tê-los pilhado. Queimou o templo de Dagon com todos os que estavam ali refugiados.
85. O número dos que pereceram pela espada ou pelo fogo foi cerca de oito mil.
86. Jônatas partiu de lá e veio acampar diante de Ascalon, cujos habitantes saíram-lhe ao encontro, rendendo-lhe grandes honras.
87. Em seguida, alcançou Jerusalém com seus companheiros, carregados de espólios.
88. Quando o rei Alexandre soube desses acontecimentos, quis honrar ainda mais Jônatas:
89. mandou-lhe uma fivela de ouro, como se concedia aos pais dos reis, e deu-lhe como propriedade pessoal Acaron e seu território.

 
Capítulo 11

1. Ora, o rei do Egito reuniu um exército tão numeroso como a areia que cobre a praia do mar, bem como uma considerável frota, e por astúcia procurou apoderar-se do reino de Alexandre, para anexá-lo ao seu.
2. Chegou à Síria com palavras de paz; por isso os habitantes das cidades lhe abriam suas portas e lhe vinham ao encontro, porque o rei Alexandre havia mandado acolhê-lo, já que era seu sogro.
3. Mas Ptolomeu, logo que entrava numa cidade, deixava ali tropas para assegurar-se dela.
4. Quando se aproximou de Azot, mostraram-lhe o templo de Dagon destruído pelo fogo, Azot e os arrabaldes da cidade em ruínas, os cadáveres jacentes por terra, e os restos calcinados daqueles que haviam sido queimados na guerra, postos em montes sobre seu caminho.
5. Acusaram igualmente Jônatas, contando ao rei tudo o que ele havia feito, mas o rei guardou silêncio.
6. Jônatas veio-lhe ao encontro com pompa até Jope, onde se saudaram mutuamente e passaram a noite.
7. Em seguida, Jônatas acompanhou o rei até o rio, chamado Eleutério, e voltou a Jerusalém.
8. O rei Ptolomeu estabeleceu assim seu poderio sobre todas as cidades, da costa até a cidade marítima de Selêucia, forjando maus desígnios contra Alexandre.
9. Mandou dizer ao rei Demétrio: Vem, façamos juntos uma aliança e dar-te-ei minha filha, a mulher de Alexandre, e tu reinarás sobre o reino de teus pais.
10. Lamento com razão ter-lhe dado minha filha, porque ele procurou matar-me.
11. E acusava-o assim porque cobiçava seu reino.
12. Retomou-lhe sua filha para dá-la a Demétrio, separando-se dele e manifestando-lhe assim sua inimizade pública.
13. Ptolomeu entrou em Antioquia e cingiu-se com um duplo diadema: o do Egito e o da Ásia.
14. Nesse ínterim, o rei Alexandre achava-se na Cilícia, cujos habitantes se haviam revoltado;
15. mas, logo avisado, veio para travar o combate. Ptolomeu fez sair seu exército, avançou com forças imponentes e o pôs em fuga.
16. Enquanto o rei Ptolomeu triunfava, Alexandre chegou à Arábia, para procurar ali um asilo,
17. mas o árabe Zabdiel mandou cortar-lhe a cabeça e enviou-a ao rei do Egito.
18. Ptolomeu morreu três dias depois, e as guarnições que ele havia posto nas fortalezas foram massacradas pelos habitantes das cidades vizinhas.
19. Demétrio começou a reinar pelo ano cento e sessenta e sete.
20. Nessa época, Jônatas convocou os homens da Judéia para apoderar-se da cidadela de Jerusalém e construiu, com esse intuito, numerosas máquinas.
21. Imediatamente alguns ímpios, animados de ódio para com sua própria nação, dirigiram-se ao rei e lhe contaram que Jônatas sitiava a cidadela.
22. Com essa notícia, ele se irritou e, pondo-se logo a caminho, alcançou Ptolemaida. De lá escreveu a Jônatas que não atacasse a cidadela e que viesse ter com ele o mais depressa possível, para conferenciar com ele;
23. mas Jônatas, logo que recebeu a mensagem, deu ordem para continuar o cerco e, escolhendo alguns dos mais antigos de Israel e alguns sacerdotes, entregou-se ao perigo.
24. Levou consigo ouro, prata, vestes e inúmeros outros presentes e foi a Ptolemaida encontrar-se com o rei, ante o qual encontrou graça.
25. Com efeito, ainda que alguns renegados de sua nação o combatessem,
26. o rei tratou-o como o haviam feito seus predecessores, e o exaltou à vista de seus cortesãos.
27. Confirmou-o no sumo sacerdócio e em todos os títulos que ele possuía anteriormente, e o considerou como um de seus primeiros amigos.
28. Jônatas pediu ao rei que lhe concedesse imunidade de impostos na Judéia e nos três distritos da Samaria, prometendo-lhe em troca trezentos talentos.
29. Consentiu o rei e escreveu a Jônatas sobre esse assunto uma carta assim lavrada:
30. O rei Demétrio a seu irmão Jônatas e ao povo judeu, saúde!
31. Para vossa informação, enviamos também a vós uma cópia da carta que escrevemos a vosso respeito a Lástenes, nosso parente:
32. O rei Demétrio a seu pai Lástenes, saúde!
33. Resolvemos fazer bem à nação dos judeus, nossos leais amigos, em vista de seus bons sentimentos a nosso respeito.
34. Confirmamos-lhes, pois, a posse dos territórios da Judéia e dos três distritos de Aferema, de Lida e Ramata, arrebatados da Samaria, para serem anexados à Judéia; e todos os seus lucros pertencerão aos que sacrificam em Jerusalém, em lugar do tributo que a cada ano o rei cobrava dos frutos da terra e das árvores.
35. Desde agora, deixamos-lhes liberalmente tudo o que nos cabe do dízimo e do imposto, a taxa das salinas e as coroas que nos eram dadas.
36. Destas vontades nada será anulado, nem agora nem nunca.
37. Cuidai, pois, agora, de fazer uma cópia e entregai-a a Jônatas, para que ela seja gravada e colocada na santa montanha.
38. Viu Demétrio que a terra estava silenciosa diante dele e que nada lhe resistia; foi por isso que ele licenciou seu exército e mandou seus soldados cada um para sua casa, com exceção das forças mercenárias que ele havia recrutado nas ilhas estrangeiras. Com esta decisão, ele desagradou todas as tropas de seus pais.
39. Todavia, Trifon, um antigo partidário de Alexandre, verificando que todo o exército murmurava contra Demétrio, foi procurar Imalcué, o árabe que educava Antíoco, o jovem filho de Alexandre.
40. Instou para que o entregasse, a fim de fazê-lo reinar em lugar de seu pai, contando-lhe tudo o que fizera Demétrio e a hostilidade que seu exército nutria contra ele. E lá se demorou muitos dias.
41. Nesse meio tempo, Jônatas mandou pedir ao rei Demétrio que tirasse as tropas que se achavam na cidadela e nas fortalezas, porque elas guerreavam contra Israel.
42. Demétrio mandou a Jônatas esta resposta: Não só farei isso por ti e por teu povo, mas cumular-vos-ei de honra, a ti e a tua nação, assim que tiver ocasião.
43. Agora farias bem em me enviar homens em meu socorro, porque meus soldados me abandonaram.
44. No mesmo instante enviou Jônatas a Antioquia três mil homens valorosos, que se ajuntaram ao rei, e este sentiu-se muito feliz com sua chegada.
45. Com efeito, os habitantes da cidade se uniram, em número de aproximadamente cento e vinte mil, com o intuito de matarem o rei.
46. Este refugiou-se no seu palácio e o povo, ocupando as ruas da cidade, começou o assalto.
47. Então o rei chamou os judeus em seu auxílio, e todos se agruparam ao redor dele; depois, espalharam-se pela cidade, matando nesse dia cerca de cem mil homens.
48. Incendiaram a cidade, apoderaram-se nesse mesmo dia de um numeroso espólio e salvaram o rei.
49. Os habitantes viram que os judeus faziam da cidade o que eles queriam e perderam a coragem. Por isso ergueram deprecações ao rei:
50. Dai-nos a mão e que os judeus parem de combater, a nós e à cidade.
51. Lançaram, pois, suas armas e concluíram a paz, enquanto os judeus, cobertos de glória diante do rei e dos súditos, voltaram a Jerusalém com abundantes despojos.
52. Demétrio conservou seu trono e todo o país ficou tranqüilo diante dele.
53. Todavia, ele desmentiu sua palavra, separou-se de Jônatas e não lhe pagou mais benevolência com benevolência; ao contrário, tratou-o muito mal.
54. Foi após esses acontecimentos que Trifon chegou com Antíoco, que, apesar de jovem ainda, tomou o título de rei e cingiu-se com o diadema.
55. Todas as forças que Demétrio havia despedido agruparam-se ao redor dele, para combater este último que virou as costas e fugiu.
56. Trifon apoderou-se dos elefantes e conquistou Antioquia.
57. O jovem Antíoco escreveu a Jônatas: Eu te confirmo no sumo pontificado. Mantenho-te à frente dos quatro distritos e quero que estejas entre os amigos do rei.
58. Mandou-lhe também vasos de ouro, utensílios, e concedeu-lhe autorização de beber em copos de ouro, de vestir-se com púrpura, de trazer uma fivela de ouro.
59. Constituiu também seu irmão Simão governador da região que se estende da Escada de Tiro à fronteira do Egito.
60. Então Jônatas pôs-se em campanha, atravessou o país ao longo do rio e percorreu as aldeias. As tropas sírias juntaram-se a ele para lutar a seu lado, e chegou assim a Ascalon, cujos habitantes saíram todos diante dele com sinais de honra.
61. De lá seguiu para Gaza, que lhe fechou suas portas; investiu contra ela e pôs fogo aos arredores que pilhou.
62. Os habitantes de Gaza imploraram então a Jônatas, que lhes estendeu a mão, mas tomou como reféns os filhos dos nobres e os enviou a Jerusalém; em seguida atravessou o país até Damasco.
63. Soube Jônatas que os generais de Demétrio tinham chegado a Cades, na Galiléia, com um forte exército, com a intenção de pôr fim à sua atividade.
64. Foi contra eles e deixou na terra seu irmão Simão.
65. Este acampou ante Betsur, combateu por muito tempo e a sitiou.
66. Por fim, os habitantes pediram-lhe a paz. Ele concedeu-lha, mas os expulsou da cidade, da qual se apoderou, para pôr ali uma guarnição.
67. Jônatas acampou com seu exército perto do lago de Genesar e, pela manhã, muito cedo, penetrou na planície de Azor.
68. Logo o exército estrangeiro avançou contra ele na planície e pôs emboscadas nas montanhas. Enquanto o exército marchava reto, para a frente,
69. as tropas de emboscada saíram de seu esconderijo e travaram a luta.
70. Todos os homens de Jônatas fugiram e não ficou nenhum com exceção de Matatias, filho de Absalão, e de Judas, filho de Calfi, chefe da milícia.
71. Jônatas rasgou suas vestes, cobriu a cabeça com pó, e rezou;
72. em seguida, retornou à luta e fez recuar e fugir o adversário.
73. Os seus que fugiam perceberam-no e, retornando para junto dele, perseguiram com ele os inimigos até Cades e seu acampamento. Ali se estabeleceram.
74. Naquele dia morreram cerca de três mil estrangeiros, e Jônatas voltou a Jerusalém.

 
Capítulo 12

1. Jônatas aproveitou-se das circunstâncias favoráveis e escolheu alguns homens, que enviou a confirmar e renovar a amizade com os romanos.
2. Com este mesmo objetivo enviou cartas também aos espartanos e a outros países.
3. Os embaixadores chegaram a Roma e dirigiram-se ao Senado, onde disseram: O sumo sacerdote Jônatas e o povo judeu enviaram-nos a vós para a renovação da amizade e da aliança com eles como outrora.
4. E deram-lhes, para as autoridades locais, um salvo-conduto, recomendando que os deixassem voltar sãos e salvos à Judéia.
5. Eis a cópia da carta que Jônatas escreveu aos espartanos:
6. Jônatas, sumo sacerdote, o conselho da nação, os sacerdotes e todo o povo judeu, a seus irmãos espartanos, saúde!
7. Outrora, Onias, sumo sacerdote, recebeu de Areu, vosso rei, uma mensagem em que se dizia que éreis nossos irmãos, como o comprova a cópia, aqui anexa.
8. Onias acolheu o enviado com honra e aceitou a carta, na qual havia referências à aliança e à amizade.
9. Por nosso lado, embora não tenhamos necessidade dessas vantagens, tendo para nossa consolação os livros santos, que estão em nossas mãos,
10. resolvemos renovar os laços de fraternidade e de amizade convosco, com receio de que nos tornássemos estranhos a vós, porque já decorreu muito tempo após vossa passagem junto a nós.
11. Sem cessar, em toda ocasião, nas grandes festas e em outros dias solenes, nós nos lembramos de vós, nos sacrifícios que oferecemos e nas nossas preces, como é justo e conveniente pensar nos irmãos.
12. Alegramo-nos com o que ouvimos dizer de vós.
13. Quanto a nós, vivemos entre tribulações e guerras incontáveis: todos os reis que nos cercam nos têm combatido.
14. Em todas essas guerras não quisemos, todavia, ser pesados, nem a vós, nem aos outros aliados e amigos,
15. porque temos por auxílio o socorro do céu; com isso pudemos escapar aos nossos inimigos, os quais foram humilhados.
16. Escolhemos, pois, a Numênio, filho de Antíoco, e Antípatro, filho de Jasão, e nós os enviamos a renovar, com os romanos, a amizade e a aliança de outrora.
17. Do mesmo modo encarregamo-los de ir-vos saudar e de entregar-vos, de nossa parte, esta carta, que visa a reavivar nossa fraternidade.
18. Teríamos muito prazer em receber uma resposta vossa sobre esse assunto.
19. Eis a cópia da carta enviada outrora:
20. Areu, rei dos espartanos, ao sumo sacerdote Onias, saúde!
21. Achou-se, num escrito sobre os espartanos e os judeus, que estes povos são irmãos e descendem de Abraão.
22. Agora que sabemos isto, faríeis bem em nos escrever, se gozais de paz;
23. nós também escrever-vos-emos. Vossos rebanhos e vossos haveres são nossos e os nossos são vossos. Enviamo-vos esta mensagem para que sejais informados disso.
24. Soube Jônatas que os generais de Demétrio haviam voltado com tropas muito mais numerosas que anteriormente, para guerreá-lo.
25. Saiu, pois, ele de Jerusalém e foi ao seu encontro no país de Amatis, sem lhes deixar tempo para invadir seu próprio país.
26. Mandou espiões ao acampamento dos inimigos; esses regressaram e lhe contaram que os inimigos se preparavam para lançar-se sobre eles durante a noite.
27. Ao pôr-do-sol, ordenou Jônatas aos seus que velassem e empunhassem as armas, prontos para o combate, durante toda a noite, enquanto ele postava sentinelas ao redor de todo o acampamento.
28. Ouvindo falar que Jônatas e seus soldados estavam prontos para o combate, os inimigos ficaram tomados de sobressalto e de pavor, e retiraram-se, acendendo fogueiras em seu acampamento.
29. Jônatas e seus companheiros viram queimar os fogos, e não perceberam nada até de manhã;
30. puseram-se então a persegui-los, mas não os apanharam, porque eles haviam atravessado o rio Eleutério.
31. Voltou-se então Jônatas contra os árabes, chamados zabadeus, abateu-os e carregou seus despojos.
32. Em seguida, reuniu seu exército, alcançou Damasco e percorreu toda aquela região.
33. Por seu lado, Simão investiu até Ascalon, e até as fortalezas vizinhas. De lá dirigiu-se a Jope e ocupou-a,
34. porque ouvira falar que os habitantes tinham a intenção de entregar a cidadela às tropas de Demétrio. Ele colocou, pois, ali, uma guarnição para defendê-la.
35. De volta a Jerusalém, Jônatas convocou os anciãos do povo e tomou com eles a decisão de edificar fortalezas na Judéia,
36. de erguer muralhas em Jerusalém, e de construir um muro elevado entre a cidadela e a cidade, para separá-la desta, isolá-la completamente e impedir que ali se vendesse ou comprasse alguma coisa.
37. Formaram-se grupos para reconstruir a cidade, os quais ergueram de novo o muro da torrente do lado leste, e restauraram a parte cognominada Cafenata.
38. Simão edificou Adida, em Sefela, e a muniu de portas e ferrolhos.
39. No entanto, Trifon planejava reinar sobre a Ásia, tomar o diadema, e levantar a mão contra o rei Antíoco.
40. Mas receava que Jônatas não o permitisse e combatesse seus esforços; por isso, procurou apoderar-se dele, para dar-lhe um fim. Partiu, pois, para Betsã.
41. Jônatas saiu ao seu encontro e atacou Betsã com um exército de quarenta mil homens de escol.
42. Vendo que ele se aproximava com um numeroso exército, Trifon, receou lançar-lhe a mão.
43. Recebeu-o com grande honra, apresentou-o a todos os seus amigos, ofereceu-lhe presentes, e ordenou às suas tropas que lhe obedecessem, como a ele mesmo.
44. Depois disse a Jônatas: Por que fatigaste todo este povo, uma vez que não estamos em guerra?
45. Envia-os de volta a suas casas e escolhe alguns para ficarem contigo. Após isso, acompanhar-me-ás a Ptolemaida e entregarte-ei a cidade, todas as outras fortalezas, as outras tropas e todos os funcionários; feito isto, retirar-me-ei, porque foi para isso que vim.
46. Jônatas confiou, fez o que ele dizia, e reenviou as tropas, que regressaram à terra de Judá.
47. Reteve todavia três mil homens, dos quais enviou dois mil à Galiléia e conservou consigo mil.
48. Mal penetrara Jônatas em Ptolemaida, os habitantes fecharam as portas, prenderam-no, e passaram a fio da espada todos os que estavam com ele.
49. Por sua vez, Trifon enviou à Galiléia e à grande planície um exército e cavaleiros, para esmagar os que Jônatas para lá enviara.
50. Mas estes, ouvindo dizer que Jônatas fora morto com todos os seus companheiros, encorajaram-se mutuamente e marcharam em boa ordem, prontos para o combate.
51. Seus perseguidores viram que eles queriam defender sua vida, e regressaram,
52. enquanto os judeus entravam de novo, sãos e salvos, na terra de Judá. Choraram Jônatas e os seus e foram tomados de grande inquietude, e todo o povo caiu na desolação.
53. Todos os povos circunvizinhos procuraram oprimi-los, dizendo entre si:
54. Eles não têm ninguém para comandá-los nem para socorrê-los: é o momento de atacá-los e destruir sua lembrança dentre os homens.

 
Capítulo 13

1. Simão foi informado de que Trifon havia organizado um poderoso exército para vir à Judéia e devastá-la.
2. Vendo o povo amedrontado e espavorido, subiu a Jerusalém, convocou a população
3. e dirigiu-lhe a palavra nestes termos: Vós mesmos sabeis bem o que eu, meus irmãos e a casa de meu pai temos feito pelas leis e pelo santuário, as guerras e as dificuldades que temos conhecido.
4. Foi assim que meus irmãos foram mortos pela causa de Israel e que fiquei eu só.
5. Deus me guarde agora de poupar minha vida, quando o inimigo nos oprime, porque não sou melhor que meus irmãos!
6. Por isso tirarei vingança de meu povo, do santuário, de vossas mulheres e filhos, uma vez que todas as nações, por seu ódio, estão coligadas para nos destruir.
7. A estas palavras, os ânimos inflamaram-se
8. e todos responderam, gritando: Tu és nosso chefe em lugar de Judas e de Jônatas, teu irmão;
9. combate por nós e nós faremos tudo o que disseres.
10. Então Simão reuniu todos os que podiam lutar, apressou-se em terminar os muros de Jerusalém e fortificou o recinto.
11. Enviou Jônatas, filho de Absalão, com consideráveis tropas a Jope. Jônatas expulsou seus habitantes e instalou-se em seu lugar.
12. Todavia, Trifon saiu de Ptolemaida com um numeroso exército e se dirigiu à Judéia. Trouxe consigo Jônatas, prisioneiro.
13. Simão acampou em Adida, defronte à planície.
14. Informado de que Simão havia ocupado o lugar de seu irmão Jônatas e se aprontava para combatê-lo, Trifon enviou-lhe mensageiros, para dizer-lhe:
15. Guardamos teu irmão por causa do dinheiro que ele deve ao tesouro real em vista das funções que exercia.
16. Envia, pois, agora, cem talentos e, para que, uma vez livre, não abandone nossa causa, manda também dois de seus filhos como reféns, e nós o deixaremos ir.
17. Simão percebeu que essas palavras eram falazes, mas mandou buscar o dinheiro e os filhos, com receio de cair na hostilidade do povo, que poderia dizer:
18. Foi porque eu não mandei o dinheiro e os filhos, que o mataram.
19. Remeteu, pois, o dinheiro e os filhos, mas Trifon quebrou a palavra e não libertou Jônatas.
20. Depois, pôs-se ele a caminho para entrar na Judéia e devastá-la, fazendo um rodeio pelo caminho que conduz a Adora, mas Simão se apresentava diante dele por toda parte aonde ele ia.
21. Por seu lado, os ocupantes da cidadela enviaram a Trifon mensageiro pedindo-lhe que se apressasse a ir ter com eles pelo deserto e lhes fornecesse víveres.
22. Trifon aprontou sua cavalaria para partir naquela mesma noite, mas havia ali muita neve e ele não pôde encetar o caminho. Partiu, todavia, e foi à região de Galaad.
23. Quando chegou perto de Bascama matou Jônatas e o sepultou;
24. em seguida, retrocedeu e voltou à sua terra.
25. Simão mandou recolher os restos de seu irmão Jônatas e os sepultou em Modin, cidade de seus pais.
26. E todo o Israel chorou abundantemente e conservou o luto durante muitos dias.
27. Sobre o túmulo de seu pai e de seus irmãos, Simão edificou um monumento grandioso com pedras polidas, na frente e por trás.
28. Ergueu ali sete pirâmides uma diante da outra, para seu pai, sua mãe e seus quatro irmãos.
29. Colocou nelas ornamentos e cercou-as com altas colunas, sobre as quais, para eterna lembrança, colocou muitas armas e, junto a estas, navios esculpidos, que podiam ser vistos por todos os que se achavam no mar.
30. Tal foi a sepultura que ele construiu em Modin e que existe ainda hoje.
31. Trifon, que servia o jovem rei Antíoco, com duplicidade, mandou assassiná-lo,
32. reinou em seu lugar e usurpou o diadema da Ásia. Ele causou muito mal ao país.
33. Simão reergueu as praças fortes da Judéia, muniu-as com torres elevadas, com grandes muros, portas, ferrolhos, e as abarrotou de víveres.
34. Escolheu mensageiros e enviou-os ao rei Demétrio, pedindo-lhe que restabelecesse o país porque Trifon o havia submetido inteiramente à pilhagem.
35. O rei Demétrio mandou-lhe sua resposta e escreveu-lhe nestes termos:
36. O rei Demétrio a Simão, sumo sacerdote e amigo dos reis, aos anciãos e ao povo judeu, saúde!
37. Recebemos a coroa de ouro e a palma que nos enviastes e estamos dispostos a concluir convosco uma paz sólida, bem como a escrever aos funcionários que vos dispensem dos impostos.
38. Tudo o que foi decidido em vosso favor está confirmado, e as fortalezas que construístes são vossas.
39. Nós vos perdoamos todos os erros e as faltas cometidas até o dia de hoje. Renunciamos à coroa que nos devíeis e, se existem ainda em Jerusalém outras dívidas a pagar, não se paguem mais.
40. Finalmente, se existem entre vós alguns que sejam aptos a se alistarem em nossa guarda, que eles o sejam e que a paz reine entre nós.
41. Foi no ano cento e setenta que o jugo dos gentios foi afastado de Israel,
42. e que o povo começou a datar os atos e os contratos do primeiro ano de Simão, sumo sacerdote, chefe do exército e governador dos judeus.
43. Nessa época, Simão veio acampar diante de Gazara, a qual cercou. Construiu uma máquina, levou-a contra a cidade, atacou uma torre e apoderou-se dela.
44. Da máquina os soldados lançaram-se na cidade, causando ali uma grande confusão,
45. de modo que os habitantes, com suas mulheres e seus filhos, apareceram sobre os muros, rasgaram suas vestes e pediram com altos brados a Simão que os poupasse.
46. Não nos trates conforme nossas maldades, diziam eles, mas segundo a tua misericórdia.
47. Simão perdoou-os e não prosseguiu o combate. Não obstante expulsou-os da cidade e mandou purificar todas as habitações onde se achavam os ídolos; em seguida, fez sua entrada ao som de hinos e de cânticos de louvor.
48. Fez desaparecer dali toda impureza e trouxe de volta os habitantes fiéis à lei; fortificou-a e construiu para si mesmo uma morada.
49. Os ocupantes da cidadela de Jerusalém que não podiam sair para ir à cidade comprar e vender, achavam-se numa grande miséria e um bom número deles morreu de fome.
50. Suplicaram a Simão para que ele lhes estendesse a mão. Ele lhes deu a mão, mas os expulsou de lá e purificou a cidadela de todas as suas contaminações.
51. E entrou nela no dia vinte e três do segundo mês, no ano cento e setenta e um, com cânticos e palmas, harpas, címbalos, liras, hinos e louvores, porque um grande inimigo de Israel tinha sido aniquilado.
52. Ordenou também que esse dia fosse celebrado a cada ano com regozijo.
53. Fortificou a montanha do templo do lado da cidadela e habitou ali com os seus.
54. Em seguida, verificando que seu filho João se havia tornado um homem, confiou-lhe o comando de todas as tropas e este residiu em Gazara.

 
Capítulo 14

1. Pelo ano cento e setenta e dois, o rei Demétrio reuniu suas tropas e penetrou na Média, para aí organizar um exército de socorro na sua luta contra Trifon.
2. Mas Arsaces, rei da Pérsia e da Média, informado de que Demétrio havia entrado no seu território, enviou um de seus generais para pegá-lo vivo.
3. Partiu, pois, este, desbaratou o exército de Demétrio e apoderou-se de sua pessoa. Enviou-o a Arsaces, e este o encarcerou.
4. Na Judéia reinou a paz, enquanto viveu Simão. Procurou o bem-estar de seu povo, e este se agradou do seu poder e reputação.
5. Com toda a glória que adquiriu, tomou Jope como porto e construiu um acesso para as ilhas do mar.
6. Alargou as fronteiras de seu povo e estendeu sua autoridade sobre todo o país.
7. Repatriou muitos dos judeus prisioneiros do estrangeiro, apoderou-se de Gazara, de Betsur e da cidadela de Jerusalém, que purificou de suas manchas, e ninguém ousava opor-lhe resistência.
8. Os que cultivavam a terra trabalhavam em paz; o solo dava suas colheitas e as árvores dos campos, seus frutos.
9. Os velhos assentavam-se nas praças públicas e entretinham-se com o bem comum; os jovens revestiam-se com troféus e com equipamentos de guerra.
10. Simão forneceu víveres às cidades e tomou resoluções para edificar praças fortes, de modo que em toda parte, até as extremidades da terra, celebrava-se seu nome.
11. Estabeleceu a paz em seu país, e todo o Israel exultava de alegria.
12. Cada um podia assentar-se sob sua parreira ou figueira sem recear o inimigo.
13. Não houve ninguém para atacá-los, e os reis, nessa época, foram abatidos.
14. Protegeu os humildes entre seu povo, zelou pela lei e exterminou os ímpios e os perversos.
15. Contribuiu para o esplendor do templo e enriqueceu o tesouro.
16. A morte de Jônatas foi bem depressa conhecida em Roma e até em Esparta, provocando grandes pesares.
17. Mas, logo que os romanos e os espartanos souberam que seu irmão Simão se tinha tornado sumo sacerdote em seu lugar e governava o país com as cidades que ali se achavam,
18. escreveram-lhe em tabuletas de bronze para renovar a amizade e a aliança, outrora concluída com seus irmãos Judas e Jônatas.
19. Essas mensagens foram lidas diante da assembléia em Jerusalém e eis a cópia daquela que enviaram os espartanos:
20. Os arcontes da cidade de Esparta ao sumo sacerdote Simão, aos anciãos, aos sacerdotes e ao povo judeu, seu irmão, saúde!
21. Os mensageiros que enviastes ao nosso povo contaram-nos vossa celebridade e glória, e nós nos regozijamos com sua chegada.
22. Nós consignamos, como segue, a proposta que eles fizeram às deliberações do povo: Numênio, filho de Antíoco, e Antípatro, filho de Jasão, vieram a nós, da parte dos judeus, para renovar sua amizade conosco.
23. Pareceu bem ao povo recebê-los com honra e depositar uma cópia de suas palavras nos arquivos públicos, para que ficasse na memória do povo de Esparta; e sobre isso enviamos um cópia a Simão, sumo sacerdote.
24. Em seguida, Simão enviou Numênio a Roma, com um grande escudo de ouro, que pesava mil minas, para confirmação da aliança com os romanos.
25. Quando o povo foi informado disso tudo, disse: Que sinal de reconhecimento daremos a Simão e a seus filhos?
26. Ele mesmo, seus irmãos e a casa de seu pai mostraram-se valorosos, venceram os inimigos de Israel e asseguraram-lhe a liberdade. Gravaram, pois, uma inscrição em tábuas de bronze e colocaram-nas entre as estelas conservadas no monte Sião.
27. Eis a cópia dessa inscrição: No dia dezoito do mês de Elul, do ano cento e setenta e dois, o terceiro ano do pontificado de Simão, em Asaramel,
28. na grande assembléia dos sacerdotes, do povo, dos chefes da nação e dos anciãos do país, foi declarado isto: No momento em que as guerras renasciam sem cessar no país,
29. Simão filho de Matatias, descendente de Jarib, e seus irmãos, expuseram-se ao perigo e resistiram aos inimigos de sua raça, para salvar o templo e a lei, levando seu povo a uma grande glória.
30. Jônatas reuniu seu povo e tornou-se o sumo sacerdote; depois foi juntar-se aos seus mortos.
31. Os inimigos quiseram invadir o país para devastá-lo e lançar a mão sobre os lugares santos,
32. mas então se levantou Simão. Combateu por sua nação, distribuiu uma grande parte de seus bens para armar os homens de seu exército e pagar seu soldo.
33. Fortificou as cidades da Judéia: Betsur, que se acha na fronteira, outrora arsenal do inimigo, onde ele estabeleceu uma guarnição judia;
34. Jope, que se acha na costa; Gazara, na região de Azot, outrora povoada de inimigos, que ele substituiu por judeus. E muniu todas estas cidades com o que era necessário para sua defesa.
35. O povo viu o procedimento de Simão e a glória que ele queria adquirir para a sua raça; escolheu-o para chefe e sumo sacerdote, por causa de tudo o que ele havia efetuado, pela justiça e fidelidade que guardou à sua pátria e porque procurava de todo modo exaltá-la.
36. Sob sua autoridade o povo tinha chegado a rechaçar os gentios de seu território e a expulsar os ocupantes da cidade de Davi em Jerusalém, lugar no qual haviam estabelecido uma cidadela e da qual saíam para manchar os acessos do templo e profanar gravemente a santidade.
37. Simão colocou ali uma guarnição judia, fortificou-a para proteger o país e a cidade, e ergueu os muros de Jerusalém.
38. Depois disso o rei Demétrio confirmou Simão no cargo de sumo sacerdote,
39. contou-o no número de seus amigos e demonstrou-lhe uma grande consideração.
40. Com efeito, ele soube que os romanos davam aos judeus o nome de irmãos, de amigos e de aliados e que haviam recebido com honras os enviados de Simão.
41. Soube também que os judeus e seus sacerdotes haviam consentido que Simão se tornasse seu chefe e sumo sacerdote, perpetuamente, até a vinda de um profeta fiel,
42. que tomasse o comando do exército, cuidasse do culto, designasse superintendentes para os trabalhos, as regiões, os armamentos e as fortificações;
43. que se ocupasse do culto e fosse obedecido por todos; que, no país, todos os atos fossem escritos em seu nome; e que andasse vestido de púrpura e trouxesse fivelas de ouro.
44. Não seria permitido a ninguém do povo ou dos sacerdotes rejeitar uma só de suas disposições, contradizer suas ordens, convocar uma assembléia no país sem o seu assentimento, vestir-se com púrpura ou usar uma fivela de ouro.
45. Quem quer que agisse contra essas decisões ou violasse uma, seria culpado.
46. Aprouve ao povo permitir a Simão agir conforme essas disposições.
47. Simão aceitou. Prontificou-se a ser sumo pontífice, chefe do exército, governador dos judeus e dos sacerdotes e exercer autoridade sobre todos.
48. Foi ordenado que essa inscrição fosse gravada em tábuas de bronze e colocada num lugar visível da galeria do templo,
49. ao passo que uma cópia seria depositada na sala do tesouro, à disposição de Simão e de seus filhos.

 
Capítulo 15

1. Antíoco, filho de Demétrio, escreveu das ilhas do mar a Simão, sacerdote e chefe dos judeus, e a todo o povo.
2. Dizia assim sua carta: O rei Antíoco a Simão, sumo sacerdote e príncipe, e ao povo judeu, saúde!
3. Perversos apoderaram-se do reino de meus pais, mas quero recobrá-lo e restabelecê-lo como foi outrora: organizei, pois, um poderoso exército e aluguei navios de guerra,
4. e pretendo penetrar no país, para vingar-me daqueles que o devastaram e assolaram inúmeras cidades.
5. Pela presente carta, confirmo-te todas as imunidades conferidas por meus reais predecessores, e todas as dádivas que eles te fizeram.
6. Dou-te a permissão de cunhar uma moeda especial para teu país.
7. Que Jerusalém e os lugares santos gozem de liberdade! Todos os armamentos que mandaste fazer e todas as fortalezas que construíste e que estão em teu poder, podes guardá-las.
8. Que te sejam perdoadas, desde agora e para sempre, as dívidas que deves ou deverás ao tesouro real.
9. Quando nós tivermos entrado na posse do nosso reino, cumular-te-emos com grandes honras, a ti, a teu povo, e ao templo, de maneira que vossa reputação fique célebre em toda a terra.
10. No ano cento e setenta e quatro, entrou Antíoco no reino de seus pais, e todas as tropas se ajuntaram a ele, de modo que foram poucos os que ficaram com Trifon.
11. Este, perseguido por Antíoco, foi refugiar-se em Dora, porto da costa,
12. porque sabia que o mal o ia atingindo e que seu exército o abandonava.
13. Antíoco cercou Dora com cento e vinte mil homens e oito mil cavaleiros.
14. Cercou a cidade e seus navios aproximaram-se, formando assim o bloqueio por terra e por mar sem deixar ninguém sair ou entrar.
15. Nessa ocasião, Numênio e seus companheiros voltaram de Roma com cartas dirigidas aos reis e aos povos. Eis o conteúdo:
16. Lúcio, cônsul romano ao rei Ptolomeu, saúde!
17. Os embaixadores enviados por Simão, sumo sacerdote, e pelo povo judeu, como amigos e aliados vieram a nós para renovar a amizade e a aliança de outrora.
18. Trouxeram eles um escudo de ouro de mil minas.
19. Nós resolvemos então pedir aos reis e aos países, que não lhes causem mal, nem lhes façam guerra, a eles, às suas cidades, e aos seus campos, e nem se aliem a seus inimigos.
20. Aprouve-nos aceitar seu escudo.
21. Se judeus apóstatas se refugiaram junto a vós, entregai-os ao sumo sacerdote Simão, para que ele os castigue segundo sua lei.
22. A mesma carta foi enviada ao rei Demétrio, a Átalo, a Ariarates, a Arsaces
23. e a todos os países: a Sampsamo, aos espartanos, a Delos, a Mindo, à Siciônia, à Cária, a Samos, à Panfília, à Lícia, a Halicarnasso, a Rodes, a Fasélides, a Cós, a Siden, a Arado, a Gortine, a Gnido, a Chipre e a Cirene.
24. A cópia dela foi enviada ao sumo sacerdote, Simão.
25. O rei Antíoco continuava o cerco de Dora, oprimindo-a de todos os lados, construindo máquinas, e encerrando Trifon, de maneira que ele não pudesse mais sair nem entrar.
26. Por sua vez, enviou Simão dez mil homens de escol para combater ao lado dele, além de prata, ouro e muitos equipamentos.
27. Mas o rei não quis aceitá-los; retirou o que lhe havia concedido a princípio e tornou-se-lhe hostil.
28. Enviou-lhe um de seus amigos, Atenóbio, para comunicar-lhe isso:Vós ocupastes Jope e Gazara, cidades de meu reino, como também a cidadela de Jerusalém.
29. Assolastes o território, devastastes gravemente o país e vos apoderastes de numerosas localidades de meu reino.
30. Entregai agora as cidades das quais vos haveis apoderado e os tributos das regiões que conquistastes fora das fronteiras da Judéia;
31. senão, retribuí em troca quinhentos talentos de prata e quinhentos outros talentos pelas perdas causadas e pelas rendas das cidades; do contrário, iremos guerrear-vos.
32. Atenóbio, amigo do rei, chegou então a Jerusalém; viu as honras prestadas a Simão, o armário com as taças de ouro e prata, sua habitação faustosa, e ficou maravilhado. Referiu, todavia, as palavras do rei,
33. e Simão respondeu: Não foi uma terra estrangeira que conquistamos, nem a propriedade de outrem que conservamos, mas somente a herança de nossos pais, injustamente usurpada, durante algum tempo, por nossos inimigos.
34. Chegou a hora para nós de a reivindicarmos.
35. Pelo que toca a Jope e a Gazara, que tu reclamas, e que fizeram tanto mal ao nosso povo, devastando o país, nós te concedemos cem talentos. Atenóbio nada respondeu,
36. mas voltou cheio de ira para junto do rei, repetindo-lhe essa resposta e contando-lhe o fausto de Simão, bem como tudo o que vira, e isso levou o rei a uma grande ira.
37. Por esse tempo, Trifon fugia em navio para Ortósia.
38. O rei nomeou então Cendebeu comandante da costa, e entregou-lhe tropas de infantaria e cavalaria;
39. encarregou-o de atacar a Judéia, deu-lhe ordens de reconstruir Cedron, de fortificar os acessos e de atacar o povo judeu, enquanto ele mesmo perseguiria Trifon.
40. Chegado a Jânia, Cendebeu começou a importunar o povo judeu, a realizar incursões na Judéia, a fazer um grande número de prisioneiros e a massacrar os habitantes. Construiu Cedron
41. e colocou ali infantes e cavaleiros com a ordem de realizar investidas e de infestar os caminhos da Judéia, como lhe ordenara o rei.

 
Capítulo 16

1. Subindo de Gazara a Jerusalém, veio João anunciar a seu pai os atos de Cendebeu;
2. mandou então Simão vir seus dois filhos mais velhos, João e Judas, e lhes disse: Eu, meus irmãos e a casa de meu pai temos resistido aos inimigos de Israel desde nossa juventude até o dia de hoje, e, muitas vezes, conseguimos libertar a nação.
3. Mas já estou velho, enquanto que vós, graças a Deus, tendes a idade necessária. Tomai, pois, o meu lugar e o de meu irmão; ide combater por nossa raça, e que o socorro do céu esteja convosco.
4. João recrutou no país vinte mil combatentes e cavaleiros. Foram eles contra Cendebeu e acamparam em Modin.
5. Levantaram-se ao romper da aurora, avançaram pela planície, e eis que um exército numeroso de infantes e de cavaleiros apareceu diante deles, estando separado apenas por uma torrente.
6. João dispôs seus homens diante do inimigo, mas, verificando que eles temiam passar a torrente, atravessou-a por primeiro e, a exemplo dele, todos atravessaram em seguida.
7. Dividiu seu exército e colocou os cavaleiros entre os infantes, porque a cavalaria inimiga era numerosa.
8. Fizeram soar as trombetas sagradas. Cendebeu e seu exército foram derrotados; muitos dentre os seus caíram sob os golpes e o restante fugiu para a fortaleza.
9. Judas, irmão de João foi ferido, mas João perseguiu o inimigo até Cedron, construída por ele.
10. Muitos fugiram para as torres construídas no campo de Azot, mas ele incendiou-as e pereceram cerca de dois mil homens. Após isso, João voltou em paz para a Judéia.
11. Ptolomeu, filho de Abub, havia sido nomeado comandante da planície de Jericó. Possuía muito ouro e prata,
12. porque era genro do sumo sacerdote.
13. Seu coração ensoberbeceu-se, e ele resolveu tornar-se senhor do país; maquinou pois uma traição contra Simão e seus filhos, para livrar-se deles.
14. Ora, no undécimo mês, isto é, no mês de Sabat do ano cento e setenta e sete, quando ele percorria as cidades do país, para cuidar de seus interesses, Simão desceu a Jericó com seus filhos Matatias e Judas.
15. O filho de Abub recebeu-o dolosamente no forte de Doc, que tinha construído, e onde ele havia ocultado seus homens. Deu um grande banquete
16. e, quando Simão e seus filhos ficaram ébrios, Ptolomeu e seus companheiros ergueram-se, tomaram suas armas e lançaram-se sobre Simão, na sala do banquete. Mataram-no como também seus dois filhos e alguns dos seus servidores.
l7 Isso foi uma grande perfídia cometida em Israel: e pagou-se o bem com o mal.
18. Ptolomeu escreveu ao rei para informá-lo, pedindo-lhe que lhe enviasse tropas de socorro e lhe cedesse a região e as cidades.
19. Mandou outros a Gazara, com a missão de matar João; convocou através de cartas os chefes do exército, para entregar-lhes prata, ouro e presentes;
20. e enviou outros emissários a conquistar Jerusalém e a montanha santa.
21. Mas, antecipando-os, alguém veio a Gazara avisar João de que seu pai e seus irmãos haviam perecido e que haviam enviado assassinos para matá-lo.
22. Com essa notícia ficou espavorido, mas mandou prender aqueles que vinham matá-lo, e os exterminou, sabendo perfeitamente que tinham a intenção de assassiná-lo.
23. As outras palavras de João, suas guerras e os seus feitos que realizou com valentia, como construiu as muralhas,
24. tudo isso está narrado nos anais de seu pontificado, desde o momento em que ele se tornou sumo sacerdote depois de seu pai.

 

II Livro dos Macabeus

II Livro dos Macabeus

 Capítulo 1

1. Saúde aos nossos irmãos judeus que estão no Egito. Seus irmãos, os judeus residentes em Jerusalém e no país de Judá, auguram-lhes uma paz venturosa.
2. Deus vos acumule de bens, e que ele se lembre de sua aliança com Abraão, Isaac e Jacó, seus fiéis servidores.
3. Que ele disponha vossa alma à piedade e à observância dos seus mandamentos com um coração generoso e uma fervente submissão!
4. Que ele abra vosso coração à sua lei e aos seus preceitos e que vos estabeleça na paz!
5. Que ele ouça vossas súplicas, vos seja misericordioso e não vos abandone nas provações!
6. Nós daqui rezamos por vós.
7. Sob o reinado de Demétrio, pelo ano cento e sessenta e nove, nós, judeus, vos escrevemos na tribulação e na aflição em que nos achávamos nessa época, desde o dia em que Jasão e seus companheiros abandonaram a terra santa e o reino.
8. A porta do templo foi incendiada e derramado o sangue inocente; mas nós suplicamos ao Senhor, e ele nos ouviu: oferecemos o sacrifício e a flor da farinha, acendemos as lâmpadas e expusemos os pães.
9. Celebrai, portanto, agora, a festa da cenopégia no mês de Casleu.
10. No ano cento e oitenta e oito. Os habitantes de Jerusalém e da Judéia, o senado e Judas, a Aristóbulo, conselheiro do rei Ptolomeu, da linhagem dos sacerdotes consagrados, como também aos judeus do Egito, saúde e prosperidade!
11. Libertados por Deus de inauditos perigos, nós lhe rendemos grandes ações de graças, porque tivemos um rei a combater.
12. Mas Deus rejeitou aqueles que haviam atacado a cidade santa.
13. Seu chefe, chegado à Pérsia com um exército aparentemente irresistível, pereceu no templo de Manéia, vítima de um ardil dos sacerdotes da deusa.
14. Com razão, sob o pretexto de esposar aquela, chegou com seus amigos para apoderar-se de suas riquezas, a título de dote.
15. Os sacerdotes expuseram o tesouro, e ele mesmo, com alguns dos seus, penetrou no recinto sagrado, enquanto eles fechavam as portas;
16. mas, quando Antíoco entrou no interior, abriram uma porta secreta na abóbada e esmagaram o príncipe sob uma saraivada de pedras. Esquartejaram, em seguida, os corpos e degolaram as cabeças, lançando-as aos que estavam do lado de fora.
17. Louvado seja nosso Deus em todas as coisas, porque entregou os ímpios à morte.
18. Em vésperas de celebrarmos, dia vinte e cinco de Casleu, a purificação do templo, julgamos oportuno certificar-vos disso, a fim de que vós também celebreis a festa da cenopégia e a comemoração do fogo que apareceu quando Neemias ofereceu o sacrifício, após ter reconstruído o templo e o altar.
19. Na verdade, quando nossos pais foram levados à Pérsia, os sacerdotes de então, inflamados de piedade, tomaram secretamente o fogo sagrado do altar e o esconderam no fundo de um poço seco, onde eles o ocultaram tão cuidadosamente, que o lugar permaneceu desconhecido de todos.
20. Decorreram muitos anos e, quando aprouve a Deus, Neemias, salvo pelo rei da Pérsia, enviou, para retomar o fogo, os descendentes dos próprios sacerdotes que o haviam ocultado. Ora, segundo a explicação que eles nos deram, não encontraram o fogo, mas um líquido espesso.
21. Neemias ordenou-lhes que o tirassem e o trouxessem. Uma vez preparada a matéria do sacrifício, disse Neemias aos sacerdotes que derramassem a água sobre a madeira e sobre o que estava ali colocado.
22. A ordem foi executada, e veio o momento em que o sol, a princípio encondido, pôs-se a brilhar, então um grande fogo se acendeu e maravilhou todos os espectadores.
23. Enquanto se consumiu o sacrifício, os sacerdotes puseram-se a rezar, e todos rezavam com eles; Jônatas entoava, e os outros, como Neemias, juntavam sua voz à dele.
24. Eis a oração: Senhor, Senhor, Deus, criador de todas as coisas, terrível e forte, justo e misericordioso, que sois o rei único e bom,
25. o único generoso, o único justo, todo-poderoso e eterno, vós que livrastes Israel de todo o mal, que fizestes de nossos pais vossos escolhidos e os santificastes,
26. aceitai este sacrifício, oferecido por todo o vosso povo de Israel, guardai vossa parte de eleição e santificai-a.
27. Congregai nossos irmãos dispersos, devolvei a liberdade aos que são escravos entre os pagãos, deitai vosso olhar sobre os que são desprezados e abominados, e que as nações saibam que sois nosso Deus.
28. Castigai os que nos oprimem e nos ultrajam com seu orgulho.
29. Plantai, como disse Moisés, vosso povo na vossa terra santa.
30. Os sacerdotes então cantaram os hinos.
31. Quando foi consumido o sacrifício, Neemias mandou que se espalhasse o líquido restante sobre grandes pedras.
32. Depois de feito isso, uma chama cintilou, mas se consumiu, enquanto o fogo que se erguia no altar continuava a brilhar.
33. O acontecimento foi logo divulgado, e contaram ao rei da Pérsia que era no lugar onde os sacerdotes levados ao cativeiro tinham ocultado o fogo sagrado, que havia aparecido a água com a qual Neemias e seus companheiros obtiveram o fogo purificador das oferendas.
34. Ordenou o rei que se murasse o lugar e o considerassem como sagrado, após ter-se certificado da exatidão do acontecido.
35. O rei tinha por hábito tomar posse de muitas coisas, das quais dava uma parte a quem ele queria ser agradável.
36. Os companheiros de Neemias chamaram isso de Neftar, que quer dizer purificação, mas a maioria o chama de Neftaí.

 
Capítulo 2

1. Acha-se escrito nos documentos relativos ao profeta Jeremias, que foi ele quem ordenou aos cativos tomar o fogo, como se acaba de contar,
2. e que o profeta, dando-lhes um exemplar da lei, lhes recomendou não esquecerem os mandamentos do Senhor e não se deixarem seduzir à vista dos ídolos de ouro e prata, ou dos ornamentos dos quais estavam ornados.
3. Conjurou-os, entre outros avisos, a não afastarem a lei de seu coração.
4. O escrito mencionava também como o profeta, pela fé da revelação, havia desejado fazer-se acompanhar pela arca e pelo tabernáculo, quando subisse a montanha que subiu Moisés para contemplar a herança de Deus.
5. No momento em que chegou, descobriu uma vasta caverna, na qual mandou depositar a arca, o tabernáculo e o altar dos perfumes; em seguida, tapou a entrada.
6. Alguns daqueles que o haviam acompanhado voltaram para marcar o caminho com sinais, mas não puderam achá-lo.
7. Quando Jeremias soube, repreendeu-os e disse-lhes que esse lugar ficaria desconhecido, até que Deus reunisse seu povo e usasse com ele de misericórdia.
8. Então revelará o Senhor o que ele encerra e aparecerá a glória do Senhor como uma densa nuvem, semelhante à que apareceu sobre Moisés e quando Salomão rezou para que o templo recebesse uma consagração magnífica.
9. Estava também relatado como esse sábio ofereceu o sacrifício da dedicação e da conclusão do santuário,
10. como também, à semelhança de Moisés que orou ao Senhor e obteve que o fogo do céu descesse e consumisse as ofertas, Salomão pôs-se a rezar e o fogo desceu do alto para queimar os holocaustos.
11. Moisés disse: Por não ter sido comido, o sacrifício pelo pecado foi consumido.
12. Também Salomão prolongou por oito dias a dedicação.
13. Nas relações e nas memórias do tempo de Neemias, contavam-se os mesmos feitos e como também ele formou uma biblioteca, reunindo tudo o que se referia aos reis e aos profetas, as obras de Davi e as cartas dos reis a respeito das ofertas.
14. Do mesmo modo, Judas reuniu todos os livros espalhados pelas guerras que nos sobrevieram, e essa coleção se encontra em nosso poder.
15. Por conseguinte, se tendes necessidade de um desses livros, enviai-nos mensageiros que vo-los levarão.
16. Nós vamos, pois, celebrar a purificação do templo e é por isso que vos escrevemos: seria bom que também celebrásseis essas festas.
17. Foi Deus quem salvou todo o seu povo, e quem deu a todos a herança, o reino, o sacerdócio e a santificação,
18. como havia prometido pela lei. Este Deus, em quem esperamos, sem dúvida terá logo piedade de nós e de toda a terra, reunir-nos-á no solo sagrado: porque já nos livrou de grandes males e purificou o templo.
19. Os acontecimentos efetuados no tempo de Judas Macabeu e de seus irmãos, a purificação do augusto templo e a dedicação do altar,
20. como também as guerras sustentadas contra Antíoco Epífanes e contra seu filho Eupator,
21. as manifestações celestes sobrevindas em favor dos bravos, que pelejaram corajosamente pelo judaísmo e que, apesar de seu número reduzido, se tornaram senhores de todo o país, puseram em fuga as hordas bárbaras,
22. recobraram a posse do templo famoso em todo o universo, livraram a cidade e restabeleceram as leis em vias de abolição, tudo isso, graças ao Senhor que lhes foi misericordioso:
23. eis o que Jasão de Cirene narra em cinco livros que vamos tentar resumir em um só.
24. Considerando a multidão das letras e a dificuldade que em vista da abundância dos assuntos experimentam aqueles que desejam penetrar no estudo das narrativas históricas,
25. temo-nos preocupado em agradar aos que apenas desejam lê-las, em facilitar aos que procuram retê-las e em ser úteis a todos em geral.
26. Para nós que empreendemos este trabalho de resumir, não é coisa fácil, mas uma questão de suores e vigílias.
27. No entanto, como aquele que prepara um festim, procurando satisfazer aos outros, assume uma tarefa penosa, assim nós, de boa vontade, tomamos a nós este trabalho, para obter a gratidão de muitos.
28. E deixando para o autor o cuidado de tratar cada assunto em seus detalhes, nós nos esforçamos em expô-los com auxílio de fórmulas resumidas.
29. Assim como para uma casa nova cabe ao arquiteto preocupar-se com o conjunto da construção, enquanto aquele que está encarregado dos afrescos e das pinturas só se ocupa com a decoração, assim, me parece, é o que cabe a nós.
30. Ao autor de uma história toca aprofundar tudo, dissertar sobre tudo, procurar todos os detalhes,
31. mas o que resume deve, ao contrário, procurar condensar a narrativa e evitar a minúcia na exposição dos fatos.
32. Agora, após tão longos prolegômenos, comecemos nossa relação, porque seria absurdo ser prolixo antes da história, e breve na própria história.

 
Capítulo 3

1. Enquanto os habitantes de Jerusalém gozavam de uma paz perfeita, por causa da piedade e retidão do sumo sacerdote Onias, na exata observância das leis,
2. o templo era respeitado, mesmo pelos reis estrangeiros. Estes honravam o santuário com os mais ricos presentes,
3. a tal ponto que Seleuco, rei da Ásia, subministrava com suas rendas pessoais toda a despesa necessária à liturgia dos sacrifícios.
4. Todavia, certo Simão, da tribo de Belga, nomeado prefeito do templo, entrou em desacordo com o sumo sacerdote quanto à inspeção do mercado público.
5. Como não pudesse vencer Onias, foi procurar Apolônio de Társis, então governador militar da Celesíria e da Fenícia.
6. Declarou-lhe que o tesouro do templo transbordava de indizíveis riquezas, a não poder enumerá-las; que nada tinham a ver com os sacrifícios, e que ele daria um jeito de fazê-las passar ao erário real.
7. Tendo uma audiência com o rei, Apolônio o advertiu sobre as riquezas que lhe haviam sido declaradas, e este, tomando uma decisão, enviou seu intendente Heliodoro com a ordem de trazer as ditas riquezas.
8. Imediatamente, Heliodoro pôs-se a caminho, simulando visitas às cidades da Celesíria e da Fenícia; na realidade, porém, era para executar a ordem do rei.
9. Tendo chegado a Jerusalém e sendo recebido pelo sumo sacerdote da cidade com amabilidade, transmitiu-lhe as revelações recebidas e comunicou-lhe o sentido de sua visita; contudo, indagou se tudo isso correspondia à realidade.
10. O sumo sacerdote fez-lhe ver que se tratava do depósito das viúvas e dos órfãos;
11. que somente um dos depósitos pertencia a Hircano, filho de Tobias, varão muito eminente; que não era como o pretendiam as calúnias do ímpio Simão, mas que tudo se reduzia a uma soma de quatrocentos talentos de prata e duzentos talentos de ouro.
12. Era completamente impossível defraudar os que haviam depositado confiança na santidade do lugar e no caráter sagrado e inviolável do templo venerado no mundo inteiro.
13. Firme nas ordens do rei, Heliodoro respondeu que essas riquezas deveriam ser transportadas absolutamente para o tesouro real
14. e, num dia por ele fixado, entrou com a intenção de organizar o inventário. A partir dessa hora, uma grande inquietude se espalhou pela cidade toda.
15. Revestidos de suas vestes sacerdotais e prostrados diante do altar, os sacerdotes suplicavam ao céu e imploravam ao Autor da lei acerca dos depósitos, rogando-lhe que os conservasse intactos para aqueles que lhos tinham confiado.
16. Já o aspecto do sumo sacerdote causava pena ver, do mesmo modo seu semblante; e a alteração de seus traços manifestava sua angústia interior.
17. O susto que o havia tolhido agitava seu corpo com um tremor, que mostrava o sofrimento íntimo de sua alma.
18. Diante da profanação que ameaçava o templo, o povo se precipitava em multidão para fora das casas, a fim de se ajuntarem à prece comum.
19. As mulheres cingidas com sacos pela altura dos seios enchiam as ruas, e quanto às jovens, retidas nas casas, corriam umas para as portas, outras para as muralhas, outras ainda se debruçavam nas janelas;
20. todas erguiam as mãos para o céu com gritos de súplica.
21. Causava dó observar toda a confusão desse povo abatido e a angústia em que jazia o sumo sacerdote.
22. Enquanto suplicavam assim a proteção do todo-poderoso para que conservasse invioláveis os depósitos que lhes haviam sido confiados,
23. Heliodoro executava o seu intento.
24. Já se achava ali, com seus homens armados, quando o Senhor dos espíritos e soberano detentor de todo o poder suscitou uma tal aparição que todos os que haviam ousado vir ali desfaleceram de espanto, atingidos de pavor ante a majestade de Deus.
25. Viram eles, montado num cavalo ricamente ajaezado e guiado furiosamente, um cavaleiro de terrível aspecto, que lançava em Heliodoro as patas dianteiras do cavalo. O que vinha nele montado parecia ter uma armadura de ouro.
26. Ao mesmo tempo, apareceram-lhe outros dois jovens, cheios de força extraordinária, fulgurantes de luz, ricamente vestidos; colocando-se dos dois lados, puseram-se eles a açoitá-lo sem interrupção e descarregaram sobre ele uma saraivada de golpes.
27. Atirado logo por terra, Heliodoro foi envolvido por espessas trevas; seus companheiros ergueram-no e depositaram-no numa liteira.
28. E ele, que vinha para penetrar no mencionado tesouro com uma escolta numerosa e guardas pessoais, incapaz de se ajudar a si mesmo, foi levado por pessoas que reconheciam o manifesto poder de Deus.
29. Enquanto ele se achava estendido e ferido pela força de Deus, sem fala e sem esperança alguma de salvação,
30. os habitantes de Jerusalém bendiziam o Senhor que havia glorificado seu templo. O santuário, que pouco antes estava cheio de confusão e de tumulto, logo que o Senhor manifestou sua onipotência encheu-se de regozijo e de alegria.
31. Todavia, alguns dos companheiros de Heliodoro suplicavam logo a Onias que rezasse ao todo-poderoso, para restituir-lhe a vida, prestes, na verdade, a apagar-se.
32. Receando que o rei suspeitasse de que os judeus houvessem organizado um atentado contra Heliodoro, o sumo sacerdote ofereceu um sacrifício por ele.
33. Ora, enquanto o pontífice executava a cerimônia expiatória, os mesmos jovens apareceram a Heliodoro, revestidos das mesmas vestes. Achegaram-se a ele e disseram-lhe: Sê reconhecido ao sumo sacerdote, porque é por causa dele que Deus te dá a vida.
34. Proclama diante de todos seu grande poder, tu que foste açoitado por Deus. Ditas estas palavras, desapareceram.
35. Após ter oferecido um sacrifício ao Senhor, erguido abundantes preces ao que lhe havia poupado a vida, e agradecido a Onias, Heliodoro regressou com suas tropas para junto do rei.
36. Testemunhava, diante de todos, os prodígios operados pelo Grande Deus, aos seus olhos
37. e, como o rei lhe perguntasse que homem julgava ele que pudesse enviar ainda uma vez a Jerusalém, respondeu:
38. Se tens algum inimigo, ou alguém que maquina contra ti, envia-o para lá, e encontrá-lo-ás ferido, se ainda viver, porque há verdadeiramente, naquele lugar, uma força divina.
39. O que habita no céu zela por aquele templo. Protege-o e arruína mortalmente os que aí vêm com más intenções.
40. Foi assim que se passaram estas coisas a respeito de Heliodoro e do tesouro sagrado que foi protegido.

 
Capítulo 4

1. O dito Simão, delator do tesouro e de sua pátria, caluniava Onias, dizendo que era ele quem se tinha lançado sobre Heliodoro e que era ele o autor de seus males:
2. ousava chamar de inimigo do Estado o benfeitor da cidade, o defensor de seus concidadãos, o ardoroso observante das leis.
3. Este ódio foi tão longe que um dos partidários de Simão cometeu até mesmo assassinatos.
4. Considerando o lado lamentável dessa questão e vendo o governador da Celesíria, Apolônio, filho de Menesteu, excitar a malícia de Simão,
5. dirigiu-se Onias para junto do rei, não que ele tivesse a intenção de acusar seus concidadãos, mas para advertir acerca dos interesses públicos e privados de todo o seu povo.
6. Via muito bem que, sem uma intervenção do rei, seria impossível restabelecer a paz e pôr termo aos desatinos de Simão.
7. Após a morte de Seleuco e tendo subido ao trono Antíoco Epífanes, Jasão, irmão de Onias, usurpou fraudulentamente o cargo de sumo sacerdote.
8. Numa entrevista com o rei, ele lhe prometeu trezentos e sessenta talentos de prata e oitenta talentos excedentes.
9. Prometia-lhe, além disso, pagar outros cento e cinqüenta talentos, se lhe fosse dado o poder de fundar um ginásio e uma efebia e de receber as inscrições dos antioquenos de Jerusalém.
10. O rei consentiu. Logo que subiu ao poder, Jasão arrastou seus concidadãos para o helenismo.
11. Apesar dos privilégios obtidos do poder real por João, o pai de Eupolemo, que foi enviado aos romanos para concluir um pacto de aliança e de amizade, ele introduziu ímpios costumes, desdenhando as leis nacionais.
12. Foi com alegria que fundou um ginásio ao pé da própria acrópole, alistou os mais nobres jovens e os educou ao pétaso.
13. Por causa da perversidade inaudita do ímpio Jasão, que não era de modo algum pontífice, obteve o helenismo tal êxito e os costumes pagãos uma atualidade tão crescente,
14. que os sacerdotes descuidavam o serviço do altar, menosprezavam o templo, negligenciavam os sacrifícios, corriam, fascinados pelo disco, a tomar parte na palestra e nos jogos proibidos.
15. Não faziam caso das honras da pátria e amavam muito mais os títulos helênicos.
16. Foi por essa razão que logo uma atmosfera penosa os cercou, porque naqueles mesmos, cuja forma de vida invejavam e a quem ambicionavam igualar-se em tudo, encontraram inimigos e os instrumentos para seu castigo.
17. O seguinte fato mostrará que não foi fácil violar as leis divinas.
18. Como em Tiro se celebrassem os jogos qüinqüenais, em presença do rei,
19. o ímpio Jasão mandou um grupo de antioquenos de Jerusalém levar trezentas dracmas de prata para o sacrifício de Hércules, mas os próprios portadores acharam a coisa inconveniente e julgaram melhor empregá-las em outras despesas.
20. A vontade de Jasão era de que elas fossem destinadas ao sacrifício de Hércules mas, por causa dos que as levavam, foram destinadas à construção das galeras.
21. Tendo sido enviado ao Egito Apolônio, filho de Menesteu, por ocasião da posse do rei Filometor, soube Antíoco que este rei se lhe tornara hostil e procurou pôr-se em segurança. Veio, pois, a Jope e de lá dirigiu-se a Jerusalém.
22. Recebido magnificamente por Jasão e por toda a cidade, fez sua entrada à luz de fachos, entre aclamações. Depois disso transportou o seu acampamento para a Fenícia.
23. Três anos mais tarde, Jasão enviou Menelau, irmão de Simão, acima mencionado, para levar o dinheiro ao rei e lembrar-lhe os negócios urgentes;
24. mas, uma vez admitido à presença do rei, cumulou-o de encômios sobre a extensão do seu poder e, oferecendo trezentos talentos a mais que Jasão, obteve para si mesmo o pontificado.
25. Recebidas as ordens do rei, voltou, nada tendo em si que fosse digno do pontificado, mas excitado por sentimentos de um desumano tirano e de uma besta feroz.
26. Desse modo Jasão, que havia suplantado seu próprio irmão, suplantado por sua vez, viu-se forçado a exilar-se no país dos amonitas.
27. Quanto a Menelau, achava-se bem na posse da dignidade, mas não entregava de modo algum ao rei o dinheiro prometido,
28. se bem que ele lhe fosse reclamado por Sóstrato, governador da Acrópole, encarregado das cobranças dos impostos; por esse motivo ambos foram chamados a comparecer diante do rei.
29. Menelau designou para substituí-lo como sumo sacerdote seu irmão Lisímaco; Sóstrato deixou Cratos, comandante dos cipriotas.
30. Entrementes, os habitantes de Tarso e de Malos se revoltaram, porque sua cidade havia sido entregue a Antioquides, concubina do rei.
31. Partiu pois este a toda a pressa, para restabelecer a calma, deixando como seu lugar-tenente Andrônico, um de seus dignitários.
32. Menelau viu que a circunstância lhe era favorável e se reconciliou com Andrônico por meio de objetos de ouro roubados ao templo; chegou igualmente a vendê-los em Tiro e nas cidades vizinhas.
33. Quando soube disso com clareza, Onias repreendeu-o, conservando-se retirado no território inviolável de Dafné, perto de Antioquia.
34. Por causa disso, Menelau tomou à parte Andrônico, e induziu-o a matar Onias. Andrônico dirigiu-se, pois, para junto dele, enganou-o com astúcia, deu-lhe garantias, que confirmou por juramento, levou-o a deixar seu esconderijo e matou-o no mesmo instante, sem nenhuma atenção à justiça.
35. Não só os judeus, mas também muitos estrangeiros ficaram indignados e consternados com esse assassínio iníquo
36. e, quando o rei entrou nas cidades de Cilícia, tanto os judeus da cidade, como também os gregos contrários à violência, vieram perquirir o motivo do assassinato inescusável de Onias.
37. Antíoco ficou profundamente abatido e, tocado de compaixão, chorou ao lembrar-se da sabedoria e da grande moderação do finado.
38. Excitado assim por uma cólera violenta, despojou imediatamente Andrônico de suas púrpuras, rasgou-lhe as vestes, mandou que levassem através de toda a cidade, até o lugar onde havia lançado a mão sacrílega sobre Onias, e ali acabou com a vida do homicida. Assim o Senhor deu-lhe o merecido castigo.
39. Ora, em Jerusalém, Lisímaco, de acordo com Menelau, multiplicou os roubos sacrílegos e, divulgado o rumor, o povo acabou por amotinar-se contra ele, porque muitos objetos de ouro haviam sido levados.
40. Como a multidão se houvesse sublevado em cólera, Lisímaco equipou perto de três mil homens e deu o sinal para uma injusta repressão, sob a chefia de certo Auranos, homem avançado em idade e não menos em loucura.
41. Todavia, o povo tomou conhecimento da trama de Lisímaco: uns se armaram com pedras, outros com paus, alguns ajuntaram o pó da terra e se arremessaram contra os homens de Lisímaco.
42. Desse modo, muitos foram os feridos, alguns mortos e os restantes postos em fuga; quanto ao próprio sacrílego, mataram-no junto ao tesouro.
43. Por todas essas desordens, foi instaurado um processo contra Menelau.
44. Quando o rei veio a Tiro, três enviados da assembléia dos anciãos sustentaram a acusação diante dele.
45. Mas Menelau, que se julgava já derrotado, prometeu grande soma de dinheiro a Ptolomeu, filho de Diomedes, para que ele lhe granjeasse o favor do rei.
46. Ptolomeu conduziu pois o rei para debaixo de um peristilo, como se fosse para tomar ar fresco, e fê-lo mudar de sentimento,
47. de modo que Menelau, posto que responsável por todo o mal, foi considerado pelo rei inocente de todas as acusações que pesavam sobre ele, e condenou à morte os infelizes que teriam sido julgados inocentes, mesmo se tivessem pleiteado diante dos citas.
48. Assim, os que só tinham tomado a palavra para defender os interesses da cidade, do povo e dos objetos sagrados sofreram essa pena injusta.
49. Por isso, os próprios tírios ficaram de tal maneira encolerizados com esse crime, que subvencionaram magnificamente os gastos de suas sepulturas.
50. Quanto a Menelau, por causa da cobiça dos poderosos, conservou seu cargo, mas cresceu em malícia e tornou-se o verdadeiro inimigo de seus concidadãos.

 
Capítulo 5

1. Por essa ocasião, Antíoco organizou sua segunda expedição ao Egito.
2. Aconteceu que em toda a cidade e por mais de quarenta dias apareceram, correndo pelos ares, cavaleiros vestidos de ouro e armados com lanças, coortes armadas, espadas desembainhadas,
3. esquadrões alinhados para a batalha, perseguições e choques de um lado e de outro, movimentos de escudos, florestas de lanças, tiros de dardos, armaduras de ouro resplandecentes e couraças de todo o gênero.
4. Por isso, todos rezavam para que tais aparições produzissem felizes resultados.
5. Espalhando-se a notícia, aliás falsa, da morte de Antíoco, Jasão tomou consigo ao menos mil homens e atacou a cidade de improviso. Travou-se o combate sobre os muros e a cidade estava já tomada, quando Menelau fugiu para a Acrópole.
6. Jasão massacrou sem piedade seus próprios concidadãos, esquecendo-se de que uma vitória ganha sobre compatriotas é a maior das desgraças, e agiu como se alcançasse um troféu dos seus inimigos e não dos seus congêneres.
7. Todavia, não lhe foi possível conquistar o poder, e só recolhendo de sua maquinação a vergonha, fugiu de novo para a terra dos amonitas.
8. Pereceu, enfim, miseravelmente, porque, acusado junto de Aretas, rei dos árabes, fugiu de cidade em cidade e, perseguido por todos, detestado como violador de leis, desprezado como carrasco de sua pátria e de seus concidadãos, foi levado para o Egito.
9. Aquele que tinha lançado fora de sua pátria tanta gente pereceu numa terra estrangeira, tendo ido para junto dos espartanos, com a esperança de ali encontrar refúgio, por causa de uma origem comum
10. e, após ter lançado por terra tantos homens, sem sepultá-los, não foi chorado por ninguém, não recebeu as honras dos funerais e nem um lugar no túmulo de seus pais.
11. Quando a notícia desses acontecimentos chegou aos ouvidos do rei, ele concluiu que a Judéia queria desertar. Trazendo seu exército do Egito, com o ânimo enfurecido, conquistou a cidade de assalto,
12. e ordenou aos soldados que matassem sem compaixão aqueles que caíssem em suas mãos e que degolassem os que se refugiassem nas casas.
13. Houve, pois, mortandade de jovens e de velhos, carnificina de homens, de mulheres e de crianças, massacre de donzelas e de meninos.
14. Em três dias houve oitenta mil vítimas, das quais quarenta mil foram mortas e outras tantas vendidas como escravas.
15. Não satisfeito com isso, o rei ousou penetrar no templo, o mais santo de toda a terra, conduzido por Menelau, que foi infiel às leis e à pátria.
16. Tomou com as mãos profanas os vasos sagrados e com mãos impuras apoderou-se das oferendas feitas pelos reis anteriores, para proveito, honra e glória do templo.
17. Antíoco enchia-se de orgulho, mas não percebia que o Senhor momentaneamente se havia irritado por causa dos pecados dos habitantes da cidade: daí essa indiferença pelo templo,
18. porque, se os judeus não fossem por demais culpáveis, a exemplo de Heliodoro, enviado pelo rei Seleuco para inspecionar o tesouro, ele teria sido flagelado logo que chegou, e dissuadido de sua audácia.
19. Na verdade, Deus não escolheu o povo por causa do templo, mas escolheu o templo por causa do povo;
20. foi por isso que aquele, depois de ter participado dos males do povo, teve em seguida parte com ele nos favores divinos e, desamparado no tempo da cólera, foi restaurado com toda a sua glória por ocasião da reconciliação com o soberano Senhor.
21. Tendo Antíoco roubado ao templo mil e oitocentos talentos, voltou sem demora para Antioquia. Com o espírito exaltado, ele cria, em sua soberba, poder navegar sobre a terra e caminhar sobre o mar.
22. Contudo, por motivo de seu ódio para com os judeus, deixou atrás de si oficiais com a incumbência de molestar o povo: em Jerusalém, Filipe, da Frígia, mais bárbaro ainda que seu senhor;
23. no monte Garizim, Andrônico e, adjunto a estes, Menelau, que se encarniçava contra seus concidadãos de modo mais terrível que os outros.
24. Enviou também o misarca Apolônio à frente de um poderoso exército de vinte e dois mil homens, com a ordem de matar todos os adultos e de vender as mulheres e as crianças.
25. Chegou pois este a Jerusalém, fingindo intenções pacíficas; esperou até o dia santo de sábado e, apanhando os judeus desocupados, ordenou às suas tropas pegarem em armas.
26. Todos os que saíram para ver o espetáculo foram massacrados e, percorrendo a cidade com seus soldados, matou um grande número de pessoas.
27. Judas Macabeu retirou-se com um grupo de outros homens para o deserto, vivendo com os seus companheiros nas montanhas como animais selvagens e alimentando-se de plantas para não se contaminarem.

 
Capítulo 6

1. Pouco tempo depois, um velho ateniense foi enviado pelo rei para forçar os judeus a abandonar os costumes dos antepassados, banir as leis de Deus da cidade,
2. macular o templo de Jerusalém, dedicá-lo a Júpiter Olímpico e consagrar o do monte Garizim, segundo o caráter dos habitantes do lugar, a Júpiter Hospitaleiro.
3. Dura e penosa foi para todos essa avalanche de mal.
4. O templo encheu-se de lascívias e das orgias dos gentios que se divertiam com meretrizes, unindo-se às mulheres nos átrios sagrados e introduzindo coisas ilegais.
5. O altar estava coberto de vítimas impuras, interditas pelas leis.
6. Não se permitia mais a observância do sábado, a celebração das antigas festas, nem mesmo confessar-se judeu.
7. Em cada mês, no dia natalício do rei, realizava-se um sacrifício; os judeus eram odiosamente forçados a tomar parte no banquete ritual e, por ocasião das festas em honra de Dionísio, deviam forçosamente acompanhar o cortejo de Baco, coroados com hera.
8. Por instigação dos ptolomeus, foi publicado um decreto que obrigava as cidades helênicas dos arredores a tratar os judeus do mesmo modo e levá-los à participação nos banquetes rituais, com a ordem de matar os que se recusassem a adotar os costumes helênicos.
9. Podiam-se, pois, prever as aflições que os aguardavam.
10. Assim, duas mulheres foram acusadas de circuncidarem suas crianças: foram arrastadas publicamente pela cidade, com seus filhinhos pendurados aos peitos e precipitadas do alto das muralhas.
11. Outros se haviam retirado às cavernas vizinhas para aí celebrarem secretamente o dia de sábado. Denunciados a Filipe, foram todos queimados, pois não ousaram defender-se, por respeito à santidade do dia.
12. Suplico aos que lerem este livro, que não se deixem abater por esses tristes acontecimentos, mas que considerem que esses castigos tiveram em mira não a ruína, mas a correção de nossa raça;
13. porque é sinal de uma grande benevolência a seu respeito o fato de não suportar por muito tempo os maus e de, ao contrário, castigá-los sem tardança.
14. Quanto às outras nações, o Senhor espera pacientemente, antes de puni-las, que tenham enchido a medida de suas iniqüidades; a nós, porém, ele prefere não nos tratar assim,
15. com receio de ter que nos punir mais tarde, quando tivermos pecado demasiadamente.
16. Assim, não nos retire ele jamais a sua misericórdia e não abandone seu povo, no momento em que o corrige pela adversidade!
17. Mas que tudo isso seja dito apenas a título de lembrança, e, com estas palavras, voltemos à narração.
18. Havia certo homem já de idade avançada e de bela aparência, Eleazar, que se sentava no primeiro lugar entre os doutores da lei. Queriam coagi-lo a comer carne de porco, abrindo-lhe a boca à força.
19. Mas ele, cuspindo e preferindo morrer com honra a viver na infâmia,
20. caminhou voluntariamente para o instrumento de tortura, como devem caminhar os que têm a coragem de rejeitar o que não é permitido comer por amor à vida.
21. Ora, os encarregados desse ímpio banquete ritual, já desde muito tempo possuíam relações de amizade com Eleazar. Tomaram-no à parte e rogaram-lhe que fizesse trazer as carnes permitidas, que ele mesmo tivesse preparado, para comê-las como se fossem carnes do sacrifício, conforme ordenara o rei.
22. Desse modo, ele seria preservado da morte, e granjearia sua benevolência em vista da antiga amizade.
23. Mas Eleazar, tomando uma bela resolução, digna de sua idade, da autoridade que lhe conferia sua velhice, do prestígio que lhe outorgavam seus cabelos brancos, da vida íntegra conservada desde a infância, digna sobretudo das sagradas leis estabelecidas por Deus, preferiu ser conduzido à morte.
24. Não é próprio da nossa idade, respondeu ele, usar de tal fingimento, para não acontecer que muitos jovens suspeitem de que Eleazar, aos noventa anos, tenha passado aos costumes estrangeiros.
25. Eles mesmos, após o meu gesto hipócrita, e por um pouco de vida, se deixariam arrastar por causa de mim, e isso seria para a minha velhice a desonra e a vergonha.
26. E mesmo se eu me livrasse agora dos castigos dos homens, não poderia escapar, nem vivo nem morto, das mãos do Todo-poderoso.
27. Sendo assim, se eu morrer agora corajosamente, mostrar-me-ei digno de minha velhice, e terei deixado aos jovens um nobre exemplo de zelo generoso, segundo o qual é preciso dar a vida pelas santas e veneráveis leis.
28. Ditas estas palavras, ele dirigiu-se ao suplício.
29. Aqueles que o levavam transformaram em dureza a benevolência, que pouco antes haviam tido para com ele, julgando insensatas suas palavras.
30. E quando ele estava prestes a morrer sob os golpes, exclamou entre suspiros: O Senhor que possui a ciência santíssima o vê: podendo eu livrar-me da morte, sofro em meu corpo os tormentos cruéis dos açoites, mas os suporto com alma alegre porque é a ele que temo.
31. Dessa maneira passou à outra vida, deixando com sua morte não somente aos jovens, mas também a toda a sua gente, um exemplo de coragem e um memorial de virtude.

 
Capítulo 7

1. Havia também sete irmãos que foram um dia presos com sua mãe, e que o rei por meio de golpes de azorrage e de nervos de boi, quis coagir a comerem a proibida carne de porco.
2. Um dentre eles tomou a palavra e falou assim em nome de todos. Que nos pretendes perguntar e saber de nós? Estamos prontos a morrer antes de violar as leis de nossos pais.
3. O rei, fora de si, ordenou que aquecessem até a brasa sertãs e caldeirões.
4. Logo que ficaram em brasa ordenou que cortassem a língua do que falara (por) primeiro e, depois que lhe arrancassem a pele da cabeça, que lhe cortassem também as extremidades, tudo isso à vista de seus irmãos e de sua mãe.
5. Em seguida, mandou conduzi-lo ao fogo inerte e mal respirando, para assá-lo na sertã. Enquanto o vapor da panela se espalhava em profusão, os outros com sua mãe, exortavam-se mutuamente a morrer com coragem.
6. O Senhor nos vê, diziam, e certamente terá compaixão de nós, como o diz claramente Moisés no seu cântico de admoestações: Ele terá compaixão de seus servos.
7. Morto desse modo o primeiro, conduziram o segundo ao suplício. Arrancaram-lhe a pele da cabeça com os cabelos e perguntaram-lhe depois: Comerás carne de porco, ou preferes que teu corpo seja torturado membro por membro?
8. Ele respondeu: Não, no idioma de seu país, e padeceu então os mesmos tormentos do primeiro.
9. Prestes a dar o último suspiro, disse ele: Maldito, tu nos arrebatas a vida presente, mas o Rei do universo nos ressuscitará para a vida eterna, se morrermos por fidelidade às suas leis.
10. Após este, torturaram o terceiro. Reclamada a língua, ele a apresentou logo, e estendeu as mãos corajosamente.
11. Pronunciou em seguida estas nobres palavras: Do céu recebi estes membros, mas eu os desprezo por amor às suas leis, e dele espero recebê-los um dia de novo.
12. O próprio rei e os que o rodeavam ficaram admirados com o heroísmo desse jovem, que reputava por nada os sofrimentos.
13. Morto este, aplicaram os mesmos suplícios ao quarto,
14. e este disse, quando estava a ponto de expirar: É uma sorte desejável perecer pela mão humana com a esperança de que Deus nos ressuscite; mas, para ti, certamente não haverá ressurreição para a vida.
15. Arrastaram em seguida o quinto e torturaram-no;
16. mas ele, encarando o rei, lhe disse: Ainda que mortal, tens poder sobre os homens, e fazes o que queres. Não penses, todavia, que nosso povo é abandonado por Deus!
17. Espera, verás quão grande é a sua potência e como ele te castigará a ti e à tua raça.
18. Após este, fizeram achegar-se o sexto, que disse antes de morrer: Não te iludas; nós mesmos merecemos estes sofrimentos, porque pecamos contra nosso Deus, e em conseqüência recebemos estes flagelos surpreendentes.
19. Mas não creias tu que ficarás impune, após haveres ousado combater contra Deus.
20. Particularmente admirável e digna de elogios foi a mãe que viu perecer seus sete filhos no espaço de um só dia e o suportou com heroísmo, porque sua esperança repousava no Senhor.
21. Ela exortava a cada um no seu idioma materno e, cheia de nobres sentimentos, com uma coragem varonil, ela realçava seu temperamento de mulher.
22. Ignoro, dizia-lhes ela, como crescestes em meu seio, porque não fui eu quem vos deu nem a alma, nem a vida, e nem fui eu mesma quem ajuntou vossos membros.
23. Mas o criador do mundo, que formou o homem na sua origem e deu existência a todas as coisas, vos restituirá, em sua misericórdia, tanto o espírito como a vida, se agora fizerdes pouco caso de vós mesmos por amor às suas leis.
24. Receando, todavia, o desprezo e temendo o insulto, Antíoco solicitou em termos insistentes o mais jovem, que ainda restava, prometendo-lhe com juramento torná-lo rico e feliz, se abandonasse as tradições de seus antepassados, tratá-lo como amigo, e confiar-lhe cargos.
25. Como o jovem não deu importância alguma, o rei mandou que a mãe se aproximasse e o exortasse com seus conselhos, para que o adolescente salvasse sua vida;
26. como ele insistiu por muito tempo, ela consentiu em persuadir o filho.
27. Inclinou-se sobre ele e, zombando do cruel tirano, disse-lhe na língua materna: Meu filho, compadece-te de tua mãe, que te trouxe nove meses no seio, que te amamentou durante três anos, que te nutriu, te conduziu e te educou até esta idade.
28. Eu te suplico, meu filho, contempla o céu e a terra; reflete bem: tudo o que vês, Deus criou do nada, assim como todos os homens.
29. Não temas, pois, este algoz, mas sê digno de teus irmãos e aceita a morte, para que no dia da misericórdia eu te encontre no meio deles.
30. Logo que ela acabou de falar, o jovem disse: Que estais a esperar? Não atenderei às ordens do rei; eu obedeço àquele que deu a lei a nossos pais por intermédio de Moisés.
31. Mas tu, que és o inventor dessa perseguição contra os judeus, não escaparás à mão de Deus.
32. Quanto a nós é por causa de nossos pecados que sofremos
33. e se, para nos punir e corrigir, o Deus vivo e Senhor nosso se irou por pouco tempo contra nós, ele há de se reconciliar de novo com seus servos.
34. Ímpio, não te exaltes sem razão, embalando-te em vãs esperanças, enquanto levantas a mão sobre os servos do céu;
35. tu ainda não escapaste ao julgamento do Deus todo-poderoso que tudo vê!
36. Enquanto meus irmãos participam agora da vida eterna, em virtude do sinal da Aliança, após terem padecido um instante, tu sofrerás o justo castigo de teu orgulho, pelo julgamento de Deus.
37. A exemplo de meus irmãos, entrego meu corpo e minha vida em defesa às leis de nossos pais e suplico a Deus que ele não se demore em apiedar-se de seu povo; oxalá tu, em meio aos sofrimentos e provações, reconheças nele o Deus único;
38. enfim, que se detenha em mim e em meus irmãos a cólera do Todo-poderoso que se desencadeou sobre toda a nossa raça.
39. Abrasado de ira e enraivecido pela zombaria, o rei maltratou este com maior crueldade do que os outros.
40. Morreu, pois, o jovem purificado de toda mancha e completamente entregue ao Senhor.
41. Seguindo as pegadas de todos os seus filhos, a mãe pereceu por último.
42. Terminamos aqui nossa narração concernente aos banquetes rituais e a estas atrozes perseguições.

 
Capítulo 8

1. Judas, apelidado Macabeu, e seus companheiros penetravam secretamente nas aldeias e convocavam seus parentes: arrastando consigo todos os que se haviam mantido fiéis ao judaísmo, formaram um grupo de aproximadamente seis mil homens.
2. Suplicavam ao Senhor que olhasse para o povo desdenhado por todos, que se compadecesse do templo profanado pelos ímpios;
3. que tivesse compaixão da cidade devastada, perto de ser reduzida ao nível do solo; que escutasse a voz do sangue derramado que a ele clamava;
4. que se lembrasse da desumana carnificina de meninos inocentes e que vingasse também as blasfêmias proferidas contra seu nome.
5. Judas tornou-se o chefe da tropa e os gentios viram-se incapazes de resistir-lhe porque a cólera de Deus tinha-se convertido em misericórdia.
6. Atacava de improviso as cidades e aldeias e as incendiava; ocupava as posições favoráveis, de onde afugentava não poucos de seus inimigos.
7. Era principalmente à noite que ele empreendia essas expedições, e a fama de seu valor espalhava-se por toda parte.
8. Vendo Judas progredir dia a dia e alcançar sempre freqüentes vitórias, Filipe escreveu ao governador da Celesíria e da Fenícia, Ptolomeu, e pediu-lhe auxílio para defender os interesses do rei.
9. Imediatamente, este designou Nicanor, um dos primeiros amigos do rei e filho de Pátroclo, e o enviou à frente de uns vinte mil homens de todas as nações para exterminar toda a raça judia. Agregou a ele Górgias, general perito em assuntos de guerra.
10. Nicanor esperava obter, com a venda dos judeus que fossem aprisionados, os dois mil talentos que o rei devia como tributo aos romanos.
11. Enviou sem perda de tempo, às cidades da costa, o convite para que viessem comprar judeus, prometendo entregar noventa escravos por um talento. Mas não suspeitava então de que o castigo do Todo-poderoso iria cair sobre ele.
12. A notícia do avanço de Nicanor chegou a Judas, o qual informou aos seus da chegada dos inimigos.
13. Num relance, os que tinham medo ou não tinham confiança na justiça de Deus, fugiram e dispersaram-se;
14. outros venderam seus pertences, suplicando ao Senhor que os livrasse do ímpio Nicanor, que os havia vendido antes mesmo de tê-los em mãos.
15. Se não por eles, que o fizesse ao menos em consideração às alianças estabelecidas com seus pais e porque seu santo e sublime nome tinha sido invocado sobre eles.
16. Macabeu reuniu então ao redor de si seus homens, em número de seis mil, exortou-os a não se deixarem intimidar pelos inimigos, nem temerem essa massa de gentios que vinha injustamente contra eles, e que combatessem com valentia;
17. que pensassem na indigna profanação infligida por eles ao templo, na humilhação imposta à cidade devastada e na ruína das tradições de seus antepassados.
18. Eles confiam, dizia ele, nas suas armas e na sua audácia, mas nós colocamos nossa segurança no Deus todo-poderoso, que pode, com um só leve aceno, desbaratar tanto os que nos atacam como o universo inteiro.
19. Lembrou-lhes no passado o caso da proteção divina: como, por exemplo, do exército de Senaquerib, haviam perecido cento e oitenta mil homens;
20. e, na batalha contra os gálatas em Babilônia, oito mil judeus tiveram de lutar ao lado de quatro mil macedônios; como estes se achavam numa situação crítica, os oito mil judeus massacraram cento e vinte mil inimigos, por causa do socorro que lhes foi dado do céu, e alcançaram um vasto despojo.
21. Após ter reconfortado seus companheiros e tê-los preparado a morrer pelas leis e pela pátria, dividiu o exército um quatro corpos
22. colocando à frente destes seus irmãos Simão, José e Jônatas, como também Eleazar, cada qual chefiando mil e quinhentos homens.
23. Apenas terminada a leitura do livro santo e dada a senha: Socorro de Deus, ele mesmo pôs-se à frente do primeiro corpo e travou a batalha contra Nicanor.
24. O Todo-poderoso combatia com eles: massacraram mais de nove mil inimigos, feriram e mutilaram a maior parte dos soldados de Nicanor, e os puseram em fuga.
25. Apoderaram-se também do dinheiro dos que tinham vindo para comprá-los, e perseguiram por muito tempo os vencidos, mas tiveram que desistir, impedidos pelo tempo,
26. porque era véspera de sábado, e isso os impedia de prosseguir.
27. Recolheram as armas, arrebataram os despojos dos inimigos e chegaram assim ao sábado, bendizendo o Senhor à porfia, e glorificando-o por havê-los livrado nesse dia, prenunciando a alvorada de sua misericórdia.
28. Passado o sábado, eles reservaram uma parte dos espólios para os que haviam sofrido com a perseguição, as viúvas e os órfãos, e dividiram o resto entre eles e seus filhos.
29. Feito isto, rezaram ao Senhor em comum, suplicando misericórdia e reconciliação completa com seus servos.
30. Nos diferentes combates com os soldados de Timóteo e de Báquides, eles mataram mais de vinte mil e tornaram-se senhores absolutos de várias praças fortes. A abundante presa dividiram-na em duas partes iguais: uma para si mesmos, outra para os perseguidos, as mulheres, os órfãos e mesmo os anciãos.
31. As armas que eles haviam recolhido foram colocadas diligentemente em lugares seguros e levaram a Jerusalém os demais despojos.
32. Mataram o chefe dos guardas de Timóteo, um dos homens mais perversos, que havia feito muito mal aos judeus.
33. Quando celebraram a festa da vitória em Jerusalém, queimaram, dentro de uma pequena casa onde se haviam refugiado, Calístenes e os que haviam incendiado as portas do templo, infligindo-lhes assim o justo castigo de seu sacrilégio.
34. O tríplice celerado Nicanor – que fizera vir mil negociantes, para vender-lhes os judeus -
35. humilhado, graças a Deus, por aqueles que ele desprezava profundamente, despojou-se da vestidura de honra, e, atravessando o interior do país sozinho, como um fugitivo, chegou a Antioquia, feliz por ainda ter podido escapar ao desastre de seu exército.
36. E ele, que tinha prometido pagar o tributo aos romanos com o dinheiro que tiraria da venda dos cativos de Jerusalém, publicou que os judeus possuíam um protetor e que se tornavam invulneráveis quando observavam as leis estabelecidas por ele.

 
Capítulo 9

1. Por essa mesma ocasião, voltava Antíoco da Pérsia, coberto de vergonha.
2. Pois, entrando na cidade que se chamava Persépolis, ele havia tentado saquear o templo e ocupar a cidade, mas o povo se revoltou e pegou em armas, para defender-se; com isso, Antíoco viu-se forçado pelos habitantes dessa região a começar uma retirada humilhante.
3. Achando-se perto de Ecbátana, soube da derrota de Nicanor e do exército de Timóteo.
4. Num arroubo de cólera, resolveu desforrar imediatamente nos judeus o mal que lhe haviam feito os que o tinham obrigado a fugir, e deu ordem ao condutor de seu carro de prosseguir sem parar, a fim de conseguir o mais depressa possível seu intento: na realidade, a sentença do céu já havia caído sobre ele. Exclamava com presunção: Assim que chegar, farei de Jerusalém o sepulcro dos judeus.
5. Mas o Senhor Deus de Israel, que tudo vê, feriu-o com um mal implacável e misterioso. Mal acabara de pronunciar essas palavras, aconteceu que ele foi assaltado por atrozes dores nas entranhas e agudos tormentos no interior;
6. e era muito justo, pois ele mesmo havia rasgado as entranhas aos outros por inauditos tormentos!
7. Todavia, em nada desistiu da sua arrogância; pelo contrário, sempre cheio de soberba, exalava contra os judeus o fogo de sua cólera e ordenava que se apressasse a caminhada, quando repentinamente caiu da carroça, arrancado pela violência da corrida e, na queda fatal, quebrou todos os membros.
8. O homem que, pouco antes, julgando-se acima da natureza humana, pensava poder dominar as frotas do mar e pesar as montanhas nos pratos de sua balança, ei-lo agora estendido sobre a terra, em seguida levado numa liteira, provando assim aos olhos de todos a manifesta potência de Deus.
9. Chegou a tal ponto que o corpo vivo do ímpio fervilhava de vermes e as carnes se soltavam em pedaços entre atrozes dores: o mau cheiro da podridão, que enchia o ar, empestava todo o campo.
10. Aquele que até há pouco tempo sonhava tocar os astros do céu, agora ninguém podia suportá-lo por causa do mau cheiro que dele saía!
11. Foi então que, derribado, ele começou a perder o orgulho excessivo e a compreender melhor, torturado sob os castigos de Deus pelos constantes sofrimentos.
12. Incapaz de suportar sua própria infecção: É justo, dizia ele, submeter-se a Deus, e, como simples mortal, não se querer igualar a ele.
13. O celerado rezava ao Senhor, de quem não haveria de receber compaixão,
14. e prometia dar a liberdade à cidade santa, para a qual ele se encaminhava, a fim de arrasá-la e fazer dela um sepulcro.
15. Dizia ele que tornaria iguais aos atenienses todos os judeus que havia julgado indignos de sepultura e bons para serem atirados com seus filhos às aves do céu e aos animais selvagens como pasto.
16. Ornaria com ricas prendas aquele templo que havia despojado antes, devolver-lhe-ia multiplicados os vasos sagrados, proveria com suas próprias rendas todas as despesas necessárias para os sacrifícios.
17. Além disso, ele mesmo se tornaria judeu e percorreria todos os lugares habitados, proclamando o poder de Deus!
18. Mas suas dores não se atenuavam porque o justo castigo de Deus pesava sobre ele. Então, desesperado em vista de seu estado, escreveu aos judeus a seguinte carta, verdadeira súplica, assim exarada:
19. Aos dedicados súditos judeus, saúde, bem-estar e felicidade, da parte de Antíoco, rei e chefe do exército.
20. Se vós e vossos filhos passais bem e se vos sucedem todas as coisas como desejais, agradeço a Deus, em quem ponho minha esperança;
21. pois quanto a mim, estou prostrado pela doença, mas me lembro com prazer dos vossos sentimentos de respeito e da benevolência para comigo. Ao voltar da Pérsia, surpreendido por um mal cruel, julguei necessário providenciar a segurança de todos.
22. Não que me desespere de meu estado, ao contrário, tenho a firme esperança de escapar dessa doença -
23. mas me lembro de que meu pai designava seu sucessor cada vez que partia em expedição às províncias superiores.
24. Ele queria que no caso de uma desgraça ou má notícia os habitantes do país não se perturbassem, uma vez que soubessem a quem confiar os negócios.
25. Eu sei, ademais, que os príncipes que me rodeiam e os vizinhos do meu reino estão de atalaia e espreitam os acontecimentos; por isso, já designei meu filho Antíoco para rei, a quem, em outras ocasiões, confiei e recomendei a maior parte de vós, quando partia para outras terras. A ele escrevi a carta abaixo:
26. Rogo-vos, portanto, e peço que, em memória de meus benefícios para convosco, tanto gerais, como particulares, tenhais para com meu filho a mesma benevolência que para comigo,
27. pois estou convencido de que ele seguirá minhas intenções e agirá convosco com moderação e humanidade.
28. Assim esse carrasco e blasfemador pereceu miseravelmente, distante, nas montanhas, em meio àqueles sofrimentos que ele mesmo havia infligido aos outros.
29. Filipe, seu amigo de infância, levou seu corpo, e em seguida partiu para o Egito, para junto de Ptolomeu Filometor, para escapar ao filho de Antíoco.

 
Capítulo 10

1. Sob a proteção do Senhor, Macabeu e seus companheiros retomaram o templo e a cidade.
2. Destruíram os altares que os estrangeiros haviam edificado na praça pública, como também os troncos sagrados.
3. Após terem purificado o templo, erigiram um outro altar dos perfumes; utilizaram uma pedra para tirar faíscas das quais eles se serviram para oferecer os sacrifícios, após dois anos de interrupção; queimaram o incenso, acenderam as lâmpadas e recolocaram os pães da proposição.
4. Feitas estas coisas, prostraram-se por terra e pediram ao Senhor que não mais os entregasse a semelhantes calamidades, mas, se recaíssem nas ofensas, que corrigisse com brandura, sem entregá-los às mãos das nações ímpias e bárbaras.
5. Foi no dia do aniversário da profanação do templo pelos estrangeiros, isto é, no dia vinte e cinco do mês de Casleu, que eles o purificaram.
6. Prolongaram as cerimônias e os festejos por oito dias, como na ocasião da festa dos tabernáculos, recordando-se de que, pouco antes, na ocasião dessa festa, habitavam nas montanhas e nas cavernas como animais selvagens.
7. Foi assim que, levando tirsos, ramos verdejantes e palmas, cantaram hinos àquele que lhes havia concedido a dita de purificar o seu templo.
8. Decretaram por um edito público a toda a nação judia, que esses mesmos dias fossem solenizados em cada ano.
9. Acabamos de narrar as circunstâncias da morte de Antíoco, cognominado Epífanes.
10. Vamos agora proceder à narrativa dos acontecimentos sucedidos sob Antíoco Eupator, filho desse sacrílego, resumindo o que se refere aos males da guerra.
11. Assim que subiu ao trono, este príncipe pôs à frente dos negócios do reino um certo Lísias, ao qual nomeou também governador militar e chefe da Celesíria e da Fenícia,
12. porque Ptolomeu, apelidado Macron, tomando a iniciativa de se mostrar justo para com os judeus, em vista da perseguição movida contra eles, procurou governá-los na paz;
13. mas, pelos favoritos do rei, ele havia sido denunciado a Eupator. Por outro lado, tachado muitas vezes de traidor, por ter deixado Chipre que lhe havia entregue Filometor e se ter posto a serviço de Antíoco Epífanes, e, em conseqüência, não podendo exercer com honra seu alto posto, envenenou-se e morreu.
14. Mas Górgias, tornado comandante do exército nessas paragens, tomava consigo tropas estrangeiras e aproveitava-se de todas as ocasiões para importunar os judeus.
15. Os idumeus, senhores de várias fortalezas importantes, em combinação com ele, molestavam os judeus, acolhiam os exilados de Jerusalém, e mantinham um estado de guerra contínuo.
16. Então Macabeu com seus companheiros atacaram as fortalezas da Iduméia, após haver rezado e invocado o auxílio de Deus.
17. Atacaram-nas com vigorosos esforços, apoderaram-se de todas, repeliram os que combatiam sobre as muralhas, mataram os que caíam em suas mãos e trucidaram não menos de vinte mil homens.
18. Nove mil fugitivos pelo menos haviam procurado abrigo em duas fortalezas, equipadas com o necessário para agüentar um cerco.
19. Macabeu deixou Simão e José com Zaqueu e muitos homens, para expugná-los e dirigiu-se para onde se exigia mais a sua presença.
20. Todavia, os companheiros de Simão, seduzidos pelo dinheiro, deixaram-se corromper por alguns dos que se achavam nas torres da cidadela, e, mediante a soma de setenta mil dracmas, deixaram escapar muitos deles.
21. Ouvindo essas notícias, Macabeu acusou-os diante da assembléia dos chefes de terem vendido seus irmãos a troco de dinheiro, entregando os inimigos à liberdade.
22. Comprovada a sua traição, mandou executá-los e, em seguida, tomou conta das duas cidadelas.
23. Coroadas de êxito as lutas de ambos os lados, ele matou mais de vinte mil homens nas duas fortalezas.
24. Anteriormente vencido pelos judeus, Timóteo coligou copiosas tropas estrangeiras e reuniu na Ásia uma numerosa cavalaria, indo em direção à Judéia com a intenção de conquistá-la pelas armas.
25. Com a sua chegada, Macabeu e seus companheiros cobriram a cabeça com terra e cingiram os rins com sacos, em sinal de prece;
26. em seguida, prostrados aos pés do altar, rogaram a Deus piedade para com eles, pedindo que se declarasse inimigo de seus inimigos e adversário de seus adversários, conforme a promessa formal da lei.
27. Terminada a oração, empunharam as armas, retiraram-se para bem longe da cidade e fizeram alto diante do inimigo.
28. Ao despontar a aurora, travaram combate os dois lados, contando uns com o êxito e a vitória, por causa de sua valentia e do socorro do Senhor, e os outros entregando-se ao combate, apoiados no próprio furor.
29. No auge do combate, viram os inimigos aparecer no céu cinco magníficos guerreiros, montados em cavalos ajaezados com freios de ouro, que se colocaram à frente dos judeus.
30. Postando Macabeu no meio deles e protegendo-o com suas armas, tornavam-no invulnerável. Ao mesmo tempo lançavam dardos e raios sobre os inimigos, cegando-os, gerando entre eles a confusão, pondo-os em desordem.
31. Foram, pois, mortos vinte mil e quinhentos infantes e seiscentos cavaleiros.
32. Timóteo fugiu para uma praça muito forte, chamada Gazara, cujo comandante era Queréias.
33. Macabeu e os que se achavam com ele assediaram-na com ardor durante quatro dias,
34. enquanto os que se encontravam nela não cessavam de blasfemar e injuriar, confiados em seus muros.
35. Amanhecendo, porém, o quinto dia, um grupo de vinte jovens do exército de Macabeu, inflamado de cólera por causa dessas blasfêmias, atirou-se corajosamente à muralha e massacrou tudo o que encontrou.
36. Outros subiram do mesmo modo o muro, atearam fogo às torres, acenderam fogueiras, nas quais queimaram vivos os blasfemadores; outros ainda arrombaram as portas, fizeram entrar o restante do exército e ocuparam a cidade.
37. Mataram Timóteo, oculto numa cisterna, seu irmão Queréias e Apolofanes.
38. Após essa façanha, cantaram hinos e cânticos ao Senhor, que havia operado grandes prodígios em favor de Israel, concedendo-lhe a vitória.

 
Capítulo 11

1. Decorrido algum tempo, Lísias, tutor e parente do rei, regente do reino, sentindo muito pesar pelo que tinha acontecido,
2. reuniu aproximadamente oitenta mil homens com toda a cavalaria e se pôs a caminho contra os judeus. Estava resolvido a transformar Jerusalém numa cidade grega,
3. submeter o templo a um imposto semelhante aos dos templos pagãos e oferecer em leilão, a cada ano, a dignidade de sumo sacerdote.
4. Sem refletir no poder de Deus, ensoberbecia-se com a multidão de sua infantaria, seus milhares de cavaleiros e oitenta elefantes.
5. Penetrando, pois, na Judéia, aproximou-se de Betsur, que é uma praça forte, a cerca de cinco esquenos das vizinhanças de Jerusalém, e expugnou-a.
6. Logo, porém, que Macabeu e os que estavam com ele souberam que Lísias sitiava suas fortalezas, rogaram ao Senhor, juntamente com o povo, entre gemidos e lágrimas, para que ele se dignasse enviar um bom anjo para salvar Israel.
7. O próprio Macabeu foi o primeiro a pegar em armas, encorajando os demais a se exporem ao perigo com ele, para socorrer seus irmãos: atacaram todos com ânimo resoluto.
8. Ainda não se haviam afastado de Jerusalém, quando apareceu diante deles um cavaleiro vestido de branco, empunhando armas de ouro.
9. Então bendisseram todos juntos ao Senhor, e, repletos de coragem, sentiram-se prontos a transpassar não só os homens, mas os mais ferozes animais e até muralhas de ferro.
10. Avançaram, pois, em ordem de batalha, com esse auxiliar enviado do céu pelo Senhor misericordioso.
11. Como leões, atiraram-se sobre os inimigos, trucidaram onze mil infantes e seiscentos cavaleiros, e forçaram os demais a fugir.
12. A maior parte destes, feridos, sem armas, pôs-se a salvo. O próprio Lísias salvou-se, fugindo vergonhosamente.
13. Mas Lísias era inteligente. Refletiu, pois, na derrota e concluiu que os hebreus eram invencíveis porque o Deus poderoso combatia com eles.
14. Enviou-lhes uma proposta em condições justas, prometendo-lhes persuadir o rei a tornar-se amigo deles.
15. Macabeu aceitou todas as propostas de Lísias, vendo nisso apenas utilidade, porque tudo o que ele mesmo pedira por carta a Lísias em favor dos judeus, o rei concedera.
16. Eis em que termos Lísias escreveu aos judeus:
17. Lísias ao povo judeu, saúde. João e Absalão, vossos mensageiros, entregaram-me vossas propostas e rogaram-me que as cumprisse.
18. Expus, portanto, ao rei tudo o que devia comunicar-lhe, e ele anuiu a tudo o que era possível.
19. Se vós, pois, permanecerdes nessas boas disposições para com o Estado, continuarei doravante a obter-vos favores.
20. Eu incumbi vossos mensageiros e os meus de tratarem convosco as cláusulas da proposta e os pormenores.
21. Passai bem. Ano cento e quarenta e oito, aos vinte e quatro do mês de Dióscoro.
22. Era este o conteúdo da carta do rei: O rei Antíoco a seu irmão Lísias, saúde!
23. Tendo partido nosso pai para junto dos deuses, desejamos que os povos que pertencem ao nosso reino possam dedicar-se tranqüilamente aos seus negócios.
24. Soubemos, no entanto, que os judeus resistem em adotar os costumes helênicos, conforme a decisão de nosso pai; preferem conservar suas tradições e pedem que lhes deixemos seus costumes.
25. Querendo, pois, que esse povo viva igualmente em paz, decretamos que o templo lhes seja restituído e que possam viver segundo as leis de seus antepassados.
26. Farás bem em lhes mandar mensageiros, para concluir a paz com eles, de modo que, conhecendo nossas intenções, fiquem tranqüilos e voltem sem receio a seus afazeres.
27. Eis a carta do rei ao povo judeu: O rei Antíoco ao conselho dos anciãos e aos demais judeus, saúde!
28. Fazemos votos de que estejais passando bem; nós estamos com boa saúde!
29. Contou-nos Menelau que desejais retornar aos vossos negócios.
30. A todos os que vierem para o meio deles até o dia trinta do mês de Xântico, eu estenderei a mão.
31. Permito também aos judeus que usem dos seus alimentos e dos seus costumes, como outrora; e ninguém dentre eles será molestado por transgressões passadas.
32. Incumbi Menelau de ir tranqüilizar-vos.
33. Passai bem. Ano cento e quarenta e oito no dia quinze do mês de Xântico.
34. Do mesmo modo, os romanos enviaram aos judeus uma carta nestes termos: Quinto Mênio, Tito Mânio, legados romanos, ao povo judeu, saúde!
35. Damos nosso assentimento a tudo o que Lísias, parente do rei, vos outorgou.
36. Quanto ao que ele julgou necessário submeter ao rei, enviai-nos alguém sem demora, a fim de que, após um exame, possamos falar-lhe de modo mais vantajoso para vós, porque vamos para Antioquia.
37. Apressai-vos, pois, em nos enviar mensageiros, para que saibamos bem quais são vossos desejos.
38. Passai bem! Ano cento e quarenta e oito no dia quinze do mês de Xântico.

 
Capítulo 12

1. Concluídos esses tratados, voltou Lísias para junto do rei, e os judeus voltaram aos trabalhos dos campos.
2. No entanto, chefes militares locais, como Timóteo, Apolônio, filho de Jeneu, Jerônimo e Demofonte, e além destes, o cipriarca Nicanor, não lhes davam trégua, nem os deixavam viver em repouso.
3. Por outro lado, os habitantes de Jope praticaram a seguinte infâmia: convidaram os judeus que habitavam entre eles a subir com suas mulheres e filhos para barcas que eles haviam preparado. Não davam a entender intenção malvada alguma a seu respeito,
4. mas pareciam proceder, seguindo uma decisão votada pela cidade. Os judeus, pacíficos e sem suspeitarem, anuíram, mas quando chegaram ao alto-mar foram afogados em número de duzentos pelo menos.
5. Mal soube Judas do crime praticado contra a gente de sua nação, convocou seus homens.
6. Depois de ter invocado a Deus, justo juiz, foi contra os carrascos de seus irmãos e, de noite, ateou fogo ao porto, incendiou as embarcações e passou a fio de espada os que ali se haviam refugiado.
7. Como a cidade mesma estivesse fechada, afastou-se, mas com a intenção de voltar e exterminar todos os habitantes de Jope.
8. Por outro lado, advertido de que os habitantes de Jânia queriam tratar do mesmo modo os judeus que viviam com eles,
9. atacou-os naquela mesma noite e incendiou o porto com a esquadra. De Jerusalém, que dista duzentos e quarenta estádios, podia-se observar o clarão do fogo.
10. Percorridos já nove estádios, no seu avanço contra Timóteo, lançaram-se sobre eles os árabes em número de pelo menos cinco mil a pé e quinhentos a cavalo.
11. Travou-se um combate violento, mas, com a ajuda de Deus, os soldados de Judas venceram-nos, e, vencidos, os árabes lhe pediram paz: prometiam dar gado aos judeus e os auxiliariam de outras maneiras.
12. Crendo que, na verdade, eles lhe poderiam ser úteis, Judas aceitou a paz com eles, e, concluída esta, regressaram às suas tendas.
13. Em seguida, atacou Judas uma cidade forte, chamada Caspim, cercada de muralhas, habitada por uma mistura de povos.
14. Confiados na firmeza de seus muros e na abundância de suas provisões, os sitiados mostraram-se excessivamente grosseiros contra as tropas de Judas, lançando-lhes injúrias, blasfêmias e palavras ímpias.
15. Judas juntamente com os seus invocaram o grande Senhor do mundo, que, no tempo de Josué, derribou os muros de Jericó sem aríetes nem máquinas de guerra; depois, investiram furiosamente contra a muralha.
16. Uma vez senhores da cidade pela vontade de Deus, praticaram uma horrorosa carnificina, a ponto de um tanque vizinho, com a largura de dois estádios, parecer cheio de sangue que ali se derramou.
17. Dali, após uma marcha de setecentos e cinqüenta estádios, alcançaram o acampamento fortificado onde habitavam os judeus, chamados tubianeus.
18. Não acharam ali, todavia, Timóteo: ele havia deixado os lugares sem ter conseguido nada, mas deixara num posto uma guarnição muito forte.
19. Dositeu e Sosípatro, que comandavam tropas de Macabeu, foram atacar esse posto fortificado e mataram todos os homens que Timóteo ali havia colocado, isto é, mais de dez mil.
20. Macabeu dividiu então seu exército e confiou a cada um deles uma parte; em seguida foi contra Timóteo, acompanhado de cento e vinte mil infantes e dois mil e quinhentos cavaleiros.
21. Logo que teve conhecimento da chegada de Judas, Timóteo conduziu as mulheres, as crianças e as bagagens para um lugar chamado Carnion, porque era um lugar tornado inexpugnável pelos desfiladeiros e de acesso muito difícil.
22. Quando apareceu o primeiro exército de Judas, o terror apoderou-se logo dos inimigos, porque aquele que vê todas as coisas manifestou-se a seus olhos; e fugiram em todas as direções, ferindo-se constantemente uns aos outros e transpassando-se com as suas próprias espadas.
23. Judas perseguiu encarniçadamente esses malfeitores, matando e massacrando até trinta mil homens.
24. O próprio Timóteo caiu nas mãos dos homens de Dositeu e de Sosípatro, aos quais pediu com grandes instâncias deixá-lo partir são e salvo, porque tinha em seu poder os pais e mesmo os irmãos da maior parte deles, que poderiam ser maltratados.
25. Dava-lhes numerosas garantias e prometia libertar seus prisioneiros sem fazer-lhes mal; e com isso soltaram-no, para salvar seus irmãos.
26. Em seguida, Judas atacou Carnion e o templo de Atargatis e massacrou vinte e cinco mil homens.
27. Depois dessa perseguição e matança, conduziu suas tropas diante de Efron, cidade forte, onde habitava Lísias e gente de todas as nações. Jovens robustos, colocados em frente à muralha, defendiam-na valentemente: dentro havia grande provisão de máquinas e projéteis.
28. Os judeus invocaram o Soberano que tem o poder de aniquilar as forças dos inimigos, tornaram-se senhores da cidade e mataram ali vinte e cinco mil homens.
29. Dali partiram eles para alcançar a cidade de Citópolis, a seiscentos estádios de Jerusalém.
30. Todavia, os judeus que habitavam ali atestaram que os citopolitanos haviam usado de benevolência para com eles e os haviam tratado com deferência no tempo da perseguição.
31. Judas e os seus agradeceram, pois, a estes e os exortaram a perseverar nessas disposições para com os de sua raça; em seguida entraram em Jerusalém, porque a festa das Semanas se aproximava.
32. Passada a festa de Pentecostes, foram contra Górgias, chefe militar da Iduméia;
33. esse saiu-lhes ao encontro com três mil infantes e quatrocentos cavaleiros;
34. e travou-se uma batalha na qual pereceram alguns judeus.
35. Dositeu, um dos cavaleiros de Baquenor, muito corajoso, apoderou-se de Górgias; retendo-o pela clâmide, arrastava-o à força, a fim de capturar vivo o maldito, quando se precipitou sobre ele um cavaleiro da Trácia, que lhe decepou um ombro, e Górgias fugiu para Marisa.
36. No entanto, as tropas de Esdrin, que combatiam há muito tempo, achavam-se fatigadas; então Judas suplicou ao Senhor que se mostrasse seu aliado e os guiasse no combate.
37. E, começando a entoar cantos na língua pátria e lançando o grito de guerra, atirou-se inopinadamente sobre os soldados de Górgias e os pôs em fuga.
38. Quando havia reunido seu exército, Judas alcançou a cidade de Odolão e, chegando o sétimo dia da semana, purificaram-se segundo o costume e celebraram ali o sábado.
39. No dia seguinte, Judas e seus companheiros foram tirar os corpos dos mortos, como era necessário, para depô-los na sepultura ao lado de seus pais.
40. Ora, sob a túnica de cada um encontraram objetos consagrados aos ídolos de Jânia, proibidos aos judeus pela lei: todos, pois, reconheceram que fora esta a causa de sua morte.
41. Bendisseram, pois, a mão do justo juiz, o Senhor, que faz aparecer as coisas ocultas,
42. e puseram-se em oração, para implorar-lhe o perdão completo do pecado cometido. O nobre Judas falou à multidão, exortando-a a evitar qualquer transgressão, ao ver diante dos olhos o mal que havia sucedido aos que foram mortos por causa dos pecados.
43. Em seguida, fez uma coleta, enviando a Jerusalém cerca de dez mil dracmas, para que se oferecesse um sacrifício pelos pecados: belo e santo modo de agir, decorrente de sua crença na ressurreição,
44. porque, se ele não julgasse que os mortos ressuscitariam, teria sido vão e supérfluo rezar por eles.
45. Mas, se ele acreditava que uma bela recompensa aguarda os que morrem piedosamente,
46. era esse um bom e religioso pensamento; eis por que ele pediu um sacrifício expiatório para que os mortos fossem livres de suas faltas.

 
Capítulo 13

1. No ano cento e quarenta e nove, os partidários de Judas souberam que Antíoco vinha contra a Judéia, com um considerável exército.
2. Lísias, seu tutor e ministro, acompanhava-o; eles comandavam as tropas gregas, elevando-se a cento e dez mil infantes, cinco mil e trezentos cavaleiros, vinte e dois elefantes e trezentos carros armados de foices.
3. Menelau havia se ajuntado a eles e intervinha perfidamente junto ao rei, não a favor de sua pátria, mas tendo em mira a confirmação de sua dignidade.
4. Todavia, o Rei dos reis excitou contra esse celerado a cólera de Antíoco e, tendo-o Lísias acusado de ser a causa de todos esses males, mandou o rei conduzi-lo a Beréia, para que fosse morto segundo o costume do país.
5. Ora, havia ali uma torre de cinqüenta côvados, cheia de cinza e munida de um instrumento giratório que, de todos os lados, precipitava essa cinza.
6. Era lá que qualquer culpado de roubo sacrílego, ou de algum outro crime particularmente grave, era lançado à morte pela multidão.
7. Foi nesse suplício que morreu Menelau, o prevaricador, que não recebeu assim sepultura alguma.
8. E isso foi justo, porque ele havia pecado bastante contra o altar que sustenta o fogo puro e a cinza, e foi na cinza que ele encontrou a morte.
9. Nesse meio tempo, o rei avançava, imaginando os mais bárbaros planos, decidido a empregar contra os judeus os piores castigos imaginados por seu pai.
10. Sabendo disso, Judas mandou que o povo invocasse o Senhor, noite e dia, para que nessa circunstância, mais do que nunca, ele viesse em socorro daqueles que estavam ameaçados de perder a lei, a pátria e o templo.
11. Que ele não permitisse que o povo, apenas um pouco aliviado, recaísse sob os golpes das nações perversas.
12. Rezaram todos juntos e invocaram o Senhor misericordioso, entre lágrimas, jejuns, prostrados três dias consecutivos; Judas exortou-os e disse-lhes que estivessem preparados;
13. entrevistou-se ele com os anciãos, e decidiu não esperar que o exército do rei penetrasse na Judéia e se assenhoreasse da cidade, mas sair logo e travar uma batalha decisiva com o auxílio de Deus.
14. Entregou, pois, a sorte das armas ao Criador do mundo e encorajou seus companheiros a combater valentemente até a morte em defesa das leis, do templo, da cidade, da pátria e da nação. Em seguida, levou seu exército até Modin.
15. Depois de ter entregue a seus homens a senha Vitória de Deus, tomou consigo os mais corajosos entre os jovens, e partiu de noite, a fim de atacar o acampamento que abrigava o rei. Mataram cerca de dois mil homens, massacraram o principal elefante e seu condutor e
16. por fim espalharam pelo campo o terror e a confusão; e obtido esse êxito, retiraram-se.
17. Despontava o dia, quando cessou este ataque, graças à proteção de Deus.
18. Provando a audácia dos judeus, tentou o rei apoderar-se das fortificações por estratagemas.
19. Partiu, a fim de colocar cerco diante de Betsur, praça forte dos judeus; foi porém rechaçado, sofrendo revés, e vencido,
20. enquanto Judas reabastecia os sitiados.
21. Rodoco, combatente do exército dos judeus, revelou os segredos dos seus aos inimigos, mas após inquérito foi apanhado e metido no cárcere.
22. Pela segunda vez o rei parlamentou com os habitantes de Betsur, apresentou-lhes a mão, recebeu a deles, partiu para atacar o exército de Judas e foi vencido.
23. Soube então que Filipe, a quem tinha deixado em Antioquia para a direção dos negócios, se revoltara, e ficou muito consternado. Fez propostas aos judeus, aceitou as condições deles e jurou tudo o que lhe pareceu justo. Reconciliados, ofereceu um sacrifício, presenteou o templo e mostrou-se benévolo para com a cidade.
24. Acolheu com agrado Macabeu e deixou como governador na região Hegemônides, desde Ptolemaida até a terra dos gerrênios.
25. Dirigiu-se a Ptolemaida, porque os habitantes estavam descontentes com esse tratado e indignados com os decretos promulgados.
26. Lísias subiu à tribuna, defendeu-o como pôde, persuadiu e apaziguou o povo, levando-o a benévolos sentimentos, e voltou depois a Antioquia. Assim decorreram a ofensiva e a retirada do rei.

 
Capítulo 14

1. Três anos mais tarde, Judas e seus amigos souberam que Demétrio, filho de Seleuco, tinha chegado pelo porto de Trípoli com um poderoso exército e uma grande esquadra;
2. soube também que o país caíra em suas mãos e que havia causado a perda de Antíoco e de seu tutor Lísias.
3. Ora, certo Alcimo, outrora sumo sacerdote, mas voluntariamente comprometido por ocasião da introdução dos costumes pagãos, vendo que de nenhum lado lhe restava esperança de salvação, nem possibilidade de achegar-se ainda ao altar,
4. veio ter com o rei Demétrio. Isso foi pelo ano cento e cinqüenta e um. Ofereceu-lhe uma coroa de ouro, uma palma e, além disso, alguns ramos de oliveira, dos que se oferecem no templo. Naquele dia, contudo, não disse nada.
5. Mas achou uma ocasião oportuna para executar sua maldade, quando foi chamado ao conselho por Demétrio e interrogado sobre as disposições e intentos dos judeus.
6. Respondeu ele: Aqueles judeus, que se chamam assideus, em cuja frente se encontra Judas Macabeu, fomentam a guerra e a sedição, e impedem que o reino goze de paz.
7. Eis por que, despojado de minha dignidade hereditária, quero dizer do sumo sacerdócio: vim aqui
8. primeiro porque tenho realmente cuidado dos interesses do rei; depois, em consideração aos meus compatriotas, porque a irreflexão dos que citei mergulha toda a nossa raça num grande mal.
9. Reconhecido isso, ó rei, pela benevolência que testemunhas a todos, toma as medidas necessárias para a salvação de nosso país e de nossa raça ameaçada,
10. porque, enquanto Judas estiver vivo, é impossível que haja paz.
11. Mal acabara ele de falar, os demais amigos do rei, hostis à causa de Judas, puseram-se a excitar Demétrio.
12. Este designou imediatamente Nicanor, ex-comandante do corpo de elefantes, e promoveu-o a general da Judéia, ordenando-lhe
13. que partisse a fim de matar Judas, dispersar suas tropas e restabelecer Alcimo como sacerdote do grande templo.
14. Aqueles que na Judéia haviam fugido de Judas colocaram-se ao lado dos gentios sob a chefia de Nicanor, como se os infortúnios e males dos judeus lhes devessem redundar em outros tantos êxitos.
15. Os judeus, ao ouvirem falar da expedição de Nicanor e do ataque dos gentios, cobriram a cabeça com pó e imploraram àquele que estabelecera seu povo para sempre e que continuamente, de modo visível, defendia sua parte escolhida.
16. À ordem do chefe, partiu logo o exército e encontrou o inimigo perto da aldeia de Dessau.
17. Embora Simão, irmão de Judas, estivesse em presença de Nicanor, adiou o ataque em vista do súbito terror produzido aos seus pelo inimigo.
18. De seu lado, Nicanor, conhecendo a coragem dos homens de Judas e a grandeza de ânimo com que eles se atiravam ao combate pela pátria, temeu expor-se a uma decisão pelo sangue.
19. Enviou, pois, Possidônio, Teódoto e Matatias, para oferecer a mão aos judeus e receber a deles.
20. As propostas de paz foram por muito tempo examinadas; o chefe as comunicou às tropas e unanimemente foram aceitas.
21. Foi fixado um dia para uma conferência dos chefes sobre esse assunto. De um lado e de outro avançou um carro e colocaram cadeiras de honra.
22. Judas postou homens armados em lugares estratégicos, prontos para qualquer eventualidade, se os adversários os viessem trair. A conferência dos chefes foi satisfatória.
23. Nicanor passou a residir em Jerusalém, sem fazer ali mal algum; despediu até mesmo a multidão das tropas que ele havia trazido consigo.
24. Estava constantemente em companhia de Judas, sentindo amizade para com ele.
25. Instou para que ele se casasse e que tivesse filhos. Judas casou-se, gozou de tranqüilidade, e desfrutou a vida
26. Verificando Alcimo os sentimentos recíprocos de ambos os chefes, investigou as cláusulas do tratado e dirigiu-se a Demétrio, acusando Nicanor de conjurar contra o Estado, porque havia designado para seu lugar-tenente Judas, o próprio inimigo do reino.
27. Exasperado e excitado pelas calúnias desse bandido, escreveu o rei a Nicanor, dizendo-lhe que estava descontente com os tratados realizados e ordenava-lhe que lhe enviasse preso Macabeu o mais depressa possível, para Antioquia.
28. Recebendo essa carta, Nicanor ficou consternado e triste por ter de romper seus contratos sem que Judas tivesse agido mal.
29. Mas, como ele não podia contrariar as ordens do rei, procurava uma ocasião para executar essa ordem por algum ardil.
30. Reparando Macabeu que Nicanor se mostrava mais rude para com sua pessoa e com uma atitude mais indiferente, achou que esse procedimento nada indicava de bom; reunindo, pois, um grupo dos seus partidários, ocultou-se de Nicanor.
31. Quando o outro compreendeu que havia sido logrado, dirigiu-se ao grande e sublime templo no momento em que os sacerdotes ofereciam o sacrifício e deu-lhes ordem de entregarem esse homem;
32. os sacerdotes, porém, juraram-lhe que não sabiam onde se achava o que ele procurava.
33. Então, estendendo a mão para o templo, jurou: Se não me entregardes Judas preso, arrasarei até o solo este santuário de Deus, derribarei o altar, e no mesmo lugar edificarei um magnífico templo a Dionisos.
34. Ditas estas coisas, ele se retirou. Os sacerdotes, então, ergueram as mãos para o céu e invocaram aquele que sempre pelejou pelo nosso povo:
35. Senhor do universo, exclamaram eles, vós, que bastais a vós mesmo, quisestes possuir entre nós um templo por habitação;
36. ó fonte santa de toda santidade, conservai, pois, sempre livre de toda profanação esta casa que há pouco foi purificada.
37. Aconteceu também que Razis, um dos anciãos de Jerusalém, foi denunciado a Nicanor. Era um homem dedicado aos seus concidadãos, de grande reputação, e cognominado pai dos Judeus, por causa de sua benevolência.
38. Anteriormente, por ocasião da resistência ao paganismo, havia sido acusado de judaísmo e pelo judaísmo ele se havia exposto de corpo e alma com um zelo extremo.
39. Nicanor, que pretendia dar uma prova de sua hostilidade para com os judeus, enviou mais de quinhentos homens para apoderar-se dele,
40. supondo que, prendendo-o, causaria aos judeus um golpe penoso.
41. Como essa tropa foi apoderar-se da torre e forçar a entrada, uma vez que havia sido dada a ordem de atear fogo e incendiar as portas, Razis, quando ia ser preso, transpassou-se com a própria espada,
42. preferindo morrer nobremente antes que cair nas mãos dos ímpios e padecer ultrajes indignos de seu nascimento.
43. Na precipitação, porém, dirigiu mal o golpe e, enquanto os soldados forçavam do lado de fora contra as portas, ele correu animosamente para cima do muro e, com coragem, precipitou-se de modo a cair sobre eles;
44. estes afastaram-se com rapidez, e Razis esmagou-se no espaço deixado vazio.
45. Todavia, ainda respirando, cheio de ardor, ergueu-se e, embora o sangue lhe jorrasse como uma fonte de suas horríveis feridas, atravessou a multidão numa carreira; em seguida, de pé sobre uma rocha escarpada
46. e já inteiramente exangue, arrancou com as próprias mãos as entranhas que saíam, e lançou-as sobre os inimigos. Foi assim seu fim, pedindo ao Senhor da vida e do sopro que lhos restituísse um dia.

 
Capítulo 15

1. Ouvindo falar que Judas e seus aliados se achavam nas fronteiras da Samaria, resolveu Nicanor atacá-los com toda a segurança no dia do repouso sabático.
2. Os judeus, obrigados por ele a segui-lo, disseram-lhe: Não faças um massacre tão selvagem e tão bárbaro, mas respeita por teu lado o dia escolhido e especialmente santificado por aquele que tudo vê.
3. Mas este tríplice celerado perguntou se existia no céu um soberano que houvesse prescrito observar o dia de sábado.
4. Como eles respondessem: Foi o mesmo Senhor vivo, Todo-poderoso no céu, quem ordenou a celebração do sétimo dia,
5. o outro replicou: Também eu sou poderoso na terra e ordeno que se tomem as armas e se executem as ordens do rei. Todavia não pôde executar seu desígnio criminoso.
6. Enquanto Nicanor, no auge de seu orgulho, decidia erigir um troféu com os despojos de Judas e seus companheiros,
7. Macabeu, ao contrário, deixava-se levar por uma inteira confiança de que haveria de obter auxílio do Senhor.
8. Exortava os seus companheiros a que não temessem o ataque dos gentios, a que se lembrassem dos auxílios já obtidos do céu e a que esperassem, pois também agora o Todo-poderoso lhes concederia a vitória.
9. Encorajou-os citando a lei e os profetas, lembrou-lhes os combates outrora sustentados e inflamou-os desse modo com um novo ardor.
10. Após haver-lhes reanimado o espírito, estimulou-os ainda, apresentando aos seus olhos a perfídia dos gentios e o desprezo da palavra dada.
11. Assim armou a todos não com a segurança que vem das lanças e dos escudos, mas com a coragem que suscitam as boas palavras. Narrou-lhes ainda uma visão digna de fé uma espécie de visão que os cumulou de alegria.
12. Eis o que vira: Onias, que foi sumo sacerdote, homem nobre e bom, modesto em seu aspecto, de caráter ameno, distinto em sua linguagem e exercitado desde menino na prática de todas as virtudes, com as mãos levantadas, orava por todo o povo judeu.
13. Em seguida havia aparecido do mesmo modo um homem com os cabelos todos brancos, de aparência muito venerável, e nimbado por uma admirável e magnífica majestade.
14. Então, tomando a palavra, disse-lhe Onias: Eis o amigo de seus irmãos, aquele que reza muito pelo povo e pela cidade santa, Jeremias, o profeta de Deus.
15. E Jeremias, estendendo a mão, entregou a Judas uma espada de ouro, e, ao dar-lha, disse:
16. Toma esta santa espada que Deus te concede e com a qual esmagarás os inimigos.
17. Entusiasmados por estas palavras de Judas, tão nobres e tão capazes de excitar a coragem e robustecer as almas dos jovens, decidiram os judeus não acampar, mas arrojar-se para a frente, travar com valor a batalha e obter assim uma decisão, porque a cidade, a religião e o templo estavam em perigo.
18. Não lhes causavam tanta preocupação as mulheres, as crianças, seus irmãos e seus parentes: a primeira e principal inquietação que tinham era a purificação do templo.
19. Não era menor a angústia dos que haviam ficado na cidade, ansiosos pela luta que ia ser travada fora, na planície.
20. Todos já aguardavam a batalha decisiva, prestes a se iniciar; os inimigos também já se tinham reunido para o combate, os elefantes estavam postados no lugar conveniente, a cavalaria disposta nas alas;
21. Macabeu, à vista dessa multidão imensa, do aparato de armas tão diversas e do aspecto temível dos elefantes, estendeu as mãos para o céu e invocou o Senhor que opera prodígios. Sabia muito bem que não é o poderio das armas que obtém a vitória, senão que Deus a decide, outorgando-a aos que ele julga dignos dela.
22. Eis como foi sua oração: Senhor, vós, que no tempo de Ezequias, rei da Judéia, enviastes vosso anjo e fizestes perecer cento e oitenta e cinco mil homens do exército de Senaquerib,
23. enviai, pois, ainda agora, ó soberano dos céus, um bom anjo que nos preceda, infundindo temor e espanto.
24. Que vosso braço se estenda e extermine aqueles que, blasfemando, vieram atacar vosso povo santo. E com essas palavras terminou.
25. De um lado, as tropas de Nicanor avançavam ao som das trombetas e dos hinos guerreiros;
26. do outro lado, os de Judas travavam a batalha entre invocações e orações.
27. Enquanto pelejavam com as mãos, oravam ao Senhor no coração, e assim derribaram por terra nada menos que trinta e cinco mil homens; e sentiram-se cheios de alegria por ver Deus manifestar-se desse modo.
28. Concluída a batalha, dispersaram-se felizes, quando reconheceram Nicanor prostrado com a sua armadura.
29. Então, entre gritos e alvoroço, louvaram o Senhor na língua paterna.
30. Aquele que se consagrara de corpo e alma ao serviço de seus concidadãos, e conservara para com seus compatriotas o amor de sua juventude, ordenou que degolassem a cabeça de Nicanor, como também a mão e o braço, e os levassem a Jerusalém.
31. Chegado à cidade, convocou seus compatriotas, dispôs os sacerdotes diante do altar e mandou aproximarem-se também os que se achavam na cidadela.
32. Apresentou-lhes a cabeça do impuro Nicanor e a mão, que este maldito havia insolentemente estendido contra a morada do Todo-poderoso.
33. Depois mandou cortar a língua do ímpio para lançá-la em pedaços aos pássaros e mandou suspender diante do templo o braço decepado, como castigo de sua insensatez.
34. E todos puseram-se a louvar nestes termos o Senhor, que se tinha manifestado: Bendito seja aquele que preservou sua morada de toda a impureza.
35. Judas suspendeu do mesmo modo a cabeça de Nicanor, na parte exterior da cidadela, como sinal palpável e evidente da proteção do Senhor.
36. De comum acordo, foi estabelecido que, doravante, não se deixaria passar esse dia sem festejá-lo, e que seria celebrada no dia treze do duodécimo mês, chamado Adar em língua siríaca, a vigília do dia de Mardoqueu.
37. Assim se desenrolaram os acontecimentos relativos a Nicanor, e já que a partir dessa época Jerusalém permaneceu em poder dos hebreus, finalizarei aqui minha narração.
38. Se ela está felizmente concebida e ordenada, era este o meu desejo; se ela está imperfeita e medíocre, é que não pude fazer melhor.
39. Assim como é nocivo beber somente o vinho ou somente a água, mas agradável e verdadeiramente proveitoso beber a água e o vinho misturados, assim também a disposição agradável do relato é o que causa prazer aos ouvidos do leitor. Aqui, pois, termino.

 

Livro de Jó

Livro de Jó

 Capítulo 1

1. Havia, na terra de Hus, um homem chamado Jó, íntegro, reto, que temia a Deus e fugia do mal.
2. Nasceram-lhe sete filhos e três filhas.
3. Possuía sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de bois, quinhentas jumentas e uma grande quantidade de escravos. Este homem era o mais considerado entre todos os homens do Oriente.
4. Seus filhos tinham o costume de ir à casa uns dos outros, alternadamente, para se banquetearem e convidavam suas três irmãs para comerem e beberem com eles.
5. Quando acabava a série dos dias de banquetes, Jó mandava chamar seus filhos para purificá-los e, na manhã do dia seguinte, oferecia um holocausto por intenção de cada um deles: porque, dizia ele, talvez meus filhos tenham pecado e amaldiçoado Deus nos seus corações. Assim fazia Jó cada vez.
6. Um dia em que os filhos de Deus se apresentaram diante do Senhor, veio também Satanás entre eles.
7. O Senhor disse-lhe: De onde vens tu? Andei dando volta pelo mundo, disse Satanás, e passeando por ele.
8. O Senhor disse-lhe: Notaste o meu servo Jó? Não há ninguém igual a ele na terra: íntegro, reto, temente a Deus, afastado do mal.
9. Mas Satanás respondeu ao Senhor: É a troco de nada que Jó teme a Deus?
10. Não cercaste como de uma muralha a sua pessoa, a sua casa e todos os seus bens? Abençoas tudo quanto ele faz e seus rebanhos cobrem toda a região.
11. Mas estende a tua mão e toca em tudo o que ele possui; juro-te que te amaldiçoará na tua face.
12. Pois bem!, respondeu o Senhor. Tudo o que ele tem está em teu poder; mas não estendas a tua mão contra a sua pessoa. E Satanás saiu da presença do Senhor.
13. Ora, um dia em que os filhos e filhas de Jó estavam à mesa e bebiam vinho em casa do seu irmão mais velho,
14. um mensageiro veio dizer a Jó: Os bois lavravam e as jumentas pastavam perto deles.
15. De repente, apareceram os sabeus e levaram tudo; e passaram à espada os escravos. Só eu consegui escapar para te trazer a notícia.
16. Estando ele ainda a falar, veio outro e disse: O fogo de Deus caiu do céu; queimou, consumiu as ovelhas e os escravos. Só eu consegui escapar para te trazer a notícia.
17. Ainda este falava, e eis que chegou outro e disse: Os caldeus, divididos em três bandos, lançaram-se sobre os camelos e os levaram. Passaram a fio de espada os escravos. Só eu consegui escapar para te trazer a notícia!
18. Ainda este estava falando e eis que entrou outro, e disse: Teus filhos e filhas estavam comendo e bebendo vinho em casa do irmão mais velho,
19. quando um furacão se levantou de repente do deserto, abalou os quatro cantos da casa e esta desabou sobre os jovens. Morreram todos. Só eu consegui escapar para te trazer a notícia.
20. Jó então se levantou, rasgou o manto e rapou a cabeça. Depois, caindo prosternado por terra,
21. disse: Nu saí do ventre de minha mãe, nu voltarei. O Senhor deu, o Senhor tirou: bendito seja o nome do Senhor!
22. Em tudo isso, Jó não cometeu pecado algum, nem proferiu contra Deus blasfêmia alguma.

 
Capítulo 2

1. Ora, um dia em que os filhos de Deus se apresentaram diante do Senhor, Satanás apareceu também no meio deles na presença do Senhor.
2. O Senhor disse-lhe: De onde vens tu? Andei dando volta pelo mundo, respondeu Satanás, e passeando por ele.
3. O Senhor disse-lhe: Notaste o meu servo Jó? Não há ninguém igual a ele na terra, íntegro, reto, temente a Deus e afastado do mal. Persevera sempre em sua integridade; foi em vão que me incitaste a perdê-lo.
4. Pele por pele!, respondeu Satanás. O homem dá tudo o que tem para salvar a própria vida.
5. Mas estende a tua mão, toca-lhe nos ossos, na carne; juro que te renegará em tua face.
6. O Senhor disse a Satanás: Pois bem, ele está em teu poder, poupa-lhe apenas a vida.
7. Satanás retirou-se da presença do Senhor e feriu Jó com uma lepra maligna, desde a planta dos pés até o alto da cabeça.
8. E Jó tomou um caco de telha para se coçar, e assentou-se sobre a cinza.
9. Sua mulher disse-lhe: Persistes ainda em tua integridade? Amaldiçoa a Deus, e morre!
10. Falas, respondeu-lhe ele, como uma insensata. Aceitamos a felicidade da mão de Deus; não devemos também aceitar a infelicidade? Em tudo isso, Jó não pecou por palavras.
11. Três amigos de Jó, Elifaz de Temã, Bildad de Chua e Sofar de Naama, tendo ouvido todo o mal que lhe tinha sucedido, vieram cada um de sua terra e combinaram ir juntos exprimir sua simpatia e suas consolações.
12. Tendo de longe levantado os olhos, não o reconheceram; e puseram-se então a chorar, rasgaram as vestes, e lançaram para o céu poeira, que recaía sobre suas cabeças.
13. Ficaram sentados no chão ao lado dele sete dias e sete noites, sem que nenhum lhe dirigisse a palavra, tão grande era a dor em que o viam mergulhado.

 
Capítulo 3

1. Então Jó abriu a boca e amaldiçoou o dia de seu nascimento.
2. Jó falou nestes termos:
3. Pereça o dia em que nasci e a noite em que foi dito: uma criança masculina foi concebida!
4. Que esse dia se mude em trevas! Que Deus, lá do alto, não se incomode com ele; que a luz não brilhe sobre ele!
5. Que trevas e obscuridade se apoderem dele, que nuvens o envolvam, que eclipses o apavorem,
6. que a sombra o domine; esse dia, que não seja contado entre os dias do ano, nem seja computado entre os meses!
7. Que seja estéril essa noite, que nenhum grito de alegria se faça ouvir nela.
8. Amaldiçoem-na aqueles que amaldiçoaram os dias, aqueles que são hábeis para evocar Leviatã!
9. Que as estrelas de sua madrugada se obscureçam, e em vão espere a luz, e não veja abrirem-se as pálpebras da aurora,
10. já que não fechou o ventre que me carregou para me poupar a vista do mal!
11. Por que não morri no seio materno, por que não pereci saindo de suas entranhas?
12. Por que dois joelhos para me acolherem, por que dois seios para me amamentarem?
13. Estaria agora deitado e em paz, dormiria e teria o repouso
14. com os reis, árbitros da terra, que constroem para si mausoléus;
15. com os príncipes que possuíam o ouro, e enchiam de dinheiro as suas casas.
16. Ou então, como o aborto escondido, eu não teria existido, como as crianças que não viram o dia.
17. Ali, os maus cessam os seus furores, ali, repousam os exaustos de forças,
18. ali, os prisioneiros estão tranqüilos, já não mais ouvem a voz do exator.
19. Ali, juntos, os pequenos e os grandes se encontram, o escravo ali está livre do jugo do seu senhor.
20. Por que conceder a luz aos infelizes, e a vida àqueles cuja alma está desconsolada,
21. que esperam a morte, sem que ela venha, e a procuram mais ardentemente do que um tesouro,
22. que são felizes até ficarem transportados de alegria, quando encontrarem o sepulcro?
23. Ao homem cujo caminho é escondido e que Deus cerca de todos os lados?
24. Em lugar do pão tenho meus suspiros, e os meus gemidos se espalham como a água.
25. Todos os meus temores se realizam, e aquilo que me dá medo vem atingir-me.
26. Não tenho paz, nem descanso, nem repouso; só tenho agitação.

 
Capítulo 4

1. Elifaz de Temã tomou a palavra nestes termos:
2. Se arriscarmos uma palavra, talvez ficarás aflito, mas quem poderá impedir-me de falar?
3. Eis: exortaste muita gente, deste força a mãos débeis,
4. tuas palavras levantavam aqueles que caíam, fortificaste os joelhos vacilantes.
5. Agora que é a tua vez, enfraqueces; quando és atingido, te perturbas.
6. Não é tua piedade a tua esperança, e a integridade de tua vida, a tua segurança?
7. Lembra-te: qual o inocente que pereceu? Ou quando foram destruídos os justos?
8. Tanto quanto eu saiba, os que praticam a iniqüidades e os que semeiam sofrimento, também os colhem.
9. Ao sopro de Deus eles perecem, e são aniquilados pelo vento de seu furor.
10. Urra o leão, e seu rugido é abafado; os dentes dos leõezinhos são quebrados.
11. A fera morreu porque não tinha presa, e os filhotes da leoa são dispersados.
12. Uma palavra chegou a mim furtivamente, meu ouvido percebeu o murmúrio,
13. na confusão das visões da noite, na hora em que o sono se apodera dos humanos.
14. Assaltaram-me o medo e o terror, e sacudiram todos os meus ossos;
15. um sopro perpassou pelo meu rosto, e fez arrepiar o pêlo de minha pele.
16. Lá estava um ser – não lhe vi o rosto – como um espectro sob meus olhos.
17. Ouvi uma débil voz: Pode um homem ser justo na presença de Deus, pode um mortal ser puro diante de seu Criador?
18. Ele não confia nem em seus próprios servos; até mesmo em seus anjos encontra defeitos,
19. quanto mais em seus hóspedes das casas de argila que têm o pó por fundamento! São esmagados como uma traça;
20. entre a noite e a manhã são aniquilados; sem que neles se preste atenção, morrem para sempre.
21. Não foi arrancada a estaca da tenda deles? Morrem por não terem conhecido a sabedoria.

 
Capítulo 5

1. Chama para ver se te respondem; a qual dos santos te dirigirás?
2. O arrebatamento mata o insensato, a inveja leva o tolo à morte.
3. Vi o insensato deitar raiz, e de repente sua morada apodreceu.
4. Seus filhos são privados de qualquer socorro, são pisados à porta, ninguém os defende.
5. O faminto come sua colheita e a leva embora, por detrás da cerca de espinhos, e os sequiosos engolem seus bens.
6. Pois o mal não sai do pó, e o sofrimento não brota da terra:
7. é o homem quem causa o sofrimento como as faíscas voam no ar.
8. Por isso, eu rogarei a Deus, apresentarei minha súplica ao Senhor.
9. Ele faz coisas grandes e insondáveis, maravilhas incalculáveis;
10. espalha a chuva sobre a terra, e derrama as águas sobre os campos;
11. exalta os humildes, e dá nova alegria aos que estão de luto;
12. frustra os projetos dos maus, cujas mãos não podem executar os planos;
13. apanha os jeitosos em suas próprias manhas, e os projetos dos astutos se tornam prematuros;
14. em pleno dia encontram as trevas, e andam às apalpadelas ao meio-dia como se fosse noite.
15. Salva o fraco da espada da língua deles, e o pobre da mão do poderoso;
16. volta a esperança ao infeliz, e é fechada a boca da iniqüidade.
17. Bem-aventurado o homem a quem Deus corrige! Não desprezes a lição do Todo-poderoso,
18. pois ele fere e cuida; se golpeia, sua mão cura.
19. Seis vezes te salvará da angústia, e, na sétima, o mal não te atingirá.
20. No tempo de fome, te preservará da morte, e, no combate, do gume da espada;
21. estarás a coberto do açoite da língua, não terás medo quando vires a ruína;
22. rirás das calamidades e da fome, não temerás as feras selvagens.
23. Farás um pacto com as pedras do chão, e os animais dos campos estarão em paz contigo.
24. Dentro de tua tenda conhecerás a paz, visitarás tuas terras, onde nada faltará;
25. verás tua posteridade multiplicar-se, e teus descendentes crescerem como a erva dos campos.
26. Entrarás maduro no sepulcro, como um feixe de trigo que se recolhe a seu tempo.
27. Eis o que observamos; é assim; eis o que aprendemos; tira proveito disso.

 
Capítulo 6

1. Jó tomou a palavra nestes termos:
2. Ah! se pudessem pesar minha aflição, e pôr na balança com ela meu infortúnio!
3. esta aqui apareceria mais pesada do que a areia dos mares: eis por que minhas palavras são desvairadas.
4. As setas do Todo-poderoso estão cravadas em mim, e meu espírito bebe o veneno delas; os terrores de Deus me assediam
5. Porventura orneja o asno montês, quando tem erva? Muge o touro junto de sua forragem?
6. Come-se uma coisa insípida sem sal? Pode alguém saborear aquilo que não tem gosto algum?
7. Minha alma recusa-se a tocar nisso, meu coração está desgostoso.
8. Quem me dera que meu voto se cumpra, e que Deus realize minha esperança!
9. Que Deus consinta em esmagar-me, que deixe suas mãos cortarem meus dias!
10. Teria pelo menos um consolo, e exultaria em seu impiedoso tormento, por não ter renegado as palavras do Santo.
11. Pois, que é minha força para que eu espere, qual é meu fim, para me portar com paciência?
12. Será que tenho a fortaleza das pedras, e será de bronze minha carne?
13. Não encontro socorro algum, qualquer esperança de salvação me foi tirada.
14. Recusar a piedade a um amigo é abandonar o temor ao Todo-poderoso.
15. Meus irmãos são traiçoeiros como a torrente, como as águas das torrentes que somem.
16. Rolam agitadas pelo gelo, empoçam-se com a neve derretida.
17. No tempo da seca, elas se esgotam, e ao vir o calor, seu leito seca.
18. as caravanas se desviam das veredas, penetram no deserto e perecem;
19. As caravanas de Tema espreitavam, os comboios de Sabá contavam com elas;
20. ficaram transtornados nas suas suposições: ao chegarem ao lugar, ficaram confusos.
21. É assim que falhais em cumprir o que de vós se esperava nesta hora; a vista de meu infortúnio vos aterroriza.
22. Porventura, disse-vos eu: Dai-me qualquer coisa de vossos bens, dai-me presentes,
23. livrai-me da mão do inimigo, e tirai-me do poder dos violentos?
24. Ensinai-me e eu me calarei, mostrai-me em que falhei.
25. Como são eficazes as expressões conforme a eqüidade! Mas em que podereis surpreender-me?
26. Pretendeis censurar palavras? Palavras desesperadas, leva-as o vento.
27. Seríeis capazes de pôr em leilão até mesmo um órfão, de traficar o vosso amigo!
28. Vamos, peço-vos, olhai para mim face a face, não mentirei.
29. Vinde de novo; não sejais injustos; vinde: estou inocente nessa questão.
30. Haverá iniqüidade em minha língua? Meu paladar não sabe discernir o mal?

 
Capítulo 7

1. A vida do homem sobre a terra é uma luta, seus dias são como os dias de um mercenário.
2. Como um escravo que suspira pela sombra, e o assalariado que espera seu soldo,
3. assim também eu tive por sorte meses de sofrimento, e noites de dor me couberam por partilha.
4. Apenas me deito, digo: Quando chegará o dia? Logo que me levanto: Quando chegará a noite? E até a noite me farto de angústias.
5. Minha carne se cobre de podridão e de imundície, minha pele racha e supura.
6. Meus dias passam mais depressa do que a lançadeira, e se desvanecem sem deixar esperança.
7. Lembra-te de que minha vida nada mais é do que um sopro, de que meus olhos não mais verão a felicidade;
8. o olho que me via não mais me verá, o teu me procurará, e já não existirei.
9. A nuvem se dissipa e passa: assim, quem desce à região dos mortos não subirá de novo;
10. não voltará mais à sua casa, sua morada não mais o reconhecerá.
11. E por isso não reprimirei minha língua, falarei na angústia do meu espírito, queixar-me-ei na tristeza de minha alma:
12. Porventura, sou eu o mar ou um monstro marinho, para me teres posto um guarda contra mim?
13. Se eu disser: Consolar-me-á o meu leito, e a minha cama me aliviará,
14. tu me aterrarás com sonhos, e me horrorizarás com visões.
15. Preferiria ser estrangulado; antes a morte do que meus tormentos!
16. Sucumbo, deixo de viver para sempre; deixa-me; pois meus dias são apenas um sopro.
17. O que é um homem para fazeres tanto caso dele, para te dignares ocupar-te dele,
18. para visitá-lo todas as manhãs, e prová-lo a cada instante?
19. Quando cessarás de olhar para mim, e deixarás que eu engula minha saliva?
20. Se pequei, que mal te fiz, ó guarda dos homens? Por que me tomas por alvo, e me tornei pesado a ti?
21. Por que não toleras meu pecado e não apagas minha culpa? Eis que vou logo me deitar por terra; tu me procurarás, e já não existirei.

 
Capítulo 8

1. Bildad de Chua tomou a palavra e disse:
2. Até quando dirás semelhantes coisas, e tuas palavras serão como um furacão?
3. Porventura Deus fará curvar o que é reto, e o Todo-poderoso subverterá a justiça?
4. Se teus filhos o ofenderam, ele os entregou às conseqüências de suas culpas.
5. Se recorreres a Deus, e implorares ao Todo-poderoso,
6. se fores puro e reto, ele atenderá a tua oração e restaurará a morada de tua justiça;
7. teu começo parecerá pouca coisa diante da grandeza do que se seguirá.
8. Interroga as gerações passadas, e examina com cuidado a experiência dos antepassados;
9. – porque somos uns ignorantes das (coisas) de ontem, nossos dias sobre a terra passam como a sombra -:
10. elas podem instruir-te, falar-te e de seu coração tirar este discurso:
11. Pode o papiro crescer fora do brejo, o junco germinar sem água?
12. Verde ainda, sem ser cortado, ele seca antes que as outras ervas;
13. assim acabam todos os que esquecem Deus, assim perece a esperança do ímpio;
14. sua confiança é como filandras, sua segurança, uma teia de aranha.
15. Ele se apóia sobre uma casa que não se sustenta, atém-se a uma morada que não se mantém de pé.
16. Cheio de vigor, ao sol, faz brotar suas hastes em seu jardim;
17. suas raízes se entrelaçam sobre a pedra, apóiam-se entre rochas;
18. mas se é arrancado de seu lugar, este o renega: nunca te vi.
19. Eis onde termina seu destino, e outros germinarão do solo.
20. Não; Deus não rejeita o homem íntegro, nem dá a mão aos malvados.
21. Ele porá de novo o riso em tua boca, e em teus lábios, gritos de alegria;
22. teus inimigos serão cobertos de vergonha, a tenda dos maus desaparecerá.

 
Capítulo 9

1. Jó tomou a palavra nestes termos:
2. Sim; bem sei que é assim; como poderia o homem ter razão contra Deus?
3. Se quisesse disputar com ele, não lhe responderia uma vez entre mil.
4. Deus é sábio em seu coração e poderoso, quem pode afrontá-lo impunemente?
5. Ele transporta os montes sem que estes percebam, ele os desmorona em sua cólera.
6. Sacode a terra em sua base, e suas colunas são abaladas.
7. Dá uma ordem ao sol que não se levante, põe um selo nas estrelas.
8. Ele sozinho formou a extensão dos céus, e caminha sobre as alturas do mar.
9. Ele criou a Grande Ursa, Órion, as Plêiades, e as câmaras austrais.
10. Fez maravilhas insondáveis, prodígios incalculáveis.
11. Ele passa despercebido perto de mim, toca levemente em mim sem que eu tenha percebido.
12. Quem poderá impedi-lo de arrebatar uma presa? Quem lhe dirá: Por que fazes isso?
13. De sua cólera Deus não volta atrás; diante dele jazem prosternados os auxiliares de Raab.
14. Quem sou eu para replicar-lhe, para escolher argumentos contra ele?
15. Ainda que eu tivesse razão, não responderia; pediria clemência a meu juiz.
16. Se eu o chamasse, e ele não me respondesse, não acreditaria que tivesse ouvido a minha voz;
17. ele, que me desfaz como um redemoinho, que multiplica minhas feridas sem manifestar o motivo,
18. que não me deixa tomar fôlego, mas me enche de amarguras.
19. Se se busca fortaleza, é ele o forte; se se busca o direito, quem o determinará?
20. Se eu pretendesse ser justo, minha boca me condenaria; se fosse inocente, ela me declararia perverso.
21. Inocente! Sim, eu o sou; pouco me importa a vida, desprezo a existência.
22. Pouco importa; é por isso que eu disse que ele faz perecer o inocente como o ímpio.
23. Se um flagelo causa de repente a morte, ele ri-se do desespero dos inocentes.
24. A terra está entregue nas mãos dos maus, e ele cobre com um véu os olhos de seus juízes; se não é ele, quem é pois (que faz isso)?
25. Os dias de minha vida são mais rápidos do que um corcel, fogem sem ter visto a felicidade
26. passam como as barcas de junco, como a águia que se precipita sobre a presa
27. Se decido esquecer minha queixa, abandonar meu ar triste e voltar a ser alegre,
28. temo por todos os meus tormentos, sabendo que não me absolverás.
29. Tenho certeza de ser condenado: o que me adianta cansar-me em vão?
30. Por mais que me lavasse na neve, que limpasse minhas mãos na lixívia,
31. tu me atirarias na imundície, e as minhas próprias vestes teriam horror de mim.
32. (Deus) não é um homem como eu a quem possa responder, com quem eu possa comparecer na justiça,
33. pois que não há entre nós árbitro que ponha sua mão sobre nós dois.
34. Que (Deus) retire sua vara de cima de mim, para pôr um termo a seus medonhos terrores;
35. então lhe falarei sem medo; pois, estou só comigo mesmo.

 
Capítulo 10

1. A minha alma está desgostosa da vida, dou livre curso ao meu lamento; falarei na amargura de meu coração.
2. Em lugar de me condenar, direi a Deus: Mostra-me por que razão me tratas assim.
3. Encontras prazer em oprimir, em renegar a obra de tuas mãos, em favorecer os planos dos maus?
4. Terás olhos de carne, ou vês as coisas como as vêem os homens?
5. Serão os teus dias como os dias de um mortal, e teus anos, como os dos humanos,
6. para que procures a minha culpa e persigas o meu pecado,
7. quando sabes que não sou culpado e que ninguém me pode salvar de tuas mãos?
8. Tuas mãos formaram-me e fizeram-me; mudando de idéia, me destruirás!
9. Lembra-te de que me formaste como o barro; far-me-ás agora voltar à terra?
10. Não me ordenhaste como leite e coalhaste como queijo?
11. De pele e carne me revestiste, de ossos e nervos me teceste:
12. concedeste-me vida e misericórdia; tua providência conservou o meu espírito.
13. Mas eis o que escondias em teu coração, vejo bem o que meditavas.
14. Se peco, me observas, não perdoarás o meu pecado.
15. Se eu for culpado, ai de mim! Se for inocente, não ousarei levantar a cabeça, farto de vergonha e consciente de minha miséria.
16. Esgotado, me caças como um leão. Não cessas de desfraldar contra mim teu estranho poder;
17. redobras contra mim teus assaltos, teu furor cresce contra mim, e vigorosas tropas vêm-me cercar.
18. Por que me tiraste do ventre? Teria morrido; nenhum olho me teria visto.
19. Teria sido como se nunca tivesse existido: do ventre, me teriam levado ao túmulo.
20. Não são bem curtos os dias de minha vida? Que ele me deixe respirar um instante,
21. antes que eu parta, para não mais voltar, ao tenebroso país das sombras da morte,
22. opaca e sombria região, reino de sombra e de caos, onde a noite faz as vezes de claridade.

 
Capítulo 11

1. Então Sofar de Naama tomou a palavra nestes termos:
2. Ficará sem resposta o que fala muito, dar-se-á razão ao grande falador?
3. Tua loquacidade fará calar a gente; zombarás sem que ninguém te repreenda?
4. Dizes: Minha opinião é a verdadeira, sou puro a teus olhos.
5. Oh! Se Deus pudesse falar, e abrir seus lábios para te responder,
6. revelar-te os mistérios da sabedoria que são ambíguos para o espírito, saberias então que Deus esquece uma parte de tua iniqüidade.
7. Pretendes sondar as profundezas divinas, atingir a perfeição do Todo-poderoso?
8. Ela é mais alta do que o céu: que farás? É mais profunda que os infernos: como a conhecerás?
9. É mais longa que a terra, mais larga que o mar.
10. Se ele surge para aprisionar, se apela à justiça, quem o impedirá?
11. Pois ele conhece os malfeitores, descobre a iniqüidade, presta atenção.
12. Diante disso, uma cabeça oca poderia compreender, um asno tornar-se-ia razoável.
13. Se voltares teu coração para Deus, e para ele estenderes os braços;
14. se afastares de tuas mãos o mal, e não abrigares a iniqüidade debaixo de tua tenda,
15. então poderás erguer a fronte sem mancha; serás estável, sem mais nenhum temor.
16. Esquecerás daí por diante as tuas penas: como águas que passaram, serão apenas uma lembrança;
17. o futuro te será mais brilhante do que o meio-dia, as trevas se mudarão em aurora;
18. terás confiança e ficarás cheio de esperança: olhando em volta de ti, dormirás tranqüilo;
19. repousarás sem que ninguém te inquiete muitos acariciarão teu rosto,
20. mas os olhos dos maus serão consumidos; para eles, nenhum refúgio; não terão outra esperança senão em seu último suspiro.

 
Capítulo 12

1. Jó tomou a palavra nestes termos:
2. Sois mesmo gente muito hábil, e convosco morrerá a sabedoria.
3. Tenho também o espírito como o vosso (não vos sou inferior): quem, pois, ignoraria o que sabeis?
4. Os amigos escarnecem daquele que invoca Deus para que ele lhe responda,
e zombam do justo e do inocente.
5. Vergonha para a infelicidade! É o modo de pensar do infeliz; só há desprezo para aquele cujo pé fraqueja.
6. As tendas dos bandidos gozam de paz; segurança para aqueles que provocam Deus, que não têm outro Deus senão o próprio braço.
7. Pergunta, pois, aos animais e eles te ensinarão; às aves do céu e elas te instruirão.
8. Fala (aos répteis) da terra, e eles te responderão, e aos peixes do mar, e eles te darão lições.
9. Entre todos esses seres quem não sabe que a mão de Deus fez tudo isso,
10. ele que tem em mãos a alma de tudo o que vive, e o sopro de vida de todos os humanos?
11. Não discerne o ouvido as palavras como o paladar discerne o sabor das iguarias?
12. A sabedoria pertence aos cabelos brancos, a longa vida confere a inteligência.
13. Em (Deus) residem sabedoria e poder; ele possui o conselho e a inteligência.
14. O que ele destrói não será reconstruído; se aprisionar um homem, ninguém há que o solte.
15. Quando faz as águas pararem, há seca; se as soltar, submergirão a terra.
16. Nele há força e prudência; ele conhece o que engana e o enganado;
17. faz os árbitros andarem descalços, torna os juízes estúpidos;
18. desata a cinta dos reis e cinge-lhes os rins com uma corda;
19. faz os sacerdotes andarem descalços, e abate os poderosos;
20. tira a palavra aos mais seguros de si mesmos e retira a sabedoria dos velhos;
21. derrama o desprezo sobre os nobres, afrouxa a cinta dos fortes,
22. põe a claro os segredos das trevas, e traz à luz a sombra da morte.
23. Torna grandes as nações, e as destrói; multiplica os povos, depois os suprime.
24. Tira a razão dos chefes da terra e os deixa perdidos num deserto sem pista;
25. andam às apalpadelas nas trevas, sem luz; tropeçam como um embriagado.

 
Capítulo 13

1. Meus olhos viram todas essas coisas, meus ouvidos as ouviram e as guardaram;
2. aquilo que vós sabeis, eu também o sei, não vos sou inferior em nada.
3. Mas é com o Todo-poderoso que eu desejaria falar, é com Deus que eu desejaria discutir,
4. pois vós não sois mais que impostores, não sois senão médicos que não prestam para nada.
5. Se pudésseis guardar silêncio, tomar-vos-iam por sábios.
6. Escutai, pois, minha defesa, atendei aos quesitos que vou anunciar.
7. Para defender Deus, ireis dizer mentiras. Será preciso enganardes em seu favor?
8. Tereis, para com ele, juízos preconcebidos, e vos arvorais em ser seus advogados?
9. Seria, porventura, bom que ele vos examinasse? Iríeis enganá-lo como se engana um homem?
10. Ele não deixará de vos castigar, se tomardes seu partido ocultamente.
11. Sua majestade não vos atemorizará? Seus terrores não vos esmagarão?
12. Vossos argumentos são razões de poeira, vossas dilapidações são obras de barro.
13. Calai-vos! Deixai-me! Quero falar: aconteça depois o que acontecer!
14. Lacero a minha carne com os meus dentes, ponho minha vida em minha mão.
15. Se ele me mata, nada mais tenho a esperar, e assim mesmo defenderei minha causa diante dele.
16. Isso já será minha salvação, que o ímpio não seja admitido em sua presença.
17. Escutai, pois, meu discurso, dai ouvido às minhas explicações;
18. estou pronto para defender minha causa, sei que sou eu quem tem razão.
19. Se alguém quiser demandar contra mim no mesmo instante desejarei calar e morrer.
20. Poupai-me apenas duas coisas! E não me esconderei de tua face:
21. afasta de sobre mim a tua mão, põe um termo ao medo de teus terrores.
22. Chama por mim, e eu te responderei; ou então, falarei eu, e tu terás a réplica.
23. Quantas faltas e pecados cometi eu? Dá-me a conhecer minhas faltas e minhas ofensas.
24. Por que escondes de mim a tua face, e por que me consideras como um inimigo?
25. Queres, então, assustar uma folha levada pelo vento, ou perseguir uma folha ressequida?
26. Pois queres ditar contra mim amargas sentenças, e queres que me sejam imputadas as faltas de minha mocidade,
27. queres enfiar os meus pés no cepo, espiar todos os meus passos, e contar os rastos de meus pés?
28. (E ele se gasta como um pau bichado, como um tecido devorado pela traça).

 
Capítulo 14

1. O homem nascido da mulher vive pouco tempo e é cheio de muitas misérias;
2. é como uma flor que germina e logo fenece, uma sombra que foge sem parar.
3. E é sobre ele que abres os olhos, e o chamas a juízo contigo.
4. Quem fará sair o puro do impuro? Ninguém.
5. Se seus dias estão contados, se em teu poder está o número dos seus meses, e fixado um limite que ele não ultrapassará,
6. afasta dele os teus olhos; deixa-o até que acabe o seu dia como um trabalhador.
7. Para uma árvore, há esperança; cortada, pode reverdecer, e os seus ramos brotam.
8. Quando sua raiz tiver envelhecido na terra, e seu tronco estiver morto no solo,
9. ao contato com a água, tornar-se-á verde de novo, e distenderá ramos como uma jovem planta.
10. Mas quando o homem morre, fica estendido; o mortal expira; onde está ele?
11. As águas correm do lago, o rio se esgota e seca;
12. assim o homem se deita para não mais levantar. Durante toda a duração dos céus, ele não despertará; jamais sairá de seu sono.
13. Se, pelo menos, me escondesses na região dos mortos, ao abrigo, até que tua cólera tivesse passado, se me fixasses um limite em que te lembrasses de mim!
14. Se um homem, uma vez morto, pudesse reviver! Todo o tempo de meu combate eu esperaria até que me viessem soerguer,
15. tu me chamarias e eu te responderia; estenderias a tua destra para a obra de tuas mãos.
16. Mas agora contas os meus passos, e observas todos os meus pecados;
17. tu selaste como num saco os meus crimes, puseste um sinal sobre minhas iniqüidades.
18. Mas a montanha acaba por cair, e o rochedo desmorona longe de seu lugar;
19. as águas escavam a pedra, o aluvião leva a terra móvel; assim aniquilas a esperança do homem.
20. Tu o pões por terra; ele se vai embora para sempre; tu o desfiguras e o mandas embora.
21. Estejam os seus filhos honrados, ele o ignora; sejam eles humilhados, não faz caso.
22. É somente por ele que sua carne sofre; sua alma só se lamenta por ele.

 
Capítulo 15

1. Elifaz de Temã tomou a palavra nestes termos:
2. Porventura, responde o sábio como se falasse ao vento e enche de ar o seu ventre?
3. Defende-se ele com fúteis argumentos, e com palavras que não servem para nada?
4. Acabarás destruindo a piedade, reduzes a nada o respeito devido a Deus;
5. pois é a iniqüidade que inspira teus discursos e adotas a linguagem dos impostores.
6. É a tua boca que te condena, e não eu; são teus lábios que dão testemunho contra ti mesmo.
7. És, porventura, o primeiro homem que nasceu, e foste tu gerado antes das colinas?
8. Assististe, porventura, ao conselho de Deus, monopolizaste a sabedoria?
9. Que sabes tu que nós ignoremos, que aprendeste que não nos seja familiar?
10. Há entre nós também velhos de cabelos brancos, muito mais avançados em dias do que teu pai.
11. Fazes pouco caso das consolações divinas, e das doces palavras que te são dirigidas?
12. Por que te deixas levar pelo impulso de teu coração, e o que significam esses maus olhares?
13. É contra Deus que ousas encolerizar-te, e que tua boca profere tais discursos!
14. Que é o homem para que seja puro e o filho da mulher, para que seja justo?
15. Nem mesmo de seus santos Deus se fia, e os céus não são puros a seus olhos;
16. quanto mais do ser abominável e corrompido, o homem, que bebe a iniqüidade como a água?
17. Ouve-me; vou instruir-te: eu te contarei o que vi,
18. aquilo que os sábios ensinam, aquilo que seus pais não lhes ocultaram,
19. (aos quais, somente, foi dada esta terra, e no meio dos quais não tinha penetrado estrangeiro algum).
20. Em todos os dias de sua vida o mau está angustiado, os anos do opressor são em número restrito,
21. ruídos terrificantes ressoam-lhe aos ouvidos, no seio da paz, lhe sobrevém o destruidor.
22. Ele não espera escapar das trevas, está destinado ao gume da espada.
23. Anda às tontas à procura de seu pão, sabe que o dia das trevas está a seu lado.
24. A tribulação e a angústia vêm sobre ele como um rei que vai para o combate,
25. porque levantou a mão contra Deus, e desafiou o Todo-poderoso,
26. correndo contra ele com a cabeça levantada, por detrás da grossura de seus escudos;
27. porque cobriu de gordura o seu rosto, e deixou a gordura ajuntar-se sobre seus rins,
28. habitando em cidades desoladas, em casas que foram abandonadas, destinadas a se tornarem montões de pedras;
29. não se enriquecerá, nem os seus bens resistirão, não mais estenderá sua sombra sobre a terra,
30. não escapará às trevas; o fogo queimará seus ramos, e sua flor será levada pelo vento.
31. (Que não se fie na mentira: ficará prisioneiro dela; a mentira será a sua recompensa).
32. Suas ramagens secarão antes da hora, seus sarmentos não ficarão verdes;
33. como a vinha, sacudirá seus frutos verdes, como a oliveira, deixará cair a flor.
34. Pois a raça dos ímpios é estéril, e o fogo devora as tendas do suborno.
35. Quem concebe o mal, gera a infelicidade: é o engano que amadurece em seu seio.

 
Capítulo 16

1. Jó respondeu então nestes termos:
2. Já ouvi muitas vezes discursos semelhantes, sois todos uns consoladores importunos.
3. Quando terão fim essas palavras atiradas ao ar? Que é que te excitava a falar?
4. Eu também podia falar como vós, se estivésseis em meu lugar. Arranjaria discursos a vosso respeito, e sacudiria a cabeça acerca de vós;
5. eu vos encorajaria verbalmente, e moveria os meus lábios sem nenhuma avareza.
6. Se falo, nem por isso se aplaca a minha dor; se calo, estará ela consolada?
7. Mas Deus me extenuou; estou aniquilado; toda a sua tropa me pegou.
8. Minha magreza tornou-se testemunho contra mim, ela depõe contra mim.
9. Sua cólera me fere e me persegue, ele range os dentes contra mim. Meus inimigos dardejam os olhos sobre mim.
10. Abrem a boca para me devorar; batem-me na face para me ultrajar, rebelam-se todos contra mim.
11. Deus me entrega aos perversos, joga-me nas mãos dos malvados.
12. Eu estava em paz, ele ma tirou, segurou-me pela nuca e me pôs em pedaços. Tomou-me como alvo.
13. Suas setas voam em volta de mim. Ele rasga meus rins sem piedade, espalha meu fel por terra.
14. Abre em mim brecha sobre brecha, ataca-me como um guerreiro.
15. Cosi um saco sobre minha pele, rolei minha fronte no pó.
16. Meu rosto está vermelho de lágrimas, a sombra da morte estende-se sobre minhas pálpebras.
17. Entretanto, não há violência em minhas mãos e minha oração é pura.
18. Ó terra, não cubras o meu sangue, e que seu grito não seja sufocado pela tumba.
19. Tenho desde já uma testemunha no céu, um defensor na alturas.
20. Minha oração subiu até Deus, meus olhos choram diante dele.
21. Que ele mesmo julgue entre o homem e Deus, entre o homem e seu semelhante!
22. Pois meus anos contados se esgotam, entro numa vereda por onde não passarei de novo.

 
Capítulo 17

1. O sopro de minha vida vai-se consumindo, os meus dias se apagam, só me resta o sepulcro.
2. Estou cercado por zombadores, meu olho vela por causa de seus ultrajes.
3. Sê tu mesmo a minha caução junto de ti, e quem ousará bater em minha mão?
4. Pois fechaste o seu coração à inteligência, por isto não os deixarás triunfar.
5. Há quem convide seus amigos à partilha, quando desfalecem os olhos de seus filhos.
6. Ele me reduziu a ser a fábula dos povos, e me cospem no rosto.
7. Meus olhos estão atingidos pela tristeza, todo o meu corpo não é mais que uma sombra.
8. As pessoas retas estão estupefactas, e o inocente se irrita contra o ímpio;
9. o justo, entretanto, persiste no seu caminho, o homem de mãos puras redobra de coragem.
10. Mas vós todos voltai, vinde, pois não acharei entre vós nenhum sábio?
11. Meus dias se esgotam, meus projetos estão aniquilados, frustraram-se os projetos do meu coração.
12. Fazem da noite, dia, a luz da manhã é para mim como trevas.
l3 Deverei esperar? A região dos mortos é a minha morada, preparo meu leito no local tenebroso.
l4 Disse ao sepulcro: És meu pai, e aos vermes: Vós sois minha mãe e minha irmã.
l5 Onde está, pois, minha esperança? E minha felicidade, quem a entrevê?
l6 Descerão elas comigo à região dos mortos, e nos afundaremos juntos na terra?

 
Capítulo 18

1. Bildad de Chua falou então nestes termos:
2. Quando acabarás de falar, e terás a sabedoria de nos deixar dizer?
3. Por que nos consideras como animais, e por que passamos por estúpidos a teus olhos?
4. Tu que te rasgas em teu furor, é preciso que por tua causa a terra seja abandonada, e que os rochedos mudem de lugar?
5. Sim, a luz do mau se apagará, e a flama de seu fogo cessará de alumiar.
6. A luz obscurece em sua tenda, e sua lâmpada sobre ele se apagará;
7. seus passos firmes serão cortados, seus próprios desígnios os farão tropeçar.
8. Seus pés se prendem numa rede, e ele anda sobre malhas.
9. A armadilha o segura pelo calcanhar, um laço o aperta.
10. Uma corda se esconde sob a terra para pegá-lo, uma armadilha, ao longo da vereda.
11. De todas as partes temores o amedrontam, e perseguem-no passo a passo.
12. A calamidade vem faminta sobre ele, a infelicidade está postada a seu lado.
13. A pele de seu corpo é devorada, o filho mais velho da morte devora-lhe os membros;
14. é arrancado da tenda, onde se sentia seguro, levam-no ao rei dos terrores.
15. Podes estabelecer-te em sua tenda: ele não existe mais; o enxofre é espalhado em seu domínio.
16. Por baixo suas raízes secam, e por cima seus ramos definham.
17. Sua memória apaga-se da terra, nada mais lembra o seu nome na região.
18. É arrojado da luz para as trevas, é desterrado do mundo.
19. Não tem descendente nem posteridade em sua tribo, nem sobrevivente algum em sua morada.
20. O Ocidente está estupefacto com sua sorte, o Oriente treme diante dela.
2l Eis o que acontece com as tendas dos ímpios, os lugares habitados pelo homem que não conhece Deus.

 
Capítulo 19

1. Jó respondeu então nestes termos:
2. Até quando afligireis a minha alma e me atormentareis com vossos discursos?
3. Eis que já por dez vezes me ultrajastes, e não vos envergonhais de me insultar.
4. Mesmo que eu tivesse verdadeiramente pecado, minha culpa só diria respeito a mim mesmo.
5. Se vos quiserdes levantar contra mim, e convencer-me de ignomínia,
6. sabei que foi Deus quem me afligiu e me cercou com suas redes.
7. Clamo contra a violência, e ninguém me responde; levanto minha voz, e não há quem me faça justiça.
8. Fechou meu caminho para que eu não possa passar, e espalha trevas pelo meu caminho;
9. despojou-me de minha glória, e tirou-me a coroa da cabeça.
10. Demoliu-me por inteiro, e pereço, desenraizou minha esperança como uma árvore,
11. acendeu a sua cólera contra mim, tratou-me como um inimigo.
12. Suas milícias se concentraram, construíram aterros para me assaltarem, acamparam em volta de minha tenda.
13. Meus irmãos foram para longe de mim, meus amigos de mim se afastaram.
14. Meus parentes e meus íntimos desapareceram, os hóspedes de minha casa esqueceram-se de mim.
15. Minhas servas olham-me como um estranho, sou um desconhecido para elas.
16. Chamo meu escravo, ele não responde, preciso suplicar-lhe com a boca.
17. Minha mulher tem horror de meu hálito, sou pesado aos meus próprios filhos.
18. Até as crianças caçoam de mim; quando me levanto, troçam de mim.
19. Meus íntimos me abominam, aqueles que eu amava voltam-se contra mim.
20. Meus ossos estão colados à minha pele, à minha carne, e fujo com a pele de meus dentes.
21. Compadecei-vos de mim, compadecei-vos de mim, ao menos vós, que sois meus amigos, pois a mão de Deus me feriu.
22. Por que me perseguis como Deus, e vos mostrais insaciáveis de minha carne?
23. Oh!, se minhas palavras pudessem ser escritas, consignadas num livro,
24. gravadas por estilete de ferro em chumbo, esculpidas para sempre numa rocha!
25. Eu o sei: meu vingador está vivo, e aparecerá, finalmente, sobre a terra.
26. Por detrás de minha pele, que envolverá isso, na minha própria carne, verei Deus.
27. Eu mesmo o contemplarei, meus olhos o verão, e não os olhos de outro; meus rins se consomem dentro de mim.
28. Pois, se dizes: Por que o perseguimos, e como encontraremos nele uma razão para condená-lo?
29. Temei o gume da espada, pois a cólera de Deus persegue os maus, e sabereis que há uma justiça.

 
Capítulo 20

1. Sofar de Naama falou nestes termos:
2. É por isso que meus pensamentos me sugerem uma resposta, e estou impaciente por falar.
3. Ouvi queixas injuriosas, foram palavras vãs que responderam a meu espírito.
4. Não sabes bem que, em todos os tempos, desde que o homem foi posto na terra,
5. o triunfo dos maus é breve, e a alegria do ímpio só dura um instante?
6. Ainda mesmo que sua estatura chegasse até o céu e sua cabeça tocasse a nuvem,
7. como o seu próprio esterco, ele perece para sempre, e aqueles que o viam, indagam onde ele está.
8. Como um sonho, ele voa, ninguém mais o encontra, desaparece como uma visão noturna.
9. O olho que o viu, já não mais o vê, nem o verá mais a sua morada.
10. Seus filhos aplacarão os pobres, suas mãos restituirão suas riquezas.
11. Seus ossos estavam cheios de vigor juvenil, sua mocidade deita-se com ele no pó.
12. Se o mal lhe foi doce na boca, se o ocultou debaixo da língua,
13. se o reteve e não o abandonou, se o saboreou com seu paladar,
14. esse alimento se transformará em suas entranhas, e se converterá interiormente em fel de áspides.
15. Vomitará as riquezas que engoliu; Deus as fará sair-lhe do ventre.
16. Sugava o veneno de áspides, a língua da víbora o matará.
17. Não verá correr os riachos de óleo, as torrentes de mel e de leite.
18. Vomitará seu ganho, sem poder engoli-lo, não gozará o fruto de seu tráfico.
19. Porque maltratou, desamparou os pobres, roubou uma casa que não tinha construído,
20. porque sua avidez é insaciável, não salvará o que lhe era mais caro.
21. Nada escapava à sua voracidade: é por isso que sua felicidade não há de durar.
22. Em plena abundância, sentirá escassez; todos os golpes da infelicidade caem sobre ele.
23. Para encher-lhe o ventre (Deus) desencadeia o fogo de sua cólera, e fará chover a dor sobre ele.
24. Se foge diante da arma de ferro, o arco de bronze o traspassa,
25. um dardo sai-lhe das costas, um aço fulgurante sai-lhe do fígado. O terror desaba sobre ele,
26. e ser-lhe-ão reservadas as trevas. Um fogo, que o homem não acendeu, o devora e consome o que sobra em sua tenda.
27. Os céus revelam seu crime, a terra levanta-se contra ele,
28. uma torrente joga-se contra sua casa, que é levada no dia da cólera divina.
29. Tal é a sorte que Deus reserva ao mau, e a herança que Deus lhe destina.

 
Capítulo 21

1. Jó tomou então a palavra nestes termos:
2. Ouvi, ouvi minhas palavras, que eu tenha pelo menos esse consolo de vossa parte.
3. Permiti que eu fale; quando tiver falado, zombai à vontade.
4. É de um homem que me queixo? E como não hei de perder a paciência?
5. Olhai para mim; ireis ficar estupefactos, e poreis a mão sobre a boca.
6. Quando penso nisso, fico estarrecido, e todo o meu corpo treme.
7. Como é que os maus vivem, envelhecem, e cresce o seu vigor?
8. Sua posteridade prospera diante deles, e seus descendentes sob seus olhos;
9. sua casa é tranqüila, sem alarmes, a vara de Deus não os atinge.
10. Seu touro é cada vez mais fecundo, sua vaca dá cria sem nunca abortar.
11. Deixam os filhos correr como carneiros, e os seus pequenos saltam e brincam.
12. Cantam ao som do pandeiro e da cítara, divertem-se ao som da flauta.
13. Passam os dias na alegria, e descem tranqüilamente à região dos mortos.
14. Ora, dizem a Deus: Afasta-te de nós, não queremos conhecer os teus caminhos;
15. quem é o Todo-poderoso para que o sirvamos? Que vantagem temos em lhe fazer orações?
16. A felicidade não está em suas mãos? Contudo, longe de mim esteja o modo de pensar dos ímpios!
17. Quantas vezes vemos apagar-se a lâmpada dos ímpios, e a ruína desabar sobre eles?
18. São eles como a palha ao sopro do vento, como a cinza tragada pelo turbilhão?
19. Deus (assim dizem), reserva para os filhos o castigo do pai. Que ele mesmo o puna, para que o sinta!
20. Que veja com os próprios olhos a sua ruína, e ele mesmo beba da cólera do Todo-poderoso!
21. Que se lhe dá do que será feito de sua casa depois dele, se o número de seus meses já está contado?
22. É a Deus, que se irá ensinar a sabedoria, a ele, que julga os seres superiores?
23. Um morre no seio da prosperidade, plenamente feliz e tranqüilo,
24. os flancos cobertos de gordura, e a medula dos ossos cheia de seiva;
25. o outro morre com a amargura na alma, sem ter gozado a felicidade;
26. juntos se deitam na terra, e os vermes recobrem a ambos.
27. Ah! conheço vossos pensamentos, os julgamentos iníquos que fazeis de mim.
28. Dizeis: Onde está a casa do tirano, onde está a tenda em que habitavam os ímpios?
29. Não interrogastes os viajantes? Contestaríeis seus testemunhos?
30. No dia da infelicidade o ímpio é poupado, no dia da cólera ele escapa.
31. Quem reprova diante dele o seu proceder, e lhe pede contas de seus atos?
32. Levam-no ao sepulcro, ficarão de vigília em sua câmara funerária.
33. Os torrões do vale são-lhe leves; todos os homens irão em sua companhia, e foram inumeráveis seus predecessores.
34. Que significam, pois, essas vãs consolações? Todas as vossas respostas são apenas perfídia.

 
Capítulo 22

1. Elifaz de Temã tomou a palavra nestes termos:
2. Pode o homem ser útil a Deus? O sábio só é útil a si mesmo.
3. De que serve ao Todo-poderoso que tu sejas justo? Tem ele interesse que teu proceder seja íntegro?
4. É por causa de tua piedade que ele te pune, e entra contigo em juízo?
5. Não é enorme a tua malícia, e não são inumeráveis as tuas iniqüidades?
6. Sem causa tomaste penhores a teus irmãos, despojaste de suas vestes os miseráveis;
7. não davas água ao sedento, recusavas o pão ao esfomeado.
8. A terra era do mais forte, e o protegido é que nela se estabelecia.
9. Despedias as viúvas com as mãos vazias, quebravas os braços dos órfãos.
10. Eis por que estás cercado de laços, e os terrores súbitos te amedrontam.
11. A luz obscureceu-se; já não vês nada; e o dilúvio águas te engole.
12. Não está Deus nas alturas dos céus? Vê a cabeça das estrelas como está alta!
13. E dizes: Que sabe Deus? Pode ele julgar através da nuvem opaca?
14. As nuvens formam um véu que o impede de ver; ele passeia pela abóbada do céu.
15. Segues, pois, rotas antigas por onde andavam os homens iníquos
16. que foram arrebatados antes do tempo, e cujos fundamentos foram arrastados com as águas,
17. e que diziam a Deus: Retira-te de nós, que poderia fazer-nos o Todo-poderoso?
18. Foi ele, entretanto, que lhes cumulou de bens as casas; – longe de mim os conselhos dos maus! -
19. Vendo-os, os justos se alegram, e o inocente zomba deles:
20. Nossos inimigos estão aniquilados, e o fogo devorou-lhes as riquezas!
21. Reconcilia-te, pois, com (Deus) e faz as pazes com ele, é assim que te será de novo dada a felicidade;
22. aceita a instrução de sua boca, e põe suas palavras em teu coração.
23. Se te voltares humildemente para o Todo-poderoso, se afastares a iniqüidade de tua tenda,
24. se atirares as barras de ouro ao pó, e o ouro de Ofir entre os pedregulhos da torrente,
25. o Todo-poderoso será teu ouro e um monte de prata para ti.
26. Então farás do Todo-poderoso as tuas delícias, e levantarás teu rosto a Deus.
27. Tu lhe rogarás, e ele te ouvirá, e cumprirás os teus votos:
28. formarás os teus projetos, que terão feliz êxito, e a luz brilhará em tuas veredas.
29. Pois Deus abaixa o altivo e o orgulhoso, mas socorre aquele que abaixa os olhos.
30. Salva o inocente, o qual é libertado pela pureza de suas mãos.

 
Capítulo 23

1. Jó tomou a palavra nestes termos:
2. Sim, hoje minha queixa é uma revolta; sua mão pesa sobre meus suspiros.
3. Ah! se pudesse encontrá-lo, e chegar até seu trono!
4. Exporia diante dele minha causa, encheria minha boca de argumentos,
5. saberia o que ele iria responder-me, e veria o que ele teria para me dizer.
6. Oporia ele contra mim a sua onipotência? Bastaria que lançasse os olhos em mim;
7. seria então um justo a discutir com ele, e eu iria embora definitivamente absolvido pelo meu juiz.
8. Mas se eu for ao oriente, lá ele não está; ao ocidente, não o encontrarei;
9. se o procuro ao norte, não o vejo; se me volto para o sul, não o descubro.
10. Mas ele conhece o meu caminho; e se me põe à prova, dela sairei puro como o ouro.
11. Meu pé seguiu os seus traços, guardei o seu caminho sem me desviar.
12. Não me afastei dos preceitos de seus lábios, guardei no meu íntimo as palavras de sua boca.
13. Mas ele decidiu alguma coisa; quem o fará voltar atrás? Ele faz o que bem lhe agrada.
14. Realizará seu desígnio a meu respeito, e tem muitos projetos iguais a este.
15. Eis por que sua presença me atemoriza: basta o seu pensamento para me fazer tremer.
16. Deus fundiu o meu coração, o Todo-poderoso me enche de terror.
17. Sucumbo diante das trevas, as trevas cobriram-me o rosto.

 
Capítulo 24

1. Por que não reserva tempos para si o Todo-poderoso? E por que ignoram seus dias os que lhe são fiéis?
2. Os maus mudam as divisas das terras, e fazem pastar o rebanho que roubaram.
3. Empurram diante de si o jumento do órfão, e tomam em penhor o boi da viúva.
4. Afastam os pobres do caminho, todos os miseráveis da região precisam esconder-se.
5. Como os asnos no deserto, saem para o trabalho, à procura do que comer, à procura do pão para seus filhos.
6. Ceifam a forragem num campo, vindimam a vinha do ímpio.
7. Passam a noite nus, sem roupa, sem cobertor contra o frio.
8. São banhados pelas chuvas da montanha; sem abrigo, abraçam-se com as rochas.
9. Arrancam o órfão do seio materno, tomam em penhor as crianças do pobre.
10. Andam nus, despidos, esfomeados, carregam feixes.
11. Espremem o óleo nos celeiros, pisam os lagares, morrendo de sede.
12. Sobe da cidade o estertor dos moribundos, a alma dos feridos grita: Deus não ouve suas súplicas.
13. Outros são rebeldes à luz, não conhecem seus caminhos, não habitam em suas veredas.
14. O homicida levanta-se quando cai o dia, para matar o pobre e o indigente; o ladrão vagueia durante a noite.
15. O adúltero espreita o crepúsculo: Ninguém me verá, diz ele, e põe um véu no rosto.
16. Nas trevas, forçam as casas; escondem-se durante o dia; não conhecem a luz.
17. Para eles, com efeito, a manhã é uma sombra espessa, pois estão acostumados aos terrores da noite.
18. Correm rapidamente à superfície das águas, sua herança é maldita na terra; já não tomarão o caminho das vinhas.
19. Como a seca e o calor absorvem a água das neves, assim a região dos mortos engole os pecadores.
20. O ventre que o gerou, esquece-o, os vermes fazem dele as suas delícias; ninguém mais se lembra dele.
21. A iniqüidade é quebrada como uma árvore. Maltratava a mulher estéril e sem filhos, não fazia o bem à viúva;
22. punha sua força a serviço dos poderosos. Levanta-se e já não pode mais contar com a vida.
23. Ele lhes dá segurança e apoio, mas seus olhos vigiam seus caminhos.
24. Levantam-se, subitamente já não existem; caem; como os outros, são arrebatados, são ceifados como cabeças de espigas.
25. Se assim não é, quem me desmentirá, quem reduzirá a nada as minhas palavras?

 
Capítulo 25

1. Bildad de Chua tomou então a palavra nestes termos:
2. A ele, o poder e a majestade, em sua alta morada faz reinar a paz.
3. Podem ser contadas as suas legiões? Sobre quem não se levanta a sua luz?
4. Como seria justo o homem diante de Deus, como seria puro o filho da mulher?
5. Até mesmo a luz não brilha, e as estrelas não são puras a seus olhos;
6. quanto menos o homem, esse verme, e o filho do homem, esse vermezinho.

 
Capítulo 26

1. Jó tomou então a palavra nestes termos:
2. Como sabes sustentar bem o fraco, e socorrer um braço sem vigor!
3. Como sabes aconselhar o ignorante, e dar mostras de abundante sabedoria!
4. A quem diriges este discurso? Sob a inspiração de quem falas tu?
5. As sombras agitam-se embaixo (da terra), as águas e seus habitantes (estão temerosos).
6. A região dos mortos está aberta diante dele, os infernos não têm véu.
7. Estende o setentrião sobre o vácuo, suspende a terra acima do nada.
8. Prende as águas em suas nuvens, e as nuvens não se rasgam sob seu peso.
9. Vela a face da lua, estendendo sobre ela uma nuvem.
10. Traçou um círculo à superfície das águas, onde a luz confina com as trevas.
11. As colunas do céu estremecem e assustam-se com a sua ameaça.
12. Com seu poder levanta o mar, com sua sabedoria destruiu Raab.
13. Seu sopro varreu os céus, e sua mão feriu a serpente fugitiva.
14. Eis que tudo isso não é mais que o contorno de suas obras, e se apenas percebemos um fraco eco dessas obras, quem compreenderá o trovão de seu poder?

 
Capítulo 27

1. Jó continuou seu discurso nestes termos:
2. Pela vida de Deus que me recusa justiça, pela vida do Todo-poderoso que enche minha alma de amargura,
3. enquanto em mim houver alento, e o sopro de Deus passar por minhas narinas,
4. meus lábios nada pronunciarão de perverso e minha língua não proferirá mentira.
5. Longe de mim vos dar razão! Até o último suspiro defenderei minha inocência,
6. mantenho minha justiça, não a abandonarei; minha consciência não acusa nenhum de meus dias.
7. Que meu inimigo seja tratado como culpado, e meu adversário como um mentiroso!
8. Que pode esperar o ímpio de sua oração, quando eleva para Deus a sua alma?
9. Deus escutará seu clamor quando a angústia cair sobre ele?
10. Encontra ele suas delícias no Todo-poderoso, invoca ele Deus em todo o tempo?
11. Eu vos ensinarei o proceder de Deus, não vos ocultarei os desígnios do Todo-poderoso.
12. Mas todos vós já o sabeis; e por que proferis palavras vãs?
13. Eis a sorte que Deus reserva aos maus, e a parte reservada ao violento pelo Todo-poderoso.
14. Se seus filhos se multiplicam, é para a espada, e seus descendentes não terão o que comer.
15. Seus sobreviventes serão sepultados na morte, e suas viúvas não os chorarão.
16. Se amontoa prata como poeira, se ajunta vestimentas como argila,
17. ele amontoa, mas é o justo quem os veste, é um homem honesto quem herda a prata.
18. Constrói sua casa como a casa da aranha, como a choupana que o vigia constrói.
19. Deita-se rico: é pela última vez. Quando abre os olhos, já deixou de sê-lo.
20. O terror o invade como um dilúvio, um redemoinho o arrebata durante a noite.
21. O vento de leste o levanta e o faz desaparecer: varre-o violentamente de seu lugar.
22. Precipitam-se sobre ele sem poupá-lo, é arrastado numa fuga desvairada.
23. Sua ruína é aplaudida; de sua própria casa assobiarão sobre ele.

 
Capítulo 28

1. Há lugares de onde se tira a prata, lugares onde o ouro é apurado;
2. o ferro é extraído do solo, o cobre é extraído de uma pedra fundida.
3. Foi posto um fim às trevas, escavaram-se as últimas profundidades da rocha obscura e sombria.
4. Longe dos lugares habitados (o mineiro) abre galerias que são ignoradas pelos pés dos transeuntes; suspenso, vacila longe dos humanos.
5. A terra, que produz o pão, é sacudida em suas entranhas como se fosse pelo fogo.
6. As rochas encerram a safira, assim como o pó do ouro.
7. A águia não conhece a vereda, o olho do abutre não a viu;
8. os altivos animais não a pisaram, o leão não passou por ela.
9. O homem põe a mão no sílex, derruba as montanhas pela base;
10. fura galerias nos rochedos, o olho pode ver nelas todos os tesouros.
11. Explora as nascentes dos rios, e põe a descoberto o que estava escondido.
12. Mas a sabedoria, de onde sai ela? Onde está o jazigo da inteligência?
13. O homem ignora o caminho dela, ninguém a encontra na terra dos vivos.
14. O abismo diz: Ela não está em mim. Não está comigo, diz o mar.
15. Não pode ser adquirida com ouro maciço, não pode ser comprada a peso de prata.
16. Não pode ser posta em balança com o ouro de Ofir, com o ônix precioso ou a safira.
17. Não pode ser comparada nem ao ouro nem ao vidro, ninguém a troca por vaso de ouro fino.
18. Quanto ao coral e ao cristal, nem se fala, a sabedoria vale mais do que as pérolas.
19. Não pode ser igualada ao topázio da Etiópia, não pode ser equiparada ao mais puro ouro.
20. De onde vem, pois, a sabedoria? Onde está o jazigo da inteligência?
21. Um véu a oculta de todos os viventes, até das aves do céu ela se esconde.
22. Dizem o inferno e a morte: Apenas ouvimos falar dela.
23. Deus conhece o caminho para encontrá-la, é ele quem sabe o seu lugar,
24. porque ele vê até os confins da terra, e enxerga tudo o que há debaixo do céu.
25. Quando ele se ocupava em pesar os ventos, e em regular a medida das águas,
26. quando fixava as leis da chuva, e traçava uma rota aos relâmpagos,
27. então a viu e a descreveu, penetrou-a e escrutou-a.
28. Depois disse ao homem: O temor do Senhor, eis a sabedoria; fugir do mal, eis a inteligência.

 
Capítulo 29

1. Jó continuou seu discurso nestes termos:
2. Quem me tornará tal como antes, nos dias em que Deus me protegia,
3. quando a sua lâmpada luzia sobre a minha cabeça, e a sua luz me guiava nas trevas?
4. Tal como eu era nos dias de meu outono, quando Deus velava como um amigo sobre minha tenda,
5. quando o Todo-poderoso estava ainda comigo, e meus filhos em volta de mim;
6. quando os meus pés se banhavam no creme, e o rochedo em mim derramava ondas de óleo;
7. quando eu saía para ir à porta da cidade, e me assentava na praça pública?
8. Viam-me os jovens e se escondiam, os velhos levantavam-se e ficavam de pé;
9. os chefes interrompiam suas conversas, e punham a mão sobre a boca;
10. calava-se a voz dos príncipes, a língua colava-se-lhes no céu da boca.
11. Quem me ouvia felicitava-me, quem me via dava testemunho de mim.
12. Livrava o pobre que pedia socorro, e o órfão que não tinha apoio.
13. A bênção do que estava a perecer vinha sobre mim, e eu dava alegria ao coração da viúva.
14. Revestia-me de justiça, e a eqüidade era para mim como uma roupa e um turbante.
15. Era os olhos do cego e os pés daquele que manca;
16. era um pai para os pobres, examinava a fundo a causa dos desconhecidos.
17. Quebrava o queixo do perverso, e arrancava-lhe a presa de entre os dentes.
18. Eu dizia: Morrerei em meu ninho, meus dias serão tão numerosos quanto os da fênix.
19. Minha raiz atinge as águas, o orvalho ficará durante a noite sobre meus ramos.
20. Minha glória será sempre jovem, e meu arco sempre forte em minha mão.
21. Escutavam-me, esperavam, recolhiam em silêncio meu conselho;
22. quando acabava de falar, não acrescentavam nada, minhas palavras eram recebidas como orvalho.
23. Esperavam-me como a chuva e abriam a boca como se fosse para as águas da primavera.
24. Sorria para aqueles que perdiam coragem; ante o meu ar benevolente, deixavam de estar abatidos.
25. Quando eu ia ter com eles, tinha o primeiro lugar, era importante como um rei no meio de suas tropas, como o consolador dos aflitos.

 
Capítulo 30

1. Agora zombam de mim os mais jovens do que eu, aqueles cujos pais eu desdenharia de colocar com os cães de meu rebanho.
2. Que faria eu com o vigor de seus braços? Não atingirão a idade madura.
3. Reduzidos a nada pela miséria e a fome, roem um solo árido e desolado.
4. Colhem ervas e cascas dos arbustos, por pão têm somente a raiz das giestas.
5. São postos para fora do povo, gritam com eles como se fossem ladrões,
6. moram em barrancos medonhos, em buracos de terra e de rochedos.
7. Ouvem-se seus gritos entre os arbustos, amontoam-se debaixo das urtigas,
8. filhos de infames e de gente sem nome que são expulsos da terra!
9. Agora sou o assunto de suas canções, o tema de seus escárnios;
10. afastam-se de mim com horror, não receiam cuspir-me no rosto.
11. Desamarraram a corda para humilhar-me, sacudiram de si todo o freio diante de mim.
12. À minha direita levanta-se a raça deles, tentam atrapalhar meus pés, abrem diante de mim o caminho da sua desgraça.
13. Cortam minha vereda para me perder, trabalham para minha ruína.
14. Penetram como por uma grande brecha, irrompem entre escombros.
15. O pavor me invade. Minha esperança é varrida como se fosse pelo vento, minha felicidade passa como uma nuvem.
16. Agora minha alma se dissolve, os dias de aflição me dominaram.
17. A noite traspassa meus ossos, consome-os; os males que me roem não dormem.
18. Com violência segura a minha veste, aperta-me como o colarinho de minha túnica.
19. Deus jogou-me no lodo, tenho o aspecto da poeira e da cinza.
20. Clamo a ti, e não me respondes; ponho-me diante de ti, e não olhas para mim.
21. Tornaste-te cruel para comigo, atacas-me com toda a força de tua mão.
22. Arrebatas-me, fazes-me cavalgar o tufão, aniquilas-me na tempestade.
23. Eu bem sei, levas-me à morte, ao lugar onde se encontram todos os viventes.
24. Mas poderá aquele que cai não estender a mão, poderá não pedir socorro aquele que perece?
25. Não chorei com os oprimidos? Não teve minha alma piedade dos pobres?
26. Esperava a felicidade e veio a desgraça, esperava a luz e vieram as trevas.
27. Minhas entranhas abrasam-se sem nenhum descanso, assaltaram-me os dias de aflição.
28. Caminho no luto, sem sol; levanto-me numa multidão de gritos,
29. tornei-me irmão dos chacais e companheiro dos avestruzes.
30. Minha pele enegrece-se e cai, e meus ossos são consumidos pela febre.
31. Minha cítara só dá acordes lúgubres, e minha flauta sons queixosos.

 
Capítulo 31

1. Eu havia feito um pacto com meus olhos: não desejaria olhar nunca para uma virgem.
2. Que parte me daria Deus lá do alto, que sorte o Todo-poderoso me enviaria dos céus?
3. A infelicidade não está reservada ao injusto, e o infortúnio ao iníquo?
4. Não conhece Deus os meus caminhos, e não conta todos os meus passos?
5. Se caminhei com a mentira, se meu pé correu atrás da fraude,
6. que Deus me pese em justas balanças e reconhecerá minha integridade.
7. Se meus passos se desviaram do caminho, se meu coração seguiu meus olhos, se às minhas mãos se apegou qualquer mácula,
8. semeie eu e outro o coma, e que minhas plantações sejam desenraizadas!
9. Se meu coração foi seduzido por uma mulher, se fiquei à espreita à porta de meu vizinho,
10. que minha mulher gire a mó para outro e que estranhos a possuam!
11. Pois isso teria sido um crime, um delito dependente da justiça,
12. um fogo que devoraria até o abismo, e que teria arruinado todos os meus bens.
13. Nunca violei o direito de meus escravos, ou de minha serva, em suas discussões comigo.
14. Que farei eu quando Deus se levantar? Quando me interrogar, que lhe responderei?
15. Aquele que me criou no ventre, não o criou também a ele? Um mesmo criador não nos formou no seio da nossa mãe?
16. Não recusei aos pobres aquilo que desejavam, não fiz desfalecer os olhos da viúva,
17. não comi sozinho meu pedaço de pão, sem que o órfão tivesse a sua parte;
18. desde minha infância cuidei deste como um pai, desde o ventre de minha mãe fui o guia da viúva.
19. Se vi perecer um homem por falta de roupas, e o pobre que não tinha com que cobrir-se,
20. sem que seus rins me tenham abençoado, aquecido como estava com a lã de minhas ovelhas;
21. se levantei a mão contra o órfão, quando me via apoiado pelos juízes,
22. que meu ombro caia de minhas costas, que meu braço seja arrancado de seu cotovelo!
23. Pois o temor de Deus me invadiu, e diante de sua majestade não posso subsistir.
24. Nunca pus no ouro minha segurança, nem jamais disse ao ouro puro: És minha esperança.
25. Nunca me rejubilei por ser grande a minha riqueza, nem pelo fato de minha mão ter ajuntado muito.
26. Quando eu via o sol brilhar, e a lua levantar-se em seu esplendor,
27. jamais meu coração deixou-se seduzir em segredo, e minha mão não foi levada à boca para um beijo.
28. Isto seria um crime digno de castigo, pois eu teria renegado o Deus do alto.
29. Nunca me alegrei com a ruína de meu inimigo, e nem exultei quando a infelicidade o feriu.
30. Não permiti que minha língua pecasse, reclamando sua morte por uma imprecação.
31. Jamais as pessoas de minha tenda me disseram: Há alguém que não saiu satisfeito.
32. O estrangeiro não passava a noite fora, eu abria a minha porta ao viajante.
33. Nunca dissimulei minha culpa aos homens, escondendo em meu peito minha iniqüidade,
34. como se temesse a multidão e receasse o desprezo das famílias, a ponto de me manter quieto sem pôr o pé fora da porta.
35. Oh, se eu tivesse alguém para me ouvir! Eis a minha assinatura: que o Todo-poderoso me responda! Que o meu adversário escreva também um memorial.
36. Será que eu não o poria sobre meus ombros, e não cingiria minha fronte com ele como de uma coroa?
37. Dar-lhe-ia conta de todos os meus passos, e me apresentaria diante dele altivo como um príncipe.
38. Se minha terra clamou contra mim, e seus sulcos derramaram lágrimas,
39. se comi seus frutos sem pagar, se afligi a alma de seu possuidor,
40. que em vez de trigo produza espinhos, e joio em vez de cevada! Aqui terminam os discursos de Jó.

 
Capítulo 32

1. Como Jó persistisse em considerar-se como um justo, estes três homens cessaram de lhe responder.
2. Então se inflamou a cólera de Eliú, filho de Baraquel, de Buz, da família de Rão; sua cólera inflamou-se contra Jó, por este pretender justificar-se perante Deus.
3. Inflamou-se também contra seus três amigos, por não terem achado resposta conveniente, dando assim culpa a Deus.
4. Como fossem mais velhos do que ele, Eliú tinha se abstido de responder a Jó.
5. Mas, quando viu que não tinham mais nada para responder, encolerizou-se.
6. Então Eliú, filho de Baraquel, de Buz, tomou a palavra nestes termos: Sou jovem em anos, e vós sois velhos; é por isso que minha timidez me impediu de manifestar-vos o meu saber.
7. Dizia comigo: A idade vai falar; os muitos anos farão conhecer a sabedoria,
8. mas é o Espírito de Deus no homem, e um sopro do Todo-poderoso que torna inteligente.
9. Não são os mais velhos que são sábios, nem os anciãos que discernem o que é justo;
10. é por isso que digo: Escutai-me, vou mostrar-vos o que sei.
11. Esperei enquanto faláveis, prestei atenção em vossos raciocínios. Enquanto discutíeis,
12. segui-vos atentamente. Mas ninguém refutou Jó, ninguém respondeu aos seus argumentos.
13. Não digais: Encontramos a sabedoria; é Deus e não um homem quem nos instrui.
14. Não foi a mim que dirigiu seus discursos, mas encontrarei outras respostas diferentes das vossas.
15. Ei-los calados, já não dizem mais nada; faltam-lhes as palavras.
16. Esperei que se calassem, que parassem e cessassem de responder.
17. É a minha vez de responder: vou também mostrar o que sei.
18. Pois estou cheio de palavras, o espírito que está em meu peito me oprime.
19. Meu peito é como o vinho arrolhado, como um barril pronto para estourar.
20. Vou falar, isto me aliviará, abrirei meus lábios para responder.
21. Não farei acepção de ninguém, não adularei este ou aquele.
22. Pois não sei bajular; do contrário, meu Criador logo me levaria.

 
Capítulo 33

1. E agora, Jó, escuta minhas palavras, dá ouvidos a todos os meus discursos.
2. Eis que abro a boca, minha língua, sob o céu da boca, vai falar.
3. Minhas palavras brotam de um coração reto, meus lábios falarão francamente.
4. O Espírito de Deus me criou, e o sopro do Todo-poderoso me deu a vida.
5. Se puderes, responde-me; toma posição, fica firme diante de mim.
6. Em face de Deus sou teu igual: como tu mesmo, fui formado de barro.
7. Assim meu temor não te assustará e o peso de minhas palavras não te acabrunhará.
8. Ora, disseste aos meus ouvidos, e ouvi estas palavras:
9. Sou puro, sem pecado; sou limpo, não há culpa em mim.
10. É ele que inventa pretextos contra mim, considera-me seu inimigo.
11. Pôs meus pés no cepo, espiou todos os meus passos.
12. Responderei que nisto foste injusto, pois Deus é maior do que o homem.
13. Por que o acusas de não dar nenhuma resposta a teus discursos?
14. Pois Deus fala de uma maneira e de outra e não prestas atenção.
15. Por meio dos sonhos, das visões noturnas, quando um sono profundo pesa sobre os humanos, enquanto o homem está adormecido em seu leito,
16. então abre o ouvido do homem e o assusta com suas aparições,
17. a fim de desviá-lo do pecado e de preservá-lo do orgulho,
18. para salvar-lhe a alma do fosso, e sua vida, da seta mortífera.
19. Pela dor também é instruído o homem em seu leito, quando todos os seus membros são agitados,
20. quando recebe o alimento com desgosto, e já não pode suportar as iguarias mais deliciosas;
21. sua carne some aos olhares, seus membros emagrecidos se desvanecem;
22. sua alma aproxima-se da sepultura, e sua vida, daqueles que estão mortos.
23. Se perto dele se encontrar um anjo, um intercessor entre mil, para ensinar-lhe o que deve fazer,
24. ter piedade dele e dizer: Poupai-o de descer à sepultura, recebi o resgate de sua vida;
25. sua carne retomará o vigor da mocidade, retornará aos dias de sua adolescência.
26. Ele reza, e Deus lhe é propício, contempla-lhe a face com alegria. Anuncia (Deus) ao homem sua justiça;
27. canta diante dos homens, dizendo: Pequei, violei o direito, e Deus não me tratou conforme meus erros;
28. poupou minha alma de descer à sepultura, e minha alma bem viva goza a luz.
29. Eis o que Deus faz duas, três vezes para o homem,
30. a fim de tirar-lhe a alma da sepultura, para iluminá-la com a luz dos vivos.
31. Presta atenção, Jó, escuta-me; cala a boca para que eu fale.
32. Se tens alguma coisa para dizer, responde-me; fala, eu gostaria de te dar razão.
33. Se não, escuta-me, cala-te, e eu te ensinarei a sabedoria.

 
Capítulo 34

1. Eliú retomou a palavra nestes termos:
2. Sábios, ouvi meu discurso; eruditos, prestai atenção,
3. pois o ouvido discerne o valor das palavras, como o paladar aprecia as iguarias.
4. Procuremos discernir o que é justo, e conhecer entre nós o que é bom.
5. Jó disse: Eu sou inocente; é Deus que recusa fazer-me justiça.
6. A despeito de meu direito, passo por mentiroso, minha ferida é incurável, sem que eu tenha pecado.
7. Onde existe um homem como Jó, para beber a blasfêmia como quem bebe água,
8. para andar de par com os ímpios e caminhar com os perversos?
9. Pois ele disse: O homem não ganha nada em ser agradável a Deus.
10. Ouvi-me, pois, homens sensatos: longe de Deus a injustiça! Longe do Todo-poderoso a iniqüidade!
11. Ele trata o homem conforme seus atos, dá a cada um o que merece.
12. É claro! Deus não é injusto, e o Todo-poderoso não falseia o direito.
13. Quem lhe confiou a administração da terra? Quem lhe entregou o universo?
14. Se lhe retomasse o sopro, se lhe retirasse o alento,
15. toda carne expiraria no mesmo instante, o homem voltaria ao pó.
16. Se tens inteligência, escuta isto, dá ouvidos ao som de minhas palavras:
17. um inimigo do direito poderia governar? Pode o Justo, o Poderoso cometer a iniqüidade?
18. Ele que disse a um rei: Malvado! A príncipes: Celerados!
19. Ele não tem preferência pelos grandes, e não tem mais consideração pelos ricos do que pelos pobres, porque são todos obras de suas mãos.
20. Subitamente, perecem no meio da noite; os povos vacilam e passam, o poderoso desaparece, sem o socorro de mão alguma.
21. Pois Deus olha para o proceder do homem, vê todos os seus passos.
22. Não há obscuridade, nem trevas onde o iníquo possa esconder-se.
23. Não precisa olhar duas vezes para um homem para citá-lo em justiça consigo.
24. Abate os poderosos sem inquérito, e põe outros em lugar deles,
25. pois conhece suas ações; derruba-os à noite, são esmagados.
26. Fere-os como ímpios, num lugar onde são vistos,
27. porque se afastaram dele e não quiseram conhecer os seus caminhos,
28. fazendo chegar até ele o clamor do pobre e tornando-o atento ao grito do infeliz.
29. Se ele dá a paz, quem o censurará? Se oculta sua face, quem poderá contemplá-lo?
30. Assim trata ele o povo e o indivíduo de maneira que o ímpio não venha a reinar, e já não seja uma armadilha para o povo.
31. Tinha dito a Deus: Fui seduzido, não mais pecarei,
32. ensina-me o que ignoro; se fiz o mal, não recomeçarei mais.
33. Julgas, então, que ele deve punir, já que rejeitaste suas ordens? És tu quem deves escolher, não eu; dize, pois, o que sabes.
34. As pessoas sensatas me responderão, como qualquer homem sábio que me tiver ouvido:
35. Jó não falou conforme a razão, falta-lhe bom senso às palavras.
36. Pois bem! Que Jó seja provado até o fim, já que suas respostas são as de um ímpio.
37. Leva ao máximo o seu pecado (bate as mãos no meio de nós), multiplicando seus discursos contra Deus.

 
Capítulo 35

1. Eliú retomou ainda a palavra nestes termos:
2. Imaginas ter razão em pretender justificar-te contra Deus?
3. Quando dizes: Para que me serve isto, qual é minha vantagem em não pecar?
4. Pois vou responder-te, a ti e a teus amigos.
5. Considera os céus e olha: vê como são mais altas do que tu as nuvens!
6. Se pecas, que danos lhe causas? Se multiplicas tuas faltas, que mal lhe fazes?
7. Se és justo, que vantagem lhe dás, ou que recebe ele de tua mão?
8. Tua maldade só prejudica o homem, teu semelhante; tua justiça só diz respeito a um humano.
9. Sob o peso da opressão, geme-se, clama-se sob a mão dos poderosos.
10. Mas ninguém diz: Onde está Deus, meu criador, que inspira cantos de louvor em plena noite,
11. que nos instrui mais do que os animais selvagens e nos torna mais sábios do que as aves do céu?
12. Clamam, mas não são ouvidos, por causa do orgulho dos maus.
13. Deus não ouve as palavras frívolas, o Todo-poderoso não lhes presta atenção.
14. Quando dizes que ele não se ocupa de ti, que tua causa está diante dele, que esperas sua decisão,
15. que sua cólera não castiga e que ele ignora o pecado,
16. Jó abre a boca para palavras ociosas e derrama-se em discursos impertinentes.

 
Capítulo 36

1. Depois Eliú prosseguiu nestes termos:
2. Espera um pouco e te instruirei, tenho ainda palavras em defesa de Deus;
3. irei buscar longe a minha ciência, e justificarei meu Criador.
4. Minhas palavras não são certamente mentirosas, estás tratando com um homem de ciência sólida.
5. Deus é poderoso, mas não é arrogante, é poderoso por sua ciência:
6. não deixa viver o mau, faz justiça aos aflitos,
7. não afasta os olhos dos justos; e os faz assentar com os reis no trono, numa glória eterna.
8. Se vierem a cair presos, ou se forem atados com os laços da infelicidade,
9. ele lhes faz reconhecer as suas obras, e as faltas que cometeram por orgulho;
10. e abre-lhes os ouvidos para corrigi-los, e diz-lhes que renunciem à iniqüidade.
11. Se escutam e obedecem, terminam seus dias na felicidade, e seus anos na delícia;
12. se não, morrem de um golpe, expiram por falta de sabedoria.
13. Os corações ímpios são entregues à cólera; não clamam a Deus quando ele os aprisiona,
14. morrem em plena mocidade, a vida deles passa como a dos efeminados.
15. Mas Deus salvará o pobre pela sua miséria, e o instrui pelo sofrimento.
16. A ti também retirará das fauces da angústia, numa larga liberdade, e no repouso de uma mesa bem guarnecida.
17. E tu te comportas como um malvado, com o risco de incorrer em sentença e penalidade.
18. Toma cuidado para que a cólera não te inflija um castigo, e que o tamanho do resgate não te perca.
19. Levará ele em conta teu grito na aflição, e todos os esforços do vigor?
20. Não suspires pela noite, para que os povos voltem para seus lugares.
21. Guarda-te de declinar para a iniqüidade, e de preferir a injustiça ao sofrimento.
22. Vê, Deus é sublime em seu poder. Que senhor lhe é comparável?
23. Quem lhe fixou seu caminho? Quem pode dizer-lhe: Fizeste mal?
24. Antes pensa em glorificar sua obra, que os humanos celebram em seus cantos.
25. Todos os homens a contemplam; o mortal a considera de longe.
26. Deus é grande demais para que o possamos conhecer; o número de seus anos é incalculável.
27. Atrai as gotinhas de água para transformá-las em chuva no nevoeiro,
28. as nuvens as espalham, e as destilam sobre a multidão dos homens.
29. Quem pode compreender como se estendem as nuvens, e o estrépito de sua tenda?
30. Espalha em volta dele a sua luz, e cobre os cimos das montanhas.
31. É por esse meio que nutre os povos, e fornece-lhes abundância de alimentos.
32. Nas suas mãos estende o raio, fixa-lhe o alvo a atingir;
33. seu estrondo o anuncia, o rebanho também anuncia aquele que se aproxima.

 
Capítulo 37

1. Por isto se espantou o meu coração, e pulou fora de seu lugar.
2. Escutai, escutai o brado de sua voz, o estrondo que lhe sai da boca!
3. Enche dele toda a extensão dos céus, e seus relâmpagos vão atingir os confins da terra.
4. Logo depois ruge uma voz, troveja com sua voz majestosa. Não retém mais seus raios quando se faz ouvir.
5. Deus troveja com uma voz maravilhosa, faz prodígios que nos são incompreensíveis.
6. Diz à neve: Cai sobre a terra, às pancadas de chuva: Sede fortes.
7. Ele põe selos sobre as mãos dos homens, a fim de que todos os mortais reconheçam seu criador.
8. A fera também entra em seu covil, e encolhe-se em sua toca.
9. O furacão sai da câmara do sul, e do norte chega o frio.
10. Ao sopro de Deus forma-se a neve, e a superfície das águas se endurece.
11. Carrega as nuvens de vapor, as nuvens lançam por toda parte seus relâmpagos
12. que vão em todos os sentidos sob sua direção, para realizar tudo quanto ele ordena na face da terra.
13. Ora é o castigo que eles trazem, ora seus benefícios.
14. Escuta isto, Jó, pára e considera as maravilhas de Deus.
15. Sabes como ele as opera, e faz brilhar o relâmpago de sua nuvem?
16. Sabes a lei do equilíbrio das nuvens, e o milagre daquele cuja ciência é infinita?
17. Por que são quentes as tuas vestes, quando repousa a terra ao sopro do meio-dia?
18. Saberás, como ele, estender as nuvens, e torná-las sólidas como um espelho de metal fundido?
19. Dá-me a conhecer o que lhe diremos. Mergulhados em nossas trevas, só sabemos objetar.
20. Quem lhe repetirá o que digo? Acaso pedirá um homem a sua própria perdição?
21. Agora já não se vê a luz, o sol brilha através das nuvens; passe um golpe de vento, e ele as varrerá;
22. a luz vem do norte. Deus está envolto numa majestade temível;
23. não podemos atingir o Todo-poderoso: eminente em força, em eqüidade, em justiça, não tem a dar contas a ninguém.
24. Que os homens, pois, o reverenciem! Ele não olha aqueles que se julgam sábios.

 
Capítulo 38

1. Então, do seio da tempestade, o Senhor deu a Jó esta resposta:
2. Quem é aquele que obscurece assim a Providência com discursos sem inteligência?
3. Cinge os teus rins como um homem; vou interrogar-te e tu me responderás.
4. Onde estavas quando lancei os fundamentos da terra? Fala, se estiveres informado disso.
5. Quem lhe tomou as medidas, já que o sabes? Quem sobre ela estendeu o cordel?
6. Sobre que repousam suas bases? Quem colocou nela a pedra de ângulo,
7. sob os alegres concertos dos astros da manhã, sob as aclamações de todos os filhos de Deus?
8. Quem fechou com portas o mar, quando brotou do seio maternal,
9. quando lhe dei as nuvens por vestimenta, e o enfaixava com névoas tenebrosas;
10. quando lhe tracei limites, e lhe pus portas e ferrolhos,
11. dizendo: Chegarás até aqui, não irás mais longe; aqui se deterá o orgulho de tuas ondas?
12. Algum dia na vida deste ordens à manhã? Indicaste à aurora o seu lugar,
13. para que ela alcançasse as extremidades da terra, e dela sacudisse os maus,
14. para que ela tome forma como a argila de sinete e tome cor como um vestido,
15. para que seja recusada aos maus a sua luz, e sejam quebrados seus braços já erguidos?
16. Foste até as fontes do mar? Passaste até o fundo do abismo?
17. Apareceram-te, porventura, as portas da morte? Viste, por acaso, as portas da tenebrosa morada?
18. Abraçaste com o olhar a extensão da terra? Fala, se sabes tudo isso!
19. Qual é o caminho da morada luminosa? Onde é a residência das trevas?
20. Poderias alcançá-la em seu domínio, e reconhecer as veredas de sua morada?
21. Deverias sabê-lo, pois já tinhas nascido: são tão numerosos os teus dias!
22. Penetraste nos depósitos da neve? Visitaste os armazéns dos granizos,
23. que reservo para os tempos de tormento, para os dias de luta e de batalha?
24. Por que caminho se espalha o nevoeiro, e o vento do oriente se expande pela terra?
25. Quem abre um canal para os aguaceiros, e uma rota para o relâmpago,
26. para fazer chover sobre uma terra desabitada, sobre um deserto sem seres humanos,
27. para regar regiões vastas e desoladas, para nelas fazer germinar a erva verdejante?
28. Terá a chuva um pai? Quem gera as gotas do orvalho?
29. De que seio sai o gelo, quem engendra a geada do céu,
30. quando endurecem as águas como a pedra, e se torna sólida a superfície do abismo?
31. És tu que atas os laços das Plêiades, ou que desatas as correntes do Órion?
32. És tu que fazes sair a seu tempo as constelações, e conduzes a grande Ursa com seus filhinhos?
33. Conheces as leis do céu, regulas sua influência sobre a terra?
34. Levantarás a tua voz até as nuvens, e o dilúvio te obedecerá?
35. Tua ordem fará os relâmpagos surgirem, e dir-te-ão eles: Eis-nos aqui?
36. Quem pôs a sabedoria nas nuvens, e a inteligência no meteoro?
37. Quem pode enumerar as nuvens, e inclinar as urnas do céu,
38. para que a poeira se mova em massa compacta, e os seus torrões se aglomerem?
39. És tu que caças a presa para a leoa, e que satisfazes a fome dos leõezinhos
40. quando estão deitados em seus covis, ou quando se emboscam nas covas?
41. Quem prepara ao corvo o seu sustento, quando seus filhinhos gritam para Deus, quando andam de um lado para outro sem comida?

 
Capítulo 39

1. Conheces o tempo em que as cabras monteses dão à luz nos rochedos? Observaste o parto das corças?
2. Contaste os meses de sua gravidez, e sabes o tempo de seu parto?
3. Elas se abaixam e dão cria, e se livram de suas dores.
4. Seus filhos tornam-se fortes e crescem nos campos, apartam-se delas e não voltam mais.
5. Quem pôs o asno em liberdade, quem rompeu os laços do burro selvagem?
6. Dei-lhe o deserto por morada, a planície salgada como lugar de habitação;
7. ele ri-se do tumulto da cidade, não escuta os gritos do cocheiro,
8. explora as montanhas, sua pastagem, e nela anda buscando tudo o que está verde.
9. Quererá servir-te o boi selvagem, ou quererá passar a noite em teu estábulo?
10. Porás uma corda em seu pescoço, ou fenderá ele atrás de ti os teus sulcos?
11. Fiarás nele porque sua força é grande, e lhe deixarás o cuidado de teu trabalho?
12. Contarás com ele para que te traga para a casa o que semeaste, e que te encha a tua eira?
13. A asa da avestruz bate alegremente, não tem asas nem penas bondosas…
14. Ela abandona os seus ovos na terra, e os deixa aquecer no solo,
15. não pensando que um pé poderá pisá-los e que animais selvagens poderão quebrá-los.
16. É cruel com seus filhinhos, como se não fossem seus; não se incomoda de ter sofrido em vão,
17. pois Deus lhe negou a sabedoria e não lhe abriu a inteligência.
18. Mas quando alça o vôo, ri-se do cavalo e de seu cavaleiro.
19. És tu que dás o vigor ao cavalo, e foste tu que enfeitaste seu pescoço com uma crina ondulante?
20. Que o fazes saltar como um gafanhoto, relinchando terrivelmente?
21. Orgulhoso de sua força, escava a terra com a pata, atira-se à frente das armas.
22. Ri-se do medo, nada o assusta, não recua diante da espada.
23. Sobre ele ressoa a aljava, o ferro brilhante da lança e o dardo;
24. tremendo de impaciência, devora o espaço, o som da trombeta não o deixa no lugar.
25. Ao sinal do clarim, diz: Vamos! De longe fareja a batalha, a voz troante dos chefes e o alarido dos guerreiros.
26. É graças à tua sabedoria que o falcão alça o vôo, e desdobra as suas asas em direção ao meio-dia?
27. É por tua ordem que a águia levanta o vôo, e faz seu ninho nas alturas?
28. Ela habita o rochedo, e nele passa a noite, sobre a ponta rochosa e o cimo escarpado.
29. De lá espia sua presa, seus olhos penetram as distâncias.
30. Seus filhinhos se alimentam de sangue; onde quer que haja cadáveres, ali está ela.
31. O Senhor, dirigindo-se a Jó, lhe disse:
32. Aquele que disputa com o Todo-poderoso apresente suas críticas! Aquele que discute com Deus responda!
33. Jó respondeu ao Senhor nestes termos:
34. Leviano como sou, que posso responder-te? Ponho minha mão na boca;
35. falei uma vez, não repetirei, duas vezes… nada acrescentarei.

 
Capítulo 40

1. Então, do seio da tempestade, o Senhor deu a Jó esta resposta:
2. Cinge os teus rins como um homem; vou interrogar-te, tu me responderás.
3. Queres reduzir a nada a minha justiça, e condenar-me antes de ter razão?
4. Tens um braço semelhante ao de Deus, e uma voz troante como a dele?
5. Orna-te então de grandeza e majestade, reveste-te de esplendor e glória!
6. Espalha as ondas de tua cólera. Com um olhar, abaixa todo o orgulho;
7. com um olhar, humilha o soberbo, esmaga os maus no mesmo lugar em que eles estão.
8. Mete-os todos juntos debaixo da terra, amarra-lhes os rostos num lugar escondido.
9. Então eu também te louvarei por triunfares pela força de tua mão.
10. Vê Beemot, que criei contigo, nutre-se de erva como o boi.
11. Sua força reside nos rins, e seu vigor nos músculos do ventre.
12. Levanta sua cauda como (um ramo) de cedro, os nervos de suas coxas são entrelaçados.
13. Seus ossos são tubos de bronze, sua estrutura é feita de barras de ferro.
14. É obra-prima de Deus, foi criado como o soberano de seus companheiros.
15. As montanhas fornecem-lhe a pastagem, os animais dos campos divertem-se em volta dele.
16. Deita-se sob os lótus, no segredo dos caniços e dos brejos;
17. os lótus cobrem-no com sua sombra, os salgueiros da margem o cercam.
18. Quando o rio transborda, ele não se assusta; mesmo que o Jordão levantasse até a sua boca, ele ficaria tranqüilo.
19. Quem o seguraria pela frente, e lhe furaria as ventas para nelas passar cordas?
20. Poderás tu fisgar Leviatã com um anzol, e amarrar-lhe a língua com uma corda?
21. Serás capaz de passar um junco em suas ventas, ou de furar-lhe a mandíbula com um gancho?
22. Ele te fará muitos rogos, e te dirigirá palavras ternas?
23. Concluirá ele um pacto contigo, a fim de que faças dele sempre teu escravo?
24. Brincarás com ele como com um pássaro, ou atá-lo-ás para divertir teus filhos?
25. Será ele vendido por uma sociedade de pescadores, e dividido entre os negociantes?
26. Crivar-lhe-ás a pele de dardos, fincar-lhe-ás um arpão na cabeça?
27. Tenta pôr a mão nele, sempre te lembrarás disso, e não recomeçarás.
28. Tua esperança será lograda, bastaria seu aspecto para te arrasar.

 
Capítulo 41

1. Ninguém é bastante ousado para provocá-lo; quem lhe resistiria face a face?
2. Quem pôde afrontá-lo e sair com vida, debaixo de toda a extensão do céu?
3. Não quero calar (a glória) de seus membros, direi seu vigor incomparável.
4. Quem levantou a dianteira de sua couraça? Quem penetrou na dupla linha de sua dentadura?
5. Quem lhe abriu os dois batentes da goela, em que seus dentes fazem reinar o terror?
6. Sua costa é um aglomerado de escudos, cujas juntas são estreitamente ligadas;
7. uma toca a outra, o ar não passa por entre elas;
8. uma adere tão bem à outra, que são encaixadas sem se poderem desunir.
9. Seu espirro faz jorrar a luz, seus olhos são como as pálpebras da aurora.
10. De sua goela saem chamas, escapam centelhas ardentes.
11. De suas ventas sai uma fumaça, como de uma marmita que ferve entre chamas.
12. Seu hálito queima como brasa, a chama jorra de sua goela.
13. Em seu pescoço reside a força, diante dele salta o espanto.
14. As barbelas de sua carne são aderentes, esticadas sobre ele, inabaláveis.
15. Duro como a pedra é seu coração, sólido como a mó fixa de um moinho.
16. Quando se levanta, tremem as ondas, as vagas do mar se afastam.
17. Se uma espada o toca, ela não resiste, nem a lança, nem a azagaia, nem o dardo.
18. O ferro para ele é palha; o bronze, pau podre.
19. A flecha não o faz fugir, as pedras da funda são palhinhas para ele.
20. O martelo lhe parece um fiapo de palha; ri-se do assobio da azagaia.
21. Seu ventre é coberto de cacos de vidro pontudos, é uma grade de ferro que se estende sobre a lama.
22. Faz ferver o abismo como uma panela, faz do mar um queimador de perfumes.
23. Deixa atrás de si um sulco brilhante, como se o abismo tivesse cabelos brancos.
24. Não há nada igual a ele na terra, pois foi feito para não ter medo de nada;
25. afronta tudo o que é elevado, é o rei dos mais orgulhosos animais.

 
Capítulo 42

1. Jó respondeu ao Senhor nestes termos:
2. Sei que podes tudo, que nada te é muito difícil.
3. Quem é que obscurece assim a Providência com discursos ininteligíveis? É por isso que falei, sem compreendê-las, maravilhas que me superam e que não conheço.
4. Escuta-me, deixa-me falar: vou interrogar-te, tu me responderás.
5. Meus ouvidos tinham escutado falar de ti, mas agora meus olhos te viram.
6. É por isso que me retrato, e arrependo-me no pó e na cinza.
7. Depois que o Senhor acabou de dirigir essas palavras a Jó, disse a Elifaz de Temã: Estou irritado contra ti e contra teus amigos, porque não falastes corretamente de mim, como Jó, meu servo.
8. Procurai, pois, sete touros e sete carneiros, e vinde ter com meu servo Jó. Oferecei por vós este holocausto, e meu servo Jó intercederá por vós. É em consideração a ele que não vos infligirei ignomínias por não terdes falado bem de mim, como Jó, meu servo.
9. Elifaz de Temã, Baldad de Sué e Sofar de Naamã foram-se então para fazer como o Senhor lhes tinha ordenado, e o Senhor tomou em consideração as orações de Jó.
10. Enquanto Jó rezava por seus amigos, o Senhor o restabeleceu de novo em seu primeiro estado e lhe tornou em dobro tudo quanto tinha possuído.
11. Todos os seus irmãos, todas as suas irmãs, todos os seus amigos de antigamente vieram visitá-lo e sentaram-se com ele à mesa em sua casa. Tiveram muito dó dele e deram-lhe condolências a respeito de todas as infelicidades que o Senhor lhe enviara; e cada um deles ofereceu-lhe uma peça de prata e um anel de ouro.
12. O Senhor abençoou os últimos tempos de Jó mais do que os primeiros, e teve Jó quatorze mil ovelhas, seis mil camelos, mil juntas de bois e mil jumentas.
13. Teve também sete filhos e três filhas:
14. chamou a primeira Jêmina, a segunda Quetsia e a terceira Queren-Hapuc.
15. Em toda a terra não poderiam ser encontradas mulheres mais belas do que as filhas de Jó. E seu pai lhes destinou uma parte da herança entre seus irmãos.
16. Depois disso, Jó viveu ainda cento e quarenta anos, e conheceu até a quarta geração dos filhos de seus filhos.
17. Depois, velho e cheio de dias, morreu.